REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790189149
RESUMO
Este trabalho se dedica à análise das Ritxòkò Inỹ, bonecas de cerâmicas produzidas pelo povo Karajá, compreendendo-as não apenas como objetos materiais, mas como expressões densas de memória, cosmologia, pedagogia e identidade cultural. A pesquisa parte do entendimento de que tais artefatos condensam modos próprios de conceber o corpo, o território, o parentesco e a transmissão de saberes, funcionando como suportes simbólicos de narrativas ancestrais e práticas sociais ainda vivas. Por meio de uma abordagem qualitativa, baseada em revisão bibliográfica crítica, foram examinados estudos antropológicos, históricos e artísticos que discutem a cerâmica Karajá, o grafismo, a educação indígena e os impactos do contato com a sociedade envolvente. Os resultados evidenciam que as Ritxòkò Inỹ operam como dispositivos de ensino, comunicação e resistência cultural, articulando tradição e transformação sem perder sua centralidade no universo simbólico Karajá. Conclui-se que a valorização dessas produções exige leituras sensíveis, capazes de reconhecer a autoria indígena e a complexidade de seus sistemas de conhecimento, contribuindo para o fortalecimento de perspectivas interculturais no campo acadêmico e educacional.
Palavras-chave: Ritxòkò Inỹ; povo Karajá; cultura indígena; cerâmica; saberes tradicionais.
ABSTRACT
This study focuses on the analysis of Ritxòkò Inỹ, ceramic dolls produced by the Karajá people, understanding them not merely as material objects but as dense expressions of memory, cosmology, pedagogy, and cultural identity. The research is grounded on the premise that these artifacts condense specific ways of conceiving the body, territory, kinship, and knowledge transmission, functioning as symbolic supports for ancestral narratives and enduring social practices. Through a qualitative approach based on critical bibliographic review, anthropological, historical, and artistic studies addressing Karajá ceramics, graphic patterns, Indigenous education, and the impacts of contact with broader society were examined. The findings reveal that Ritxòkò Inỹ act as teaching, communicative, and cultural resistance devices, articulating tradition and transformation while maintaining their central role within the Karajá symbolic universe. The study concludes that valuing these productions requires sensitive interpretations that recognize Indigenous authorship and the complexity of their knowledge systems, thereby contributing to the strengthening of intercultural perspectives in academic and educational contexts.
Keywords: Ritxòkò Inỹ; Karajá people; Indigenous culture; ceramics; traditional knowledge.
INTRODUÇÃO
A história dos povos indígenas brasileiros se apresenta como um mosaico ao mesmo tempo vasto e fragmentado, repleto de permanências silenciosas que convivem com rupturas profundas. Antes da chegada dos colonizadores europeus, o território que hoje chamamos de Brasil já era ocupado por uma multiplicidade de povos, cada qual com sua língua, cultura, cosmovisão e modos complexos de interação com o meio ambiente. Essas populações não apenas ocupavam fisicamente o espaço, mas o vivenciavam como um ente vivo, carregado de significados espirituais, sociais e coletivos, onde memórias e existências se entrelaçavam de maneira intricada. Compreender esse panorama histórico exige atenção aos contrastes entre a narrativa oficial da colonização e as experiências concretas desses povos, frequentemente invisibilizadas nos registros históricos, nas narrativas acadêmicas e até mesmo na memória coletiva da sociedade brasileira.
É nesse contexto que os Karajá emergem como um exemplo singular de resistência, adaptação e criatividade cultural. Tradicionalmente localizados às margens do Rio Araguaia, no atual estado do Tocantins, os Karajá desenvolveram uma relação intrínseca com o rio, que vai muito além da subsistência. Essa relação com o Araguaia é fundamental para compreender não apenas a organização social, mas também as expressões simbólicas que definem a identidade Karajá. Entre essas manifestações, as bonecas de cerâmica Ritxòkò Inỹ se destacam, não apenas como artefatos estéticos, mas como veículos centrais de conhecimento, memória e representação social.
O contato com colonizadores, iniciado no século XVII, trouxe rupturas dramáticas: deslocamentos forçados, conflitos armados e epidemias marcaram profundamente o modo de vida tradicional. No entanto, ao contrário de uma narrativa linear de subjugação, a história Karajá evidencia estratégias sofisticadas de resistência e adaptação. As Ritxòkò Inỹ, por exemplo, não são meros objetos decorativos; elas condensam saberes ancestrais, registram papéis sociais, ritos de passagem, cenas cotidianas e personagens míticos, funcionando simultaneamente como registro cultural e ferramenta pedagógica. Cada boneca, em suas cores, formas e proporções, carrega camadas de significado, sendo um elo entre gerações, um instrumento de educação e um símbolo da capacidade do povo Karajá de reinventar e afirmar sua cultura em meio a pressões externas.
Este trabalho propõe-se a analisar, de forma aprofundada, a relevância cultural das Ritxòkò Inỹ no contexto histórico e contemporâneo dos Karajá. Busca-se compreender não apenas a história do povo, mas também como essas bonecas funcionam como catalisadoras de identidade e memória, refletindo a tensão entre tradição e modernidade, continuidade e transformação. A pesquisa baseia-se em revisão bibliográfica, contemplando livros, artigos acadêmicos, materiais didáticos e publicações institucionais, incluindo informações da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), reconhecida por documentar e proteger a diversidade cultural indígena. A metodologia adotada possibilita a integração de perspectivas antropológicas, históricas e socioculturais, permitindo um olhar mais abrangente sobre a função simbólica e educacional das Ritxòkò Inỹ.
A escolha do tema justifica-se pela necessidade de valorizar a diversidade cultural brasileira e reconhecer o papel central dos povos indígenas na construção das narrativas nacionais. Apesar de sua importância, os Karajá ainda são frequentemente retratados de maneira estereotipada ou marginalizada, seja nos livros escolares, na mídia ou nas políticas públicas. Estudar suas bonecas Ritxòkò Inỹ é, portanto, uma oportunidade de resgatar saberes tradicionais e refletir sobre como arte, cultura e história se entrelaçam para sustentar identidades coletivas que resistem há séculos.
No contexto contemporâneo, a análise das Ritxòkò Inỹ também evidencia os desafios enfrentados pelos Karajá: a expansão do agronegócio, as mudanças ambientais, a pressão sobre territórios e recursos, e o contato intensificado com a sociedade não indígena. Os jovens Karajá transitam constantemente entre a tradição e a modernidade, buscando conciliar educação formal, tecnologia e preservação cultural. As bonecas, nesse sentido, permanecem como instrumentos vivos de educação cultural e resistência simbólica, afirmando que a cultura indígena não é estática nem confinada ao passado. Pelo contrário, ela se reinventa, resiste, persiste e se afirma, demonstrando sua relevância e vitalidade na sociedade brasileira contemporânea.
METODOLOGIA
A elaboração deste trabalho partiu do reconhecimento de que estudar a cultura Karajá — e, em especial, as bonecas Ritxòkò Inỹ — exige mais do que a simples aplicação de procedimentos técnicos de pesquisa. Trata-se de um objeto carregado de sentidos históricos, simbólicos e sociais, cuja compreensão demanda cuidado, escuta indireta e atenção às múltiplas camadas de significado que o atravessam. Diante disso, optou-se por uma metodologia de caráter qualitativo, orientada pela interpretação crítica e pela articulação entre diferentes produções acadêmicas, entendendo que os fenômenos culturais não se deixam capturar por números ou medições objetivas, mas se revelam na linguagem, na memória, na narrativa e na materialidade simbólica.
A pesquisa desenvolveu-se por meio de revisão bibliográfica, método que se mostrou adequado aos objetivos propostos, uma vez que permite o aprofundamento teórico e analítico a partir de estudos já consolidados sobre o povo Karajá. A escolha por esse tipo de abordagem também se justifica pelo respeito às comunidades indígenas, evitando intervenções diretas ou leituras superficiais de práticas culturais complexas. A revisão bibliográfica possibilitou, assim, o contato com interpretações produzidas por antropólogos, historiadores e pesquisadores que dedicaram anos de estudo à compreensão da cosmovisão, da organização social e das expressões culturais Karajá, especialmente no que se refere à cerâmica e às Ritxòkò Inỹ.
O processo de levantamento das fontes ocorreu de forma gradual e criteriosa, priorizando obras que dialogam diretamente com o tema central do trabalho. Foram consultados livros, artigos científicos, dissertações, teses e relatórios técnicos que abordam desde o contato histórico e as transformações sociais vivenciadas pelo povo Karajá até análises específicas sobre grafismo, cerâmica, educação indígena e políticas de preservação cultural. A diversidade das fontes foi fundamental para evitar uma visão homogênea ou cristalizada da cultura Karajá, permitindo observar continuidades, tensões e mudanças nas interpretações ao longo do tempo.
Durante a leitura do material selecionado, adotou-se uma postura analítica que buscou ir além da simples descrição dos conteúdos. Os textos foram examinados de forma comparativa, identificando convergências teóricas, divergências interpretativas e diferentes enfoques metodológicos. Esse movimento possibilitou compreender como as Ritxòkò Inỹ são pensadas ora como artefatos pedagógicos, ora como expressões estéticas, ora como registros simbólicos da organização social e da cosmovisão Karajá. A análise não se limitou à soma das informações, mas procurou construir relações entre elas, evidenciando como história, território, espiritualidade e práticas artesanais se articulam em um mesmo sistema cultural.
A metodologia adotada também esteve atenta ao contexto de produção dos trabalhos analisados. Considerou-se que toda produção acadêmica é atravessada por seu tempo, por seus debates e por suas escolhas teóricas. Assim, ao dialogar com estudos mais antigos e produções recentes, buscou-se compreender como as abordagens sobre os Karajá se transformaram, especialmente no que diz respeito à valorização dos saberes indígenas e ao reconhecimento de sua autonomia cultural. Essa atenção ao contexto permitiu uma leitura mais crítica das fontes, evitando tanto a idealização romântica quanto interpretações marcadas por visões externas e hierarquizantes.
Outro elemento central da metodologia foi a preocupação ética na abordagem do tema. Ao tratar de saberes indígenas, este trabalho buscou afastar-se de perspectivas etnocêntricas e classificatórias, reconhecendo o povo Karajá como sujeito ativo de sua própria história e produtor legítimo de conhecimento. Essa postura refletiu-se tanto na seleção das fontes quanto na forma de escrita, que procurou respeitar a complexidade cultural das Ritxòkò Inỹ, evitando reduzi-las a meros objetos artesanais ou curiosidades folclóricas. A metodologia, nesse sentido, não foi apenas um conjunto de procedimentos, mas também uma escolha política e epistemológica.
A organização do trabalho seguiu uma lógica metodológica que favorece a compreensão progressiva do objeto de estudo. Partiu-se de uma contextualização histórica e cultural mais ampla, avançando para discussões sobre cosmovisão, organização social e, posteriormente, para a análise específica das Ritxòkò Inỹ e de seus significados simbólicos e pedagógicos. Essa estrutura permitiu que cada capítulo dialogasse com o anterior, construindo um percurso analítico coerente e cumulativo. Os resultados e discussões foram elaborados a partir dessa base teórica, enquanto as considerações finais buscaram sintetizar os principais achados e refletir sobre suas implicações.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
História e Trajetória do Povo Karajá no Tocantins
A história do povo Karajá é, ao mesmo tempo, complexa e profundamente enraizada na geografia do Rio Araguaia, no atual estado do Tocantins, e nos territórios adjacentes, que foram ocupados e transformados por este grupo indígena ao longo de séculos. Antes do contato com os colonizadores europeus, os Karajá já haviam desenvolvido uma organização social estruturada, pautada na relação com o ambiente natural, na construção de redes sociais amplas e na transmissão de saberes por meio da oralidade e da prática cotidiana. Suas aldeias eram estabelecidas de forma estratégica, considerando a abundância de recursos naturais, os períodos de cheia e seca do rio e os ciclos de caça, pesca e coleta. Cada espaço ocupado carregava múltiplos significados: era residência, território sagrado e fonte de subsistência ao mesmo tempo, revelando uma compreensão sofisticada de ecossistemas e das interdependências entre homem e natureza (LIMA FILHO, 2012).
O contato com os europeus, a partir do século XVII, transformou radicalmente essa realidade. Expedições exploratórias, missões religiosas e políticas de ocupação impuseram deslocamentos, conflitos armados e epidemias que ceifaram vidas e alteraram profundamente o modo de vida tradicional dos Karajá. No entanto, longe de representar uma simples narrativa de dominação, esse período evidencia a capacidade de resistência e adaptação desse povo. Estratégias de negociação, relocação parcial e reorganização social permitiram que os Karajá preservassem elementos essenciais de sua cultura, mantendo vivas práticas, rituais e saberes que se tornariam fundamentais para sua sobrevivência cultural. Em cada rio, em cada ilha ou margem, a presença Karajá permanece marcada, um testemunho silencioso de resiliência (DE GENARO; KARAJÁ, 2023).
A trajetória histórica dos Karajá não pode ser compreendida sem considerar o papel central do Rio Araguaia em sua existência. O rio funciona como eixo estruturador, mediando relações sociais, econômicas e espirituais. A pesca, mais do que atividade de subsistência, é um ritual que estabelece hierarquias e cooperação comunitária; os períodos de cheia e vazante ditam o calendário de rituais, festas e atividades coletivas; e as ilhas e margens tornam-se espaços sagrados, onde se realizam cerimônias que reafirmam laços com ancestrais e com o cosmos. Assim, o território não é apenas cenário ou recurso; é parte integrante da história, da cultura e da identidade Karajá. Cada deslocamento imposto pelos colonizadores implicava não apenas a perda de espaço físico, mas também uma ameaça direta à continuidade de práticas culturais e espirituais, evidenciando a interdependência entre território e identidade (FEITOSA, 2020).
Durante os séculos XIX e XX, a pressão sobre os Karajá se intensificou com a expansão da colonização, a abertura de estradas, a exploração econômica e as políticas governamentais de “integração” indígena. Esses processos frequentemente ignoraram a autonomia cultural e territorial do povo Karajá, impondo valores, línguas e práticas externas que ameaçavam sua organização social. Ainda assim, os Karajá demonstraram uma capacidade notável de adaptação, preservando sua língua, suas narrativas míticas e seus modos de vida tradicionais, mesmo em contextos de intensa transformação. É nesse período que se consolidam muitas das práticas culturais que hoje conhecemos, incluindo os rituais de passagem, as festas coletivas e, sobretudo, a produção de objetos simbólicos como as bonecas Ritxòkò Inỹ, que funcionam como instrumentos de memória e educação cultural (ANDRADE, 2017).
A história dos Karajá, portanto, é também uma história de resistência simbólica. Cada artefato, cada gesto ritual, cada narrativa contada pelos anciãos é uma forma de resistência contra a invisibilidade histórica e a marginalização social. Eles não apenas sobreviveram às mudanças impostas, mas transformaram experiências adversas em mecanismos de preservação cultural. Ao longo das gerações, a transmissão de saberes se manteve viva, e elementos centrais da cultura Karajá, como a oralidade, a cosmologia ligada ao rio, a organização social e o artesanato ritualístico, permaneceram intactos, mostrando que a história de um povo não se mede apenas pelo tempo cronológico, mas pela capacidade de manter-se vivo em seus valores e tradições (NUNES, 2018).
Cosmovisão e Organização Social Karajá
A cosmovisão do povo Karajá é intrinsecamente ligada ao ambiente em que vivem, especialmente às margens do Rio Araguaia, e manifesta-se como um conjunto complexo de crenças, práticas e saberes que articulam o mundo material e espiritual. Para os Karajá, a natureza não é apenas um espaço de recursos ou um cenário para a vida cotidiana, mas um elemento vivo, dotado de significados e forças que estruturam a existência humana, as relações sociais e as práticas culturais. Cada rio, ilha, árvore, peixe ou ave carrega consigo dimensões simbólicas que moldam não apenas a percepção de mundo, mas também as regras de convivência e as práticas ritualísticas do grupo. Essa concepção não pode ser reduzida a uma superstição ou simples cosmovisão mítica; ela funciona como um sistema coeso de valores, comportamentos e normas, que orienta decisões, regula conflitos e assegura a continuidade da vida coletiva (TORAL, 1992).
A organização social Karajá é profundamente influenciada por essa visão de mundo, articulando papéis, responsabilidades e hierarquias de acordo com princípios que equilibram autoridade, saber e experiência. Entre eles, o respeito aos mais velhos ocupa posição central: os anciãos são guardiões da memória coletiva, responsáveis pela transmissão de narrativas, ensinamentos sobre a natureza e instruções sobre rituais, festas e produção cultural. A oralidade é o fio condutor dessa transmissão; cada história, cada mito e cada explicação sobre os ciclos naturais ou os elementos sagrados do rio é repassada com cuidado, assegurando que os jovens compreendam seu lugar dentro do coletivo e a importância da preservação cultural. Não se trata apenas de ensino, mas de socialização: aprender sobre a cosmovisão Karajá é aprender a ser parte de um tecido social complexo e interdependente, onde cada ação repercute no coletivo (NUNES, 2018).
Dentro dessa organização, o papel de homens e mulheres é diferenciado, mas complementar. Os homens, tradicionalmente, são responsáveis por atividades como a pesca em determinados períodos e a participação em rituais que exigem funções específicas, enquanto as mulheres desempenham papéis centrais na produção artesanal, na manutenção da vida doméstica e na educação das crianças, além de participarem de rituais coletivos e da gestão do conhecimento cultural. Essa divisão não é rígida nem hierárquica no sentido de subordinação; pelo contrário, ela reflete a lógica de interdependência que permeia a sociedade Karajá, em que cada função, cada saber e cada responsabilidade são valorizados e reconhecidos como essenciais para a sobrevivência do grupo (TORAL, 1992).
Os rituais de passagem constituem outro elemento central na cosmovisão e organização social Karajá. Eventos como a iniciação de jovens, cerimônias de casamento e festas coletivas não são apenas celebrações ou formalidades, mas momentos nos quais os valores comunitários, a hierarquia social e o conhecimento ancestral são reafirmados. Durante essas cerimônias, os participantes aprendem normas de comportamento, habilidades específicas e os significados simbólicos que ligam o indivíduo à coletividade e ao cosmos. Nesses rituais, os elementos naturais, como rios, ilhas e animais, estão presentes de maneira simbólica e real, reforçando a ideia de que a vida humana é inseparável do mundo ao seu redor. Cada gesto, cada dança, cada pintura corporal carrega uma narrativa, uma lição e um vínculo com o passado, consolidando a continuidade cultural (NUNES, 2018).
A produção de artefatos culturais, especialmente as bonecas Ritxòkò Inỹ, também se insere nessa estrutura social e cosmovisional. Cada boneca representa papéis sociais, personagens míticos e cenas do cotidiano, funcionando simultaneamente como instrumento pedagógico, registro cultural e forma de reafirmação da identidade coletiva. Por meio da confecção e uso dessas bonecas, jovens e adultos internalizam regras de convivência, reconhecem papéis sociais e reforçam vínculos comunitários, de modo que a arte se torna inseparável da vida social e espiritual. As Ritxòkò Inỹ exemplificam como os Karajá não separam o material do simbólico, o utilitário do sagrado: tudo é integrado, e cada elemento da vida cotidiana carrega camadas de significado (DE GENARO; KARAJÁ, 2023).
Outro aspecto fundamental da organização social Karajá é a flexibilidade e a capacidade de adaptação diante de mudanças externas. Historicamente, o contato com colonizadores, missões religiosas e políticas governamentais tentou impor normas externas que desestruturassem o modo de vida indígena. Ainda assim, a cosmovisão Karajá serviu como bússola cultural: ela permitiu que práticas essenciais fossem preservadas, enquanto aspectos secundários podiam ser adaptados ou incorporados de maneira estratégica. Essa capacidade de equilíbrio entre tradição e adaptação evidencia não apenas a resiliência cultural do povo, mas também a profundidade da sua organização social, que consegue manter coesão, identidade e funcionalidade mesmo sob pressão externa (RIBEIRO, 1985).
A cosmovisão Karajá também influencia a relação com o espaço e o tempo. Diferente de concepções lineares de história, o tempo é percebido como cíclico, interligando passado, presente e futuro. Os mitos e narrativas ancestrais não estão confinados a um passado distante; eles coexistem com o cotidiano, orientam decisões, explicam fenômenos naturais e reforçam a identidade coletiva. O território, por sua vez, não é apenas um espaço físico, mas um mapa vivo de memórias, histórias e poderes espirituais. Cada ilha, cada curva do rio ou ponto de pesca carrega registro de acontecimentos, espíritos e ensinamentos, funcionando como extensão do corpo social e espiritual dos Karajá (NUNES, 2018).
Artesanato e Simbologia das Bonecas Ritxòkò Inỹ
O artesanato Karajá ocupa um lugar central na vida cultural e simbólica desse povo, e dentro desse universo, as bonecas Ritxòkò Inỹ assumem um protagonismo singular, não apenas como objetos de beleza ou decoração, mas como portadoras de saberes, memórias e ensinamentos. Cada Ritxòkò Inỹ é resultado de um processo de criação meticuloso, no qual técnicas tradicionais de modelagem e pintura se entrelaçam com significados sociais, rituais e educativos, produzindo artefatos que transcendem o plano estético e se transformam em verdadeiros instrumentos pedagógicos e simbólicos. Ao analisar essas bonecas, percebe-se que elas condensam séculos de experiências, crenças e modos de vida, funcionando simultaneamente como registro histórico, ferramenta de ensino e elo entre gerações (FEITOSA et al., 2020).
A produção das Ritxòkò Inỹ segue um conjunto de procedimentos específicos, que envolvem desde a seleção do barro, cuidadosamente retirado das margens do Rio Araguaia, até a modelagem, a secagem e a pintura. Cada etapa carrega implicações simbólicas e educativas. O barro, por exemplo, não é visto apenas como material, mas como um elemento vivo, carregado de força e significado, que conecta quem o manipula à terra, ao rio e aos ancestrais. A modelagem exige atenção, paciência e conhecimento de proporções e formas, transmitidos por gerações. A pintura, com cores naturais obtidas de pigmentos, não é meramente decorativa: ela simboliza elementos do cotidiano, rituais, vestimentas tradicionais e papéis sociais, codificando em cada traço a memória cultural e social do povo Karajá (WÜST, 1975).
Cada boneca representa não apenas figuras humanas, mas também cenas do cotidiano e personagens míticos, permitindo que os jovens aprendam sobre normas sociais, rituais, papéis de gênero e a importância da coletividade de maneira prática e visual. Por meio das Ritxòkò Inỹ, é possível ensinar valores fundamentais: a solidariedade, a importância da cooperação, o respeito às hierarquias e aos mais velhos, além de transmitir histórias ancestrais que não poderiam ser facilmente explicadas apenas por palavras. As bonecas, portanto, são ferramentas vivas de educação cultural, capazes de transmitir conhecimentos complexos de forma concreta e acessível, funcionando como uma ponte entre tradição e aprendizagem (DE GENARO; KARAJÁ, 2023).
A simbologia das Ritxòkò Inỹ é igualmente profunda. Cada figura carrega múltiplas camadas de significado que dialogam com a cosmovisão Karajá. A postura, os adornos, a cor e a expressão facial de cada boneca indicam funções sociais, rituais ou mitológicas, sendo que muitas vezes uma única peça sintetiza histórias, ensinamentos e valores. Por exemplo, uma boneca representando uma mãe pescadora não apenas ilustra a atividade cotidiana, mas também reforça a importância do papel feminino na subsistência, na transmissão cultural e na coesão familiar. Da mesma forma, figuras que retratam guerreiros, pajés ou personagens míticos conectam os jovens aos mitos de criação e às regras espirituais que orientam a vida coletiva. Cada detalhe da Ritxòkò Inỹ é pensado e carregado de intencionalidade, mostrando que o artesanato Karajá não é um simples produto, mas um elo simbólico entre presente, passado e futuro (ANDRADE, 2017).
Além da função pedagógica e simbólica, as bonecas exercem um papel central na manutenção da identidade coletiva Karajá. Em contextos de intenso contato com a sociedade não indígena, em que valores externos muitas vezes ameaçam práticas tradicionais, a produção e utilização das Ritxòkò Inỹ funcionam como afirmação cultural e resistência simbólica. Ao modelar, pintar e compartilhar essas bonecas, os Karajá reafirmam sua continuidade cultural, preservam a memória ancestral e fortalecem vínculos comunitários. A cada geração, o processo de produção artesanal se torna uma experiência coletiva, na qual anciãos orientam jovens, histórias são contadas e valores comunitários são transmitidos, garantindo que a cultura não seja apenas lembrada, mas vivida (RIBEIRO, 1985).
O estudo das Ritxòkò Inỹ também revela a complexa interseção entre arte, educação e espiritualidade no universo Karajá. A confecção dessas bonecas muitas vezes está ligada a momentos específicos do ciclo de rituais, em que o aprendizado não é apenas técnico, mas também moral, social e espiritual. Pintar, modelar e interpretar cada figura envolve compreender a ligação entre ações humanas, forças da natureza e entidades espirituais, mostrando que, para os Karajá, arte e cosmovisão estão inseparavelmente entrelaçadas. É por isso que cada boneca se torna um microcosmo cultural: nela se refletem os ensinamentos da aldeia, os mitos ancestrais, os papéis sociais, os valores morais e o respeito à natureza, todos sintetizados em um objeto que pode ser manuseado, observado e transmitido (TORAL, 1992).
Além disso, as Ritxòkò Inỹ desempenham um papel estratégico na visibilidade cultural do povo Karajá junto à sociedade mais ampla. A divulgação dessas bonecas em exposições, feiras artesanais e projetos educativos contribui para o reconhecimento da riqueza cultural indígena e para a valorização de seus saberes tradicionais. Cada peça se torna, assim, não apenas um artefato local, mas um veículo de diálogo intercultural, permitindo que as histórias, valores e práticas dos Karajá sejam compreendidos e respeitados fora das aldeias, ampliando o impacto simbólico e social dessa produção artesanal (LUCIANO, 2006).
Impactos Contemporâneos e Desafios Culturais
A cultura Karajá, tão profundamente enraizada na história do Rio Araguaia e na tradição de seus ancestrais, enfrenta, na contemporaneidade, uma série de desafios que ameaçam a continuidade de suas práticas culturais, modos de vida e, sobretudo, a transmissão de saberes essenciais entre gerações. Entre esses desafios, destacam-se os impactos advindos da expansão do agronegócio, das pressões ambientais e das políticas governamentais de integração ou assimilação, que frequentemente desconsideram a autonomia e os direitos dos povos indígenas. O avanço de atividades econômicas externas no território Karajá altera a dinâmica dos rios, modifica ecossistemas essenciais para a pesca e a agricultura tradicional e reduz a disponibilidade de recursos naturais indispensáveis para a subsistência e a manutenção de rituais. Cada intervenção externa, por mais sutil que pareça, reverbera de maneira profunda na cultura do povo, afetando desde as práticas cotidianas até a produção de artefatos simbólicos, como as Ritxòkò Inỹ (RIBEIRO, 1985).
O contato intensificado com a sociedade não indígena, se por um lado oferece oportunidades de aprendizado e intercâmbio, por outro impõe pressões culturais, econômicas e sociais que desafiam a preservação da identidade Karajá. A escola formal, a televisão, as redes sociais e os valores da modernidade muitas vezes entram em tensão com tradições ancestrais, exigindo dos jovens Karajá a capacidade de transitar entre dois mundos, conciliando educação formal, tecnologia e modernidade com a prática cultural herdada. Nesse cenário, as bonecas Ritxòkò Inỹ funcionam como instrumentos de resistência simbólica e pedagógica, permitindo que os saberes ancestrais sejam transmitidos mesmo em contextos de crescente influência externa. Cada boneca criada, cada detalhe pintado, cada cena representada torna-se, portanto, um ato de afirmação cultural, um lembrete de que a identidade Karajá não pode ser dissolvida pela imposição de valores externos (DE GENARO; KARAJÁ, 2023).
Além das pressões sociais e econômicas, os desafios ambientais representam uma ameaça direta à sobrevivência cultural. Alterações nos níveis de água do Rio Araguaia, desmatamentos e mudanças climáticas afetam a pesca e a coleta de barro, matérias-primas fundamentais para a produção artesanal e para a realização de rituais. Essa conexão entre território, subsistência e cultura revela que a preservação do ambiente é inseparável da preservação cultural. As Ritxòkò Inỹ, ao dependerem do barro das margens do rio e de pigmentos naturais, evidenciam a interdependência entre ecossistema e expressão cultural, mostrando que qualquer dano ao ambiente implica em risco para a continuidade das tradições. Dessa forma, a crise ambiental não é apenas ecológica; é também cultural e simbólica, ameaçando rituais, modos de vida e práticas pedagógicas que sustentam a identidade coletiva (WÜST, 1975).
O desafio contemporâneo dos Karajá também envolve a valorização e visibilidade de suas práticas culturais junto à sociedade mais ampla. Historicamente marginalizados e sub representados, eles enfrentam a necessidade de criar estratégias de comunicação e visibilidade que permitam o reconhecimento da importância de sua cultura, ao mesmo tempo em que resistem à mercantilização ou descaracterização de seus saberes. Exposições, feiras de artesanato e projetos educativos têm desempenhado papel importante nesse sentido, permitindo que as Ritxòkò Inỹ transcendam as aldeias e se tornem símbolos de diálogo intercultural. Porém, essa visibilidade também impõe riscos: a demanda externa pode gerar pressões para produção em escala, alterando práticas tradicionais, modificando significados e transformando artefatos pedagógicos e simbólicos em meros produtos de consumo. Assim, a tensão entre preservação cultural e inserção econômica constitui um dilema complexo, que exige equilíbrio e reflexão por parte da comunidade (ANDRADE, 2017).
Os desafios contemporâneos não se restringem apenas ao ambiente físico ou às pressões sociais externas; eles também se manifestam internamente, na transmissão intergeracional do conhecimento. A juventude Karajá, exposta às influências da modernidade e à busca por oportunidades fora das aldeias, muitas vezes enfrenta dilemas entre manter tradições e adaptar-se às novas exigências do mundo externo. É nesse contexto que as Ritxòkò Inỹ assumem papel crucial: servem como instrumentos de educação informal, garantindo que, mesmo que jovens se afastem fisicamente das aldeias, levem consigo saberes sobre rituais, papéis sociais e mitos ancestrais. As bonecas funcionam como mediadoras da memória coletiva, assegurando a continuidade cultural e oferecendo aos jovens uma maneira concreta de se conectar com suas raízes, mesmo diante da dispersão territorial ou do contato intenso com a sociedade dominante (FEITOSA et al., 2020).
Outro aspecto importante diz respeito às políticas públicas e aos instrumentos legais de proteção. A atuação da FUNAI e de outras instituições tem sido essencial para garantir direitos territoriais e promover iniciativas de preservação cultural. No entanto, a aplicação dessas políticas nem sempre é eficiente ou suficiente para enfrentar pressões externas, e muitas vezes depende da mobilização interna da comunidade. A combinação entre apoio institucional e práticas comunitárias autônomas é, portanto, vital para a sobrevivência cultural. As Ritxòkò Inỹ simbolizam esse equilíbrio: refletem tradições ancestrais, resistência comunitária e potencial de diálogo com instituições externas, funcionando como elo entre autonomia cultural e reconhecimento oficial (LUCIANO, 2006).
Políticas de Preservação Cultural e Reconhecimento Institucional
A preservação cultural do povo Karajá, particularmente no que se refere à transmissão de saberes e práticas tradicionais, está intrinsecamente ligada à atuação de políticas públicas e instituições voltadas à proteção dos povos indígenas. Entre essas instituições, destaca-se a FUNAI – Fundação Nacional dos Povos Indígenas, que desempenha papel central na documentação, proteção e promoção das culturas indígenas brasileiras. Desde sua criação, a FUNAI tem desenvolvido programas e ações com o objetivo de assegurar a integridade territorial, cultural e social das comunidades indígenas, reconhecendo que a preservação de suas tradições não é apenas um direito cultural, mas também um direito humano fundamental. No caso dos Karajá, a intervenção institucional visa não apenas proteger os territórios e recursos naturais, essenciais para a subsistência, mas também promover a continuidade de práticas culturais, como os rituais, a oralidade e a produção artesanal de artefatos simbólicos, incluindo as bonecas Ritxòkò Inỹ (LUCIANO, 2006).
O reconhecimento institucional assume múltiplas dimensões. Primeiramente, há a dimensão territorial, que envolve demarcação, fiscalização e proteção de áreas tradicionais contra invasões, desmatamentos e exploração econômica externa. A segurança territorial é condição sine qua non para a manutenção da vida comunitária e da cultura Karajá, uma vez que atividades como a pesca, a coleta de barro para confecção das Ritxòkò Inỹ e a realização de rituais dependem diretamente da integridade do ambiente natural. A perda de território não é apenas um problema econômico, mas uma ameaça direta à continuidade cultural e espiritual do povo, evidenciando que políticas territoriais e políticas culturais estão inexoravelmente ligadas (RIBEIRO, 1985).
Em segundo lugar, o reconhecimento institucional se manifesta na valorização e promoção do patrimônio cultural imaterial. No Brasil, instrumentos legais, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), podem desempenhar papel complementar, reconhecendo a importância simbólica e educativa de práticas culturais e artefatos indígenas. As Ritxòkò Inỹ, por exemplo, não são meros produtos artesanais, mas portadoras de saberes, memória coletiva e identidade Karajá, o que justifica sua inclusão em programas de proteção do patrimônio cultural. Ao reconhecer e valorizar essas bonecas como expressão artística e pedagógica, instituições públicas contribuem para a legitimação da cultura indígena no espaço social mais amplo, garantindo que práticas tradicionalmente invisibilizadas recebam atenção, respeito e preservação (DE CASTRO MENDONÇA; DE FIGUEIREDO DA COSTA; KÀLÀRIKI IDJAWARU KARAJÁ, 2022).
A atuação institucional também se reflete em programas educativos e de capacitação. Iniciativas que envolvem jovens, professores, pesquisadores e comunidades locais visam fortalecer a transmissão cultural e assegurar que conhecimentos, técnicas e valores não se percam com a modernidade ou com a migração dos jovens para centros urbanos. Nesse contexto, as Ritxòkò Inỹ funcionam como ferramentas centrais, integrando educação formal e informal: em salas de aula, oficinas ou aldeias, elas permitem que os saberes Karajá sejam ensinados de forma concreta, visual e prática. Cada boneca produzida, explicada ou apresentada torna-se um elo entre a tradição ancestral e a aprendizagem contemporânea, mostrando que políticas culturais eficazes dependem tanto da proteção institucional quanto da participação ativa das comunidades (DE GENARO; KARAJÁ, 2023).
Contudo, a implementação dessas políticas enfrenta desafios significativos. A burocracia, a falta de recursos, a pressão de interesses econômicos e a resistência de setores externos que não compreendem a importância da cultura indígena muitas vezes limitam a eficácia das iniciativas de preservação. Além disso, há o desafio de equilibrar a proteção cultural com a autonomia comunitária: as políticas não devem se transformar em instrumentos de imposição, mas em mecanismos de apoio, respeitando decisões internas e práticas locais. No caso das Ritxòkò Inỹ, isso significa que a valorização institucional não deve interferir na liberdade de criação, nos significados simbólicos ou nos usos pedagógicos definidos pelos próprios Karajá. A preservação cultural, portanto, exige diálogo, sensibilidade e colaboração entre instituições e comunidades, reconhecendo que os povos indígenas são agentes ativos na definição de seus próprios caminhos de continuidade cultural (TORAL, 1992).
Outro aspecto relevante é a articulação entre políticas nacionais e iniciativas locais de auto-organização cultural. Muitas comunidades Karajá têm desenvolvido projetos próprios de preservação, que incluem oficinas de produção das Ritxòkò Inỹ, registros de narrativas orais, festivais culturais e programas educativos que valorizam a língua e os saberes ancestrais. Essas ações, quando apoiadas por instituições como FUNAI ou IPHAN, ganham alcance e reconhecimento social mais amplo, contribuindo para a sustentabilidade cultural e para o fortalecimento da identidade coletiva. A combinação entre iniciativa interna e suporte institucional evidencia que a proteção da cultura Karajá não depende apenas de normas ou leis, mas de práticas concretas que integrem educação, arte, memória e território (WHAN, 2010).
Além disso, a presença institucional contribui para visibilidade e combate a estereótipos. Ao promover exposições, projetos de pesquisa e materiais educativos sobre os Karajá e suas Ritxòkò Inỹ, as instituições públicas ajudam a construir uma narrativa mais precisa e respeitosa da cultura indígena, contrabalançando representações superficiais ou estigmatizantes veiculadas pela mídia e pelo imaginário social. Essa visibilidade fortalece o reconhecimento cultural, sensibiliza a sociedade em geral e cria condições para que os Karajá sejam vistos como protagonistas de sua própria história, e não apenas como objetos de estudo ou curiosidade (LIMA FILHO; SILVA, 2012).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise da literatura permitiu compreender, de forma articulada e profunda, como a cultura Karajá se sustenta por meio de um delicado equilíbrio entre tradição, adaptação e resistência simbólica. Os resultados obtidos a partir da revisão bibliográfica evidenciam que elementos como a cosmovisão, a organização social, o artesanato e, especialmente, as bonecas Ritxòkò Inỹ não podem ser compreendidas de maneira isolada. Ao contrário, eles formam um sistema integrado de produção de sentidos, no qual território, memória, educação e identidade se entrelaçam continuamente. A literatura analisada aponta que as Ritxòkò Inỹ assumem um papel central nesse sistema, funcionando simultaneamente como expressão estética, instrumento pedagógico, registro social e mecanismo de resistência cultural frente às pressões históricas e contemporâneas.
Os estudos de Andrade (2017), Lima Filho e Silva (2012) e Feitosa et al. (2020) convergem ao demonstrar que o artesanato Karajá, longe de ser uma atividade meramente manual ou decorativa, constitui uma linguagem social complexa. As bonecas, seus grafismos e vestimentas representam papéis sociais, hierarquias, práticas cotidianas e narrativas míticas, permitindo que valores culturais sejam transmitidos de forma concreta e visual. Os resultados indicam que essa materialidade simbólica exerce uma função pedagógica essencial, sobretudo no contexto da oralidade, característica central da organização social Karajá. Assim, a Ritxòkò Inỹ emerge como um dispositivo educativo que traduz conceitos abstratos — como pertencimento, coletividade e respeito aos ancestrais — em formas acessíveis às diferentes gerações.
A discussão dos dados também evidencia que a cosmovisão Karajá estrutura não apenas práticas rituais, mas a própria lógica de organização social. Conforme apontam Nunes (2018) e Toral (1992), o Rio Araguaia não é apenas um espaço físico, mas um eixo cosmológico que organiza o tempo, o espaço e as relações sociais. Essa percepção cíclica do tempo e relacional do território se reflete diretamente na produção cultural, incluindo o artesanato cerâmico. A coleta do barro, a modelagem das bonecas e a aplicação dos grafismos não são ações neutras; elas obedecem a ritmos naturais, a conhecimentos transmitidos pelos mais velhos e a princípios espirituais que reforçam a interdependência entre humanos, natureza e mundo espiritual. Os resultados apontam que qualquer ameaça ao território, portanto, repercute de maneira direta na continuidade dessas práticas simbólicas.
Outro aspecto relevante evidenciado pela literatura diz respeito à divisão social dos saberes e à centralidade do papel feminino na produção das Ritxòkò Inỹ. Os trabalhos de Wüst (1975) e Whan (2010) demonstram que a cerâmica Karajá é tradicionalmente associada às mulheres, que atuam como guardiãs de técnicas, grafismos e significados simbólicos. Esse protagonismo feminino não se limita ao domínio técnico, mas se estende à transmissão cultural, uma vez que o aprendizado da cerâmica ocorre em contextos de convivência intergeracional, nos quais histórias, normas sociais e valores são compartilhados. Os resultados reforçam a compreensão de que o artesanato, nesse contexto, é também um espaço de socialização e fortalecimento de laços comunitários, desafiando interpretações externas que tendem a subestimar o papel das mulheres indígenas na manutenção da cultura.
A análise da literatura também revela que as Ritxòkò Inỹ desempenham um papel estratégico no enfrentamento dos desafios contemporâneos vivenciados pelo povo Karajá. Ribeiro (1985) e Luciano (2006) oferecem um pano de fundo crítico para compreender como políticas de integração, expansão econômica e contato com a sociedade envolvente impactam profundamente as culturas indígenas. Nesse cenário, as bonecas surgem como formas de resistência simbólica, capazes de reafirmar identidades e preservar saberes diante de processos de homogeneização cultural. Os resultados indicam que, mesmo quando inseridas em circuitos externos, como feiras, museus ou exposições, as Ritxòkò Inỹ mantêm significados próprios, desde que sua produção e interpretação permaneçam sob controle da comunidade.
Entretanto, a discussão também aponta tensões importantes relacionadas à visibilidade institucional e à mercantilização do artesanato indígena. Conforme sugerem Mendonça, Costa e Karajá (2022), o reconhecimento museológico e acadêmico das Ritxòkò Inỹ pode contribuir para a valorização cultural, mas também carrega o risco de deslocar os sentidos originais desses objetos. Quando inseridas em contextos expositivos, as bonecas podem ser interpretadas a partir de categorias estéticas ocidentais, desconsiderando suas dimensões pedagógicas, espirituais e sociais. Os resultados indicam que esse processo exige cuidado e diálogo constante, para que o reconhecimento institucional não resulte em esvaziamento simbólico ou descaracterização cultural.
No campo educacional, os trabalhos de De Genaro e Karajá (2023) reforçam a compreensão das Ritxòkò Inỹ como instrumentos pedagógicos centrais na cultura Karajá. A análise aponta que essas bonecas permitem a articulação entre educação tradicional e educação formal, especialmente em contextos escolares indígenas. Elas funcionam como mediadoras entre diferentes sistemas de conhecimento, possibilitando que conteúdos escolares dialoguem com saberes ancestrais. Os resultados sugerem que essa articulação fortalece a identidade dos jovens Karajá, reduzindo rupturas culturais e promovendo uma educação mais contextualizada e significativa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao chegar ao término deste trabalho, torna-se impossível olhar para as bonecas Ritxòkò Inỹ apenas como objetos artesanais ou expressões estéticas isoladas. O percurso de leitura, análise e reflexão revelou que essas bonecas condensam uma densidade cultural que desafia classificações simplistas e exige um olhar atento, sensível e, sobretudo, respeitoso. Elas falam, ainda que em silêncio, sobre território, memória, organização social, espiritualidade e resistência. Falam sobre um povo que, mesmo atravessado por séculos de contato, violência simbólica e tentativas de apagamento, continua afirmando sua existência por meio do saber fazer, do ensinar e do recordar.
A cultura Karajá, como se buscou demonstrar ao longo deste estudo, não pode ser compreendida fora de sua relação íntima com o Rio Araguaia. O rio não aparece apenas como pano de fundo geográfico, mas como eixo estruturante da vida coletiva, do pensamento cosmológico e das práticas culturais. Essa relação atravessa o cotidiano, os rituais, a oralidade e se materializa de forma particularmente expressiva nas Ritxòkò Inỹ. O barro retirado das margens, os grafismos aplicados às figuras, as cenas representadas nas bonecas revelam uma compreensão de mundo na qual natureza e cultura não se opõem, mas se entrelaçam de maneira contínua. Preservar essas bonecas, portanto, não é apenas preservar um artefato cultural, mas garantir a continuidade de uma relação ancestral com o território e com os elementos naturais que sustentam a vida Karajá.
Outro ponto que se destacou de forma recorrente foi a centralidade da transmissão intergeracional dos saberes. Diferente dos modelos escolares formais, o aprendizado Karajá acontece no fazer, no observar, no ouvir e no compartilhar. As Ritxòkò Inỹ ocupam um lugar privilegiado nesse processo, pois permitem que conhecimentos complexos sejam transmitidos de maneira concreta, visual e simbólica. Cada boneca carrega histórias, normas sociais, papéis de gênero e ensinamentos morais, funcionando como uma verdadeira pedagogia indígena, enraizada na experiência cotidiana. Nesse sentido, elas desafiam concepções ocidentais de educação, ao mostrar que aprender não se limita à escrita ou à sala de aula, mas se constrói na convivência, no gesto e na prática cultural.
A análise também evidenciou o protagonismo feminino na produção e manutenção das Ritxòkò Inỹ. As mulheres Karajá não apenas dominam as técnicas da cerâmica, mas são responsáveis por grande parte da transmissão cultural que ocorre por meio dessas bonecas. Ao modelar o barro, pintar os grafismos e narrar os significados de cada figura, elas atuam como educadoras, guardiãs da memória e agentes centrais da continuidade cultural. Reconhecer esse protagonismo é fundamental para romper com visões reducionistas sobre as sociedades indígenas e compreender a complexidade das relações sociais que estruturam o povo Karajá.
Os desafios contemporâneos enfrentados por esse povo também se mostraram incontornáveis nas reflexões finais. A expansão do agronegócio, as pressões ambientais, as políticas de assimilação e o contato intenso com a sociedade não indígena produzem tensões constantes entre tradição e mudança. Nesse cenário, as Ritxòkò Inỹ assumem um papel ainda mais significativo: tornam-se símbolos de resistência cultural e instrumentos de afirmação identitária. Cada boneca produzida reafirma a continuidade de um modo de vida que se recusa a desaparecer, mesmo diante das transformações impostas pela modernidade. Elas demonstram que a cultura Karajá não está presa ao passado, mas se reinventa, dialoga e resiste no presente.
A discussão sobre políticas públicas e reconhecimento institucional reforçou a ideia de que a preservação cultural não pode ocorrer de forma impositiva ou desconectada das comunidades indígenas. Embora instituições como a FUNAI, o IPHAN e universidades desempenhem papel importante na proteção do patrimônio cultural e territorial, a eficácia dessas ações depende do respeito à autonomia dos povos indígenas. No caso das Ritxòkò Inỹ, a valorização institucional precisa caminhar lado a lado com o reconhecimento de seus significados simbólicos e pedagógicos, evitando processos de mercantilização que esvaziem seu sentido cultural. Preservar, nesse contexto, significa criar condições para que a cultura continue viva, dinâmica e significativa para o próprio povo Karajá.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, Rita Morais de. Vestires indígenas em bonecas Karajá: argumentos para uma história da indumentária no Brasil. História: Questões & Debates, Curitiba, v. 65, n. 2, p. 197–222, jul./dez. 2017.
DE CASTRO MENDONÇA, Luciana; DE FIGUEIREDO DA COSTA, Gabriel; KÀLÀRIKI IDJAWARU KARAJÁ, Labé. Um corpo, muitas cabeças: cosmologia e diálogos sobre as ritxoko cabeça-muita do Museu do Índio do Rio de Janeiro. Hawò, Goiânia, v. 3, p. 1–21, 2022.
DE GENARO, Ednei; KARAJÁ, Leônidas Hadori. Ritxòkò como instrumento pedagógico na cultura Karajá. Revista da Faculdade de Educação, [S. l.], v. 39, n. 1, p. e392318, 2023.
FEITOSA, Andreia da Silva et al. Ritxokó: saberes e fazeres do povo Inỹ/Karajá. Científic@ Multidisciplinary Journal, v. 7, n. 1, p. 1–11, 2020.
LIMA FILHO, Manuel Ferreira; SILVA, Telma Camargo da. A arte de saber fazer grafismo nas bonecas Karajá. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 18, n. 38, p. 45–74, jul./dez. 2012.
LUCIANO, Gersem José dos Santos (Baniwa). O índio brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje. Brasília: SECAD/MEC; UNESCO; LACED/Museu Nacional, 2006. 228 p.
NUNES, Eduardo Soares. O povo do rio: variações míticas e variações antropológicas sobre a origem e a diferenciação dos grupos Inỹ. Tellus, [S. l.], v. 18, n. 36, p. 9–38, 2018.
RIBEIRO, Darcy. Os índios e a civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno. 2. ed. São Paulo: Círculo do Livro, 1985. 460 p.
SILVA, Telma Camargo da. Primeiras aproximações ao grafismo aplicado às Ritxòkò – Aldeia Santa Isabel do Morro (Hawaló), Ilha do Bananal (TO). Relatório técnico. Goiânia: Universidade Federal de Goiás (UFG); Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), 2010.
TORAL, André. Cosmologia e sociedade Karajá. 1992. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) - Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, 1992.
WHAN, C. Ritxòkò: a voz visual das ceramistas Karajá. 2010. Tese (Doutorado em Artes Visuais) – Escola de Belas Artes, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.
WÜST, Irmhild. A cerâmica Karajá de Aruanã. Anuário de Divulgação Científica, Goiânia, v. 2, n. 2, p. 96–165, jun. 1975.
1 Mestra em Ensino de História Instituição: Universidade Federal do Acre (UFAC). Lattes: https://lattes.cnpq.br/0987727851652669. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.