REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787287258
RESUMO
Na contemporaneidade, a formação de leitores críticos apresenta-se como um desafio frente ao avanço das tecnologias digitais, exigindo estratégias pedagógicas que superem a mera decodificação de palavras. Nesse cenário, a literatura infantil desempenha papel fundamental ao aliar o estímulo à imaginação, à reflexão e à autonomia. O presente artigo tem como objetivo analisar de que maneira a literatura infantil, por meio da obra O Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, contribui para a formação do leitor crítico na infância. A fundamentação teórica baseia-se na discussão sobre o incentivo à leitura, a intertextualidade e a diversidade cultural presentes nas narrativas lobatianas. Como procedimento analítico, examinam-se os personagens Emília, Visconde de Sabugosa e Narizinho, identificando como suas características e atitudes promovem a criticidade, a alteridade e o pensamento reflexivo nas crianças. Conclui-se que a obra de Monteiro Lobato se consolida como um instrumento pedagógico potente para a formação humana e educacional no contexto contemporâneo.
Palavras-chave: Literatura Infantil; O Sítio do Picapau Amarelo; Leitor Crítico; Monteiro Lobato; Formação Leitora.
ABSTRACT
In contemporary times, fostering critical readers presents a challenge amidst the advance of digital technologies, requiring pedagogical strategies that go beyond the mere decoding of words. In this context, children's literature plays a fundamental role by stimulating imagination, reflection, and autonomy. This article aims to analyze how children's literature, specifically through the work O Sítio do Picapau Amarelo by Monteiro Lobato contributes to the development of critical readers during childhood. The theoretical framework is based on a discussion regarding the encouragement of reading, intertextuality, and cultural diversity found in Lobato's narratives. The analytical approach examines the characters Emília, Visconde de Sabugosa, and Narizinho, identifying how their traits and attitudes foster critical thinking, an understanding of the alterity, and reflective thought in children. The study concludes that Monteiro Lobato's work stands as a powerful pedagogical tool for human and educational development in the contemporary context.
Keywords: Children's Literature; O Sítio do Picapau Amarelo; Critical Reader; Monteiro Lobato; Reader Development.
1. INTRODUÇÃO
Leitura, na contemporaneidade, configura-se como uma prática essencial para a formação de sujeitos críticos e participativos na sociedade. No entanto, diante de um cenário marcado pelo predomínio das tecnologias digitais, torna-se cada vez mais desafiador estimular, desde a infância, o desenvolvimento de habilidades leitoras que ultrapassem a simples decodificação de palavras.
Nesse contexto, literatura infantil assume um papel fundamental, pois, além de promover o contato com a linguagem escrita, possibilita o desenvolvimento da imaginação, da reflexão e da criticidade. Entre as obras que se destacam nesse processo, encontra-se o Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, reconhecido por integrar fantasia e realidade de forma instigante. Diante disso, o presente artigo tem como objetivo analisar de que maneira a literatura infantil, por meio do Sítio do Picapau Amarelo, contribui para a formação do leitor crítico na infância.
A literatura é de suma importância para os indivíduos, ajudando no ensino e aprendizagem, pois se percebe uma melhoria na absorção do conhecimento quando se atribui o prazer de ler na arte do ensinar. Monteiro Lobato, em suas obras, buscou além de incentivar a leitura, trabalhar temas que fossem atuais perante sua época, assim provocando nas crianças, indagações e reflexões sobre assuntos importantes, de uma forma prazerosa. O livro Picapau Amarelo, aqui em discussão, envolveu personagens da literatura clássica, mitologia grega e referências dos contos europeus. Foi através da intertextualidade que o autor conseguiu relatar a importância da diversidade cultural e de como as releituras são importantes, pois a criança consegue, através de uma história, atribuir novos sentidos, estimulando seu cognitivo e, ao mesmo tempo, contextualizando para trabalhar temas atuais, que fazem parte da sociedade. A finalidade da leitura, portanto, é estimular os educandos a desenvolver sua criticidade, alteridade, autonomia, além da própria escrita e leitura, auxiliando a formar sujeitos capazes de compreender a diversidade cultural em uma dimensão abrangente.
Para melhor compreensão da temática, o trabalho está organizado em tópicos. Inicialmente, o referencial teórico abordará a literatura infantil e a formação do leitor, discutindo a importância da leitura no desenvolvimento infantil e na construção do pensamento crítico. Em seguida, será apresentada a literatura infantil como ferramenta crítica e reflexiva no contexto educacional. Posteriormente, será discutido o papel do Sítio do Picapau Amarelo na construção do pensamento crítico, destacando a relevância das narrativas de Monteiro Lobato. Na análise e discussão dos dados, serão analisados os personagens Emília, Visconde de Sabugosa e Narizinho, observando de que maneira suas características e atitudes contribuem para a formação de leitores reflexivos e críticos. Por fim, serão apresentadas as considerações finais acerca da importância da literatura infantil como instrumento de formação humana e educacional.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1. A Literatura Infantil e a Formação do Leitor
O conceito de leitor crítico parte da ação de interação do leitor com o texto, análise, questionamento, avaliação do conteúdo, questionamento e chega a mensagem que o autor quis passar, é também aquele que faz a leitura crítica de textos e do mundo cotidiano. É a leitura, que provoca a mudança de mente do leitor, a qual futuramente é provocada uma mudança no mundo. A leitura não se restringe à decifração dos símbolos linguísticos, sendo imprescindível para a vida cotidiana (MORAIS, 1996)
Nesse sentido, a escola passa a ter uma grande importância na formação de leitores. As aulas de literatura, estabelecem este vínculo do aluno com o mundo da leitura, que faz com que cada um, ao ler alguma obra de literatura infantil, passe imaginar soluções para os problemas e desafios descritos naquela obra.
Outro ponto relevante, é que a literatura infantojuvenil, contribui no desenvolvimento integral, estimula a criatividade, linguagens e habilidades socioafetivas do educando. A obra literária infantil “O sítio do Pica-pau amarelo”, de Monteiro Lobato, leva o leitor a interpretação, reflexão e imaginação. Nesta obra, há diversas situações a qual leva o leitor a imaginar soluções para os problemas enfrentados pelos personagens, situações essas que leva-nos a imaginar: O que eu faria se fosse comigo?
Segundo Freire (1989) a leitura não se limita apenas à decodificação das palavras, mas envolve a compreensão da realidade e a capacidade de refletir criticamente sobre o mundo em que se vive, permitindo ao leitor desenvolver consciência e autonomia intelectual (Paulo Freire, 1989).
Levando em consideração o pensamento de Freire, é válido relacionar a leitura com o desenvolvimento cognitivo e a formação social da criança. A leitura pode ser considerada como um pilar fundamental para o desenvolvimento integral da criança, pois impulsiona habilidades de cognição como a linguagem, memória e raciocínio, promoção do desenvolvimento social, criatividade e habilidades socioemocionais, além do estímulo de questionamentos e interpretações. De acordo com Foucambert (1994 , p .17) aprende-se a ler em qualquer idade e continua-se sempre aprendendo. A escola é um momento da formação do leitor [...]".
A literatura para crianças e jovens tem um impacto enorme na formação de novos leitores, principalmente naquelas primeiras experiências que marcam a infância. Entre os muitos autores que atravessaram gerações, Monteiro Lobato se destaca como o grande pioneiro.
Os personagens do sítio do pica-pau amarelo leva o leitor a criar questionamentos e interpretações. Dentre eles podemos destacar a Emília, uma boneca que recebeu vida após tomar uma pílula falante, é uma das personagens que questiona as invenções, e é criativa. Dona Benta, é considerada uma mulher bondosa, que apesar se mais de idade, podemos considerá-la como a mediadora que transmite conhecimentos, que é passado aos seus netos.
Para Vygotsky (2001), a interação com o meio está diretamente ligada ao desenvolvimento cognitivo. Sendo assim o desenvolvimento acontece de fora para dentro, a partir do momento em que o indivíduo internaliza suas interações com o ambiente e com outros indivíduos. Dessa forma, é o contato com o ambiente, o convívio com outras pessoas e suas influências culturais que farão com que o indivíduo se desenvolva psicológica e conceitualmente.
2.2. Formação do Leitor Crítico
O presente estudo analisa a relevância da literatura infanto-juvenil como instrumento pedagógico no processo de ensino-aprendizagem, visando estimular o interesse da criança e sua formação como leitor crítico.
Usar livros infanto-juvenis na escola é uma das melhores formas de estimular as habilidades de escrita e leitura dos alunos. Magda Soares, educadora e escritora de destaque no Brasil, é uma das vozes que defendem o uso da literatura como um caminho para o aprendizado das crianças.
Dentre as ações significativas voltadas à leitura, sobressai-se a leitura literária, ou o letramento voltado à literatura, não apenas por essa prática estar intimamente ligada aos interesses das crianças e oferecer a elas uma alternativa de entretenimento e prazer, mas também pelo seu valor educativo: para a criança, a literatura infantil torna o mundo e a vida mais compreensíveis, pois apresenta novas realidades e diferentes vivências; a fantasia e o imaginário presentes nesse tipo de literatura cumprem um papel essencial no desenvolvimento emocional da infância. A leitura literária ainda proporciona à criança o contato com um vasto repertório de contos de fadas, fábulas e poesias que integram a herança cultural das sociedades ocidentais. Igualmente relevante é a contribuição da literatura na formação de competências como a compreensão, a interpretação e a atribuição de sentido aos textos (Soares, 2007, p. 15-16).
A formação do leitor crítico vai além de ensinar palavras e frases. A formação crítica do leitor não se limita ao domínio técnico do código, mas envolve um processo dialético de interpretação e atribuição de sentidos. Nesse cenário, o pensamento de Paulo Freire torna-se central a defender que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, evidenciando que a percepção da realidade é o alicerce sobre o qual o leitor edifica novos conhecimentos. De acordo com Paulo Freire (1989), o ato de ler não é apenas decifrar o alfabeto, mas sim compreender o mundo ao nosso redor. Ao dizer que 'a leitura do mundo precede a leitura da palavra' (FREIRE, 1989, p. 9), o autor defende que a leitura deve levar à reflexão. Assim, o leitor consegue interpretar sua realidade e buscar mudanças positivas para o meio social.
Essa ideia combina com o que diz Dermeval Saviani (2008). Para ele, a educação deve dar ao aluno as ferramentas para entender todo o conhecimento que a humanidade já produziu, ajudando-o a criar uma consciência crítica. Enquanto Paulo Freire foca na leitura como um caminho para a liberdade, Saviani reforça que o papel da escola é organizar esse aprendizado. Assim, a escola ajuda o aluno a ter acesso ao saber e a se tornar alguém capaz de participar e mudar a sociedade.
Para completar essa ideia, Lev Vygotsky (1991) nos ajuda a entender como esse aprendizado funciona na prática. Segundo ele, as crianças desenvolvem sua inteligência por meio da convivência e das trocas com os outros, sendo que a fala e a escrita são as principais ferramentas para organizar o pensamento. Por isso, para formar um leitor crítico, a ajuda do professor é fundamental. É ele quem orienta o aluno a entender os textos de forma mais profunda e a melhorar sua capacidade de interpretação.
Assim, percebemos como os três autores se completam: enquanto Freire mostra que ler serve para entender e mudar o mundo, Saviani destaca que a escola é o lugar que organiza esse aprendizado. Já Vygotsky explica que ninguém aprende sozinho, e que a troca entre as pessoas é o que constrói o conhecimento. Juntos, eles nos mostram que formar um leitor crítico não acontece por acaso, mas sim através de uma educação que une leitura, pensamento e a realidade do aluno.
2.3. Literaturas Infantil Como Ferramenta Crítica
Dessa forma, o aluno consegue expandir seus conhecimentos. De acordo com a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), a literatura para crianças é o ponto de partida para o maravilhoso mundo dos livros. BNCC (2018) reforça essa perspectiva ao destacar que a literatura é uma porta de entrada para o universo da leitura, ressaltando sua importância no processo de alfabetização e no contato inicial das crianças com os livros. No mesmo sentido, a escritora e pesquisadora Marisa Lajolo ressalta que:
É à literatura, como linguagem e como instituição, que se confiam os diferentes imaginários, as diferentes sensibilidades, valores e comportamentos através dos quais uma sociedade expressa e discute, simbolicamente, seus impasses, seus desejos, suas utopias. Por isso a literatura é importante no currículo escolar: o cidadão, para exercer, plenamente sua cidadania, precisa apossar-se da linguagem literária, alfabetizar-se nela, tornar-se seu usuário competente, mesmo que nunca vá escrever um livro:mas porque precisa ler muitos (Lajolo, 2008, p.106).
A literatura infantil tem um papel fundamental: ela abre portas para novas realidades, estimulando a criatividade e a reflexão da criança. A pesquisadora Regina Zilberman defende que o contato com os livros é decisivo para formar um bom leitor, pois proporciona momentos de beleza e aprendizado que ajudam a criança a dar sentido ao que lê. De acordo com Zilberman (Ibidem, p. 64), a literatura para a infância tem uma missão formadora em dois sentidos:
a) incute na criança certos valores, sejam eles de natureza social ou ética (ou ainda, ambas), não cabendo neste momento investigar se estes valores são convenientes à sociedade (vale dizer, conformativos) ou ao desenvolvimento intelectual e psíquico do leitor (isto é, se colaboram na emergência de uma visão de mundo autônoma e inquiridora); b) propicia a adoção de hábitos, que podem ser de dois tipos: - de consumo, incluindo-se aqui a frequência ao texto literário, ao estimular a aquisição de livros com certa constância e a leitura permanente; - de comportamentos socialmente preferidos, [...] se estendem desde a adoção de boas maneiras até o estímulo a uma atividade de questionamento das bases da organização da sociedade( Zilberman, 2003)
A literatura ajuda a formar uma visão mais humana e crítica sobre o mundo. Como afirma Gadotti (2004, p. 30), um dos papéis principais da educação é ensinar a criança, desde cedo, a pensar por conta própria e a tomar suas próprias decisões. Dessa forma, a escola prepara o aluno para ser um cidadão consciente e ativo na sociedade.
As histórias infantis usam a brincadeira e a imaginação para ajudar as crianças a se conectarem com o que aprendem de um jeito leve e marcante. Por isso, a literatura não deve ser apenas uma tarefa escolar, mas sim uma ponte entre o que a criança sente e o mundo ao seu redor. Ler desperta o prazer, estimula a criatividade e ajuda a formar a personalidade e o pensamento crítico. Quando a leitura é bem trabalhada, ela vira uma experiência encantadora que desenvolve as emoções e a inteligência, tornando o aprendizado muito mais rico e humano.
A BNCC (2018) reforça essa perspectiva ao destacar que a literatura é uma porta de entrada para o universo da leitura, ressaltando sua importância no processo de alfabetização e no contato inicial das crianças com os livros.
2.4. O Sítio do Pica-Pau Amarelo e a Construção do Pensamento Crítico
Monteiro Lobato nasceu em 18 de abril de 1882, em Taubaté, no interior de São Paulo, e se tornou um dos escritores mais importantes do Brasil. Além de escrever, ele foi editor, tradutor e empresário, criando uma obra enorme que vai de contos e romances até a literatura para crianças. Com a famosa série 'O Sítio do Picapau Amarelo', Lobato criou um universo cheio de cultura brasileira e personagens marcantes que encantam leitores de todas as idades até hoje (Oliveira, 2006; Lajolo, 1985). Publicada pela primeira vez em 1920, essa obra virou um clássico por misturar o nosso folclore com histórias de fantasia e magia, desafiando a realidade de um jeito único.
O Sítio do Picapau Amarelo pertence ao gênero da ficção infantil, mais especificamente ao mundo da fantasia, onde a magia e o sobrenatural desafiam a realidade. A série é formada por vários livros, e cada um conta uma aventura diferente. Entre os mais famosos estão Reinações de Narizinho, O Picapau Amarelo, Caçadas de Pedrinho e A Chave do Tamanho. Nessas histórias, Lobato mistura nossa cultura com referências do mundo todo. Além de personagens como Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho e Pedrinho, aparecem seres fantásticos como a Cuca, a Iara e o Minotauro, o que torna as histórias educativas e, ao mesmo tempo, muito divertidas.
Os personagens de Monteiro Lobato, foram criados com o intuito de estimular não somente a imaginação, mas a de formar leitores críticos. Cada um com suas características específicas, que contribuem na construção do conhecimento e no estímulo das habilidades cognitivas e reflexivas. A personagem Emília, por exemplo, é destaque nessa obra, por ter uma postura questionadora e irreverente, onde leva aos desafios das ideias, onde incentiva o leitor a refletir e problematizar situações Dona Benta, é considerada uma mulher bondosa, que apesar se mais de idade, podemos considerá-la como a mediadora que transmite conhecimentos, que é passado aos seus netos. Os netos de dona Benta, Narizinho e Pedrinho, são duas crianças que são curiosas e são responsáveis por grandes descobertas e o personagem visconde de Sabugosa, é símbolo de conhecimento científico e valorização da investigação. Dessa forma, a interação entre esse personagem, cria um ambiente rico e narrativo em questionamentos, reflexões e favorecem a construção do leitor crítico e participativo diante da realidade em que ele se encontra.
O sucesso do Sítio do Pica-Pau Amarelo foi tão grande que saiu dos livros e conquistou a televisão, o teatro e diversas outras mídias ao longo do tempo. Isso prova o tamanho do legado de Monteiro Lobato para a cultura do Brasil e, principalmente, para a literatura voltada às crianças e aos jovens.
Lobato acreditava que a educação e a leitura eram ferramentas para mudar a sociedade, e esse pensamento aparece em todas as suas histórias. O Sítio do Picapau Amarelo se destaca por usar uma linguagem inovadora para as crianças. Ele conseguia falar diretamente com os pequenos de um jeito simples, mas cheio de referências culturais. Isso fez com que as crianças se vissem nas histórias e sentissem prazer em ler. Ao mesmo tempo, ele trazia temas sérios e reflexões sobre a vida de forma leve, o que faz com que sua obra continue importante até hoje. Sobre isso, Gregorin reforça:
Com o surgimento de Monteiro Lobato na cena literária para crianças e sua proposta inovadora, a criança passa a ter voz, ainda que uma voz vinda da boca de uma boneca de pano, Emília. A contestação e a irreverência infantis sem barreiras começam a ter espaço e a ser lidas, e adquirem mais concretude com as ilustrações das personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Lobato apresenta características nunca exploradas no universo literário para crianças; apelo a teorias evolucionistas para explicar o destino da sociedade; onipresença da realidade brasileira; olhar empresarial; problemas sociais; tentativa de despertar no leitor uma flexibilidade em face do modo habitual de ver o mundo; relativismo de valores; questionamento do etnocentrismo e a religião como resultado da miséria e da ignorância (Gregorin Filho, 2009, p. 28-29)
Segundo Costa (2016), usar as obras de Monteiro Lobato na escola ajuda a formar leitores mais críticos, pois seus personagens são questionadores e as histórias estimulam o diálogo. Ao mergulhar nessas aventuras, a criança desenvolve o gosto pela leitura e aprende a interpretar e criar. Já Gomes (2016) reforça que, mesmo com as polêmicas sobre trechos considerados racistas ou ultrapassados, a leitura dessas obras, quando orientada pelo professor, pode gerar debates valiosos. Isso ajuda a criar um olhar mais consciente sobre a diversidade, desde que se leve em conta a época em que os livros foram escritos.
Segundo Costa (2016), ler o Sítio do Picapau Amarelo em sala de aula, com a orientação certa do professor, fortalece muito o interesse das crianças pelos livros. Além de incentivar a imaginação, essa leitura abre espaço para debates importantes entre os alunos. A presença de personagens tão marcantes ajuda a criar um vínculo emocional com a história, tornando o aprendizado muito mais vivo.
Essas histórias conseguem misturar a fantasia e a realidade de um jeito leve, mas profundo, permitindo que a criança aprenda enquanto se diverte. No universo de Lobato, o lúdico não é apenas distração; ele serve como um convite para que o aluno explore temas do cotidiano, ciência e história por meio da imaginação. Essa união faz com que o aprendizado aconteça de forma natural, transformando a leitura em uma ferramenta poderosa de descoberta e formação pessoal.
3. METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza bibliográfica, com abordagem qualitativa. Dentre as modalidades de pesquisas científicas existentes, a pesquisa bibliográfica é aquela desenvolvida a partir de material já elaborado, como livros, teses, dissertações e artigos científicos (Gil, 2008) A investigação fundamenta-se em autores que discutem a formação do leitor crítico e o papel da literatura infantil no contexto educacional.
Como corpus de análise, utilizam-se obras do Sítio do Picapau Amarelo, com ênfase na análise de personagens, diálogos e situações narrativas que evidenciam o estímulo ao pensamento crítico. A análise será realizada a partir da interpretação dos elementos textuais, buscando identificar de que forma a narrativa contribui para a formação de leitores reflexivos.
4. ANALISE DO DISCURSO DAS PERSONAGENS
4.1. A Vida dos Personagens Como Formadores de Pensamentos Crítico
A obra do Sítio do Pica-Pau Amarelo, do autor Monteiro Lobato, apresenta personagens que se tornaram verdadeiros ícones da nossa literatura. Cada um deles tem um jeito único de ser, criando um universo que é, ao mesmo tempo, mágico e cheio de reflexões.
Eles tornam as histórias divertidas, mas também ajudam a manter vivo o nosso folclore para as novas gerações. Como observa Zilberman (2005),a grande marca de Lobato foi misturar as lendas do nosso povo com uma narrativa que trazia críticas aos problemas da educação e da sociedade brasileira. Dessa forma, o Sítio não era apenas um lugar de magia, mas também um espaço para refletir sobre como o país precisava melhorar e se desenvolver.
Analisando as particularidades e as contradições dessa representação social na obra lobatiana, Zilberman (2003) pontua:
É o que muda radicalmente com o desdobramento da obra de Monteiro Lobato. Pode-se supor, por conseguinte, que ela acabasse por refletir a época em que foi produzida. Que, com a incorporação de personagens contemporâneos, fosse introduzido na literatura infantil o sistema social vigente, com seus valores e comportamentos, organização política e funções. Vale dizer, pode-se esperar dela uma representação da realidade que faça conhecer, com maior ou menor número de detalhes, a época a que o autor foi profundamente sensível (e que lhe rendeu uma série de ensaios polêmicos e uma vida pública agitada). Todavia, quando inquirida, os traços de contemporaneidade e cotidiano da realidade representada parecem escapulir. Pelo contrário, revela-se de imediato que instituições basilares da sociedade brasileira de seu tempo (e de hoje), como a família (patriarcal), a escola e a religião (ou a igreja) estão completamente ausentes. (Zilberman, 2003, p.157-158)
A convivência entre os personagens é o coração do Sítio do Pica-Pau Amarelo, ele nos mostra os diversos jeitos de aprender e viver em grupo. Percebe-se que no contexto desta história há vínculos afetivos, respeito, dedicação e cuidado com o próximo. Esse equilíbrio permite que as histórias falem de temas sérios, como ética e família, de um jeito simples e acessível para as crianças. Partindo deste contexto vamos destacar neste artigo a vida de duas personagens, que nos ajudam na realidade, pois são umas que mais que destacam na obra de Monteiro Lobato, que são a Emília, Visconde de Sabugosa e Narizinho.
4.1.1. Emília
A personagem Emília, nasceu através de uma confecção realizada por Tia Anastácia tem os “olhos de retrós preto e sobrancelha tão lá em cima que é ver uma bruxa” (LOBATO, 1959, p. 12), com retalhos de pano e passou a ser um brinquedo de Narizinho, ela ganhou vida após tomar uma pílula falante de criada por Visconde de Sabugosa.
A partir daí, Emília fez destaque nesta obra por ser uma boneca subversiva. Ela é uma personagem que questiona, desafia as normas sociais e os adultos e questiona a lógica das normas estabelecidas. A personagem é considerada subversiva pois é questionadora, desafia os mais velhos, está em ação a todo o tempo, tem opiniões e seus próprios pontos de vista e cria as suas próprias versões de história.
Segundo PENTEADO (1997) Emília fala pelo escritor, nos momentos mais importantes e polêmicos herda a independência da personalidade e a autonomia intelectual, só diferenciando dele na esperteza e na malandragem. LAJOLO (2001) também a identifica com Lobato, pois Emília torna-se independente com sua capacidade de fala, e em sua caminhada aponta novos pontos de vista, desafiando os padrões e quebra as normas estabelecidas. Apresentando-se como porta-voz de Lobato, que era um homem crítico e participante das questões de seu tempo, que se posicionava diante do que acreditava e falava sem medo, defendendo também seus pontos de vista.
A personagem Emília, do universo do Sítio do Picapau Amarelo, contribui significativamente para a formação de leitores críticos por meio de sua postura irreverente e subversiva. Ao questionar regras, desafiar opiniões prontas e expressar seus pensamentos com liberdade, a boneca incentiva o leitor a também refletir, duvidar e desenvolver autonomia intelectual. Sua maneira inquieta e curiosa de enxergar o mundo rompe com a ideia de obediência passiva, estimulando crianças e jovens a perceberem que podem analisar a realidade de diferentes perspectivas. Assim, Emília ultrapassa o papel de personagem divertida e torna-se um instrumento importante na construção do pensamento crítico, da criatividade e da capacidade de questionar o mundo ao redor.
4.1.2. Visconde de Sabugosa
Visconde de Sabugosa, um sabugo de milho, ele representa o conhecimento, a racionalidade. Nas obras o autor Lobato, coloca o personagem em constante debates, ele é sempre questionado, sobre diversos assuntos,ele desempenha um papel crucial na promoção do pensamento crítico na obra Sítio do Picapau Amarelo, simbolizando a valorização do aprendizado, da curiosidade científica e do questionamento intelectual.
Durante as histórias, o Visconde manifesta um comportamento investigativo, racional e reflexivo, encorajando as crianças do Sítio a observar, questionar e analisar o mundo ao seu redor. De acordo com Coelho (2000), a literatura infantil "precisa contribuir para a construção de uma consciência crítica, fazendo com que a criança reflita sobre a realidade e sobre si mesma". Nesse contexto, o Visconde funciona como um facilitador do aprendizado, estimulando o leitor a desenvolver autonomia intelectual e senso crítico. Um exemplo notável é encontrado na obra Viagem ao Céu, onde o personagem participa de uma expedição espacial junto às outras crianças do Sítio, explicando fenômenos astronômicos e científicos de forma acessível e cativante. Nessa passagem, o Visconde transforma a curiosidade das crianças em uma oportunidade de aprendizado, provando que o conhecimento pode ser adquirido de maneira lúdica e reflexiva, um aspecto fundamental para a formação de um leitor crítico.
4.1.3. Narizinho
A Menina do Narizinho Arrebitado apresenta ao público a personagem Narizinho, uma das figuras centrais do universo do Sítio do Picapau Amarelo, criado por Monteiro Lobato em 1920. Seu nome verdadeiro é Lúcia Encerrabodes de Oliveira, mas ficou conhecida como Narizinho devido ao seu característico nariz arrebitado. Prima de Pedrinho e neta de Dona Benta, a menina vive no sítio ao lado da avó e de Tia Nastácia, já que, nas histórias, seus pais nunca são mencionados. Bondosa, sensível e muito imaginativa, Narizinho demonstra grande carinho pelos animais e não aceita qualquer forma de maltrato contra eles.
É por meio da história dessa menina curiosa e sonhadora que Monteiro Lobato inicia sua trajetória na literatura infantil brasileira, criando um universo marcado pela fantasia, aventura e criatividade. Narizinho representa a infância imaginativa e livre, sendo a porta de entrada para as inúmeras descobertas e personagens encantadores que compõem o universo do Sítio do Picapau Amarelo.
Dona Benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia da mais encantadora das netas – Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho como todos dizem. Narizinho tem sete anos, é morena cor de jambo, gosta muito de pipoca e já sabe fazer uns bolinhos de polvilho bem gostosos. (Lobato, 1959, p. 11).
Narizinho, por exemplo, representa a infância curiosa e sensível. Sua capacidade de imaginar e explorar novos mundos desperta nas crianças o desejo pela descoberta e pela aprendizagem. Segundo Coelho (2000), a literatura infantil tem a função de desenvolver a criatividade e a capacidade reflexiva da criança, permitindo que ela compreenda melhor o mundo ao seu redor. Nesse contexto, Narizinho atua como mediadora entre a fantasia e a realidade, incentivando a observação crítica da vida cotidiana.
5. CONCLUSÃO
Monteiro Lobato, um dos percussores dessa literatura no Brasil, mostrou-se preocupado com a qualidade de suas obras, que em sua maioria, buscam enfatizar a relevância de ensinar e aprender com ludicidade.
Segundo Souza (2013), Lobato não compactuava com cópias do padrão europeu, pois acreditava que a literatura precisava ser algo criado por alguém brasileiro, que vivenciava o cotidiano, juntamente com aquele público que ele pretendia atingir, a fim de aproximar os leitores, sempre contextualizando os enredos com a própria realidade. O escritor buscou também, em suas narrativas, evitar enredos que trouxessem a negatividade para as crianças. Em suas histórias, o prazeroso é resolver os problemas de modo aventuroso e lúdico, levando o indivíduo para um universo positivo e imaginário.
Conclui-se, ao longo deste estudo, que a literatura infantil exerce um papel fundamental no processo educacional e na formação de sujeitos reflexivos e críticos por meio da leitura. Nesse contexto, as obras do Sítio do Picapau Amarelo, criadas por Monteiro Lobato, demonstram grande relevância ao estimular a imaginação, o questionamento e a construção do pensamento crítico nas crianças.
É nítido observar que personagens como Narizinho, Emília, Visconde de Sabugosa e Dona Benta contribuem significativamente para o desenvolvimento da curiosidade, da autonomia intelectual e da capacidade de reflexão dos leitores. A leitura mediada e crítica dessas histórias permanece, ainda hoje, como uma importante ferramenta para educar, emocionar e formar leitores conscientes, capazes de interpretar a realidade e posicionar-se diante dela.
Dessa forma, o Sítio do Picapau Amarelo ultrapassa os limites do entretenimento infantil e consolida-se como um instrumento educativo valioso, que contribui para a formação humana e para o desenvolvimento de leitores críticos dentro e fora da sala de aula.
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1 Graduanda em Licenciatura em Pedagogia Faculdade de Ensino Superior de Linhares (FACELI).
2 Técnica em Logística Secretaria do Estado de Educação do Espírito Santo (SEDU) Graduanda em Licenciatura em Pedagogia Faculdade de Ensino Superior de Linhares (FACELI).
3 Doutora em Letras (UFES) Professora titular de Língua Portuguesa - FACELI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail