REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778716518
RESUMO
A literatura indígena escrita por autores indígenas teve inicio na década de 70 e atualmente representa a luta e resistência dos povos indígenas no Brasil. A valorização da identidade e o caráter político são as principais características desse tipo de literatura. A abordagem indígena evidenciada na obra indígena Metada cara, metade máscara da autora Eliane Potiguara permite ao leitor observar elementos da narrativa contemporânea como limitações e dificuldades vivenciadas pela autora e narradora Eliane Potiguara. Esta pesquisa literária tem como objetivo analisar a obra literária Metade cara, metade máscara e o narrador presente neste livro escrito pela Eliane Potiguara.
Este trabalho apresentará o narrador contemporâneo brasileiro conforme os poemas do livro Metade Cara, metade máscara da autora Eliane Potiguara.
Palavras-chave: Narrador contemporâneo; Análise literária; Eliane Potiguara.
ABSTRACT
Indigenous literature written by Indigenous authors began in the 1970s and currently represents the struggle and resistance of Indigenous peoples in Brazil. The valorization of identity and political character are the main characteristics of this type of literature. The Indigenous approach evidenced in the Indigenous work *Metade cara, metade máscara* by the author Eliane Potiguara allows the reader to observe elements of contemporary narrative such as limitations and difficulties experienced by the author and narrator Eliane Potiguara. This literary research aims to analyze the literary work *Metade cara, metade máscara* and the narrator present in this book written by Eliane Potiguara.
This work will present the contemporary Brazilian narrator according to the poems in the book *Metade Cara, metade máscara* by the author Eliane Potiguara.
Keywords: Contemporary narrator; Literary analysis; Eliane Potiguara.
INTRODUÇÃO
O Estudo das literaturas realizadas por autores indígenas nas produções literárias brasileiras são evidenciados de forma que as narrativas podem: ser o período clássico, que se refere à tradição oral (coletiva) que perpassa os períodos históricos com as narrativas míticas, como as narrativas dos povos Pemons, Macuxis, So’tos, que influenciaram as produções literárias canônicas no Brasil (Sá, 2012) e o período contemporâneo, como as narrativas de Eliane Potiguara, Daniel Munduruku, Yaguarê Yamã, Ren~e Kithãulu e Olívio Jekupé, baseado na escrita individual e coletiva que se manifesta na poesia e na “contação de histórias” com base também nas narrativas míticas e nas experiências individuais e coletivas no cotidiano desses povos, entrelaçando também com a narrativa ficcional (Graúna, 2013).
A autora da obra Metade cara, metade máscara é considerada a primeira mulher indígena a escrever uma obra com características contemporâneas, entre elas: a Luta dos povos indígenas pelo direito a sua identidade, a migração indígena forçada, o ativismo índigena e os projetos sociais desenvolvidos nas comunidades indígenas. Em seu poema “Brasil” a escritora questiona o seu país com versos "Que faço com a minha cara de índia? / E meus cabelos. / E minhas rugas. / E minha história. / E meus segredos?". Esses questionamentos são significativos para o desenvolvimento da cosmovisão do narrador contemporâneo. A composição da obra literária da Eliane Potiguara tem características bastante comuns para o gênero textual POEMAS (Estrofes, versos e rimas). O Livro “Metade cara, metade máscara” foi publicado em 2004. O Livro conta com uma grande quantidade de poemas, relatos e entrevistas de Eliane e de outros indígenas. Ele discute as lutas da população indígena brasileira, seus desafios, lutas por terra e resistência ao longo de séculos de exclusão social. Em trechos mais íntimos do livro, Eliane conta um pouco sobre a história das mulheres, de suas famílias e os desafios que elas encontraram como mulheres indígenas no nordeste do Brasil. “Metade cara, metade máscara” traz a luta de resistência da população indígena no Brasil, e fala também sobre amor, ancestralidade, família e espiritualidade. (UFRGS,2025) Nesta perspectiva, o narrador presente nesta obra apresenta ao leitor sua vivência de militância, afirmativas da sua identidade e a luta das mulheres indigenas na sociedade contemporânea: “Minha militância sempre foi rebuscada com a literatura. Eu faço política, mas vou fazendo também os meus poemas”(UFRGS,2025)
A produção literária brasileira, no período de 1960 ao presente, representa um desafio para a historiografia e a crítica literária que lidam exclusivamente com valores canônicos e periodização. Com maior ou menor reconhecimento pela crítica jornalística e acadêmica, algumas obras têm exigido novas perspectivas de análise e interpretação. Nos últimos anos, surgiram obras que lidam com temas socialmente complexos e, em alguns casos, controversos. (GINSBURG, 2012) Dizendo de outro modo, por mais que o romance contemporâneo procure se desvencilhar da organização espaço-temporal vinculada à literatura do século XIX – desmontando a ideia de unidade e da relação causa-efeito a partir da fragmentação, da colagem, da simultaneidade –, nem sempre suas personagens podem conviver com isso. É que, muito longe de toda teoria sobre a realidade e a nossa percepção dela, prosseguimos, na vida cotidiana, criando narrativas lineares, cronologicamente estruturadas, para darmos conta de nossa presença no mundo. Uma presença que envolve, basicamente, a experiência do tempo. (DALCASTAGNÈ, 2012)
ANÁLISE LITERÁRIA da Obra Metade Cara, metade máscara da narradora Eliane Potiguara
Uma das abordagens inseridas pelo narrador na obra Metade cara, metade máscara é a da coletividade. Está característica das obras indígenas indica ao leitor a luta dos povos originários em busca dos direitos coletivos dos povos originários. Um livro pode ser apenas um texto pessoal. Mas no caso da produção dos autores indígenas, um livro nunca versa somente sobre o “eu”, e sim sobre o “eu coletivo = nós”, o eu-povo, eu-etnia, o grande “eu” que só se funda na identidade do “nós”. Por isso, o livro é um testemunho dos caminhos enfrentados pelos povos indígenas no processo de tentativa de apagamento sistematizado de seu processo identitário. (SOUZA e APONTES, 2021)
Podemos observar nos versos do poema Invasão o quanto o narrador descreve a violência vivenciada pelos nativos,
Invasão
Quem diria que a gente tão guerreira
Fosse acabar um dia assim na vida.Quem diria que viriam de longe
E transformariam teu homem
Em ração para as rapinas.Quem diria que sobre os escombros
Te esconderias e emudecerias teu filho – fruto do amor.Cenário macabro te é reservado.
Pra que lado tu corres,
Se as metralhadoras e catanas e enganos
Te seguem e te mutilam?É impossível que mulher guerreira
Possa ter seu filho estrangulado
E seu crânio esfacelado!Quem são vocês que podem violentar
A filha da terra
E retalhar suas entranhas?(POTIGUARA, 2019, p. 33)
No poema “Invasão”, de Eliane Potiguara, há um efeito mnemônico. A desumanização se faz presente desde o momento em que o português atracou no Brasil e se utilizou da categoria violência e da divisão racial para dizimar e violentar negros e indígenas, numa ótica patriarcal eurocêntrica e colonial. Eliane Potiguara utiliza-se da voz poética para a reescritura de uma narrativa há séculos conhecida, mas trilhando um outro caminho em que a voz do indígena desponta. (LIMA, 2022)
As memórias e a ancestralidade apresentadas pelo narrador contemporâneo na obra Metade cara, metade máscara são utilizadas pela Eliane Potiguara para informar ao leitor um contexto social vivênciado pelos povos indigenas que é a discriminação, a exclusão social e a violência contra mulheres indigenas. Para entender a construção temporal da narrativa dos dias de hoje, é preciso lembrar que ela abarca os modos possíveis do homem e da mulher contemporâneos se situarem no mundo, representando a si e aos outros, estabelecendo uma identidade a partir do que tentam fazer, ou daquilo que alcançam dizer. (DALCASTAGNÉ, 2012) Na segunda estrofe, o eu poético focaliza o invasor, que veio de longe, e questiona à mulher indígena se ela imaginaria que seu homem seria reduzido à “ração”, termo utilizado para demonstrar que há uma objetificação do indígena. Eliane Potiguara vai de encontro a essa ideia de objetificação dos povos originários, conferindo-lhes protagonismo. São povos que têm como referencial “a tocha de ancestralidade” (2019, p. 97). Há, com isso, uma percepção intuitiva, uma valorização da cultura, da tradição e da cosmovisão indígena. (LIMA, 2022)
Um contexto relevante na poesia da Eliane Potiguara é sobre a sua própria identidade e etnia. Ela como mulher indígena e de origem dos povos potiguaras narra memórias contando a luta do seu povo potíguara que por séculos sofreram com ações de políticas indigenistas, deslegitimação a posse da terra e dos direitos tradicionais dos grupos autóctones. O povo potiguara por muito tempo foi tido como extinto, como totalmente assimilado ou dizimado pela colonização. É possível perceber tal fato pela pouca produção sobre a etnia, e pela referência a esse povo sempre em relação ao passado. (CUNHA, 2017)
O narrador em Metade cara, metade máscara ao relatar um contexto da sua ancestralidade convida ao leitor a uma reflexão relevante para a atualidade, entender o passado na perspectiva de modificar o presente e delinear um novo futuro. Grupos sociais historicamente oprimidos elaboram, em novos autores, em narradores ficcionais, as condições para a presença dos excluídos. Escritores dispensados pelo cânone, grupos sociais reprimidos historicamente. (GINSBURG, 2012) É importante a combinação delicada entre recursos de fragmentação, temas ligados à repressão e proposições associadas à necessidade de repensar a história. (GINSBURG, 2012)
Repensar a história do povo Potiguara é uma reflexão evidenciada no poema TERRA,
Terra
Quando eu vi as araras
seus rabos azuis azul-real
só pôde bater forte o meu coração amante
pela minha terra verdinha.
Eram araras de todos os tamanhos
de tantos gritos
de tantos gestos
e bailavam pelos ares
dando mil voltas e gracejos.
Elas beijavam e conversavam
como os casais românticos
que juram amor eterno.
Eu te vi arara querida
VERDE – AMARELA – AZUL E BRANCA!
Te vi voando
solta
Livre
pelos ares.
Eras tu mesma minha
terra querida! (POTIGUARA, 2019, p. 148)
É possível ponderar hoje que são necessários pontos de vista que a tradição consideraria menores, inferiores, ou residuais. A interpretação do passado depende de um olhar que consiga confrontar as ruínas da violência histórica. (GINSBURG, 2012)
A cosmovisão da narradora indica ao leitor a relação entre as culturas de pertencimento e a literatura de resistência. Contextualmente, pode-se dizer que o poema foi produzido a partir de uma inspiração, no despertar de Jurupiranga, que acordou com a melodia do Hino Nacional Indígena. Construído por meio de imagens, no poema, a arara representa a brasilidade, já que ela tem as cores da bandeira do Brasil, que estão grafadas em caixa alta: “Eu te vi arara querida/ VERDE – AMARELA – AZUL E BRANCA!” A imagem poética também se faz pela visão que podemos ter do voo da arara, pela qualificação da terra “verdinha”, como nos versos: “Quando eu vi as araras/seus rabos azuis azul-real/ só pôde bater forte o meu coração amante/ pela minha terra verdinha.” A harmonia entre a natureza e os povos indígenas pode ser percebida no sexto verso da segunda estrofe, em que as araras e os casais indígenas enamorados comportam-se do mesmo modo em suas juras de amor. (LIMA, 2022)
Os versos do poema Terra apresenta ao leitor características da NATUREZA através da cosmovisão da narradora contemporânea Eliane Potiguara. A exaltação da natureza associada a uma convivência harmônica com o homem e a natureza explicita no poema remete ao leitor as caracteristicas do Romantismo, estilo de época do século XVIII. A narradora utiliza o Ufanismo (exaltação da natureza) em sua obra Metade cara,metade máscara. Está estratégia e recurso literário é observado nos seus poemas como forma de prender o leitor a sua narrativa. Se a narrativa nos serve para dar um sentido à vida, para dar ordem ao tempo e escapar à morte, e se ela pressupõe sempre a existência daquele que ouve ou lê, sem o qual não poderia se efetivar, não há como deixar de se indagar quais recursos estão sendo utilizados pelo narrador para conquistar a atenção e, em última instância, a adesão de seu leitor. (DALCASTAGNÉ, 2012)
Com isso, podemos notar que sua formação acadêmica está refletida em sua escritura, assim como sua movimentação política. Mas é importante ressaltar que, embora a construção do poema apresente traços comuns a outras obras românticas, devemos analisar a escrita de Potiguara a partir do seu olhar sobre a criação poética que engloba a diversidade. (LIMA, 2022)
CONCLUSÃO
O narrador contemporâneo presente na obra Metade cara, metade máscara, escrita pela primeira mulher indigena Eliane Potiguara, elenca em poemas a sua cosmovisão com base nas memórias e ancestralidade do povo potiguara, etnia a qual pertence. Em seus versos o leitor encontra a dedicação da narradora em descrever a violência vivenciada pelos povos originários, a falta de políticas públicas eficientes e as memórias da colonização do povo potiguara.
Esta pesquisa bibliografica teve como objetivo evidenciar o narrador contemporâneo presente no Livro Metade cara, metade máscara publicado ano de 2004 de autoria pela primeira mulher indigena Eliane Potiguara. Pode-se perceber que Potiguara concilia passado e presente, objetivando a harmonia e a união dos povos. (LIMA, 2022)
A coletividade e a diversidade são narrados pela autora como também a ideologia dos povos indigenas. A contemporaneidade tem apresentado situações que exigem a construção de novas teorias do narrador, diferentes das que foram construídas há várias décadas. Caberia à Teoria da Literatura uma renovação de vocabulário, perspectiva e metodologia, para confrontar o desafio de caracterizar o que mudou na construção de narradores, e em que se distinguem as formas recentes e as configurações tradicionais. (DALCASTAGNÉ,2012) A literatura indígena, segundo Graúna (2013, p. 61), tem uma finalidade em si mesma, é uma literatura de resistência: “Resistência, sobrevivência: essa particularidade da literatura que trafega na contramão, a exemplo da atual manifestação literária de autoria indígena e de seus descendentes no Brasil”.
Portanto, podemos concluir que a literatura indigena expressa na obra Metade cara, metade máscara da Eliane Potiguara é uma narrativa de resistência, luta, escrita pela cosmovisão da narradora contemporanea Eliane Potiguara.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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DALCASTAGNÈ, Regina. O narrador e suas circunstâncias. In: ______ Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. Vinhedo / Rio de Janeiro: Editora Horizonte / Editora da Uerj, 2012.
DURÃO, Fábio Akcelrud. Reflexões sobre a metodologia de pesquisa nos estudos literários. D.E.L.T.A., 31-especial, 2015
GINZBURG, Jaime. O narrador contemporâneo na literatura brasileira. Tintas. Quaderni di letterature iberiche e iberoamericane, 2012. 199-221. Disponível em: https://riviste.unimi.it/index.php/tintas/article/view/2790/2999. Acesso em: 14 Novembro 2023.
GRAÚNA, G. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2013. https://www.ufrgs.br/lhiste/wp-content/uploads/2022/06/eliane_digital_final2024.pdf. ACESSO EM 14.11.2025
LIMA, Débora Francisca de. Memória e ancestralidade em poemas de Metade cara, metade máscara, de Eliane Potiguara. Diadorim, Rio de Janeiro, vol. 24, número 1, p. 408 - 422, 2022.
POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. São Paulo: Global, 2004.
POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. 2 ed. Lorena: DM Projetos Especiais, 2018.
SÁ, Lúcia. Literatura da floresta: textos amazônicos e cultura latino-americana. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012
SOUZA, Ketlen Lima de; APONTES, Selmo Azevedo. Um livro inteiro, “Metade cara, metade máscara”: a poeticidade da dor retomada/reencontro em Eliane Potíguara. Muiraquitã: Revista de Letras e Humanidades, Jul-Dez, v. 9, n.2, 2021.