O ENVELHECIMENTO ENTRE A FICÇÃO E O DIREITO: UMA ANÁLISE DO CONTO AGDA DE HILDA HILST

AGING BETWEEN FICTION AND LAW: AN ANALYSIS OF HILDA HILT’S SHORT STORY AGDA

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780632073

RESUMO
O presente artigo analisa a narrativa Agda, do livro Kadosh, de Hilda Hilst, que demarca o percurso do processo de envelhecimento. O problema de pesquisa consiste em compreender o desenvolvimento da personagem em articulação com fontes secundárias, analisando como esse processo poderia ser conduzido para um desfecho positivo e satisfatório. Para tanto, os objetivos geral e específicos estabelecem um panorama que vai desde a compreensão dos discursos de angústia da protagonista até a realização de cruzamentos teóricos, a fim de demonstrar como a literatura emerge como ferramenta de diálogo sobre uma velhice sadia. Longe de refutar a contribuição literária da escritora, o estudo utiliza sua obra como veículo de discussão sobre seu universo simbólico e a morte. A metodologia adotada possui caráter qualitativo, fundamentada no estado da arte, no diálogo com outros autores e na legislação vigente que preconiza os direitos dos idosos. Diante da análise dos dados, foi possível observar a decadência da personagem, enquanto as contribuições secundárias ofereceram sustentento teórico a respeito da visibilidade, do acolhimento e da segurança para compreender essa passagem da vida não como um declínio, mas como uma etapa a ser plenamente vivida.
Palavras-chave: Hilda Hilst; Kadosh; Agda; Envelhecimento; Terceira idade.

ABSTRACT
This article analyzes the narrative Agda, from the book Kadosh, by Hilda Hilst, which marks the path of the aging process. The research problem consists of understanding the character's development in articulation with secondary sources, analyzing how this process could be conducted toward a positive and satisfactory outcome. To this end, the general and specific objectives establish an overview ranging from understanding the protagonist's discourses of anguish to performing theoretical intersections, in order to demonstrate how literature emerges as a tool for dialogue about healthy aging. Far from refuting the writer's literary contribution, the study uses her work as a vehicle for discussion about her symbolic universe and death. The methodology adopted has a qualitative character, based on the state of the art, dialogue with other authors, and current legislation that advocates for the rights of the elderly. Given the data analysis, it was possible to observe the character's decadence, while secondary contributions offered theoretical support regarding visibility, acceptance, and security to understand this passage of life not as a decline, but as a stage to be fully lived.
Keywords: Hilda Hilst; Kadosh; Agda; Aging; Third age.

1. INTRODUÇÃO

Hilda Hilst se afirmava como “A escritora que não foi lida”, em algumas entrevistas feitas. No entanto, nos perguntamos: como acontece o mensurável material literário produzido por Hilda Hilst, que traz para o seu leitor admiração, questionamento e uma certa tentação acerca da sua trilogia obscena? Talvez seja sua voracidade pela busca incessante pelo sagrado e a degradação do corpo humano.

Assim foi ela, desde nova, uma criança questionadora; mesmo no seu ingresso no colégio católico aos 7 anos, era permeada por questionamentos a respeito do sagrado e seu desenvolvimento.

Nascida em 21 de abril de 1930, era a única filha do casal Benecilda Vaz Cardoso e Apolônio, que diante do nascimento esbravejou “que azar”, mas, mal sabia o potencial e rico material literário que ela faria em seguida. Logo após, em 1935, o seu pai foi diagnosticado com esquizofrenia paranoica, passando o resto da sua vida internado em um hospital psiquiátrico.

Com isso, foram feitas duas visitas da filha ao seu pai, que, nas suas palavras, era uma figura pensante, poeta e admirador da literatura, algo que a impulsionou, de certa forma, ao deleite da escrita. Essa figura marcante se fez presente no livro “Qadós”, que posteriormente seria “Kadosh”. Segundo Folgueira e Destri (2018, p. 35): “Uma de suas obras em prosa mais importantes [...] traz uma cena que parece ser a recuperação do episódio, na voz da personagem Agda”.

Assim, traz-se à tona a memória do pai, mesmo ausente, mas presente em uma das personagens, que, supostamente, seria a própria autora por trás.

No seu segundo ano no curso de Direito, conhecera Lygia Fagundes Telles, pois, a universidade prestaria uma homenagem a ela pelo lançamento do seu romance. Hilda leu a carta para a escritora e logo após se apresentou como poetisa. Ali, nascia o início do seu trilhar literário, com a publicação do seu primeiro livro de poesia, “Presságio”, em 1950, o qual abre com a dedicatória à sua mãe, uma das figuras informantes e de destaque nessa produção.

Diante da sua estreia, um colega escreve ao Jornal de Notícias do dia: “Apontando trechos do livro, Fernando Jorge exaltou a feminilidade da poesia hilstiana e afirmou que a iniciante nascera com o dom de versar” (Folgueira, Destri, 2018, p. 47). Tal dom, mesmo prematuro diante das duras críticas sofridas na época, não foi o bastante para abalar a escritora, que logo lançaria o seu segundo livro de poesia, Baladas de Alzira, em 1951. No decorrer desse percurso, a autora inaugurou a sua prosa em 1970, com Fluxo-floema e, em 1973, Kadosh, que contém no seu interior quatro conjuntos de textos, sendo: “Agda”, “Kadosh”, “Agda” e “O oco”.

No entanto, em 1990, com o sentimento e a falta de representatividade do mercado editorial, por ter o seu denso material não lido, inaugura a “trilogia obscena”, alegando que agora seria lida, sendo: “O caderno rosa de Lori Lamby” (1990), “Contos d’escárnio/Textos grotescos” (1990) e “Cartas de um sedutor” (1991). Isso marca um momento de desabafo literário à imprensa e ao mercado.

Dentro desse contexto, a escritora vivenciou muitos momentos carregados de bebidas, com festas na sua casa, na companhia de escritores e poetas. Hilda foi uma mulher empoderada e convidativa a abrir espaço para cultivar amigos e influenciadores à sua volta. Com a venda da casa em São Paulo, ganha da sua mãe um terreno de 12 mil metros para começar uma nova construção, que perdurou quase um ano e, em junho de 1966, com a construção finalizada, muda-se para a “Casa do Sol” (nome dado por ela), localizada em Campinas, no Estado de São Paulo, onde se instala em 24 de junho do mesmo ano.

A partir desse panorama contextual e introdutório a respeito da autora, propomo-nos adentrar o universo hilstiano e investigar o problema de pesquisa, que se situa em como o envelhecer e a iminência da morte no conto Agda, do livro “Kadosh”, que se entrelaça e se funda na perspectiva de um envelhecimento sadio e pautado na lei. Assim, o objetivo geral se firma em analisar a falência do corpo com o passar da idade e a sua busca por uma substancialidade de recuperação dentro da narrativa. Os objetivos específicos são: a) averiguar como o corpo envelhece diante das falas de Agda; b) investigar nas fontes segundarias perspectivas de um envelhecimento sadio e c) compreender o entrelaçamento entre a escrita e o respaldo legal.

Com isso, a justificativa se concretiza em não refutar a contribuição literária da autora, mas trazer o seu universo simbológico profundo sobre o processo em discussão e a decadência do corpo. Assim, seguiremos com as obras do Conselho Federal de Psicologia (2009), em “Envelhecimento e Subjetividade: desafios para uma cultura de compromisso social”; Meurer (2019), em “Vivências, retratos e conhecimentos”, e a Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências (Brasil, 2022).

Isso é necessário para desenhar um cruzamento entre a ficção e o retrato do envelhecimento sadio e para tecermos uma análise de dados plausível de conhecimento científico. A metodologia aplicada é de caráter qualitativo, levando em consideração a fonte primária – o conto Agda – e fontes as secundárias, para fazer uma ponte entre a ficção hilstiana e a realidade contemporânea da terceira idade.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A produção da escritora abarcou um período que foi de 1930 a 2004, iniciada com pequenas publicações até o seu ingresso na poesia, em 1950, e o encerramento de sua produção em 2004, com a sua morte. Assim, seguimos para um mergulho em um dos seus textos em prosa, a fim de investigar a sua potência criativa e a degradação humana. Nesse movimento, temos Alcir Pécora, quem se dedicou extensivamente aos tratados da obra da autora, o que implica, de forma significativa, a sua participação dentro desse contexto. A obra ficcional de Hilda Hilst é marcada, predominantemente, pela mistura dos papéis de gênero, pelo fluxo de consciência e pelo obsceno, fomentando que:

[...] num só texto, ou mesmo numa só página, Hilda dispunha de uma vez os gêneros que melhor praticava, por exemplo, incluindo versos na narrativa ou, mais do que isso, imprimindo ritmo à prosa, fazendo predominar a elocução, inclusive a imaginação da prosódia sobre a sequência narrativa (Pécora, 2018, p. 408).

Em certos momentos, o leitor se depara com uma certa dificuldade no entrelaçamento dos papéis, mas, no decorrer da leitura, é inserido na trama, o que facilita o acesso ao material. O seu fluxo de consciência acontece de forma particular. Isso implica que as personagens saltem das páginas, com os seus pensamentos e falas sobrepostas às linhas do narrador, conectando-se diante da narrativa, algo que não acontece em um fluxo de consciência modernista (Pécora, 2018, p. 409).

Esse fluxo não assume uma postura horizontal, mas assimétrica e proposital. Isso implica também a estrutura na narração como um “antinarrador” (Pécora, 2018), que exerce um papel de narrar, mas não de forma singular e sequencial; ocorre com quebras na linguagem e a mesclagem de prosa, poesia, receituários e orientações pouco sensatas. Tais mecanismos foram usados pela escritora como forma de atacar o mercado editorial e fazem parte de um todo quando pensamos na prosa hilstiana.

Com isso, não fica claro se estamos diante de um romance, novela ou conto, pois a estrutura de escrita acontece de forma livre, sem compor um horizonte demarcado e com uma prolongação nada esperada como, por exemplo, em um conto que teria um desfecho. Na narrativa de Hilda, o leitor é surpreendido, pois não se sabe o que está por vir na página seguinte, concebendo uma prosa anárquica única.

Assim, não podemos deixar de mencionar o obsceno que permeia praticamente toda sua produção em prosa, em especial a sua “trilogia”. Longe de narrar apenas o que o leitor espera, ela vai além e desnuda a fragilidade humana, colocando à prova a carne nua e crua em uma trama sexual: “Na prosa de Hilda, os textos escancaram a sua condição incontornável de composição literária e, com isso, logo desmaia qualquer ímpeto sexual direto” (Pécora, 2018, p. 415). Isso assegura ao leitor não uma simples linguagem obscena, mas um desnivelamento da condição humana e o seu declínio, com a condição sexual emergente. Com ela, há a figura paterna que, mesmo ausente na vida da escritora, a guiou como uma bússola em direção à ordem: “Hilda escreve contra a loucura, ela que viu no pai (o pai-gênio, o pai-amante, o paiverbo) o poço do real, esse espaço do horror e do mistério do qual poucos conseguem voltar, lugar de afogamento” (Saavedra, 2018, p. 421).

A figura ausente fez de toda sua trajetória como escritora um impulsionamento a criar. A loucura sempre foi algo que a perseguiu, seja no diagnóstico do pai ou na sua vida como leitora. A sua vida badalada em São Paulo, regada a muita bebida e amigos escritores, rendeu-lhe títulos e menções honrosas. Com a sua mudança, aos 36 anos de idade, para a “Casa do Sol”, Hilda Hilst se dedicou de forma íntegra ao seu denso material literário, mas sempre acompanhada por amigos e pessoas que moraram com a escritora, como Caio Fernando Abreu.

O ato de narrar, em especial dentro da produção hilstiana, atravessa o que esperamos como uma narrativa singular: “[…] quem é o narrador? De que ângulo ele fala? De que canais se serve para narrar? A que distância coloca o ouvinte ou o leitor da narrativa?” (Arrigucci, 1998, p. 11). Esses são questionamentos que fazemos ao adentrar as produções, pois temos como expectativa a velha arte de contar histórias com início, meio e fim.

No entanto, quando alguém nos conta uma piada ou uma anedota, ela se coloca na posição de personificar a personagem, trazendo o máximo de convencimento possível para dar mais ênfase no que está sendo falado. Esse movimento implica viver a cena, que se difere de um outro, que seria apenas narrar simplesmente. Isso gera uma certa dramatização e enriquecimento (Arrigucci, 1998, p. 13).

Nesse direcionamento, cruzamo-nos com personagens que assumem o papel de transbordar o narrador e se colocar como dramaturgos, em que o seu fluxo de consciência é exacerbado. Com isso, não devemos entender a literatura como um espaço exclusivo de grandes obras notáveis que somam seu valor estético a combinações intelectuais em uma estrutura organizada; do contrário, estaríamos nos movendo para um julgamento de valor, que não se aplica à dimensão de obras contemporâneas.

Quando mergulhamos na literatura imaginativa, as limitações que aconteciam a grandes obras do passado não ocorrem atualmente. No entanto, temos um pano de fundo sobreposto a elas e os fatores como o condicionamento social, a língua e ideologias fazem um atravessamento maior em comparação ao do passado (Wellek, 2003, p. 13).

Assim, colocar a prosa de Hilda em um espaço de descontinuidade das obras literárias é rebaixar a produção, pois somos atravessados. A língua é o veículo impulsionador e a matéria-prima, que vai se lapidando na medida em que o escritor é permeado pelo seu entorno. Uma linguagem acadêmica se soma a um valor matemático e a uma lógica esperada, enquanto a linguagem criativa atravessa essa barreira, “[...] a linguagem literária está longe de ser meramente referencial. Ela tem o seu lado expressivo; ela comunica o tom e a postura do falante ou escritor” (Wellek, 2003, p. 15).

2.1. O Erotismo

O erotismo é a essência do homem; logo, ele vai além da simples atividade reprodutora e sexual, transformando o desejo e a atração em um veículo psicológico. Todos os seres sexuados fazem sexo como forma de procriar, mas a espécie humana transforma esse mecanismo em algo além do simples ato. Com isso, Bataille (1987), no seu livro “O Erotismo”, conduz-nos a um entendimento a respeito desse delinear, que se afunila com a produção de Hilst. Com isso, o desejo sempre carrega um impulso de violência que arde em nós; por outro lado, exercemos controle sobre ele, pois somos seres civilizados e o trabalho exerce uma força contrária ao impulso (Bataille, 1987). No entanto, quando somos direcionados ao outro extremo, em que as regras de conduta não controlam, entendemos que “[…] o movimento do amor, levado ao extremo, é um movimento de morte”. Nesse movimento:

Aos olhos do homem arcaico, a violência é sempre a causa da morte: ela pode agir por efeito mágico, mas há sempre um responsável, há sempre assassínio. Estes dois aspectos do interdito são corolários. Devemos fugir da morte e colocar-nos ao abrigo das forças indomáveis que a habitam. Não devemos deixar se desencadear em nós outras forças análogas àquelas de que o morto foi vítima, que o possuem naquele instante (Bataille, 1987, p. 31).

Nesse cruzamento da morte, que é causada sempre por uma violência exercida sobre nós, no conto Agda, a força motriz que a assassina é Cronos, senhor do tempo. Ela é violentada por essa força imanente, que nos cerca a todo instante. O alicerce religioso persegue o erotismo, especialmente no Ocidente, onde a sexualidade é deixada de lado como uma forma de castração da condição humana.

O sacrifício harmoniza a vida dando abertura à morte, em que a vida e a morte se entrelaçam em uma dança. Já a morte carrega o significado do ilimitado (Bataille, 1987, p. 60). No anseio de alcançar essa busca, Agda cai no “buraco”, símbolo da passagem de algo que lhe foi tirado. O sacrifício pode ser entendido como o prenúncio da imortalidade, hoje oferecido pela linguagem: “Na base do erotismo, temos a experiência de uma eclosão, de uma violência que ocorre no momento da explosão” (Bataille, 1987, p. 61). Assim, “O erotismo é, pelo menos, um tema de difícil abordagem. Por razões que não são apenas convencionais, ele é definido pelo secreto” (Bataille, 1987, p. 163). O contato com o erotismo nos coloca frente aos nossos próprios temores e angústias, ao mesmo passo que nos leva ao gozo da satisfação. Caminha-se na contramão da santidade, adentrando à experiência intensa de incluir.

2.2. O Envelhecimento

A discussão sobre os direitos da população idosa se consolidou a partir de 1982, em Viena, na primeira Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento (Corte, 2008, p. 55). No Brasil, em 2008, o Seminário Nacional de Envelhecimento e Subjetividade reafirmou o compromisso social de combater o conceito negativo do envelhecer. Assim, “A população brasileira vem passando por um fenômeno recente que é o seu envelhecimento. Em parte, devido às melhoras nas condições de vida [...]” (Meurer, 2019, p. 13).

O século XX foi considerado da terceira idade, desafiando a sociedade pós-moderna a demandar políticas públicas qualitativas. Com isso, a Lei nº 10.741/2003 (Estatuto do Idoso) traz contribuições essenciais: no “Art. 2º A pessoa idosa goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral […]” (Brasil, 2022, p. 12), reafirmando-se, no Artigo 3º, a obrigação da família e da sociedade em garantir a prioridade ao direito à vida, alimentação e cultura.

Na sociedade atual, permeada pela tecnologia e pelo combate ao envelhecimento inegociável, o idoso é muitas vezes visto como improdutivo. No público feminino, o preconceito é mais acentuado, pois rugas podem indicar uma suposta desqualificação ou traz um viés de uma mulher queixosa e sem sentido para as suas afirmações (Mori, 2008, p. 87). Diante disso, “[…] o corpo por si só não se revela como atributo da velhice, mas uma vez que ela, como estigma, se instala no corpo e passa a inquietar o idoso, onde se expressa o sentimento de um corpo imperfeito, em declínio, enfraquecido, enrugado” (Goldman, 2008, p. 21). No entanto, o incentivo a um envelhecimento sadio vem crescendo, promovendo o protagonismo, colocando como pilar fundamental a família, a comunidade e o poder público para dar voz às pessoas idosas (Telles, 2008, p. 30).

Assim, “O Estatuto do Idoso estabeleceu linhas de ação […], assinalando, no art. 8º, que o envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito social” (Goldman, 2008, p. 19). Envelhecer indica um transbordamento da vida e, embora traga dificuldades, exige um olhar cuidadoso para que esse processo saia da marginalidade.

3. METODOLOGIA

A natureza do artigo científico é de caráter qualitativo, debruçando-se em investigar o conto Agda em Kadosh, de Hilda Hilst, publicado em 1973. Contudo, esse método oferece três diferentes caminhos: pesquisa de ordem documental, estudo de caso e etnografia (Godoy, 1995, p. 21). Assim, será levada em consideração a ordem documental, com “O exame de materiais de natureza diversa, que ainda não receberam um tratamento analítico, ou que podem ser reexaminados, buscando-se novas e/ou interpretações complementares [...]” (Godoy, 1995, p. 21). Para isso, teremos a documentação primária (narrativa) e a segundária (que formam apoio, ao traçar uma outra expectativa de envelhecer).

Assim, a escolha do material para conduzir a pesquisa passa por um processo de delimitação, propósito e ideia, visto que “[...] a abordagem qualitativa, enquanto exercício de pesquisa, […] permite que a imaginação e a criatividade levem os investigadores a propor trabalhos que explorem novos enfoques” (Godoy, 1995, p. 23).

Com isso, o pesquisador se deleita em propor um trato em um dado fenómeno devidamente delimitado e possível de investigação. Diante desse panorama, o trabalho é direcionado a uma pesquisa, que visa reexaminar a fonte primária e cruzar a ficção da escrita com três fontes secundárias, direcionando-nos a uma fusão de dois horizontes, que demarcam uma perspetiva dialética, a qual parte do todo para a parte dele.

A linguagem simbólica de Agda converge em uma discussão plausível de análise para estabelecer o que os autores que investigam a terceira idade trazem a respeito de uma perspectiva científica e real.

O objetivo não é deturpar a narrativa e no seu valor literário, mas somar e traçar uma nova perspectiva para ela. Desse modo, as fontes secundárias que sustentaram a análise se firmam nos seguintes autores: Conselho Federal de Psicologia (2008), em “Envelhecimento e Subjetividade: desafios para uma cultura de compromisso social”; Meurer (2019), em “Vivências, retratos e conhecimentos” e a Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso (Brasil, 2003), conforme supracitado.

Tais referências trazem contribuições necessárias para a promoção de um viés científico, ao qual a literatura e a ciência perpassam na sua essência como marcos constitucionais, psicológicos e legais, a respeito do envelhecimento e da terceira idade.

4. ANÁLISE DOS DADOS

Dentro do contexto da obra “Kadosh”, temos dois textos em prosas intituladas Agda. É importante frisar que a investigação se desdobra em torno da primeira narrativa, situando a personagem no seu envelhecimento e decadência. Logo, a segunda é a sua contrapartida, representando a juventude e a vitalidade.

Assim, no início da narrativa, vemos a personagem dizer: “GUARDA-TE AGDA, é tempo de guardar, o fruto dentro da mão, espia apenas, como poderás tocar com a tua mão amarela esse que diz que te ama” (Hilst, 2018, p. 167), dando-nos indícios de guardar o que restou de sua carne e apontando as mãos que já não são vigorosas, mas amarelas, indicando a apatia da velhice na narrativa. Mais adiante, ela segue:

[…] e as mãos, olha as mãos, chama-se a isso ceratose, filha, é de velhice, primeiro a mancha, depois uma crosta nada espessa, pensas vai passar, o médico sorri, diz começa na meia-idade senhora, é o tempo, a senhora entende? Sorris. O tempo? Sim, esse que ninguém vê, esse espichado, gosma, cada vez mais perto da transparência” (Hilst, 2018, p. 167).

Nesse momento, percebemos o fluxo de consciência da personagem relembrando os dizeres da sua mãe e a consulta feita ao médico, apontando que são sinais de Cronos, o detentor do tempo. Ela sorri e apenas considera que está velha e nada se tem a fazer. Diante disso, um diálogo mais dinâmico com a paciente, levando em consideração as suas fragilidades, poderia ter um outro direcionamento na trajetória de Agda, considerando que “A comunicação é um direito humano que integra e promove a cidadania. Promove a longevidade. Porque, uma vez transformada, torna-se conhecimento capaz de mudar a realidade” (Côrte, 2008, p. 59).

Essa realidade poderia ter sido oferecida a ela com informações acerca do processo de envelhecimento, aconselhamentos e direcionamentos plausíveis de um médico que está em prol do bem-estar dos seus pacientes.

Seguindo na narrativa, ela afirma que: “Agora será sempre o abismo, espio lá no fundo, o que há no fundo? Securas, tudo consumado. Nunca mais. Nunca mais [...]” (Hilst, 2018, p. 168). A juventude foi consumida e, com ela, o gozo pelo prazer à vida. De acordo com Britto (2022), essa ruptura deve ter uma orientação, pois “É salutar que o aumento da expectativa de vida esteja relacionado à melhoria da qualidade de vida [...]” (Britto, 2022, p. 11), que é uma das expectativas abordada pelo Estatuto do Idoso de acordo com a legislação vigente, garantindo que a qualidade não seja perdida mediante o seu processo de envelhecimento, pois a secura e a fragilidade são pontos de atenção que devem ser trabalhados por intermédio de equipes multidimencional.

Ela continua no entrave do seu corpo dizendo que: “NUNCA MAIS deverei ser tocada, e afinal é o corpo esse que não pode mais ser tocado, afinal ele existe, e eu poderia dizer eu sou meu corpo?” (Hilst, 2018, p. 168). O corpo que envelhece é sinônimo de não ter mais garantias e oportunidades de ser desejado. É nesse entrelaçamento que Agda se encontra, sentindo-se abandonada por si mesma, algo que recai sobre o corpo feminino que envelhece, pois: “Ao demandar cuidados, esta mulher acaba se inserindo num modelo de clínica reduzida: hospitalocêntrica, medicocentrada e medicalizada” (Morri, 2008, p. 87). Ao entender esse processo como apenas o ato de medicar e não dar um suporte a essas mulheres para ouvirem seus anseios e desejos, caímos no preconceito velado da mulher que deve ser reprodutiva, com o uso de medicações, por exemplo. Contudo, e a escuta? Como ouvimos os seus amparos e desejos?

A personagem fica em um paradigma do seu corpo, apontando: “O que é a linguagem do meu corpo? O que é a minha linguagem? Linguagem para o meu corpo: um funeral de mim, regado, gordo, funeral de boninas e açucenas, alguém repetindo uma inútil cadência: girassóis para a mulher-menina” (Hilst, 2018, p. 168).

Cabe a ela apenas a espera de um rito funerário final? Para os olhares preconceituosos, a velhice caminha para esse movimento da espera, mas o direito, o respeito e a inviolabilidade da sua integridade física, intelectual, cognitiva, de imagem e autonomia de valores e ideias devem ser espaços de dignidade (Brasil, 2022, p. 16). Assim como nos aponta Pachá (2018): “Depois da velhice vem mais vida. E mais vida. E mais vida” (Pachá, 2018, p. 13), quebrando esse paradigma do velho como “mais um”, sendo ele o protagonista da sua vida, que caminha e, logo à frente, haverá mais vida.

Na sequência, a personagem menciona um dos nomes dados por ela a Deus, esse ser secreto, mas, ao mesmo tempo, permeável, para que faça com que:

ESSA INTEIRA VIVA não acompanhe o corpo, essa é intacta, nada a corrompe, ESSA INTEIRA VIVA tem muitas fomes, busca, nunca se cansa, nunca envelhece, infiltra-se em tudo que borbulha, no parado também, no que parece tácito e ajustado, nos pomos, nas aguadas, no paludoso rico que o teu corpo não vê. ESSA INTEIRA VIVA é que vive esse amor, o corpo não, Agda (Hilst, 2018, p. 168).

A dimensão tomada por ela é que justamente essa força que sente fome, a “Inteira Viva”, permeia tudo, menos o corpo, pois o envelhecimento é o fluxo contínuo da vida que não pode ser interrompido; portanto, a força sobrenatural que se exerce transborda e a atinge, mas não a salva na perspectiva do corpo. Indignada com a flacidez durante a consulta, o médico fala: “[…] não tem solução, minha senhora, a música erudita, quem sabe… seria uma distração… a música erudita lhe é indiferente? Não, pelo contrário, doutor, gosto muito, Stockhausen […]” (Hilst, 2018, p. 169). Sendo Agda uma mulher na casa dos 55 anos e permeada pela sua fragilidade humana, temos como conduta o tempo exercendo o seu poder sobre ela, mas isso não atinge somente a si, mas a todos os seres vivos.

Diante disso, “O envelhecimento é inexorável, mas a velhice é imprevisível. Esta é a dialética do movimento e do desenvolvimento ao longo da vida que não representa um curso contínuo de crescimento e depois de perdas [...]” (Faleiros, 2008, p. 63). Assim, o poder exercido pelo deus do tempo (Cronos) é inegociável, mas isso não implica perdas, mas coletar os frutos de uma vida que está em movimento constante.

Em continuidade à narrativa, temos uma passagem da personagem com o seu pai, que diz: “Agda diga à sua mãe que ela diga ao médico que os sonhos e a memória devem ser devorados, eu ficarei aqui no banco de cimento e alguém vai devorar esses dois, eu vou expelindo assim sonho memória e alguém ao lado vai comendo” (Hilst, 2018, p. 171). Não se trata do envelhecimento da filha em si, mas da recuperação da memória de Hilda Hilst na própria Agda, em que o pai se encontrava no sanatório, ficando, de certa forma, implícitas as duas visitas que a filha fez a ele.

No ápice da narrativa, o pai dá a Agda instruções de como reverter o tempo, dizendo:

[…] perto da casa dos porcos tem uma terra dourada, na segunda estaca, na cerca da direita, cavas. Descobri muito tarde, não deu tempo, tua mãe chamou os homens, tive que ficar aqui, mas tu podes aproveitar, engole a terra dourada, engole, era isso que eu ouvia, engole também, minha filha, mais tarde quando estiveres velha põe um punhado na mão e o objeto-demônio-abominável vai te mostrar outra cara, retrocesso, terra carpida (Hilst, 2018, p. 174).

Nesse movimento, temos um engatilhamento da parada do tempo para a personagem em declínio, acreditando que o “objeto-demônio-abominável” (tempo) pode ser interrompido; mas o tempo é o senhor do movimento e nada pode contê-lo. Diante disso, “A espiritualidade pode ser contemplada na velhice como um dos recursos de enfrentamento para situações adversas, constituindo-se de aspectos emocionais e motivacionais na busca de um significado para a vida” (Maurer, 2019, p. 39). Esse parecer é condizente, pois, sendo um motor condutor bem articulado, promove um olhar diferente ao tempo e ao seu desenhar.

No declínio da narrativa, a personagem Ana conduz os policiais ao desfecho do ocorrido com Agda, dizendo: “Agda pesada vagarosa, mas que fogo, senhores, antes de tudo acontecer, de morrer no buraco [...]” (Hilst, 2018, p. 175). Mesmo com o seu corpo sendo um tabu estipulado por ela mesma, seu desejo sexual não foi atingido, garantindo, assim, que a velhice não é um rompimento para o prazer sexual, mas, pelo contrário, uma aproximação mais íntima dele.

No final da prosa, vemos que a narradora diz: “Vai, Agda, mais para o fundo, Al, vou indo, aquele corpo tênue nunca mais sobre mim, ai nunca mais, vida morte expelida ai eu era lúcida limpa, a carne era lisa […]” (Hilst, 2018, p. 175), expondo o declínio de Agda ao adentrar o buraco com a terra dourada e argumentando que a sua lucidez já está perdida. No entanto, nesse movimento, devemos entender que a lucidez na terceira idade não deve ser vista como um obstáculo, mas como um demonstrativo da fase da vida, pois “Envelhecer é um processo que não se dá somente pela idade, e sim por mudanças físicas, psicológicas, sociais, econômicas e emocionais” (Schlindwein, 2019, p. 78), o que pressupõem um preparo para a nova fase que o indivíduo adentrará.

Para conseguirmos ter uma dimensão mais concisa da análise de dados, a Tabela 1 trará, de forma sistematizada, as apurações feitas do conto Agda e das fontes secundárias. Dentro dessa demarcação feita com a tabela, afunilando a coleta e análise de dados, fica evidenciado que, ao passo que a narrativa nos conduz ao declínio da vida demarcada pela velhice, as fontes secundárias nos asseguram uma ascensão à terceira idade, de não a refutar, mas de abraçá-la como parte integrante da nossa jornada como cidadãos.

Tabela 1 – Consolidação da análise de dados

Hilst (2018)

Conselho Federal de Psicologia (2008)

Meurer (2019)

Brasil (2022)

Preservar o que ainda restou do seu corpo envelhecido.

Traz um olhar pautado na continuidade da vida em movimento, com dignidade e direitos.

Um olhar pautado na ciência, que possibilita uma perspectiva de vida maior na população idosa dos dias atuais.

Traz na sua conduta as oportunidades para a prevenção da saúde física, mental, intelectual e a liberdade com dignidade.

A preocupação com as manchas, aparentando o declínio da juventude.

Traz um empoderamento do envelhecimento com desenvolvimento pessoal e coletivo

O envelhecimento acontece não somente no corpo, mas no desenvolvimento psicológico e emocional, e a interação com seus pares gera a sensação de pertencimento.

O direito assegurado é como dever da família, comunidade e poder público, que deve zelar pela prioridade da vida e não romper com ela. Não como em uma tentativa de reverter, mas de continuidade.

Posição de uma mulher fragilizada e sem amparos psicológicos.

Ressalta um olhar pautado no envelhecimento feminino, mais crucificado que o masculino, atentando-se ao apoio psicológico e condutas médicos direcionadas.

O apoio psicológico às mulheres e ferramentas de reabilitação cognitiva, apoiando-se na interação com os seus pares. Assim, temos mulheres que se reconhecem entre si, para estimular a sua autoestima.

Enfatiza a preservação da imagem, identidade, bem como sua autonomia de valores, ideias e crenças.

Tentativa frustrada de reverter o tempo, engolindo a terra dourada.

Desenha um olhar que a vida não se pauta em buscar o que foi perdido, pois a velhice é o caminhar da vida.

Propõe a troca de experiências com a experimentação de estímulos positivos, para gerar o pertencimento e não o seu descolamento.

A plena participação das atividades culturais para enaltecer a sua memória e identidade cultural, dando sentido à sua vida como contínua.

Fonte: Elaborada pelo autor (2026)

Assim, respondendo à problematização tecida, foi fornecida, de forma contextual e segmental à narrativa, a perspectiva que a personagem Agda tem em relação ao seu envelhecimento, sendo ele um declínio à mortalidade e ao degredo. Para fundamentar e articular de forma a desenhar como podemos envelhecer de forma sadia e encarar essa fase da vida de forma significativa, as fontes secundárias foram de extrema importância, dando-nos substancialidade para entender que a velhice deve ser celebrada, e respeitada como parte integrante da condição humana. Trazendo para fortalecer essa conduta, a Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, que pauta o Estatuto do Idoso, ajudou-nos a entender que todos temos direitos e deveres, sobretudo no que tange aos idosos. Devem, portanto, ser promovidas condutas de igualdade e não um desnivelamento ou rebaixamento.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A investigação trouxe à tona a prosa hilstiana, observando-se, na primeira narrativa do livro Kadosh, intitulada “Agda”, o desamparo, preocupação da personagem com o declínio do corpo e o envelhecimento iminente ao ser humano. Tal condição carrega marcas profundas de angústia e perda de identidade, configurando um atentado ao reverter do tempo, em uma tentativa simbólica de engolir a “terra dourada”. Esse gesto remete ao retorno ao útero materno, como uma oportunidade de resgate e de assumir uma nova identidade pautada na juventude, à qual ela não possui mais acesso.

Assim, caminha-se para a morte. Esse retrato expõe o quanto o papel da juvenilidade, na atualidade, tem se mostrado como uma nova identidade fixa e permanente; o ato de envelhecer e o aparecimento das rugas demarcam o degredo do indivíduo. Diante disso, somos constantemente bombardeados pela mídia imediatista com recursos tecnológicos e cosméticos, que visam combater algo que é, em essência, o nosso processo natural.

Contudo, dentro desse contexto, devemos fazer uma ressalva: o cuidado adequado pelo uso de cosméticos, proteção solar e procedimentos dermatológicos implica preservação e autocuidado. Assim, não se deve adotar uma postura extremista ou combater radicalmente esses mecanismos. Devemos nos empoderar da nossa identidade e assumir, à medida que envelhecemos, que os desafios percorridos fazem parte da nossa trajetória de vida.

Nesse sentido, seguindo as fontes secundárias, obteve-se um parecer tanto conceitual quanto legal a respeito dessa fase da vida. Ressaltando o Estatuto do Idoso, foi possível observar que, além do respaldo jurídico e das garantias de acessibilidade, as pessoas nessa faixa etária desfrutam de direitos, dignidade e protagonismo, como deve ser.

Em uma sociedade que, a cada dia, está mais permeada pela informação e pela quebra de paradigmas, é de extrema importância olharmos para os nossos próprios preconceitos estabelecidos em relação ao público da terceira idade. Esse olhar não deve focar no “ponto final” da vida, mas em um passo a ser dado rumo à satisfação e ao gozo pelo que está por vir.

A reflexão proposta pelas obras do Conselho Federal de Psicologia (2009), em “Envelhecimento e Subjetividade: desafios para uma cultura de compromisso social”, e Meurer (2019), em “Vivências, retratos e conhecimentos” demonstrou de forma precisa que a vida é contínua e ininterrupta. As obras demarcam a valorização do corpo que envelhece e a sua relação com as redes de apoio, que se estabelecem no decorrer da existência. O objetivo é garantir, cada vez mais, um espaço de diálogo e trazer o protagonismo à tona, retirando das sombras os estereótipos impressos no nosso imaginário e em contextos culturais que enxergam esse fenômeno apenas como um declínio.

Assim, a prosa de Hilda Hilst trouxe a reflexão sobre a personagem, com os seus questionamentos e angústias. Contudo, diante de um olhar pautado na investigação, no acolhimento e na escuta ativa, o desfecho de Agda poderia ter sido diferente. No entanto, a obra é precisa para compreendermos como o universo simbólico, associado à investigação de cunho psicológico e legal, possibilita a construção de um novo olhar sobre a vida e a velhice.

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1 Graduado no Curso Superior de Letras – Língua Portuguesa, do Instituto Universidade Virtual do Estado de São Paulo – UNIVESP, Campus José Bonifácio – SP. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.