REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791101334
RESUMO
A diaconia é entendida como serviço fundamentado no exemplo de Jesus, especialmente em Mateus 20.20-28: “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida para salvar muita gente”. Em grego bíblico, diakoneo = “servir às mesas”, associado a tarefas de escravos e mulheres. No Novo Testamento, ganha novo sentido: serviço humilde, baseado no amor e na dignidade humana. Em definição ampliada pode significar ação de misericórdia, justiça, solidariedade, parceria e até ação política. Jesus redefine o “servir” como prática voluntária de amor, não de dominação. Sua vida, morte e ressurreição são vistas como o ápice do serviço diaconal. O servir é ligado ao resgate da dignidade e à construção de relações fraternas. As primeiras comunidades viviam em comunhão, partilha e cuidado mútuo, conforme Atos 2.42 e em Atos 6 temos a Instituição dos diáconos (para atender necessidades materiais. Paulo destaca o papel das mulheres (Febe, Dorcas, Lídia) como líderes e praticantes da diaconia. A diaconia é vista como movimento contínuo, essencial para enfrentar desigualdades, violência e individualismo. O imperativo de Jesus desafia a igreja a servir sem buscar poder, inspirando justiça, equidade e amor. Diaconia é um serviço de amor e dignidade, inspirado no exemplo de Jesus, vivido nas comunidades primitivas e ainda fundamental para a missão da igreja hoje.
Palavras-chave: Diaconia; servir; amor.
ABSTRACT
Diakonia is understood as service grounded in the example of Jesus, particularly in Matthew 20.20–28: “the Son of Man came not to be served but to serve, and to give his life to save many people.” In biblical Greek, “diakoneo” means “to serve at tables,” a task associated with slaves and women. In the New Testament, it takes on a new meaning: humble service based on love and human dignity. In a broader sense, it can signify acts of mercy, justice, solidarity, partnership, and even political action. Jesus redefines “serving” as a voluntary practice of love rather than domination. His life, death, and resurrection are viewed as the pinnacle of diaconal service. Serving is linked to the restoration of dignity and the building of fraternal relationships. Early communities lived in fellowship, sharing, and mutual care, as described in Acts 2.42; Acts 6 records the institution of deacons to address material needs. Paul highlights the role of women (Phoebe, Dorcas, Lydia) as leaders and practitioners of diaconia. Diaconia is seen as an ongoing movement, essential for confronting inequality, violence, and individualism. Jesus’s imperative challenges the church to serve without seeking power, inspiring justice, equity, and love. Diaconia is a service of love and dignity—inspired by Jesus’s example, lived out in early communities, and still fundamental to the church’s mission today.
Keywords: Diakonia; serving; love.
1. INTRODUÇÃO
O presente artigo é uma pesquisa de revisão bibliográfica, mas leva em conta a experiência de prática diaconal e pastoral em comunidade por parte dos autores. A atuação diaconal precisa estar em constante interação com o ministério da pregação e do ensino, mas também ancorada na fundamentação bíblica. A diaconia se manifesta na maioria das comunidades cristãs como atitudes de misericórdia, compaixão e amor para com as pessoas mais necessitadas e ultrapassa o âmbito da comunidade, atuando para além dela num contexto social a ser transformado. O foco da diaconia sempre será um serviço de amor desinteresseiro.
Na longa caminhada dos autores e autora da presente pesquisa, atuando em contextos urbanos e rurais, percebe-se uma luta constante pela dignidade das pessoas mais sofridas. A convivência diária com as pessoas nas comunidades, na perspectiva de aliviar sofrimentos e superar dificuldades para a restauração da dignidade de vida, é essencialmente diaconia. Nas diversas passagens neotestamentárias, Jesus motiva um novo jeito de ser e agir, de fazer diaconia, com sua prática.
A pesquisa, bibliográfica (Gil, 2017, p. 44), tem como tema a diaconia, como um imperativo de serviço e parte de texto do Evangelho de Mateus 20.20-28, em sua culminância no versículo 28: “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida para salvar muita gente”4. O "servir" de Jesus contrasta com a lógica de dominação, também explicita no texto pela ação dos discípulos. A partir do imperativo do "servir", será abordada uma definição de diaconia, também referencias em outros textos dos Evangelhos, em Atos dos Apóstolos e nas cartas paulinas, serão utilizados, para observar a prática diaconal ali presente.
2. UMA CONCEITUAÇÃO DE DIACONIA
É a base de sustentação teórica de um trabalho acadêmico. Reflete o nível de envolvimento do autor com o tema. Trata-se da apresentação do embasamento teórico sobre o qual está fundamentado a sua pesquisa.
Considerando os objetivos do presente estudo, propõe-se uma conceituação de diaconia a partir do texto de Mateus 20.20-28, das comunidades primitivas em Atos dos Apóstolos e a partir das cartas paulinas, como já foi colocado acima.
2.1. Compreensão de Diaconia
Conforme Sissi Georg, o termo diaconia deve ser compreendido como "servir às mesas".
As palavras diakoneo, diakonia, diakonos são traduzidos por palavras como servir, serviço, servo; assistir, assistência; ministério. O significado fundamental do termo grego diakoneo é “servir às mesas” e no seu uso secular refere-se a tarefas que cabem a escravas e escravos, ou às mulheres, como os preparativos para a refeição, pôr a mesa e servi-la, proceder a limpeza. (Georg, 2006, p. 22).
Rodolfo Gaede Neto, fazendo uso do termo diakonein, escreve que originalmente esse termo significa "servir à mesa". E este servir à mesa é, por sua vez, designado diakonein. Gaede Neto ainda atribui aos autores Hermann Wolfgang Beyer, Alfons Weiser e Klaus Hess, conforme estes, um significado mais amplo que inclui "providenciar os gêneros alimentícios", sua preparação diária para o consumo e a organização das refeições, ou seja, diakonein, quer dizer "cuidar da subsistência" (Gaede Neto, 2021, p. 69). No mundo grego, a diakonein era entendida como sendo função a ser desempenhada pelas mulheres (Gaede Neto, 2008, p. 288). Entendia-se ainda que, o servir à mesa tratava-se de uma ação que envolve sujeição pessoal que era considerada indigna e desonrosa, para o pensamento grego, "um sentido negativo". (Gaede Neto, 2021, p. 69). O pensamento grego, segundo Gaede Neto, “para quem busca a felicidade na grandeza, na sabedoria, na nobreza, no senhorio, na dominação, a função de um escravo ou de uma mulher é indigna”. (Gaede Neto, 2021, p. 69). Seu lema é: "Dominar, e não servir, é digno de um homem", ou ainda: "Como poderia um homem ser feliz se precisa servir alguém?" (Gaede Neto, 2021, p. 69).
Segundo o Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, o substantivo diaconia expressa uma determinada ocupação. Isso quer dizer algum tipo de serviço ou mesmo um cargo. Nesta citação, Hess aborda, especificamente, quem assume este serviço: “diákonos denota a pessoa que leva a efeito a tarefa. Logo, o significado primário no grego secular era um garçom, e assim é usado mais tarde com referência às refeições rituais”. (Hess, 1983, p. 449).
No Novo Testamento, a tarefa de preparar a comida e servir é trabalho destinado, principalmente, aos escravos e escravas. E este servir à mesa é, por sua vez, designado diakonein. Mesmo assim, a tarefa das pessoas escravas é ainda mais ampla: Conforme João 13.4, pressupõe que escravos e escravas lavam os pés das pessoas convidadas para a ceia”. (Gaede Neto, 2021, p. 70). Porém, na ausência de escravos e escravos, a tarefa de preparar a comida e servir era destinada às mulheres. Nesse caso, “se o diakonein é realizado por uma mulher, então ela precisa esperar a ceia terminar, para comer depois”. (Gaede Neto, 2021, p. 70). Conforme o autor o conceito de diaconia que o próprio Jesus conheceu: um trabalho que, quando não exigido de escravas e escravos, era atribuído às mulheres. (Gaede Neto, 2021, p. 72).
A diaconia é o serviço propriamente dito. Essencialmente é o serviço que traz o caráter de humildade, o olhar, o serviço à pessoa próxima. O cuidado baseado no amor de Cristo, "demonstrado na vida da igreja e irá, por meio da misericórdia, respeito e solidariedade, atender o ser humano e sua vulnerabilidade". (Oftestad, 2023, p. 31). A diaconia como prática de amor e acolhimento desdobra-se na necessidade de uma inclusão transversal da diversidade humana, na qual a comunidade cristã é chamada a romper com barreiras e promover a plena dignidade social e educacional de sujeitos em situação de vulnerabilidade (Klemz, 2019).
No Documento n° 4 da IECLB/1988 e no PAMI (DIACONIA EVANGÉLICA DOCUMENTO, nº 4, IECLB, 1988.), encontramos a seguinte definição para Diaconia: "Diaconia é uma ação de misericórdia e justiça e acontece através de assistência, solidariedade, parceria e ação política". Ou seja, diaconia é: Ação de misericórdia: tem olhos, ouvidos, sentimentos para a dor, é sensível. Ação de justiça: é sensível para os direitos das pessoas. Inclui anúncio e denúncia. Tem forma de assistência: está próxima de quem sofre. Tem forma de solidariedade: ajuda a aliviar dores, faz com o outro e não para o outro. Ação de misericórdia: têm olhos, ouvidos, sentimentos para a dor, é sensível. Tem forma de parceria: atua com outras instituições, fomenta a cooperação. Nessa perspectiva, Homero Severo Pinto, afirma que a diaconia tem forma de ação política: cristãos e cristãs se envolvem na política, em conselhos de direitos, em movimentos sociais. (PINTO, 2008, p. 46.).
Portanto, diaconia é movimento, envolve pensar no ser humano, no dedicar, no aproximar, conhecer e servir a outra pessoa. Diaconia é direcionar o foco no ser humano em todas as suas necessidades. Nesse contexto, a misericórdia deixa de ser mero assistencialismo e passa a figurar como um paradigma ético e político central para a teologia contemporânea, capaz de responder ao individualismo e de restabelecer o compromisso comunitário com a alteridade e a justiça social (Klemz, 2025).
A diaconia tem a ver com a vida do nosso dia a dia. Nas relações diárias tecemos o nosso envolvimento com as pessoas em favor da dignidade, de viver uma vida com maior sentido. Não é possível separar a vida da pessoa em pedacinhos e tratar aquilo que é possível no momento. Ela é um todo. O cuidado diaconal exige uma escuta sensível do ser humano em sua integralidade, promovendo o diálogo interdisciplinar entre a assistência pastoral e o acolhimento das demandas emocionais e subjetivas do indivíduo (Klemz; Herbes, 2021). Importa dizer que a fé se manifesta numa ação concreta, numa atitude de cuidado, de dignidade. Conforme o propósito do próprio Cristo, quando afirma: "Eu vim para que tenham vida e vida em abundância" (cf. João 10.10). Por isso, a diaconia como serviço, a partir da fé, exige participação social. Busca o engajamento nas lutas contra a destruição dos direitos trabalhistas e previdenciários, por vida plena para todas as pessoas. A luta é diária para a criação de uma sociedade mais justa e humana.
2.2. O Servir de Jesus com Um Novo Sentido
O relato de Mateus 20.20-28 pode ser compreendido como uma proposta aos discípulos, para levá-los à reflexão sobre a nova relação, que viria a ser a motivação das suas atitudes e exemplo de convivência, a partir do serviço, tendo por orientação a palavra de Jesus. Palavra esta que nos revela a grandeza da sua obra salvífica e, também, a dimensão do amor de Deus pela humanidade. Num contexto em que a escravidão era ainda uma realidade, é importante aprofundar o sentido que Jesus deu quando se refere ao "servir".
20 Então a mãe dos filhos de Zebedeu chegou com os seus filhos perto de Jesus, curvou-se e pediu a ele um favor.
21 — O que é que você quer? — perguntou Jesus.
Ela respondeu:— Prometa que, quando o senhor se tornar Rei, estes meus dois filhos sentarão à sua direita e à sua esquerda.
22 Jesus disse aos dois filhos dela:
— Vocês não sabem o que estão pedindo. Por acaso vocês podem beber o cálice que eu vou beber?
— Podemos! — responderam eles.
23 Então Jesus disse:
— De fato, vocês beberão o cálice que eu vou beber, mas eu não tenho o direito de escolher quem vai sentar à minha direita e à minha esquerda. Pois foi o meu Pai quem preparou esses lugares e ele os dará a quem quiser.
24 Quando os outros dez discípulos ouviram isso, ficaram zangados com os dois irmãos.
25 Então Jesus chamou todos para perto de si e disse:
— Como vocês sabem, os governadores dos povos pagãos têm autoridade sobre eles, e os poderosos mandam neles.
26 Mas entre vocês não pode ser assim. Pelo contrário, quem quiser ser importante, que sirva os outros,
27 e quem quiser ser o primeiro, que seja o escravo de vocês.
28 Porque até o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para salvar muita gente.
Em geral, o texto de Mateus 20.20-28 é considerado como um referencial na ação diaconal de Jesus. “Se diaconia é a vivência da fé no amor, se é uma forma de comunhão”, [...] cabe estudar e conhecer o Cristo “Diácono”. (Beulke, 1997, p. 20). O versículo 28, pode ser considerado o resumo da ação de Jesus. Ele mesmo diz: o Filho do Homem não veio para ser servido (diakonetênai, em grego), mas para servir (diakonésai) e dar sua vida para salvar a muitos. Os termos gregos são conjugações do diakonein (= servir). Jesus, portanto, se autodenomina o "diákonos" (= servidor). (Gaede Neto, 2021, p. 46-47).
O dicionário traduz o termo também como garçom, servo ou serva, administrador, ministro. (Taylor, 1983, p. 55). Jesus, portanto, não se identifica como escravo (doulos) mas como aquele que serve. Em Marcos 9, há a referência ao servir como não estar em primeiro lugar. "O termo diákonos passa a ser combinado com a expressão ser o último". (Starnitzke, 2013, p. 34-35). O último, nesse caso, será o servidor (doulos) (Gaede Neto, 2021.p. 46-47). Como entender esse conceito? Jesus estaria defendendo uma nova "escravidão", agora não mais impositiva, mas voluntária? Ou qual o sentido do servir de Jesus? Por natureza, a igreja é diaconal sob a palavra do Senhor, “pois anuncia o novo ser trazido e operado por Cristo e nele mesmo”. (Schneider-Harpprecht, 2011, p. 253).
2.3. O Servir a Partir do Propósito de Deus em Resgatar a Humanidade
Na resposta à pergunta anterior, sobre o sentido do servir de Jesus, torna-se necessário perceber o sentido central da missão de Jesus.
A fundamentação teológica da Diaconia está na ação salvífica de Deus a favor do ser humano, que tem, no seu auge, a encarnação de Cristo, especificamente na sua paixão, morte e ressurreição. Jesus Cristo – em sua encarnação, morte e ressurreição - é o ápice da revelação. O Verbo de Deus que se torna carne (João 1) nasceu humilde, andou entre os humildes, teve um estilo de vida diaconal, demonstrou seu poder e controle sobre a natureza e, no cume do seu serviço, entregou-se à morte na cruz (Filipenses 2), vencendo-a ao terceiro dia. Dessa forma, o que justifica teologicamente a diaconia é a Cristologia: a morte de Jesus na cruz como um serviço para demonstrar o amor libertador de Deus que transforma o ser humano e o mundo (João 3.16). (de Oliveira Gervásio, 2022, p.5).
O texto aponta para a centralidade do ministério de Jesus de maneira resumida em diferentes textos bíblicos. No Evangelho de Mateus percebemos que
[...] toda a ação de Jesus de restaurar a vida e a dignidade de pessoas necessitadas e humilhadas é a do servo que 'leva nossas enfermidades e carrega nossas dores' (Isaías 53.4). É assim que ele se levanta como luz a brilhar quem está esmagado em regiões de trevas (cf. Isaías 8.22-9.1; 49.1-7). (Gameleira Soares, 1999, p. 209).
Além disso, podemos observar a identificação de Jesus com todas as pessoas necessitadas, pessoas famintas, pessoas sedentas, estrangeiros e estrangeiras, as pessoas sem vestimenta, pessoas presas, pessoas doentes, como as quais ele se identifica (cf. Mateus 25.35.36). A culminância da ação de Jesus acontece com a ressurreição, o resgate pleno da vida. Nesse sentido, "a missão de Jesus é declarar por gestos e palavras a boa nova do reino de Deus entre nós... é a boa notícia da vitória de Deus, que afirma sua realeza e soberania". (Gameleira Soares, 1999, p. 211).
A partir do exposto, pode-se considerar que Jesus não incentiva os seus discípulos e as suas discípulas a ambicionar o poder e se impor sobre as outras pessoas, essa é a perspectiva humana de dominação, como veremos a seguir. Jesus desafia seus discípulos e suas discípulas a inverter a lógica do poder mediante o serviço fraterno. Compreender esta proposta de Jesus, é procurar libertar as pessoas de seus males, assim como Ele fez ao longo de sua missão. O desejo de poder sobre os outros e as outras deve ser substituído pelos gestos de amor a serviço da pessoa, no resgate de sua dignidade. Assim sendo, o servir, do ponto de vista de Jesus, não pode ser conceituado como uma nova escravidão "voluntária". Não se trata de um servir a dominadores, mas um servir a serviço dos pobres, doentes e necessitados.
Nordstokke reforça a questão da autoridade revestida na diaconia: "A diaconia como autoridade nunca deve ser autoridade sobre os outros, mas autoridade para algo que é importante e desejado por Deus. É autoridade para dignificar os excluídos, para construir a cidadania, para promover justiça e paz". (Nordstokke, 2003, p.143).
Desse modo, pode-se dizer que os discípulos e as discípulas, ao servir, ensaiam uma nova forma de relacionamento com os critérios do Reino de Deus, trazidos por Jesus. Ou seja, o servir está intimamente ligado ao resgate da vida e isso, por si só, é uma dádiva divina e, portanto, não mensurável nos termos da sociedade da época. Jesus, por amor à humanidade, assume a condição de servo. Sua condição obediente está intimamente ligada a Deus.
O divino nos faz humanos(as), como aconteceu com Jesus: porque era da condição divina, esvaziou-se a si mesmo, foi em tudo achado em forma humana, chegando a assumir a condição de servo, fazendo-se em tudo obediente até à morte e morte de cruz (cf. Fl 2,5-11; Hb 4,14-16). (Gameleira Soares, 1999. p. 212).
Assim, podemos afirmar que o servir de Jesus não é idêntico ao servir à dominação, mas está intimamente ligado à dimensão comunitária e ao resgaste à dignidade e do novo sentido de vida. Essa deve ser a característica e o critério da vida dos discípulos e das discípulas.
2.4. O Ensino de Jesus e as Comunidades Primitivas
A questão a ser investigada aqui é sobre como as primeiras comunidades, sobre as quais temos relatos bíblicos, enfatizaram o serviço diaconal ensinado por Jesus. Sobre a comunidade de Jerusalém, em Atos 2.34, lemos: "Não havia entre eles nenhum necessitado". Gottfried Brakemeier, relata três textos importantes da vida da primeira comunidade em Jerusalém. Os textos, Atos 2.42-47; 4.32-37; 5.12-16. As primeiras comunidades se formam seguindo os ensinamentos propostos pelos apóstolos, na tentativa de viver segundo os ensinamentos e a prática de Jesus. Segundo Gottfried Brakemeier,
trata-se de sumários, isto é, de unidades literárias que têm a forma de resumos formulados por Lucas com base em algumas breves notícias históricas que a ele vieram da tradição. As características da primeira comunidade podem ser descritas assim, conforme o texto: a) perseveravam na doutrina dos apóstolos; b) cultivavam a comunhão entre os irmãos e as irmãs, também de bens; c) partiam o pão (Santa Ceia) nas casas; d) a oração era prática assídua; e) testemunhavam os sinais e as maravilhas feitos pelos apóstolos. (Brakemeier, 1985, p.7).
Assim, conforme Brakemeier aponta, a vida comunitária, demonstrada em Atos 2.42-47, demonstra uma comunhão exemplar. (Brakemeier, 1985, p.7). A comunidade de Atos parece empreender esforço para concretizar o projeto de amor de Cristo: "Eu lhe dou este novo mandamento. Amem uns aos outros, assim como eu os amei, amem também uns aos outros" (cf. João 13.34). É um projeto igualitário e fraterno de Cristo, caracterizando a atuação da comunidade. Esse novo jeito de viver atrai a simpatia de muitas pessoas; o movimento cresce com gente de todas as partes do mundo.
Sempre estavam em função de anunciar a palavra de Deus, animar a comunidade, cuidar os pobres. Identificavam a presença do Espírito Santo através dos sinais e maravilhas que os apóstolos realizavam, que alegra, anima e fortalece a comunidade. Muitas pessoas que creram em Cristo eram fiéis à escuta da palavra de Deus, na celebração do partir do pão e nos encontros de oração nas casas, na partilha e na ajuda a quem tivesse necessidade. (Brakemeier, 1985, p. 8). Não só a comunidade de Jerusalém vive na perspectiva da partilha comunitária. A necessidade da comunhão se faz presente em outras comunidades, como, por exemplo, a comunidade em Corinto.
A ausência de solidariedade prejudica a vida de pessoas e a comunhão deve ser restabelecida, como nos aponta o texto de 1 Coríntios 11.33: "Portanto, meus irmãos, quando vocês se reunirem para a Ceia do Senhor, esperem uns pelos outros". Na medida em que as comunidades vão assumindo essa nova realidade de comunhão, as antigas práticas individualistas, aos poucos vão sendo substituídas pela nova realidade da convivência comunitária. Anelise Lengler Abentroth escreve: "a vida unânime e partilhada mudaria o rumo da sociedade". Na mesma direção, a autora aponta, a partir de 1 Coríntios 3.9, que se estabelece uma forma de convivência de um povo reconciliado, alegre, simples, com consciência de que são a "Casa de Deus". (Abentroth, 2024).
Percebemos que essa maneira de viver comunidade colocava por terra os valores vigentes da sociedade, defendidos pelo Templo e suas lideranças judaicas. Sem Templo, vai se formar um povo reconciliado alegre, simples, com consciência de que são a “Casa de Deus”, e isso ninguém lhes pode arrancar. Lucas retoma o projeto igualitário e fraterno de Cristo. Esse novo estilo de vida atrai a simpatia de muitos; o movimento cresce com gente de todas as partes do mundo. (Abentroth, 2024).
Ao que Abentroth expõe compreende-se que os ensinamentos do Cristo ressuscitado, agora sendo vivenciado na prática com o ensino e atuação dos apóstolos, inicia-se uma nova realidade nas comunidades dentro do projeto de Deus, sem exclusões, sem acúmulo de bens e na perspectiva do cuidado mútuo. Jesus transforma a diaconia num modelo a ser praticado pelo discipulado numa perspectiva igualitária. O exemplo parte, em primeiro lugar de Jesus, onde ele vai ao encontro das pessoas marginalizadas e abre espaço também para que elas venham até Ele.
Conclui-se que o serviço diaconal torna-se cada vez mais necessário e precisa ser organizado, na medida em que surgem dificuldades. Os apóstolos têm o propósito de anunciar a Boa Nova de Cristo. A comunidade enfrenta problemas com o auxílio adequado às viúvas. É a problemática que precisa ser enfrentada, como veremos a seguir.
Em Atos dos Apóstolos, surge uma queixa de um grupo de viúvas que tinha sido esquecido e não receberam a devida atenção na distribuição do dinheiro (cf. Atos 6.1). Para resolver a questão, foram escolhidos os diáconos para se ocupar da referida tarefa, uma vez que os apóstolos não conseguiam anunciar a Palavra de Deus e se ocupar da questão do dinheiro (cf. Atos 6.2). Para os cuidados com as questões materiais e cuidado com as pessoas mais necessitadas, foram instituídos os diáconos. Aqui a comunidade começa a organizar o serviço diaconal. Esse, a rigor, é o ministério de Jesus, o servir. (Nordstokke, 1995, p. 52-53).
A fé no Cristo ressuscitado experimentado na comunidade primitiva, faz surgir um novo comportamento, a atitude de amar, servir e de agradecer pelos dons recebidos de Deus. Destaca-se na história das comunidades cristãs, a partilha e a prática do serviço comum, por causa do amor sendo dom maior (cf. 1 Coríntios 13.13). A partir disso, a igreja precisa ser lembrada do seu compromisso com as pessoas pobres, das implicações do mandamento do amor e do critério do próprio Cristo quando ele diz: "... sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer" (cf. Mateus 25.45). Não tem como ser comunidade de Jesus sem preocupar-se com os necessitados. A partir do amor de Deus revelado na ressurreição de Cristo, instrumento fundamental para a edificação da comunidade e à transformação das estruturas e sistemas. (Brakemeier, 1985, p. 6).
Brakemeier pergunta: “Será possível, pois, alcançar o objetivo de erradicar pobreza e necessidade sem engajamento sócio-político [sic]? Pergunta-se pelo tipo de serviço exigido pelo evangelho e pela situação concreta”. (Brakemeier, 1985, p. 6). A resposta não é simples e nem direta. Certamente, a erradicação da fome ultrapassa a comunidade.
A experiência das primeiras comunidades, no entanto, pode ser inspiradora na organização social e econômica, em especial na complexidade das sociedades atuais. O que se manifesta na experiência das primeiras comunidades é dimensão comunitária, que leva à partilha segundo as necessidades das pessoas. Mas, tal partilha ainda é de uma dimensão bastante restrita e motivada pela esperança própria da comunidade, ainda não suficiente para uma transformação social mais ampla. Esta última, certamente, necessita de ações mais amplas.
2.5. Comunidades Paulinas
Os escritos dos evangelhos de Lucas 8.1-3 e Marcos15.40-41, atestam a importância das mulheres na vida das primeiras comunidades e o respeito que a comunidade tinha por elas. Assim como também Atos dos Apóstolos registra várias mulheres em oração: "Eles sempre se reuniam todos juntos para orar com as mulheres, a mãe de Jesus e os irmãos dele" (cf. Atos 1.14).
E entre a multidão que ouvia a pregação dos apóstolos: "Uma multidão de homens e mulheres também creu no Senhor e veio aumentar ainda mais o grupo" (cf. Atos 5.14). Na cidade de Jope havia uma seguidora de Jesus chamada Tabita. (Este nome em *grego é Dorcas). Ela usava todo o seu tempo fazendo o bem e ajudando os pobres" (cf. Atos 9.36). Maria, mãe de João (cf. Atos 12.12), Lídia, que foi batizada juntamente com sua família (cf. Atos 16.14-15).
Nas cartas de Paulo Apóstolo temos muitas referências a mulheres. Entre elas estão as mulheres que “abraçam os ensinamentos do Senhor” (Figueiredo, 1984, p. 17) (cf. Romanos 16.1-12), transparece a igualdade entre mulheres e homens (cf. Gálatas 3.28), denomina Febe de diaconisa em meio a vários outros nomes de mulheres (cf. Romanos 16).
Assim, a partir das cartas de Paulo Apóstolo surgem informações a respeito de novas maneiras de praticar diaconia, "a diaconia como um serviço especial na igreja". (Oftestad, 2023, p. 122). Em 2 Coríntios 8-9, o apóstolo Paulo motivou uma oferta da comunidade de Corinto para socorrer os cristãos em Jerusalém. Em Romanos 16, Febe praticou hospitalidade, abriu sua casa para os necessitados e assim deu um exemplo de diaconia hospitalar. Dorcas não hesitou em juntar seus recursos e dons para costurar roupas para pessoas empobrecidas.
Considerando o que escreve Elisabeth Schüssler Fiorenza, as mulheres que seguiram Cristo desde a Galileia, não só foram decisivas para estender o movimento de Jesus ao povo, mas também para a própria continuação deste movimento depois da prisão e execução de Jesus. As mulheres não fugiram. Permaneceram em Jerusalém para sua execução e seu sepultamento. Essas mulheres foram também as primeiras a articular sua experiência da bondade poderosa de Deus que não deixou o Jesus crucificado na sepultura, mas o ressuscitou dentre os mortos. (Fiorenza, 1992, p. 173-174).
São elas as testemunhas da cruz, do corpo levado à sepultura e da ressurreição de Jesus. As primeiras pessoas a quem a verdadeira identidade do Cristo sofredor foi revelada são aquelas as quais Jesus sempre esteve mais próximo, "com os últimos", os escravos, as crianças, os gentios as mulheres, tornam se os paradigmas do verdadeiro discipulado. Schüssler Fiorenza conclui que havia um discipulado de iguais, onde mulheres e homens, movidos pela causa do Evangelho, desempenhavam liderança nas primeiras comunidades. (Fiorenza, 1992, p. 173-174).
O papel das mulheres, especialmente, nos primórdios da Igreja cristã foi de fundamental importância. Durante os séculos, a diaconia assumiu formas diferentes, mas sempre expressou a mesma identidade e o mesmo objetivo: defender a vida e a solidariedade com as pessoas mais necessitadas, no cumprimento do ensino de Jesus, Senhor da vida. Tal propósito se faz relevante também nas comunidades que foram surgindo e também ainda nos dias atuais, apesar de tantas expressões de individualismos e ameaças à vida que impactam severamente o espírito comunitário diaconal.
3. CONCLUSÃO
O servir de Jesus está intimamente ligado à dimensão comunitária e ao resgaste da dignidade e do novo sentido de vida, não por imposição ou dominação, mas por amor. O "Diácono" Jesus Cristo, Deus se tornou humano, fez morada entre as pessoas, para servir. Por isso, a diaconia sempre foi e será um ministério em movimento, que desafia a vivência pessoal, familiar e comunitária, em direção à pessoa próxima necessitada.
O ensino e a prática de Jesus estão em constante sintonia com o servir e anúncio da Boa Nova. Nesse sentido, Evangelho de Mateus 20.20-28 relata fundamentalmente o serviço na vida comunitária e da própria história salvífica. Ao perceber que dois irmãos discípulos ainda precisam aprender uma lição fundamental dentro dos critérios do Reino dos Céus, onde a exaltação de si mesmo e a busca pelo poder não constroem uma nova realidade. Jesus colocou-se a si mesmo como exemplo. Ele fora enviado para ser "diáconos” (= servidor), com propósito definido de resgatar a humanidade e, para isso, se tornou servidor com sua própria vida. Essa deveria ser a lógica motivadora de seus seguidores e seguidoras.
A descoberta de uma imagem amorosa de Deus conforme a que nos foi revelada em Jesus Cristo, proporciona a experiência da vida comunitária de seguidores e seguidoras e também das comunidades atuais, que se colocam ao serviço em favor da vida reconciliada com Deus e seus semelhantes. A diaconia de Jesus transformou situações de sofrimento e apontou para um jeito diferente de viver. Como um espaço de convivência, respeito, harmonia e criatividade. O ensino de Jesus, seu imperativo do servir, foi levado como missão e encontra espaço essencial nas comunidades primitivas e também está bem fundamentada nas práticas das comunidades subsequentes, como se pode observar na cartas paulinas.
O imperativo de Jesus deve ecoar nos dias atuais. A partir daí, a igreja tem grande desafio, pois o servir é de fundamental relevância em meio a realidades de violência, sofrimento e individualismo. Uma comunidade cristã, a exemplo do sentido colocado por Jesus aos discípulos, não pode inspirar-se numa relação de dominação, entre lideranças e sua membresia. A relação de serviço é também parte da dimensão missionária da igreja, em sua motivação ao servir no mundo. Essa atuação da igreja pode ser inspiradora para uma relação de maior justiça, equidade e amor numa sociedade onde a lógica de dominação ainda tem largo espaço.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Mestre em Educação e doutorando do PPG da Faculdades EST.
2 Bacharela em Teologia pela Faculdades EST, formação em diaconia, ordenação em diaconia e ênfase pastoral na Igreja Evangélica de Confissão Luternana no Brasil.
3 Doutor em Teologia pelo PPG da Faculdades EST, coordenador do bacharelado EaD.
4 Neste trabalho todas as referências bíblicas serão extraídas da versão: A BÍBLIA SAGRADA: Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Edição em letra grande. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2001.