REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/786377863
RESUMO
O ciclo da borracha (1850-1945) representou um dos episódios de maior impacto socioeconômico na história da Amazônia, reconfigurando fluxos migratórios, relações de trabalho, dinâmicas territoriais e formas de organização social na região. Objetivo: Analisar, por meio de revisão integrativa, as transformações socioeconômicas associadas ao ciclo da borracha na Amazônia e seus desdobramentos ao longo do século XX. Método: Revisão integrativa da literatura, conduzida na base SciELO a partir da estratégia booleana ("ciclo da borracha" OR seringueiros) AND (Amazônia OR Amazonas) AND (socioeconôm* OR econômic* OR históri*), sem recorte temporal, resultando em 9 estudos, todos considerados elegíveis após leitura de títulos e resumos. Resultados: A produção analisada evidencia a Amazônia como região periférica que se transformou economicamente a partir da demanda internacional por látex, atraindo capital e migrantes nordestinos para os seringais; revela relações de trabalho marcadas pelo sistema de aviamento e por assimetrias entre seringueiros, seringalistas e aviadores; e demonstra a transição, ao longo do século XX, da invisibilidade política dos seringueiros para sua consolidação como sujeitos de direitos, sobretudo a partir do movimento liderado por Chico Mendes e da criação das Reservas Extrativistas. Conclusão: O legado do ciclo da borracha permanece atual, materializado em associações de produtores, assentamentos extrativistas e reservas de uso sustentável, constituindo base histórica relevante para a compreensão das cooperativas e associações amazônicas contemporâneas.
Palavras-chave: Ciclo da borracha; Amazônia; Transformação socioeconômica; Seringueiros; Revisão integrativa.
ABSTRACT
The rubber cycle (1850-1945) represented one of the most impactful socioeconomic episodes in the history of the Amazon, reshaping migratory flows, labor relations, territorial dynamics, and forms of social organization in the region. Objective: To analyze, through an integrative review, the socioeconomic transformations associated with the rubber cycle in the Amazon and its developments throughout the twentieth century. Method: Integrative literature review conducted in the SciELO database using the Boolean strategy ("ciclo da borracha" OR seringueiros) AND (Amazônia OR Amazonas) AND (socioeconôm* OR econômic* OR históri*), with no time restriction, yielding 9 studies, all considered eligible after reading titles and abstracts. Results: The literature shows the Amazon as a peripheral region economically transformed by international latex demand, attracting capital and northeastern migrants to the rubber plantations; it reveals labor relations marked by the aviamento (debt-peonage) system and asymmetries between rubber tappers, rubber estate owners, and traders; and it demonstrates the transition, throughout the twentieth century, from the political invisibility of rubber tappers to their consolidation as rights-bearing subjects, particularly following the movement led by Chico Mendes and the creation of Extractive Reserves. Conclusion: The legacy of the rubber cycle remains current, materialized in producer associations, extractive settlements, and sustainable-use reserves, constituting a relevant historical basis for understanding contemporary Amazonian cooperatives and associations.
Keywords: Rubber cycle; Amazon; Socioeconomic transformation; Rubber tappers; Integrative review.
1. INTRODUÇÃO
A Amazônia, região historicamente periférica em termos econômicos e demográficos durante o período colonial, experimentou uma das transformações mais expressivas de sua história a partir da segunda metade do século XIX, impulsionada pela crescente demanda internacional por látex extraído da Hevea brasiliensis (ANDRADA, 2025). O chamado ciclo da borracha, compreendido entre 1850 e 1945, consolidou-se como fenômeno estruturante da economia regional, tendo a borracha se tornado, ao final do século XIX, o segundo principal produto da pauta de exportação brasileira (ANDRADA, 2025).
Esse processo provocou intensa atração de capital e de trabalhadores para a região, favorecendo o crescimento das arrecadações governamentais e conferindo a cidades como Belém e Manaus parte dos progressos materiais associados à Belle Époque (ANDRADA, 2025). Contudo, o mesmo período foi marcado por relações de trabalho profundamente assimétricas nos seringais, pela migração forçada ou induzida de populações nordestinas e por conflitos territoriais que se estenderiam, sob novas configurações, até a segunda metade do século XX (GUIMARÃES; ALVES, 2026; KLEIN, 2022; WEINSTEIN, 2002).
A relevância do tema não se restringe, contudo, ao interesse historiográfico. A compreensão do modo como a economia da borracha reorganizou o território amazônico — atraindo populações, criando núcleos urbanos, estabelecendo cadeias de intermediação comercial e, posteriormente, gerando formas de organização social e produtiva entre os próprios extrativistas — oferece subsídio direto para a análise de fenômenos contemporâneos, como o cooperativismo extrativista, as reservas de uso sustentável e os arranjos associativos que hoje estruturam parte da economia rural amazônica. Trata-se, portanto, de um tema que articula história econômica, antropologia do trabalho e planejamento territorial contemporâneo.
O presente artigo tem como objetivo analisar, por meio de revisão integrativa da literatura científica indexada na base SciELO, as transformações socioeconômicas associadas ao ciclo da borracha na Amazônia, contemplando tanto o período de apogeu quanto seus desdobramentos ao longo do século XX, incluindo a reorganização política dos seringueiros e a criação de instrumentos de gestão territorial e de fomento ao extrativismo que permanecem vigentes na atualidade. De modo específico, buscou-se: (i) caracterizar o contexto econômico e social do apogeu da economia gomífera; (ii) identificar os fluxos migratórios e as relações de trabalho estabelecidas nos seringais; (iii) analisar o processo de decadência econômica e de invisibilidade política dos seringueiros; e (iv) discutir a reorganização desses trabalhadores em movimentos sociais e em arranjos institucionais de fomento que persistem na atualidade.
2. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DO CICLO DA BORRACHA
Antes de se apresentar a revisão da literatura selecionada, cabe situar brevemente o leitor quanto ao panorama histórico geral do ciclo da borracha, amplamente descrito pela historiografia econômica brasileira, de modo a contextualizar os achados específicos identificados nos nove estudos analisados. É importante destacar que esta seção apresenta contextualização histórica de caráter geral, consolidada na literatura histórica sobre o tema, e não deve ser confundida com os resultados obtidos diretamente do corpus revisado, que serão apresentados na seção 4.
A exploração comercial da borracha amazônica remonta ao século XIX, quando a vulcanização da borracha, processo desenvolvido por Charles Goodyear em 1839, ampliou significativamente as possibilidades de uso industrial do látex, impulsionando sua demanda internacional. A Amazônia deteve, por décadas, o monopólio natural da produção de látex de Hevea brasiliensis, o que conferiu à região posição estratégica na cadeia produtiva da borracha até o início do século XX.
Esse primeiro período de apogeu, situado entre aproximadamente 1879 e 1912, é reconhecido pela historiografia como o momento de maior expansão econômica e urbana da região, com reflexos arquitetônicos e culturais visíveis até hoje em cidades como Manaus e Belém. A partir de 1876, contudo, sementes de seringueira foram levadas para a Ásia, onde, ao longo das décadas seguintes, desenvolveram-se plantações racionalizadas nas colônias britânicas e holandesas do sudeste asiático, sobretudo na Malásia e no Ceilão. A produção asiática, mais eficiente e organizada em plantios regulares, passou a competir diretamente com o extrativismo amazônico, provocando, a partir de 1912, uma acentuada decadência da economia gomífera na região.
Um segundo momento de relevância econômica da borracha amazônica ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, quando a ocupação japonesa do sudeste asiático interrompeu o fornecimento de látex às forças aliadas, levando o governo brasileiro e os Estados Unidos a firmarem acordos de cooperação para a retomada da produção amazônica, com o recrutamento dos chamados "soldados da borracha" — trabalhadores nordestinos novamente deslocados para os seringais em contexto de mobilização de guerra. Esse episódio, embora não tenha sido objeto direto de nenhum dos nove estudos selecionados nesta revisão, integra o mesmo processo histórico de longa duração analisado pelos autores revisados, e ajuda a explicar por que a produção científica sobre o tema se estende, em termos de recorte temporal, até meados do século XX (1848-1945), conforme identificado no estudo de Guimarães e Alves (2026).
3. REVISÃO DE LITERATURA
Esta seção apresenta a síntese qualitativa dos nove estudos incluídos na revisão, organizados em quatro eixos temáticos, precedida do Quadro 1, que sistematiza cronologicamente as principais características do corpus analisado.
Quadro 1. Síntese dos estudos incluídos na revisão integrativa (SciELO, 2002-2026)
Weinstein (2002) — História, Ciências, Saúde-Manguinhos (História). Relato de pesquisa histórica sobre relações de produção entre seringueiros, aviadores e barões da borracha.
Almeida (2004) — Revista Brasileira de Ciências Sociais (Ciências Sociais). Trajetória política dos seringueiros, do movimento agrário às Reservas Extrativistas.
Velásquez; Villas Boas; Schwartzman (2006) — Revista de Administração Pública (Administração Pública). Gestão ambiental integrada e conflitos fundiários na Terra do Meio (PA).
Soares et al. (2018) — Revista de Economia e Sociologia Rural (Economia Rural). Heveicultura, produção de alimentos e segurança alimentar no assentamento Seringal (MT).
Di Deus (2019) — Vibrant: Virtual Brazilian Anthropology (Antropologia). Saberes técnicos e relação humano-vegetal no manejo da seringueira.
Klein (2022) — Revista Brasileira de História (História). Panorama social de trabalhadores dos vales do Purus e Acre (1889-1904).
Honorato; Rocha (2024) — Estudos Avançados (Arqueologia). Aliança dos Povos da Floresta e territorialidade de povos indígenas e seringueiros.
Andrada (2025) — Almanack (História Econômica). Debate econômico sobre a atividade extrativa gomífera (1850-1914).
Guimarães; Alves (2026) — Bol. Mus. Pará. Emílio Goeldi (Arqueologia/História). Cultura material, migração e circulação de pessoas e objetos nos seringais (1848-1945).
A leitura conjunta do quadro evidencia dois aspectos relevantes para a compreensão da produção científica sobre o tema. Em primeiro lugar, observa-se marcada interdisciplinaridade, com contribuições oriundas da história econômica, da antropologia, da arqueologia, da administração pública e da economia rural, o que reflete a própria complexidade do fenômeno estudado. Em segundo lugar, nota-se uma distribuição temporal não linear da produção, com concentração de estudos recentes (2022-2026) que revisitam o tema sob novas abordagens teórico-metodológicas, como a arqueologia da cultura material e a etnografia histórica, ao lado de estudos fundadores publicados ainda no início dos anos 2000 (WEINSTEIN, 2002; ALMEIDA, 2004).
4. REVISÃO DE LITERATURA: EIXOS TEMÁTICOS
4.1. A Economia da Borracha e o Debate Sobre a Atividade Extrativa
A literatura evidencia que a superespecialização produtiva em torno da borracha gerou, já à época, um intenso debate entre as elites políticas e econômicas da região. Andrada (2025) demonstra que dirigentes das províncias do Pará e do Amazonas manifestavam reiteradas críticas às consequências perniciosas da atividade extrativista, ainda que a região se beneficiasse economicamente da exportação do látex. O autor relativiza a hipótese clássica de Barbara Weinstein — para quem tais críticas decorreriam de um conflito entre elites tradicionais e emergentes —, argumentando que a alternância entre discursos de defesa e de crítica ao setor gomífero acompanhava, na verdade, o contexto econômico conjuntural vivido pelas províncias (ANDRADA, 2025).
A própria Weinstein (2002), em relato sobre sua experiência de pesquisa na Amazônia, descreve o objeto central de seu estudo histórico como
as relações de produção estabelecidas entre seringueiros, aviadores e barões da borracha (WEINSTEIN, 2002).
registro que evidencia a complexidade da cadeia produtiva gomífera, estruturada não apenas pela extração do látex, mas por uma teia de intermediações comerciais e financeiras — o sistema de aviamento — que subordinava economicamente o trabalhador seringueiro.
4.2. Migração e Povoamento dos Seringais
A ocupação dos seringais amazônicos esteve diretamente associada a fluxos migratórios induzidos pelo Estado brasileiro, sobretudo de populações nordestinas deslocadas para a região em razão de secas e da promessa de trabalho nos seringais (GUIMARÃES; ALVES, 2026). Guimarães e Alves (2026), a partir de estudo de cultura material em sítio arqueológico no médio rio Xingu (Pará), reconstroem a circulação de pessoas, objetos e látex ao longo do ciclo da borracha, relacionando artefatos cotidianos — como frascos e garrafas de empresas farmacêuticas nordestinas — às distinções socioeconômicas entre seringueiros e empresários que atuavam na economia gomífera.
Klein (2022), por sua vez, ao analisar fichas documentais de trabalhadores dos vales dos rios Purus e Acre entre 1889 e 1904, evidencia lacunas historiográficas relevantes, afirmando a necessidade de enfrentar
alguns silêncios da historiografia amazônica a respeito da expansão dos seringais (KLEIN, 2022).
O autor destaca, ainda, a diversidade etária e racial dos trabalhadores instalados na Amazônia sul-ocidental, bem como as estratégias de resistência por eles empregadas diante das condições adversas de trabalho e do isolamento característico dos seringais.
4.3. Relações de Trabalho e Materialidade Seringueira
As relações de trabalho estabelecidas nos seringais amazônicos ultrapassam a dimensão estritamente econômica, envolvendo também saberes técnicos e vínculos simbólicos entre os seringueiros e a própria seringueira. Di Deus (2019), em estudo etnográfico e histórico, descreve a prática de "amansar" a árvore no início de cada safra, afirmando que
é preciso amansar as seringueiras no início de cada safra (DI DEUS, 2019).
prática que revela o conhecimento técnico acumulado pelos seringueiros para otimizar o fluxo de látex, em diálogo com controvérsias históricas protagonizadas por naturalistas britânicos acerca da descoberta do mecanismo de "resposta à ferida" da árvore, tanto na Amazônia quanto nas plantações do sudeste asiático.
Já Guimarães e Alves (2026) discutem a dimensão material e afetiva vivida pelos seringueiros no isolamento dos seringais, apontando que os artefatos cotidianos funcionavam como
gatilhos de memória, atuando como vínculos materiais (GUIMARÃES; ALVES, 2026).
elemento que evidencia a dimensão humana e subjetiva da experiência migratória e laboral nos seringais amazônicos, frequentemente ofuscada pela ênfase estritamente econômica atribuída ao período.
4.4. Do Declínio dos Seringais à Reinvenção Socioambiental
Com a decadência da economia gomífera amazônica, associada à concorrência da produção asiática a partir do início do século XX, os seringueiros permaneceram, por décadas, à margem do reconhecimento político nacional. Almeida (2004) descreve esse processo de invisibilidade e sua posterior superação, evidenciando que, entre as décadas de 1970 e 1990,
os camponeses da floresta passaram da invisibilidade à posição de paradigma de desenvolvimento sustentável (ALMEIDA, 2004).
transformação impulsionada pela organização do movimento agrário liderado por Chico Mendes e pela criação das primeiras Reservas Extrativistas após seu assassinato, conectando reivindicações agrárias a pautas ambientais de alcance internacional (ALMEIDA, 2004).
Esse processo de reconhecimento político é retomado por Honorato e Rocha (2024), que analisam a Aliança dos Povos da Floresta, formada na década de 1980 pela mobilização conjunta de povos indígenas e seringueiros sindicalizados frente à espoliação territorial histórica na Amazônia. Os autores destacam
a espoliação territorial dos povos indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais (HONORATO; ROCHA, 2024).
como elemento estruturante das lutas territoriais na região, propondo uma arqueologia voltada à valorização dos múltiplos passados desses grupos sociais.
Na mesma direção, Velásquez, Villas Boas e Schwartzman (2006) analisam a Terra do Meio, no Pará, como território marcado por conflitos fundiários e por
grilagem de terras e exploração irracional dos recursos naturais (VELÁSQUEZ; VILLAS BOAS; SCHWARTZMAN, 2006).
destacando, contudo, a atuação de movimentos sociais organizados e de organizações não governamentais na proposição de mosaicos de unidades de conservação envolvendo populações tradicionais, entre elas os seringueiros, como estratégia de gestão territorial integrada.
Por fim, Soares et al. (2018) demonstram que o legado extrativista da borracha permanece economicamente relevante na atualidade, ao analisarem o assentamento de reforma agrária Seringal, na Amazônia Meridional (Mato Grosso), vinculado à Associação de Produtores de Látex (Aprolatex). Os autores constatam que
a heveicultura é a principal atividade agrícola exercida na unidade produtiva (SOARES et al., 2018),
respondendo por até 65% da renda agrícola anual das famílias assentadas, complementada pela produção de alimentos para autoconsumo como estratégia de segurança alimentar e de permanência das famílias no campo (SOARES et al., 2018).
5. METODOLOGIA
Trata-se de revisão integrativa da literatura, delineamento que permite reunir e sintetizar estudos de diferentes naturezas — históricos, antropológicos, arqueológicos e de economia rural — sobre um mesmo fenômeno social (WHITTEMORE; KNAFL, 2005). A busca foi realizada na base de dados SciELO, sem restrição de coleção ou de recorte temporal, utilizando a estratégia booleana:
("ciclo da borracha" OR seringueiros) AND (Amazônia OR Amazonas) AND (socioeconôm* OR econômic* OR históri*)
A busca resultou em 9 registros, todos recuperados na coleção SciELO Brasil, publicados entre 2002 e 2026, em periódicos das áreas de história, ciências sociais, antropologia, arqueologia, administração pública e economia rural. Após leitura de títulos e resumos, verificou-se que a totalidade dos 9 estudos guardava relação direta com o tema proposto, não havendo necessidade de exclusão de registros — resultado que contrasta com buscas realizadas em bases biomédicas mais amplas, e que se explica pela maior especificidade lexical dos termos utilizados ("ciclo da borracha", "seringueiros") no contexto das ciências humanas e sociais brasileiras.
Os 9 estudos foram organizados em quatro eixos temáticos, apresentados na seção de revisão de literatura: (i) economia da borracha e debate sobre a atividade extrativa; (ii) migração e povoamento dos seringais; (iii) relações de trabalho e materialidade seringueira; e (iv) declínio dos seringais e reinvenção socioambiental.
6. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise do corpus selecionado permite identificar três grandes fases nas transformações socioeconômicas amazônicas associadas ao ciclo da borracha. A primeira, correspondente ao apogeu da economia gomífera (1850-1912), caracterizou-se pela atração de capital estrangeiro e de mão de obra migrante, pela urbanização acelerada de Belém e Manaus e pela inserção da Amazônia na primeira onda de globalização, ainda que sob relações de trabalho marcadas por forte assimetria de poder entre seringueiros, seringalistas e aviadores (ANDRADA, 2025; WEINSTEIN, 2002; GUIMARÃES; ALVES, 2026).
A segunda fase, relativa à decadência da economia gomífera após a concorrência da produção asiática a partir da segunda década do século XX, corresponde ao período de maior invisibilidade política dos seringueiros, cujas condições de trabalho, isolamento e vulnerabilidade social permaneceram, em grande medida, à margem da historiografia nacional por décadas (KLEIN, 2022; DI DEUS, 2019).
A terceira fase, iniciada a partir da década de 1970, corresponde ao processo de reorganização política e territorial dos seringueiros, que passaram de sujeitos invisibilizados a protagonistas de um movimento socioambiental de repercussão internacional, culminando na criação das Reservas Extrativistas e, mais recentemente, na consolidação de associações de produtores e assentamentos de reforma agrária vinculados ao extrativismo da borracha (ALMEIDA, 2004; HONORATO; ROCHA, 2024; VELÁSQUEZ; VILLAS BOAS; SCHWARTZMAN, 2006; SOARES et al., 2018).
Esse percurso histórico é particularmente relevante para a compreensão das cooperativas e associações extrativistas amazônicas contemporâneas, na medida em que revela a origem histórica de arranjos institucionais — como as Reservas Extrativistas e as associações de produtores — hoje frequentemente utilizados como base territorial e organizacional para projetos de fomento e captação de recursos voltados a populações ribeirinhas, extrativistas e de agricultura familiar na região amazônica. O caso da Associação de Produtores de Látex (Aprolatex), analisado por Soares et al. (2018), ilustra de forma concreta como o legado do ciclo da borracha se converteu, ao longo do tempo, em modelo de organização produtiva ainda vigente, capaz de articular extrativismo, segurança alimentar e permanência das famílias no território.
6.1. A Dimensão de Gênero e Geracional na Experiência dos Seringais
Um aspecto transversal aos estudos analisados, embora não tratado como eixo central por nenhum deles isoladamente, refere-se à presença de mulheres e crianças na experiência migratória e laboral dos seringais, tema explicitamente abordado por Klein (2022) ao reconstituir o panorama social de trabalhadores dos vales do Purus e do Acre entre 1889 e 1904. O estudo evidencia que a historiografia tradicional sobre o ciclo da borracha tende a concentrar-se na figura do seringueiro homem adulto, deixando pouco documentadas as trajetórias de mulheres e crianças que também compunham os núcleos familiares deslocados para a região, bem como as relações étnico-raciais estabelecidas nesse contexto (KLEIN, 2022). Trata-se de lacuna historiográfica que, somada à escassez de fontes primárias sistematizadas, sugere a necessidade de investigações futuras específicas sobre esses grupos.
6.2. Contribuições Metodológicas da Arqueologia e da Etnografia Histórica
Chama atenção, no corpus analisado, a presença relevante de abordagens arqueológicas e etnográficas na investigação do ciclo da borracha, tradicionalmente associado sobretudo à história econômica. Guimarães e Alves (2026) demonstram como a análise de cultura material — frascos, garrafas e artefatos cotidianos — permite reconstruir dimensões da experiência migratória e laboral pouco acessíveis por meio de fontes documentais convencionais, enquanto Honorato e Rocha (2024) propõem uma arqueologia voltada à valorização dos múltiplos passados de povos indígenas e seringueiros na resistência ao avanço da sociedade industrial sobre seus territórios. Di Deus (2019), por sua vez, contribui com abordagem etnográfica e histórica comparativa entre a Amazônia e o sudeste asiático, evidenciando que o conhecimento técnico dos seringueiros sobre o manejo da seringueira constituiu elemento tão relevante para a economia gomífera quanto os fatores estritamente comerciais e financeiros discutidos por Weinstein (2002) e Andrada (2025). Essa convergência metodológica sugere um amadurecimento recente da produção científica sobre o tema, que passa a incorporar, ao lado da história econômica tradicional, olhares interdisciplinares capazes de iluminar a experiência subjetiva e material dos trabalhadores dos seringais.
6.3. Limitações do Estudo
Esta revisão apresenta limitações que devem ser consideradas na interpretação de seus resultados. Em primeiro lugar, a busca foi restrita à base SciELO, o que privilegia a produção científica em periódicos brasileiros e latino-americanos, podendo não contemplar contribuições relevantes publicadas em bases internacionais, como a obra clássica de Barbara Weinstein sobre o boom da borracha amazônica, mencionada indiretamente por Andrada (2025), mas não recuperada diretamente como artigo pela estratégia de busca utilizada. Em segundo lugar, a ausência de recorte temporal, embora tenha permitido recuperar estudos fundadores publicados desde 2002, resultou em um corpus relativamente pequeno (nove estudos), o que limita a generalização de algumas conclusões, sobretudo aquelas relativas a aspectos quantitativos da economia gomífera, não mensurados diretamente pelos estudos de natureza predominantemente qualitativa aqui reunidos. Por fim, destaca-se que os estudos analisados adotam recortes geográficos distintos dentro da própria Amazônia (Pará, Acre, Mato Grosso, Amazonas), o que impõe cautela na generalização dos achados para o conjunto da região.
7. CONCLUSÃO FINAL
O ciclo da borracha configurou-se como episódio fundador das transformações socioeconômicas da Amazônia, promovendo a inserção da região na economia internacional, a atração de fluxos migratórios expressivos e a consolidação de relações de trabalho marcadas por forte assimetria entre seringueiros, seringalistas e aviadores. A decadência da economia gomífera, longe de encerrar esse legado, deu origem a um longo processo de reorganização política dos seringueiros, que culminou, ao final do século XX, na conquista de instrumentos concretos de reconhecimento territorial e produtivo, como as Reservas Extrativistas e as associações de produtores rurais.
Conclui-se que o estudo histórico do ciclo da borracha oferece subsídio relevante não apenas para a compreensão da formação socioeconômica da Amazônia, mas também para a fundamentação técnica e histórica de projetos contemporâneos de fomento voltados a cooperativas e associações extrativistas da região, cujas raízes organizacionais remontam, em muitos casos, diretamente às lutas e às formas de organização social herdadas do período seringueiro. Recomenda-se que estudos futuros aprofundem a análise comparativa entre as antigas formas de organização dos seringais e os modelos contemporâneos de cooperativismo extrativista amazônico, de modo a subsidiar políticas públicas e propostas de captação de recursos mais aderentes à realidade histórica e social da região.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Mauro W. Barbosa de. Direitos à floresta e ambientalismo: seringueiros e suas lutas. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 19, n. 55, p. 33-52, 2004.
ANDRADA, Alexandre Flavio Silva. "Indústria maldita" ou "árvore de ouro"? Uma análise do debate econômico nos tempos do ciclo da borracha na Amazônia brasileira, 1850-1914. Almanack, v. 39, ea19822, 2025. DOI: 10.1590/2236-463339ea19822.
DI DEUS, Eduardo. The tree that responds: taming the rubber tree. Vibrant: Virtual Brazilian Anthropology, v. 16, d551, 2019. DOI: 10.1590/1809-43412019v16d551.
GUIMARÃES, Antonio; ALVES, Daiana Travassos. Biografia vitrificada: agências e materialidades nos processos migratórios em um século de atividades seringueiras na Amazônia (1848-1945). Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 21, n. 1, e20240095, 2026. DOI: 10.1590/2178-2547-bgoeldi-2024-0095.
HONORATO, Vinicius; ROCHA, Bruna. Arqueologia dos povos da floresta. Estudos Avançados, v. 38, n. 112, p. 31-54, 2024. DOI: 10.1590/s0103-4014.202438112.003.
KLEIN, Daniel da Silva. Homens, mulheres e crianças na ocupação dos vales dos rios Purus e Acre: aspectos sociais na Amazônia sul-ocidental de 1889 a 1904. Revista Brasileira de História, v. 42, n. 91, p. 239-261, 2022. DOI: 10.1590/1806-93472022v42n91-12.
SOARES, Keller Regina et al. Extrativismo e produção de alimentos como estratégia de reprodução de agricultores familiares do assentamento Seringal, Amazônia Meridional. Revista de Economia e Sociologia Rural, v. 56, n. 4, p. 645-662, 2018. DOI: 10.1590/1234-56781806-94790560406.
VELÁSQUEZ, Cristina; VILLAS BOAS, André; SCHWARTZMAN, Stephen. Desafio para a gestão ambiental integrada em território de fronteira agrícola no oeste do Pará. Revista de Administração Pública, v. 40, n. 6, p. 1061-1075, 2006.
WEINSTEIN, Barbara. Experiência de pesquisa em uma região periférica: a Amazônia. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 9, n. 2, p. 261-272, 2002.
WHITTEMORE, Robin; KNAFL, Kathleen. The integrative review: updated methodology. Journal of Advanced Nursing, v. 52, n. 5, p. 546-553, 2005. DOI: 10.1111/j.1365-2648.2005.03621.x.
1 Mestrado em Tecnologias Emergentes em Educação. Must University. Deerfield Beach Estado/Flórida/Estados Unidos. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
2 Doutorado em Ciências – Química. Universidade Federal de Minas Gerais– UFMG. Belo Horizonte/Minas Gerais/Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4490-2554
3 Pós-graduada em Educação Especial e Inclusiva pela Faculdade Iguaçu. Boa Vista/Roraima/Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
4 Especialista em Educação Inclusiva. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte – IFRN. Quixeré/Ceará/Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-4363-2927
5 Mestrando em Agroecologia, Ambiente, Sociedade e Amazônia (PPGAASA). Universidade Estadual de Roraima – UERR. Boa Vista/Roraima/Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-3158-1383
6 Pós-graduação em Ensino da Língua Portuguesa. Faculdade Única de Ipatinga. Ipatinga/Minas Gerais/Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
7 Especialista em Linguagens e Tecnologias na Educação. Instituto Federal Sul-Rio-Grandense – IFSul. Passo Fundo/ Rio Grande do Sul/ Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
8 Mestrando em Agroecologia, Ambiente, Sociedade e Amazônia (PPGAASA). Universidade Estadual de Roraima – UERR. Boa Vista/Roraima/Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-6128-7569