REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777223445
RESUMO
Este artigo tem por objetivo discutir alguns pressupostos da importância do ato reflexivo na/da prática pedagógica do professor em tempos difíceis. Diante o cenário pandêmico em que estamos passando, surgiu a necessidade de buscar meios e estratégias que pudessem corroborar no sentido de amenizar o impacto que o coronavírus causou, também no âmbito escolar. E, assim, com o aporte teórico norteado principalmente por Schön, Perrenoud e Freire, nos levou a pensar e propor o ato reflexivo como uma ação da/na prática pedagógica do professor. Na modalidade qualitativa e empírica, esse estudo, levou em consideração a pesquisa bibliográfica, quando tem por base em outros estudos já realizados, visando entender como os professores se reinventaram nas práticas pedagógicas diante tempos difíceis na pandemia, para continuar desempenhando suas funções e cumprindo o ano letivo escolar.
Palavras-chave: Ato reflexivo; Prática pedagógica; Professor; Tempos difíceis.
ABSTRACT
This article aims to discuss some assumptions regarding the importance of reflective action in the pedagogical practice of teachers during difficult times. Given the pandemic scenario we are experiencing, the need arose to seek means and strategies that could help mitigate the impact of the coronavirus, also in the school environment. Thus, with the theoretical framework guided mainly by Schön and Perrenoud, we were led to consider and propose reflective action as an action in the pedagogical practice of teachers. Using a qualitative and empirical approach, this study considered bibliographic research, based on other studies already carried out, aiming to understand how teachers reinvented themselves in their pedagogical practices during the difficult times of the pandemic, in order to continue performing their duties and completing the school year.
Keywords: Reflective act; Pedagogical practice; Teacher; Difficult times.
1. INTRODUÇÃO
Ao longo da história da educação, o professor era visto como um detentor do saber, como um profissional único, que apenas deveria repassar conhecimentos aos seus alunos, sem preocupar-se em refletir na prática elaborada, nem com a contribuição desta para o avanço ou retrocesso da aprendizagem dos alunos.
Nessa perspectiva, é notório salientar que, concepções como estas vêm sendo cada vez mais descartadas e repensadas por estudiosos, pesquisadores e pelos próprios professores, que percebem ainda mais, as dificuldades que enfrentam em sala de aula bem como a probabilidade de melhoria dela. Destarte, por meio do ato reflexivo e do conhecimento voltado para a sua prática, que possibilitaria um novo olhar e despertaria novas perspectivas para a melhorar o seu trabalho como profissional, principalmente no cenário da educação em tempos de pandemia.
Para o nosso entendimento, o ato reflexivo propicia e valoriza a construção pessoal do conhecimento, viabilizando novas maneiras de apreender, de compreender, de atuar e de solucionar problemas, corroborando para que se adquira maior consciência e controle sobre o que se faz.
2. METODOLOGIA
O objetivo deste trabalho é analisar e refletir nas experiências vivenciadas no contexto do ensino remoto, que estão sendo realizadas por meio de atividades não presenciais para o desenvolvimento do efetivo trabalho docente em tempos de pandemia.
Para a tessitura deste artigo, que o classificamos como uma pesquisa bibliográfica, que segundo Gil (2017), é um tipo de pesquisa que se fundamenta com base em material já publicado em livros, artigos científicos, teses e dissertações, dentre outros.
Por meio desse estudo investigativo, colocamo-nos na posição de professor pesquisador, como declara Silva (2014, p. 67), “[...] que, estando totalmente envolvido em sua prática – e justamente por estar envolvido – levanta constantes questionamentos acerca de suas ações, a fim de encontrar caminhos para o melhor desempenho de suas atividades e de seus pares, e assim, contribuir para a melhoria da educação”. É importante salientar que um trabalho de pesquisa sobre o ato pedagógico docente quando é realizado pelo próprio professor, promove a ação em reflexão para repensar a própria prática pedagógica.
Na composição desta análise, traçamos uma metodologia de pesquisa baseada, principalmente em Perrenoud e Schön, dentre outros, sobre o ato da/na ação pedagógica para se tornar um professor reflexivo que foca na epistemologia da prática, transformando o docente em um pesquisador de seu próprio trabalho para construir saberes a partir da experiência. O objetivo é analisar a reflexão da/na ação e sobre a ação para aprimorar a prática futura.
3. DESENVOLVIMENTO
3.1. O Ato Reflexivo Da/na Prática Docente
Desde o março de 2020, logo que o vírus da Covid-19 foi descoberto, e com isso, houve várias vidas perdidas. O Ministério da Educação aprovou o decreto nº 343, autorizando a substituição das aulas presenciais em aulas remotas (por meios digitais), enquanto a pandemia perdurar, fato que ocorre até o presente momento.
Nesse sentido, Barros (2021) pontua que:
As escolas e universidades foram fechadas e o ensino remoto passou a fazer parte na rotina dos professores e alunos que os obrigaram a reformular suas próprias práticas da maneira que pudessem, porque a maioria das pessoas não estava preparada para esse desafio eminente. Por isso, foi necessário que os professores (re)inventassem estratégias e meios para dar continuidade no processo de ensino e aprendizagem. Diante ao grande desafio da educação remota de emergência, alguns professores sentiram o peso da jornada de trabalho prolongada e seus reflexos na saúde mental, outros trabalham em redes que optaram por não realizar atividades à distância. (BARROS, 2021. P. 4).
Em tempos obscuros e de pandemia, o ato reflexivo do professor se torna tão necessário para que possa desempenhar as ações pedagógicas com propósitos para um ensino eficaz, mediante situações adversas e adequar-se a possíveis possibilidades e estratégias (ensino remoto e o uso das TICs) disponíveis no momento.
Como afirma Schön (2000):
[...] é possível através da observação e da reflexão sobre nossas ações, fazermos uma descrição do saber tácito que está implícito nelas. Nossas descrições serão de diferentes tipos, dependendo de nossos propósitos e das linguagens disponíveis para essas descrições. Podemos fazer referência, por exemplo, às sequências de operações e procedimentos que executamos; aos indícios que observamos e às regras que seguimos; ou os valores, às estratégias e aos pressupostos que formam nossas "teorias da ação". (SCHÖN, 2000, p. 31)
Dessa forma, imaginamos que o ato reflexivo da/na prática do professor, é um pressuposto que pode provocar mudanças no perfil desse profissional da educação, que deve por meio da reflexão e do pensamento crítico, verificar a situação da prática como docente nas atividades em curso, tão necessário para esse tempo difícil de pandemia. Nesse ato, é possível identificar os pontos positivos ou negativos, e saber o que está sendo construído, verificando assim, sua legitimidade, sua validez enquanto ato que proporciona conhecimentos significativos para os alunos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem.
E, por falar em reflexividade na prática pedagógica do professor, isso nos remete ao autor da expressão “pensamento reflexivo”, Dewey (1979). Essa expressão originou-se na década de 1930, nas formulações, sobre a compreensão da realidade e a construção de significados a partir das experiências vividas. Para ele, a reflexão consiste na capacidade de distinguir.
Dewey (1979), ressalta:
[...] entre aquilo que tentamos fazer e o que sucede como consequência. [...] Na descoberta minuciosa das relações entre os nossos atos e o que acontece em consequência delas, surge o elemento intelectual que não se manifesta nas experiências de tentativa e erro. À medida que se manifesta esse elemento aumenta proporcionalmente o valor da experiência. Com isto, muda-se a qualidade desta, e a mudança é tão significativa que poderemos chamar reflexiva esta espécie de experiência, isto é, reflexiva por excelência. [...] Pensar é o esforço intencional para descobrir as relações específicas entre uma coisa que fazemos e a consequência que resulta, de modo a haver continuidade entre ambas. (DEWEY, 1979, p. 158).
Desse modo, seguindo esses parâmetros, deve-se acreditar que o professor a partir da reflexão, pode reconstruir a prática pedagógica e favorecer o desenvolvimento de uma aprendizagem significativa por parte dos alunos. Nesse sentido, conceber a ideia de que o conhecimento elaborado por meio da reflexão da prática do professor, pode levá-lo a melhorar seu trabalho a partir de pressupostos que viabilizem o trabalho de um conjunto de transformações fidedignas, que irão proporcionar uma melhor qualidade do/no seu ensino como ação reflexiva.
Para refletir sobre a prática pedagógica do professor, podemos pensar no processo de ensino-aprendizagem, onde os alunos devem considerados como protagonista de toda a ação para aprender. Nesse aspecto, Paulo Freire (1997, p.14) fala que o professor, na sua prática docente, precisa instigar a capacidade crítica de seu aluno, pois, para o autor “aprender criticamente é possível” para que assim esses alunos possam construir seus próprios conhecimentos, por meio da inquietação, questionamentos, curiosidades e indagações.
Nessa perspectiva reflexiva, surge a curiosidade como pressuposto tão necessário para o exercício crítico da profissão de ensinar e aprender. A curiosidade é, portanto, elemento importante para o desvelamento das coisas do mundo. Em conformidade a isso,
Freire (1997), relata que:
A curiosidade como inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que sugere e alerta faz parte integrante do fenômeno vital. Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fazemos. (FREIRE,1997, p. 18).
Atentar para estes pressupostos de reflexão crítica, é refazer uma metodologia que já rotineiramente está estruturada, é repensar sua prática e, acima de tudo, transformar sua vivência em sala de aula dependendo das dificuldades apresentadas, o que irá exigir esforço, tempo, dedicação e fundamentação. Por tais motivos atender as necessidades exigidas por essa reflexão, não é tão fácil na realidade vivenciada por todos os professores nesses tempos difíceis, o que dificulta as transformações que em muitas salas de aulas são indispensáveis nesses momentos de (re)adequações causadas pelo vírus da Covid-19.
E, por fim, é importante pensar em alguns movimentos que caracterizam a concepção de professor reflexivo. Para isso, com as contribuições de Schön (2000) e Perrenoud (2002), nos mostram sentidos da reflexão necessários ao profissional reflexivo; e conceituando cada um desses movimentos.
Quadro 1: Movimentos Necessários ao Professor Reflexivo
CARACTERIZANDO A CONCEPÇÃO DO PROFESSOR REFLEXIVO |
A reflexão-na-ação: aproximação do professor com o problema. |
A reflexão sobre-a ação: questiona a ação desenvolvida ou praticada. |
A reflexão-sobre-a-reflexão-na-ação: investigador da prática e analisa além delas. |
Fonte: Elaborado pelo autor deste artigo, (2021).
A reflexão-na-ação: essa é o tipo de reflexão que proporciona uma ampla aproximação do professor com o problema ou necessidade apresentada, ou seja: durante a ação vai permitir ao professor compreender criticamente o processo que naquele momento permeia o que está acontecendo no calor da ação.
Para Schön (2000):
[...] A reflexão-na-ação tem uma função crítica, questionando a estrutura de pressupostos do ato de conhecer-na-ação. Pensamos criticamente sobre o pensamento que nos levou a essa situação difícil ou essa oportunidade e podemos, neste processo, reestruturar as estratégias de ação, as compreensões dos fenômenos ou as formas de conceber os problemas. (SHÖN, 2000, p. 33).
Sob esse viés, a reflexão na ação, ocorre no ato de conhecer na ação. O problema ou necessidade se apresenta e neste momento o professor refletirá em torno do que seria necessário fazer para solucioná-lo. Assim, o professor acaba por dialogar com a situação que está ocorrendo, buscando solucionar os problemas que surgiram.
A reflexão sobre-a ação, vai proporcionar um sentido retrospectivo, uma vez que provoca no professor, uma análise da ação desenvolvida, procurando despertar nele uma melhor compreensão a fim de que caso a ação se repita, o professor já tenha consciência do que seria necessário fazer, ou como agir. Esse movimento reflexivo vai provocar no professor questionamentos que permeiam a ação que ele desenvolveu, onde ele busca conhecer os resultados que sua ação provocou, comparando-os com os resultados esperados, compreendendo assim os significados que sua ação tem e os significados que ela deveria ter.
Para Shön (1993), o professor que procede como profissional mantém obrigatoriamente um vínculo reflexivo com seu trabalho, isto é, possui a capacidade de refletir sobre a ação, o que lhe permite entrar em um processo de aprendizagem contínuo que representa uma característica determinante da prática profissional. Nesse conceito, a união entre a reflexão e a ação é considerada uma das fontes mais importantes de aprendizagem por várias razões2, a saber:
Transformação da experiência em saber: a reflexão sobre a ação permite que os professores analisem o que foi feito, identifiquem acertos e erros, e reconstruam seu conhecimento, transformando experiências em saber consciente.
Impulsiona a melhoria da prática para a ação-reflexão-ação: esse ciclo contínuo permite que a teoria e a prática se retroalimentem. A ação gera dados que a reflexão analisa, e essa análise guia novas ações mais eficazes e conscientes.
Promove uma aprendizagem significativa: quando o educador reflete sobre sua própria ação e conteúdo, ele atribui sentido ao que está ensinando, evitando a aprendizagem superficial e desmotivadora.
Possui consciência crítica na concepção de Paulo Freire: Na visão de Freire, a ação sem reflexão é "ativismo" (cega) e a reflexão sem ação é "verbalismo" (impotente). A união de ambas é a práxis que transforma a realidade e gera uma aprendizagem crítica e emancipadora.
Contribui para o desenvolvimento de professores reflexivos: no contexto pedagógico, o professor que reflete na ação e sobre a ação consegue se adaptar melhor a situações imprevistas, agindo com mais intencionalidade e qualidade.
Ou seja, essa postura reflexiva do professor transforma o fazer pedagógico e a aprendizagem em um processo dinâmico de reconstrução constante de si mesmo e de mundo. A prática reflexiva é fundamental para o professor transformar sua experiência em conhecimento, permitindo a análise crítica de ações pedagógicas. Ela melhora o ensino, promove aprendizagem significativa, fortalece a autonomia e ajuda a superar desafios, superando a rotinização da docência para adaptar o ensino ao contexto dos alunos.
Sobre a relevância da prática reflexiva do professor, existem cinco pontos-chave3:
Aprimoramento contínuo: permite que o educador investigue sua própria prática, identifique pontos de melhoria e atualize suas estratégias.
Consciência profissional: transforma o docente em um profissional que produz saberes próprios sobre o seu ofício, em vez de apenas aplicar técnicas.
Ação no contexto: facilita a adaptação do ensino às necessidades específicas dos alunos, tornando a educação mais inclusiva e relevante.
Ação sobre a ação: envolve reflexão antes, durante e depois da aula na reflexão no ato de ensinar.
Troca de experiências: A reflexão coletiva com pares e equipe escolar enriquece a jornada docente e ajuda a resolver problemas práticos de sala de aula.
O significado, frequentemente associado a pesquisadores como Schön e Perrenoud, defende o professor reflexivo como um profissional que valoriza a construção do saber através da reflexão sobre o fazer, ou seja, sobre o ato reflexivo da/na prática pedagógica.
Perrenoud (2000), defende que a competência docente reside na capacidade de mobilizar recursos cognitivos e tomar decisões fundamentadas em situações complexas e incertas. Esse autor, posiciona o professor não como um mero transmissor de regras, mas como um profissional autônomo que desenvolve competências ao adaptar estratégias para que os alunos construam conhecimentos em contextos dinâmicos.
A perspectiva de Schön (2003), revolucionou a formação docente ao valorizar o saber prático e a experiência cotidiana do professor, contrapondo-se à ideia de que a teoria acadêmica é a única fonte de conhecimento profissional. Dessa forma, o desenvolvimento profissional do professor é contínuo e ocorre no fazer e no pensar sobre o fazer, unindo saber escolar e conhecimento prático, resultando no ato reflexivo de sua prática pedagógica.
Nisso, a caracterização do professor reflexivo na reflexão-sobre-a-reflexão-na-ação, na concepção desses autores citados, especialmente Shön, Perrenoud e Freire, faz com que o professor seja um verdadeiro investigador de sua prática, analisando além das ações desenvolvidas, os saberes que a norteiam, a teoria na qual as ações foram desenvolvidas, agindo criticamente em torno de sua prática: o porquê de refletir, o que o levou a refletir sobre a ação, por isso uma reflexão-sobre-a-reflexão-na-ação.
Desta maneira, [...] visando chegar a uma verdadeira prática reflexiva, essa postura deve se tornar quase permanente, inserir-se em uma relação analítica com a ação [...] (PERRENOUD, 2002, p. 13). Nesse sentido, o autor adverte que a reflexão da/na concepção do professor sobre as práticas, deve ser permanente e contínua, que permita ao professor por ela envolvido, compreender as ações por ele desenvolvidas, analisá-las e, caso seja necessário, reconstruí-las.
A prática reflexiva docente na pandemia tornou-se essencial, obrigando os professores a reinventar sua práxis através da adoção de metodologias ativas e tecnologias digitais, muitas vezes sob condições de sobrecarga e necessidade de acolhimento. A reflexão crítica, com base nas concepções de Shön, Perrenoud e Freire, dentre outros, permitiu que educadores avaliassem o contexto social e transformassem o ensino remoto em uma oportunidade de inclusão e inovação.
De acordo com Perrenoud (2000), a prática reflexiva é condição necessária para a inovação pedagógica, pois permite ao professor experimentar novas metodologias e avaliar seus impactos, e a ressignificação, nesse caso, é resultado de um ciclo contínuo de ação e reflexão, no qual o docente se coloca como sujeito de sua própria formação.
Para Freire (1997, p. 25), “o momento fundamental na formação de professores é o da reflexão sobre a prática”. Isso, significa que a prática reflexiva serve como o alicerce para o desenvolvimento de um profissional autônomo, crítico e capaz de inovar no processo de ensino-aprendizagem. Portanto, um professor crítico-reflexivo valoriza a experiência como momento de construção de conhecimento, promovendo uma educação de maior qualidade e significado.
Nesse prisma, a reflexão sobre a prática não deve ser apenas técnica ou voltada para a melhoria de desempenho, mas sim uma ferramenta de emancipação humana, visando a autonomia dos educandos e educadores. De acordo com Kenneth Zeichner (1993), a emancipação docente ocorre quando professores transformam sua prática em objeto de reflexão crítica, superando o papel de meros executores de projetos alheios. Essa perspectiva valoriza a reflexão na ação e sobre a ação, permitindo que os educadores compreendam o contexto social/político da escola e assumam maior a sua autossuficiência.
Nessa teia, um professor crítico-reflexivo atua como agente de mudança, reconhecendo sua responsabilidade ética e política na formação de cidadãos autônomos e capazes de transformar sua própria realidade. Conforme ressalta Veiga (2013), que através da prática crítica e reflexiva a relação pedagógica autoritária é superada para ser construída a ação recíproca entre professor e aluno.
Fundamentada em Paulo Freire (1997), a articulação entre prática docente crítica e reflexiva e a formação de jovens, estimula a reflexão sobre experiências pessoais e profissionais, transformando o professor em um agente ativo que valoriza o saber dos alunos e a aprendizagem como um processo de libertação e construção de autonomia. Essa visão é fundamental para transformar a educação de um processo mecânico em uma construção viva. Quando o professor deixa de ser apenas um executor de currículos e assume esse papel de sujeito crítico, ele não apenas ensina o conteúdo, mas modela o próprio pensamento reflexivo para os alunos. Isso, quer dizer que questionar e interferir de maneira crítica, refere-se à práxis docente. O professor reflexivo analisa sua própria prática, o que funciona, o que não funciona, questiona políticas educacionais e intervém para melhorar o processo de ensino-aprendizagem, tornando-o mais justo e eficaz.
Vimos nesse artigo que, o processo que envolve a prática pedagógica do professor reflexivo é complexo e envolve uma série de ações permeadas e subsidiadas pela reflexão. Mas, para transformar as ações do professor não reflexivo em ações crítico-reflexivas, requer reposicionamentos, reconstrução de concepções e, acima de tudo, necessita primeiramente que o professor assuma uma postura crítica frente a sua prática.
Portanto, para tornar-se um professor reflexivo, irá depender fundamentalmente da visão do próprio profissional frente as necessidades de seu trabalho, as necessidades de se pesquisar e reconstruir sua prática pedagógica, e, sobretudo as necessidades de seus alunos o que poderá levar a uma grande transformação e o professor deve estar preparado para tal ato, bem como está sendo feito por todos os professores que se (re)inventaram em tempos de pandemia.
3.2. Enfim, o Que é Um Professor Reflexivo?
Defende-se, que a formação de professores deve considerar sua prática docente seja um pilar fundamental na educação contemporânea, sustentada por diversas pesquisas e autores renomados. A formação não deve ser apenas teórica, mas sim um processo de articulação entre a teoria e a prática, muitas vezes referida como práxis, onde o conhecimento prático é analisado e aprimorado por meio da reflexão crítica. Por esse motivo, acreditamos na importância de formar um professor reflexivo.
Na realidade atual, a pandemia evidenciou que o professor reflexivo é aquele que, mesmo diante de dificuldades técnicas e exclusão digital, avalia criticamente sua trajetória e constrói novos caminhos para a aprendizagem, focando no diálogo e na valorização da experiência vivida.
Para Schön (1983), o professor reflexivo é aquele que reflete sobre sua prática como forma de aprimorar continuamente sua atuação profissional. O autor também destaca que essa reflexão é essencial para enfrentar problemas complexos e situações inesperadas que surgem no cotidiano da prática pedagógica. Nesse sentido, entende-se que a formação de um professor reflexivo não é espontânea e exige um ambiente escolar propício que estimule a revisão contínua das práticas pedagógicas. Isso envolve criar uma cultura de colaboração, autonomia e reflexão sobre a ação, essencial para o desenvolvimento profissional. Condições como trabalho coletivo, formação continuada e um clima de segurança e confiança são fundamentais para que o professor possa analisar e aprimorar seu papel educativo.
A noção de professor reflexivo, consolidada por autores como Schön (1983) e Alarcão (2011), posiciona o docente como um intelectual criativo que analisa criticamente a prática. Supera-se o modelo de professor técnico, transformando-o em um pesquisador que utiliza a experiência para construir saberes e transformar o ensino. Ou seja, o professor reflexivo fundamenta-se na capacidade humana de pensar criticamente e refletir sobre sua prática pedagógica, reconhecendo o professor como um ser criativo e não apenas um reprodutor de ideias e práticas externas.
Nesse contexto, deduzimos que o professor reflexivo vai além da aplicação técnica de métodos, atuando como um pesquisador de sua própria prática para aprimorar o ensino. Essa postura vai transformar o professor em um profissional que constrói sua própria prática, focada na construção de uma aprendizagem significativa. Ou seja, Schön (1983), afirma que o professor reflexivo aprende a lidar com a complexidade escolar não por meio da aplicação automática de regras, mas pela constante investigação de sua própria prática pedagógica.
Conforme define Perrenoud (2002), o professor reflexivo é um profissional que analisa sua própria prática no dia a dia, transformando a experiência em saberes para superar desafios complexos. Essa abordagem integra teoria e prática, exigindo postura crítica, autoavaliação contínua e a capacidade de inovar, cooperar e adaptar o ensino para garantir a aprendizagem de todos os alunos, indo além da simples transmissão de conteúdo. Nessa propositura, a reflexão se torna uma prática aliada à profissionalização docente e da melhoria do ensino.
Sendo assim, o professor deve ser capaz de refletir durante o ato de ensinar, para ajustar a aula em tempo real, e após a ação, para analisar o que funcionou e o que precisa ser mudado. Então, não basta o professor fazer uma simples revisão de aula. De acordo com Perrenoud (2002), a prática reflexiva busca integrar a razão científica (teoria) com os saberes de experiência (prática), permitindo que o professor entenda os problemas reais do cotidiano escolar e atue com maior ética e eficácia.
Nessa concepção, Perrenoud (2002), ressalta que o ato reflexivo do professor, não é apenas um pensamento passageiro, mas uma postura, um habitus e uma identidade profissional baseada na análise constante da própria prática. Ou seja, o ato reflexivo da/na prática do professor para Perrenoud, é a racionalização dessa prática, um processo metódico e permanente que concilia o conhecimento técnico com a experiência vivida, resultando em uma maior competência docente. Enfim, Perrenoud (2002), consolida a visão de que a prática reflexiva é a ferramenta fundamental para o professor enfrentar a complexidade, a heterogeneidade das salas de aula e a necessidade de inovação na educação contemporânea.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Percebeu-se, que ato reflexivo da/na prática docente é um processo sistemático e contínuo no qual o professor investiga, analisa e avalia suas próprias ações pedagógicas, antes, durante e depois de sua execução, visando a melhoria do ensino e a aprendizagem ativa dos alunos. Longe de ser apenas um ato individual, a reflexão é uma ferramenta transformadora que permite ao docente superar a rotinização e ressignificar o fazer pedagógico à luz da teoria e do contexto social. E, ainda, ficou claro que a reflexão crítica da/na prática docente não se limita à autoavaliação, mas é um exercício de investigação que transforma o educador em um agente ativo na produção de saberes e na melhoria da qualidade do ensino.
Em tempos difíceis, o ato reflexivo da/na prática docente durante a pandemia de COVID-19 foi marcado pela necessidade de reinvenção pedagógica, adaptação rápida ao ensino remoto emergencial e de uma intensa revisão das estratégias de ensino-aprendizagem. A pandemia transformou o cotidiano escolar, exigindo que professores atuassem como sujeitos criativos para superar a falta de experiência prévia com ferramentas digitais e o distanciamento físico dos alunos.
No contexto pandêmico, viu-se a importância de um professor crítico e reflexivo, que supera a rotina e reflete sobre suas ações antes, durante e depois de executá-las. Essa postura permitiu que os docentes repensassem o papel da tecnologia, não como substituta, mas como ferramenta de mediação na aprendizagem.
Além, da pandemia que causou mudanças no modus operandi de ensinar e aprender, os professores enfrentaram diversos desafios, tais como a precarização do ensino, desigualdade de acesso à internet e o desmonte de políticas públicas educacionais, dentre outros. Diante desses obstáculos, foi necessário que os professores aprendessem a valorizar a autorreflexão e a reflexão coletiva, compreendendo o ensino remoto como uma modalidade distinta do EAD convencional e a necessidade de repensar a avaliação.
Como resposta e resultado dessa pesquisa, notou-se que, diante desse cenário pandêmico, concluímos que, a educação passou e passa por uma revolução em seus métodos de ensinar. Por isso, diante dos hercúleos desafios enfrentados por todos os professores, alunos e os que fazem parte do âmbito escolar, ficam algumas experiências boas e outras nem tanto, mas todas servirão como aprendizado, talvez para valorizar o que tínhamos, seja para ampliar o olhar em um sentido diferente e mais completo daqui para a frente.
Vale citar que a necessidade e a superação foram os regentes no processo de ensino e aprendizagem. Destarte, a necessidade de continuar e a superação por parte dos professores e alunos, mesmo com dificuldades, mas todos engajados no desafio do medo, da angústia, da tristeza e da aflição diante da possibilidade de contrair o COVID -19, mas, nunca desistiram de exercer as atividades pedagógicas
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O grande impacto causado pela pandemia do Coronavírus foi geral em todas as áreas da sociedade. Na esfera educacional, atingiu principalmente atores pedagógicos envolvidos nessa prática desde o início da pandemia. Segundo algumas pesquisas4, famílias, alunos e responsáveis, principalmente os professores que são os participantes desse estudo, equipes pedagógicas, diretores e secretarias, tiveram que fazer (re)adaptações na rotina e na metodologia para continuar o processo de ensino e aprendizagem.
Partindo do pressuposto de que o ato de ensinar e aprender é constituído de relações humanas, não podemos deixar de refletir, que os professores também são seres humanos e têm que lidar com a necessidade de adaptar-se aos recursos digitais, para preparar atividades que possam motivar os alunos e, ao mesmo tempo, que também precisam exercer outros deveres no âmbito familiar por conto do trabalho Home Office.
Nesse sentido, é importante aclarar que estamos vivendo em tempos pandêmicos, e que isso, trouxe um grande impacto e mudanças no cenário da/na educação. Diante dessa realidade, e para não perder o ano letivo, visto que as escolas brasileiras fecharam as portas por decreto das autoridades competentes, as secretarias municipais e estaduais de educação optaram pelo ensino remoto emergencial.
Inicialmente, essa modalidade de ensino, não tinha a pretensão de substituir as aulas presenciais, e sim, apenas atuar de forma temporária, utilizando-se ou não das tecnologias digitais como ferramentas possíveis nas atividades e comunicação entre escola, família, professores e alunos, e assim, colocar em prática atividades pedagógicas propostas no currículo para continuar o ano letivo.
Espera-se que o presente trabalho possa promover maiores esclarecimentos acerca das práticas pedagógicas, bem como possa servir de base para estudos posteriores que busquem compreender e refletir no impacto que o fenômeno Coronavírus causou no cenário educacional. Desse modo, deixou claro a importância da relação professor/aluno para a aprendizagem, e que daqui para a frente, deverá ocorrer (já estar ocorrendo) uma significativa mudança nas práticas escolares desenvolvidas, pois esta foi e será o maior desafio para todos os atores envolvidos no âmbito educacional, quer seja na pandemia ou fora dela, e assim, a escola nunca mais será a mesma de antes da COVID-19.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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BARROS, R. Ensinar e aprender em tempos pandêmicos: (re)inventando práticas pedagógicas. Artigo elaborado para disciplina de Doutorado em Educação, UNINTER, Curitiba, Paraná, 2021.
DEWEY J. Democracia e educação. São Paulo: Companhia Editora Nacional; 1979.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática docente. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 5 ed. São Paulo: Atlas, 2017.
PERRENOUD, Philippe. A prática reflexiva no ofício do professor: Profissionalização e Razão Pedagógica. Porto Alegre: Artmed, 2002.
SCHÖN, Donald A. The Reflective Practitioner: How Professionals Think in Action. New York: Basic Books, 1983.
SCHÖN, Donald. Le praticien réflexif: à la recherche du savoir caché dans l’agir professionnel. Montréal: Logiques, 1993.
SCHÖN, Donald, A. Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e a aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2000.
SCHÖN, Donald. Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e a aprendizagem. Tradução: Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Penso, 2003.
SILVA, A. J. N. A Ludicidade no Laboratório: considerações sobre a formação do futuro professor de matemática. Curitiba, PR: Editora CRV, 2014.
VEIGA. Ilma Passos Alencastro. A prática pedagógica do professor de didática. 13. ed. Campinas, SP: Papirus, 2013.
ZEICHNER, Kenneth. A formação reflexiva de professores: ideias e práticas. Lisboa, PT: Educa, 1993.
1 Professor Universitário, Dr. em Educação pelo ITS - Theology & Sciences Institute of Flórida, USA. Graduado em Letras, Pedagogia, Especialista e Mestre em Educação Pelo UNISAL, Brasil. Prof. Pesquisador do LOED, UNICAMP, Brasil. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8322-316X
2 Reflexão sobre a prática docente e a aprendizagem dos alunos Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0742051X23002937#:~:text=The%20teacher%20reflects%20without%20urgency,when%20reflecting%20on%20their%20action. Acesso em: 18 mar. 2025.
3 A Relevância de uma prática reflexiva na construção da identidade docente. Disponível em: https://editorarealize.com.br/editora/anais/conedu/2020/TRABALHO_EV140_MD1_SA1_ID3606_12082020175733.pdf. Acesso em: 18 mar. 2025
4 Grupo de Pesquisa e estudo GESTRADO/UFMG (2020).