REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777237275
RESUMO
O presente estudo analisou o manejo das fraturas mandibulares em pacientes pediátricos, enfatizando suas particularidades em relação à população adulta, especialmente devido às estruturas em desenvolvimento e ao risco de interferência no crescimento facial. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada a partir de estudos indexados nas bases PubMed, SciELO, LILACS e Google Scholar, publicados nos últimos dez anos. Observou-se que as condutas conservadoras apresentam elevada eficácia em fraturas não deslocadas, sobretudo em crianças com dentição decídua ou mista, em virtude da alta capacidade de remodelação óssea. Em contrapartida, o tratamento cirúrgico é indicado em casos com deslocamento significativo ou instabilidade, devendo considerar os potenciais impactos no crescimento mandibular. O uso de materiais reabsorvíveis demonstrou vantagens importantes, como a dispensa de reintervenção cirúrgica, enquanto os sistemas em titânio permanecem indicados em fraturas mais complexas. Conclui-se que a escolha terapêutica deve ser individualizada, levando em conta idade, tipo e localização da fratura, com o objetivo de garantir adequada reabilitação funcional e estética. O estudo reforça a importância da constante atualização profissional frente aos avanços técnicos e materiais disponíveis.
Palavras-chave: Fraturas mandibulares; Pediatria; Tratamento conservador; Cirurgia bucal.
ABSTRACT
This study analyzed the management of mandibular fractures in pediatric patients, emphasizing their particularities compared to the adult population, especially due to developing structures and the risk of interference with facial growth. This is an integrative literature review, based on studies indexed in PubMed, SciELO, LILACS, and Google Scholar, published in the last ten years. It was observed that conservative approaches are highly effective in non-displaced fractures, especially in children with deciduous or mixed dentition, due to the high capacity for bone remodeling. In contrast, surgical treatment is indicated in cases with significant displacement or instability, and the potential impacts on mandibular growth should be considered. The use of resorbable materials demonstrated important advantages, such as eliminating the need for surgical reintervention, while titanium systems remain indicated in more complex fractures. It is concluded that the therapeutic choice should be individualized, taking into account age, type, and location of the fracture, with the aim of ensuring adequate functional and aesthetic rehabilitation. The study reinforces the importance of continuous professional development in light of available technical and material advancements.
Keywords: Mandibular fractures; Pediatrics; Conservative treatment; Oral surgery.
1. INTRODUÇÃO
As fraturas mandibulares em pacientes pediátricos representam uma porcentagem significativa dos traumas faciais, correspondendo a até 15% dos casos, embora sejam menos frequentes que em adultos. Essas lesões apresentam características clínicas particulares, relacionadas ao crescimento ósseo ativo, à presença de germes dentários e à elevada capacidade de remodelação (Hofmann et al., 2023). Os principais mecanismos etiológicos incluem quedas, acidentes domésticos, esportivos e de trânsito, acometendo com maior frequência regiões como o côndilo, a sínfise e o corpo mandibular (Li et al., 2023). Nesse contexto, o manejo adequado torna-se essencial para prevenir sequelas funcionais, estéticas e preservar o desenvolvimento facial (Ribeiro; Alencar, 2022).
O tratamento das fraturas mandibulares pediátricas impõe desafios adicionais quando comparado à população adulta. A escolha entre abordagem conservadora e cirúrgica devem ser considero fatores como idade, estágio de erupção dentária e gravidade da fratura (Ticku et al., 2025). Métodos conservadores são preferíveis em casos de fraturas não deslocados, por apresentarem menor risco às estruturas em desenvolvimento, enquanto a abordagem cirúrgica é reservada para fraturas complexas ou instáveis (Li et al., 2023; Ribeiro; Alencar, 2022).
Avanços recentes, como o uso de placas bioabsorvíveis e técnicas minimamente invasivas, ampliaram as possibilidades terapêuticas, proporcionando maior segurança no tratamento pediátrico (Hofmann et al., 2023). Entretanto, ainda existem controvérsias na literatura quanto à melhor conduta para diferentes faixas etárias e padrões de fratura, especialmente devido à escassez de estudos longitudinais (Li et al., 2023).
Diante disso, o presente estudo tem como objetivo analisar, por meio da literatura atual, as principais abordagens terapêuticas no manejo das fraturas mandibulares em pacientes pediátricos, destacando indicações, vantagens, limitações e desfechos clínicos.
2. METODOLOGIA
A presente revisão integrativa da literatura teve como objetivo reunir, analisar e sintetizar evidências científicas recentes acerca do manejo das fraturas mandibulares em pacientes pediátricos, comparando condutas conservadoras e cirúrgicas quanto às suas indicações, vantagens, limitações e desfechos clínicos, de modo a fornecer subsídios atualizados para a prática clínica baseada em evidências. A revisão foi orientada pela pergunta norteadora estruturada segundo a estratégia PICO: “Quais são as condutas terapêuticas mais atuais no manejo das fraturas mandibulares em pacientes pediátricos e quais são seus resultados clínicos e potenciais limitações?”, na qual P referiu-se à população pediátrica com fraturas mandibulares, I às intervenções cirúrgicas e conservadoras, C à comparação entre as condutas e O aos desfechos clínicos, complicações e impacto no crescimento facial. Foram utilizado 33 artigos científicos selecionado nas bases de dados PubMed, SciELO, LILACS e Google Scholar, considerando publicações dos últimos dez anos, nos idiomas português, inglês e espanhol, que abordaram protocolos conservadores — como contenções elásticas e aparelhos ortopédicos —, bem como abordagens cirúrgicas, incluindo fixação interna rígida e uso de placas reabsorvíveis, contemplando resultados clínicos e complicações. Foram excluídos relatos de casos isolados, artigos duplicados, estudos com falhas metodológicas, pesquisas exclusivamente em adultos e trabalhos sem texto completo disponível. A seleção dos estudos ocorreu por meio da análise de títulos e resumos, seguida de leitura integral para verificação da aderência aos critérios de inclusão e exclusão, registrando-se o número final de artigos selecionados e justificando eventuais exclusões. Os dados extraídos foram organizados em dois eixos principais — condutas conservadoras, detalhando protocolos, técnicas, vantagens, limitações e indicações, e condutas cirúrgicas, incluindo técnicas, materiais, riscos, complicações e indicações —, sendo posteriormente sintetizados de forma descritiva, a fim de evidenciar os achados mais relevantes e o impacto a curto e longo prazo no desenvolvimento facial.
3. REVISÃO DA LITERATURA
3.1. Definição, Epidemiologia e Desafios no Diagnóstico
As fraturas mandibulares pediátricas apresentam maior prevalência na faixa etária entre 13 e 17 anos, correspondendo a quase metade dos casos registrados, enquanto crianças menores de cinco anos apresentam menor incidência, sobretudo em razão da maior elasticidade óssea e da espessa cobertura de tecidos moles, que conferem relativa proteção contra fraturas graves (BOTTINI; ROCCIA; SOBRERO, 2024).
De acordo com Yerov, Yakovenko e Primak (2023), os principais fatores etiológicos incluem quedas, predominantes em crianças mais novas, além de acidentes esportivos, domésticos e, especialmente, acidentes de trânsito, que se destacam como causas relevantes em escolares e adolescentes. Em termos de localização anatômica, observa-se maior prevalência de fraturas no processo condilar, seguido pelas regiões de sínfise e parassínfise, corpo mandibular e, em menor proporção, o ângulo. (OHAYON et al., 2025)
A elevada frequência de fraturas condilares pode ser explicada por sua posição anatômica vulnerável e pelo papel do côndilo como centro secundário de crescimento, tornando seu comprometimento particularmente preocupante devido ao risco de sequelas funcionais e assimetrias faciais a longo prazo (BOTTINI; ROCCIA; SOBRERO, 2024).
A mandíbula infantil apresenta características anatômicas e fisiológicas próprias que a diferenciam substancialmente da mandíbula adulta e influenciam diretamente o padrão e o manejo das fraturas. O osso mandibular na infância possui cortical mais fina, maior proporção de osso esponjoso, periósteo espesso e altamente vascularizado, além de maior elasticidade e capacidade de remodelação, favorecendo fraturas em “greenstick” ou pouco deslocadas (GOMES et al., 2020). Ademais, os centros de crescimento, especialmente na região condilar, e a presença de germes dentários em diferentes estágios influenciam diretamente a biomecânica e a distribuição das fraturas. Como destacado por Lieger et al. (2023), esses fatores também orientam a escolha terapêutica, permitindo inclusive o uso seguro da fixação interna quando respeitada a anatomia em desenvolvimento.
Nesse contexto, o manejo das fraturas mandibulares pediátricas deve considerar não apenas a restauração funcional imediata, mas também os potenciais impactos no crescimento mandibular e no desenvolvimento dentário. As fraturas condilares são particularmente críticas, podendo resultar em assimetrias faciais e disfunções da articulação temporomandibular quando não tratadas adequadamente (JEKYN et al., 2023). Estudos indicam que métodos conservadores, como contenções funcionais e dispositivos do tipo splint fiber associados a arcos de ligadura, permitem estabilização adequada, preservam os germes dentários e reduzem o risco de comprometimento do crescimento (GOMES et al., 2020).
Outros trabalhos reforçam que, diante da elevada capacidade de remodelação óssea na infância, o tratamento deve priorizar técnicas menos invasivas sempre que possível, reservando a fixação rígida apenas para situações em que haja necessidade absoluta de estabilização. Além disso, fatores como o estágio da dentição influenciam diretamente a escolha terapêutica, sendo o manejo precoce essencial para prevenir complicações futuras (OHAYON et al., 2025).
O diagnóstico das fraturas mandibulares em crianças apresenta desafios importantes, sobretudo devido à dificuldade de avaliação clínica e radiográfica. A espessa camada de tecidos moles, a elasticidade óssea e a presença de germes dentários em desenvolvimento podem mascarar sinais clássicos de fratura, dificultando a interpretação de exames de imagem (GOMES et al., 2020). Estudos apontam limitações da radiografia panorâmica e de incidências planas, especialmente na identificação de fraturas intracapsulares (KOZAKIEWICZ; WALCZYK, 2023). Embora a tomografia computadorizada represente um avanço diagnóstico significativo, seu uso em pediatria deve ser criterioso devido à exposição à radiação, reforçando a necessidade de associação com exame clínico detalhado (OHAYON et al., 2025).
3.2. Tratamento Conservador
O tratamento das fraturas mandibulares em pacientes pediátricos exige atenção especial devido às particularidades anatômicas e funcionais dessa faixa etária, como a presença de germes dentários e o elevado potencial de crescimento ósseo. Por essa razão, é preferível optar por métodos conservadores, que permitem a estabilização da fratura sem prejudicar o desenvolvimento dentário (SHARMA et al., 2019). Por esse motivo, recomenda-se priorizar métodos conservadores, capazes de proporcionar estabilização adequada sem comprometer o desenvolvimento dentário e ósseo (RIBEIRO & ALENCAR, 2022). Segundo PICKRELL et al., (2017), o tratamento fechado é geralmente suficiente para a maioria dos casos, especialmente nas fraturas condilares, que apresenta excelente capacidade de cicatrização e remodelação.
As evidências disponíveis indicam que o manejo conservador apresenta elevada taxa de sucesso em fraturas não deslocadas ou minimamente deslocadas. Entre as técnicas mais utilizadas destacam-se o bridle wiring, confeccionado com fio ortodôntico, capaz de assegurar estabilidade e consolidação óssea adequada em fraturas de sínfise e parassínfise (SHARMA et al., 2019). Bem como os dispositivos de contenção confeccionados em fibras de quartzo associados a ligaduras circundentárias. Este último método, aplicado em crianças durante a fase de crescimento, demonstrou cicatrização satisfatória em até doze semanas, sem complicações estéticas ou funcionais (LI et al., 2023).
Outro ponto amplamente discutido na literatura é a necessidade de individualização do tratamento. De acordo com Hofmann et al. (2023), a decisão terapêutica deve levar em consideração aspectos como o estágio de desenvolvimento dentário, a localização da fratura e a capacidade de remodelação óssea. Esses critérios são fundamentais para definir a indicação do tratamento conservador ou, em casos mais complexos, a necessidade de intervenção cirúrgica. Além disso, Otaviano et al. (2023) constataram que o manejo não cirúrgico de fraturas mandibulares de menor complexidade apresenta resultados satisfatórios e baixo índice de complicações quando indicado adequadamente.
Em síntese, a literatura demonstra que o tratamento conservador constitui a primeira escolha no manejo das fraturas mandibulares pediátricas em situações de baixa complexidade, permitindo a manutenção da função mastigatória, a prevenção de sequelas a longo prazo e a preservação do desenvolvimento dentário e ósseo. (SHARMA et al., 2019; RIBEIRO; ALENCAR, 2022).
3.3. Condutas Cirúrgicas
O tratamento cirúrgico deve ser cuidadosamente indicado, com o objetivo principal de restabelecer a função mastigatória e a simetria facial, preservando o potencial de crescimento ósseo. (BOTTINI et al., 2024) A escolha pela abordagem cirúrgica costuma estar relacionada ao grau de deslocamento dos fragmentos, instabilidade, presença de múltiplas fraturas ou perda de oclusão não passível de correção funcional. Em fraturas condilares, a conduta funcional é, na maioria das vezes, suficiente; porém, nos casos em que há deslocamento grave ou comprometimento funcional, a redução aberta com fixação interna (ORIF – Open Reduction and Internal Fixation) pode ser necessária e apresenta bons resultados clínicos (BOTTINI et al., 2024; JENKYN et al., 2023; Roccia et al., 2024).
Entre as técnicas cirúrgicas disponíveis, destacam-se a fixação interna rígida com placas e parafusos e a fixação maxilomandibular (MMF – Maxillomandibular Fixation). O titânio permanece como material de escolha por oferecer estabilidade e ampla disponibilidade, além do custo mais acessível. No entanto, pode exigir remoção posterior, o que levou ao desenvolvimento de alternativas reabsorvíveis. As placas reabsorvíveis apresentam a vantagem de eliminar a necessidade de uma segunda intervenção cirúrgica e reduzir o risco de interferência no crescimento ósseo, embora o custo elevado e a maior complexidade técnica ainda limitem seu uso rotineiro (KAO et al., 2019; OTAVIANO et al., 2023).
No contexto brasileiro, resultados favoráveis foram observados com o uso de placas de titânio em pacientes pediátricos, sem evidências significativas de comprometimento do crescimento mandibular em acompanhamentos de médio prazo (GOMES et al., 2020). Além disso, técnicas minimamente invasivas, como o uso de splints acrílicos, ferulizações dentárias e contenções em fibras de quartzo associadas a ligaduras circundentárias, mostraram-se eficazes em fraturas de sínfise e corpo mandibular, permitindo consolidação óssea adequada e baixo índice de complicações, como deiscência e infecção (LI et al., 2023; SHARMA et al., 2019).
A comparação das principais condutas cirúrgicas empregadas em pacientes pediátricos está apresentada na Tabela 1, que sintetiza vantagens, limitações e evidências recentes encontradas na literatura.
Tabela 1 – Condutas cirúrgicas em fraturas mandibulares pediátricas, suas vantagens, limitações e evidências recentes.
Conduta Cirúrgica | Vantagens | Limitações | Evidências Recentes |
Titânio (não reabsorvível) | Estabilidade rígida; ampla disponibilidade; custo relativamente baixo | Pode exigir remoção; possível interferência teórica no crescimento | Gomes et al., 2020; Hofmann et al., 2023 |
Placas reabsorvíveis | Evitam reoperação; menor risco de interferência no crescimento | Custo elevado; técnica mais complexa | Otaviano et al., 2023; Kao et al., 2019 |
Splints e contenções | Menos invasivas; preservam germes dentários; adequadas para fraturas simples | Menor estabilidade em fraturas múltiplas ou deslocadas | Li et al., 2023; Sharma et al., 2019 |
Fonte: Própria dos autores.
3.4. Comparação das Condutas e Evidências Científicas
As fraturas de face no paciente pediátrico são tidas como raras na literatura (OTAVIANO, et al., 2023). Em meio aos traumas que acometem a região facial, as fraturas faciais pediátricas são relativamente incomuns, quando comparada às fraturas de face em adultos, representando apenas cerca de 15% das lesões de face (COSTA et al., 2021; WANG et al. 2018). A modalidade do tratamento nesses casos é frequentemente debatida e deve ser determinada principalmente pelos fatores como a localização da fratura, nível de deslocamento, idade do paciente, estágio de desenvolvimento dentário, devido a presença dos germes dentários ao longo da mandíbula, além do crescimento e desenvolvimento da criança com alerta ao possível dano ao crescimento a longo prazo da mandíbula (YESANTHARAO et al. 2020).
Dentre as fraturas faciais pediátricas, as fraturas de mandíbula são as mais comuns. Aproximadamente metade das fraturas faciais, incluem o osso mandibular (POMPONI et al., 2021; ARAÚJO et al., 2022; BERLIN et al., 2021). O côndilo é normalmente a região mais acometida, seguido da região de parassínfise, corpo e, por fim, área do ângulo (DOURADO, et al., 2004).
Fraturas mandibulares, neste perfil de paciente, comumente apresentam-se de forma unitária minimamente deslocadas, que por sua vez, podem ser tratadas por métodos minimamente invasivos. Porém, fraturas deslocadas e cominuídas necessitam de Redução Aberta e Fixação Interna (RAFI) (PICKRELL et al., 2017; MAZEED et al., 2015) A aplicação de sistema de fixação interna com material metálico, neste grupo de pacientes, vem sendo questionada quanto às suas vantagens e desvantagens. Apesar de oferecerem uma adequada fixação, durante o processo de reparo ósseo, este sistema apresenta desvantagens relacionadas ao seu material (FILINTE et al., 2015; GABA et al., 2013).
Sistemas de fixação interna, a base de materiais metálicos, são considerados eficazes no tratamento das fraturas mandibulares, garantindo um pós-operatório satisfatório, permitindo a função mandibular sem que haja movimentação interfragmentar (FONSECA et al., 2015). Embora estes dispositivos apresentem inúmeras vantagens, a literatura científica vem levantando discussões relacionadas à sua aplicabilidade em pacientes pediátricos, devido às características inerentes ao seu material (FILINTE et al., 2015).
A aplicação de dispositivos metálicos, em crianças, está diretamente ligada a distúrbios do crescimento relacionados à limitação do crescimento mandibular, sintomatologia álgica, infecções, migração do dispositivo, sensibilidade à temperatura e interferência nos exames de imagem. As complicações referentes ao uso destes sistemas, nestes pacientes, levam a uma alta taxa de necessidade de um segundo procedimento cirúrgico para a sua remoção (FILINTE et al., 2015; STANTON et al., 2014).
Sistemas de fixação bioabsorvíveis foram desenvolvidos com o objetivo de superar desvantagens relacionadas à aplicação de placas e parafusos em titânio no tratamento de fraturas (BURNS et al., 2020). E são majoritariamente indicados para pacientes pediátricos, fato este que se deve aos atributos deste sistema, que é composto por polímeros rígidos e elásticos, que apresentam características de resistência e propriedades de degradação num período entre 2 a 5 anos (GABA et al., 2013). Atributos estes que são primordiais na manutenção do crescimento normal da mandíbula, fornecimento de uma boa redução dos segmentos fraturados e ainda, evitam que o paciente seja submetido a um segundo procedimento cirúrgico para a remoção do material de osteossíntese (BURNS et al., 2020; GABA et al., 2013). Tratando-se da segurança relacionada ao potencial de reabsorção deste dispositivo, Segundo Burns et al. (2020), os compostos biodegradáveis que compõem o sistema bioabsorvível foram considerados atóxicos, não se acumulam em órgãos vitais, apresentam biocompatibilidade e não ocasionam reações negativas ao tecido circundante durante o período de degradação, considerando este sistema seguro.
O sistema de placa e parafusos bioabsorvível oferece menos probabilidades de causar injúria aos germes dentários, porém, ainda é necessário tomar certos cuidados a fim de evitar intercorrências (LI et al., 2013; POMPONI et al., 2021). As desvantagens relacionadas ao sistema de fixação interna bioabsorvível são baseadas no seu alto custo, fato este que reduz o seu uso na prática hospitalar, menor resistência, apresentando somente 6% da rigidez do titânio, levando a possibilidade de quebra da placa em decorrência de traumas ou ação muscular, e dificuldades relacionadas à técnica operatória de manuseio (MAZEED et al., 2015; VIANA et al., 2017; SILVEIRA et al., 2012; SIWANI et al., 2014). Nota-se que quando bem indicadas, as suas vantagens superam suas desvantagens e a literatura vem apresentando uma série de resultados favoráveis, comparáveis ao sistema convencional (VIANA, 2017).
A abordagem cirúrgica deve ser pautada em alguns fatores como a idade do paciente, o desenvolvimento e o crescimento ósseo, o nível de deslocamento da fratura, o tipo de fratura, o comprometimento oclusal e a cronologia de erupção dentária. Independente da conduta terapêutica empregada, o objetivo do tratamento sempre deverá ser pautado no adequado restabelecimento da função e estética, buscando diminuir as chances de complicações pós-operatórias em curto e longo prazo (SOUZA et al., 2025).
4. CONCLUSÃO
Conclui-se que o manejo das fraturas mandibulares em pacientes pediátricos deve considerar as particularidades do crescimento ósseo e do desenvolvimento dentário. As abordagens conservadoras constituem a primeira escolha em fraturas de baixa complexidade, enquanto o tratamento cirúrgico deve ser reservado para casos mais graves, com indicação criteriosa.
A escolha terapêutica deve ser individualizada, buscando equilíbrio entre estabilidade e preservação do crescimento facial. Apesar dos avanços, há necessidade de estudos longitudinais que avaliem os desfechos em longo prazo, a fim de consolidar protocolos mais padronizados.
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2 Cirurgião-dentista, Universidade Santa Cecília, Santos São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. Orcid: https://orcid.org/0009-0002-8039-9383
3 Graduada em Odontologia pela Universidade Evangélica de Goiás- UniEvangélica Anápolis, Goiás
CEP: 75083-515. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0614-1416
4 Graduando em Odontologia - Centro Universitário FAMETRO, Manaus, Amazonas, Brasil. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-2745-2301
5 Cirurgião Dentista, Centro universitário Estácio, Taguatinga Sul Q CS CSG9 Brasilia- DF. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-3500-058X
6 Cirurgiã Dentista, Centro universitário Estacio Belem, Belém, Pará, Brasil. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-8779-4262
7 Graduada em odontologia pelo Centro Universitário de Rio Preto - UNIRP, Matão Estado: São Paulo País: Brasil. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-7036-0761
8 Graduanda em Odontologia, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC Minas, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-4671-2167
9 Graduando em odontologia - Universidade Nove de Julho (UNINOVE), São Paulo, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-5046-5443
10 Graduando em Odontologia - Centro Universitário Anhanguera Pitágoras Unopar de Niterói (Anhanguera), Saquarema, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-0939-8670
11 Graduanda em Odontologia, Universidade Goyazes (UniGoyazes), Trindade, Goiás, Brasil. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-1766-4474
12 Cirurgiã Dentista, Centro Universitário Alfredo Nasser , Goiânia, Goiás, Brasil. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-8209-7036
13 Graduada em odontologia pelo centro universitário de Rio Preto - UNIRP , Uchoa, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. Orcid: https://orcid.org/ 0009-0006-7395-1730
14 Graduando em odontologia, Centro Universitário da Amazônia - Uniesamaz, Belém, Pará, Brasil. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-4704-2248
15 Licenciado em Odontologia , Universidad Católica Boliviana San Pablo - Santa Cruz de la Sierra, Bolivia. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-2126-4116
16 Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde - FEPECS, Brasília, Distrito Federal, Brasil. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1429-7832