REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793607165
RESUMO
A leishmaniose visceral é uma zoonose parasitária, causada por protozoários do gênero Leishmania, com elevada relevância para a saúde pública global devido à sua gravidade e expansão em áreas tropicais. No Brasil, o processo de urbanização desordenada e as condições precárias de saneamento têm favorecido a disseminação do vetor Lutzomyia Longipalpis, consolidando o cão como o principal reservatório no ciclo urbano. É uma pesquisa descritiva, de abordagem quantitativa, voltada à investigação do nível de conhecimento da população adulta com 304 voluntários por meio de preenchimento de um formulário on-line. O estudo analisa o grau de conhecimento da população de Piripiri, Piauí, sobre a leishmaniose visceral animal, abrangendo aspectos de transmissão, sintomatologia e prevenção. Fundamenta-se de que o controle eficaz da doença depende da participação ativa da comunidade; contudo, a literatura aponta lacunas informacionais que comprometem a adoção de medidas preventivas. No Piauí e demais localidades, a doença é popularmente conhecida como "calazar", fatores socioeconômicos e ambientais facilitam a manutenção do ciclo de transmissão, especialmente em áreas periurbanas. Diante da necessidade de fortalecer as estratégias de vigilância epidemiológica, o estudo identificou falhas na compreensão popular que podem subsidiar o planejamento de futuras ações de educação em saúde. Conclui-se que a avaliação do nível de informação local é ferramenta indispensável para otimizar as políticas públicas de controle de zoonoses e mitigar o impacto da enfermidade na região.
Palavras-chave: Leishmaniose; Educação em Saúde; Zoonose; Vigilância Epidemiológica; Saúde Pública.
ABSTRACT
Visceral leishmaniasis is a parasitic zoonosis caused by protozoa of the genus Leishmania. It is significant global public health concern due to its severity and its spread across tropical regions. In Brazil, unplanned urbanization and poor sanitation conditions have facilitated the proliferation of the vector Lutzomyia Longipalpis, with dogs serving as the primary reservoir within the urban transmission cycle. This descriptive, quantitative study investigated the level of knowledge among the adult population, involving 304 volunteers who completed an online questionnaire. The research analyzed the extent of knowledge regarding animal visceral leishmaniasis including its transmission, symptoms, and prevention among the population of Piripiri, Piauí. While effective disease control relies on active community participation, existing literature highlights knowledge gaps that hinder the adoption of preventive measures. In Piauí and other regions, the disease is colloquially known as "calazar," and socioeconomic and environmental factors particularly in peri-urban areas sustain its transmission cycle. Given the need to strengthen epidemiological surveillance strategies, this study identified gaps in public understanding that can inform the planning of future health education initiatives. It is concluded that assessing the level of local awareness is an essential tool for optimizing public policies on zoonosis control and mitigating the impact of the disease in the region.
Keywords: Leishmaniasis; Health Education; Zoonosis; Epidemiological Surveillance; Public Health.
1. INTRODUÇÃO
A leishmaniose compreende um espectro de doenças parasitárias causadas por protozoários do gênero Leishmania, transmitidas a humanos e animais pela picada de flebotomíneos infectados, conhecidos regionalmente como mosquito-palha, birigui ou tatuquira. Caracterizada como uma zoonose de ampla distribuição em regiões tropicais e subtropicais, a enfermidade figura entre as doenças negligenciadas de maior relevância para a saúde pública global (WHO, 2010; De Andrade et al., 2021).
Segundo preconiza o Ministério da Saúde (2022) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), tais patologias advêm com prioridade sobre pessoas em circunstância de vulnerabilidade sociofinanceira. Sob a perspetiva clínica, as leishmanioses revelam-se nas formas tegumentar e visceral; a tegumentar é marcada por danos cutâneas e mucosas, enquanto a visceral salienta-se pela grave potencialidade letal com o diagnóstico tardio (Brasil, 2021; Silva; Colvero, 2023).
No cenário brasileiro, a transmissão da forma visceral ocorre predominantemente via Lutzomyia longipalpis, vetor de hábitos noturnos que se prolifera em ambientes ricos em matéria orgânica (Pinto et al., 2025). Nas últimas décadas, o Brasil tem enfrentado uma expansão territorial e urbanização da doença, processo impulsionado pelo desmatamento, fluxos migratórios e saneamento básico precário (De Andrade et al., 2021).
Nesse panorama, ambientes periurbanos oferecem condições ideais para a reprodução do vetor e a proximidade com hospedeiros (Pinto et al., 2025). No ciclo urbano, o cão desempenha o papel de principal reservatório devido à sua alta susceptibilidade à infecção (De Carvalho, 2021). O sucesso das estratégias de vigilância depende intrinsecamente da participação comunitária; todavia, persistem lacunas significativas no conhecimento da população sobre as formas de prevenção (Da Silva et al., 2022).
Como pontuado por Almeida et al. (2020), o entendimento insuficiente da comunidade sobre a zoonose constitui um obstáculo crítico ao seu controle, o que torna as ações de educação em saúde ferramentas essenciais para fortalecer o sistema epidemiológico (Brasil, 2026). No estado do Piauí e demais localidades a doença, popularmente denominada "calazar", representa um desafio persistente. Municípios como Piripiri apresentam vulnerabilidades ambientais e socioeconômicas que favorecem a manutenção do ciclo de transmissão (Lasan/UFPI; Sesapi, 2024).
Embora a literatura e estudos prévios em diversas regiões brasileiras indiquem que a população já tenha ouvido falar da enfermidade, ainda se observa uma compreensão limitada acerca dos mecanismos de transmissão e sinais clínicos nos animais (Almeida et al., 2020). Essa desinformação compromete a adoção de práticas preventivas eficazes o que desfavorece o avanço ao combate a endemia e o progresso da educação em saúde (Melgaço et al., 2023).
Apesar da reconhecida relevância da leishmaniose como zoonose de impacto para a saúde pública, e da participação de diferentes espécies animais na manutenção de seu ciclo de transmissão, observa-se que a população possivelmente apresenta conhecimento limitado acerca dos mecanismos de transmissão, dos sinais clínicos nos animais e das medidas adequadas de prevenção. Estudos realizados em distintas regiões do Brasil evidenciam que, embora haja familiaridade prévia com a doença, persistem lacunas significativas no entendimento sobre o papel dos reservatórios, do vetor e das estratégias de controle (Almeida; Caetano; Ilha, 2022; Almeida et al., 2020).
A insuficiência de informações qualificadas pode comprometer a adoção de práticas preventivas eficazes, além de fragilizar as ações de vigilância e controle da doença (Brasil, 2022). Nesse contexto, torna-se fundamental compreender o nível de conhecimento da população, especialmente em municípios que apresentam condições ambientais favoráveis à presença do vetor e à circulação do parasito. A literatura destaca que a avaliação do conhecimento comunitário constitui ferramenta estratégica para subsidiar ações de educação em saúde e fortalecer as políticas públicas de prevenção e controle da leishmaniose (Melgaço et al., 2023).
Os objetivos deste estudo buscam orientar a investigação acerca do nível de conhecimento da população sobre a leishmaniose animal no município de Piripiri–PI, considerando aspectos relacionados à transmissão da doença, sinais clínicos nos animais e medidas de prevenção analisando o grau de conhecimento populacional sobre tais medidas preventivas e de controle da leishmaniose.
Diante desse cenário, o presente estudo mensurou o nível de conhecimento da população do município de Piripiri–PI acerca da leishmaniose animal por meio de 304 voluntários via preenchimento de formulário on-line abrangendo aspectos de transmissão, sintomatologia e prevenção. Portanto, a avaliação do nível de conhecimento em localidades com circulação ativa do parasito, como na cidade de Piripiri, é ferramenta indispensável para otimizar as políticas públicas de controle de zoonoses e mitigar o impacto da enfermidade na região contribuindo com o planejamento de educação em saúde.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1. Aspectos Gerais da Leishmaniose
Entre um grande grupo de doenças parasitárias, a Leishmaniose é procedente de protozoários do gênero Leishmania, em que a transmissão ocorre para seres humanos e animais através da picada de flebotomíneos contaminados. Tais insetos são da família Psychodidae, popularmente conhecidos como birigui, tatuquira e mosquito-palha. Dentre as regiões mais propensas a facilidade de disseminação e infecções, estão as regiões tropicais e subtropicais, mostrando um elevado número de casos em diversificados números de países no mundo (WHO, 2010).
Dentre tantas manifestações clínicas, a classificação das leishmanioses, em formato geral, são: visceral e tegumentar. Dentre as duas, a mais agressiva é a visceral, pois, manifesta-se comprometendo os principais órgãos internos como: medula óssea, fígado, baço. Quando não diagnosticada e tratada precocemente, pode evoluir para um quadro de óbito. Já a forma tegumentar, tem como principal característica, a ocorrência de lesões cutâneas e mucosas, o que pode levar a um quadro de deformidades permanentes, incidindo negativamente na qualidade de vida dos infectados (Brasil, 2021).
A transmissão da doença ocorre quando o flebotomíneo infectado realiza o repasto sanguíneo em um hospedeiro vertebrado, inoculando o protozoário no organismo do hospedeiro. No Brasil, a espécie vetora crucial associada à leishmaniose visceral é Lutzomyia Longipalpis, que apresenta fácil capacidade adaptativa a ambientes urbanos e periurbanos (Almeida; Caetano; Ilha, 2022). Esses insetos possuem hábitos predominantemente crepuscular/noturno e encontram condições compatíveis para sua reprodução em ambientes com acúmulo de matéria orgânica, presença de animais e condições ambientais oportunas ao seu desenvolvimento (Brasil, 2026).
Destaca-se que a continuidade da transmissão tem relação direta com diversos fatores, dentre esses, os fatores sociais, ambientais e econômicos. Contribuem para esse processo, as carências no saneamento básico, o desmatamento, a expansão das cidades sem planejamento e a presença de animais domésticos. Desta forma, compreende-se que enfrentar a doença requer estratégias articuladas de envolvimento com a vigilância epidemiológica, diagnóstico precoce, controle do vetor e educação em saúde (Melgaço et al., 2023).
2.2. Leishmaniose Animal e Reservatórios
Constituída como uma zoonose, a leishmaniose é uma doença que interliga e envolve em sua transmissão o homem e o animal em seu ciclo de propagação. Há diversificados espécies de animais que operam como hospedeiros ou reserva do parasito, permitindo a permanência da infecção em múltiplos contextos ambientais. O cão, destaca-se como um dos principais animais domésticos, popularmente conhecido como um relevante depositário da leishmaniose na cidade, por conta da sua suscetibilidade à infecção a proximidade de convivência com o homem (De Carvalho, 2021).
Nos animais, a infecção pode manifestar-se de formas variadas, abrangendo sinais dermatológicos, emagrecimento, crescimento exagerado das unhas, lesões cutâneas e alterações sistêmicas. Ainda assim, parte dos animais infectados pode permanecer assintomática por longos períodos, o que dificulta a identificação precoce dos casos e contribui para a continuidade da transmissão no ambiente (Da Silva; Colvero, 2023).
Além dos cães, outros animais domésticos (ex.: felinos, suínos, equinos) e silvestres, também, podem participar da dinâmica epidemiológica da leishmaniose. Estudos apontam que diferentes espécies de mamíferos podem atuar como hospedeiros naturais do parasito, especialmente em ambientes onde há contato entre áreas silvestres e áreas urbanizadas. Dessa forma, a presença de reservatórios animais desempenha papel fundamental na persistência da doença em determinadas regiões (Silva et al., 2022).
A leishmaniose animal tem uma grande relevância no impacto da saúde pública, a existência de animais infectados pode integrar a continuidade do parasito no ecossistema e elevar o risco de transmissão a humanos. Para deter esses avanços e permanências do parasito e suas consequências, medidas como a vigilância epidêmica, diagnósticos precoces, campanhas de monitoramento em animais são estratégias eficazes de contenção da leishmaniose (Brasil, 2026).
2.3. Situação Epidemiológica da Leishmaniose Visceral Humana e Canina no Estado e Município de Piripiri–PI
Amplamente encontrada no território brasileiro, a leishmaniose visceral mostra-se como um relevante entrave de saúde pública. Observa-se que nas últimas décadas, a leishmaniose visceral é uma demanda em crescimento expansivo nos territórios e regiões urbanas no Brasil, o que antes restringia-se em áreas rurais, hoje, a urbanização, também levou consigo o alcance nos centros urbanos. Relaciona-se essa realidade a fatores como crescimento urbano desordenado, danos ao ecossistema e adaptação dos vetores ao espaço periurbano e domiciliar (Ministério da Saúde, 2026).
Na região do nordeste brasileiro, acumula-se uma parcela significativa das ocorrências de leishmaniose visceral humana, sendo atestada como zona endêmica para a doença. Fatores como as condições climáticas, ambientais e socioeconômicas presentes na região fortalecem a conservação do ciclo de difusão e colaboram para a persistência da enfermidade (Ministério da Saúde, 2014). Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN)7 advertem que, no estado do Piauí, entre 2015 e 2025, confirmaram-se 1.677 casos de leishmaniose visceral humana, com confirmação de 115 óbitos, o que comprova a importância da doença para a morbimortalidade estadual (Brasil, 2023).
No município de Piripiri–PI, a ocorrência de casos humanos conforme Secretaria Municipal de Saúde do munícipio (SESAM, 2025) ao longo dos anos demonstra a persistência da doença no território, reforçando o caráter endêmico da leishmaniose visceral na região. Esse cenário evidencia a necessidade de fortalecimento das ações de vigilância epidemiológica, diagnóstico precoce e controle vetorial.
Paralelamente, a leishmaniose visceral canina desempenha papel fundamental na dinâmica de transmissão da doença, uma vez que o cão é considerado o principal reservatório urbano do parasito (De Carvalho, 2021). Nesse contexto, a análise dos dados da vigilância ambiental do município de Piripiri–PI revela a ocorrência significativa da infecção em cães.
Por meio da Secretária Municipal de Saúde da cidade de Piripiri (SESAM), no período de 2021 a 2026 – aponta-se que o ano de 2026 contemplam apenas os dados até o mês de agosto – (Gráfico 1), realizou-se 2.007 testes rápidos para leishmaniose visceral canina no município, com confirmação de casos positivos por meio do teste ELISA. Destaca-se o ano de 2023, com maior número de testes realizados (607) e em 2022 o maior número de confirmações (68 casos), seguido por redução nos anos de 2023 e 2024, que apresentaram 53 e 47 casos confirmados cada.
Observa-se ainda que, nos anos de 2021 e 2022, houve confirmação de casos positivos em amostras inicialmente não reagentes nos testes rápidos, evidenciando limitações na sensibilidade dos testes de triagem e reforçando a importância da confirmação laboratorial, conforme preconizado pelos protocolos do Ministério da Saúde (Brasil, 2026).
Em relação às medidas de controle, destaca-se a realização de eutanásias de cães positivos, conforme diretrizes nacionais. No município, foram registradas 31 eutanásias em 2021 e 80 em 2022, com aumento de redução no ano de 2025 com 35.
Pontua-se criticamente ao fato do número de eutanásias entre os anos 2021 a 2024 como possíveis únicas vias para o “tratamento” da doença, logo após a confirmação ou não do diagnóstico com o teste ELISA, em alguns anos, como em 2021 e 2022 mesmo com menos positivos ELISA o número de eutanásias ultrapassaram os resultados dos testes positivos ELISA.
De encontro ao supracitado, acrescenta-se e observa-se a tendência dos casos confirmados como mostra o Gráfico 18, a seguir. Segundo os protocolos do Ministério da Saúde (Brasil, 2026) as ações de eutanásias visam reduzir a fonte de infecção e, consequentemente, interromper o ciclo de transmissão da doença. Vale destacar que os registros do Gráfico 1 foram referentes a casos residências no município.
Gráfico 1. Comparação entre Testes Rápidos e Casos Confirmados (ELISA) Leishmaniose Visceral Canina (LVC), Piripiri-PI
A doença leishmaniose no Piauí, é um desafio de bastante relevância para os serviços de saúde. Afinal, o vetor associado ao nosso ecossistema e a existência de reservas de animais favorecem para a permanência da enfermidade em diversos dos municípios. Afirma-se que um dado número epidêmico de ocorrências de casos em animais e humanos no território auxiliam na comprovação da eficiência de ações de vigilância e controle da doença (Sesapi, 2024).
A análise dos casos confirmados de leishmaniose visceral em humanos no município de Piripiri–PI, computados no Sistema de Informação de Agravos e Notificação (Sinan) no período de 2015 a 2025 (Gráfico 2), evidencia a persistência da doença ao longo dos anos, ainda que com variações no número de confirmados. No total geral de 2015 a 2025, foram registrados 32 casos, dos quais mais de 1/3 evoluiu para cura (11 casos), enquanto 3 evoluíram para óbito, demonstrando a relevância clínica e o potencial de gravidade da enfermidade. Em destaque, os anos de 2015, 2016 e 2017 concentram o maior número de casos registrados no gráfico com o total de 22 casos, destaca-se o ano de 2017 que apresentou o maior número de registro geral do gráfico com 11 casos (SINAN, 2025), conforme gráfico a seguir:
Gráfico 2. Leishmaniose Visceral em humanos– Total de Casos Piripiri-PI (2015-2025)
Observa-se que a leishmaniose visceral, tanto na forma humana quanto canina, apresenta relevância epidemiológica no município de Piripiri–PI. A presença de reservatórios animais, associada às condições ambientais favoráveis à proliferação do vetor, contribui para a manutenção da transmissão da doença. Nesse sentido, torna-se fundamental a integração entre vigilância epidemiológica, controle de reservatórios, diagnóstico precoce e ações de educação em saúde, conforme recomendado no Manual de Vigilância e Controle de Leishmaniose Visceral do Ministério da Saúde (2026).
2.4. Conhecimento da População Sobre a Leishmaniose Animal
O conhecimento da população sobre doenças zoonóticas desempenha papel fundamental no sucesso das estratégias de prevenção e controle. No caso da leishmaniose, a conscientização da comunidade acerca das formas de transmissão, dos sinais clínicos e das medidas preventivas pode contribuir significativamente para reduzir o risco de disseminação da doença (Almeida; Caetano; Ilha, 2022).
Estudos realizados em diferentes regiões do Brasil demonstram que, embora muitas pessoas já tenham ouvido falar sobre a leishmaniose, ainda existem lacunas importantes no conhecimento da população sobre aspectos relacionados à transmissão da doença e ao papel dos animais no ciclo epidemiológico. A falta de informação adequada pode dificultar a adoção de práticas preventivas e comprometer as ações de vigilância epidemiológica (De Andrade et al., 2021).
Além disso, a percepção da população acerca da doença pode influenciar diretamente a forma como os indivíduos lidam com a presença de animais infectados e com as medidas de controle recomendadas pelas autoridades de saúde. Dessa forma, compreender o nível de conhecimento da comunidade torna-se essencial para o planejamento de estratégias educativas mais eficazes (Almeida et al., 2020).
Nesse contexto, pesquisas que avaliam o conhecimento da população sobre a leishmaniose contribui para identificar lacunas informacionais e orientar ações de educação em saúde voltadas às necessidades específicas de cada comunidade. A disseminação de informações corretas e acessíveis pode fortalecer as estratégias de prevenção e contribuir para o controle da doença, especialmente em regiões onde a leishmaniose apresenta relevância epidemiológica (Almeida; Caetano; Ilha, 2022).
3. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo descritivo e exploratório, com abordagem quali-quantitativa e delineamento transversal, caracterizado pela observação, registro e análise dos fenômenos sem interferência do pesquisador, conforme descrito por Gil (2008), Marconi e Lakatos (2010). Estudos com delineamento transversal permitem a análise de uma população em um determinado momento, sendo amplamente utilizados para avaliar níveis de conhecimento, atitudes e práticas em saúde (Rouquayrol; Silva, 2018).
Adicionalmente, também, uma revisão bibliográfica, conduzida sob abordagem qualitativa, com a finalidade de subsidiar a fundamentação teórica do estudo e ampliar a compreensão sobre a temática investigada (Minayo, 2014).
O presente estudo foi realizado no município de Piripiri, estado do Piauí, região reconhecida por apresentar características ambientais, sociais e epidemiológicas favoráveis à ocorrência da leishmaniose visceral. Trata-se de uma pesquisa descritiva, de abordagem quantitativa, voltada à investigação do nível de conhecimento da população adulta acerca da leishmaniose animal. A população é composta por residentes do município com idade igual ou superior a 18 anos, de ambos os sexos, sendo a amostra selecionada por conveniência, com um total de 304 participantes. São incluídos indivíduos que concordam voluntariamente em participar do estudo mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), foram excluídos aqueles que não responderam integralmente ao instrumento de coleta ou apresentam dificuldades de compreensão que inviabilizam o preenchimento do questionário ou menores de 18 anos.
A coleta de dados ocorreu em locais de circulação pública, como bairros, unidades de saúde e espaços comunitários, por meio da aplicação de um questionário físico e/ou digital (via Google Forms) estruturado e elaborado pelos pesquisadores em cinco blocos. O instrumento contempla informações sociodemográficas e questões relacionadas ao conhecimento sobre a leishmaniose, incluindo formas de transmissão, sinais clínicos em animais e medidas de prevenção e controle. Os dados obtidos foram organizados em planilhas eletrônicas e analisados por meio da estatística descritiva, utilizando-se frequências absolutas e relativas, bem como medidas de tendência central quando aplicáveis. Os resultados são apresentados de forma textual, em porcentagens e tabela para facilitar a interpretação dos achados.
Todos os procedimentos observam os princípios éticos estabelecidos pela Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, garantindo o caráter voluntário da participação, o anonimato, a confidencialidade das informações e a utilização dos dados exclusivamente para fins acadêmicos.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os dados obtidos evidenciaram que a leishmaniose visceral é uma enfermidade conhecida pela maior parte dos participantes da pesquisa (75,5%), uma vez que a maioria relatou já ter ouvido falar tanto da doença quanto da denominação popular “calazar” (97,1%). Constata-se que na rotina dos munícipes de Piripiri a temática faz parte do seu cotidiano, visto que a localidade registra casos da doença em animais e humanos. Todavia, o mero reconhecimento da enfermidade não equivale, compulsoriamente ao exato conhecimento adequado dos feitos envolvidos no controle e transmissão da leishmaniose. Observa-se esses achados na seguinte tabela com dados gerais da pesquisa (Tabela 1):
Tabela 1. Resumo geral dos dados coletados dos participantes da pesquisa.
Número Total de participantes | Idade | Sexo | Escolaridade | Leishmaniose ou Calazar? | Zoonose? | Afeta Humanos? |
304 | Menor Idade 18 anos | Feminino 61,8% | Superior 52,6% | Leishmaniose Sim – 75,5% Não – 24,5% | Sim – 49% Não – 34,1% Não sabe responder – 16,9% | Sim – 73,6% Não – 5,1% Não sabe responder – 21,3% |
Maior Idade 79 anos | Masculino 37,3% | Médio 35,4% | Calazar Sim – 97,1% Não – 2,9% | |||
Média de Idade 35,6 anos | Básica 12,1% |
Fonte: desenvolvido pelas autoras (2026).
No bloco em que se referiu à forma de transmissão, destacaram respostas que associaram corretamente a leishmaniose à picada do mosquito-palha, comprovando ciência satisfatória sobre o papel do vetor (70,7%). Além disso, parte dos entrevistados apresentou domínio mais elevado ao identificar o flebotomíneo transmissor pelo nome científico ou popular (65,6%).
Apesar do ponto positivo, verificaram-se enganos expressivos, como acreditar que a doença pode ser transmitida por mordidas de cães infectados (15,9%), por ingestão de água contaminada (5,7%) ou pelo contato entre animais e pessoas (4,4%). Esses resultados confirmam a coexistência de informações corretas e deslizes conceituais, direcionando a necessidade de planos educacionais que esclareçam com simplicidade o ciclo epidemiológico da doença (Da Silva et al., 2022).
Já no bloco de identificação de sinais clínicos da leishmaniose canina os resultados foram positivos. As alterações e sinais mais de maior reconhecimento foram lesões de pele (74,8%), emagrecimento (70,7%), crescimento exagerado das unhas (57,6%) e queda de pelos (66,6%), sinais clínicos largamente descritos na literatura como características da enfermidade. Por outro lado, parte dos participantes demonstrou dificuldade em reconhecer outros aspectos clínicos ou relacionar corretamente os sinais apresentados nas imagens disponibilizadas no questionário. Essa condição revela que o conhecimento existente é baseado nos sinais mais evidentes da doença, podendo restringir a identificação e tardar o tratamento precoce de animais potencialmente infectados (Almeida; Caetano; Ilha, 2022).
Em relação às fontes de informação, destacaram-se a internet/redes sociais (46,5%), instituições de ensino (38,5%) e os serviços de saúde (26,8%). Os participantes que relataram contato prévio com ações educativas ou orientações profissionais demonstraram respostas mais consistentes e alinhadas ao conhecimento científico atualmente estabelecido. Em contrapartida, indivíduos que afirmaram nunca ter recebido informações sobre a leishmaniose apresentaram maiores índices de respostas incorretas ou de desconhecimento. Esses achados reforçam a importância da educação em saúde como ferramenta estratégica para ampliar o conhecimento popular e fortalecer as medidas de prevenção e controle da leishmaniose visceral no município.
5. CONCLUSÃO
A pesquisa permitiu constatar que a população de Piripiri-PI possui conhecimento prévio sobre a leishmaniose visceral, especialmente quanto à existência da doença e ao reconhecimento de algumas manifestações clínicas observadas em cães. Contudo, permanecem fragilidades relacionadas ao entendimento da transmissão, do papel do vetor e das formas adequadas de prevenção, evidenciando que o conhecimento disponível ainda não é homogêneo entre os diferentes grupos da população. Essas limitações podem interferir diretamente na adoção de medidas preventivas e no apoio às estratégias de vigilância epidemiológica.
Diante do panorama destaca-se a necessidade de ampliar ações permanentes e eficazes combinadas com a educação em saúde voltadas à população utilizando diferentemente meios e formas de comunicação priorizando informações claras e simples sobre a transmissão, prevenção e identificação prematura da doença. Pontua-se o fato que juntas a porcentagem do conceito de zoonose em “não sabe responder” (16,9%) e “não” sabe o significado (34,1%) somam-se a um total de 51% (Tabela 1). Demonstrando um número preocupante a falta de conhecimento ao conceito basilar da doença, pois o significado de zoonose é uma infecção ou doença que é transmitida de animais a humanos.
Desta forma, a integração entre órgãos de saúde e assistência protetiva, instituições de ensino e comunidade pode favorecer a ampliação do conhecimento coletivo e patrocinar o controle da leishmaniose visceral, mitigando seus impactos na saúde animal e humana no município de Piripiri-PI.
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1 Discente do Curso Superior de Medicina Veterinária do Centro Universitário Chrisfapi (UNICHRISFAPI), Campus Piripiri-PI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso Superior de Medicina Veterinária do Centro Universitário Chrisfapi (UNICHRISFAPI), Campus Piripiri-PI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Discente do Curso Superior de Medicina Veterinária do Centro Universitário Chrisfapi (UNICHRISFAPI), Campus Piripiri-PI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Coatora-Externa (Mestra em Patrimônio, Cultura e Sociedade/UFRRJ), Campus Nova Iguaçy-RJ. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Docente-Orientador (Doutor em Biotecnologia/UFPI) do Curso Superior de Medicina Veterinária do Centro Universitário Chrisfapi (UNICHRISFAPI), Campus Piripiri-PI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Docente-Orientador (Mestre) do Curso Superior de Medicina Veterinária do Centro Universitário Chrisfapi (UNICHRISFAPI), Campus Piripiri-PI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
7 Disponível em: https://portalsinan.saude.gov.br/sinan-net. Acesso em: maio, 2026.
8 Anota-se que a Leishmaniose Visceral Canina (LVC): a sensibilidade dos testes fica em torno de 90% a 96% de efetividade dependendo do kit; Especificidade: varia de 95% a 99%; Limitações: em cães, o teste rápido pode apresentar reações cruzadas com outras doenças (como erliquiose) e, em estágios iniciais da infecção, pode não detectar a doença (falso negativo). Disponível em: [1, 2, 3, 4, 5, 6]