REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781836341
RESUMO
O presente artigo analisa a formação da identidade sertaneja a partir das narrativas regionais, considerando as contribuições da literatura e das artes para a construção discursiva dos sentidos atribuídos ao sertão no contexto brasileiro. Parte-se da compreensão de que a identidade sertaneja constitui uma construção histórica, cultural e simbólica produzida por meio de diferentes práticas discursivas e manifestações artísticas. A pesquisa caracteriza-se como bibliográfica, de abordagem qualitativa, com objetivos exploratórios e descritivos. A análise concentrou-se em estudos relacionados ao regionalismo literário, à memória cultural, à identidade regional e às representações do sertão na literatura, na música e na poesia. Os resultados demonstram que o sertão ultrapassa a condição de espaço geográfico e configura-se como uma categoria cultural construída por diferentes discursos ao longo da história. Verificou-se que as narrativas regionais desempenham papel fundamental na preservação da memória coletiva, na valorização das experiências culturais locais e no fortalecimento dos sentimentos de pertencimento. Conclui-se que a identidade sertaneja resulta de processos discursivos complexos, continuamente reconstruídos pelas práticas culturais e pelas representações artísticas presentes na sociedade brasileira.
Palavras-chave: identidade sertaneja; narrativas regionais; literatura brasileira; memória cultural; análise discursiva.
ABSTRACT
This article analyzes the formation of sertanejo identity through regional narratives, considering the contributions of literature and the arts to the discursive construction of meanings attributed to the Brazilian hinterland (sertão). The study is based on the understanding that sertanejo identity is a historical, cultural, and symbolic construction produced through different discursive practices and artistic manifestations. This is a bibliographic research with a qualitative approach and exploratory and descriptive objectives. The analysis focused on studies related to literary regionalism, cultural memory, regional identity, and representations of the sertão in literature, music, and poetry. The results show that the sertão goes beyond its geographical dimension and constitutes a cultural category built through different discourses throughout history. It was found that regional narratives play a fundamental role in preserving collective memory, valuing local cultural experiences, and strengthening feelings of belonging. It is concluded that sertanejo identity results from complex discursive processes continuously reconstructed through cultural practices and artistic representations present in Brazilian society.
Keywords: sertanejo identity; regional narratives; Brazilian literature; cultural memory; discourse analysis.
1. INTRODUÇÃO
A diversidade cultural brasileira constitui um dos elementos mais significativos para a compreensão da formação histórica e social do país. Em um território marcado por múltiplas experiências regionais, diferentes grupos sociais construíram formas próprias de interpretar o mundo, produzir cultura e elaborar representações sobre os espaços que habitam. Nesse contexto, as narrativas regionais assumem papel relevante, uma vez que possibilitam a expressão de memórias coletivas, valores culturais, tradições e modos de vida que contribuem para a constituição das identidades sociais. Entre os diversos universos culturais presentes no Brasil, o sertão destaca-se como um espaço simbólico amplamente representado pela literatura e pelas artes, tornando-se um importante objeto de reflexão para pesquisadores das áreas de Linguística, Letras e Artes.
Ao longo da história brasileira, o sertão foi representado de diferentes maneiras nos discursos literários, artísticos e culturais. Em determinados períodos, foi descrito como espaço de isolamento, atraso e dificuldades impostas pelas condições geográficas e climáticas. Em outros momentos, passou a ser valorizado como lugar de resistência, preservação cultural e produção de identidades singulares. Essas diferentes representações demonstram que o sertão não pode ser compreendido apenas como uma delimitação geográfica, mas também como uma construção histórica, cultural e discursiva produzida por diferentes sujeitos e instituições ao longo do tempo.
As narrativas regionais desempenham papel fundamental nesse processo de construção simbólica. Por meio da literatura, da música, da poesia e de outras manifestações artísticas, diversos autores contribuíram para a elaboração de imagens e sentidos associados ao universo sertanejo. Essas produções não apenas descrevem aspectos da realidade social, mas também participam da construção de identidades coletivas, influenciando a forma como determinados grupos se percebem e são percebidos pela sociedade. Assim, as narrativas regionais tornam-se espaços privilegiados para a análise dos processos de produção de sentidos relacionados ao sertão e à identidade sertaneja.
A literatura brasileira ocupa posição de destaque nesse cenário. Desde o regionalismo do final do século XIX e início do século XX até as produções contemporâneas, inúmeros escritores utilizaram o sertão como cenário para discutir questões sociais, culturais e existenciais. Obras associadas a autores como Euclides da Cunha, Hugo de Carvalho Ramos e João Guimarães Rosa contribuíram significativamente para a consolidação de representações sobre o sertanejo e sobre os modos de vida presentes em diferentes regiões do interior brasileiro. Essas produções ultrapassaram os limites da descrição regional e passaram a integrar importantes debates sobre identidade, pertencimento e cultura nacional (ALENCAR, 2011).
Além da literatura, outras manifestações artísticas também desempenharam papel relevante na construção da identidade sertaneja. A música, por exemplo, tornou-se um importante instrumento de preservação da memória cultural e de valorização das experiências vividas pelas populações do interior. Em diferentes regiões do país, artistas incorporaram elementos do cotidiano sertanejo em suas produções, contribuindo para a difusão de valores, símbolos e narrativas que fortalecem os vínculos entre cultura, território e identidade. Nesse contexto, a obra de Elomar Figueira Mello destaca-se por representar aspectos do sertão baiano e por estabelecer diálogos entre tradição, modernidade e pertencimento cultural (OLIVEIRA, 2018).
As discussões sobre identidade sertaneja também envolvem reflexões relacionadas à memória social e aos processos históricos de construção dos discursos sobre o sertão. As identidades não são fenômenos naturais ou imutáveis, mas construções sociais produzidas por meio das relações culturais e das práticas discursivas. Dessa forma, compreender a formação da identidade sertaneja exige analisar os discursos presentes nas narrativas regionais e identificar os sentidos que são atribuídos ao sertão em diferentes contextos históricos e culturais. Sob essa perspectiva, a linguagem deixa de ser entendida apenas como instrumento de comunicação e passa a ser reconhecida como elemento fundamental na produção de significados e identidades.
Os estudos contemporâneos da área de Linguística e Análise do Discurso têm contribuído significativamente para a compreensão desses processos. A abordagem discursiva permite investigar como determinadas representações do sertão são construídas, legitimadas e reproduzidas socialmente. Ao analisar textos literários e manifestações artísticas, torna-se possível identificar os mecanismos por meio dos quais determinados sentidos são produzidos e como eles participam da constituição das identidades regionais. Nesse sentido, a identidade sertaneja pode ser compreendida como resultado de processos discursivos que articulam memória, cultura, história e relações de poder (MAIA, 2022).
Outro aspecto relevante refere-se à diversidade existente entre os diferentes sertões brasileiros. Embora frequentemente tratado como uma realidade homogênea, o sertão apresenta múltiplas experiências culturais, sociais e históricas. Existem diferenças significativas entre os sertões da Bahia, de Goiás, do Piauí e de outras regiões do país. Cada contexto produz formas específicas de representação e de construção identitária, evidenciando a pluralidade de sentidos atribuídos ao universo sertanejo. Essa diversidade amplia as possibilidades de investigação e reforça a importância de estudos que considerem as especificidades locais e regionais.
Nesse cenário, a análise das intersecções entre literatura e artes revela-se particularmente relevante. As produções artísticas não apenas retratam aspectos da realidade social, mas também participam ativamente da construção dos imaginários coletivos. Ao representar personagens, paisagens, memórias e modos de vida, a literatura e as artes contribuem para a consolidação de discursos sobre o sertão e para a formação de identidades regionais. Dessa forma, o estudo dessas manifestações possibilita compreender como diferentes linguagens artísticas dialogam na produção de sentidos sobre o universo sertanejo.
Diante dessas considerações, o presente artigo busca responder ao seguinte problema de pesquisa: como as narrativas regionais presentes na literatura e nas manifestações artísticas contribuem para a formação discursiva da identidade sertaneja no contexto brasileiro? A investigação parte do entendimento de que as representações do sertão constituem construções históricas e culturais produzidas por meio de discursos que circulam em diferentes esferas sociais, especialmente na literatura e nas artes.
O objetivo geral do estudo consiste em analisar a formação da identidade sertaneja a partir das narrativas regionais, considerando as contribuições da literatura e das artes para a construção discursiva de sentidos sobre o sertão. Como objetivos específicos, pretende-se discutir o sertão como categoria cultural e discursiva; examinar as representações da identidade sertaneja presentes em obras literárias brasileiras; e analisar as relações entre literatura, artes e memória regional na constituição dos discursos sobre o universo sertanejo.
A relevância desta pesquisa está relacionada à necessidade de aprofundar as reflexões sobre os processos de construção identitária presentes na cultura brasileira. Ao investigar as narrativas regionais e suas relações com a literatura e as artes, o estudo contribui para a compreensão dos mecanismos discursivos envolvidos na produção das identidades culturais e para a valorização das múltiplas experiências que compõem o patrimônio simbólico do país. Além disso, a pesquisa possibilita ampliar os debates sobre regionalismo, memória, pertencimento e representação cultural, temas de grande importância para os estudos contemporâneos das áreas de Linguística, Letras e Artes.
2. NARRATIVAS REGIONAIS, LITERATURA E CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE SERTANEJA
A relação entre literatura, cultura e identidade constitui um dos temas centrais dos estudos desenvolvidos no campo das Ciências Humanas, especialmente nas áreas de Linguística, Letras e Artes. As produções literárias e artísticas não apenas refletem aspectos da realidade social, mas também participam ativamente da construção de representações, valores e significados compartilhados por diferentes grupos sociais. Nesse contexto, as narrativas regionais assumem papel fundamental na elaboração dos imaginários coletivos e na constituição das identidades culturais, uma vez que possibilitam a circulação de memórias, tradições, experiências históricas e formas particulares de compreender o mundo.
No Brasil, as narrativas sobre o sertão ocupam lugar de destaque na produção cultural e literária. Ao longo dos séculos, diferentes autores e artistas contribuíram para a construção de múltiplas imagens sobre esse espaço, produzindo discursos que influenciaram tanto a percepção da sociedade sobre o sertão quanto a maneira pela qual os próprios sujeitos sertanejos passaram a compreender sua identidade. Essas representações foram sendo construídas em contextos históricos específicos, refletindo interesses sociais, políticos e culturais distintos.
A identidade sertaneja, portanto, não deve ser entendida como uma característica fixa ou natural, mas como resultado de processos históricos e discursivos continuamente reconstruídos por meio das práticas culturais e das formas de representação presentes na literatura e nas artes. Dessa maneira, a análise das narrativas regionais permite compreender como determinados sentidos sobre o sertão foram produzidos, transformados e legitimados ao longo do tempo.
Ao considerar a perspectiva discursiva, torna-se possível perceber que as representações do sertão ultrapassam a simples descrição geográfica. O sertão emerge como uma construção simbólica marcada por disputas de sentidos, memórias coletivas e processos de identificação cultural. Literatura, poesia, música e outras manifestações artísticas participam ativamente dessa dinâmica, contribuindo para a produção de discursos que ajudam a definir quem são os sujeitos sertanejos, quais características lhes são atribuídas e como sua cultura é representada no cenário nacional.
Diante disso, compreender a formação da identidade sertaneja exige examinar os diferentes discursos que, ao longo da história, atribuíram significados ao sertão. Nesse sentido, a literatura e as artes constituem fontes privilegiadas para a análise dos processos de construção identitária, permitindo identificar permanências, rupturas e transformações nas formas de representar o universo sertanejo.
2.1. O Sertão Como Construção Histórica, Cultural e Discursiva
O sertão ocupa posição singular na formação do imaginário cultural brasileiro. Muito mais do que uma delimitação geográfica, esse espaço tornou-se, ao longo da história, um importante elemento simbólico utilizado para representar diferentes aspectos da realidade nacional. As múltiplas interpretações atribuídas ao sertão demonstram que sua definição não se restringe a características naturais ou territoriais, mas envolve processos históricos, culturais e discursivos responsáveis pela produção de sentidos sobre esse espaço e seus habitantes.
Ao analisar a trajetória do conceito de sertão na literatura e na cultura brasileira, observa-se que seus significados sofreram transformações significativas ao longo do tempo. Em diferentes períodos históricos, o sertão foi associado a ideias de distância, interioridade, isolamento e rusticidade. Essas representações foram influenciadas por contextos sociais específicos e por discursos produzidos tanto por agentes políticos quanto por escritores, intelectuais e artistas. Dessa forma, o sertão passou a ocupar um lugar simbólico importante na construção das narrativas sobre a identidade nacional.
Segundo Vicentini (2008), o sertão não pode ser compreendido como uma categoria homogênea ou estática. Ao contrário, trata-se de uma construção cultural marcada pela pluralidade de significados atribuídos por diferentes grupos sociais em distintos momentos históricos. A autora destaca que a literatura desempenhou papel fundamental nesse processo, contribuindo para consolidar determinadas imagens sobre o sertão e para transformar esse espaço em objeto de reflexão sobre a própria sociedade brasileira.
Nesse sentido, a noção de sertão passou a representar muito mais do que uma região específica do território nacional. Em diversas obras literárias, o sertão surge como espaço de conflitos, resistência, tradição e transformação social. Essas representações permitiram que o sertão se tornasse uma importante metáfora para a compreensão das desigualdades, dos contrastes culturais e das tensões existentes na formação histórica do Brasil (VICENTINI, 2003).
A literatura regionalista exerceu papel decisivo na consolidação dessas imagens. Ao retratar paisagens, personagens e modos de vida associados ao interior do país, diversos autores contribuíram para a construção de um imaginário coletivo sobre o universo sertanejo. Entretanto, essas representações nem sempre reproduziram fielmente a realidade social das populações locais. Muitas vezes, foram produzidas a partir de perspectivas externas, influenciadas por valores culturais e ideológicos específicos. Por essa razão, o sertão deve ser entendido como resultado de processos de representação que envolvem seleção, interpretação e produção de sentidos.
Essa perspectiva é reforçada por Maia (2022), ao discutir a construção discursiva do sertão na literatura brasileira. O autor argumenta que as narrativas literárias participaram ativamente da produção de discursos responsáveis por definir o que seria o sertão e quem seriam os sujeitos sertanejos. Sob essa ótica, o sertão não aparece como uma realidade objetiva previamente existente, mas como uma construção discursiva elaborada por meio da linguagem e das práticas culturais.
De acordo com Maia (2022), muitos discursos sobre o sertão foram historicamente influenciados por perspectivas herdadas do período colonial. Essas visões frequentemente apresentavam o interior do país como espaço distante dos centros de poder, associado ao atraso, à precariedade e à ausência de desenvolvimento. Tais representações contribuíram para a formação de estereótipos que, durante muito tempo, influenciaram a maneira pela qual o sertão foi percebido tanto no campo político quanto no campo cultural.
Entretanto, as narrativas produzidas por autores ligados às experiências regionais possibilitaram o surgimento de novas interpretações sobre o sertão. Em vez de enfatizar apenas as dificuldades e limitações associadas a esse espaço, essas produções passaram a valorizar aspectos relacionados à cultura local, às formas de resistência social e às experiências históricas vividas pelas populações sertanejas. Essa mudança contribuiu para ampliar os sentidos atribuídos ao sertão e para fortalecer a construção de identidades regionais mais complexas e diversificadas.
A discussão sobre a realidade brasileira também revela a importância dos processos históricos na formação das representações sobre o sertão. Conforme destaca Alencar (2011), autores como Euclides da Cunha, Hugo de Carvalho Ramos e João Guimarães Rosa produziram obras que marcaram profundamente a compreensão do universo sertanejo em diferentes momentos da história nacional. Embora possuam perspectivas distintas, esses escritores contribuíram para consolidar o sertão como um dos principais temas da literatura brasileira, transformando-o em espaço privilegiado para a reflexão sobre cultura, identidade e sociedade.
Ao analisar essas produções, percebe-se que o sertão foi representado de formas variadas, ora como cenário de dificuldades e conflitos, ora como espaço de riqueza cultural e humana. Essas diferentes abordagens evidenciam que não existe um único sertão, mas múltiplos sertões construídos por meio de discursos, experiências históricas e práticas culturais específicas. Tal compreensão é fundamental para evitar generalizações e reconhecer a diversidade existente entre as diferentes regiões sertanejas do país.
Outro aspecto importante refere-se à relação entre memória e identidade. As representações do sertão presentes na literatura e nas artes funcionam como mecanismos de preservação de experiências coletivas, contribuindo para a manutenção de tradições, costumes e valores culturais. Por meio das narrativas, determinados acontecimentos são lembrados, reinterpretados e transmitidos entre gerações, fortalecendo os vínculos de pertencimento entre os indivíduos e suas comunidades.
Nesse contexto, a identidade sertaneja emerge como resultado de processos contínuos de construção simbólica. Ela não deriva exclusivamente das condições geográficas ou históricas do sertão, mas também das formas pelas quais esse espaço é representado e significado pelos discursos que circulam na sociedade. Literatura, música, poesia e outras manifestações culturais participam ativamente dessa dinâmica, produzindo sentidos que influenciam a percepção dos sujeitos sobre si mesmos e sobre o lugar que ocupam no mundo.
Dessa forma, compreender o sertão como construção histórica, cultural e discursiva permite ampliar a análise sobre a formação da identidade sertaneja. Em vez de tratar o sertão apenas como um espaço físico delimitado, essa perspectiva evidencia sua dimensão simbólica e sua importância na constituição das identidades regionais brasileiras. A partir desse entendimento, torna-se possível analisar como as narrativas literárias e artísticas contribuem para a produção de discursos sobre o sertão e para a construção das múltiplas identidades que compõem esse universo cultural.
2.2. A Identidade Sertaneja nas Narrativas Literárias Brasileiras
A literatura brasileira desempenhou papel decisivo na construção das representações sobre o sertão e na formação dos discursos que contribuíram para definir a identidade sertaneja ao longo da história. Por meio de diferentes estilos, períodos e perspectivas estéticas, escritores de diversas regiões do país transformaram o sertão em objeto de reflexão sobre a cultura brasileira, produzindo narrativas que ultrapassaram a simples descrição da paisagem para abordar questões relacionadas à memória, ao pertencimento, às relações sociais e à experiência humana. Nesse contexto, a identidade sertaneja emerge como uma construção simbólica elaborada a partir das representações presentes nas obras literárias.
A formação dessa identidade está diretamente relacionada aos modos pelos quais os sujeitos sertanejos foram retratados pela literatura. Ao narrar experiências vividas no interior do país, os escritores contribuíram para consolidar imagens, valores e características associadas ao universo sertanejo. Essas representações, entretanto, não permaneceram estáticas ao longo do tempo. Pelo contrário, sofreram transformações significativas, acompanhando mudanças sociais, culturais e históricas que influenciaram a produção literária brasileira.
Segundo Alencar (2011), a literatura regionalista foi fundamental para a consolidação da identidade sertaneja no imaginário nacional. A autora destaca que escritores como Euclides da Cunha, Hugo de Carvalho Ramos e João Guimarães Rosa contribuíram para a construção de diferentes imagens sobre o sertão e seus habitantes, oferecendo interpretações que dialogavam com os contextos históricos em que foram produzidas. Embora apresentem perspectivas distintas, esses autores participaram da elaboração de discursos que ajudaram a definir o lugar do sertão na cultura brasileira.
No início do século XX, as representações literárias do sertão frequentemente enfatizavam aspectos relacionados às dificuldades da vida no interior, às condições ambientais adversas e aos desafios enfrentados pelas populações sertanejas. Essas narrativas contribuíram para a formação de uma imagem do sertão associada à resistência e à capacidade de adaptação diante das adversidades. Ao mesmo tempo, permitiram que o sertanejo fosse representado como sujeito capaz de desenvolver formas próprias de organização social, valores culturais e estratégias de sobrevivência.
Ao analisar a produção de Hugo de Carvalho Ramos, Alencar (2011) observa que suas narrativas oferecem importantes contribuições para a compreensão da realidade sertaneja no estado de Goiás. Em suas obras, o sertão aparece como espaço marcado por relações sociais específicas, costumes regionais e formas particulares de vivência cultural. A representação dos personagens evidencia a presença de identidades construídas a partir das experiências cotidianas do interior, valorizando elementos que contribuem para a definição do pertencimento regional.
A literatura produzida por Hugo de Carvalho Ramos apresenta significativa preocupação com os modos de vida sertanejos, destacando práticas culturais, tradições e formas de sociabilidade características do contexto regional. Por meio dessas representações, o autor contribui para a valorização das experiências locais e para a construção de uma identidade sertaneja vinculada às especificidades históricas e culturais do sertão goiano. Essa abordagem demonstra como as narrativas literárias podem funcionar como instrumentos de preservação da memória coletiva e de fortalecimento das identidades regionais.
Outro importante momento na construção da identidade sertaneja ocorre com a obra de João Guimarães Rosa. Conforme destaca Alencar (2011), a produção rosiana promove uma ampliação dos sentidos tradicionalmente atribuídos ao sertão. Em vez de apresentar esse espaço apenas como cenário de dificuldades ou isolamento, Guimarães Rosa o transforma em território de profundas reflexões sobre a condição humana, a linguagem e a existência. O sertão passa a ser compreendido como espaço complexo, repleto de significados culturais, filosóficos e simbólicos.
A contribuição de Guimarães Rosa para a formação da identidade sertaneja está associada, entre outros aspectos, à valorização da linguagem regional. Ao incorporar expressões populares, construções linguísticas características do interior e elementos da oralidade, o autor atribui visibilidade às formas de fala dos sujeitos sertanejos e reforça a legitimidade de suas experiências culturais. Essa estratégia contribui para o reconhecimento da diversidade linguística brasileira e fortalece a representação do sertão como espaço de produção cultural própria.
Além disso, as narrativas rosianas evidenciam a complexidade dos sujeitos sertanejos, afastando-se de visões simplificadoras ou estereotipadas. Os personagens são apresentados como indivíduos marcados por conflitos, dúvidas, crenças e experiências diversas, revelando a riqueza humana presente no universo sertanejo. Dessa forma, a identidade sertaneja deixa de ser associada exclusivamente às condições geográficas ou econômicas e passa a incorporar dimensões culturais, subjetivas e existenciais.
As discussões sobre identidade sertaneja também podem ser observadas na literatura contemporânea. Nesse contexto, a obra Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende, oferece importantes contribuições para a compreensão das relações entre memória, regionalidade e pertencimento. Segundo Luiz e Pelinser (2022), a narrativa desenvolvida pela autora evidencia como as experiências individuais e coletivas participam da construção das identidades regionais, especialmente em contextos marcados pela valorização das tradições culturais.
Ao analisarem a obra, Luiz e Pelinser (2022) destacam que a identidade sertaneja é apresentada como resultado de processos de interação entre memória, território e experiências sociais. O sertão surge como espaço de encontros, histórias compartilhadas e construção de vínculos afetivos, demonstrando que a identidade regional está associada tanto às características do lugar quanto às experiências vividas pelos sujeitos que nele habitam. Essa perspectiva amplia a compreensão sobre o sertão, afastando-se de representações homogêneas e valorizando a diversidade de trajetórias presentes nesse contexto.
Outro aspecto relevante identificado pelos autores refere-se ao papel da memória na constituição das identidades regionais. As lembranças, narrativas e experiências compartilhadas pelos personagens contribuem para a preservação de elementos culturais que fortalecem os sentimentos de pertencimento e continuidade histórica. Nesse sentido, a literatura desempenha importante função ao registrar e transmitir experiências que ajudam a consolidar as referências culturais associadas ao universo sertanejo.
A análise das diferentes obras evidencia que a identidade sertaneja não é resultado de uma única narrativa ou de uma única experiência histórica. Pelo contrário, trata-se de uma construção plural, formada por múltiplas vozes, memórias e representações produzidas em diferentes contextos sociais e culturais. As narrativas literárias revelam que o sertão abriga uma diversidade de sujeitos, práticas culturais e formas de vida que desafiam interpretações simplificadoras e reforçam a complexidade desse universo.
Além disso, observa-se que a literatura não apenas representa identidades já existentes, mas participa ativamente de sua construção. Ao selecionar determinados elementos da realidade, atribuir significados a experiências coletivas e produzir discursos sobre o sertão, os escritores contribuem para a formação de imaginários sociais que influenciam a maneira como os sujeitos percebem a si mesmos e aos outros. Dessa forma, a literatura atua como espaço privilegiado de produção de sentidos e de elaboração das identidades culturais.
Sob a perspectiva discursiva, essas representações podem ser compreendidas como práticas simbólicas que produzem efeitos sociais e culturais. As narrativas literárias participam da circulação de discursos sobre o sertão e ajudam a definir quais características são associadas aos sujeitos sertanejos, quais memórias são preservadas e quais experiências são valorizadas. Por essa razão, o estudo da literatura torna-se fundamental para compreender os processos de construção da identidade sertaneja e suas transformações ao longo do tempo.
Diante dessas reflexões, pode-se afirmar que as narrativas literárias brasileiras desempenham papel central na formação da identidade sertaneja. Ao representar diferentes experiências históricas, culturais e humanas, elas contribuem para a construção de discursos que fortalecem os vínculos entre memória, território e pertencimento. Além disso, evidenciam a diversidade existente no universo sertanejo e demonstram que a identidade regional resulta de processos complexos de produção simbólica, continuamente reconstruídos por meio da linguagem, da cultura e da literatura.
2.3. Literatura, Música e Memória Regional: Diálogos Entre Artes e Identidade
A construção da identidade sertaneja não ocorre exclusivamente por meio da literatura. Outras manifestações artísticas, como a música, a poesia e as expressões culturais populares, também desempenham papel fundamental na produção de sentidos sobre o sertão e seus habitantes. Ao longo da história brasileira, diferentes artistas utilizaram suas obras para representar experiências, valores, memórias e tradições associadas ao universo sertanejo, contribuindo para a preservação de elementos culturais e para o fortalecimento dos sentimentos de pertencimento regional. Nesse contexto, as artes ampliam os discursos produzidos pela literatura, estabelecendo diálogos que enriquecem a compreensão da identidade sertaneja.
As manifestações artísticas possuem a capacidade de registrar aspectos da vida social que muitas vezes não aparecem nos documentos históricos tradicionais. Por meio da música, da poesia e de outras formas de expressão cultural, são preservadas narrativas sobre modos de vida, relações sociais, crenças, costumes e experiências coletivas que constituem importantes referências para a memória regional. Dessa forma, as artes atuam não apenas como formas de representação da realidade, mas também como instrumentos de construção e transmissão das identidades culturais.
No caso do sertão brasileiro, a música ocupa posição de destaque nesse processo. Diversos compositores e intérpretes incorporaram elementos do cotidiano sertanejo em suas produções, criando repertórios que contribuem para a valorização das culturas regionais. Essas obras frequentemente abordam temas relacionados à terra, à religiosidade, às relações familiares, ao trabalho, às transformações sociais e às experiências de deslocamento vividas pelas populações do interior. Ao retratar tais aspectos, os artistas colaboram para a manutenção de memórias coletivas e para a construção de representações sobre o sertão.
Nesse contexto, destaca-se a produção artística de Elomar Figueira Mello, importante compositor e poeta brasileiro cuja obra está profundamente vinculada ao sertão baiano. Segundo Oliveira (2018), a produção de Elomar constitui um espaço privilegiado para a análise das relações entre identidade, memória e cultura regional. Suas composições apresentam forte diálogo com as experiências históricas e culturais do interior da Bahia, valorizando elementos que remetem às tradições sertanejas e aos modos de vida presentes nessa região.
A obra de Elomar destaca-se por construir uma representação do sertão que se distancia das imagens simplificadoras frequentemente associadas ao interior brasileiro. Em vez de apresentar o sertão apenas como espaço de carência ou isolamento, o artista enfatiza a riqueza cultural das populações sertanejas, valorizando suas formas de expressão, seus saberes e suas experiências históricas. Essa perspectiva contribui para a produção de discursos que reforçam a dignidade e a complexidade da cultura sertaneja (OLIVEIRA, 2018).
Outro aspecto relevante da obra de Elomar refere-se à preservação da linguagem regional. O artista utiliza em suas composições expressões linguísticas associadas ao sertão baiano, incorporando elementos da oralidade e das tradições locais. Essa escolha estética fortalece a valorização das formas de fala presentes no interior e contribui para a construção de uma identidade cultural vinculada às experiências concretas das comunidades sertanejas. Ao fazer isso, sua produção artística transforma-se em importante instrumento de preservação da memória regional.
Além da música, a poesia também desempenha papel significativo na construção da identidade sertaneja. As produções poéticas frequentemente registram sentimentos, valores e experiências que contribuem para a formação dos vínculos entre os indivíduos e seus territórios. Por meio da linguagem poética, são produzidas representações que fortalecem os sentidos de pertencimento e ajudam a preservar referências culturais importantes para as comunidades locais.
Nesse sentido, Baptista (2017) analisa a construção da identidade piauiense na obra Lira Sertaneja, de Hermínio Castelo Branco. A autora demonstra como a poesia atua na valorização das experiências culturais do sertão piauiense, contribuindo para a elaboração de discursos que reforçam a identidade regional. As representações presentes na obra destacam elementos relacionados às paisagens, às tradições e às formas de vida características do estado do Piauí, evidenciando a estreita relação entre literatura, memória e pertencimento.
De acordo com Baptista (2017), a poesia de Hermínio Castelo Branco contribui para transformar o sertão em espaço simbólico de valorização cultural. As referências ao cotidiano, aos costumes e às experiências locais permitem a construção de uma memória coletiva capaz de fortalecer os vínculos entre os sujeitos e sua região. Dessa maneira, a produção poética assume importante função social ao colaborar para a preservação de identidades culturais frequentemente invisibilizadas nos discursos dominantes sobre a nação.
A análise da obra evidencia ainda que a identidade sertaneja não se manifesta de forma uniforme em todas as regiões do país. O sertão piauiense apresenta características históricas e culturais próprias, assim como ocorre em outras localidades do interior brasileiro. Essa diversidade reforça a necessidade de compreender o sertão como uma realidade plural, constituída por múltiplas experiências e formas de representação. As artes desempenham papel fundamental nesse processo ao possibilitar a expressão das especificidades locais e regionais.
As relações entre literatura, música e poesia demonstram que a identidade sertaneja é produzida por diferentes linguagens artísticas que atuam de maneira complementar. Embora cada manifestação possua características próprias, todas contribuem para a circulação de discursos sobre o sertão e para a preservação de memórias coletivas. Essas linguagens compartilham a capacidade de transformar experiências individuais e comunitárias em narrativas capazes de fortalecer sentimentos de pertencimento e reconhecimento cultural.
Sob a perspectiva discursiva, essas manifestações podem ser compreendidas como práticas sociais que participam da produção de significados sobre o universo sertanejo. Ao representar personagens, paisagens, costumes e experiências históricas, as artes contribuem para a construção de imaginários coletivos que influenciam a forma como os sujeitos percebem sua própria identidade. Nesse sentido, literatura, música e poesia não apenas retratam a cultura sertaneja, mas também ajudam a produzi-la e a legitimá-la socialmente.
Outro aspecto importante refere-se ao papel da memória na articulação entre arte e identidade. As manifestações artísticas funcionam como espaços de preservação de experiências coletivas, permitindo que histórias, tradições e valores culturais sejam transmitidos entre gerações. Por meio desse processo, as artes contribuem para a continuidade das referências simbólicas que sustentam os sentimentos de pertencimento regional e fortalecem a identidade sertaneja.
Dessa forma, a análise das intersecções entre literatura e artes evidencia que a construção da identidade sertaneja resulta de processos culturais complexos, nos quais diferentes linguagens participam da produção de sentidos sobre o sertão. A música de Elomar Figueira Mello, associada ao sertão baiano, e a poesia de Hermínio Castelo Branco, vinculada à realidade piauiense, demonstram como as manifestações artísticas podem atuar na valorização das experiências regionais e na preservação das memórias coletivas. Essas produções revelam a riqueza cultural existente nos diversos sertões brasileiros e reforçam a importância das artes na construção das identidades regionais.
Assim, literatura, música e poesia constituem importantes instrumentos de representação e produção cultural, contribuindo para a formação de discursos que fortalecem os vínculos entre memória, território e pertencimento. Ao preservar experiências históricas e valorizar as especificidades regionais, essas manifestações colaboram para a consolidação da identidade sertaneja e para o reconhecimento da diversidade cultural que caracteriza o Brasil.
3. METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo de natureza qualitativa, desenvolvido por meio de pesquisa bibliográfica, com foco na análise de produções acadêmicas relacionadas à construção da identidade sertaneja, às narrativas regionais e às intersecções entre literatura e artes. A escolha da abordagem qualitativa justifica-se pela natureza do objeto investigado, uma vez que a pesquisa busca compreender processos simbólicos, culturais e discursivos envolvidos na formação das identidades regionais, aspectos que exigem interpretação e análise contextualizada dos fenômenos estudados.
Segundo a perspectiva qualitativa, o conhecimento é construído a partir da compreensão dos significados atribuídos pelos sujeitos às suas experiências e práticas sociais. Nesse sentido, a investigação não se concentra na quantificação de dados, mas na análise dos sentidos produzidos pelos discursos presentes nas obras literárias, artísticas e acadêmicas que abordam o universo sertanejo. Tal abordagem possibilita compreender como determinadas representações sobre o sertão foram construídas historicamente e como elas participam da constituição da identidade sertaneja.
Quanto aos objetivos, a pesquisa pode ser classificada como exploratória e descritiva. O caráter exploratório está relacionado à busca por ampliar a compreensão acerca das relações entre literatura, artes e identidade regional, permitindo identificar diferentes perspectivas teóricas sobre o tema. Já o caráter descritivo manifesta-se na análise das representações do sertão presentes nas obras selecionadas, procurando evidenciar os elementos discursivos que contribuem para a construção da identidade sertaneja.
Os procedimentos metodológicos adotados fundamentam-se na pesquisa bibliográfica, modalidade que possibilita a investigação de fenômenos por meio da análise de materiais já publicados. Esse tipo de pesquisa é amplamente utilizado nos estudos das áreas de Linguística, Letras e Artes, especialmente quando o objetivo consiste em examinar conceitos, interpretações e produções culturais relacionadas a determinado objeto de estudo. A pesquisa bibliográfica permitiu reunir diferentes contribuições teóricas e analíticas acerca das representações do sertão e dos processos de construção identitária presentes na literatura e nas manifestações artísticas brasileiras.
O corpus bibliográfico foi constituído por sete trabalhos acadêmicos brasileiros selecionados em razão de sua relevância para o tema investigado. As obras analisadas abordam diferentes aspectos relacionados ao sertão, contemplando discussões sobre regionalismo literário, identidade cultural, memória social, análise discursiva e representações artísticas do universo sertanejo. A seleção buscou reunir estudos que contemplassem distintas regiões do país, permitindo uma compreensão mais ampla da diversidade existente entre os diversos sertões brasileiros.
Entre as obras selecionadas, destacam-se os estudos de Vicentini (2003; 2008), que discutem os sentidos históricos e culturais atribuídos ao sertão na literatura brasileira, contribuindo para a compreensão do sertão como construção simbólica e discursiva. Esses trabalhos oferecem importante fundamentação teórica para a análise das representações do sertão e de suas transformações ao longo do tempo.
Também integra o corpus o estudo de Alencar (2011), que examina a construção da identidade sertaneja na literatura regionalista por meio da análise de autores como Euclides da Cunha, Hugo de Carvalho Ramos e João Guimarães Rosa. A obra contribui para compreender como diferentes narrativas literárias participaram da formação dos imaginários sociais relacionados ao sertão e aos sujeitos sertanejos.
A perspectiva discursiva adotada na pesquisa é fortalecida pelas contribuições de Maia (2022), cujo estudo analisa os processos de construção discursiva do sertão na literatura brasileira. O autor discute como determinadas representações foram historicamente produzidas e legitimadas, oferecendo elementos importantes para a compreensão das relações entre linguagem, cultura e identidade.
A investigação também incorpora a análise de manifestações artísticas vinculadas ao universo sertanejo. Nesse sentido, o trabalho de Oliveira (2018) foi selecionado por abordar a obra de Elomar Figueira Mello e suas contribuições para a construção da identidade cultural do sertão baiano. A pesquisa possibilita compreender como a música e a poesia participam da preservação da memória regional e da valorização das experiências sertanejas.
Além disso, foram consideradas as contribuições de Luiz e Pelinser (2022), que discutem as relações entre regionalidade, memória e identidade na obra Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende. O estudo amplia a compreensão sobre as representações contemporâneas do sertão e sobre os processos de construção do pertencimento regional.
Por fim, o trabalho de Baptista (2017), centrado na poesia de Hermínio Castelo Branco, foi incluído por possibilitar a análise da identidade piauiense e das formas pelas quais a produção poética contribui para a preservação da memória cultural e para a valorização das experiências regionais. A obra permite incorporar ao estudo uma perspectiva localizada, evidenciando a diversidade de representações existentes entre os diferentes sertões brasileiros.
A análise dos materiais selecionados foi realizada por meio da leitura integral das obras e da identificação de categorias temáticas relacionadas ao problema de pesquisa. Entre as categorias analisadas destacam-se: construção discursiva do sertão, identidade sertaneja, regionalismo literário, memória cultural, pertencimento regional, representação artística e intersecções entre literatura e artes. Essas categorias orientaram a interpretação dos dados e possibilitaram estabelecer relações entre os diferentes estudos examinados.
No que se refere ao tratamento dos dados, adotou-se uma abordagem interpretativa fundamentada na análise textual e discursiva das produções selecionadas. A investigação buscou identificar convergências, divergências e complementaridades entre os autores, considerando os contextos históricos e culturais nos quais as representações do sertão foram produzidas. Essa estratégia permitiu compreender como diferentes discursos contribuem para a formação da identidade sertaneja e para a construção dos imaginários regionais presentes na cultura brasileira.
Dessa forma, a metodologia adotada mostrou-se adequada aos objetivos da pesquisa, possibilitando uma análise aprofundada das relações entre narrativas regionais, literatura, artes e identidade sertaneja. Ao reunir contribuições de diferentes autores e perspectivas teóricas, o estudo busca oferecer uma compreensão abrangente dos processos discursivos e culturais envolvidos na construção das representações do sertão no contexto brasileiro.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A análise das obras selecionadas permitiu identificar que a identidade sertaneja é resultado de um processo histórico, cultural e discursivo complexo, construído por meio de diferentes narrativas produzidas na literatura e nas artes brasileiras. Os estudos examinados demonstram que o sertão ultrapassa a condição de espaço geográfico e passa a constituir uma categoria simbólica marcada por múltiplos significados, constantemente ressignificados por diferentes sujeitos, contextos históricos e manifestações culturais.
Os resultados evidenciam que as narrativas regionais desempenham papel fundamental na produção dos sentidos associados ao sertão. Ao representar paisagens, personagens, práticas culturais e experiências históricas, a literatura e as artes contribuem para a formação de imaginários coletivos que influenciam a maneira como o sertão é percebido socialmente. Nesse sentido, as representações do universo sertanejo não apenas descrevem uma realidade existente, mas participam ativamente da construção das identidades regionais e dos discursos sobre pertencimento cultural.
Um dos principais aspectos identificados refere-se à pluralidade de significados atribuídos ao sertão ao longo da história. Os estudos de Vicentini (2003; 2008) demonstram que o conceito de sertão sofreu transformações significativas em diferentes períodos históricos. Em determinados momentos, o sertão foi representado como espaço distante dos centros de poder, associado ao isolamento e à precariedade. Em outros contextos, passou a ser valorizado como território de resistência cultural, preservação de tradições e produção de identidades específicas. Essa diversidade de interpretações evidencia que o sertão não possui um significado único ou definitivo, sendo constantemente reconstruído por meio dos discursos que circulam na sociedade.
A análise também revelou que as representações literárias contribuíram decisivamente para a consolidação da identidade sertaneja no imaginário nacional. Conforme discutido por Alencar (2011), autores como Euclides da Cunha, Hugo de Carvalho Ramos e João Guimarães Rosa participaram da construção de diferentes imagens sobre o sertão e seus habitantes. Embora cada autor tenha produzido interpretações particulares, suas obras contribuíram para inserir o sertão no centro dos debates sobre cultura, identidade e formação da sociedade brasileira.
No caso de Hugo de Carvalho Ramos, observa-se uma valorização das experiências sociais e culturais presentes no sertão goiano. Suas narrativas destacam aspectos do cotidiano regional, permitindo que práticas, costumes e formas de sociabilidade locais sejam reconhecidos como elementos constitutivos da identidade sertaneja. Essa representação contribui para a valorização das experiências do interior brasileiro e para o fortalecimento dos vínculos entre cultura regional e pertencimento social (ALENCAR, 2011).
Já a obra de João Guimarães Rosa apresenta uma ampliação dos sentidos tradicionalmente atribuídos ao sertão. A análise realizada por Alencar (2011) demonstra que o autor transforma o sertão em espaço de reflexão sobre a condição humana, incorporando dimensões filosóficas, existenciais e linguísticas à representação do universo sertanejo. Essa abordagem contribui para romper com visões estereotipadas e evidencia a complexidade dos sujeitos e das experiências presentes nesse contexto cultural.
Outro resultado importante refere-se ao papel da linguagem na construção da identidade sertaneja. As obras analisadas indicam que as formas de expressão linguística utilizadas pelos autores não constituem apenas recursos estéticos, mas também mecanismos de valorização cultural. Ao incorporar elementos da oralidade, regionalismos e formas de fala características do interior, os escritores contribuem para legitimar experiências e conhecimentos historicamente associados às populações sertanejas. Dessa forma, a linguagem assume função central na produção dos discursos identitários e na preservação das referências culturais regionais.
Sob a perspectiva discursiva, os resultados obtidos confirmam as reflexões desenvolvidas por Maia (2022). O autor argumenta que o sertão deve ser compreendido como uma construção produzida por meio da linguagem e das práticas culturais. Essa compreensão foi corroborada pela análise das obras selecionadas, que demonstram como diferentes narrativas participaram da elaboração de representações sobre o sertão e seus habitantes. As identidades sertanejas observadas nos textos analisados não surgem como características naturais dos indivíduos, mas como resultados de processos simbólicos e discursivos construídos historicamente.
A pesquisa também permitiu identificar a influência de discursos historicamente associados à formação social brasileira. Conforme discutido por Maia (2022), muitas representações do sertão foram produzidas a partir de perspectivas que o posicionavam como espaço periférico em relação aos centros urbanos e políticos do país. Essas interpretações contribuíram para a disseminação de imagens vinculadas ao atraso e à marginalização. Entretanto, os estudos analisados demonstram que as narrativas produzidas por autores comprometidos com a valorização das experiências regionais possibilitaram a construção de novas leituras sobre o sertão, evidenciando sua riqueza cultural e sua importância para a formação da identidade nacional.
Outro aspecto relevante identificado refere-se à relação entre memória e identidade. Os resultados evidenciam que as narrativas regionais atuam como importantes mecanismos de preservação das experiências coletivas. Por meio da literatura, da música e da poesia, diferentes gerações registram e transmitem conhecimentos, valores e tradições que fortalecem os vínculos entre os sujeitos e seus territórios. Nesse sentido, a memória desempenha papel fundamental na manutenção das referências culturais que sustentam a identidade sertaneja.
Essa relação torna-se particularmente evidente na análise da obra Outros Cantos, estudada por Luiz e Pelinser (2022). Os autores demonstram que a construção da identidade regional está profundamente associada às experiências de memória e pertencimento vivenciadas pelos sujeitos. O sertão é representado como espaço de encontros, lembranças e relações afetivas que contribuem para a formação das identidades individuais e coletivas. Essa perspectiva amplia a compreensão sobre o universo sertanejo ao enfatizar dimensões subjetivas frequentemente negligenciadas em abordagens mais tradicionais.
A investigação também evidenciou a importância das artes para a formação da identidade sertaneja. Embora a literatura ocupe posição central nas discussões sobre regionalismo e representação cultural, os resultados demonstram que outras manifestações artísticas desempenham papel igualmente relevante nesse processo. A música e a poesia, em particular, revelam-se importantes espaços de produção e circulação de discursos sobre o sertão.
A análise da obra de Elomar Figueira Mello, realizada por Oliveira (2018), exemplifica essa contribuição. O estudo demonstra que as composições do artista baiano valorizam elementos da cultura sertaneja e contribuem para a preservação das memórias associadas ao interior da Bahia. Ao incorporar expressões linguísticas regionais, referências históricas e experiências do cotidiano sertanejo, Elomar produz uma representação do sertão marcada pela valorização da cultura local e pela resistência às visões estereotipadas frequentemente reproduzidas em outros contextos.
Os resultados mostram ainda que a produção artística de Elomar promove um diálogo constante entre tradição e modernidade. Embora suas obras preservem elementos característicos da cultura sertaneja, elas também refletem sobre as transformações sociais ocorridas ao longo do tempo. Essa articulação permite compreender a identidade sertaneja como um processo dinâmico, em permanente reconstrução, influenciado tanto pela preservação das tradições quanto pelas mudanças históricas e culturais.
A contribuição das artes para a construção identitária também pode ser observada na análise realizada por Baptista (2017) acerca da poesia de Hermínio Castelo Branco. O estudo evidencia como a produção poética participa da valorização da identidade piauiense e da preservação das memórias regionais. As referências às paisagens, aos costumes e às experiências locais fortalecem os sentimentos de pertencimento e contribuem para a manutenção das tradições culturais associadas ao sertão do Piauí.
Esse resultado reforça uma das principais conclusões da pesquisa: a identidade sertaneja não pode ser compreendida como uma realidade homogênea. As diferentes regiões analisadas apresentam características históricas, culturais e sociais específicas, produzindo formas particulares de representação do sertão. O sertão baiano representado por Elomar, o sertão goiano presente nas narrativas de Hugo de Carvalho Ramos e o sertão piauiense retratado na poesia de Hermínio Castelo Branco evidenciam a existência de múltiplas experiências sertanejas que coexistem dentro do contexto brasileiro.
A diversidade regional identificada nos estudos analisados demonstra a inadequação de abordagens que tratam o sertão como categoria uniforme. Cada contexto regional produz discursos próprios sobre identidade, memória e pertencimento, refletindo experiências históricas específicas. Essa pluralidade constitui um dos elementos mais importantes para a compreensão da formação cultural brasileira e reforça a necessidade de valorizar as diferentes manifestações artísticas e literárias produzidas nos diversos sertões do país.
De maneira geral, os resultados obtidos permitem afirmar que as narrativas regionais exercem influência decisiva na formação da identidade sertaneja. Literatura, música e poesia atuam como espaços de produção simbólica nos quais são elaborados discursos capazes de preservar memórias, fortalecer vínculos de pertencimento e valorizar experiências culturais específicas. Essas manifestações não apenas representam o sertão, mas participam ativamente de sua construção como categoria cultural e identitária.
Dessa forma, a análise realizada confirma que a identidade sertaneja resulta de processos discursivos complexos, nos quais diferentes linguagens artísticas contribuem para a produção de sentidos sobre o sertão e seus habitantes. Ao articular memória, cultura, território e representação, as narrativas regionais revelam-se fundamentais para compreender a diversidade dos sertões brasileiros e os mecanismos por meio dos quais as identidades regionais são continuamente construídas e reconstruídas ao longo do tempo.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa teve como objetivo analisar a formação da identidade sertaneja a partir das narrativas regionais, considerando as contribuições da literatura e das artes para a construção discursiva de sentidos sobre o sertão no contexto brasileiro. Partiu-se do entendimento de que as identidades culturais não são constituídas de forma natural ou estática, mas resultam de processos históricos, sociais e simbólicos produzidos por meio da linguagem e das práticas culturais. Nesse sentido, a investigação buscou compreender como diferentes representações presentes na literatura, na música e na poesia participam da construção dos imaginários associados ao universo sertanejo.
A análise das obras selecionadas permitiu constatar que o sertão ultrapassa a condição de espaço geográfico para assumir o papel de categoria cultural e discursiva. Os estudos examinados demonstraram que os significados atribuídos ao sertão foram historicamente construídos e transformados em diferentes contextos sociais, revelando a existência de múltiplas interpretações sobre esse espaço. Tal constatação reforça a compreensão de que o sertão não pode ser reduzido a uma definição única, sendo constituído por diversas experiências regionais, históricas e culturais que contribuem para sua complexidade simbólica.
Os resultados também evidenciaram a importância das narrativas literárias na formação da identidade sertaneja. As obras analisadas mostram que a literatura desempenhou papel decisivo na elaboração de representações sobre os sujeitos sertanejos, seus modos de vida, suas tradições e suas formas de compreender o mundo. Autores vinculados ao regionalismo brasileiro contribuíram para a construção de discursos que permitiram ao sertão ocupar posição central nas reflexões sobre cultura, identidade e formação nacional. Ao mesmo tempo, essas produções possibilitaram a valorização das experiências regionais e o reconhecimento da diversidade existente entre os diferentes sertões brasileiros.
Outro aspecto relevante identificado pela pesquisa refere-se à contribuição da abordagem discursiva para a compreensão da identidade sertaneja. A análise demonstrou que os sentidos atribuídos ao sertão são produzidos por meio de discursos que circulam na sociedade e que influenciam a maneira pela qual os sujeitos interpretam a si mesmos e ao espaço que ocupam. Sob essa perspectiva, a identidade sertaneja pode ser compreendida como uma construção social permanentemente reconstruída pelas narrativas literárias, pelas manifestações artísticas e pelas experiências históricas compartilhadas pelas comunidades regionais.
A investigação também destacou a relevância das artes na preservação da memória cultural e na construção dos sentimentos de pertencimento. A música e a poesia mostraram-se importantes instrumentos de valorização das identidades regionais, contribuindo para a transmissão de tradições, saberes e experiências coletivas entre gerações. As análises relacionadas à obra de Elomar Figueira Mello e à poesia de Hermínio Castelo Branco evidenciaram como diferentes linguagens artísticas podem atuar na preservação das referências culturais locais e na consolidação dos vínculos entre memória, território e identidade.
Além disso, os resultados reforçam a necessidade de compreender a identidade sertaneja em sua pluralidade. O estudo revelou que os diversos sertões brasileiros apresentam especificidades históricas, culturais e sociais que produzem formas distintas de representação e pertencimento. Essa diversidade afasta interpretações homogêneas e evidencia a riqueza cultural presente em diferentes regiões do país. Assim, reconhecer a multiplicidade das experiências sertanejas significa também valorizar a diversidade que caracteriza a formação cultural brasileira.
Em relação ao problema de pesquisa proposto, conclui-se que as narrativas regionais presentes na literatura e nas artes contribuem significativamente para a formação discursiva da identidade sertaneja. Essas narrativas atuam como espaços de produção de sentidos, preservação da memória e valorização cultural, possibilitando a construção de representações que fortalecem os vínculos entre os sujeitos e seus territórios. Por meio da linguagem literária, da música e da poesia, são produzidos discursos capazes de consolidar sentimentos de pertencimento e de promover o reconhecimento das experiências históricas e culturais associadas ao sertão.
Por fim, espera-se que este estudo contribua para o aprofundamento das discussões sobre identidade cultural, regionalismo, memória e representação nos campos da Linguística, Letras e Artes. A compreensão dos processos de construção da identidade sertaneja possibilita ampliar os debates sobre a diversidade cultural brasileira e sobre o papel das manifestações artísticas na preservação dos patrimônios simbólicos regionais. Além disso, a pesquisa evidencia a importância de valorizar as narrativas produzidas nos diferentes sertões do país, reconhecendo-as como elementos fundamentais para a compreensão da cultura brasileira em sua pluralidade e complexidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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BAPTISTA, Elisabeth Mary de Carvalho. Do chão do sertão ao coração do poeta: a identidade piauiense na poesia da Lira Sertaneja de Hermínio Castelo Branco. Entre-Lugar, Dourados, v. 8, n. 16, p. 73-89, 2017. Disponível em: https://ojs.ufgd.edu.br/index.php/entre-lugar/article/view/7294. Acesso em: 12 jun. 2026.
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VICENTINI, Albertina. Regionalismo literário e sentidos do sertão. Sociedade e Cultura, Goiânia, v. 11, n. 2, p. 313-322, 2008. Disponível em: https://revistas.ufg.br/fcs/article/view/3140. Acesso em: 12 jun. 2026.
1 Licenciada em Artes Visuais pela UNIMES. Especialista em Tecnologias e Educação Aberta e Digital – UFRB. Especialista em Educação Contemporânea - UNIFACS. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Especialista em docência do ensino superior. Especialista em Educação Inclusiva. Licenciada em Letras com Inglês pela UESC, Campus: Itabuna/BA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Mestra em Formação de Professores da Educação Básica pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, Campus: Ilhéus/BA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Especialista em Teoria da Literatura e Produção de Texto pela UNIFACS. Endereço de. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Especialista em Linguagens e suas Tecnologias pela UFPI. Especialista em ensino de Libras pela Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Mestranda em Tecnologias Emergentes em Educação pela Must University. Pós-Graduação em Psicopedagogia Institucional e Gestão e Docência para Educação 4.0. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
7 Pós-graduação Lato Sensu em oralidade e escrita instituição pela União Brasileira de Faculdades (UniBF). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail