COMPREENSÃO E CONHECIMENTO DO CORPO: UMA PROPOSTA AVALIATIVA NO ENSINO DA EDUCAÇÃO FÍSICA

UNDERSTANDING AND KNOWLEDGE OF THE BODY: AN ASSESSMENT PROPOSAL IN PHYSICAL EDUCATION

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781836943

RESUMO
O presente artigo tem como objetivo apresentar uma proposta de processo avaliativo para a unidade temática "Compreensão e conhecimento do corpo" no componente curricular Educação Física. Trata-se de um estudo de caráter documental e de campo, desenvolvido a partir da elaboração e aplicação de uma sequência de aulas fundamentada nas orientações curriculares vigentes para os anos iniciais do Ensino Fundamental. As atividades propostas buscaram favorecer a identificação, compreensão e reflexão das crianças acerca das estruturas e funções do corpo humano. O processo avaliativo foi construído de forma contínua, contemplando diferentes instrumentos e estratégias de observação e registro das aprendizagens. Os resultados evidenciaram o envolvimento dos estudantes nas atividades e a ampliação dos conhecimentos relacionados ao corpo, indicando que a avaliação, quando integrada ao processo de ensino e aprendizagem, pode contribuir significativamente para a formação dos estudantes. Conclui-se que a experiência relatada pode abrir caminhos para se pensar concepções críticas de avaliação, em que não haja a preocupação com o resultado final e que toda a aula seja parte do processo formativo.
Palavras-chave: Educação Física; Unidade Temática; Corporeidade.

ABSTRACT
The purpose of this article is to present a proposed assessment process for the thematic unit “Understanding and Knowledge of the Body” within the Physical Education curriculum. This is a study of both documentary and field research, developed through the design and implementation of a series of lessons based on current curriculum guidelines for the early years of elementary school. The proposed activities sought to promote children’s identification, understanding, and reflection on the structures and functions of the human body. The assessment process was designed to be ongoing, incorporating various instruments and strategies for observing and recording learning. The results demonstrated the students’ engagement in the activities and the expansion of their knowledge related to the body, indicating that assessment, when integrated into the teaching and learning process, can contribute significantly to students’ education. It is concluded that the experience described can open pathways for considering critical conceptions of assessment, in which there is no concern with the final result and the entire class is part of the educational process.
Keywords: Physical Education; Thematic Unit; corporeality.

1. PALAVRAS INICIAIS

Este texto tem como objetivo apresentar uma proposta de um processo de avaliação para a unidade temática “Compreensão e conhecimento do corpo”, pertencente ao componente curricular de Educação Física no currículo do município de Londrina (Londrina, 2025). Na estrutura curricular do tema, tem-se como objetivos específicos: o significado de corpo humano; o esquema corporal e os segmentos maiores e menores. Para alcançar este propósito, apresenta-se uma sequência didática desenvolvida no primeiro trimestre do ano de 2024, com uma turma de 1º ano do Ensino Fundamental I, em uma escola municipal da referida cidade.

Vale destacar que a integração desse conteúdo na organização curricular do município de Londrina constitui uma iniciativa própria, uma vez que não está normatizada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017). Embora haja, no Referencial Curricular do Paraná, uma indicação para o estudo do reconhecimento do corpo, esse tema é abordado no âmbito da unidade temática Ginástica.

No contexto do ensino de Educação Física no município, entretanto, compreende-se que o conteúdo relacionado à concepção corporal possui caráter fundamental, e configura-se como base para o desenvolvimento desse componente curricular. Nesse sentido, reconhece-se a necessidade de que seu estudo seja realizado de maneira mais estruturada e enfatizada, o que justifica a proposição de uma unidade temática específica para sua abordagem.

Para subsidiar a prática avaliativa, este artigo se apoia em obras como Libâneo (1994) e Luckesi (1995), que destacam a importância de uma prática avaliativa contínua e sistemática, com objetivos bem definidos, e voltada para o acompanhamento de todo o processo de aprendizagem, não apenas para a verificação de resultados finais como se dava em perspectivas tradicionais de avaliação.

O processo avaliativo se deu por meio de descritores de avaliação elaborados a partir de objetivos de aprendizagem pelo Grupo de Pesquisa em Educação Física Escolar (GEPEF-UEL) em reuniões quinzenais constituídas pelo Projeto de Extensão denominado “Formação continuada de professores de Educação Física e a construção de diretrizes curriculares para o processo de avaliação do ensino-aprendizagem do componente no sistema municipal de educação”. Busca-se, portanto, apresentar uma sequência didática organizada em uma perspectiva crítica de educação, na qual se estabelecem os descritores como norte do processo avaliativo.

2. COMPREENSÃO E CONHECIMENTO DE CORPO COMO UNIDADE TEMÁTICA DA EDUCAÇÃO FÍSICA

Conforme já apresentado, a Diretriz Curricular para o ensino de Educação Física (Londrina, 2016) representa um avanço relevante ao incorporar, em sua organização curricular, a unidade temática “Compreensão e conhecimento de corpo”. Tal inserção se faz relevante na medida em que essa unidade não se encontra contemplada nem na principal normativa educacional em âmbito nacional, nem no Referencial Curricular do Estado do Paraná, configurando-se, assim, como uma contribuição inovadora e significativa para esse componente curricular, ainda que apareça apenas no primeiro e segundo ano do Ensino Fundamental I, conforme o quadro abaixo:

Quadro 1 – Objetos de conhecimento/Conteúdos específicos da Unidade Temática Compreensão e conhecimento do corpo.

ANO DE ESCOLARIDADE

OBJETOS DE CONHECIMENTO/CONTEÚDOS ESPECÍFICOS

(Compreensão e conhecimento de corpo)

1º ANO

Reconhecimento do corpo: Significado de corpo humano, esquema corporal, segmentos maiores e menores.

2º ANO

Reconhecimento do corpo: Órgãos do corpo, percepção sensorial e motora.

Fonte: Elaborado pelas autoras com base na Diretriz Curricular para o Ensino da Educação Física (Londrina, 2016)

A concepção dessa unidade temática aqui abordada, busca transcender os limites do aspecto técnico ou performático tão sustentados ao longo da história da Educação Física. Seu desenvolvimento, assim como o das demais disciplinas, requer um processo educativo que articule saberes e experiências e mais, com o objetivo de favorecer os estudantes no processo de compreensão da motricidade, do desenvolvimento da autonomia, da criticidade e da construção da identidade, bem como assegurar o direito de aprendizagem e o desenvolvimento integral das crianças, garantindo que construam conhecimento, habilidades, atitudes e valores essenciais para a vida em sociedade. (BNCC, 2017)

Segundo Palma et. al. (2010), essa unidade temática possibilita aos estudantes situações de experiência, de conhecimento, de compreensão e de entendimento do próprio corpo e da ação motora. Ainda, compreende “[...] conhecimentos afetos à reelaboração, à adaptação da ação motora intencional e ao atendimento das diversas manifestações construídas e praticadas pelo homem.” (Palma et al, 2015, p. 55). Desse modo, entende-se que é pela ação (movimento humano intencional) que o ser humano se coloca em constante processo de interação com o outro e com os objetos de conhecimento.

O movimento, portanto, é concebido como produção intencional e dinâmica, visto que, se adapta e expressa as múltiplas manifestações construídas historicamente pelo ser humano, reafirmando a necessidade de uma intervenção pedagógica que reconheça a diversidade das práticas corporais e a complexidade do fenômeno educativo, com vistas a compreensão de todas essas dimensões. Ao assumir essa perspectiva, compreende-se que o movimentar-se humano é sempre mais do que gesto ou deslocamento: é linguagem, criação, relação e transcendência e configura-se como uma categoria fundante da experiência humana.

Em uma concepção crítica, o movimento corporal possibilita a tomada de consciência a partir ação do professor. Nessa direção, a relação entre o movimento humano e a tomada de consciência pode ser compreendida, como um processo progressivo de construção do conhecimento que se inicia nas ações do sujeito sobre o meio.

Nos estágios iniciais do desenvolvimento, especialmente no período sensório-motor, o movimento constitui a principal forma de interação da criança com o mundo, sendo por meio dele que se organizam as primeiras estruturas cognitivas. As ações corporais, inicialmente práticas e não refletidas, vão sendo gradualmente interiorizadas e possibilitam a emergência de esquemas mentais mais complexos.

Nesse contexto, a tomada de consciência não ocorre de maneira imediata, pois resulta de um processo de reconstrução das próprias ações. “Em resumo, a tomada de consciência é uma reconstituição conceitual do que tem feito a ação” (Piaget 1978, p.126). Segundo o autor, o sujeito não tem acesso direto aos mecanismos que orientam seu agir, ao contrário, ele toma consciência deles progressivamente, à medida que reflete sobre suas ações e seus resultados. Dessa maneira, o movimento humano deixa de ser apenas uma resposta adaptativa e passa a constituir-se como objeto de pensamento, favorecendo a construção de noções como espaço, tempo, causalidade e lateralidade, entre outros aspectos constitutivos do sujeito.

Desse modo, o desenvolvimento da consciência encontra-se diretamente relacionado à ação motora. Entretanto, para que esse processo se efetive de maneira significativa, a mediação do professor é um elemento fundamental para que experiências não se limitem à dimensão técnica do movimento. Cabe ao docente favorecer a reflexão da ação para que a criança compreenda o próprio movimento, a si mesma e as relações que estabelece com o meio.

Diante do exposto, a sistematização curricular busca organizar conteúdos em sequência lógica que se constitui como expressão de uma concepção de corpo, homem, movimento e educação, baseada em uma perspectiva crítica. Ao estruturar intencionalidades formativas e delinear percursos de aprendizagem, reafirma a necessidade de uma concepção de Educação Física que supere reducionismos e promova a articulação entre teoria e prática (práxis), entre experiência sensível e reflexão crítica.

Na sequência, serão apresentados os quadros com a organização curricular dos anos contemplados (1º e 2º ano do Ensino Fundamental I) pela unidade temática discutida.

Quadro 2 – Organização Curricular da Unidade Temática para o 1º ano

EDUCAÇÃO FÍSICA – 1º ANO

1º TRIMESTRE

Unidade temática

Conhecimentos prévios

Objetos de aprendizagem focais e relacionados

Objetos de conhecimento: conteúdos específicos

DESCRITORES

Compreensão e conhecimento do corpo

(LONDRINA) Compreender o corpo uno.

(LONDRINA) Expressar através de múltiplas linguagens o esquema corporal.

(LONDRINA) Identificar as partes do corpo, sua localização e funções dos membros.

(LONDRINA) Descrever, por meio de múltiplas linguagens (corporal, oral, escrita e audiovisual), as características do corpo humano, identificando, questionando padrões estéticos e prevenindo práticas de bullying.

Significado de corpo humano, esquema corporal, segmentos maiores e menores.

Identifica o seu corpo como um todo.

Reconhece as partes que constituem o seu corpo por meio oral e em imagens.

Conceitua o significado de corpo humano.

Descreve e/ou expressa por múltiplas linguagens seu esquema corporal.

Identifica as partes do corpo e suas principais funções.

Reflete sobre preconceitos relacionados ao padrão estético e práticas de bullying.

EDUCAÇÃO FÍSICA – 2º ANO

1º TRIMESTRE

Unidade temática

Conhecimentos prévios

Objetos de aprendizagem focais e relacionados

Objetos de conhecimento: conteúdos específicos

DESCRITORES

Compreensão e conhecimento do corpo

(LONDRINA) Compreender o conceito de percepção sensorial e relacionar com os diferentes contextos.

(LONDRINA) Identificar os órgãos do corpo e suas funções, relacionando com as práticas corporais.

(RCP/LONDRINA) Experimentar e explorar sensações corporais diversas, compreendendo como o corpo movimenta-se, comunica-se, relaciona-se e expressa-se por meio dos sentidos.

(LONDRINA) Compreender o corpo uno.

(LONDRINA) Expressar através de múltiplas linguagens a percepção sensorial e os órgãos do corpo humano.

(RCP) Experimentar e compreender as diversas manifestações corporais presentes nas práticas corporais, enfatizando a percepção e consciência corporal.

Órgãos do corpo, percepção sensorial e motora.

Compreende o conceito de percepção sensorial.

Compreende que o corpo tem muitos órgãos e que cada órgão possui uma função.

Relaciona as funções de alguns órgãos com as práticas corporais.

Reconhece as percepções sensoriais e motoras dos cinco órgãos do sentido.

Identifica e nomear os cinco sentidos.

Reconhece como a ausência de qualquer um dos sentidos interfere nas práticas corporais e do cotidiano.

Compreende as diversas manifestações corporais, enfatizando a percepção e consciência corporal.

Fonte: Elaborado pelas autoras com base na Diretriz Curricular para o Ensino da Educação Física (Londrina, 2025)

Além dos descritores específicos de cada conteúdo, há o descritor geral da respectiva unidade temática, o qual é: Entende a compreensão de conhecimento de corpo em uma concepção crítica relacionada à cultura corporal, a qual concebe o corpo como um instrumento de produção de conhecimento e de comunicação, em que, por meio da linguagem corporal, o sujeito produz sentido e significado, interpretando a realidade.

A sistematização dos descritores em cada ano escolar, tem como propósito organizar o processo de ensino e aprendizagem de forma gradual. Essa estrutura busca garantir que os conhecimentos sejam desenvolvidos e elaborados progressivamente, de modo a contemplar o descritor geral da unidade temática. Assim, ao final do Ensino Fundamental, espera-se que o estudante tenha alcançado a compreensão proposta.

3. RECONHECIMENTO DO CORPO COMO OBJETO DE CONHECIMENTO

O objeto de conhecimento refere-se ao “Reconhecimento do corpo”, o qual constitui uma dimensão fundamental para o desenvolvimento integral dos sujeitos, especialmente nas etapas iniciais da escolarização. Para ser significativo, esse processo precisa ser considerado para além da identificação anatômica ou funcional das partes do corpo: trata-se de uma experiência pedagógica que favorece a construção da consciência corporal, o desenvolvimento da identidade dos sujeitos e a compreensão da corporeidade.

Sabe-se que a concepção de corpo não é estática, mas histórica e marcada por transformações que refletem os modos de organização social, cultural e científica de cada época. O corpo, entendido como lugar de significação e presença no mundo, foi concebido de distintas maneiras, desde objeto de veneração até instrumento de trabalho, de disciplina e de resistência.

A corporeidade elucidada pelos pressupostos da Motricidade Humana (Sergio, 1999), é uma concepção de corpo que rompe com visões fragmentadas — como objeto biológico ou mera máquina — e propõe uma abordagem integral do ser humano. Ao considerar a corporeidade, entende-se que o corpo não é apenas algo que se "tem", mas uma dimensão essencial do próprio "ser". Somos corpo. É por meio dele que sentimos, pensamos, nos expressamos, interagimos com o mundo e produzimos cultura.

É nesse sentido que o autor concebe a corporeidade atrelada com a motricidade humana:

A motricidade humana é o corpo em movimento intencional, procurando a transcendência, a superação, em nível integralmente humano e não do físico tão-só [...] ser corpo próprio é ser consciência e ser consciência é ser movimento. (Sérgio, 2003, p. 9).

Nesse sentido, a concepção de motricidade humana proposta por Sérgio (2003) rompe com a tradição dualista que historicamente fragmentou corpo e alma/consciência, reduzindo o movimento a uma dimensão simplista fisiológica ou mecânica. Se, ser corpo próprio é ser consciência, e ser consciência é ser movimento, logo, há a inseparabilidade entre existir e mover-se, e por conseguinte, a motricidade se dá como manifestação ontológica do ser humano.

Nessa perspectiva, há a compreensão do movimento da esfera restrita da performance física para o campo da práxis, em que cada gesto é expressão de intencionalidade, historicidade e cultura. O movimento humano, portanto, não se limita a atender a demandas funcionais, porque constitui-se como forma de comunicação, criação e transcendência, caracterizando o sujeito que produz e atribui sentidos à sua experiência no mundo, por meio da mobilização das dimensões biológicas, cognitivas, afetivas, sociais e culturais em unidade indissociável.

3.1. Apresentação e Descrição do Assunto

A partir da unidade temática “Compreensão e Conhecimento do Corpo”, e do objeto de conhecimento “Reconhecimento do corpo” foram definidos os conteúdos a serem ensinados, iniciando pelo Reconhecimento do Esquema Corporal, que envolve o desenvolvimento da consciência do próprio corpo em suas diversas dimensões e em relação ao espaço. De acordo com Olivier (1995, p. 7), o esquema corporal está relacionado à “[...] percepção que cada indivíduo tem de seu próprio corpo e das relações que ele mantém com o espaço circundante”.

Essa definição, ao enfatizar o corpo como núcleo da experiência perceptiva e relacional, indica também que a compreensão da corporeidade ultrapassa os limites da dimensão biológica ou mecanicista. A percepção do corpo, portanto, vai além da organização neurológica ou ao ajustamento motor, pois envolve processos de significação que se constituem na e pela experiência vivida.

A BNCC (2017) e o Referencial Curricular do Paraná (2018) apresentam o esquema corporal como um dos saberes a serem ensinados desde os primeiros anos da Educação Infantil, especialmente nos campos de experiência “O Eu, o Outro e o Nós” e “Corpo, Gestos e Movimentos” (BNCC, 2017, p. 40). Entre alguns dos objetivos de aprendizagem, estão a exploração e identificação das partes do corpo por meio de brincadeiras, bem como a percepção do próprio corpo e do outro no espaço. No entanto, nos primeiros anos do Ensino Fundamental o tema não é contemplado.

Já o Referencial Curricular do Paraná também inclui o conteúdo na unidade temática “Ginástica”, que integra o componente curricular de Educação Física no Ensino Fundamental. Como sugestões de conteúdos a serem abordados no contexto do Reconhecimento do Esquema Corporal, o documento menciona “[...] o significado do corpo humano, o esquema corporal, os segmentos maiores e menores, os órgãos do corpo, a percepção sensorial, a percepção motora, entre outros” (Paraná, 2018, p. 394). Portanto, percebe-se que não se tem a compreensão da necessidade de esquematizar esses conhecimentos em uma unidade temática.

Fundamentado nos documentos normativos citados anteriormente, o currículo do município de Londrina (2016) busca ir além e dar conta de um conhecimento importante para a área ao estabelecer “Compreensão e Conhecimento do Corpo” como uma das unidades temáticas do componente curricular da Educação Física para os 1º e 2º anos do Ensino Fundamental, e como conteúdos específicos: o significado de corpo humano; esquema corporal e segmentos maiores e menores.

Essa escolha está alinhada à concepção da Ciência da Motricidade Humana (Sérgio, 1999), que reconhece a importância de proporcionar aos estudantes experiências corporais significativas desde os primeiros anos escolares e, principalmente, possibilitar condições para que compreendem o “corpo uno”, pois, historicamente a concepção separatista de corpo e alma, trouxe para a Educação Física contradições e desafios.

De acordo com Pereira (2011) a Educação Física surgiu sob a orientação das ciências naturais e passou a ser estabelecida acerca do racionalismo e, assim, ao longo do seu processo de evolução e consolidação, esteve atrelada ao dualismo vigente, o qual, nas palavras da autora:

[...] manifesto na separação das duas realidades ontológicas: a res extensa(o corpo) e a res cogitans (alma). Essa separação dificultou as relações interativas e comunicativas entre o sensível e o inteligível, o sujeito e o objeto, os saberes teóricos e os fazeres práticos, uma vez que a Educação Física se apropriou do físico tão-só, ficando reduzida a uma mera área de atividades, muitas vezes com um fim em si mesma. (Pereira, 2011, p. 377).

Os impactos do paradigma da racionalidade técnica, instauraram uma lógica que repercutiu de maneira profunda no modo como o corpo foi concebido ao longo da modernidade. A primazia conferida à racionalidade abstrata e ao espírito produziu um rebaixamento do corpo ao estatuto de objeto, matéria extensiva, passível de manipulação e mensuração, mas destituída de interioridade e sentido. Essa herança dualista atravessou o campo da Educação Física e reforçou uma visão reducionista em que o movimento humano passou a ser compreendido majoritariamente sob a ótica da performance, do rendimento e da funcionalidade biológica.

Obviamente essa perspectiva afetou a Educação Física no âmbito educacional. Por muito tempo a disciplina esteve na escola cumprindo um papel de área de atividade física, de rendimento e tecnicismo. É nesse sentido que apresentar uma sistematização do conteúdo “Conhecimento e reconhecimento do corpo” fundamentada pela complexidade humana (Sérgio, 1999) possibilita o afastamento dessa perspectiva dualista e a compreensão do sujeito uno e práxico.

Com efeito, por meio desses conteúdos, o estudante tem a oportunidade de refletir sobre sua corporeidade como forma de expressão e interação social, vivenciar diferentes sensações corporais e compreender as diversas maneiras pelas quais o corpo se movimenta, comunica, se relaciona e se expressa, além de identificar seu corpo como um todo, reconhecendo seus segmentos e respectivas funções, os quais constituem um elemento uno pelo qual o sujeito interage e age no mundo.

3.2. O Processo Avaliativo: Possibilidades e Desafios

Conforme já explicitado, a sequência didática foi desenvolvida em seis aulas no primeiro trimestre do ano de 2024, com uma turma de 1º ano do Ensino Fundamental I em uma escola municipal da cidade de Londrina. O processo avaliativo se dá por meio da perspectiva de que “A avaliação da aprendizagem necessita, para cumprir o seu verdadeiro significado, assumir a função de subsidiar a construção da aprendizagem bem-sucedida.” (Luckesi, 2010).

Nesse sentido, o movimento avaliativo foi estruturado com vistas a um ensino significativo, considerando os objetivos de aprendizagem e então foram elencados critérios de avaliação, os denominados de descritores.

Pode ser que determinados descritores presentes na sequência didática que será apresentada, não constem explicitamente na organização curricular, o que se justifica pela autonomia docente no processo de elaboração e reelaboração de objetivos e descritores, de acordo com as demandas e especificidades do contexto educativo em que atua. Nesse sentido, definiu-se para a primeira aula o objetivo “Reconhecer o conceito de esquema corporal”, o que levou à inclusão do descritor “reconhece o conceito de esquema corporal”. Tal decisão emergiu da própria natureza do conteúdo em questão, uma vez que a temática do “esquema corporal” exige entender se os estudantes compreendem e identificam o significado desse conceito.

AULA 1

Objetivo: Reconhecer o conceito de esquema corporal.

Descritor de avaliação: Reconhece com autonomia o conceito de esquema corporal.

Instrumentos avaliativos: Poema e questionamentos (roda de conversa) – Leitura do poema para os estudantes com a intenção de levá-los a imaginar o que está sendo dito nos versos. Quais as impressões tiveram? Como seria essa situação? Por que cada parte do corpo tem seu lugar? E se trocássemos as partes do corpo como no poema?

Poema: Cada parte tem seu lugar

Já parou pra observar onde está o seu nariz?

Imagine, vamos lá!

E se ele mudasse de lugar?

Nariz na testa

Olhos na nuca

Pés na cabeça

Que coisa maluca!

Na barriga as orelhas

E nos joelhos as canelas

Como seria andar

Se os pés não saíssem das pernas?

Fonte: www.impulsiona.org.br (2024)

Um elemento indispensável na formação da personalidade da criança é a representação que possui de seu próprio corpo (Freitas, 2008). Dessa forma, o esquema corporal pode ser compreendido como a representação mental e a percepção que o sujeito constrói acerca do próprio corpo, em suas partes, funções e possibilidades de movimento, em relação a si mesmo e ao espaço em que está inserido. É igualmente importante a percepção da noção de que o corpo humano possui partes específicas e uma organização própria, diferente dos animais, por exemplo.

Por essa razão, o instrumento avaliativo composto pela leitura do poema e de questionamentos para as crianças, foi significativo para compreender seus entendimentos sobre essa organização corporal. Algumas respostas foram:

“Nós seríamos um monstro.”

“Eu não iria conseguir andar, nem correr.”

AULA 2

Objetivos: Identificar as características do corpo humano; Representar o corpo humano com pecinhas de encaixe; Identificar partes do corpo ditas nas músicas vivenciadas.

Descritores de avaliação: Descreve e/ou expressa por múltiplas linguagens seu esquema corporal. Identifica o seu corpo como um todo. Reconhece as partes que constituem o seu corpo por meio oral e em imagens.

Instrumentos avaliativos: Montagem do corpo humano com pecinhas e questionamento sobre as partes do corpo ditas nas músicas vivenciadas.

A aula iniciou com a professora lembrando a anterior e o que se estuda na disciplina de Educação Física, explicando que nessa disciplina nós estudamos o nosso corpo em movimento e que para isso, precisamos primeiro entender o que é corpo e como é o nosso corpo. Então, a professora entregou peças de encaixe para os alunos para que eles montassem um corpo humano utilizando essas pecinhas, cabeça, tronco, braços e pernas. (Figura 1 e 2).

Durante a montagem, a professora olhou cada um, com o objetivo de mediar e realizar alguns apontamentos para que os estudantes perecessem e refletissem sobre suas construções. A dinâmica seguinte foi com a música “Estátua - Xuxa” e depois “Cabeça, ombro, joelho e pé”. A professora orientou que os estudantes dançassem e e cantassem as músicas prestando atenção na letra e nas partes do corpo que eram ditas. Ao final, houve uma roda de conversa constituída por um espaço de compartilhamento e questionamentos, com o objetivo de levar os estudantes ir além da simples nomeação ou execução de gestos, promovendo experiências em que eles pudessem perceber, descrever, comparar e atribuir sentido ao que fazem com o próprio corpo.

Figura 1 e 2 – Corpo humano de pecinhas de montar

Fonte: Imagens elaboradas pelas autoras com auxílio da I.A. (2024)

AULA 3

Objetivos: Identificar o local de cada segmento corporal no corpo humano; Representar o corpo humano com um quebra-cabeça.

Descritores de avaliação: Reconhece as partes que constituem o seu corpo por meio oral e em imagens. Descreve e/ou expressa por múltiplas linguagens seu esquema corporal.

Instrumentos avaliativos: Montagem do quebra cabeça corporal.

A aula foi iniciada com a professora relembrando a aula anterior e depois deu continuidade ao conteúdo, cantando e dançando a música “Tchu tchuê” juntamente com os estudantes. Após, houve um diálogo com os estudantes sobre as partes do corpo presentes na música representada e explicação de como essas e demais partes fazem parte de um todo que é o nosso corpo, que somos nós, seres humanos.

Em seguida, a professora explicou que nesta aula eles deveriam montar um quebra-cabeça do corpo humano, prestando bastante atenção no local e na direção que ficam cada parte do corpo. Então, os estudantes montaram, e a docente estabeleceu reflexões sobre as partes do corpo humano e então eles pintaram e por fim colaram este quebra-cabeça montado, no caderno, como forma de registro.

Figura 3 e 4 – Quebra-cabeça

Fonte: Imagens elaboradas pelas autoras. (2024)

AULA 4

Objetivos: Identificar as características do corpo humano; Representar seu corpo por meio de esquema corporal.

Descritores de avaliação: Identifica o seu corpo como um todo. Descreve e/ou expressa por múltiplas linguagens seu esquema corporal.

Instrumentos avaliativos: Atividade em folha sulfite, em que os estudantes precisam fazer o desenho do próprio corpo inteiro; por meio de questionamentos orais sobre as semelhanças e diferenças entre as pessoas, visualizadas nas imagens mostradas.

A professora iniciou a aula lembrando a anterior e o que se estuda na disciplina de Educação Física, explicando que na Educação Física nós estudamos o nosso corpo em movimento e que para isso, precisamos primeiro entender o que é corpo e como é o nosso corpo. Então, a professora mostrou várias imagens de pessoas com características diferentes e solicitou aos alunos que observassem com atenção para responder: O que são essas imagens? Vocês perceberam que existem corpos bastante diferentes? O que mais te chamou a atenção nos corpos que eu te mostrei?

Figura 5, 6 e 7 – Imagens usadas em aula

Fonte: Imagens elaboradas pelas autoras com auxílio da I.A. (2025)

Em seguida, a professora explicou oralmente como temos as mesmas partes do corpo, porém a nossa constituição corporal e nossas características são diferentes (cor da pele, cor e formato do cabelo, cor e formato dos olhos, tipo físico, etc.) e como essas diferenças fazem de nós seres únicos e especiais. Os estudantes tiveram um tempo para que eles se olhassem no espelho para reconhecer as suas próprias características físicas. A partir disso, representaram por meio de desenho, o seu corpo (esquema corporal), considerando suas características.

Para além do desenho, outra proposta avaliativa, considerando as múltiplas linguagens, foi a apresentação dos desenhos. Ao ouvir os colegas, as crianças tiveram a oportunidade de comparar diferentes formas de representação e análise do outro. A ideia foi incentivar a observação e a reflexão coletiva, além de ser mais uma forma de expressão da aprendizagem.

AULA 5

Objetivo: Identificar os membros superiores, membros inferiores e os segmentos maiores e menores.

Descritor de avaliação: Reconhece as partes que constituem o seu corpo por meio oral e em imagens.

Instrumentos avaliativos: Por meio de questionamentos orais sobre as divisões básicas do corpo humano e por meio do desenho das partes do corpo humano.

A aula foi iniciada com a professora relembrando a aula anterior e na sequência, explicando as divisões básicas do nosso corpo, por meio de imagens.

Cabeça: olhos, nariz, boca e orelhas.

Tronco: tórax (peito), abdômen (barriga) e dorso (costas).

Membros superiores: ombros, braços, cotovelos e mãos(dedos).

Membros inferiores: pernas, joelhos e pés(dedos).

Cada estudante recebeu uma atividade impressa com o objetivo de identificar os segmentos corporais, nomeá-los e pintá-los, diferenciando-os em: cabeça; tronco; membros superiores e membros inferiores.

Figura 8 – Atividade impressa

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Fonte: Atividade realizada por um estudante do 1ºano do Ensino Fundamental 1.

AULA 6

Objetivo: Identificar as partes do corpo e suas principais funções.

Descritor de avaliação: Identifica as partes do corpo e suas principais funções.

Instrumentos avaliativos: Questionamentos orais sobre as funções do corpo humano e desenho sobre a principal função do corpo humano.

Inicialmente os alunos assistiram ao vídeo “As partes do corpo” (Youtube) o qual mostra algumas partes do corpo humano e aponta uma função para cada uma. Por exemplo: o nariz serve para cheirar; os dedos servem para contar; os pés servem para andar. Em seguida, a professora questionou os estudantes sobre o que mais fazem durante o dia, ou seja, qual ou quais as principais funções do seu corpo, exemplo: ficar sentado assistindo tv; brincar de pega pega; ficar deitado jogando no celular; brincar de bola; dançar; comer, entre outras atividades do cotidiano.

Após as reflexões, eles fizeram um desenho no caderno, representando uma função do próprio corpo. Como sabemos que a principal função do corpo é se movimentar, após o desenho, os alunos foram para a quadra e realizaram atividades orientadas pela professora, sobre movimentos com o corpo todo (correr, saltar, caminhar, dançar, etc.).

Vídeo utilizado nesta aula:

GUGUDADA - As partes do corpo https://www.youtube.com/watch?v=_NSkoWouWME&feature=youtu.be

Figura 9 – Desenho da função do corpo humano

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Fonte: Atividade realizada por uma estudante do 1ºano do Ensino Fundamental 1.

O fechamento desta aula, também buscou relembrar todo o percurso do conteúdo em questão. Nesse momento, houve uma roda de conversa em que a professora teve como objetivo questionar os estudantes sobre as experiências vividas e sobre suas percepções de corpo e de movimento, tais como: Por que é importante conhecer a formação do corpo humano? O que aprendemos sobre o corpo e o movimento? A partir dessas perguntas inicias, as crianças expuseram oralmente suas sensações e o que aprenderam. Por meio das respostas, foi possível perceber que houve um avanço significativo em relação as partes do corpo e sua organização, mas principalmente, sobre o movimento em diferentes contextos, seja em casa, nas brincadeiras, na escola e em outros locais.

Nota:

No primeiro ciclo do Ensino Fundamental I (1º e 2º anos), o processo avaliativo não se organiza por meio de valores numéricos (notas), pois o modelo adotado pelo município para essas turmas é o parecer descritivo. Esse instrumento consiste em um relato elaborado pelo professor acerca das aprendizagens de cada estudante.

A utilização de descritores previamente definidos possibilita ao docente uma referência estruturada para a redação desse parecer, possibilitando que registre de forma clara e objetiva o nível de desenvolvimento individual. Por exemplo, diante do objetivo de reconhecer as partes que constituem o corpo, o professor pode indicar que o estudante “reconhece com autonomia as partes que constituem o seu corpo por meio oral e em imagens” ou, em outro caso, que “reconhece parcialmente as partes que constituem o seu corpo por meio oral e em imagens”.

4. PALAVRAS FINAIS

O texto buscou apresentar uma proposta de avaliação para a unidade temática “Compreensão e Conhecimento do Corpo”, além de reafirmar a relevância desse conteúdo no currículo de Educação Física do município de Londrina, sobretudo por sua ausência nos documentos normativos nacionais e estaduais. Por essa razão, considera-se um salto qualitativo para o ensino desse componente curricular.

A sequência didática aqui apresentada pode contribuir para a superação de visões reducionistas do corpo, ainda presentes na tradição dualista da área, e aponta para a necessidade de práticas pedagógicas que reconheçam a corporeidade como dimensão constitutiva do ser humano.

Os descritores elaborados, enquanto instrumentos avaliativos, possibilitaram acompanhar o processo de aprendizagem dos estudantes e para a reflexão da atuação docente. Há que se enfatizar a importância de possibilitar diferentes estratégias (instrumentos) de avaliação, pois, os estudantes aprendem de modos diversos e manifestam seus conhecimentos de formas igualmente distintas. O uso de diferentes instrumentos possibilita que os estudantes expressem o que aprenderam por múltiplas linguagens.

Diante do exposto, a sistematização buscou organizar os conteúdos em uma sequência lógica que expressa uma determinada concepção de corpo, sujeito, movimento e educação, ancorada em uma perspectiva crítica. Ao explicitar intencionalidades formativas e delinear percursos de aprendizagem, reafirma a necessidade de uma Educação Física que supere abordagens reducionistas e promova a articulação entre teoria e prática (práxis), bem como entre experiência sensível e reflexão crítica.

Nesse sentido, conclui-se que o desenvolvimento da consciência está diretamente relacionado à ação motora, mas não se efetiva de forma espontânea. A mediação docente mostra-se elemento indispensável para que as experiências corporais não se limitem à dimensão técnica do movimento, visando a constituição de oportunidades de reflexão. Cabe ao professor, portanto, estabelecer processos pedagógicos que possibilitem à criança compreender o próprio movimento, a si mesma e as relações que estabelece com mundo.

Desse modo, entende-se que a experiência relatada pode abrir caminhos para se pensar concepções críticas de avaliação, em que não haja a preocupação com o resultado final e que toda a aula seja parte do processo formativo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Doutora em Educação (Universidade Estadual de Londrina). Professora de Educação Física na Rede Municipal de Ensino de Londrina. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Especialista em Educação Física na Educação Básica (Universidade Estadual de Londrina). Professora de Educação Física na Rede Municipal de Ensino de Londrina. E-mail. [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Mestre em Educação (Universidade Estadual de Londrina). Professora de Educação Física na Rede Municipal de Ensino de Londrina. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail