MUDANÇA SUBJETIVA NA TEORIA DA SUBJETIVIDADE: INTELIGIBILIDADES PRODUZIDAS EM PESQUISAS EDUCACIONAIS

SUBJECTIVE CHANGE IN THE THEORY OF SUBJECTIVITY: INTELLIGIBILITIES PRODUCED IN EDUCATIONAL RESEARCH

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/785285678

RESUMO
A categoria mudança subjetiva tem assumido crescente relevância no âmbito da Teoria da Subjetividade de Fernando González Rey (1949–2019), ao possibilitar a compreensão de transformações qualitativas produzidas na organização da subjetividade que ultrapassam interpretações centradas em mudanças cognitivas, comportamentais ou adaptativas. Este artigo objetiva analisar as inteligibilidades produzidas sobre essa categoria em cinco teses e dissertações desenvolvidas entre 2021 e 2024, buscando compreender como a produção construtivo-interpretativa da informação e a elaboração de modelos teóricos têm contribuído para sua consolidação epistemológica e conceitual no campo educacional. Trata-se de uma pesquisa documental de caráter teórico-analítico. As análises evidenciam que a mudança subjetiva é compreendida como um processo singular, contraditório, configuracional e não linear, produzido pela emergência de novos sentidos subjetivos capazes de reorganizar configurações subjetivas na inseparável articulação entre subjetividade individual e subjetividade social. Os modelos teóricos construídos pelas pesquisas analisadas ampliam a inteligibilidade sobre os processos de transformação humana ao conferir visibilidade às condições simbólico-emocionais que sustentam novos posicionamentos das pessoas em suas experiências. Conclui-se que essas investigações fortalecem a consistência teórico-epistemológica da categoria mudança subjetiva, contribuem para seu refinamento conceitual no âmbito da Teoria da Subjetividade e evidenciam seu potencial heurístico para a investigação dos processos educativos. Além disso, apontam a necessidade de aprofundar as relações entre mudança subjetiva e desenvolvimento subjetivo e de ampliar a produção de modelos teóricos capazes de explicar a complexidade da produção subjetiva em diferentes contextos sociais.
Palavras-chave: Mudança Subjetiva; Teoria da Subjetividade; Epistemologia Qualitativa; Educação.

ABSTRACT
The category of subjective change has gained increasing prominence within Fernando González Rey’s Theory of Subjectivity (1949–2019), as it enables the understanding of qualitative transformations in the organization of subjectivity that extend beyond interpretations centered on cognitive, behavioral, or adaptive changes. This article aims to analyze the intelligibilities produced regarding this category in five master's theses and doctoral dissertations developed between 2021 and 2024, seeking to understand how the constructive-interpretative production of information and the development of theoretical models have contributed to its epistemological and conceptual consolidation within the field of education. This is a documentary study of a theoretical-analytical nature. The analyses reveal that subjective change is understood as a singular, contradictory, configurational, and non-linear process, generated through the emergence of new subjective senses capable of reorganizing subjective configurations within the inseparable articulation between individual subjectivity and social subjectivity. The theoretical models developed in the analyzed studies expand the intelligibility of human transformation processes by illuminating the symbolic-emotional conditions that sustain individuals' new positions in relation to their lived experiences. The findings indicate that these investigations strengthen the theoretical and epistemological consistency of the category of subjective change, contribute to its conceptual refinement within the Theory of Subjectivity, and demonstrate its heuristic potential for investigating educational processes. Furthermore, they highlight the need to deepen the understanding of the relationship between subjective change and subjective development, as well as to expand the production of theoretical models capable of explaining the complexity of subjective production across diverse social contexts.
Keywords: Subjective Change; Theory of Subjectivity; Qualitative Epistemology; Education.

1. INTRODUÇÃO

A compreensão dos processos de transformação humana permanece como uma das questões mais complexas das ciências humanas e, particularmente, da educação. Embora diferentes tradições teóricas tenham buscado explicar como os indivíduos se modificam ao longo de suas trajetórias, grande parte dessas explicações permaneceu vinculada a perspectivas normativas que privilegiam indicadores cognitivos, comportamentais ou adaptativos como critérios para compreender a mudança. Essa orientação tende a reduzir a complexidade da experiência humana a manifestações observáveis, obscurecendo os processos simbólico-emocionais que participam da constituição das formas singulares de agir, pensar e sentir.

A Teoria da Subjetividade, desenvolvida por Fernando González Rey (1949-2019) no contexto da perspectiva histórico-cultural, traz consigo uma ruptura epistemológica com abordagens universalistas ao conceber a subjetividade como um sistema simbólico-emocional, configuracional, histórico e gerador, cuja organização resulta da produção de sentidos subjetivos expressos tanto pelo indivíduo quanto por espaços sociais nos quais se relaciona (González Rey, 2003, 2005, 2007, 2011; González Rey; Mitjáns Martínez, 2017). Nessa perspectiva, a subjetividade não constitui um domínio interno da vida psíquica e nem um reflexo das determinações sociais, mas um sistema complexo de produção que integra, de forma indissociável, subjetividade individual e subjetividade social. A emergência de novos sentidos subjetivos reorganiza as configurações subjetivas constituídas e inaugura possibilidades inéditas de posicionamento diante das experiências, conferindo caráter processual, contraditório e criativo ao desenvolvimento humano (González Rey, 2019).

Essa concepção desloca o foco da investigação dos produtos da atividade humana para os processos mobilizados na experiência, produzindo implicações decisivas tanto para a elaboração teórica quanto para a investigação empírica. Em lugar da busca por relações lineares entre variáveis, a Epistemologia Qualitativa propõe compreender a produção do conhecimento como um processo construtivo-interpretativo, no qual a inteligibilidade científica resulta da articulação entre indicadores, hipóteses e modelos teóricos produzidos no decorrer da pesquisa (González Rey, 2002, 2005, 2019). O conhecimento deixa de ser concebido como representação direta da realidade para assumir seu caráter interpretativo, reconhecendo a singularidade como fonte legítima de produção científica e a dialogicidade como princípio constitutivo da investigação.

É nesse horizonte epistemológico que a categoria mudança subjetiva vem adquirindo crescente relevância. Investigações recentes demonstram que compreender a mudança subjetiva implica deslocar a análise das alterações observáveis para os movimentos não diretamente observáveis de reorganização da constituição subjetiva, evidenciando processos que não podem ser explicados pela aquisição de conhecimentos ou pelo desenvolvimento de competências. A mudança subjetiva expressa tanto a emergência de novos núcleos de sentidos subjetivos como a reorganização de núcleos já constituídos, podendo se expressar em novos posicionamentos nas experiências do cotidiano da vida (Rossato; Mitjáns Martínez, 2011, 2013; González Rey; Mitjáns Martínez, 2017; Mitjáns Martínez; Rossato, no prelo).

Nos últimos anos, observa-se a inclinação de pesquisadores para investigações fundamentadas na Teoria da Subjetividade que elegem a mudança subjetiva como categoria central de análise. Desenvolvidas predominantemente no campo educacional, essas investigações abordam processos relacionados à formação docente, às dificuldades de aprendizagem, à constituição curricular, à subjetividade social da escola e às práticas pedagógicas. Embora situadas em contextos distintos, compartilham o esforço de construir modelos teóricos capazes de conferir inteligibilidade às transformações produzidas na experiência, evidenciando o potencial analítico da categoria para compreender processos educativos que escapam às interpretações normativas.

Entretanto, o avanço quantitativo dessas investigações precisa ser acompanhado por um movimento equivalente de sistematização crítica das contribuições produzidas. As inteligibilidades construídas sustentam a consolidação da categoria mudança subjetiva. Mais do que identificar onde a categoria tem sido utilizada, torna-se necessário compreender como ela vem sendo teoricamente produzida, quais pressupostos epistemológicos sustentam sua construção e quais contribuições oferece para o avanço da Teoria da Subjetividade.

Partindo dessa problemática, o presente artigo analisa as inteligibilidades produzidas sobre a categoria mudança subjetiva em cinco teses e dissertações desenvolvidas entre 2021 e 2024, fundamentadas na Teoria da Subjetividade e na Epistemologia Qualitativa. A opção por uma análise teórico-analítica busca ultrapassar a descrição dos resultados dessas pesquisas para compreender os movimentos interpretativos que sustentam seus modelos teóricos, contribuindo para o refinamento conceitual da categoria e para o fortalecimento de sua capacidade explicativa na investigação dos processos educativos e de outras formas de produção da subjetividade.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. A Teoria da Subjetividade: Fundamentos Teóricos e Categorias Centrais

A Teoria da Subjetividade, desenvolvida por Fernando González Rey no âmbito da perspectiva cultural-histórica, constitui uma das principais formulações contemporâneas para a compreensão dos processos humanos em sua complexidade simbólico-emocional. Sua elaboração representa uma alternativa crítica às concepções positivistas, racionalistas e empiricistas que, historicamente, orientaram as Ciências Humanas, fundamentadas em modelos explicativos centrados em relações lineares de causa e efeito, na fragmentação do psiquismo e na separação entre cognição, emoção e comportamento (González Rey, 2002, 2007).

Em contraposição a essas perspectivas, González Rey (2007) propõe compreender a subjetividade como um sistema complexo de produção simbólico-emocional, constituído histórica e culturalmente nas múltiplas relações sociais. Essa concepção desloca a subjetividade da condição de instância interna ou de simples reflexo das determinações externas, compreendendo-a como um processo vivo, dinâmico e permanentemente organizado nas experiências concretas dos indivíduos. Conforme destaca González Rey (2019), a emergência da subjetividade como categoria central implica questionar profundamente a tradição empírico-instrumental e a pretensão de neutralidade metodológica que marcaram grande parte da produção científica moderna.

Nessa perspectiva, a subjetividade constitui-se simultaneamente nos planos individual e social, rompendo com dicotomias clássicas, como indivíduo e sociedade, interno e externo, razão e emoção. Segundo González Rey e Mitjáns Martínez (2017), ambos os planos mantêm uma relação recursiva e inseparável, na qual os processos sociais participam da constituição da subjetividade individual, ao mesmo tempo em que esta produz novas formas de significação e posicionamento diante da realidade social. Assim, a subjetividade social corresponde aos sistemas subjetivos historicamente produzidos nos diferentes espaços sociais, envolvendo valores, crenças, discursos, normas e formas de organização que atravessam grupos, instituições e práticas culturais. A subjetividade individual, por sua vez, refere-se às formas singulares pelas quais cada indivíduo produz sentidos subjetivos em sua trajetória de vida, sem que essa produção constitua mera reprodução dos processos sociais.

A compreensão desses processos requer o reconhecimento de categorias que estruturam a Teoria da Subjetividade, dentre as quais se destacam o sentido subjetivo e a configuração subjetiva. O conceito de sentido subjetivo constitui a unidade qualitativa fundamental da subjetividade, representando uma das principais contribuições teóricas de González Rey (2007) para a superação das abordagens representacionais e cognitivistas da produção de significados. O sentido subjetivo corresponde à unidade inseparável entre emoção e simbolização produzida nas experiências humanas. Não se restringe a conteúdos conscientes ou racionalmente elaborados, mas expressa fluxos simbólico-emocionais que emergem processualmente nas relações sociais, culturais e históricas.

Os sentidos subjetivos são produzidos nas ações, relações e experiências concretas da vida cotidiana, assumindo caráter dinâmico, contraditório e historicamente situado. Conforme argumentam Souza e Patiño Torres (2019), essa categoria rompe com a histórica separação entre emoção e cognição ao compreender ambos os processos como dimensões inseparáveis da produção subjetiva. Nessa perspectiva, as emoções deixam de ser entendidas como respostas exclusivamente biológicas ou afetivas, passando a integrar sistemas simbólicos que organizam a experiência humana em sua singularidade.

Os sentidos subjetivos não permanecem isolados, mas organizam-se em configurações subjetivas, categoria que expressa a forma como diferentes produções simbólico-emocionais se articulam ao longo da história de vida dos indivíduos e dos grupos sociais. Segundo González Rey, Mitjáns Martínez, Rossato e Goulart (2017), as configurações subjetivas constituem organizações relativamente estáveis, porém abertas à transformação, integrando múltiplos sentidos subjetivos produzidos em diferentes contextos de experiência. Seu caráter auto-organizador, auto gerador, dinâmico e até contraditório evidencia que a subjetividade não pode ser reduzida a traços fixos, estruturas permanentes ou variáveis isoladas, mas deve ser compreendida como um sistema vivo em constante reorganização qualitativa.

Essa compreensão amplia significativamente as possibilidades analíticas da Teoria da Subjetividade, permitindo interpretar os processos humanos em sua historicidade, singularidade e complexidade. Ao integrar as categorias de subjetividade social, subjetividade individual, sentido subjetivo e configuração subjetiva em um sistema teórico coerente, a Teoria oferece instrumentos conceituais para compreender fenômenos educacionais, psicológicos, sociais e culturais para além de explicações normativas, adaptativas ou deterministas, evidenciando o caráter criativo, processual e gerador da produção subjetiva (González Rey, 2007, 2020; González Rey; Mitjáns Martínez, 2017).

2.1.1. A Evolução Conceitual de Mudança Subjetiva

O conceito de mudança subjetiva, na Teoria da Subjetividade, possibilita compreender os movimentos qualitativos da subjetividade ao longo das experiências humanas, bem como analisar como novos sentidos subjetivos e novas configurações subjetivas se produzem em meio às contradições da vida social, superando perspectivas lineares, normativas e adaptativas sobre os processos humanos. Sua origem decorre da tese de Rossato (2009), ao elaborar uma primeira construção e distinção entre mudança subjetiva e desenvolvimento subjetivo.

Por meio da tese de doutorado intitulada “O movimento da subjetividade no processo de superação das dificuldades de aprendizagem escolar” (Rossato, 2009), a autora elabora o conceito por meio das construções interpretativas que desenvolve sobre a superação das dificuldades de aprendizagem como um processo de transformação subjetiva. Nesse estudo, a autora demonstra que a aprendizagem envolve a produção subjetiva do indivíduo em suas relações sociais, afetivas e simbólicas. A mudança subjetiva aparece, nesse contexto, como reorganização qualitativa da subjetividade diante de experiências que favorecem novos posicionamentos do indivíduo perante si mesmo e perante a aprendizagem.

Na continuidade desse percurso teórico, Rossato e Mitjáns Martínez (2011), ao discutirem a superação das dificuldades de aprendizagem, aprofundam o conceito de mudança subjetiva ao defini-la como transformação qualitativa que ocorre no núcleo da configuração subjetiva. Para as autoras, a mudança subjetiva não corresponde a alterações pontuais de comportamento ou à simples aquisição de habilidades escolares. Trata-se da emergência de novos sentidos subjetivos capazes de reorganizar qualitativamente os modos de sentir, agir e posicionar-se. Nesse processo, experiências pedagógicas e relacionais podem favorecer vias alternativas de produção de sentidos subjetivos que tensionam os núcleos de sentidos subjetivos anteriormente estabilizados na configuração subjetiva do indivíduo.

Posteriormente, Rossato e Mitjáns Martínez (2013), ao analisarem histórias de superação das dificuldades de aprendizagem, ampliam essa discussão ao apresentarem de forma mais sistemática o conceito de desenvolvimento subjetivo. As autoras distinguem mudança subjetiva e desenvolvimento subjetivo: a mudança subjetiva refere-se à reorganização qualitativa em torno da configuração subjetiva, enquanto o desenvolvimento subjetivo envolve transformações mais amplas, sistêmicas e relativamente estáveis no sistema de configurações subjetivas.

A distinção entre essas categorias torna-se ainda mais evidente nos trabalhos metodológicos posteriores de Rossato e Mitjáns Martínez (2018), com base na obra de Mitjáns Martínez, González Rey, Rossato e Goulart (2017). Ao discutirem as contribuições da metodologia construtivo-interpretativa para pesquisas sobre desenvolvimento da subjetividade, as autoras argumentam que o desenvolvimento subjetivo se origina na emergência de uma configuração subjetiva de desenvolvimento, ou seja, numa mudança subjetiva qualitativamente mais complexa, capaz de tensionar núcleos de sentidos subjetivos de outras configurações subjetivas.

A partir dessas formulações, a mudança subjetiva passa a constituir uma categoria teórica capaz de explicar transformações qualitativas da subjetividade em diferentes contextos da experiência humana. Essa ampliação decorre da própria evolução da Teoria da Subjetividade, que desloca a análise dos processos humanos de explicações centradas em fatores externos ou em estágios de desenvolvimento para a compreensão da produção singular de sentidos subjetivos nas relações entre indivíduo e cultura.

Nessa perspectiva, Rossato (2019), ao discutir as contribuições da Epistemologia Qualitativa para a compreensão dos processos humanos, evidencia que a identificação da mudança subjetiva exige uma construção interpretativa sustentada por indicadores produzidos ao longo da pesquisa. Isso significa que a mudança não pode ser reduzida a comportamentos observáveis ou a respostas imediatas diante de determinadas intervenções. Sua inteligibilidade decorre da análise das reorganizações produzidas na configuração subjetiva, expressas em novos posicionamentos, na emergência de sentidos subjetivos inéditos e em formas qualitativamente distintas de o indivíduo produzir sua experiência.

Essa compreensão amplia significativamente o alcance analítico do conceito. A mudança subjetiva amplia-se para a compreensão de processos contraditórios, singulares e não lineares, cuja produção não resulta da intensidade dos acontecimentos vividos, mas da maneira pela qual esses acontecimentos são subjetivamente produzidos pelo indivíduo. Desse modo, experiências semelhantes podem assumir significados completamente distintos para diferentes pessoas, produzindo mudanças qualitativamente diversas ou, até mesmo, nenhuma reorganização relevante da subjetividade.

As pesquisas desenvolvidas por Rossato e Assunção (2019), no campo da formação docente, reforçam essa perspectiva ao demonstrarem que as transformações produzidas na relação do professor com sua prática profissional não decorrem da aquisição de novos conhecimentos ou competências, mas da emergência de novos sentidos subjetivos sobre docência, de si mesmo e das relações estabelecidas no contexto educativo. Sob essa ótica, a mudança subjetiva evidencia-se quando novos recursos subjetivos passam a reorganizar qualitativamente a forma como o professor interpreta, sente e atua em situações vividas.

Mais recentemente, Rossato et al. (2023) aprofundam essa discussão ao destacar que a produção de inteligibilidades sobre a mudança subjetiva depende da articulação entre teoria, epistemologia e metodologia. Nessa direção, demonstram que os indicadores construídos durante a pesquisa somente adquirem significado quando integrados em um modelo teórico capaz de explicar a reorganização qualitativa da subjetividade. A mudança subjetiva, portanto, não se constitui como um evento isolado nem como um resultado previamente esperado, mas como uma produção interpretativa que expressa novas formas de organização dos sentidos subjetivos e das configurações subjetivas no decorrer da experiência humana.

Por meio do percurso teórico apresentado é possível afirmar que a mudança subjetiva se consolida, no âmbito da Teoria da Subjetividade, como uma categoria analítica cuja potência explicativa está na possibilidade de produzir inteligibilidades sobre transformações qualitativas da subjetividade em sua natureza processual, singular e configuracional. Assim, o conceito, ao ser tomado como categoria, possibilita compreender a emergência de novos sentidos subjetivos e de reorganizações qualitativas das configurações subjetivas, sem pressupor, necessariamente, transformações sistêmicas mais amplas na organização da subjetividade.

2.2. Epistemologia Qualitativa e a Metodologia Construtivo-Interpretativa

A Epistemologia Qualitativa, desenvolvida por González Rey (2002, 2005, 2019), constitui o fundamento epistemológico da Teoria da Subjetividade e emerge como uma crítica às concepções empírico-positivistas que historicamente orientaram a produção do conhecimento nas ciências humanas. Segundo o autor, a psicologia consolidou-se sob forte influência de uma racionalidade instrumental que privilegiou a objetividade metodológica, a fragmentação dos fenômenos e a busca por relações lineares de causa e efeito, relegando a subjetividade a uma posição secundária ou derivada. Em contraposição a essa tradição, a Epistemologia Qualitativa propõe compreender o conhecimento científico como um processo construtivo, interpretativo e dialógico, orientado para a produção de inteligibilidades sobre a complexidade dos processos humanos, e não para a reprodução objetiva da realidade.

Nessa perspectiva, teoria, epistemologia e metodologia constituem uma unidade inseparável. A investigação científica deixa de ser entendida como aplicação técnica de procedimentos destinados à coleta de dados e passa a configurar-se como um processo permanente de construção teórica, no qual pesquisador e participantes produzem, em interação, novas possibilidades de compreensão dos fenômenos investigados (González Rey, 2019). A legitimidade do conhecimento não decorre da neutralidade do pesquisador ou da replicação dos resultados, mas da capacidade heurística das construções teóricas produzidas, isto é, de seu potencial para gerar novas zonas de inteligibilidade sobre a realidade estudada (González Rey, 2005; Rossato; Mitjáns Martínez, 2018).

Um dos princípios centrais da Epistemologia Qualitativa é o reconhecimento da singularidade como fonte legítima de produção científica. Diferentemente das perspectivas universalistas, que subordinam os casos singulares à generalização estatística, González Rey (2005) sustenta que é precisamente na singularidade que emerge a compreensão dos processos humanos. Assim, o conhecimento científico não se organiza pela frequência de ocorrências, mas pela capacidade interpretativa de compreender a organização subjetiva dos fenômenos em sua historicidade, complexidade e caráter configuracional.

Outro princípio estruturante refere-se ao dialógico, concebido não como técnica de obtenção de informações, mas como espaço relacional de produção subjetiva. O dialógico configura-se como um processo simbólico-emocional no qual tensões, contradições, emoções, imaginação e posicionamentos subjetivos participam ativamente da construção do conhecimento. Conforme destaca González Rey (2019), somente quando envolve implicação subjetiva dos participantes o diálogo se torna capaz de favorecer a emergência de novos sentidos subjetivos e novas possibilidades interpretativas acerca do fenômeno investigado.

Esses fundamentos epistemológicos materializam-se na Metodologia Construtivo-Interpretativa, principal expressão da Epistemologia Qualitativa. Nessa metodologia de pesquisa, as informações não são concebidas como dados objetivos previamente existentes, mas como produções construídas ao longo do processo investigativo por meio das relações dialógicas estabelecidas entre pesquisador e participantes (González Rey, 2005). Consequentemente, o pesquisador assume uma posição ativa na investigação, mobilizando criatividade, imaginação, pensamento teórico e reflexão contínua para produzir hipóteses interpretativas que orientam o desenvolvimento da pesquisa (Rossato; Mitjáns Martínez, 2018).

Nesse movimento, os indicadores ocupam papel central. Diferentemente das abordagens positivistas, os indicadores não são elementos imediatamente identificáveis nos materiais empíricos; constituem construções interpretativas produzidas pelo pesquisador a partir da articulação entre diferentes expressões dos participantes e do referencial teórico adotado (González Rey, 2005). A integração progressiva desses indicadores possibilita a elaboração de hipóteses interpretativas que permanecem abertas à reformulação ao longo da investigação, acompanhando o caráter dinâmico e processual da produção do conhecimento.

A construção dessas hipóteses culmina na elaboração do modelo teórico, categoria que sintetiza o movimento construtivo-interpretativo da pesquisa. O modelo teórico não corresponde à representação objetiva da realidade nem ao resultado da aplicação isolada de procedimentos metodológicos; trata-se de uma construção interpretativa que organiza, de forma configuracional, as inteligibilidades produzidas durante a investigação (González Rey, 2005). Sua elaboração decorre da articulação entre indicadores, hipóteses interpretativas, referenciais teóricos e processos dialógicos, sendo continuamente reorganizada à medida que novas informações e novas interpretações emergem no percurso investigativo (Rossato; Mitjáns Martínez, 2018).

Por essa razão, o modelo teórico possui caráter aberto, dinâmico e processual. Sua finalidade não é explicar os fenômenos por meio de relações lineares entre variáveis, mas compreender como sentidos subjetivos, simbolizações e posicionamentos se organizam configuracionalmente na constituição dos processos humanos (González Rey; Mitjáns Martínez, 2017). Ao produzir novas zonas de inteligibilidade, o modelo teórico não apenas amplia a compreensão do objeto investigado, mas também contribui para o desenvolvimento da própria teoria que fundamenta a pesquisa, evidenciando a indissociabilidade entre teoria, epistemologia e metodologia (González Rey, 2019; Rossato; Mitjáns Martínez, 2018).

3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E CORPUS DA PESQUISA

A pesquisa realizada caracteriza-se como documental de caráter teórico-analítico, realizada por meio de uma análise sistemática de produções acadêmicas (teses e dissertações). A seleção das pesquisas ocorreu a partir dos seguintes critérios: (a) trabalhos vinculados à Teoria da Subjetividade; (b) pesquisas que abordassem explicitamente a mudança subjetiva ou processos subjetivos relacionados; (c) produções acadêmicas defendidas em programas de pós-graduação stricto sensu; e (d) pesquisas publicadas após a distinção entre mudança subjetiva e desenvolvimento subjetivo apresentada em trabalhos de Rossato e Mitjáns Martínez (2011, 2013, 2018) e contribuições teóricas de Mitjáns Martínez e González Rey (2019).

As pesquisas selecionadas, predominantemente desenvolvidas em nível de Doutorado, estão detalhadas no quadro a seguir:

Quadro 1. Pesquisas com foco em mudanças subjetivas (2020-2025)

Autor
(Nível)
Ano

Título da Pesquisa

Instituição

Lima, M. H. dos S.
(Mestrado)
2021

Aprender a ensinar com/por pesquisa: um caso sobre as mudanças subjetivas de Diego

UFPA

Bezerra, H. P. da S. (Doutorado)
2023

Processos subjetivos na superação das dificuldades de aprendizagem de Biologia

UFPA

Silva, G. de J.
(Doutorado)
2023

Mudanças nas produções subjetivas no processo de formação profissional continuada do(a) Pedagogo(a) Escolar da Equipe Especializada e Apoio à Aprendizagem-EEA

UnB

Souza, F. R. A.
(Doutorado)
2023

Currículo e mudança subjetiva do professor no processo formativo: a curadoria de conhecimento para a educação científica e tecnológica humanizadora

UTFPR/UnB

Lopes, T. S. S.
(Doutorado)
2024

Mudanças nas produções da subjetividade social da escola em inter-relação com as ações e relações pedagógicas em tempos de pandemia

UnB

Fonte: Elaborado por Oliveira e Rossato (2026).

A sistematização das pesquisas apresentadas no Quadro 1 evidencia a consolidação da mudança subjetiva como objeto específico de investigação no âmbito da Teoria da Subjetividade. As cinco pesquisas destacadas revelam a ampliação do campo de investigação da mudança subjetiva para diferentes problemáticas. Os estudos contemplam desde processos de aprendizagem da docência (Lima, 2021), passando pela superação das dificuldades de aprendizagem (Bezerra, 2023), pela formação profissional continuada de pedagogos (Silva, 2023), pelas relações entre currículo e formação docente (Souza, 2023), até a investigação das mudanças produzidas na subjetividade social da escola em contexto de pandemia (Lopes, 2024).

Outro aspecto evidenciado refere-se à predominância de pesquisas desenvolvidas em cursos de Doutorado, indicando um movimento de aprofundamento teórico e metodológico do conceito de mudança subjetiva como categoria analítica. A análise das produções permitiu identificar aproximações e singularidades nas construções teóricas e metodológicas desenvolvidas pelos pesquisadores, evidenciando convergências na compreensão da mudança subjetiva como um processo singular, contraditório e configuracional. A sistematização dessas convergências possibilitou a organização da análise em dois eixos sobre a produção de inteligibilidades das pesquisas: a produção construtivo-interpretativa da informação e os modelos teóricos, que evidencia os percursos metodológicos adotados pelas pesquisas para a construção da informação e as inteligibilidades produzidas sobre a mudança subjetiva; e as implicações epistemológicas para a Teoria da Subjetividade.

4. ANÁLISES E DISCUSSÕES SOBRE A PRODUÇÃO DE INTELIGIBILIDADES DAS PESQUISAS

4.1. A Produção Construtivo-Interpretativa da Informação e os Modelos Teóricos

As pesquisas analisadas convergem ao demonstrar que a compreensão da mudança subjetiva não resulta da identificação direta de comportamentos, opiniões ou eventos isolados, mas da produção construtivo-interpretativa da informação, princípio epistemológico que distingue a Epistemologia Qualitativa das abordagens qualitativas orientadas pela descrição ou categorização de dados (González Rey, 2005, 2019). Nessa perspectiva, a informação não é concebida como um dado previamente existente à espera de ser coletado; constitui uma produção teórica construída no processo investigativo, por meio da articulação entre indicadores, hipóteses interpretativas e modelos teóricos, elaborados em diálogo permanente entre pesquisador, participantes e contexto social (González Rey; Mitjáns Martínez, 2017).

Essa concepção evidencia que a inteligibilidade da mudança subjetiva depende menos da utilização de determinados instrumentos metodológicos do que da forma como as expressões produzidas pelos participantes são interpretadas no interior de um modelo teórico em construção. Os instrumentos dialógicos empregados nas pesquisas — entre eles dinâmicas conversacionais, memoriais, entrevistas abertas, registros reflexivos, observações e produções escritas — não assumem a função de produzir evidências objetivas sobre a realidade investigada. Constituem espaços privilegiados para a emergência de expressões simbólico-emocionais que permitem ao pesquisador produzir indicadores sobre movimentos da organização subjetiva.

As investigações de Lima (2021), Silva (2023) e Souza (2023) ilustram de maneira expressiva esse movimento epistemológico. Em seus estudos, indicadores de mudança subjetiva foram construídos a partir de manifestações que, sob uma perspectiva descritiva, poderiam parecer irrelevantes para a investigação científica: alterações no tom de voz durante discussões sobre o currículo, o surgimento de novas metáforas para representar a prática pedagógica, pausas prolongadas diante de contradições vivenciadas no exercício profissional ou deslocamentos na forma de narrar a própria trajetória docente. Tais expressões não foram interpretadas como evidências conclusivas da mudança subjetiva, mas como indícios que, articulados ao conjunto das informações produzidas ao longo da pesquisa, possibilitaram a formulação de hipóteses sobre novas produções de sentidos subjetivos.

Esse movimento evidencia uma característica central da Epistemologia Qualitativa: os indicadores não possuem significado em si mesmos, mas adquirem valor científico quando inseridos em um processo interpretativo capaz de produzir inteligibilidade sobre o fenômeno investigado. A singularidade deixa, assim, de representar uma limitação metodológica para constituir fonte legítima de elaboração teórica, reafirmando o caráter construtivo, dialógico e recursivo da produção do conhecimento (González Rey, 2005; Rossato; Mitjáns Martínez, 2018).

A pesquisa de Lima (2021) constitui um exemplo particularmente elucidativo desse processo. Ao acompanhar a constituição docente mediada pela pesquisa, o autor identificou indicadores relacionados às tensões vivenciadas pelo participante no movimento de "aprender a ensinar por pesquisa". Essas tensões, inicialmente manifestadas em inseguranças, ambiguidades e reposicionamentos diante da atividade investigativa, foram progressivamente interpretadas como expressão da reorganização da configuração subjetiva associada à identidade profissional docente. A mudança subjetiva, nesse contexto, não foi compreendida como consequência direta da aprendizagem de procedimentos investigativos, mas como produção qualitativa de novos sentidos subjetivos que redefiniram a relação do sujeito consigo mesmo, com a docência e com a pesquisa.

Movimento semelhante pode ser observado nas demais investigações. Silva (2023) identificou que as transformações produzidas na formação continuada dos pedagogos escolares ultrapassavam a aquisição de novos conhecimentos profissionais, expressando mudanças nos modos pelos quais os participantes significavam sua atuação, sua inserção institucional e sua participação coletiva. Souza (2023), por sua vez, demonstrou que o currículo somente poderia ser compreendido como espaço de produção subjetiva quando analisado para além de sua dimensão normativa, evidenciando a emergência de novos sentidos subjetivos relacionados à formação científica, tecnológica e humanizadora.

Essas construções interpretativas convergem para a elaboração de modelos teóricos que ampliam a compreensão da mudança subjetiva ao evidenciar sua natureza processual, singular, contraditória e configuracional. Permitem compreender que a mudança subjetiva não decorre da ação direta das condições objetivas, mas da produção subjetiva realizada pelo indivíduo em sua relação com essas condições, conferindo inteligibilidade aos processos geradores das transformações investigadas. É precisamente nesse nível de elaboração teórica que se evidencia uma das principais contribuições das pesquisas analisadas para o avanço da Teoria da Subjetividade.

Os modelos produzidos por Bezerra (2023) e Lopes (2024) exemplificam esse avanço teórico ao romperem com interpretações normativas dos fenômenos educacionais. Bezerra (2023) demonstra que a superação das dificuldades de aprendizagem em Biologia não pode ser explicada exclusivamente pela apropriação de conteúdos ou pelo desenvolvimento de estratégias cognitivas. O modelo teórico construído evidencia que a aprendizagem se transforma quando o estudante passa a produzir novos sentidos subjetivos sobre si mesmo, reorganizando configurações anteriormente marcadas pelo fracasso escolar, pela insegurança e pela desqualificação de suas capacidades. A mudança subjetiva manifesta-se, assim, como reorganização configuracional que amplia as possibilidades de ação do sujeito e favorece novas formas de participação no processo educativo.

Lopes (2024), por sua vez, amplia essa compreensão ao deslocar a análise para o plano da subjetividade social. Seu modelo teórico evidencia que as transformações produzidas na escola durante a pandemia não podem ser compreendidas apenas como adaptações institucionais às exigências sanitárias. As mudanças observadas nas produções subjetivas dos professores encontravam-se intrinsecamente articuladas à reorganização das relações coletivas, das práticas pedagógicas e dos sentidos compartilhados sobre o trabalho educativo. Tal interpretação reafirma um dos princípios centrais da Teoria da Subjetividade: a produção subjetiva constitui-se simultaneamente nos planos individual e social, impossibilitando a compreensão da mudança a partir de explicações que privilegiam apenas um desses níveis.

A análise integrada dos modelos teóricos permite identificar três características, ainda que assumam expressões singulares em cada investigação: em primeiro lugar, a mudança subjetiva apresenta natureza contraditória, emergindo em meio a conflitos, tensões e rupturas que desafiam formas previamente estabilizadas de produção subjetiva; em segundo lugar, ela implica a produção de novos sentidos subjetivos que reorganizam configurações simbólico-emocionais anteriormente constituídas, produzindo novas formas de interpretar e viver a experiência; por fim, a mudança subjetiva possui caráter gerador, uma vez que inaugura novas possibilidades de posicionamento, participação e ação dos sujeitos diante dos diferentes espaços sociais dos quais fazem parte. Essas características reforçam a compreensão de que a mudança subjetiva constitui uma categoria analítica específica, cuja potência explicativa reside na possibilidade de compreender transformações qualitativas que escapam às interpretações lineares, adaptativas ou estritamente cognitivas.

Ao mesmo tempo em que evidenciam o avanço conceitual da categoria, as pesquisas também revelam desafios que acompanham seu processo de consolidação. A temporalidade própria da produção subjetiva constitui um deles. Os recortes temporais inerentes às pesquisas de mestrado e doutorado nem sempre permitem acompanhar a estabilização das reorganizações subjetivas ao longo do tempo, dificultando a compreensão da mudança subjetiva, conforme assinala Silva (2023). Além disso, o caráter construtivo-interpretativo da investigação exige do pesquisador elevada consistência teórica para produzir indicadores e hipóteses que mantenham coerência com os princípios epistemológicos da Teoria da Subjetividade, evitando interpretações arbitrárias ou psicologizantes.

Outro desafio refere-se à ampliação dos contextos investigados. Embora as pesquisas demonstrem a fecundidade da categoria mudança subjetiva para compreender processos educativos, sua potencialidade analítica ainda permanece concentrada, predominantemente, no campo da educação. A expansão dessas investigações para outras esferas da vida social poderá contribuir tanto para o refinamento conceitual da categoria quanto para a ampliação de seu alcance explicativo, fortalecendo a Teoria da Subjetividade como referencial para a compreensão dos processos humanos em sua complexidade histórica, simbólico-emocional e social (Rossato et al., 2023).

4.2. Implicações Epistemológicas para a Teoria da Subjetividade

As análises desenvolvidas neste estudo permitem afirmar que as pesquisas investigadas não apenas ampliam o campo empírico de utilização conceitual de mudança subjetiva, mas contribuem para seu próprio desenvolvimento teórico. A produção de modelos explicativos em diferentes contextos educacionais evidencia que a mudança subjetiva vem adquirindo crescente consistência conceitual como categoria analítica capaz de explicar processos qualitativos de transformação que permaneciam pouco inteligíveis em perspectivas centradas na aprendizagem, no comportamento ou no desenvolvimento.

Essa constatação possui implicações relevantes para a Teoria da Subjetividade. Em primeiro lugar, evidencia que a mudança subjetiva não pode ser reduzida à simples reorganização de comportamentos ou competências. As pesquisas demonstram que ela constitui um processo gerador, produzido pela emergência de novos sentidos subjetivos capazes de reorganizar configurações subjetivas e produzir novos posicionamentos diante da experiência. Tal compreensão fortalece o conceito como nível específico de inteligibilidade da produção subjetiva, preservando sua articulação com o desenvolvimento subjetivo sem dissolver suas especificidades conceituais.

Em segundo lugar, os estudos reafirmam a centralidade da Epistemologia Qualitativa para a investigação dos processos subjetivos. A produção construtivo-interpretativa da informação, a elaboração de indicadores, a formulação processual de hipóteses e a construção de modelos teóricos demonstram que a compreensão da mudança subjetiva exige procedimentos metodológicos compatíveis com a natureza configuracional da subjetividade. Não se trata apenas de utilizar métodos qualitativos, mas de assumir uma concepção epistemológica segundo a qual o conhecimento científico é produzido no próprio processo investigativo, tendo a dialogicidade e a singularidade como fonte legítima de elaboração teórica (González Rey, 2005, 2019).

Outro aspecto relevante refere-se ao deslocamento produzido pelas pesquisas em relação às interpretações individualizantes dos processos educativos. Os modelos teóricos construídos convergem ao evidenciar que a mudança subjetiva emerge na inseparável articulação entre subjetividade individual e subjetividade social, reafirmando um dos princípios fundamentais da Teoria da Subjetividade. As transformações observadas não decorrem exclusivamente das características individuais dos participantes nem das condições objetivas dos contextos institucionais, mas da produção de novos sentidos subjetivos nas relações estabelecidas entre sujeitos, práticas sociais e espaços educativos.

Essa compreensão amplia significativamente o potencial analítico da categoria para investigar fenômenos complexos como aprendizagem, formação docente, currículo e subjetividade social da escola. Entretanto, as pesquisas também revelam desafios que acompanham o processo de consolidação conceitual da categoria. Embora exista convergência quanto à compreensão da mudança subjetiva como processo singular, contraditório e configuracional, observa-se diversidade na forma como seus indicadores são produzidos e na amplitude explicativa gerados pelos modelos teóricos produzidos nas pesquisas.

Tal diversidade não representa fragilidade do campo, mas expressão do caráter aberto, histórico e gerador da própria Teoria da Subjetividade, cuja produção conceitual se desenvolve em permanente diálogo com os problemas investigados. Nesse sentido, o aprofundamento das relações entre mudança subjetiva e desenvolvimento subjetivo, bem como a explicitação dos processos que favorecem a emergência de novas configurações subjetivas em diferentes contextos sociais, constitui uma agenda promissora para futuras investigações.

Em síntese, as pesquisas analisadas indicam que a categoria mudança subjetiva atravessa um processo de consolidação epistemológica e teórica que ultrapassa a descrição de transformações individuais e amplia a compreensão da produção subjetiva como fenômeno histórico, simbólico-emocional e socialmente configurado. Ao produzir modelos teóricos capazes de explicar a emergência de novos sentidos subjetivos e suas implicações para os processos educativos, esses estudos fortalecem a Teoria da Subjetividade como referencial explicativo da complexidade humana e reafirmam a fecundidade da Epistemologia Qualitativa para a produção de conhecimento comprometido com a compreensão dos processos geradores da experiência humana.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As análises desenvolvidas neste estudo evidenciam que o conceito de mudança subjetiva vem assumindo crescente consistência teórica e epistemológica no âmbito da Teoria da Subjetividade, configurando-se como uma importante chave de inteligibilidade para compreender processos qualitativos de transformação humana que escapam às interpretações lineares, adaptativas ou exclusivamente cognitivas. Ao analisar as inteligibilidades produzidas em cinco teses e dissertações fundamentadas na Teoria da Subjetividade e na Epistemologia Qualitativa, foi possível explicitar os movimentos interpretativos que sustentam a construção dessa categoria, bem como suas contribuições para o avanço da produção teórica no campo educacional.

As pesquisas analisadas convergem ao demonstrar que a mudança subjetiva não pode ser compreendida como efeito imediato de intervenções pedagógicas, da aquisição de conhecimentos ou de alterações comportamentais observáveis. Sua produção está associada à emergência de novos sentidos subjetivos que reorganizam configurações subjetivas e possibilitam novos posicionamentos diante das experiências vividas. Essa compreensão reafirma o caráter histórico, simbólico-emocional, configuracional e gerador da subjetividade, evidenciando que os processos de transformação humana se constituem na inseparável articulação entre subjetividade individual e subjetividade social.

Do ponto de vista epistemológico, o estudo reafirma a fecundidade da Epistemologia Qualitativa como fundamento para a investigação dos processos subjetivos. A análise das pesquisas evidencia que a produção construtivo-interpretativa da informação, a elaboração de indicadores, a construção processual de hipóteses e a produção de modelos teóricos constituem condições indispensáveis para produzir inteligibilidades coerentes com a natureza complexa da subjetividade. Nessa perspectiva, a legitimidade do conhecimento científico desloca-se da busca por evidências objetivas para a capacidade de produzir modelos teóricos capazes de explicar os processos geradores da experiência humana.

Outro aspecto relevante refere-se ao refinamento conceitual da relação entre mudança subjetiva e desenvolvimento subjetivo. As inteligibilidades produzidas pelas pesquisas permitem compreender que ambas as categorias mantêm estreita articulação, sem que uma possa ser reduzida à outra. Enquanto a mudança subjetiva expressa reorganizações qualitativas de configurações específicas da subjetividade, o desenvolvimento subjetivo envolve reorganizações configuracionais mais amplas. Essa distinção amplia a capacidade explicativa da Teoria da Subjetividade e oferece maior precisão analítica para a investigação dos processos de transformação em diferentes contextos sociais.

Ao mesmo tempo, o estudo evidencia desafios que acompanham a consolidação desse conceito. Destacam-se a necessidade de ampliar investigações longitudinais que permitam acompanhar os desdobramentos das mudanças subjetivas ao longo do tempo, bem como a expansão das pesquisas para além do campo educacional, explorando sua potencialidade analítica em diferentes contextos de produção da subjetividade. Tais movimentos poderão contribuir para o aprofundamento das relações entre mudança subjetiva e configuração subjetiva, fortalecendo o alcance explicativo da teoria.

Por fim, considera-se que a principal contribuição deste artigo consiste em sistematizar criticamente as inteligibilidades produzidas pelas pesquisas recentes sobre mudança subjetiva, evidenciando que sua consolidação não decorre da repetição de definições conceituais, mas da produção de modelos teóricos capazes de ampliar a compreensão dos processos geradores da subjetividade. Ao reunir essas contribuições em um movimento analítico integrado, o estudo fortalece a mudança subjetiva como conceito de elevada potência heurística e reafirma a Teoria da Subjetividade e a Epistemologia Qualitativa como referenciais teórico-epistemológicos capazes de produzir novas inteligibilidades sobre a complexidade dos processos humanos contemporâneos.

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1 Pós-doutoranda pela Universidade de Brasília pelo Programa de Pós Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Escolar. Doutora em Educação pela Universidade de Brasília. Professora no Instituto Federal de Brasília (IFB) em cursos de graduação (licenciaturas) e pós-graduação (especialização em Ensino de Humanidades e Linguagens e Mestrado Profissional em Docência). Lattes:  https://lattes.cnpq.br/5506343924922411. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9938-4435. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Pós-Doutora pela PUC-PR. Doutora em Educação pela Universidade de Brasília. É coordenadora do Laboratório de Novas Epistemologias e Desenvolvimento Humano - LabNEDH e líder do grupo de pesquisa CNPQ Desenvolvimento Subjetivo e Sujeito. É membro fundador do Instituto Fernando González Rey. Professora Associada da Universidade de Brasília, Instituto de Psicologia, Membro do Programa de Pós Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Escolar. Lattes: https://lattes.cnpq.br/1176973969163606. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-6457-9005. E-mail [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail