MONITORIA EM PSICOMOTRICIDADE COMO FERRAMENTA DE APRENDIZADO NA FORMAÇÃO EM FISIOTERAPIA: PERCEPÇÃO DISCENTE

PSYCHOMOTRICITY TUTORSHIP AS A LEARNING TOOL IN PHYSICAL THERAPY EDUCATION: STUDENT PERCEPTION

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793606513

RESUMO
A monitoria acadêmica, regulamentada no ensino superior brasileiro, integra ensino, pesquisa e extensão e contribui para a formação acadêmica e profissional, aproximando o aluno da docência. Na Fisioterapia, a Psicomotricidade é reconhecida pelo COFFITO como área de atuação, e na UNCISAL a disciplina passou a ser conduzida por uma fisioterapeuta em 2016. O objetivo do estudo é analisar a percepção discente sobre a monitoria em Psicomotricidade como ferramenta de aprendizado na formação em Fisioterapia. Trata-se de pesquisa descritiva, transversal, quanti-qualitativa, aprovada pelo Comitê de Ética. Entrevistas semiestruturadas foram realizadas com 22 participantes que atuaram como monitores entre 2017 e 2025 (15 egressos e 7 discentes), analisadas por estatística descritiva e pelo Discurso do Sujeito Coletivo. A faixa etária variou de 22 a 30 anos, com DP = 2,2, sendo 86,4% mulheres. Nos discursos, a comunicação foi a competência geral mais citada, aprimorada ao explicar conteúdos de diferentes formas e orientar alunos, crianças e familiares. Entre as competências específicas, destacou-se a avaliação e o raciocínio clínico, desenvolvidos pela aplicação da bateria psicomotora e pela resolução de casos e continuado a evoluir com outras disciplinas, estágios e a prática profissional. Os participantes relataram ainda que a monitoria consolidou a articulação entre teoria e prática, trouxe mais segurança para os estágios, para a atuação profissional e despertou o interesse pela docência. Conclui-se que a monitoria aprofunda os conhecimentos teóricos e práticos, desenvolve competências e estimula o interesse pela carreira docente, configurando-se como estratégia complementar relevante, com impactos que vão além da graduação.
Palavras-chave: Tutoria; Desempenho Psicomotor; Modalidades de fisioterapia; Universidades.

ABSTRACT
Academic mentorship a formalized practice within Brazilian higher education integrates teaching, research, and outreach, contributing to both academic and professional development by bringing students closer to the field of teaching. In the context of Physical Therapy, Psychomotricity is recognized by COFFITO (the Federal Council of Physiotherapy and Occupational Therapy) as an official area of ​​practice; at UNCISAL, the course has been led by a physical therapist since 2016. This study aims to analyze student perceptions of the mentorship program in Psychomotricity as a learning tool within Physical Therapy education. It is a descriptive, cross-sectional, mixed-methods (quantitative-qualitative) study, approved by the Research Ethics Committee. Semi-structured interviews were conducted with 22 participants who served as mentors between 2017 and 2025 (15 graduates and 7 current students). Data were analyzed using descriptive statistics and the "Collective Subject Discourse" (CSD) method. Participants ranged from 22 to 30 years of age (SD = 2.2), with 86.4% being women. In their accounts, communication emerged as the most frequently cited general competency honed through explaining course material in various ways and providing guidance to students, children, and their families. Among specific competencies, clinical assessment and clinical reasoning stood out; these were developed through the application of psychomotor assessment batteries and case-based problem-solving skills that continued to evolve through other coursework, clinical internships, and professional practice. Participants also reported that the mentorship program solidified the link between theory and practice, increased their confidence for clinical internships and professional work, and sparked an interest in a teaching career. In conclusion, academic mentorship deepens theoretical and practical knowledge, fosters the development of competencies, and stimulates interest in the teaching profession, serving as a significant complementary strategy with impacts that extend well beyond the undergraduate experience.
Keywords: Tutoring; Psychomotor performance; Physiotherapy modalities; Universities.

1. INTRODUÇÃO

A monitoria acadêmica é uma prática que foi regulamentada no contexto do ensino superior brasileiro pela Lei nº 5.540, de 28 de novembro de 1968, que estabelecia normas para o ensino superior. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), do artigo 84 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, reafirma a legalidade e constitui-se como uma prática que integra ensino, pesquisa e extensão.

Por meio dela, os alunos têm a oportunidade de esclarecer dúvidas e superar dificuldades, além de favorecer a compreensão dos conteúdos. Já o monitor, desenvolve uma postura pedagógica ao articular teoria e prática, identifica dificuldades e promove maior interação entre discentes e docentes. Dessa forma, a monitoria contribui não apenas para o aprendizado coletivo, mas também para a formação acadêmica e profissional, dado que ao se aproximar de uma disciplina ou área de interesse, o monitor busca aprofundar seus conhecimentos e ampliar competências, preparando-se para a futura prática docente (Trindade et al., 2022; Fernandes et al., 2020).

A experiência prática no ensino favorece o desenvolvimento de competências acadêmicas e profissionais (Souza; Oliveira, 2023). A monitoria é reconhecida como parte integrante do processo de ensino, pois ao inserir o monitor em etapas que englobam planejamento, execução e avaliação das atividades acadêmicas, favorece uma aprendizagem cooperativa, estimulando a observação crítica, a análise e o aprofundamento das práticas universitárias, permitindo ao aluno-monitor reconhecer-se como participante ativo nesse processo (Dantas, 2014).

A prática da monitoria favorece uma aprendizagem mais eficaz, pois, ao assumir responsabilidades diante dos colegas, o monitor passa a refletir sobre seu próprio processo de aprendizagem, reconhecendo dificuldades e buscando maneiras de superá-las (Botelho et al., 2019). Ao desenvolver o olhar crítico e habilidades de ensino, a monitoria faz do aluno protagonista do próprio aprendizado e amplia sua autonomia, que é construída ainda na graduação tende a se refletir na vida profissional, tornando-o mais independente (Abreu et al., 2014).

A monitoria aprimora competências como comunicação e tomada de decisão. Para muitos alunos, é a primeira experiência no campo da educação, um espaço de formação que engloba: teoria, prática e crescimento profissional (Alves et al., 2022; Belone et al., 2020). Ao unir teoria e prática em atividades que mobilizam diferentes saberes e despertam o interesse pela docência, a monitoria contribui para formar profissionais de saúde mais críticos e reflexivos (Dantas, 2014).

Por outro lado, a ausência de monitoria acadêmica pode levar tanto a um desempenho acadêmico inferior quanto à instabilidade emocional, visto que auxilia na superação de fatores que restringem o processo de aprendizado. Nessa perspectiva, é evidente a relevância da monitoria acadêmica no processo de aprendizagem, uma vez que o monitor, ao atuar como mediador do conhecimento, torna o processo de ensino-aprendizagem mais simplificado (Alves et al., 2022).

Esses benefícios dialogam diretamente com a proposta de formação em Fisioterapia. Conforme a Resolução CNE/CES nº 4, de 19 de fevereiro de 2002 (Art. 3º), o curso tem como finalidade formar profissionais generalistas, críticos, reflexivos e humanistas, preparados para atuar em todos os níveis de atenção à saúde, com base em princípios éticos e científicos e com respeito à diversidade cultural. A Fisioterapia tem o movimento humano como centro de seu estudo, em condições normais ou patológicas, seu papel é preservar, promover e recuperar a funcionalidade do corpo, por meio de uma avaliação cuidadosa e de condutas pensadas para cada pessoa e cada situação clínica (Brasil, 2022).

Nesse contexto, o COFFITO (2022) reconhece a Psicomotricidade como uma área de atuação do fisioterapeuta. Ela parte da atividade humana para construir projetos terapêuticos pensados para cada pessoa, que podem ser aplicados em todos os níveis de atenção à saúde: básica, média e alta complexidade. Essa área busca promover a integração do indivíduo com o ambiente por meio do movimento e da expressão simbólica, enxergando-a como um todo: corpo, emoções e vivências. Ela atua tanto na prevenção e no tratamento de dificuldades quanto na valorização e no desenvolvimento das capacidades de cada pessoa, favorecendo o equilíbrio entre corpo, mente e ambiente (Banzatto et al., 2021).

Na Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL), a disciplina de Psicomotricidade, tradicionalmente ministrada por profissionais da Psicologia, passou a ser conduzida por uma fisioterapeuta em 2016 e foi incorporada como um recurso terapêutico, com o uso de avaliações psicomotoras específicas que subsidiam a atuação clínica do fisioterapeuta. Essa integração contribui para uma formação mais sólida e alinhada às demandas da prática profissional, promovendo uma abordagem ampliada e eficaz no cuidado ao indivíduo (UNCISAL, 2024).

Diante disso, e considerando a condução da disciplina por uma fisioterapeuta, é importante entender como a monitoria em Psicomotricidade foi vivida e percebida por quem participou dela. Assim, este estudo teve como objetivo analisar a percepção discente sobre a monitoria em Psicomotricidade como ferramenta de aprendizado na formação em Fisioterapia.

2. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, transversal, de abordagem quanti-qualitativa, voltado à compreensão das percepções de estudantes que atuaram como monitores na disciplina de Psicomotricidade. Considerando que todos vivenciaram a monitoria durante a graduação, adotou-se o termo “percepção discente” em sentido amplo, distinguindo-se, na apresentação dos resultados, os discentes (alunos em curso) e os egressos (já graduados). A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL), sob o parecer nº 8.283.255, CAAE: 94077825.0.0000.5011, e conduzida em conformidade com a Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde.

A pesquisa foi realizada na UNCISAL. A população do estudo foi composta por acadêmicos e egressos do curso de Fisioterapia que atuaram como monitores na disciplina de Psicomotricidade entre 2017 e 2025. Estimou-se uma média de cinco monitores por ano, totalizando aproximadamente 43 discentes ao longo dos nove anos considerados, após a exclusão das repetições de discentes que atuaram como monitores mais de uma vez.

O cálculo amostral foi realizado por meio da calculadora eletrônica SurveyMonkey, considerando uma população estimada de 43 discentes, nível de confiança de 95% e margem de erro de 5%, resultando em uma amostra mínima estimada de 39 participantes. A amostragem foi intencional, com a escolha dos participantes baseada nos critérios de inclusão e exclusão definidos pelas pesquisadoras, e não em sorteio aleatório. A amostra foi constituída por todos os participantes que aceitaram o convite, totalizando 22 participantes.

Foram considerados critérios de inclusão: estudantes regularmente matriculados no curso de Fisioterapia da UNCISAL que tivessem cursado a disciplina de Psicomotricidade e atuado como monitores; egressos do curso de Fisioterapia que tivessem atuado como monitores da disciplina entre 2017 e 2025; maiores de 18 anos; e conclusão da monitoria no período especificado, com recebimento de certificado. Como critérios de exclusão, foram considerados egressos que não atuam como fisioterapeutas no momento da coleta, membros da equipe de pesquisa que tivessem sido monitores de Psicomotricidade, discentes em situação acadêmica irregular, por trancamento ou evasão.

A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, gravadas em áudio mediante autorização dos participantes e posteriormente transcritas na íntegra, entre fevereiro e junho de 2026. O processo de coleta contou com autorização formal da Pró-Reitoria de Graduação, que permitiu o acesso às informações referentes aos discentes e egressos que atuaram como monitores, incluindo seus e-mails institucionais. Os discentes ainda vinculados à instituição foram convidados individualmente a participar da pesquisa, inicialmente por e-mail institucional e, quando necessário, presencialmente. Após o aceite, foram informados sobre o local, a data e o horário da entrevista, além de receberem esclarecimentos sobre a pesquisa e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que foi assinado antes do início da entrevista. As entrevistas foram realizadas em sala de aula previamente reservada, garantindo privacidade e conforto aos participantes. O agendamento ocorreu em horário oportuno, de modo a não coincidir com as atividades acadêmicas.

Os egressos foram recrutados por meio de redes sociais, utilizando canais que permitissem contato direto e facilitassem a comunicação com aqueles que já não mantinham vínculo institucional. O contato inicial ocorreu por mensagem privada, contendo a apresentação da pesquisa, seus objetivos, o convite à participação e as orientações para o agendamento da entrevista. As entrevistas foram realizadas remotamente, por chamada de áudio ou vídeo, conforme a preferência dos participantes. Antes do início, foi encaminhado o TCLE por meio digital, acompanhado de orientações sobre os procedimentos da coleta, e os participantes o assinaram e o devolveram pelo mesmo meio.

Os áudios das entrevistas realizadas por chamada de voz foram gravados com o auxílio de um tablet Samsung Galaxy Tab S6 Lite, que registrou o áudio diretamente. Nas entrevistas realizadas por vídeo, a gravação ocorreu por meio da plataforma Google Meet, sendo utilizado apenas o áudio para a transcrição. As transcrições foram organizadas no programa Microsoft Office Word, versão 2010. Para preservar a identidade dos participantes, foram utilizados códigos que distinguem os dois grupos: o número “1” identifica os discentes ainda vinculados à graduação, e o número “2”, os egressos. Os arquivos foram armazenados em pastas criptografadas, em computador protegido e acessível apenas às pesquisadoras responsáveis. Os dados e os áudios das entrevistas estão sendo mantidos sob responsabilidade das pesquisadoras pelo período mínimo de cinco anos, a fim de preservar a confidencialidade e a identidade dos participantes. Foi garantido aos participantes o direito de não responder a qualquer pergunta, respeitando sua liberdade e seu conforto durante a entrevista.

O roteiro foi composto por dez perguntas, distribuídas em duas seções: perfil do participante, com seis perguntas, e percepções acerca da monitoria, com quatro perguntas. A seção referente ao perfil dos participantes contemplou informações sobre sexo, faixa etária, situação acadêmica atual, ano de ingresso na monitoria e motivos para a escolha da monitoria em Psicomotricidade. Para os egressos, também foi investigada a área de atuação profissional. As perguntas norteadoras da entrevista foram: 1) Na sua opinião, quais atributos relacionados à graduação ou à profissão, como características, competências e habilidades gerais e específicas, foram desenvolvidos durante sua experiência como monitor(a)?; 2) Como você descreveria a relação entre a monitoria de Psicomotricidade e sua aprendizagem teórica e prática durante a graduação ou formação em Fisioterapia?; 3) Na sua visão, qual é o papel da monitoria no processo de formação dos estudantes e como você a percebe em relação à prática profissional?; e 4) Em relação à sua experiência como monitor(a), há algum aspecto que gostaria de comentar ou acrescentar? Não foi estabelecido limite de tempo para as entrevistas, e os participantes puderam expressar livremente suas opiniões, inclusive críticas, sem interferência das pesquisadoras em suas respostas.

Os dados quantitativos, referentes ao perfil dos participantes, foram organizados e analisados por meio de estatística descritiva, com apresentação de frequências absolutas e relativas e média de idade. Para a análise qualitativa, foi utilizada a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), proposta por Lefèvre e Lefèvre (2014). O procedimento incluiu a leitura das transcrições para familiarização com o material, a identificação das Expressões-Chave (EC), a síntese das Ideias Centrais (IC) e a construção dos Discursos do Sujeito Coletivo em primeira pessoa do singular, representando os sentidos compartilhados pelos participantes.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Foram entrevistados 22 participantes (51,2% da população estimada), número inferior à amostra mínima estimada de 39, sendo 15 egressos (68,2%) e 7 discentes (31,8%) do curso de Graduação em Fisioterapia. A faixa etária variou de 22 a 30 anos, com média de 25,3 anos (Desvio Padrão = 2,2), e predominância de participantes entre 24 e 26 anos (n = 10), seguida daqueles entre 21 e 23 anos (n = 6) e com mais de 26 anos (n = 6). Quanto ao sexo, 19 participantes (86,4%) eram do sexo feminino e 3 (13,6%) do sexo masculino. Em relação ao período de ingresso na monitoria, verificou-se distribuição semelhante entre os participantes que iniciaram suas atividades entre 2020 e 2022 (n = 9) e entre 2023 e 2025 (n = 9), enquanto 4 ingressaram entre 2017 e 2019. Entre os egressos, observou-se atuação em diferentes áreas da Fisioterapia, com destaque para Neuropediatria, Terapia Intensiva, Pilates, Pediatria e Saúde da Mulher, além de Dermatofuncional, Traumato-ortopedia, Gerontologia, Osteomioarticular e atendimento domiciliar. Alguns profissionais relataram atuação em mais de uma área.

Os resultados a seguir buscam compreender, por meio do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), como a monitoria em Psicomotricidade contribuiu para o desenvolvimento de discentes e egressos dentro e fora da graduação.

Os discursos foram agrupados por semelhança das ideias centrais (IC) e são apresentados na sequência das perguntas da entrevista, iniciando pelo motivo da escolha da monitoria em Psicomotricidade.

A primeira ideia central encontrada no discurso dos discentes, sobre o motivo da escolha da monitoria de Psicomotricidade, foi “Identificação com a área e ampliação da formação” (Quadro 1).

Quadro 1. Primeira ideia central referente ao motivo da escolha da monitoria de Psicomotricidade. Ideia central: “Identificação com a área e ampliação da formação”. 

IDEIA CENTRAL

DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO - EXPRESSÃO CHAVE

“Identificação com a área e ampliação da formação”

“Escolhi a monitoria porque me identifiquei com a pediatria e com a psicomotricidade, com a dinâmica das aulas e com as atividades práticas. A disciplina me aproximou das crianças e despertou o interesse em aprofundar meus conhecimentos, aprender mais e ampliar minha vivência na área infantil, além de compartilhar o que aprendi com outros alunos. Também vi na monitoria uma oportunidade de complementar minha formação e a carga horária de ensino e de fortalecer meu currículo, por ser uma matéria específica da Fisioterapia, pensando em oportunidades futuras, como a residência.”

Fonte: Dados da pesquisa.

A escolha da monitoria, nos discursos de discentes e egressos, esteve associada à identificação com a área e à ampliação da formação, o que se aproxima do descrito por Arnold et al. (2025), que investigaram os fatores que motivam os estudantes do último ano de medicina da Universidade de Adelaide, na Austrália, a atuarem como tutores em uma disciplina eletiva de educação médica, além de explorarem a percepção desses estudantes sobre a relevância do ensino para a carreira futura. Os autores identificaram que a motivação para a atividade estava associada a experiências positivas anteriores com o aprendizado assistido por pares, ao desejo de incentivar o aprendizado de outros acadêmicos e às chances de crescimento profissional. Os resultados da pesquisa dialogam com os discursos dos discentes, os quais visualizam na monitoria uma oportunidade de aproximar os conhecimentos teóricos da prática e desenvolver habilidades importantes para a formação profissional, o que ajuda a entender os motivos que levaram a escolher prestar a monitoria.

A segunda ideia central, presente nos discursos de discentes e egressos, refere-se aos atributos da graduação e da profissão (características, competências e habilidades) desenvolvidos durante a experiência como monitor, representado pela ideia central: “Comunicação” (Quadro 2). Das seis competências gerais previstas nas Diretrizes Curriculares Nacionais (Brasil, 2002), a comunicação prevaleceu e as demais apareceram de forma pontual: educação permanente, tomada de decisão e atenção à saúde.

Quadro 2. Segunda ideia central referente aos atributos da graduação e da profissão (características, competências e habilidades) desenvolvidos durante a experiência como monitor, representado pela ideia central: “Comunicação”.

DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO - EXPRESSÕES CHAVES COMUNS

IDEIA CENTRAL

DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO

“Comunicação”

“A monitoria contribuiu para desenvolver habilidades de ensino e de comunicação. Ensinar e explicar os conteúdos me ajudou a melhorar a forma de me comunicar e de transmitir conhecimentos, e foi preciso explicar de maneiras diferentes para facilitar o entendimento dos alunos e dos pacientes. Aprendi a ouvir, a ter calma e a encontrar meios de solucionar dúvidas. O contato com a professora, os colegas, os alunos e as crianças me deu mais facilidade para conversar e interagir, e também para dar suporte e orientar crianças e pais, oferecendo dicas e atividades para realizar em casa.”

Fonte: Dados da pesquisa.

A habilidade de comunicação foi mencionada por discentes e egressos como uma competência aprimorada pelo ato de explicar conteúdos de diferentes maneiras, ouvir, orientar e interagir com alunos, crianças e familiares. Esse achado dialoga com o estudo de Yoo et al. (2026), realizado com 14 tutores veteranos em um programa estruturado de tutoria entre pares em uma faculdade de medicina coreana. Na visão dos tutores, as dificuldades dos tutorados decorriam de rotinas instáveis, estratégias ineficazes e participação irregular, e não de lacunas de conteúdo, o que exigia uma atuação além do apoio acadêmico, incluindo orientação, estabilização de hábitos e manejo de desafios de comunicação. Os autores identificaram que a tutoria favoreceu a comunicação, a consciência metacognitiva e a formação da identidade profissional. A metacognição, nesse contexto, refere-se à reflexão sobre como se aprende, como ao ajustar a forma de expor um conteúdo para facilitar o entendimento do outro. Ao adaptar a linguagem de acordo com o público, como fizeram os monitores ao ensinar colegas, instruir pais e crianças, o monitor desenvolve uma habilidade que será exigida na prática clínica, o que também foi percebido pelos tutores coreanos ao associarem a experiência a seus futuros papéis profissionais.

Além da comunicação, os discursos trouxeram, de forma pontual e sem predominar entre os relatos, outras competências que se aproximam das cinco áreas de formação descritas por Shumba e Tekian (2024): atuação, avanço profissional, aprendizado e evolução, administração e liderança e investigação. A educação permanente apareceu na necessidade de estudar, revisar e aprofundar os conteúdos para ensiná-los, o que se alinha à consciência metacognitiva dos tutores descrita por Yoo et al. (2026).

A terceira ideia central, presente nos discursos de discentes e egressos, refere-se às competências específicas da Fisioterapia desenvolvidas durante a experiência como monitor, representada pela expressão: “Avaliação e raciocínio clínico” (Quadro 3). A avaliação e o raciocínio clínico prevaleceu e as demais apareceram de forma pontual: pensamento crítico, planejamento de intervenções, autonomia e segurança profissional.

Quadro 3. Terceira ideia central referente às competências específicas da Fisioterapia desenvolvidas durante a experiência como monitor, representada pela ideia central: “Avaliação e raciocínio clínico”.

DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO - EXPRESSÕES CHAVES COMUNS

IDEIA CENTRAL

DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO

“Avaliação e raciocínio clínico”

“Contribuiu para o desenvolvimento do meu raciocínio clínico por meio do contato com a bateria psicomotora, da confecção dos materiais, da aplicação dos testes, da resolução de casos clínicos, da avaliação das queixas dos pacientes e da definição de objetivos a partir dessa avaliação. Durante os atendimentos e as práticas nas escolas, precisei pensar rápido, desenvolver alguma coisa na hora, tentar controlar a situação e melhorar o que fosse necessário. A associação entre teoria e prática me permitiu assimilar melhor os conteúdos, aprofundar o conhecimento sobre os testes e colocar em prática os conceitos aprendidos em Psicomotricidade. A prática e a revisão dos conteúdos ajudaram a fixar os conhecimentos e a reconhecer alterações relacionadas à lateralidade, ao equilíbrio e à coordenação motora, mesmo quando a bateria não era aplicada formalmente. Na prática profissional, retomo esses conhecimentos durante as avaliações e na escolha dos instrumentos, contribuindo para o raciocínio clínico e para a atuação na pediatria e em outras áreas. Entretanto, esse desenvolvimento não ocorreu apenas durante a monitoria, pois o raciocínio clínico também foi aprimorado depois, com outras disciplinas, estágios e experiências profissionais.”

Fonte: Dados da pesquisa.

A avaliação e o raciocínio clínico aparecem nos discursos por meio da aplicação de testes, análise de casos, identificação das necessidades dos pacientes e da definição de objetivos e condutas. Essas experiências exigem articular conhecimentos teóricos e práticos e adaptar as intervenções às situações encontradas. Nesse sentido, Sellitto et al. (2026) avaliaram uma simulação on-line entre universidades italianas, baseada na discussão de um caso clínico por estudantes de fisioterapia, partindo da premissa de que o estudo de casos aproxima teoria e prática. Os autores observaram pequenas melhoras no conhecimento geral dos estudantes após a atividade, sem mudança nas questões específicas do caso, o que indica a viabilidade desta metodologia para o desenvolvimento do raciocínio clínico. Assim, o estudo dialoga com os relatos dos participantes e sugere que atividades baseadas em casos podem favorecer o exercício dessas habilidades, o que a monitoria também proporciona, em um processo que se aprimora ao longo da trajetória acadêmica e da atuação profissional.

Além da avaliação e do raciocínio clínico, que prevaleceram nos relatos, outras competências foram mencionadas de forma pontual: pensamento crítico, planejamento de intervenções, autonomia e segurança profissional.

O pensamento crítico apareceu na observação, na análise de situações, na mediação da aprendizagem e na reflexão sobre as informações para compreender as dificuldades dos alunos e as necessidades dos pacientes. Isso se aproxima de Kariem et al. (2026), para quem a coleta e a análise de informações e a formulação de hipóteses orientam o pensamento crítico e a decisão clínica, e de Pierce et al. (2024), cuja revisão observou que o ensino entre pares próximos aumentou a autoeficácia de estudantes iniciantes em pensamento crítico, o que dialoga com o papel de mediação da monitoria. O planejamento de intervenções envolveu a preparação prévia dos conteúdos, a elaboração de condutas e de materiais lúdicos e a aplicação da Psicomotricidade nos atendimentos pediátricos, considerando os elementos psicomotores dos pacientes. Isso converge com Coulston et al. (2025), cujos participantes perceberam que uma experiência preparatória em escolas, antes do estágio pediátrico, favoreceu a compreensão do desenvolvimento infantil e a interação com crianças por meio da comunicação e do brincar.

A autonomia e a segurança profissional foram evidenciadas na organização das monitorias, no planejamento de atividades, na tomada de decisões e na responsabilidade de transmitir conhecimentos, com maior confiança para orientar alunos, explicar procedimentos e interagir com pacientes e familiares. Isso vai ao encontro de Pierce et al. (2024), cuja revisão identificou, em quatro dos estudos analisados, que o ensino entre pares próximos aumentou a autoeficácia de estudantes veteranos para ensinar. A concepção de autonomia de Freire (2016), que valoriza a responsabilidade e o envolvimento ativo no processo educativo, ajuda a compreender a monitoria como uma vivência que incentiva essa autonomia na aprendizagem.

A quarta ideia central, presente nos discursos de discentes e egressos, refere-se à relação entre a monitoria e aprendizagem (teórica e prática), representadas pela ideia central “Aprendizagem teórico-prático” (Quadro 4).

Quadro 4. Quarta ideia central referente à relação entre a monitoria e aprendizagem (teórica e prática), representadas pela ideia central: “Aprendizagem teórico-prático”.

IDEIA CENTRAL

DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO - EXPRESSÃO CHAVE

“Aprendizagem teórico prático”

“Com a monitoria, pude revisar, aprofundar e fixar os conteúdos, pois precisava estudar novamente para repassar os conhecimentos aos alunos. Ao ensinar e colocar em prática o que aprendi, consegui compreender melhor a teoria e relacioná-la à prática. Também acompanhei e auxiliei os alunos nas atividades e nos atendimentos, observei erros e apliquei os conhecimentos de Psicomotricidade nas avaliações e na assistência aos pacientes. Mesmo quando tive poucas oportunidades práticas, consegui compreender melhor os conteúdos e os procedimentos, o que me trouxe mais segurança para os estágios e para a atuação profissional.”

Fonte: Dados da pesquisa.

A relação entre a monitoria e a aprendizagem teórico-prática foi evidenciada nos discursos dos participantes pela consolidação dos conteúdos e pela aplicação dos conhecimentos em atividades práticas. Tais achados dialogam com os de Alves et al. (2022), que também identificaram a contribuição dessa atividade para a integração entre teoria e prática, ressaltando a revisão de conteúdos e o esclarecimento de dúvidas como aspectos positivos. Assim, a monitoria configura-se como estratégia capaz de fortalecer a consolidação do conhecimento e sua aplicação, tanto ao longo da graduação quanto na futura atuação profissional.

A quinta ideia central, presente nos discursos de discentes e egressos, refere-se ao papel da monitoria no processo de formação dos estudantes, representados pela ideia central “Desenvolvimento profissional” (Quadro 5).

Quadro 5. Quinta ideia central referente ao papel da monitoria no processo de formação dos estudantes, representados pela ideia central: “Desenvolvimento profissional”.

IDEIA CENTRAL

DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO - EXPRESSÃO CHAVE

“Desenvolvimento profissional”

“A monitoria me permite revisar os conteúdos, compartilhar conhecimentos e auxiliar outros alunos na teoria e na prática. Preciso estudar mais, aprender a explicar e orientar outras pessoas, o que contribui para desenvolver minha comunicação, autonomia, liderança e tomada de decisões. Essa experiência também me prepara para a prática profissional, tanto na assistência quanto na docência, e me ajuda a lidar com diferentes pessoas e situações.”

Fonte: Dados da pesquisa.

Os discursos mostram que a monitoria transcende a simples revisão de conteúdos, pois abrange o aprimoramento da comunicação, da autonomia, da tomada de decisões e da habilidade de compartilhar conhecimentos, competências essenciais para a futura carreira profissional. Essa dimensão formativa também é apontada por Fernandes et al. (2020), que, em um relato de experiência de monitoria em Enfermagem, destacam o olhar mais crítico e técnico sobre a profissão e a aproximação com a prática docente.

A sexta ideia central, presente nos discursos de discentes e egressos, refere-se à motivação para seguir a carreira da docência, representado pela ideia central “Motivação para a docência” (Quadro 6).

Quadro 6. Sexta ideia central referente à motivação para seguir a carreira da docência, representado pela ideia central: “Motivação para a docência”.

IDEIA CENTRAL

DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO - EXPRESSÃO CHAVE

“Motivação para a docência”

“A monitoria pode despertar ou fortalecer meu interesse pela docência, pois me permite compartilhar conhecimentos, tirar dúvidas e vivenciar a experiência de ensinar. Ao perceber que posso contribuir para a aprendizagem dos alunos, sinto-me incentivado a considerar a carreira acadêmica. Essa experiência também me ajuda a desenvolver mais segurança para ensinar e a perceber se realmente quero seguir esse caminho.”

Fonte: Dados da pesquisa.

A experiência da monitoria pode levar o discente e o egresso a considerar a docência como uma possibilidade profissional, ao proporcionar oportunidades de ensinar, compartilhar conhecimentos e contribuir para a aprendizagem de outros alunos. O contato com essas atividades permite desenvolver maior segurança para ensinar e refletir sobre a identificação com a carreira acadêmica. Nesse sentido, a monitoria também favorece a formação acadêmica e profissional, ao possibilitar a construção de saberes e a aproximação com as responsabilidades da prática docente (Dantas, 2014; Trindade et al., 2022).

A experiência como monitor da disciplina de Psicomotricidade reforçou, por meio dos discursos, a importância da monitoria como experiência de aprendizagem e desenvolvimento durante e após a graduação. Nesse sentido, a monitoria acadêmica contribui para o processo de ensino e aprendizagem, favorecendo a construção de conhecimentos, o desenvolvimento de habilidades para a atuação profissional e a aproximação dos estudantes com a prática docente (Alves et al., 2022; Souza e Oliveira, 2023; Trindade et al., 2022).

4. CONCLUSÃO

O estudo permitiu analisar a percepção de discentes e egressos sobre a monitoria em Psicomotricidade como ferramenta de aprendizado na formação em Fisioterapia, evidenciando que essa experiência proporciona o aprofundamento dos conhecimentos teóricos e práticos e fortalece a articulação entre os conteúdos estudados e sua aplicação profissional. Os relatos demonstraram contribuições para o desenvolvimento de competências gerais e específicas, com destaque para a comunicação e para a avaliação e o raciocínio clínico, e, de forma pontual, para a autonomia, a tomada de decisões, o pensamento crítico, o planejamento de intervenções e a segurança no ambiente prático. Os participantes também reconheceram que o raciocínio clínico continuou sendo aprimorado após a monitoria, por meio de outras disciplinas, estágios e experiências profissionais.

Ademais, a experiência de ensinar e partilhar conhecimentos fomentou reflexões acerca da prática de ensino, além de estimular ou intensificar o interesse dos participantes pela carreira acadêmica. Portanto, compreende-se que a monitoria pode servir como uma estratégia adicional significativa na Fisioterapia, capaz de ampliar as chances de aprendizado e promover o crescimento acadêmico e profissional completo dos alunos, com impactos que vão além do período de graduação.

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1 Graduanda do Curso Superior de Fisioterapia da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas - UNCISAL, Campus Governador Lamenha Filho. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-2818-6716

2 Mestre em Ensino da Saúde pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (FAMED - UFAL). Docente do Curso Superior da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas - UNCISAL, Campus Governador Lamenha Filho. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7983-7350