MINICONTO, VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: REVISÃO SOBRE GÊNEROS BREVES, ORALIDADE E SOCIOLINGUÍSTICA EDUCACIONAL

FLASH FICTION, LINGUISTIC VARIATION, AND PORTUGUESE LANGUAGE TEACHING: A REVIEW OF SHORT GENRES, ORALITY, AND EDUCATIONAL SOCIOLINGUISTICS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784734086

RESUMO
A linguagem contemporânea exige a reinvenção do ensino de língua materna diante de gêneros sintéticos. Este estudo analisa as potencialidades do miniconto como mediador pedagógico, investigando como sua concisão exige a ativação de múltiplas vozes sociais para formar leitores letrados. Como metas específicas, mapeia conceitos bakhtinianos, investiga a condensação de gírias e propõe caminhos contra o preconceito linguístico. Diante disso, questiona: como a brevidade estética do miniconto tensiona e mobiliza o dialogismo e a heteroglossia em sala de aula, atuando como ferramenta para o ensino de variação linguística e oralidade na perspectiva do Círculo de Bakhtin? Adota metodologia bibliográfica sobre metalinguística dialógica e sociolinguística. Revela que a brevidade atrai registros vernáculos, fraturando o monologismo institucional.
Palavras-chave: Miniconto; Dialogismo; Heteroglossia; Sociolinguística educacional.

ABSTRACT
Contemporary language requires the reinvention of mother tongue teaching in the face of synthetic genres. This study analyzes the potential of the flash fiction genre (miniconto) as a pedagogical mediator, investigating how its conciseness demands the activation of multiple social voices to form literate readers. As specific goals, it maps Bakhtinian concepts, investigates the condensation of slang, and proposes ways to combat linguistic prejudice. Given this, it questions: how does the aesthetic brevity of flash fiction tension and mobilize dialogism and heteroglossia in the classroom, acting as a tool for teaching linguistic variation and orality from the perspective of the Bakhtin Circle? It adopts a bibliographic methodology on dialogic metalinguistics and sociolinguistics. It reveals that brevity attracts vernacular registers, fracturing institutional monologism. 
Keywords: Flash fiction; Dialogism; Heteroglossia; Educational sociolinguistics.

1. INTRODUÇÃO

A materialidade da linguagem manifesta-se na dinâmica da atividade humana por meio de enunciados que refletem as condições socioeconômicas e as relações de produção de cada época histórica. Bakhtin (2016) postula que a língua se realiza mediante enunciados concretos e únicos, proferidos por integrantes de esferas da atividade humana, os quais conservam um caráter socio-histórico determinado pelas forças materiais que os circundam. A constituição desses enunciados não ocorre em um vácuo formal, visto que Barbosa e di Fanti (2020) situam a formulação ideológica do Círculo de Bakhtin, Volóchinov e Medviédev dentro de uma infraestrutura que condiciona as superestruturas discursivas, vinculando a produção de sentido diretamente às formas de intercâmbio social

A interação social constitui o solo em que a linguagem se estratifica e adquire significação econômica, uma vez que as trocas verbais reproduzem as divisões da estrutura social. Bakhtin (2016) postula que o signo funciona como arena da luta de classes, de sorte que a palavra não pertence a um falante isolado, mas reflete o embate entre as forças centrípetas de unificação e as forças centrífugas de dispersão que operam no mercado de bens simbólicos. Esse fenômeno ganha contornos materiais na medida em que Silva e Bovo (2020) situam a dialogicidade e a heterogeneidade como propriedades imanentes às práticas de produção discursiva, as quais se acham atreladas às formas históricas de organização do trabalho e da comunicação. A circulação do discurso pressupõe, portanto, que cada enunciado se apropria de palavras alheias carregadas de valorações anteriores, submetendo-as a uma reacentuação dialética que atende às demandas do contexto imediato de enunciação.

Nessa perspectiva, Silva (2023) examina como a mobilização de repertórios em exames nacionais expressa o conflito entre a memória discursiva dos candidatos e os critérios institucionais de correção, revelando o controle que o aparelho escolar exerce sobre a polifonia textual. A heteroglossia emerge desse modo como a coexistência de linguagens sociais que se interiluminam e se confrontam no tecido do texto, desfazendo o mito da homogeneidade linguística e expondo as contradições materiais que cindem o corpo social. Promover a fricção entre sistemas linguísticos distintos nas instâncias de circulação da mercadoria discursiva desvela como as forças de mercado tentam regular a diversidade do dizer.

A produção estética da brevidade expressa-se na literatura por meio de formas que condensam as contradições sociais e as pressões mercantis sobre o tempo de recepção do objeto artístico. Vieira (2015) situa a gênese dessa manifestação no desenvolvimento das forças de circulação da imprensa e nas transformações do público, os quais demandaram formatos capazes de operar nos intervalos da jornada de trabalho. A arquitetônica desse arranjo textual não se reduz à subtração de termos, visto que Rodrigues e de Souza (2013) assinalam a existência de uma força concentrada na narrativa que expande os sentidos por meio da elipse, de modo que a seleção verbal passa a carregar o conflito de classes sem a necessidade de descrições extensas. A redução da estrutura narrativa à sua ossatura expõe as fraturas da comunicação, na medida em que a palavra adquire valor de troca baseado na capacidade de evocar repertórios e contextos semânticos compartilhados.

Diante do exposto, verifica-se que a dinâmica da linguagem em ambientes escolares demanda investigações que considerem a fricção entre as formas canônicas de ensino e as manifestações linguísticas periféricas imersas na microestrutura literária, fazendo com que se torne premente questionar como o microuniverso ficcional desestabiliza padrões tradicionais e evoca a polifonia latente nas interações sociais cotidianas. Essa necessidade de problematização conduz ao núcleo central das discussões contemporâneas sobre o letramento crítico e a desconstrução do preconceito que invisibiliza as variantes vernáculas dos educandos. Desse modo, a presente pesquisa emerge do fluxo de debates teóricos sobre as possibilidades de emancipação discursiva operadas no âmbito curricular da educação básica, culminando na postulação da seguinte questão norteadora: Como a brevidade estética do miniconto tensiona e mobiliza o dialogismo e a heteroglossia em sala de aula, atuando como ferramenta para o ensino de variação linguística e oralidade na perspectiva do Círculo de Bakhtin?

O delineamento do percurso investigativo impõe o estabelecimento de um escopo analítico que oriente as ações propostas e ordene a reflexão crítica acerca da prática pedagógica voltada ao letramento literário e linguístico. A consecução dessa meta vincula-se à superação de abordagens instrumentais que convertem o texto em pretexto para a categorização gramatical estática e descontextualizada. Com o intuito de responder satisfatoriamente à problemática que emerge das tensões ideológicas constituintes do corpo social e das esferas institucionais, formula-se como objetivo geral deste estudo: Analisar as potencialidades discursivas do gênero miniconto como mediador pedagógico no ensino de Língua Portuguesa, investigando como sua concisão formal exige a ativação de múltiplas vozes sociais (heteroglossia) e marcas de oralidade para a formação de leitores criticamente letrados.

A operacionalização do escopo analítico desdobra-se em metas específicas que garantem o rigor metodológico e a progressão lógica necessários para a sustentação das teses defendidas ao longo do trabalho. Essas etapas interconectam-se para esquadrinhar as dimensões epistemológicas, estéticas e didáticas que constituem o fenômeno discursivo examinado nas instâncias educacionais. Para tanto, estabelecem-se os seguintes objetivos específicos: Mapear e conceituar as noções de enunciado, gênero do discurso, dialogismo e heteroglossia na teoria bakhtiniana, articulando-as com o debate contemporâneo da sociolinguística educacional no Brasil; Investigar o funcionamento discursivo do miniconto, demonstrando como a sua microestrutura estética condensa marcas de oralidade, gírias e variações linguísticas em permanente embate com a norma-padrão; Propor caminhos analítico-pedagógicos que orientem o professor de Língua Portuguesa a utilizar o miniconto para desconstruir o preconceito linguístico, estimulando o aluno a perceber os índices sociais e ideológicos presentes nas vozes textuais.

O procedimento metodológico que orienta esta pesquisa ancora-se nos pressupostos da análise dialógica do discurso desenvolvida pelo Círculo de Bakhtin, configurando um estudo de natureza qualitativa e cunho interpretativista voltado para a transposição didática no ensino de língua materna. O instrumental de intervenção constitui-se por meio da elaboração de uma sequência didática organizada de forma modular, cujo referencial apoia-se no modelo de engenharia curricular do interacionismo sociodiscursivo. O corpus de análise linguística e semiótica integra textos do cenário literário brasileiro contemporâneo que operam na estética da concisão e suportes multimodais da hipermídia digital. A avaliação do percurso formativo realiza-se mediante a aplicação de uma grelha de constatações estruturada em eixos discursivos, a qual funciona como ferramenta de regulação e autoavaliação para aferir o desenvolvimento das capacidades de linguagem, a apropriação da autoria e a percepção crítica dos educandos frente às assimetrias linguísticas e aos mecanismos de estigmatização social.

A relevância desta investigação justifica-se pela urgência de superação do monologismo pedagógico que historicamente orienta as práticas de ensino de Língua Portuguesa, perpetuando o preconceito linguístico e silenciando as variedades vernáculas das classes subalternizadas. A opção pelo gênero miniconto revela-se estratégica no cenário contemporâneo, visto que sua microestrutura estética condensa contradições históricas e impõe ao estudante um esforço inferencial que mobiliza letramentos críticos e multimodais adequados à era da hipermídia. No plano teórico, o estudo oferece contribuições ao promover a fricção produtiva entre a metalinguística bakhtiniana e as diretrizes da sociolinguística educacional brasileira. No âmbito prático, a pesquisa fornece aos docentes um instrumental metodológico sistemático que retira o texto da condição de mero pretexto gramatical, posicionando-o como enunciado concreto e arena de lutas simbólicas em que o estudante se reconhece como sujeito legítimo do dizer na esfera pública.

2. O CÍRCULO DE BAKHTIN E A SOCIOLINGUÍSTICA EDUCACIONAL: ENCONTROS TEÓRICOS

2.1. O Enunciado Concreto e os Gêneros do Discurso: A Concepção de Linguagem Enquanto Interação Social e a Dinâmica de Estabilidade e Mudança nos Gêneros Textuais

A materialidade da linguagem manifesta-se na dinâmica da atividade humana por meio de enunciados que refletem as condições socioeconômicas e as relações de produção de cada época histórica. Bakhtin (2016) postula que a língua se realiza mediante enunciados concretos e únicos, proferidos por integrantes de esferas da atividade humana, os quais conservam um caráter socio-histórico determinado pelas forças materiais que os circundam. A constituição desses enunciados não ocorre em um vácuo formal, visto que Barbosa e di Fanti (2020) situam a formulação ideológica do Círculo de Bakhtin, Volóchinov e Medviédev dentro de uma infraestrutura que condiciona as superestruturas discursivas, vinculando a produção de sentido diretamente às formas de intercâmbio social.

O exame dessa arquitetura linguística exige compreender que as esferas de comunicação humana geram tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais configuram os gêneros do discurso, operando como instâncias de mediação entre a consciência individual e a realidade coletiva. Rodrigues (2004) assevera que o gênero não se reduz a um modelo formal abstrato ou a uma estrutura gramatical cristalizada, mas funciona como uma correlação de forças discursivas em que a alteridade e a dialogicidade determinam a arquitetura interna do dizer. Essa dinâmica pressupõe que cada enunciado se vincula a uma cadeia de comunicação verbal, respondendo a manifestações anteriores e antecipando reações posteriores, o que subverte a concepção de um emissor isolado ou de uma mensagem estática.

Sob a ótica da economia política do discurso, Ferreira, Mesquita e Ragi (2021) constatam que mesmo o gênero do resumo acadêmico reproduz as coerções materiais de circulação do saber institucionalizado, corporificando as tensões entre a padronização demandada pela produção científica contemporânea e a singularidade do ato enunciativo. A estabilidade dos gêneros reside na reiteração de certas condições de produção, esferas de circulação e propósitos comunicativos, elementos que delimitam o horizonte temático, o estilo e a construção composicional das manifestações verbais.

Compreender a transição entre a regularidade institucional e a mutabilidade discursiva requer o exame de como as transformações nos modos de produção reverberam nas práticas de linguagem. Ribeiro (2010) argumenta que o funcionamento dos gêneros do discurso acompanha as mutações das relações sociais, operando reajustes estruturais que refletem as contradições e as clivagens das forças hegemônicas. O fenômeno da hibridização e da plasticidade dos gêneros manifesta-se à medida que novas demandas de circulação mercantil e tecnológica exigem a reconfiguração dos suportes e das formas de interação.

Diante disso, Pereira, da Silveira e de Souza Ostetto (2016) escrutinam os processos de hibridização discursiva, demonstrando como os gêneros assimilam enunciados de esferas distintas para responder às mutações da comunicação social, gerando subgêneros que operam na fronteira entre a tradição formal e a inovação estilística. Essa reconfiguração dialética elucida por que a estabilidade de um gênero nunca se confunde com a imobilidade, expressando-se como uma regularidade sob constante tensão histórica. Lara e Mendonça (2020) problematizam a introdução de novos arranjos semióticos, como o meme, em espaços formais de ensino, evidenciando que a transposição de gêneros esvazia ou ressignifica a carga ideológica original desses enunciados de acordo com os imperativos da esfera que os acolhe. A apreensão do gênero linguístico afasta-se, desse modo, de taxonomias classificatórias que buscam aprisionar a linguagem em esquemas fixos. Cassettari (2012) distingue o tipo textual, enquanto constructo teórico-sequencial, do gênero do discurso, cuja definição repousa sobre a práxis social e sobre as condições históricas de enunciação. As modificações nas práticas comunicativas decorrem das contradições materiais que forçam a linguagem a se adaptar, a incorporar novas tecnologias de inscrição e a redefinir os papéis dos sujeitos na divisão social do trabalho discursivo.

Mediante o tensionamento entre a norma institucionalizada e a vivência concreta dos sujeitos, a dinâmica da linguagem se realiza como um campo de lutas simbólicas determinado pela infraestrutura socioeconômica. Lima, Nascimento, Ostermann e de Holanda Cavalcanti (2019) sustentam que a teoria do enunciado concreto e a metalinguística bakhtiniana fornecem bases filosóficas para desvelar as mediações ideológicas nas ciências e na educação, contrapondo-se ao idealismo abstrato que isola o signo da sua base material de produção. A articulação entre a estrutura interna da língua e os determinantes externos conduz ao reconhecimento de que a própria gramática se acha submetida às injunções do contexto enunciativo.

Rauber (2011) correlaciona a organização gramatical ao enunciado concreto, apontando que as categorias formais adquirem sentido real unicamente quando mobilizadas na interação social e orientadas para o preenchimento de uma função discursiva. Essa visão afasta a neutralidade dos sistemas de signos e posiciona os gêneros como ferramentas de ação e de reprodução ideológica. Na esfera pedagógica, Barbosa (2001) propõe o trabalho com gêneros sob uma perspectiva enunciativa para o ensino de língua, explicitando que a apropriação dessas formas linguísticas pelos educandos se vincula à inserção destes nas instâncias de poder e de manifestação cidadã. As formas de exclusão e de inclusão discursiva reproduzem as assimetrias das classes sociais, uma vez que o domínio dos gêneros de prestígio atua como um capital cultural regulado pelo mercado.

Pereira e Rodrigues (2010) aprofundam essa dimensão ao analisar os gêneros sob a perspectiva da análise dialógica do discurso do Círculo de Bakhtin, reforçando que o sentido se produz no entremeio das relações sociais e na confrontação de vozes dispersas no tecido histórico. No âmbito das acessibilidades e das traduções institucionais, Nascimento (2017) examina as janelas de Libras e os gêneros do discurso para delinear as especificidades materiais da atuação de tradutores de língua de sinais, corroborando que a tradução constitui um ato de enunciação concreto atravessado por restrições técnicas, políticas e sociais. A conclusão desse processo analítico desvela que o gênero textual constitui uma categoria histórica, cuja estabilidade aparente encobre um vir-a-ser permanente ditado pelas transformações materiais da sociedade.

2.2. Dialogismo e Heteroglossia: O Conceito de Vozes Sociais em Permanente Embate e a Presença da Diversidade Linguística no Tecido do Texto

A Interação social constitui o solo em que a linguagem se estratifica e adquire significação econômica, uma vez que as trocas verbais reproduzem as divisões da estrutura social. Bakhtin (2016) postula que o signo funciona como arena da luta de classes, de sorte que a palavra não pertence a um falante isolado, mas reflete o embate entre as forças centrípetas de unificação e as forças centrífugas de dispersão que operam no mercado de bens simbólicos. Esse fenômeno ganha contornos materiais na medida em que Silva e Bovo (2020) situam a dialogicidade e a heterogeneidade como propriedades imanentes às práticas de produção discursiva, as quais se acham atreladas às formas históricas de organização do trabalho e da comunicação.

Longe de configurar um sistema abstrato de formas gramaticais idênticas, a língua se manifesta em uma pluralidade de vozes socio-ideológicas que disputam a hegemonia na superestrutura. Polato, Beloti e Menegassi (2020) sustentam que o ensino de língua, ao ignorar essa fricção interna, tende a reproduzir o monologismo estatal que recalca as variantes linguísticas das classes subalternas em favor de uma norma padrão vinculada aos interesses das elites econômicas. A circulação do discurso pressupõe, portanto, que cada enunciado se apropria de palavras alheias carregadas de valorações anteriores, submetendo-as a uma reacentuação dialética que atende às demandas do contexto imediato de enunciação.

Nessa perspectiva, Silva (2023) examina como a mobilização de repertórios em exames nacionais expressa o conflito entre a memória discursiva dos candidatos e os critérios institucionais de correção, revelando o controle que o aparelho escolar exerce sobre a polifonia textual. A heteroglossia emerge desse modo como a coexistência de linguagens sociais que se interiluminam e se confrontam no tecido do texto, desfazendo o mito da homogeneidade linguística e expondo as contradições materiais que cindem o corpo social.

Promover a fricção entre sistemas linguísticos distintos nas instâncias de circulação da mercadoria discursiva desvela como as forças de mercado tentam regular a diversidade do dizer. Rocha e Maciel (2015) argumentam que as práticas translíngues no ensino rompem com o isolamento formalista das gramáticas nacionais, de modo que o multilinguismo passa a agir como contrapartida discursiva à divisão internacional do trabalho, a qual impõe línguas de prestígio para a gestão global do capital. O fluxo migratório e o deslocamento de comunidades inteiras exacerbam esse tensionamento nas fronteiras geopolíticas. Uchôa, Magalhães Bambirra, Deitos, Barroso e Andrade (2024) investigam as dinâmicas de multilinguismo e migração de povos indígenas por meio de produções audiovisuais, demonstrando que a preservação da memória e a resistência cultural utilizam a heteroglossia como instrumento de demarcação ideológica diante da expansão do mercado de terras e saberes.

A incorporação dessas linguagens no espaço hegemônico não se dá sem choques, visto que a infraestrutura impõe canais de recepção que moldam o estilo e a recepção das vozes marginais. Polato e Jung (2019) associam o estilo verbal ao lugar que o indivíduo ocupa nas relações de produção, explicitando que os letramentos não constituem habilidades neutras, mas formas de inserção social mediadas pelo acesso aos meios de produção discursiva. Essa assimetria material determina quais vozes encontram canais de difusão e quais sofrem processos de silenciamento ou de folclorização pelo circuito cultural burguês. Diante do consumo e da reprodutibilidade técnica, dos Anjos (2026) mapeia a heteroglossia em âmbitos esportivos tradicionalmente associados ao gênero masculino, evidenciando como a irrupção do discurso feminino fratura os jargões corporativos e reconfigura o campo de visibilidade das atletas frente aos patrocinadores e à mídia de massa.

Ancorada nas transformações técnicas dos suportes de inscrição e nas mutações do capital cultural, a arquitetura dos textos contemporâneos acentua o caráter fragmentado e plurilíngue da enunciação. Santaella (2014) conceitua os gêneros discursivos híbridos na era da hipermídia a partir da convergência de linguagens digitais, processo que acelera a circulação mercantil de signos e tensiona a estabilidade das formas clássicas de comunicação ao misturar códigos textuais, visuais e sonoros no mesmo suporte. Essa hibridização intensifica a fricção ideológica no interior dos discursos, transformando o texto em uma malha de vozes cruzadas que respondem a estímulos de esferas econômicas concorrentes.

Cocco e Caimi (2025) avaliam esse fenômeno no interior da radiodifusão comunitária, sinalizando que a heteroglossia atua como propulsora de sentidos locais que desafiam os oligopólios de comunicação e fraturam o discurso unificado das redes comerciais. A disputa pela hegemonia do sentido reflete-se na própria literatura, onde a ficção se apropria das linguagens sociais para mimetizar as contradições da realidade histórica. Valentini, Jankoski e Muniz-Oliveira (2026) interpretam as enunciações femininas em narrativas literárias sob a ótica do dialogismo bakhtiniano, revelando como as personagens articulam discursos de resistência contra a dominação patriarcal e a opressão de classe que as reduzem a mercadorias. A apreensão dessas dinâmicas discursivas impede que a linguagem seja tratada como um dado neutro, reconduzindo-a à sua condição de práxis social e campo de batalha ideológico onde a heteroglossia desestabiliza permanentemente as tentativas de fixação autoritária do sentido.

3. A ESTÉTICA DA BREVIDADE: ORALIDADE, VARIAÇÃO E CENTRIFUGAÇÃO NO MINICONTO

3.1. Arquitetônica do Miniconto: Características Formais do Gênero Breve e o Peso Ideológico da Palavra Selecionada em Contextos de Extrema Concisão

Produção estética da brevidade expressa-se na literatura por meio de formas que condensam as contradições sociais e as pressões mercantis sobre o tempo de recepção do objeto artístico. Vieira (2015) situa a gênese dessa manifestação no desenvolvimento das forças de circulação da imprensa e nas transformações do público, os quais demandaram formatos capazes de operar nos intervalos da jornada de trabalho.

A arquitetônica desse arranjo textual não se reduz à subtração de termos, visto que Rodrigues e de Souza (2013) assinalam a existência de uma força concentrada na narrativa que expande os sentidos por meio da elipse, de modo que a seleção verbal passa a carregar o conflito de classes sem a necessidade de descrições extensas. A redução da estrutura narrativa à sua ossatura expõe as fraturas da comunicação, na medida em que a palavra adquire valor de troca baseado na capacidade de evocar repertórios e contextos semânticos compartilhados. Köche, Köche e Marinello (2014) postulam que a recepção desse tipo de texto exige do leitor uma atividade de preenchimento de lacunas que vincula a interpretação às condições socio-históricas de produção do enunciado.Esse processo de produção de sentido evidencia que a concisão extrema oblitera a neutralidade do signo, forçando o escritor a mobilizar vocábulos cujo peso ideológico responda às expectativas e aos limites da esfera cultural em que o texto circula, sob pena de esvaziamento do efeito estético.

Materializar narrativas no espaço de restrição física das redes exige a reconfiguração dos suportes materiais de inscrição e o rearranjo das linguagens que compõem o artefato literário. De Azevedo, dos Santos Nascimento e dos Santos Oliveira (2016) investigam como a autoria se constitui a partir da fusão entre imagem e verbalidade na elaboração de enunciados sintéticos, processo que submete a criação literária aos formatos de exposição do eu regulados pelas plataformas de comunicação da internet. Essa hibridização de códigos altera a dinâmica de circulação da mercadoria artística, uma vez que o texto passa a disputar a atenção do usuário com estímulos visuais e publicitários que mimetizam a velocidade do circuito do capital.

Roza e de Araújo Menezes (2019) discutem a elaboração de objetos de aprendizagem focados na transição do receptor para a condição de produtor, demonstrando que a manipulação de elementos multimodais expõe os mecanismos de controle técnico exercidos pelas ferramentas digitais sobre a escrita. A convergência entre mídias e a brevidade do texto não representam escolhas puramente formais, mas respostas à fragmentação da atenção gerada pela divisão do trabalho e pelo consumo de massa. Adriano, Kraemer e Capelin (2025) sustentam que a prática de análise linguística orientada para esses suportes deve descodificar as camadas semióticas que operam nos ambientes digitais, revelando como a aceleração técnica altera as formas de interação social e exige novos multiletramentos para a apreensão das assimetrias ideológicas incrustadas nas franjas do discurso.

Mediante a incorporação dessas formas condensadas nos aparelhos de reprodução ideológica da sociedade, a circulação institucional do gênero passa a regular o acesso aos bens linguísticos e à produção cultural. De Oliveira (2025) constata que a introdução dessas narrativas em ambiente escolar funciona como disparador de dinâmicas de recepção e produção verbal que contornam os limites de tempo impostos pelas grades curriculares da educação formal. O aproveitamento pedagógico do formato busca responder ao esvaziamento das práticas de leitura tradicionais, mas corre o risco de subordinar a experiência estética à lógica da eficácia imediata e do rendimento técnico.

De Sousa, Azevedo, Gouvêa e Azevedo (2025) avaliam que o formato se constitui como proposta de leitura capaz de mobilizar a subjetividade do estudante, inserindo o sujeito nas redes de troca simbólica a partir da valorização da palavra em sua dimensão expressiva. Esse agenciamento do dizer reproduz as clivagens da estrutura social, na medida em que a capacidade de síntese e o domínio da alusão pressupõem capitais culturais distribuídos de maneira desigual entre as classes. Dos Santos (2018) desenvolve essa premissa ao examinar o gênero enquanto prática social discursiva na formação universitária, explicitando que a apropriação dessas estruturas textuais permite o tensionamento das vozes sociais que habitam o horizonte ideológico dos produtores. Saddi (2015) correlaciona a mutação da subjetividade contemporânea à transição do romance para o relato mínimo, denunciando que o declínio das formas narrativas amplas acompanha a precarização das relações humanas e a aceleração dos ciclos de reprodução social sob o império da mercadoria.

3.2. As Marcas da Oralidade e a Força Centrífuga da Linguagem: Como o Miniconto Mimetiza a Fala Cotidiana, as Gírias Urbanas e as Variedades Vernáculas

Estruturação linguística das manifestações literárias breves reflete a incorporação de registros vernáculos como expressão das contradições de classe que cindem a totalidade social. Vieira (2015) situa a configuração do relato mínimo na fricção entre a herança literária e as demandas de circulação de um mercado cultural que absorve as mutações do espaço citadino, convertendo a urgência das ruas em matéria estética. A apreensão dessa linguagem urbana afasta-se de um mimetismo passivo ou de uma mera transcrição fonética, visto que Rodrigues e de Souza (2013) compreendem a brevidade narrativa como um arranjo de forças ideológicas em que a elipse e a concisão potencializam as marcas da oralidade, transformando o vocabulário das periferias em centro de gravidade da narrativa. Esse processo de absorção estilística das gírias e dos falares cotidianos constitui o vetor centrífugo que fratura a pretensa homogeneidade da norma culta, inserindo no tecido ficcional as vozes subalternizadas que disputam a hegemonia no interior da superestrutura. Sob a ótica do controle dos meios de difusão da escrita, Köche, Köche e Marinello (2014) postulam que a legibilidade dessas formas breves depende da competência discursiva dos sujeitos, os quais decodificam as marcas do cotidiano com base em vivências compartilhadas nas esferas de produção e consumo. A palavra selecionada atua, desse modo, como síntese de conflitos históricos concretos, destituída de neutralidade e carregada de valorações que denunciam a divisão social do trabalho e a exclusão linguística institucionalizada.

Capturar a volatilidade da fala nas redes digitais demanda o exame de como os suportes tecnológicos medeiam a manifestação de variantes estigmatizadas e a hibridização de códigos. De Azevedo, dos Santos Nascimento e dos Santos Oliveira (2016) investigam a autoria em enunciados multimodais contemporâneos, evidenciando que a convergência entre imagem e oralidade escrita nos ambientes virtuais altera a percepção do eu e submete a expressividade popular aos ditames técnicos das corporações de tecnologia. A circulação do miniconto nessas plataformas acelera a mercantilização da linguagem, de sorte que a reprodução do ritmo cotidiano passa a disputar espaço com a publicidade e com os fluxos do capital financeiro que moldam o tempo de fruição. Roza e de Araújo Menezes (2019) discutem as ferramentas pedagógicas voltadas à criação textual multimodal, demonstrando que a manipulação de linguagens híbridas expõe os limites impostos pelos formatos digitais sobre a escrita dos estudantes. Essa compressão do espaço enunciativo força o surgimento de soluções estilísticas que simulam a agilidade da conversação, transformando o texto literário em uma simulação das interações urbanas. Adriano, Kraemer e Capelin (2025) sustentam que a análise semiótica dessas narrativas mediadas por telas deve decifrar as marcas do plurilinguismo e as manifestações do vernáculo, revelando de que maneira as mutações na infraestrutura de comunicação forçam a emergência de multiletramentos capazes de ler as tensões ideológicas que habitam os suportes digitais.

Ancorada na apropriação dessas produções pelos aparelhos de reprodução cultural da sociedade, a legitimação do gênero breve nas esferas de ensino confronta as tentativas de domesticação burguesa da diversidade linguística. De Oliveira (2025) constata que a presença do relato mínimo nas salas de aula funciona como mecanismo de atração de leitores, embora a inserção institucional corra o risco de esvaziar a virulência política das gírias ao submetê-las a avaliações utilitaristas de desempenho gramatical. O uso da linguagem viva das ruas nas esferas institucionais coloca em xeque o monologismo pedagógico, posto que de Sousa, Azevedo, Gouvêa e Azevedo (2025) interpretam a atividade com esses textos como via para a inserção dos discentes na condição de sujeitos do dizer a partir do reconhecimento de suas próprias variedades vernáculas. Essa inserção discursiva não ocorre em terreno pacificado, haja vista que as assimetrias no domínio do capital cultural determinam quais usos da fala são admitidos como inovação artística e quais permanecem relegados à marginalidade socioeconômica. Dos Santos (2018) aprofunda esse debate ao enfocar a produção do miniconto enquanto prática social no ambiente universitário, asseverando que a manipulação dessas formas breves permite confrontar as vozes sociais que ecoam no horizonte ideológico dos educandos. A redução das fronteiras entre o erudito e o popular constitui uma categoria histórica, na medida em que Saddi (2015) associa o recuo das formas extensas e a fragmentação do relato à precarização dos laços comunitários e à subordinação da experiência humana à velocidade do consumo de mercadorias.

4. O MINICONTO EM SALA DE AULA: PRÁTICAS DIALÓGICAS DE LEITURA E ESCRITA

4.1. Fundamentação Teórica da Sequência Didática: O Miniconto Como Arena de Enunciação

A transposição pedagógica do miniconto para o espaço da sala de aula exige um arcabouço teórico-metodológico capaz de superar visões meramente formalistas e prescritivas do ensino de língua materna. Na perspectiva da análise dialógica do discurso pautada no Círculo de Bakhtin (2016) , o miniconto não se resume a um formato narrativo reduzido, mas configura-se como um enunciado concreto, indissociável de suas condições de produção, circulação e recepção. Como assevera Rodrigues (2004), o gênero textual funciona como uma correlação de forças discursivas em que a alteridade e a dialogicidade determinam a arquitetura interna do dizer, conectando a consciência individual às instâncias sociais e coletivas. No contexto escolar, o miniconto emerge como um mediador estético privilegiado, cuja extrema concisão mobiliza de forma acentuada a heteroglossia, que é a coexistência de múltiplas vozes sociais que disputam sentidos e revelam as contradições do tecido histórico.

Para estruturar didaticamente essa prática de letramento emancipador, adota-se o modelo de sequência didática (SD) proposto por pesquisadores do Interacionismo Sociodiscursivo da Escola de Genebra, como Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004). Definida como um conjunto sistemático de atividades escolares organizadas em torno de um gênero textual oral ou escrito, a sequência didática visa preparar os educandos para dominar a língua em situações comunicativas complexas e reais. Ao articular esse modelo ao gênero miniconto, estimula-se uma relação voluntária e consciente do estudante com o seu próprio comportamento linguístico.

4.2. Arquitetura e Engenharia Metodológica da Sequência Didática

A engenharia curricular desta sequência didática estrutura-se em quatro fases essenciais que guiam o discente desde o contato inicial com a situação de comunicação até a materialização de seu texto de autoria. O planejamento pedagógico foi desenhado especificamente para turmas de Ensino Médio, etapa em que os multiletramentos e a reflexão crítica sobre a variação linguística se tornam imperativos para a formação cidadã, conforme os parâmetros da Base Nacional Comum Curricular.

O quadro 1, a seguir, apresenta a arquitetura detalhada da proposta, especificando as ações do professor, as atividades dos estudantes e as bases teóricas mobilizadas em cada etapa.

Quadro 1. Detalhamento da arquitetura

Etapa Temporal

Ações do Professor

Atividades dos Estudantes

Justificativa Teórico-Metodológica

1. Apresentação da Situação

Definição do projeto comunicativo: criação de uma antologia multimodal intitulada "Vozes de Nossa Terra" ; delimitação do suporte de publicação (mural digital/redes sociais).

Análise da proposta de trabalho, identificação dos interlocutores virtuais e mapeamento do gênero miniconto em suportes contemporâneos.

O gênero deve ser introduzido em sua esfera social real de circulação, evitando tarefas artificiais sem propósito comunicativo.

2. Produção Inicial

Apresentação de um disparador temático baseado em fotos do cotidiano urbano ou diálogos breves ouvidos na comunidade escolar.

Escrita livre de um primeiro miniconto (máximo de 150 caracteres) expressando um conflito ou cena cotidiana.

Avaliação diagnóstica formativa; mapeamento das dificuldades de concisão, estruturação narrativa e manejo de variantes sociais.

3. Módulos Didáticos (1 a 3)

Mediação de oficinas sistemáticas de leitura, análise semiótica, estilística e reflexão sociolinguística.

Leitura crítica de autores de referência, exercícios de retextualização, transcrição de fala, debates sobre estigma e preconceito.

A instrumentalização sistemática permite ao aluno sanar as lacunas identificadas na produção inicial.

4. Produção Final

Coordenação de oficinas de revisão textual por pares e edição multimodal usando ferramentas digitais.

Reescrita qualificada do texto inicial, seleção de imagens ou selfies integradas ao miniconto e publicação no mural.

Mobilização integral dos saberes construídos e apropriação ativa da autoria no circuito de bens simbólicos.

Fonte: elaborado pelo autor (2026).

Essa organização modular visa desconstruir a concepção idealizada de que a escrita literária é um dom inato, posicionando-a como o resultado de um processo social contínuo, consciente e reflexivo, marcado pelo trabalho de linguagem.

4.3. Detalhamento Prático e Execução dos Módulos Didáticos

Os três módulos didáticos seguintes constituem a engrenagem central da sequência didática. Cada módulo é planejado para interconectar as práticas de leitura, análise linguística e escrita literária de forma dialógica e integrada, conforme as orientações de Marcuschi (2002) e Antunes (2009).

O primeiro módulo tem como objetivo instrumentalizar os discentes para que compreendam a arquitetônica interna do gênero breve, diferenciando o miniconto de outros tipos de textos sintéticos. O foco central repousa sobre a elipse sintática e a seleção verbal precisa como vetores que potencializam a projeção de sentidos.

Para exemplificar esse funcionamento formal, o professor propõe a leitura e análise de minicontos do escritor Dalton Trevisan (1994) , notório pelo uso de frases nominais, diálogos velozes e ausência de adjetivação descritiva. A análise linguística pauta-se na elipse (Bechara, citado em Estudeprisma, 2026) , demonstrando como a omissão intencional do verbo de elocução (ex.: "gritou ela", "respondeu ele") nos diálogos agiliza a leitura e intensifica o conflito dramático.

A atividade prática consiste na "Oficina do Redutor". Os estudantes recebem crônicas ou pequenos contos tradicionais e são desafiados a realizar sucessivos cortes de informação, reduzindo-os a uma única linha narrativa que mantenha o conflito e o movimento. Essa atividade demonstra na prática como a compressão textual elimina a neutralidade do signo, forçando o escritor a selecionar palavras com alto peso ideológico e evocativo para sustentar o efeito estético planejado.

O segundo módulo avança para o exame do plano discursivo, explorando como a microestrutura estética do miniconto mimetiza a fala cotidiana, as gírias urbanas e as variedades vernáculas. A referência literária é a antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (2004), organizada por Marcelino Freire. O estudo linguístico debruça-se sobre a estruturação de contrastes e conflitos em poucas palavras. Analisa-se o papel sintático da conjunção adversativa "mas", elemento que instaura oposições semânticas brutais em frases mínimas, como no texto: "A mala é bem grande, mas não sei se cabem as pernas".

A atividade desenvolvida é a "Retranscrição Urbana". Os estudantes realizam pesquisas de campo (ouvindo conversas descontraídas nos corredores da escola ou no transporte público) e selecionam marcas de oralidade típicas, tais como reduções fonéticas, interjeições e vocábulos coloquiais. Em seguida, criam minicontos estruturados inteiramente sobre essas falas cotidianas, percebendo como a inserção dessas vozes subalternas rompe com o monologismo da escrita escolar tradicional e confere veracidade estética às narrativas contemporâneas.

O terceiro módulo promove a articulação direta entre a criação literária e a sociolinguística educacional, tendo como meta a desconstrução do preconceito linguístico e a valorização das variedades de menor prestígio. Ancorado nas contribuições teóricas de Marcos Bagno (1999, 2007) e de Carlos Alberto Faraco (2008) , discute-se como os diferentes falares são condicionados por fatores diatópicos (geográficos), diastráticos (sociais) e diafásicos (situacionais).

Para disparar a reflexão, o professor utiliza a leitura do poema "Aula de Português" de Carlos Drummond de Andrade. Os estudantes analisam o trecho que opõe o "português de dicionário" do Professor Carlos Góis à "língua de namoro com a prima", associada à vivência concreta. Realiza-se, então, o debate: "Quem tem o direito de ditar a norma de escrita na literatura?". Os discentes são convidados a identificar em minicontos contemporâneos como o preconceito linguístico e o estigma social se materializam em situações de assimetria de poder (por exemplo, na relação de trabalho ou no ambiente corporativo).

A atividade desse módulo envolve o "Jogo da Adequação Situacional". Os alunos reescrevem diálogos excessivamente formais e engessados usando registros informais de gírias juvenis ou falares locais. Essa prática demonstra que o domínio linguístico eficaz não reside na submissão cega a regras gramaticais estáticas, mas sim na habilidade de selecionar a variedade mais adequada para cada esfera comunicativa.

4.4. Multimodalidade e Hibridização Semiótica

No atual ecossistema da hipermídia, a leitura e a escrita não se limitam mais aos signos alfabéticos. Conforme postula Santaella (2014) , os gêneros discursivos digitais são marcados pelo hibridismo semiótico, misturando som, imagem e palavra no mesmo suporte de circulação. Assim, a sequência didática incorpora oficinas de composição multimodal, orientando o estudante a unir a escrita minimalista à linguagem visual.

O quadro 2 apresenta as principais distinções conceituais e estruturais que os estudantes devem dominar para realizar a transição bem-sucedida do texto tradicional para a composição multimodal.

Quadro 2. Categorias de análise

Categoria Analítica

Texto Literário Tradicional (Conto Longo/Romance)

Miniconto Alfabético Estrito

Miniconto Multimodal / Digital

Extensão e Suporte

Páginas impressas extensas; exige tempo de leitura contínuo e prolongado.

Curtíssimo (máximo de 150 caracteres); circula em livros ou plataformas digitais.

Ultra-sintético, associado a suportes digitais, telas móveis e redes sociais.

Construção do Sentido

Sentido construído progressivamente através de descrições ricas e sequenciamento temporal.

Sentido construído pela elipse, exigindo alta cooperação inferencial do leitor.

Sentido gerado pela intersecção mútua entre imagem e texto escrito (verbovocovisual).

Função da Imagem

Geralmente ilustrativa ou secundária; não altera a espinha dorsal do enredo escrito.

Ausente; toda a carga sugestiva repousa sobre a palavra selecionada no papel.

Constitutiva do sentido; a imagem não ilustra a história, mas revela o que a palavra esconde.

Interação do Leitor

Leitor passivo ou imerso na narrativa conduzida detalhadamente pelo autor.

Leitor atua preenchendo as lacunas e elipses verbais do enredo minimalista.

Leitor realiza leituras não lineares, compartilhando, recriando e interagindo com o autor.

Fonte: elaborado pelo autor (2026).

De Azevedo, dos Santos Nascimento e dos Santos Oliveira (2016) destacam que o uso de selfies e fotografias pessoais na composição de minicontos multimodais permite a reconfiguração dos processos de autoria de jovens estudantes. Na prática pedagógica desenvolvida por Roza e de Araújo Menezes (2019) , a manipulação técnica de softwares de edição e plataformas de publicação digital capacita o estudante a compreender como os formatos algorítmicos controlam e moldam a escrita social.

A união entre o meme e o miniconto literário serve de ponte para que estudantes com dificuldades de leitura crítica compreendam as entrelinhas e a intertextualidade presentes nos discursos cotidianos.

4.5. Produção Final, Critérios de Avaliação e Grelha de Constatações

A etapa da Produção Final constitui o momento em que os estudantes mobilizam todos os saberes desenvolvidos ao longo dos módulos para reescrever de forma qualificada a sua primeira produção textual. Essa reescrita não deve ser vista como uma correção punitiva de erros gramaticais, mas sim como um ato de polimento estilístico e de tomada de posição ideológica consciente no interior do gênero.

Para orientar a reescrita coletiva e a avaliação formativa, propõe-se a aplicação de uma "Grelha de Constatações", instrumento defendido por Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004) que permite ao aluno realizar a autorregulação do seu próprio texto e avaliar de forma crítica o trabalho de seus pares. O quadro 3 apresenta a Grelha de Constatações adaptada para o gênero miniconto multimodal com foco sociolinguístico.

Quadro 3. Grelha de Constatações

Eixos de Avaliação

Critérios de Análise e Autoavaliação

Indicadores de Adequação Discursiva e Linguística

1. Adequação ao Gênero

O texto apresenta brevidade e narratividade mínima concentrada?

O miniconto não ultrapassa o limite de caracteres estipulado e contém um conflito implícito.

2. Eficácia Estética e Elipse

O texto evita excessos descritivos, valendo-se do poder de sugestão?

Utilização intencional de elipses de verbos ou termos facilmente deduzíveis pelo contexto.

3. Heteroglossia e Oralidade

O miniconto incorpora as marcas de oralidade de forma intencional e sem preconceito?

Presença de marcas linguísticas cotidianas, gírias ou falares vernáculos na constituição dos personagens.

4. Adequação Sociolinguística

A variação linguística escolhida está adequada à situação comunicativa retratada?

Há coerência entre o perfil do personagem e a variante linguística (diastrática ou diatópica) por ele empregada.

5. Integração Multimodal

Há interdependência significativa entre a imagem selecionada e o texto escrito?

A imagem acrescenta informações à narrativa, evitando a mera ilustração repetitiva da escrita.

6. Adequação Gramatical Contextualizada

O uso da pontuação, concordância e conectivos colabora para a expressividade?

A pontuação simula a entonação da fala cotidiana e a conjunção adversativa acentua o conflito.

Fonte: elaborado pelo autor (2026).

A aplicação sistemática dessa grelha garante que o estudante perceba o erro de escrita não como um fracasso, mas como um indício do processo de desenvolvimento de suas capacidades linguísticas e discursivas. Após a revisão amparada por esses critérios, os minicontos multimodais são publicados no mural digital coletivo, inserindo de forma real os educandos na esfera pública de circulação da literatura digital e promovendo um ambiente escolar acolhedor e democrático de valorização da diversidade social.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O percurso da investigação permitiu equacionar o núcleo do problema que motivou a realização do trabalho, a saber, o modo como a concisão na arquitetura do miniconto tensiona e mobiliza o dialogismo e a heteroglossia no espaço da sala de aula, constituindo um meio para o tratamento da variação no idioma e da oralidade sob a perspectiva do Círculo de Bakhtin. Alcançou-se o propósito de examinar a potência desse gênero como mediador nas instâncias do ensino do idioma, demonstrando-se que a redução na extensão do texto não oblitera a complexidade da linguagem, mas exige a emersão de vozes e de marcas da fala que rompem com a hegemonia de padrões da tradição. A resposta à questão que norteou a pesquisa manifesta-se na constatação de que a brevidade atua como um fator de adensamento nas relações de sentido, obrigando o leitor e o produtor a operar no entrecruzamento de discursos que revelam divisões na estrutura da sociedade. A meta de mapear as noções de enunciado, de gênero do discurso, de dialogismo e de heteroglossia encontrou fundamentação no exame da realidade das salas de aula, preenchendo a lacuna entre a abstração dos conceitos e a materialidade das interações no cotidiano da escola.

O confronto com as forças que tentam unificar o idioma revelou que o miniconto, em sua economia de termos, funciona como uma arena em que gírias e variantes da fala das periferias adquirem o estatuto de arte, forçando a desconstrução do preconceito que marginaliza sujeitos em razão de seus falares. Dessa maneira, preencheram-se os propósitos de oferecer caminhos na docência para subverter a reprodução de visões que aprisionam a linguagem em esquemas sem mutação e em classificações sem vínculo com a vida da comunidade, consolidando a passagem de uma postura de repetição de regras para uma ação de partilha e de compreensão das contradições que cruzam o tecido da história, de modo que o estudante se perceba como sujeito da enunciação em meio aos embates que se travam no mercado de bens e de signos que regulam a existência das classes na divisão do trabalho. Essa arquitetura de pensamento consolida a necessidade de encarar as manifestações verbais como produtos de interações na sociedade, distantes de idealismos que apartam o signo de sua base de produção e de sua vinculação com as forças do trabalho.

No plano das constatações que emanam da análise da proposta, sobressai a compreensão de que a microestrutura do miniconto opera por meio de elipses que potencializam a atividade de quem lê, transformando o preenchimento de lacunas em um exercício de apreensão das tensões do mundo. Os achados revelam que o gênero funciona como um polo de atração para a linguagem das ruas e para o vernáculo das cidades, o que descentraliza o eixo do prestígio que historicamente recai sobre formas de rigidez na escrita.

A incorporação da oralidade e das gírias no suporte do texto da literatura não se deu como decalque, mas como estilização que confere densidade ao enredo e põe em evidência as clivagens da economia que condicionam a produção da fala. Verificou-se também que o cruzamento do texto com imagens e suportes do ambiente da internet reconfigura a autoria, permitindo que a juventude traga para o espaço da escola a totalidade de suas vivências e de seus modos de comunicação sem que isso signifique o esvaziamento do rigor na reflexão sobre a linguagem.

A convergência de códigos na tela atua como instrumento de desestabilização do monologismo, uma vez que a palavra e a imagem se interiluminam e passam a exigir multiletramentos para a decodificação de sentidos que transitam na velocidade do circuito de mercadorias da sociedade do presente, permitindo ao estudante o domínio de ferramentas para decifrar as entrelinhas e a intertextualidade que habitam os discursos que cercam as relações de poder no cotidiano.

Ademais, a aplicação da dinâmica de acompanhamento e de avaliação entre pares por meio de critérios com foco no discurso evidenciou que os desvios na escrita deixam de figurar como fracasso e passam a agir como indícios de um percurso de apropriação de competências na linguagem, promovendo a democratização do espaço de ensino e a superação de barreiras que apartam a cultura que vem da tradição dos saberes que nascem da experiência dos sujeitos nas bordas do sistema. Com efeito, o cerne do trabalho com a brevidade textual reside na capacidade de desvelar como as forças de unificação atuam para tentar fixar sentidos, enquanto a heteroglossia injeta vida e movimento nas aulas, subvertendo a ordem imposta pelo fechamento das instituições.

No que tange às contribuições do estudo, a articulação promovida entre a metalinguística do Círculo de Bakhtin e as demandas da sociolinguística no campo do ensino oferece um ganho para a reflexão sobre a docência. No plano da teoria, a investigação confere sustentação à tese de que o gênero não se reduz a um formato de confinamento de regras, mas se estabelece como uma dinâmica de forças da história em que a alteridade e a dialogicidade presidem a arquitetura do dizer. No campo da prática, a elaboração da sequência de ensino estruturada em módulos e amparada em uma grelha de verificação fornece aos professores um instrumental de intervenção que retira o ensino do idioma do isolamento das análises de frase e o reconduz para o terreno da enunciação em sua materialidade.

A proposição do projeto de criação de uma antologia com imagens e textos permite que a escola cumpra o papel de mediação entre a vivência do aluno e a esfera de circulação de bens da cultura, transformando o ato de escrita em uma tomada de posição na política e na ideologia contra a exclusão. Esse movimento viabiliza a superação do modelo de reprodução de conteúdos e instaura uma ética do acolhimento das vozes que grupos de poder buscam silenciar nos espaços da instituição, garantindo que o letramento se efetive como prática de liberdade e de afirmação de identidades na arena da linguagem.

Abre-se, por conseguinte, um horizonte de superação do preconceito que estigmatiza os falares das classes do povo, conferindo dignidade às manifestações que brotam das interações do cotidiano e redefinindo os critérios de avaliação na escola, de modo a contemplar a adequação aos contextos de comunicação em detrimento da cobrança sem sentido por submissão a preceitos de gramáticas que ignoram a dinâmica da vida. Desse modo, a pesquisa deixa um legado para as práticas de letramento, demonstrando que a criatividade e a capacidade de reflexão caminham em união quando se confere voz aos sujeitos que vivenciam a linguagem em sua plenitude.

Por fim, impõe-se o reconhecimento dos limites que circundam o alcance deste trabalho, bem como a indicação de horizontes para investigações que se sucederem no tempo. A pesquisa concentrou o foco na aplicação do gênero miniconto em turmas da etapa final da escola, o que deixa em aberto a necessidade de testar a eficácia da proposta em outras fases da escolarização, como os ciclos iniciais do ensino ou a educação de jovens e de adultos, esferas que guardam especificidades nas formas de inserção dos sujeitos na estrutura da sociedade. Outra restrição residiu no tempo de execução da sequência de ensino, cuja extensão em espaço reduzido de tempo por causa de escassez de cronograma pode não ter esgotado o potencial de aprofundamento das discussões sobre a divisão de classes impressa nos falares das cidades.

Diante dessas balizas, os caminhos para o porvir da pesquisa apontam para a urgência de investigações com amplitude de tempo que acompanhem o desenvolvimento dos letramentos dos estudantes em ambientes de telas sob o império dos algoritmos que ordenam a circulação de discursos. Sugere-se também o exame do impacto da formação de professores sob o prisma da análise do diálogo, investigando como os docentes se apropriam de gêneros da brevidade para desestabilizar o monologismo nos manuais de ensino e nas políticas de avaliação do Estado. O encerramento deste ciclo não significa o esvaziamento do debate, mas o acendimento de um estopim para que estudos no tempo que virá continuem a interrogar a linguagem como arena de lutas e de emancipação do homem, adensando a compreensão sobre as formas de resistência no discurso que sujeitos da periferia mobilizam ao reinventar os suportes de inscrição da palavra no tecido da cultura de nossa época. Assim, encerra-se este relato com a certeza de que a semente lançada nas reflexões sobre a brevidade e o diálogo continuará a produzir frutos nas trincheiras do ensino de língua, funcionando como espaço de insurgência contra o silenciamento.

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1 Discente do Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT) no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO), Campus Porto Velho Calama. Graduado em Gestão Pública e licenciado em Letras – Língua Portuguesa. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Licenciada em Letras Português/Inglês e Respectivas Literaturas (UNESC). Pedagogia (UniCV). Cursa Mestrado em Linguística (UNEMAT). Desenvolve pesquisas nas áreas de Estudos da Linguagem, Análise de Discurso Materialista, Educação e Cultura, sob orientação dos professores Dr. José Ricardo Menacho (UNEMAT) e Dr. Sérgio Nunes de Jesus (IFRO, campus Cacoal). Bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal em Nível Superior (CAPES, 04/2025-03/2027), Processo nº 88887.161977/2025-00. Professora estatutária na Secretaria de Estado da Educação de Rondônia (SEDUC). Lattes:  http://lattes.cnpq.br/8896749747512296. Orcid: https://orcid.org/0009-0001-0247-0562. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Licenciatura em Ciências com Habilitação em Química - IFRO. Mestre em Ensino de Ciências Exatas pela universidade do vale do Taquari-Univates. Doutorando em Ensino de Ciências pela Universidade do Vale do Taquari, Exatas Univates. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0009-0006-9955-6202

4 Licenciada em Matemática pela Fundação universidade do Tocantins. Mestranda em Ensino de Ciências Exatas pela universidade do vale do Taquari. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail