REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779222961
RESUMO
O presente estudo é fruto da intervenção psicossocial intitulada “Meu Plano de Carreira”, realizada em quatro encontros, no ano de 2023, em um Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA), localizado em Fortaleza/CE. A experiência foi desenvolvida como projeto vinculado à disciplina Técnicas de Intervenção Psicossocial, do curso de Psicologia da Universidade Christus. O manuscrito configura-se como um relato de experiência, de abordagem qualitativa, com delineamento descritivo e exploratório. Trata-se de um aporte metodológico de natureza narrativa e reflexiva, voltado à análise de vivências construídas em contexto prático. A coleta de dados ocorreu por meio de observação sistemática e registros em diários de campo elaborados pelas estudantes de Psicologia, posteriormente organizados e interpretados a partir da análise temática. O objetivo da intervenção foi auxiliar os estudantes na construção de seus planos de carreira, favorecendo a identificação de metas, desafios, habilidades e possibilidades de desenvolvimento acadêmico e profissional. O projeto foi estruturado em quatro etapas: demanda, pré-análise, definição de foco e enquadramento, e planejamento flexível. Os resultados indicaram que a territorialização e a escuta inicial das demandas foram fundamentais para compreender o contexto do CEJA, suas vulnerabilidades e necessidades. As oficinas, iniciadas com dinâmica de quebra-gelo, favoreceram a aproximação entre participantes e interventores, criando um espaço de confiança, acolhimento e partilha de trajetórias pessoais, escolares e profissionais. Conclui-se que a intervenção possibilitou reflexões coletivas sobre estudo, trabalho e plano de carreira, evidenciando a potência do manejo psicossocial na promoção da reflexão crítica, da construção coletiva de conhecimento e de práticas inclusivas.
Palavras-chave: Intervenção psicossocial; Plano de carreira; Educação de Jovens e Adultos; Orientação profissional; Projeto de vida.
ABSTRACT
This study is the result of a psychosocial intervention entitled “My Career Plan”, carried out in four meetings in 2023 at a Youth and Adult Education Center (CEJA), located in Fortaleza, Ceará, Brazil. The experience was developed as a project linked to the course Psychosocial Intervention Techniques, in the Psychology undergraduate program at Universidade Christus. The manuscript is characterized as an experience report, with a qualitative approach and a descriptive and exploratory design. It is a methodological contribution of a narrative and reflective nature, aimed at analyzing experiences constructed in a practical context. Data collection was carried out through systematic observation and records in field diaries prepared by Psychology students, which were later organized and interpreted through thematic analysis. The objective of the intervention was to assist students in developing their career plans, favoring the identification of goals, challenges, skills, and possibilities for academic and professional development. The project was structured into four stages: demand, pre-analysis, definition of focus and framing, and flexible planning. The results indicated that territorialization and the initial listening to demands were fundamental to understanding the CEJA context, its vulnerabilities, and its needs. The workshops, which began with an icebreaker dynamic, fostered closeness between participants and facilitators, creating a space of trust, acceptance, and sharing of personal, educational, and professional trajectories. It is concluded that the intervention enabled collective reflections on education, work, and career planning, highlighting the potential of psychosocial management in promoting critical reflection, the collective construction of knowledge, and inclusive practices.
Keywords: Psychosocial intervention; Career plan; Youth and Adult Education; Career guidance; Life project.
1. INTRODUÇÃO
Este manuscrito teve como objetivo descrever e analisar uma experiência de intervenção psicossocial desenvolvida em um Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA), tendo como eixo temático o plano de carreira e a orientação profissional. A experiência foi realizada por estudantes do curso de graduação em Psicologia da Universidade Christus, no âmbito da disciplina Técnicas de Intervenção Psicossocial. As atividades ocorreram no CEJA Professor Gilmar Maia de Sousa, localizado no Centro, Fortaleza/CE, por meio de quatro encontros realizados nos meses de abril, maio e junho de 2023.
A disciplina supracitada tem como finalidade discutir os aspectos teóricos, metodológicos, éticos e políticos da intervenção psicossocial, compreendida como um método que articula pesquisa e ação, com vistas à construção coletiva de conhecimentos e à transformação de realidades em grupos, organizações e instituições. Trata-se de uma prática fundamentada no diálogo, na escuta e na busca por mudanças possíveis nos contextos em que se insere (Neiva, 2023).
Nesse sentido, a intervenção psicossocial pressupõe a análise das necessidades, dos saberes e das condições concretas dos grupos envolvidos, valorizando a participação coletiva tanto dos profissionais intervenientes quanto dos sujeitos participantes. A análise das implicações, o reconhecimento das demandas institucionais e a construção de redes de colaboração constituem aspectos fundamentais para o êxito da intervenção (Machado, 2004).
Esse ponto assume especial relevância na formação de estudantes de Psicologia, uma vez que possibilita o contato com realidades sociais diversas e exige uma postura ética, crítica e situada. Conforme Guzzo (2005), é essencial que a formação em Psicologia considere a diversidade dos contextos sociais, de modo a preparar profissionais capazes de refletir criticamente sobre a realidade na qual atuam.
A atividade desenvolvida também se insere no campo da extensão universitária, no contexto da curricularização da extensão, em conformidade com a Resolução nº 7, de 18 de dezembro de 2018, do Ministério da Educação. Nessa perspectiva, a extensão não deve ser compreendida apenas como uma atividade complementar à formação acadêmica, mas como uma dimensão constitutiva da universidade, capaz de fortalecer sua função social. Ao possibilitar o diálogo entre conhecimento científico e comunidade, a extensão contribui para democratizar saberes, produzir reflexões críticas e construir ações voltadas à melhoria das condições de vida da população (Cristofoletti; Serafim, 2020).
No campo educacional, a atuação da Psicologia envolve a promoção de mudanças no contexto escolar por meio da escuta, da reflexão e da conscientização de estudantes, professores, famílias e demais membros da comunidade. Essa prática busca fortalecer os vínculos no ambiente escolar, identificar demandas e planejar ações que favoreçam o bem-estar coletivo. Desse modo, a Psicologia escolar articula duas dimensões principais: a promoção da saúde, voltada à construção de espaços educativos mais acolhedores, e a prevenção, direcionada à identificação precoce de dificuldades emocionais, relacionais e institucionais que possam interferir no processo educativo (Costa et al., 2019; Barbosa et al., 2025).
Para compreender a intervenção realizada, é necessário situar brevemente o contexto histórico e institucional do CEJA Professor Gilmar Maia de Sousa. A instituição foi construída no final da década de 1980 e integra a trajetória da educação de jovens e adultos no Ceará, tendo passado por diferentes projetos e denominações ao longo do tempo. Inicialmente, foi criada como Centro de Estudos Supletivos, por meio do Decreto nº 10.745, de 2 de abril de 1974, vinculado ao Departamento de Ensino Supletivo da Secretaria de Educação do Estado do Ceará - SEDUC (CEJA, 2023).
À época, o projeto de educação supletiva para adultos era supervisionado técnica e pedagogicamente pelo Ministério da Educação, com apoio da Secretaria de Educação do Estado. Inicialmente, funcionou na Rua José Vilar, em condições estruturais precárias, período em que ficou conhecido como “escola das mangueiras”, em razão da realização de atividades formativas à sombra de um mangueiral. Posteriormente, a escola foi transferida para a Avenida do Imperador, no Centro de Fortaleza, e, em 1976, passou a funcionar na Avenida Barão de Studart, em frente ao antigo Palácio do Governo (CEJA, 2023).
O Centro de Estudos Supletivos foi implantado em Fortaleza com base na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 5.692/1971, tendo como objetivo inicial qualificar a mão de obra para a indústria e suprir deficiências de aprendizagem nas escolas regulares. Em 1978, passou a se chamar Centro de Estudos Supletivos Professor Gilmar Maia de Sousa, em homenagem ao representante do MEC no Ceará. Com a promulgação da Lei nº 9.394/1996, a instituição passou a ser denominada Centro de Educação de Jovens e Adultos - CEJA Professor Gilmar Maia de Sousa (CEJA, 2023).
Atualmente, a instituição atende jovens e adultos que se encontram fora da faixa etária escolar regular e buscam concluir o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. Considerando que uma das principais motivações para a retomada ou conclusão dos estudos é a busca por melhores oportunidades de trabalho, tornou-se pertinente a construção de uma intervenção voltada à reflexão sobre projeto de vida, plano de carreira e possibilidades de inserção profissional. Assim, surgiu a proposta intitulada “Meu Projeto de Carreira”, cujo objetivo foi auxiliar os estudantes na elaboração de reflexões sobre suas trajetórias acadêmicas e profissionais, a partir da identificação de interesses, habilidades, metas e oportunidades de desenvolvimento.
A escolha da temática ocorreu após o processo de territorialização e identificação de demandas junto à instituição. Esse movimento permitiu compreender que os estudantes do CEJA, por vivenciarem trajetórias educacionais frequentemente marcadas por interrupções, retornos, responsabilidades familiares, trabalho precoce e desigualdades sociais, demandavam espaços de escuta e orientação que ultrapassassem uma perspectiva meramente informativa sobre profissões. Nesse sentido, pensar carreira nesse contexto exige considerar não apenas escolhas individuais, mas também os condicionantes sociais, econômicos e institucionais que atravessam as possibilidades de futuro desses sujeitos.
Segundo Figueiredo, Carvalho e Silveira (2026), o plano de carreira pode ser compreendido como um mapeamento estruturado das metas profissionais e dos caminhos necessários para o ingresso, a permanência e a evolução no mercado de trabalho, articulando-se também à capacitação profissional por meio dos estudos. As autoras apontam que, embora muitas pessoas reconheçam a importância do planejamento de carreira, uma parcela significativa ainda encontra dificuldades para construir esse plano, sobretudo em razão das barreiras presentes nas trajetórias profissionais.
Nesse sentido, o planejamento de carreira não se limita à escolha de uma profissão, mas envolve a análise das possibilidades de desenvolvimento, das competências necessárias e dos desafios impostos pelo contexto social e organizacional. No âmbito escolar, essa discussão torna-se ainda mais relevante, pois contribui para que os sujeitos compreendam melhor suas escolhas, reconheçam suas potencialidades, identifiquem oportunidades e construam estratégias mais conscientes para alcançar seus objetivos profissionais e acadêmicos.
Os encontros foram desenvolvidos por meio da técnica grupal denominada Oficina de Dinâmica de Grupo, compreendida como um dispositivo que favorece a circulação da palavra, a partilha de experiências e a identificação entre os participantes. Essa abordagem possibilita que os sujeitos reflitam coletivamente sobre suas vivências, produzindo sentidos acerca de suas trajetórias e das questões que atravessam suas escolhas (Afonso, 2002; 2011). Conforme Afonso (2002), a realização de uma oficina envolve quatro etapas de preparação: demanda, pré-análise, definição de foco e enquadramento, além de um planejamento flexível.
A demanda refere-se à incumbência atribuída ao profissional ou à equipe, permitindo a identificação das necessidades explícitas e implícitas do grupo. A pré-análise corresponde ao levantamento de dados e de aspectos relevantes relacionados à problemática a ser trabalhada. A definição de foco organiza o tema central da oficina, enquanto o enquadramento considera o número e o perfil dos participantes, o contexto institucional, o espaço físico, os recursos disponíveis e a quantidade de encontros planejados.
Ainda segundo a autora, o planejamento flexível permite que o coordenador se prepare para a ação, antecipando temas e estratégias, mas reconhecendo que cada encontro pode exigir reformulações a partir do movimento do próprio grupo. Assim, a oficina não se configura como grupo psicoterapêutico nem como atividade meramente pedagógica. Seu propósito é favorecer a elaboração coletiva de experiências e a análise das relações entre cultura, subjetividade e condições sociais concretas (Afonso, 2002; 2011).
Este estudo torna-se relevante por discutir as contribuições da intervenção psicossocial para estudantes da Educação de Jovens e Adultos, especialmente em realidades atravessadas por desigualdades sociais, interrupções escolares e dificuldades de planejamento profissional. Ao trabalhar plano de carreira e orientação profissional no CEJA, a proposta buscou construir um espaço de escuta, acolhimento e reflexão crítica sobre os projetos de vida dos estudantes, ao mesmo tempo em que contribuiu para uma formação ética, situada e socialmente comprometida dos acadêmicos de Psicologia.
Diante dessas delimitações, este estudo partiu da seguinte pergunta de pesquisa: como a intervenção psicossocial desenvolvida por acadêmicos de Psicologia pode contribuir para estudantes de um CEJA em Fortaleza/CE? O objetivo geral consiste em analisar as contribuições dessa intervenção para os estudantes do CEJA. De maneira específica, buscou-se identificar as principais demandas psicossociais apresentadas pelos estudantes, selecionar uma proposta de intervenção adequada às demandas identificadas e compreender as contribuições da ação desenvolvida junto ao grupo.
Dessa forma, a experiência aqui analisada pretende evidenciar a potência da intervenção psicossocial como estratégia formativa, crítica e situada, capaz de articular universidade, escola e comunidade na construção de espaços de escuta, reflexão e planejamento de futuros possíveis.
2. METODOLOGIA
Segundo Casarin e Porto (2021), o relato de experiência desempenha papel relevante na produção de conhecimento em diversas áreas, uma vez que possibilita a expressão escrita de vivências construídas em contextos práticos. Trata-se de um aporte metodológico de natureza descritiva, narrativa e reflexiva, que não envolve grupo controle e cujos dados são provenientes da prática cotidiana, acadêmica ou profissional.
A vivência descrita neste trabalho resultou de quatro encontros realizados durante o primeiro semestre de 2023, no CEJA Professor Gilmar Maia de Sousa, nos dias 10 de abril, 22 e 29 de maio e 05 de junho. A experiência contou com a participação de 10 alunos matriculados na disciplina de Técnicas de Intervenção Psicossocial, sob orientação da docente responsável, além de aproximadamente 10 estudantes do CEJA em cada dia de intervenção.
A coleta de dados foi realizada por meio de observação sistemática e registros em diários de campo elaborados pelas estudantes de Psicologia. É importante destacar que as oficinas não foram registradas em vídeo, de modo que as informações discutidas neste estudo foram construídas a partir das anotações produzidas ao longo da experiência.
Para a organização e interpretação do material, foi utilizada a análise temática (Rosa; Mackedanz, 2021), abordagem qualitativa que permite identificar sentidos recorrentes no conjunto de dados analisados. Após a leitura dos diários de campo, os registros foram organizados com o objetivo de reconhecer padrões de sentido relacionados ao desenvolvimento da intervenção, à participação dos estudantes, às demandas institucionais e às possibilidades de planejamento de carreira.
Esse processo possibilitou articular a vivência prática aos referenciais teóricos adotados, favorecendo uma leitura crítica das atividades desenvolvidas, dos desafios encontrados e das estratégias construídas ao longo da intervenção. A partir desse movimento analítico, foram construídas quatro categorias temáticas. Por se tratar de um relato de experiência, este trabalho não exigiu submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme previsto na Resolução nº 510/2016, aplicável às pesquisas em Ciências Humanas e Sociais (Brasil, 2016).
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Na sequência, são apresentadas as categorias de análise desenvolvidas a partir de cada encontro com a instituição: 3.1 Territorialização e identificação de demandas; 3.2 Sensibilização dos estudantes e divulgação da intervenção; 3.3 Escuta, acolhimento e construção de vínculos; e 3.4 Partilha de sonhos, projetos e possibilidades de carreira.
3.1. Territorialização e Identificação de Demandas
Segundo Neiva (2010; 2023), a intervenção psicossocial tem como objetivo contribuir para a melhoria da qualidade de vida e do bem-estar psicossocial dos sujeitos. Para isso, torna-se fundamental conhecer os fatores que interferem nesse bem-estar, uma vez que esse reconhecimento constitui um ponto-chave para a construção de práticas psicossociais mais eficazes. Desse modo, o mapeamento e a análise das necessidades do grupo-alvo são etapas essenciais para definir prioridades e delimitar o foco da intervenção. Antes de planejar qualquer ação, é necessário compreender a demanda apresentada pela instituição e pelos sujeitos envolvidos.
Segundo Musumeci et al. (2026), a territorialização no ambiente escolar consiste em compreender a escola não apenas como um espaço físico de ensino, mas como uma instituição inserida em um território vivo, atravessado por relações sociais, condições de vida, vínculos comunitários, desigualdades e formas de proteção ou desproteção social. Assim, a escola passa a ser pensada como parte de uma rede de intervenções psicossociais, políticas públicas e relações comunitárias, capaz de dialogar com os saberes, as demandas e as experiências dos sujeitos que a compõem. Essa perspectiva fortalece uma prática educativa mais democrática, contextualizada e socialmente comprometida, pois aproxima a ação escolar da realidade concreta dos estudantes e de suas comunidades.
A partir dessa compreensão, no dia 10 de abril, o grupo iniciou o contato com a instituição, com o objetivo de conhecer melhor o espaço, seus sujeitos e suas principais demandas. A partir do diálogo com o coordenador da escola e os representantes de turma, foram identificadas diferentes necessidades, como a permanência prolongada de alguns estudantes na instituição sem conseguirem concluir os estudos, a melhor convivência com pessoas com necessidades específicas, a evasão escolar e outros desafios presentes no cotidiano institucional. Após essa escuta inicial, o passo seguinte foi conhecer o espaço físico da escola e realizar uma observação atenta dos modos de funcionamento da instituição.
Também houve contato com professores e outros coordenadores, o que possibilitou ampliar a compreensão sobre a dinâmica escolar. Com as informações levantadas, o grupo retornou à sala de aula para planejar a ação e elaborar um plano de intervenção, ao longo do mês de maio, com base no referencial teórico estudado na disciplina. Definiu-se como público-alvo os estudantes do CEJA e, como tema central, a carreira profissional. A partir disso, foi construído o percurso da intervenção, considerando as etapas de Afonso (2002) demanda, pré-análise, definição de foco, enquadramento e planejamento flexível. Destaca-se, ainda, que a proposta foi previamente enviada ao coordenador da instituição para adequação e aprovação.
3.2. Sensibilização dos Estudantes e Divulgação da Intervenção
No dia 22 de maio, o grupo retornou à escola para estabelecer maior contato com os estudantes e divulgar a ação. A fase de sensibilização constitui uma etapa essencial da intervenção psicossocial, pois permite apresentar aos participantes os objetivos da proposta, explicar os motivos da ação e realizar o convite à participação. Não há intervenção psicossocial unilateral, uma vez que ela pressupõe a implicação da comunidade envolvida, cabendo ao interventor atuar como facilitador do processo, de modo a favorecer o alcance dos objetivos propostos (Vieira; Cordeiro, 2005).
Além disso, é importante destacar o caráter flexível do planejamento da intervenção. Após o primeiro e o segundo contato com a instituição, alguns ajustes foram realizados para que as atividades seguintes pudessem ocorrer de maneira mais adequada à realidade do grupo. Esse movimento evidenciou o caráter contínuo de avaliação das atividades, próprio das práticas psicossociais, que exigem abertura para reformulações a partir das demandas emergentes.
3.3. Escuta, Acolhimento e Construção de Vínculos
Os encontros foram realizados com base na proposta de Afonso (2010), que organiza a oficina em três momentos principais: preparação ou aquecimento, atividade de trabalho e sistematização. O primeiro momento envolve o uso de atividades e dinâmicas voltadas ao aquecimento dos participantes, à promoção da reflexão, à troca de experiências e à preparação para a tarefa grupal. O segundo momento corresponde à construção coletiva e participativa de um produto a partir da atividade proposta. Por fim, a sistematização consiste na organização das reflexões produzidas pelo grupo e na avaliação do encontro realizado.
No início da primeira oficina de dinâmica grupal, realizada no dia 29 de maio de 2023 com os estudantes do CEJA, foi desenvolvido um exercício com o propósito de promover a interação entre os participantes, que ainda não estavam familiarizados entre si. Essas atividades, conhecidas como dinâmicas de quebra-gelo, têm como objetivo introduzir temas específicos, dinamizar o grupo e reduzir a inibição inicial dos participantes (Ximenes et al., 2016). Na primeira oficina, os estudantes do CEJA reuniram-se em mesas dispostas no espaço central da escola e discutiram, por aproximadamente duas horas e meia, os temas do projeto “Meu Projeto de Carreira”, que envolvia reflexões sobre projeto de vida e orientação profissional.
A atividade contou com a mediação dos acadêmicos de Psicologia e da professora responsável. Nesse momento, foi possível conhecer parte das metas profissionais dos estudantes, bem como os desafios enfrentados por eles, desde o deslocamento até a escola até suas condições atuais de empregabilidade ou desemprego. Também foi possível identificar redes de apoio e dificuldades relacionadas ao cansaço físico, emocional e psicológico para permanecerem vinculados ao ambiente escolar, especialmente porque muitos estudantes conciliavam trabalho e estudo. A partir das atividades realizadas, observou-se, por meio dos discursos dos estudantes, uma mudança na forma como compreendiam o plano de carreira.
A interação entre os participantes e a discussão coletiva suscitaram novas alternativas e perspectivas sobre os caminhos possíveis após a conclusão dos estudos no CEJA. As falas evidenciaram diferentes expectativas, atravessadas por desigualdades sociais, econômicas e educacionais que influenciavam diretamente as escolhas de cada estudante. Alguns passaram a considerar a realização de cursos técnicos, especialmente aqueles que buscavam uma inserção mais rápida no mercado de trabalho em razão de necessidades financeiras e responsabilidades familiares. Outros, que relataram dispor de mais tempo para os estudos e possuir menos responsabilidades imediatas, afirmaram a possibilidade de adiar a entrada no mercado para investir no ingresso no ensino superior, de acordo com suas áreas de interesse e atuação.
No entanto, também foi possível perceber dificuldades na compreensão dos caminhos necessários para alcançar esses objetivos. Com a intervenção, os estudantes foram convidados a refletir sobre suas habilidades, dificuldades e possibilidades. Dessa forma, puderam pensar em profissões e campos de atuação que dialogassem com suas potencialidades, bem como nos desafios associados a essas escolhas. Também foi possível observar a construção de vínculos entre os estudantes e os interventores desde o primeiro dia de intervenção. Esse aspecto esteve relacionado tanto à utilização inicial de dinâmicas de quebra-gelo, que favoreceram a descontração e a aproximação do grupo, quanto à disponibilidade de escuta e acolhimento diante das histórias de vida compartilhadas pelos participantes.
3.4. Partilha de Sonhos, Projetos e Possibilidades de Carreira
Considerando as experiências decorrentes dos encontros, os acadêmicos de Psicologia, juntamente com a professora, discutiram estratégias para lidar com as demandas que surgiram ao longo da oficina. Tendo em vista o interesse dos estudantes em repensar suas carreiras e refletir sobre possibilidades de ingresso em universidades, cursos técnicos e mudanças no emprego atual, realizou-se, no dia 5 de junho de 2023, o último dia de intervenção, também com aproximadamente duas horas e meia de duração.
Nessa ocasião, foi dada continuidade ao preenchimento da cartilha do projeto, além da apresentação de alternativas que poderiam facilitar o planejamento de carreira dos participantes. Os estudantes foram convidados a analisar os desafios e as possibilidades para a concretização de seus planos, considerando seus sonhos de realização profissional e acadêmica. Nesse momento, foram utilizadas ferramentas que auxiliavam na busca por profissionalização de maneira mais prática e acessível.
Os interventores levaram para a oficina banners, cartilhas e folders com informações sobre formas de ingresso no ensino superior, incluindo programas como o Sistema de Seleção Unificada (SISU), o Programa Universidade para Todos (PROUNI) e o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES). Além disso, os acadêmicos de Psicologia apresentaram sugestões de instituições e espaços que oferecem cursos técnicos e capacitações profissionais.
Durante esse processo de compartilhamento de informações, os interventores organizaram-se em grupos com os estudantes do CEJA, de acordo com os interesses apresentados, a fim de esclarecer dúvidas e acolher seus anseios. Ao final da intervenção, foi possível observar que alguns estudantes saíram com maior clareza em relação às ações necessárias e aos caminhos possíveis para alcançar seus objetivos.
Parte dos participantes conseguiu estabelecer metas, identificar estratégias para enfrentar desafios e reconhecer etapas importantes para a construção de seus planos de carreira. Por fim, destaca-se como resultado positivo o fortalecimento da autonomia dos estudantes, que passaram a se perceber como sujeitos ativos na construção de suas trajetórias acadêmicas e profissionais. A intervenção também evidenciou a importância do CEJA como espaço de formação, acolhimento e reconstrução de projetos de vida, especialmente para jovens e adultos que buscam, por meio da educação, ampliar suas possibilidades de futuro.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A intervenção psicossocial desenvolvida no CEJA mostrou-se uma experiência significativa tanto para os estudantes participantes quanto para a equipe responsável pela condução das oficinas. As ações realizadas possibilitaram a construção coletiva de reflexões sobre estudo, trabalho, futuro e projeto de carreira, favorecendo um espaço de escuta, diálogo e acolhimento das diferentes trajetórias de vida presentes no grupo.
A experiência foi importante para promover a sensibilização e a conscientização sobre as possibilidades de continuidade dos estudos e de construção de caminhos profissionais. Muitos jovens e adultos que frequentam a Educação de Jovens e Adultos vivenciam ou vivenciaram situações de violência, negligência, interrupção escolar, trabalho precoce e vulnerabilidades sociais, fatores que podem desmotivar ou dificultar suas trajetórias acadêmicas e profissionais.
Nesse sentido, discutir plano de carreira nesse contexto exigiu uma escuta atenta às singularidades dos participantes e aos determinantes sociais que atravessam suas escolhas. A intervenção alcançou seu objetivo inicial ao construir e discutir, junto aos estudantes do CEJA, possibilidades de planejamento de carreira. Mais do que apresentar informações sobre profissões ou mercado de trabalho, as oficinas permitiram que os participantes refletissem sobre seus desejos, habilidades, dificuldades e projetos laborais, reconhecendo suas experiências como parte importante da construção de seus percursos futuros.
Também é importante reconhecer as limitações da experiência. Em razão da localização da escola e da realização das atividades no período noturno, alguns estudantes não conseguiram permanecer até o final das oficinas, especialmente em função dos riscos envolvidos no retorno para suas casas. Essa questão evidencia que a participação nas atividades escolares e formativas não depende apenas do interesse individual dos alunos, mas também das condições concretas de segurança, mobilidade e acesso ao território.
Diante disso, sugere-se que futuras intervenções ampliem o número de encontros e considerem, de forma ainda mais aprofundada, as dinâmicas sociais que atravessam a vida de jovens e adultos que estudam, trabalham e vivem em contextos de vulnerabilidade. A continuidade de ações dessa natureza pode fortalecer a função social da escola, ampliar espaços de escuta e contribuir para a construção de projetos de vida mais possíveis, conscientes e conectados à realidade dos estudantes.
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1 Graduando em psicologia pela Universidade Christus. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6549-4417.
2 Graduada em Psicologia pela Universidade Christus (2025) e pós-graduanda em Psicologia Existencial Humanista e Fenomenológica pela Faculdade de Venda Nova do Imigrante (FAVENI). E-mail:[clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4239-9630
3 Graduada em Psicologia pela Universidade Christus (2025), com especialização em Psicopedagogia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) (2025). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0002-0662-6218.
4 Graduada em Psicologia pela Universidade Christus (2024) e pós-graduanda em Psicologia Analítica pela mesma instituição. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-9167-587X.
5 Graduada em Psicologia pela Universidade Christus. (2023), pós-graduada em Teoria Cognitivo-Comportamental pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) (2025). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-0890-4310.
6 Graduada em Psicologia pela Universidade Christus (2023) e especialista pela Residência Multiprofissional em Área da Saúde, com ênfase em Oncohematologia, pelo HUWC/UFC (2026). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-3757-3926.
7 Graduado em Psicologia pela Universidade Christus (2023), com MBA em Saúde Coletiva pelo Centro Universitário Internacional (UNINTER) (2025). Pós-graduando em Educação a Distância e Docência no Ensino Superior pela UNIMINAS. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1446-5285.