REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777476137
RESUMO
Este artigo analisa as tensões entre o discurso poético e a materialidade histórica no contexto das águas em Mato Grosso. O estudo estabelece um nexo dialético entre a obra Águas de Encantação (2009), de Marli Walker, e a práxis política de mulheres atingidas pela UHE Sinop, residentes no Assentamento Wesley Manoel dos Santos. Investiga-se a técnica das arpilleras — linguagem de resistência consolidada pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) — como mediação entre a subjetividade e a realidade devastada pelo capital. A metodologia fundamenta-se no Materialismo Histórico-Dialético, adotando uma abordagem qualitativa que integra a análise bibliográfica e documental à observação participante e entrevistas semiestruturadas realizadas com as mulheres do território. A fundamentação teórica mobiliza autores como Alfredo Bosi e Antônio Candido para compreender a arte como forma de resistência ontológica e social frente à reificação da natureza. Os resultados demonstram que a enunciação hídrica transita da sensibilidade lírica à denúncia contra-hegemônica, revelando o "verbo" e o "ponto" como ferramentas de emancipação. Conclui-se que a linguagem da resistência reconverte a água, de mercadoria a território de vida e soberania.
Palavras-chave: Poesia; Arpilleras; Marli Walker; Águas; Discurso Poético; Linguagem da Resistência; MAB.
ABSTRACT
This article analyzes the tensions between poetic discourse and historical materiality in the context of water in Mato Grosso. The study establishes a dialectical link between the work Águas de Encantação (2009), by Marli Walker, and the political praxis of women affected by the Sinop Hydroelectric Plant, residing in the Wesley Manoel dos Santos Settlement. The technique of arpilleras—a language of resistance consolidated by the Movement of People Affected by Dams (MAB)—is investigated as a mediation between subjectivity and the reality devastated by capital. The methodology is based on Historical-Dialectical Materialism, adopting a qualitative approach that integrates bibliographic and documentary analysis with participant observation and semi-structured interviews conducted with women from the territory. The theoretical foundation mobilizes authors such as Alfredo Bosi and Antônio Candido to understand art as a form of ontological and social resistance against the reification of nature. The results demonstrate that water-related enunciation moves from lyrical sensibility to counter-hegemonic denunciation, revealing the "verb" and the "point" as tools of emancipation. It is concluded that the language of resistance reconverts water from a commodity to a territory of life and sovereignty.
Keywords: Poetry; Arpilleras; Marli Walker; Waters; Poetic Discourse; Language of Resistance; MAB.
1. INTRODUÇÃO
"Um poeta é sempre irmão do vento e da água: deixa seu ritmo por onde passa", escreveu Cecília Meireles (1964). Essa irmandade evoca uma condição onde o ritmo da natureza e o ritmo do verso se fundem, sugerindo que a água possui o poder de suspender a lógica linear e produtiva do capital para instaurar o tempo do devaneio. Contudo, na materialidade histórica de Mato Grosso, essa fluidez é interrompida. Vivemos em um território onde o recurso hídrico é o centro de uma disputa violenta entre o valor de uso (vida e reprodução camponesa) e o valor de troca (lucro e geração de energia). Com a construção de grandes empreendimentos, como a UHE Sinop, o rio deixa de ser o lugar do encontro para tornar-se um reservatório de energia-mercadoria, convertendo o "olhar a chuva" em um ato político de resistência.
O problema que norteia esta investigação reside na tensão entre a destruição dos territórios hídricos e a capacidade de subjetivação e resistência das comunidades atingidas através da linguagem. Pergunta-se: como a estética da poesia e a técnica das arpilleras podem atuar como instrumentos de denúncia e recomposição da memória frente à expropriação causada pelo barramento dos rios? A hipótese defendida é que a linguagem, ao transitar do "verbo" poético ao "ponto" do bordado, deixa de ser mera representação para se tornar práxis, permitindo que as mulheres atingidas enfrentem a "modernidade líquida" e a alienação imposta pelo capital.
A relevância deste estudo justifica-se pela necessidade de dar visibilidade às vozes silenciadas nos processos de licenciamento ambiental, unindo os campos da Literatura e da Educação do Campo sob a ótica do Materialismo Histórico-Dialético. Observa-se uma lacuna na literatura acadêmica que raramente estabelece pontes diretas entre a lírica contemporânea mato-grossense e as produções estéticas de movimentos sociais como o MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens).
O objetivo geral deste artigo é analisar como a obra Águas de Encantação, de Marli Walker, e as arpilleras das mulheres atingidas pela UHE Sinop constituem uma rede de sentidos contra-hegemônica. Como objetivos específicos, busca-se: a) identificar as inversões do símbolo da água na percepção das atingidas; b) discutir a função social da arte como ferramenta de resistência; e c) investigar o papel da linguagem na construção da identidade e soberania territorial.
Para dar conta da complexidade deste objeto, a pesquisa adota o Materialismo Histórico-Dialético como bússola teórica. A metodologia adotada é de natureza qualitativa e dialética, fundamentada em pesquisa bibliográfica e observação participante, contando com depoimentos de mulheres residentes no Assentamento Wesley Manoel dos Santos. Esta escolha justifica-se pela necessidade de compreender o fenômeno estético não como algo isolado, mas como uma produção humana ligada às condições materiais. A investigação utilizou a observação participante e entrevistas semiestruturadas com mulheres do Assentamento Wesley Manoel dos Santos.
No tratamento dos dados, aplicou-se a Análise de Conteúdo de Laurence Bardin (2011). Diante da complexidade que envolve o território e a subjetividade, este artigo organiza-se em três momentos fundamentais que propõem um mergulho profundo nas águas mato-grossenses. Inicialmente, no capítulo "A Ontologia da Água na Poesia de Marli Walker", exploramos a dimensão estética e a fenomenologia da imagem, estabelecendo como a lírica e as artes visuais constituem um refúgio para o devaneio. Em seguida, na seção "A Fluidez da Alma e a Reificação da Natureza", a discussão emerge para a superfície da materialidade histórica, onde confrontamos o "valor de uso" poético com o "valor de troca" imposto pelo capital e pela modernidade líquida. Por fim, em "Do Verbo ao Ponto", analisamos a culminância desse processo na práxis das arpilleras, onde o sofrimento é convertido em linguagem de resistência e a agulha torna-se o instrumento político de uma memória que se recusa a ser inundada. Ao navegar por estas páginas, busca-se compreender como a palavra e o ponto tecem, coletivamente, a rede de sentidos necessária para a emancipação humana e a defesa da vida.
2. A ONTOLOGIA DA ÁGUA NA POESIA DE MARLI WALKER: ENTRE O DEVANEIO E A FLUIDEZ DO SER
No livro Águas de Encantação nos perdemos em meio à intensidade de cada um dos cinquenta e quatro poemas que compõem a obra. É dividida em treze sessões que vão apresentando uma linda e intensa história de amor que vai trazendo questionamentos, que somente no íntimo de cada leitor vai sendo respondido, dependendo do inconsciente, dos sonhos e da interpretação de cada um. É interessante que cada sessão vem acompanhada de uma obra de arte lindamente pintada por Mari Bueno, uma artista plástica que conseguiu, por meio de suas telas, explicar o que a poesia deixou de falar e ao mesmo tempo a poesia evidencia o que a pintura queria expressar. Uma complementando a outra e fazendo com que a obra tenha um efeito encantador.
Essa simbiose entre a tela e o verso não é meramente ilustrativa; ela revela o que o Materialismo Histórico-Dialético compreende como a totalidade do fazer artístico. A cor da tinta de Mari Bueno e o peso da palavra de Marli Walker fundem-se para expressar uma realidade que a linguagem meramente denotativa (objetiva) não alcançaria. Aqui, a arte cumpre seu papel de mediação, permitindo que o leitor acesse camadas da subjetividade que o capital, em sua pressa produtivista, tenta soterrar.
A experiência da imagem, anterior à da palavra, vem enraizada no corpo. A imagem é afim à sensação visual. O ser vivo tem a partir do olho, as formas do sol, do mar, do céu. O perfil, a dimensão, a cor. A imagem é um modo da presença que tende a suprir o contacto direto e a manter, juntas, a realidade do objeto em si e a sua existência em nós. O ato de ver apanha não só a aparência da coisa, mas alguma relação entre nós e essa aparência: primeiro e fatal intervalo (Bosi, 1977, p. 13).
Apoiando-se nas ideias de Vygotski (1998), deve-se lembrar que o ser humano é constituído “pela linguagem e, por isso mesmo, constrói as suas imagens do mundo que o cerca, mediante, primeiramente, as sensações visuais que experienciou”. Muitas dessas sensações serão materializadas em imagens mentais a partir da linguagem, das palavras, que contribuirão com a fixação dessas imagens dentro de contextos sociais (Coutinho, 2020, p. 25). Imagens que estão guardadas em nosso íntimo, no nosso ser, imagens e imaginações que somente nossa mente experiencia e nosso corpo sente como se essas imagens já existissem em nosso inconsciente.
Essa constituição do sujeito via imagem e linguagem, proposta por Vygotski (1998), é central para entendermos a resistência camponesa. Se o mundo que cerca as mulheres do Teles Pires hoje é marcado pelo cinza do barramento, a arte de Marli e Mari Bueno oferece uma "reconstituição de mundo" através do azul e do verde das águas de encantação. É um processo de desalienação: o sujeito recupera a posse de suas sensações visuais e mentais, reconstruindo uma relação com a natureza que não seja mediada apenas pelo trauma da perda.
Como afirma Bosi (1977) a imagem é uma sensação visual, e, como tal, pode ser reconstruída pela linguagem verbal, pelo discurso social. A imagem, no poema, é constituída pela linguagem verbal que materializa a percepção do poeta, e como afirma Cândido (2006. p. 105), “É preciso possuir um senso apurado dos significados que a palavra pode ter”. Fica evidente que as imagens têm o poder de penetrar em nosso ser como as águas se infiltram por entre a terra seca, tornando-a fecunda.
É evidente que as imagens são parte fundamental da expressão humana, e é interessante pensar que todas as imagens que nossa mente produz partem de um conhecimento prévio, de uma experiência íntima, mas que não necessariamente precisam ter acontecido, muitas vezes nossos sonhos se encarregam de nos proporcionar essas imaginações como se elas fossem partes da nossa vivência. Uma saudade do que não foi vivido, um êxtase de possibilidades.
Bosi (1977, p. 15) diz que: “A imagem nunca é um “elemento”: tem um passado que a constituiu; e um presente que a mantém viva e que permite a sua recorrência”. Para ele: “A imagem terá áreas (centro, periferia, bordos), terá figura e fundo, terá dimensões: terá, enfim, um mínimo de contorno e coesão para subsistir em nossa mente”. Além das imagens encantadoras pintadas em tela pela Mari Bueno, que procuram explicar a imaginação poética, esse livro de Marli nos proporciona viajar por nossas próprias imagens mentais que vão se formando enquanto se desenrola os vários momentos, os mais emocionados acontecimentos.
Durante as sessões que organizam a obra de Marli somos levados a buscar compreender as cores, os traços, os mosaicos, as formas geométricas. Cada detalhe tem um sentido diferente, dependendo do inconsciente de cada leitor. As sessões seguem a seguinte sequência: Segredo, Florais, Boemia, Ventos Morenos, No Mais...(Tu Ficas!), Desenho, Era Outra Vez, Banho de Anjos, Sobre Amor e Saudade, Tempos de Adeus, Fendas, Sobre Tons. Em cada sessão há poemas e permeando seus versos pode-se encontrar muitas águas: “Mergulho no espelho d’água”, “Silêncio úmido”, “deságua em meu corpo molhado”, “Banho frio”, “jato quente das palavras”, “me lavando”, “brotos de orvalho”, “Rega os lírios com a essência que jorra da sua fonte”, “Afogar nossa loucura”, “Líquida quentura”, “Vinha orvalhada”, entre tantas outras expressões aguadas.
Esta abundância hídrica na obra funciona como uma "Ontologia das Águas". Em termos dialéticos, Marli Walker nos devolve a água como valor de uso, como elemento vital para o espírito e para o devaneio. A cada expressão aguada — como o "silêncio úmido" ou a "vinha orvalhada" — a poeta combate a secura da reificação. Onde o sistema quer instaurar o concreto e a rigidez da represa, a poética de Walker insiste na "líquida quentura" da vida. A água aqui não é apenas H2O; é memória, é Eros, é a própria substância da emancipação humana que se recusa a ser represada em conceitos puramente econômicos.
Assim, o percurso poético pelas treze sessões da obra prepara o espírito do leitor para o confronto com a realidade material. O "encantamento" não é passividade, mas a preparação sensível necessária para compreender que a destruição física do Rio Teles Pires é, antes de tudo, uma agressão ao imaginário e à alma coletiva do povo mato-grossense.
3. A FLUIDEZ DA ALMA E A REIFICAÇÃO DA NATUREZA: ENTRE O VERSO E A MERCADORIA
A água, em sua natureza polimorfa, possui o poder de suspender o tempo linear do capital e instaurar o tempo do devaneio. Quantas vezes o sujeito, em meio ao caos da modernidade, não se perde ao olhar a chuva se formando ao longe? Ou o “correr” do rio, ou o “balançar” das ondas do mar? Refletindo, se perde em pensamentos, aqueles mais profundos, guardados em algum lugar. Esse momento catártico, um mergulho no inconsciente, onde desejos e inspirações são marcados pela vontade de mudanças. Desejos surreais, imaginações dispersas, inspirações, marcadas pela vontade de realizar, de fazer, de ter, de ser, transformar o mundo.
Essa suspensão temporal é o que permite ao ser humano reencontrar sua própria essência, despojada das exigências de produtividade. No entanto, essa quietude fenomenológica é constantemente confrontada pela materialidade histórica. Em Mato Grosso, o "olhar a chuva" ou "contemplar o rio" não é um ato neutro. Vivemos em um território onde a água é o centro de uma disputa violenta entre a vida (valor de uso) e o lucro (valor de troca). A água tem esse “poder poético”, de nos fazer parar e pensar, imaginar, se encantar, se perder em devaneios, em nossos sonhos, na intimidade dos nossos desejos, na quietude do nosso ser.
Sob a ótica de Walter Benjamin (1994), esse momento de suspensão temporal no devaneio das águas representa o resgate da experiência (Erfahrung). Benjamin alerta que a modernidade industrial substitui a experiência profunda pelo choque da vivência isolada (Erlebnis). Quando o sujeito "para e pensa" diante do rio, ele rompe com a aceleração produtivista do capital. No entanto, para as mulheres atingidas pela UHE Sinop, essa suspensão foi quebrada pelo trauma. Como relata uma das moradoras: "No início víamos a água como vida, hoje vemos como um instrumento para destruir sonhos em nome do dinheiro. A água perdeu aquela paz que a gente sentia ao olhar o rio; agora ela representa o prejuízo." (Entrevistada 1, 2026).
Essa fala revela o que Karl Marx conceitua como fetiche da mercadoria e reificação. A água, que na quietude do ser era "valor de uso" — essencial para a vida, para a horta e para a alma —, foi "coisificada". No Materialismo Histórico-Dialético, percebemos que o capital transformou o elemento sagrado em um objeto de troca; a água foi reduzida a metros cúbicos para girar turbinas. A reificação aqui é cruel: o que era fonte de devaneio torna-se fonte de "prejuízo". O ser humano deixa de se reconhecer na natureza e passa a vê-la como uma força hostil, mediada pelo dinheiro.
Essa inversão de sentido — da "água-vida" para a "água-prejuízo" — é a marca da alienação imposta pelo modelo de desenvolvimento hidrelétrico. O "fetiche" aqui opera escondendo as relações sociais de exploração: por trás da energia "limpa" que chega às cidades, oculta-se a lama, a morte biológica e o soterramento da história das famílias camponesas.
Aprofundando essa análise, Theodor Adorno nos ajuda a compreender a Racionalidade Instrumental presente nesse processo. Para Adorno, a dominação técnica da natureza visa a extração máxima de lucro, esmagando a subjetividade humana. A "floresta submersa" que apodrece no reservatório da usina é o símbolo dessa razão que destrói para produzir. A água que "exala o cheiro de morte" é a antítese da água que "limpa a alma" na poesia. Adorno argumentaria que a paz contemplativa foi sacrificada no altar da eficácia econômica, transformando o "encantamento" em "alienação".
A Entrevistada 2 complementa essa percepção ao destacar a destruição biológica: "No assentamento a água é um fator fundamental e vem sendo profundamente ameaçada... o alagamento destruiu o leito dos rios matando milhares de organismos vivos e contaminou as águas”.
Aqui, a fratura metabólica de Marx torna-se evidente. Existe um rompimento físico e biológico entre a comunidade camponesa e seu meio. A morte dos "organismos vivos" é também a morte de uma parte do "eu" camponês, que depende da integridade do rio para existir. Se a água adoece pelo veneno ou pelo represamento, o "tempo do devaneio" é substituído pelo tempo da angústia.
Marx utilizava o termo Stoffwechsel (intercâmbio orgânico) para descrever a relação necessária entre homem e natureza. No Teles Pires, esse metabolismo foi interrompido. A água contaminada e o leito destruído impossibilitam a reprodução da vida camponesa, forçando o sujeito a uma luta constante contra a própria matéria que antes o acolhia. A natureza, que deveria ser o prolongamento do corpo humano, torna-se um corpo estranho e doente.
Portanto, a obra de Marli Walker e o fazer das Arpilleras surgem como atos de desalienação. Elas tentam, através da linguagem e do bordado, reconstituir o que a técnica destruiu. Elas usam a arte para devolver à água sua dimensão humana e poética, retirando-a da esfera exclusiva do capital para reinseri-la na esfera da vida. Ao afirmarem que a arte é "aliada à resistência", elas provam que o "poder poético" da água, embora barrado pelo cimento da usina, flui clandestino na consciência de quem luta para transformar o mundo.
O "ponto" da arpillera é a costura da ferida aberta pela fratura metabólica; o "verbo" de Walker é o fluxo que ignora as comportas da usina. Juntos, arte e militância constituem a síntese dialética necessária para que a água volte a ser "encantamento" e deixe de ser apenas "mercadoria".
4. DO VERBO AO PONTO: A PRÁXIS DAS ARPILLERAS E A DENÚNCIA DOS SONHOS BARRADOS
A transição do "verbo" lírico para o "ponto" político ocorre quando a estética encontra o território em conflito. No Assentamento Wesley Manoel dos Santos, as mulheres agricultoras familiares ressignificaram a linguagem têxtil das arpilleras para narrar a destruição causada pela UHE Sinop. A arpillera intitulada "Sonhos Barrados" funciona como uma crônica visual da resistência, materializando a injustiça de quem assistiu a pomares, casas e áreas de preservação serem tragados pela inundação de mais de 30 mil hectares.
A técnica da arpillera, originária da resistência chilena contra a ditadura, ganha no solo mato-grossense uma nova camada de significação: a luta contra o hidronegócio. Aqui, o retalho de pano não é apenas suporte; é o tecido social que o capital tentou esgarçar. Ao costurarem o que foi inundado, as mulheres realizam uma recomposição da memória, impedindo que a paisagem de morte imposta pela usina se torne a única verdade histórica.
Para conferir voz a essa imagem, o coletivo produziu uma "Cartinha" que funciona como um manifesto político-estético. Nela, a denúncia da fratura metabólica entre o ser humano e a natureza é explícita:
"Esta obra grita o que vivemos: o empreendimento não barrou apenas o rio, ele barrou muitos sonhos. A água, que deveria ser nossa fonte de vida, hoje exala o cheiro da floresta que apodreceu debaixo da inundação. Vemos a morte dos macacos e o cerco das onças que perdem seu chão, assim como nós perdemos o nosso. Onde antes havia o verde da mata e o azul do rio limpo, agora resta o cinza da lama e a galhada seca que rasga o nosso peito." (Coletivo de Mulheres Arpilleristas, 2026).
Sob a ótica de Walter Benjamin (1994), o que vemos aqui é o resgate da experiência (Erfahrung). Benjamin diferencia a vivência isolada do choque (Erlebnis) da experiência coletiva que pode ser narrada. A usina impõe o choque, o trauma e o silêncio, mas a arpillera e a cartinha convertem esse trauma em narrativa compartilhada. Bordar a "galhada seca" é uma forma de não permitir que a história dos vencidos seja apagada pelo progresso técnico. É a subversão da "história oficial" do licenciamento ambiental em prol de uma história vista por baixo, narrada por quem sentiu o "rasgar do peito" na mesma medida em que viu a floresta apodrecer.
A profundidade dessa perda é reafirmada por falas que revelam o impacto na saúde e na reprodução da vida:
"A gente olha para o rio e sente uma tristeza que adoece. A água está pesada, turva, não tem mais aquele brilho. Ficamos doentes de ver o que fizeram. Mas quando a gente se junta para bordar, parece que a dor divide e a força multiplica." (Entrevistada 3, 2026).
Essa fala dialoga diretamente com a crítica de Theodor Adorno (1970) sobre a indústria cultural e a reificação. Se o capital transforma o sofrimento em dado estatístico, em números de "compensação ambiental" ou "royalties", a arte camponesa devolve ao sofrimento sua dignidade e sua verdade. Para Adorno, a arte autêntica é aquela que não se reconcilia com a realidade opressora. Ao bordarem o grande Sol amarelo no centro da obra, as mulheres realizam um ato de resistência ontológica, como propõe Alfredo Bosi (1977). O Sol não é apenas luz; é o símbolo da organização coletiva do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) que irradia a mística necessária para enfrentar o "fetiche da mercadoria" descrito por Marx (2013).
A cartinha prossegue detalhando a mística do Sol: "No centro da nossa arpillera, costuramos um Sol que brilha forte. Ele representa a nossa união. Esse Sol avisa que nossa esperança não foi afogada. A gente borda para não esquecer quem somos e para que o mundo saiba que o rio ainda vive em nós, mesmo que esteja preso por trás do cimento." (Coletivo de Mulheres Arpilleristas, 2026).
Aqui, o Sol opera como a humanização defendida por Antônio Candido (1996). A literatura — seja ela escrita ou tecida — organiza o caos da expropriação. Enquanto o "hidronegócio" tenta transformar a água em algo puramente quantificável para o mercado, a práxis das mulheres resgata a "imagem viva" da água como direito à vida. O ponto do bordado e o verbo da cartinha fundem-se em um território de soberania. A agulha atua como uma ferramenta dialética: ela atravessa o tecido do sofrimento para unir as mulheres em torno de um projeto de emancipação.
Como afirma outra colaboradora: "A arte tem um poder imenso para que nossa voz seja ouvida e a poesia é uma grande aliada à resistência". Este "poder imenso" é o que a Pedagogia Histórico-Crítica identifica como a apropriação dos instrumentos culturais para a luta de classes. É a prova final de que, embora o capital tenha barrado o rio físico com toneladas de cimento, ele não detém a posse sobre o "fio" nem sobre a "agulha" que tecem a história da emancipação humana. A arpillera torna-se, assim, o contra-mapa do território — uma geografia de afetos e resistências que o lucro jamais poderá inundar.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente investigação permitiu concluir que a poética da água, manifestada seja através do verso lírico de Marli Walker, seja através do ponto de bordado das agricultoras do Assentamento Wesley Manoel dos Santos, constitui um potente ato de resistência ontológica contra a alienação imposta pelo capital. Ao longo deste estudo, ficou demonstrado que a água, em Mato Grosso, transita de um elemento de devaneio íntimo e conchego placentário para uma categoria central de luta política e disputa territorial.
A intersecção proposta entre os campos das Letras e da Educação do Campo revelou que a linguagem não é apenas um acessório da luta, mas o próprio território onde se trava a batalha pela memória. É na palavra e no fio que se denuncia a desolação da expropriação e, simultaneamente, se anuncia a esperança da retomada. Confirmou-se a hipótese de que a transição do "verbo" ao "ponto" representa a materialização da práxis estética: a arte deixa de ser apenas contemplação para tornar-se ferramenta de denúncia e organização coletiva.
A análise dialética evidenciou que, enquanto a "Modernidade Líquida" e a racionalidade instrumental tentam descartar os sonhos camponeses e reduzir a biodiversidade a mercadoria, a arte lhes confere durabilidade, consistência e dignidade histórica. O "verbo" da poeta e o "ponto" da arpillerista são, em última análise, a mesma água: aquela que irriga a consciência de classe, combate a reificação e sacia a sede de justiça de quem teve seu território inundado pelo concreto das hidrelétricas.
Do ponto de vista teórico, o diálogo entre autores como Bosi (1977), Candido (1996), Benjamin (1994)e Marx (2013) permitiu compreender que a subjetividade ferida pelo barramento do Rio Teles Pires busca na imagem e na narrativa os meios para a sua cura e emancipação. A "fratura metabólica" causada pelo empreendimento é enfrentada pela "mística" do Sol bordado e da palavra escrita, provando que o imaginário camponês é um território inexpugnável.
Que este artigo sirva como um registro rigoroso da mística e da luta das mulheres atingidas, reafirmando que a vida e a dignidade na Gleba Mercedes 5 não podem ser represadas. Que a soberania dessas vozes flua livre, como um rio que, apesar dos obstáculos e das cercas, busca incansavelmente o seu destino de liberdade e justiça social. A resistência, tal qual a água, sempre encontra uma fenda para transbordar.
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