MEDIAÇÕES FONOVISUOARTICULATÓRIAS NO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO: SISTEMATIZAÇÃO DE EXPERIÊNCIAS PEDAGÓGICAS EM CONTEXTOS DISTINTOS

PHONOVISUAL-ARTICULATORY MEDIATIONS IN THE LITERACY PROCESS: SYSTEMATIZATION OF PEDAGOGICAL EXPERIENCES IN DIFFERENT CONTEXTS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782359343

RESUMO
Este artigo analisa o uso da abordagem fonovisuoarticulatória como mediação pedagógica em contextos distintos de alfabetização. O estudo parte da sistematização reflexiva de experiências desenvolvidas ao longo de oito anos, envolvendo aproximadamente 70 estudantes: crianças em processo inicial de alfabetização, estudantes com dificuldades persistentes de aprendizagem, educandos da educação especial, adolescentes do ensino fundamental e sujeitos da Educação de Jovens e Adultos. O objetivo consistiu em examinar como essa abordagem foi mobilizada no ensino da leitura, considerando as adaptações construídas, as demandas observadas e as contribuições percebidas no processo. A pesquisa tem natureza descritivo-reflexiva, ancorada na análise de experiências pedagógicas realizadas em realidades escolares distintas, e sustenta-se em referenciais sobre alfabetização, apropriação do sistema de escrita, educação especial, EJA e abordagem fonovisuoarticulatória. Os resultados indicam que a estratégia contribuiu, em diferentes graus, para tornar mais concretas as relações entre sons da fala e representação gráfica, favorecendo o reconhecimento dos sons das letras, a aproximação com a escrita e a inclusão pedagógica de estudantes que encontravam maiores barreiras por outras vias. Conclui-se que a abordagem pode constituir recurso pedagógico relevante em contextos heterogêneos de alfabetização, quando utilizada de forma criteriosa, reflexiva e articulada a outras mediações didáticas.
Palavras-chave: Alfabetização; Abordagem fonovisuoarticulatória; Educação especial; Educação de Jovens e Adultos; Mediação pedagógica.

ABSTRACT
This article analyzes the use of the phonovisuoarticulatory approach as a pedagogical mediation in distinct literacy contexts. The study draws on the reflective systematization of experiences developed over eight years, involving approximately 70 students: children in the initial literacy process, students with persistent learning difficulties, special education students, middle school adolescents, and youth and adult learners. The objective consisted of examining how this approach was mobilized in reading instruction, considering the adaptations constructed, the demands observed, and the contributions perceived throughout the process. The research is descriptive-reflective in nature, grounded in the analysis of pedagogical experiences carried out in distinct school settings, and draws on theoretical references on literacy, appropriation of the alphabetic writing system, special education, youth and adult education, and the phonovisuoarticulatory approach. The results indicate that the strategy contributed, to varying degrees, to making the relationships between speech sounds and graphic representation more concrete, fostering letter-sound recognition, approximation with written language, and the pedagogical inclusion of students who faced greater barriers through other instructional pathways. It is concluded that the approach may constitute a relevant pedagogical resource in heterogeneous literacy contexts, when used in a judicious, reflective manner and articulated with other didactic mediations.
Keywords: Literacy; Phonovisuoarticulatory approach; Special education; Youth and adult education; Pedagogical mediation.

1. INTRODUÇÃO

A alfabetização exige mediações pedagógicas capazes de ampliar as possibilidades de acesso ao sistema de escrita. No cotidiano das salas de aula, em contextos marcados pela heterogeneidade das trajetórias escolares, essa necessidade se evidencia tanto entre estudantes público-alvo da educação especial quanto entre educandos sem diagnóstico formal, mas com dificuldades persistentes no processo de apropriação da leitura e da escrita. Na Educação de Jovens e Adultos, essa demanda também se impõe, sobretudo quando há fragilidades acumuladas na relação com os sons das letras, com a correspondência entre fala e escrita e com a própria confiança para aprender.

Nesse cenário, a abordagem fonovisuoarticulatória mostrou-se, nas experiências aqui reunidas, uma mediação pedagógica relevante para o trabalho com a alfabetização em contextos distintos. Assim, esta pesquisa é orientada pelo seguinte problema: como a abordagem fonovisuoarticulatória foi mobilizada, em diferentes realidades pedagógicas, para favorecer o processo de alfabetização de estudantes com necessidades diversas de aprendizagem? Tal questão busca suscitar reflexão sobre o fato de que o ensino da leitura exige atenção às singularidades dos percursos formativos, sem reduzir a prática pedagógica nem ao diagnóstico clínico, nem à faixa etária convencionalmente esperada para a alfabetização.

O objetivo geral deste estudo é analisar, a partir da sistematização reflexiva de experiências pedagógicas desenvolvidas em contextos distintos, o uso da abordagem fonovisuoarticulatória como mediação no processo de alfabetização. Especificamente, busca-se descrever os contextos em que essa abordagem foi utilizada, examinar como as adaptações pedagógicas foram construídas com base nesse enfoque e refletir sobre as contribuições e os limites observados em sua mobilização com diferentes perfis de estudantes. A relevância do tema reside, portanto, na possibilidade de oferecer uma reflexão situada sobre práticas alfabetizadoras que procuram responder, de forma concreta, à diversidade presente no espaço escolar.

A justificativa deste artigo sustenta-se, igualmente, na necessidade de valorizar experiências pedagógicas que, sem pretensão de comprovação experimental, oferecem indícios consistentes de potência formativa no ensino da leitura. O texto privilegia a análise de usos pedagógicos construídos na prática, considerando desafios, possibilidades e escolhas didáticas. De natureza descritivo-reflexiva, o artigo ancora-se na sistematização de experiências vividas pelas autoras em contextos distintos de alfabetização, com foco nas mediações construídas no cotidiano escolar.

2. ALFABETIZAÇÃO EM CONTEXTOS HETEROGÊNEOS E MEDIAÇÕES FONOVISUOARTICULATÓRIAS

No contexto brasileiro, a discussão sobre alfabetização e inclusão insere-se em um marco normativo que reconhece a educação como direito de todos e dever do Estado e da família, orientado para o pleno desenvolvimento da pessoa e para a igualdade de condições de acesso e permanência na escola (Brasil, 1988). Em consonância com esse princípio, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelece a educação especial como modalidade oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, reforçando o compromisso com processos educativos não excludentes e com a garantia de atendimento às diferentes necessidades de aprendizagem (Brasil, 1996).

Esse quadro é fortalecido pela Lei Brasileira de Inclusão, ao assegurar sistema educacional inclusivo em todos os níveis e modalidades, bem como aprendizagem ao longo da vida (Brasil, 2015). No campo da alfabetização, a Base Nacional Comum Curricular e o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada reafirmam a centralidade das aprendizagens iniciais de leitura e escrita no percurso escolar, indicando a necessidade de respostas pedagógicas consistentes diante das diferentes demandas apresentadas pelos estudantes (Brasil, 2018; Brasil, 2023).

É nesse entrecruzamento entre direito à educação, compromisso com a inclusão e responsabilidade pedagógica com a alfabetização que se insere a presente discussão. Assim, a fundamentação teórica organiza-se em três eixos complementares: o primeiro aborda a alfabetização como processo de apropriação do sistema de escrita; o segundo focaliza a abordagem fonovisuoarticulatória no ensino da leitura; e o terceiro discute a alfabetização em contextos heterogêneos, com atenção à educação especial, às dificuldades persistentes no processo de aprendizagem e à Educação de Jovens e Adultos.

2.1. Alfabetização e Apropriação do Sistema de Escrita

A alfabetização envolve a apropriação do sistema de escrita alfabética. Nesse processo, a criança, o jovem ou o adulto em alfabetização precisa construir relações entre unidades sonoras da fala e suas representações gráficas, avançando na compreensão do funcionamento do sistema. Por isso, o ensino da leitura e da escrita requer mediações pedagógicas que favoreçam a análise da palavra, a percepção de regularidades e a compreensão das correspondências entre sons e letras, sem que isso signifique reduzir a alfabetização a treino mecânico. (Morais; Silva, 2025; Silva; Follador, 2025).

Ao mesmo tempo, a discussão contemporânea sobre alfabetização tem insistido na necessidade de superar polarizações simplificadoras entre métodos, em especial quando tais disputas obscurecem o trabalho concreto da sala de aula. Mais produtivo do que contrapor perspectivas de forma rígida é reconhecer que o ensino da escrita exige intencionalidade pedagógica, acompanhamento atento e escolha de estratégias coerentes com as necessidades dos estudantes. Nessa direção, o ensino explícito de aspectos do sistema de escrita não se opõe, por si, a práticas significativas de leitura e escrita; ao contrário, pode integrar-se a elas como parte de um trabalho alfabetizador mais consistente (Morais; Silva, 2025; Oliveira-Mendes; Leite, 2024).

Essa compreensão é particularmente importante quando se consideram sujeitos que não se apropriam da escrita no tempo esperado ou que apresentam percursos de aprendizagem marcados por descontinuidades. Nesses casos, insistir apenas em procedimentos gerais ou pouco acessíveis pode ampliar barreiras já existentes. Torna-se, então, legítimo buscar recursos didáticos que tornem mais visíveis e concretas as relações constitutivas da alfabetização, desde que isso ocorra no interior de uma prática pedagógica reflexiva, atenta às singularidades e comprometida com o avanço real dos estudantes. (Silva; Follador, 2025).

2.2. Abordagem Fonovisuoarticulatória no Ensino da Leitura

Entre as possibilidades de mediação pedagógica voltadas ao ensino da leitura, a abordagem fonovisuoarticulatória se destaca por articular, de forma simultânea, pistas fônicas, visuais e articulatórias. Em sua formulação, o método associa o fonema ao grafema e ao movimento articulatório correspondente, buscando tornar mais concreta a relação entre fala e escrita. Essa proposta foi desenvolvida no diálogo entre Fonoaudiologia e Pedagogia e é apresentada na literatura como recurso aplicável à alfabetização de crianças, jovens e adultos, bem como ao trabalho com dificuldades de leitura e escrita. (Jardini; Ruiz, 2011).

Do ponto de vista pedagógico, essa abordagem pode favorecer a compreensão das correspondências grafofonêmicas ao oferecer ao estudante mais de uma via de apoio para a aprendizagem. Em vez de apoiar-se apenas na escuta do som ou apenas na visualização da letra, ela mobiliza também a percepção articulatória, o que pode ampliar a inteligibilidade do processo para sujeitos que necessitam de mediações mais concretas (Jardini; Ruiz, 2011; Rodrigues; Gonçalves, 2021).

A literatura disponível também indica que a abordagem já foi mobilizada em contextos distintos de escolarização. Há registros de uso na Educação de Jovens e Adultos, em estudo de caso que a descreve como metodologia multissensorial estruturada para favorecer a conversão grafofonêmica nesse público, bem como em pesquisa com estudantes com deficiência intelectual, na qual foi articulada a programa computadorizado de alfabetização. Esses achados não autorizam generalizações, mas evidenciam que a proposta já vem sendo explorada em situações marcadas por heterogeneidade de percursos e necessidades de aprendizagem (Jardini et al., 2016; Rodrigues; Gonçalves, 2021).

2.3. Alfabetização em Contextos Heterogêneos: Educação Especial, Dificuldades Persistentes e EJA

Pensar a alfabetização em contextos heterogêneos implica reconhecer que os sujeitos não chegam ao processo de aprendizagem com as mesmas experiências, condições e formas de responder às propostas pedagógicas. Na educação especial, essa constatação é ainda mais evidente, sobretudo quando se trata de estudantes com deficiência intelectual, cujo percurso escolar historicamente tem sido marcado por exclusões, baixas expectativas e fragilidade de mediações consistentes.

Pesquisas recentes têm reforçado, justamente, a importância de estratégias de ensino planejadas, recursos diversificados e intervenções pedagógicas capazes de tornar a alfabetização mais acessível e significativa para esses estudantes. (Santos; Cavalcante, 2023; Pizetta Et Al., 2025). Nesse quadro, a consciência fonológica e outras habilidades relacionadas ao processamento da linguagem aparecem como dimensões relevantes para o ensino da leitura e da escrita.

Estudos recentes sobre deficiência intelectual têm chamado atenção para a importância de propostas de intervenção e estimulação que não abandonem o ensino desses componentes, mas os organizem de forma adequada às possibilidades de cada sujeito. Do mesmo modo, investigações com adultos com deficiência intelectual mostram que procedimentos mais individualizados e sistemáticos podem produzir avanços em tarefas de escrita, reforçando a necessidade de mediações pedagógicas intencionais também fora da idade escolar convencionalmente esperada para a alfabetização. (Tavares Et Al., 2025; Silva; Postalli, 2025).

A heterogeneidade, porém, não se restringe ao campo da deficiência. No cotidiano escolar, também se encontram estudantes sem diagnóstico formal que apresentam dificuldades persistentes na apropriação da leitura e da escrita, exigindo do professor maior atenção aos percursos de aprendizagem. Nesses casos, a prática pedagógica precisa evitar tanto a patologização apressada quanto a indiferença diante das dificuldades, construindo respostas didáticas que favoreçam o avanço possível de cada estudante. A mediação pedagógica, nesse sentido, torna-se elemento essencial, pois desloca o foco da suposta incapacidade do sujeito para as condições concretas de ensino e aprendizagem. (Santos; Cavalcante, 2023).

Na EJA, a discussão ganha novos contornos. Jovens, adultos e idosos em processo de alfabetização trazem trajetórias interrompidas, experiências anteriores de fracasso escolar e, em muitos casos, vínculos fragilizados com a cultura escrita. Além disso, a pandemia de covid-19 agravou desigualdades históricas nesse campo, afetando acesso, permanência e continuidade das aprendizagens. Nesse cenário, reconhecer estratégias pedagógicas que possam tornar o ensino da leitura mais compreensível e acessível não significa ignorar a complexidade social da EJA, mas responder, em alguma medida, às urgências concretas que atravessam seus sujeitos e seus contextos. (Jardini Et Al., 2016; Carreira; Di Pierro, 2025).

3. PERCURSO METODOLÓGICO

Este artigo insere-se em uma perspectiva descritivo-reflexiva, ancorada na sistematização de experiências pedagógicas desenvolvidas em contextos distintos de alfabetização. O foco do estudo não recai sobre a comprovação experimental de um método, mas sobre a análise de uma mediação pedagógica que, no cotidiano escolar, mostrou-se relevante para favorecer o ensino da leitura. Nesse sentido, o texto parte de práticas efetivamente realizadas, posteriormente retomadas em chave analítica, com atenção às condições em que foram mobilizadas, às adaptações construídas e às contribuições percebidas no processo de alfabetização.

As experiências aqui reunidas foram desenvolvidas ao longo de oito anos, em realidades escolares diferentes, envolvendo aproximadamente 70 estudantes da escola pública. O critério de articulação entre elas foi a convergência pedagógica das demandas observadas e das respostas construídas; todas situadas em contextos marcados por heterogeneidade de percursos de aprendizagem.

Do ponto de vista do tratamento do material, o estudo não se organiza como levantamento quantitativo nem como investigação de desempenho. Seu movimento consiste em descrever os contextos de alfabetização considerados, examinar as adaptações pedagógicas realizadas com base na abordagem fonovisuoarticulatória e refletir sobre as contribuições e os limites percebidos em sua utilização. O interesse central está nas escolhas pedagógicas, nas demandas que as motivaram e nas possibilidades que se abriram a partir delas, o que define também os limites do estudo: preservar o caráter situado da experiência e evitar extrapolações que o próprio recorte não autoriza.

4. EXPERIÊNCIAS PEDAGÓGICAS E DISCUSSÃO

A partir do percurso metodológico delineado, a análise volta-se às experiências pedagógicas sistematizadas neste estudo, buscando explicitar os contextos em que a abordagem fonovisuoarticulatória foi mobilizada, as demandas que motivaram sua adoção e as contribuições percebidas no processo de alfabetização. Interessa compreender como essas experiências, desenvolvidas em realidades distintas, convergem em torno de um mesmo esforço de construção de mediações pedagógicas mais acessíveis e responsivas às necessidades dos estudantes.

4.1. Contextos de Alfabetização e Demandas Observadas

As experiências pedagógicas aqui sistematizadas foram desenvolvidas em contextos distintos de alfabetização, atravessados por uma demanda comum: tornar mais compreensível, concreto e acessível o processo de relação entre sons da fala e representação gráfica. Em todos os casos, a adoção da abordagem fonovisuoarticulatória decorreu da percepção, no cotidiano pedagógico, de que determinados estudantes não avançavam quando expostos apenas às estratégias disponíveis no contexto.

Essas demandas apareceram em diferentes faixas etárias e condições de escolarização: turmas de crianças em processo inicial de alfabetização, estudantes que chegaram aos anos seguintes sem consolidação da leitura e da escrita, adolescentes do ensino fundamental com necessidades educacionais diversas — incluindo estudantes autistas, níveis 1 a 3 de suporte —, e educandos da Educação de Jovens e Adultos com trajetórias marcadas por interrupções escolares. Em comum, tratava-se de sujeitos para os quais o acesso ao sistema de escrita exigia mediações mais visíveis, reiteradas e pedagogicamente intencionais.

As experiências também evidenciaram, em todos esses contextos, que o trabalho alfabetizador não pode ser pensado a partir de soluções uniformes. Houve situações em que a abordagem favoreceu avanços mais perceptíveis e outras em que sua contribuição se deu em níveis mais iniciais, sem que isso se convertesse, naquele momento, em alfabetização propriamente dita. Essa distinção é relevante porque impede leituras simplificadoras e reforça a necessidade de analisar cada experiência a partir das possibilidades concretas apresentadas pelos estudantes e pelos contextos de ensino — o que será detalhado na seção seguinte.

4.2. Adaptações Pedagógicas com Base na Abordagem Fonovisuoarticulatória: Contribuições Percebidas no Processo de Alfabetização

Entre as experiências mais significativas, destacam-se duas turmas de crianças de seis anos em fase de alfabetização. Durante dois anos, a abordagem fonovisuoarticulatória foi utilizada como apoio no ensino da leitura, com o alfabeto com as "boquinhas" exposto de forma ampliada na parede da sala. Essa visualidade permanente favorecia retomadas frequentes, consultas espontâneas e associações mais imediatas entre som, letra e articulação. No cotidiano dessas turmas, percebeu-se que muitas crianças assimilavam com mais rapidez os sons das letras; a estratégia contribuía em especial para incluir, com mais efetividade, aquelas que, mesmo sem diagnóstico formal, não avançavam por outras vias pedagógicas.

O uso da abordagem também se mostrou relevante em experiências com estudantes autistas não verbais. Nesses casos, a contribuição da estratégia não se restringiu à expectativa de leitura convencional, mas ao favorecimento de contato mais concreto com os sons, com os movimentos articulatórios e com referências visuais que ampliavam a possibilidade de participação nas propostas. A mediação fonovisuoarticulatória ajudou a construir pontos de acesso ao trabalho com a linguagem escrita, reduzindo barreiras que permaneciam mais rígidas quando apenas a via auditiva ou visual era mobilizada.

Em outro conjunto de experiências, a abordagem foi mobilizada com crianças de 8 a 12 anos sem êxito nos anos anteriores de escolarização. A proposta foi tratada como mediação adicional para tornar mais inteligíveis as correspondências grafofonêmicas, articulada a um trabalho paciente, contínuo e sensível aos diferentes ritmos de aprendizagem. Houve avanços reais no reconhecimento de sons, no engajamento com a leitura e na disposição para tentar, ainda que nem todos os estudantes tenham alcançado a alfabetização plena no período considerado.

No ensino fundamental II, desenvolveu-se trabalho com adolescentes autistas, com participação ativa de algumas mães no processo de alfabetização. A abordagem foi mobilizada como apoio no reconhecimento dos sons das letras, em especial no trabalho com o nome próprio e com unidades mais familiares da escrita. Em um caso de estudante autista nível 3, não verbal e com deficiência intelectual severa, ainda sem ter havido alfabetização de fato, a estratégia favoreceu contato importante com os sons das letras do próprio nome — forma de inserção pedagógica relevante dentro de suas possibilidades. Em outros adolescentes da mesma turma, sem deficiência intelectual severa, observaram-se avanços mais evidentes no reconhecimento dos sons e em aproximações iniciais com o sistema de escrita.

Por fim, a abordagem foi utilizada na Educação de Jovens e Adultos, com adultos e idosos em processo de alfabetização. Em trajetórias marcadas por fracasso escolar, interrupções e inseguranças diante da aprendizagem, o recurso fonovisuoarticulatório favoreceu avanços no reconhecimento dos sons das letras e na construção de vínculos mais possíveis com a leitura e a escrita. Ainda que os ritmos fossem variados, a experiência indicou potencial pedagógico relevante também nesse campo.

4.3. Limites, Cuidados e Possibilidades da Experiência

As experiências analisadas não autorizam concluir que a abordagem fonovisuoarticulatória produza alfabetização em qualquer contexto ou para qualquer estudante. Os próprios percursos relatados mostram que os efeitos da estratégia variaram conforme idade, condições de linguagem, nível de oralidade, presença ou não de deficiência intelectual, histórico escolar e continuidade do trabalho pedagógico. Em alguns casos, houve avanços mais claros no reconhecimento dos sons das letras e na aproximação com a leitura; em outros, a contribuição esteve mais ligada à ampliação do contato com elementos iniciais do sistema de escrita e à inclusão do estudante em propostas das quais antes participava muito pouco.

As experiências aqui sistematizadas sugerem efetividade pedagógica e indicam que a abordagem ganha mais consistência quando inserida em práticas amplas de mediação, com retomadas frequentes, observação sensível do estudante, flexibilidade didática e articulação com outros recursos e estratégias de ensino. Seu valor está em compor um trabalho pedagógico atento às necessidades reais de cada contexto.

Ao mesmo tempo, os relatos apontam possibilidades importantes. Entre elas, destacam-se a maior concretude oferecida ao ensino dos sons das letras, a ampliação das formas de acesso ao sistema de escrita, a inclusão de estudantes que não respondiam bem a outras vias e o fortalecimento de experiências pedagógicas menos excludentes. Em contextos heterogêneos de alfabetização, essa combinação entre cuidado, intencionalidade e diversificação de mediações pode representar diferença significativa. Nessa direção, a principal contribuição das experiências aqui reunidas talvez não seja afirmar um caminho único, mas mostrar que respostas pedagógicas mais plurais e concretas podem abrir possibilidades reais de avanço e participação para sujeitos historicamente pouco alcançados pelos modos mais convencionais de alfabetizar.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As experiências reunidas neste artigo permitem retomar, com mais concretude, a questão que orientou o estudo: a abordagem fonovisuoarticulatória mostrou-se capaz de responder a demandas pedagógicas distintas, em contextos e perfis de estudantes bastante variados, sem que isso signifique uniformidade de resultados ou de percursos. O que as experiências revelaram, antes de tudo, é que a mediação pedagógica importa; e que sua forma, sua frequência e sua articulação com outras estratégias fazem diferença real no processo de alfabetização.

No plano teórico, o estudo reafirmou que a alfabetização exige mediações capazes de tornar mais inteligíveis as relações entre sons da fala e representação gráfica, especialmente em contextos heterogêneos, nos quais o trabalho docente precisa responder a ritmos, condições e percursos distintos. A abordagem fonovisuoarticulatória mostrou-se pedagogicamente relevante por oferecer apoio simultâneo em dimensões fônicas, visuais e articulatórias, favorecendo formas mais concretas de aproximação com o sistema alfabético.

As experiências sistematizadas sugerem que essa mediação contribuiu, em diferentes graus, para o reconhecimento dos sons das letras, para a associação entre fala e escrita e para a inclusão pedagógica de estudantes que, por outras vias, encontravam maior dificuldade para avançar. Isso se evidenciou tanto em turmas de alfabetização na idade esperada quanto em situações de defasagem escolar, educação especial, ensino fundamental II e Educação de Jovens e Adultos. Em alguns casos, os avanços relacionaram-se mais diretamente ao processo de alfabetização; em outros, a contribuição apareceu em níveis iniciais de contato com o nome próprio, com os sons das letras e com a participação nas atividades propostas.

Os limites também foram reconhecidos. Os efeitos da abordagem dependeram das condições de cada estudante, da continuidade do trabalho, da sensibilidade pedagógica das docentes e da articulação com outras estratégias de ensino. O que as experiências autorizam afirmar não é a superioridade de um caminho, mas que práticas alfabetizadoras mais concretas, diversificadas e responsivas ampliam possibilidades reais de aprendizagem e participação.

O estudo indica, assim, que a abordagem fonovisuoarticulatória pode constituir recurso pedagógico relevante em contextos heterogêneos de alfabetização, quando utilizada de forma criteriosa, reflexiva e articulada às necessidades observadas no cotidiano escolar. As experiências aqui reunidas reforçam a importância de valorizar práticas docentes que buscam construir caminhos mais acessíveis, inclusivos e pedagogicamente consistentes para o ensino da leitura e da escrita.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Mestranda em Ciências da Educação. Especialista em Neuropsicopedagogia (UCAM); em Produção de Mídias para a Educação Online (FACED/UFBA); em Educação Integral; em Gestão Educacional. Licenciada em Pedagogia (UNOPAR). Membra do CTBEII (Comitê Territorial Baiano de Educação Integral Integrada). Autora do livro A teia da infância e o labirinto dos castigos. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Mestranda em Ciências da Educação. Especialista em Metodologia da Língua Portuguesa (UNEB); em Produção de Mídias para a Educação Online (FACED/UFBA); em Gestão Educacional. Licenciada em Letras/Língua Portuguesa (UNEB). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

3 Mestranda em Ciências da Educação. Especialista em Letras/Libras (UNEB); em Psicopedagogia; em Psicomotricidade. Pós-graduanda em Gestão Educacional (UEFS). Licenciada em Pedagogia (UFBA). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.