MARIOLOGIA E RELIGIOSIDADE POPULAR: FUNDAMENTOS BÍBLICOS, HISTÓRICOS E TEOLÓGICOS DA DEVOÇÃO AO SANTO ROSÁRIO NA TRADIÇÃO CATÓLICA

MARIOLOGY AND POPULAR RELIGIOSITY: BIBLICAL, HISTORICAL, AND THEOLOGICAL FOUNDATIONS OF DEVOTION TO THE HOLY ROSARY IN THE CATHOLIC TRADITION

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784816348

RESUMO
A devoção mariana constitui uma das manifestações mais expressivas da espiritualidade cristã e ocupa lugar central na tradição religiosa do catolicismo. Entre suas diversas formas de expressão, o Santo Rosário destaca-se como prática devocional amplamente difundida ao longo da história da Igreja, articulando elementos bíblicos, litúrgicos, doutrinários e pastorais em uma proposta de oração contemplativa centrada nos mistérios da vida de Jesus Cristo. Embora amplamente praticada, essa devoção frequentemente é compreendida apenas sob sua dimensão religiosa popular, reduzindo-se sua complexidade teológica e seu desenvolvimento histórico. Nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar os fundamentos bíblicos, históricos e teológicos da devoção ao Santo Rosário na tradição católica, examinando sua relação com a Mariologia e sua importância para a constituição da religiosidade popular. Trata-se de pesquisa qualitativa, de natureza exploratória, desenvolvida mediante revisão bibliográfica e análise documental de fontes primárias do Magistério da Igreja Católica, incluindo documentos conciliares, encíclicas, exortações apostólicas, o Catecismo da Igreja Católica e literatura especializada em Mariologia. Os resultados evidenciam que o Santo Rosário ultrapassa sua dimensão estritamente devocional, constituindo importante instrumento de formação espiritual, transmissão da fé e contemplação cristológica. Observa-se ainda que a compreensão contemporânea da Mariologia, especialmente após o Concílio Vaticano II, contribuiu para integrar a devoção mariana ao centro da experiência cristã, reafirmando Maria como modelo de discipulado, de acolhimento da Palavra de Deus e de participação singular na história da salvação. Conclui-se que a permanência do Santo Rosário na vida da Igreja decorre da convergência entre tradição, fundamentação bíblica, elaboração teológica e experiência espiritual vivida pelas comunidades cristãs ao longo dos séculos.
Palavras-chave: Mariologia; Santo Rosário; Religiosidade Popular; Espiritualidade Cristã; Igreja Católica.

ABSTRACT
Marian devotion is one of the most significant expressions of Christian spirituality and occupies a central place in the religious tradition of Catholicism. Among its various forms of expression, the Holy Rosary stands out as a devotional practice that has been widely practiced throughout the history of the Church, integrating biblical, liturgical, doctrinal, and pastoral elements into a form of contemplative prayer centered on the mysteries of the life of Jesus Christ. Although widely practiced, this devotion is often understood solely in terms of its popular religious dimension, thereby overlooking its theological complexity and historical development. In this context, the present study aims to analyze the biblical, historical, and theological foundations of devotion to the Holy Rosary in the Catholic tradition, examining its relationship with Mariology and its importance for the formation of popular religiosity. This is a qualitative, exploratory study conducted through a literature review and documentary analysis of primary sources from the Magisterium of the Catholic Church, including conciliar documents, encyclicals, apostolic exhortations, the Catechism of the Catholic Church, and specialized literature on Mariology. The results show that the Holy Rosary transcends its strictly devotional dimension, serving as an important instrument for spiritual formation, the transmission of the faith, and Christological contemplation. It is also observed that the contemporary understanding of Mariology, especially following the Second Vatican Council, has contributed to integrating Marian devotion into the heart of the Christian experience, reaffirming Mary as a model of discipleship, of welcoming the Word of God, and of unique participation in the history of salvation. It can be concluded that the enduring presence of the Holy Rosary in the life of the Church stems from the convergence of tradition, biblical foundations, theological elaboration, and the spiritual experience lived by Christian communities over the centuries.
Keywords: Mariology; Holy Rosary; Popular Religiosity; Christian Spirituality; Catholic Church.

1. INTRODUÇÃO

A figura de Maria ocupa posição singular na tradição cristã desde os primórdios da Igreja, constituindo objeto permanente da reflexão teológica em estreita relação com a Cristologia, a Eclesiologia e a História da Salvação. A elaboração da Mariologia ao longo dos séculos demonstra que a compreensão da identidade e da missão de Maria não se desenvolveu de forma isolada, mas acompanhou o amadurecimento da própria doutrina cristã acerca da pessoa de Jesus Cristo e da natureza da Igreja. Nesse sentido, Laurentin (1995) observa que a Mariologia somente alcança sua plena inteligibilidade quando compreendida como parte integrante da economia da salvação, enquanto De Fiores (1995) ressalta que toda reflexão mariana deve permanecer orientada pelo mistério de Cristo e pela vida eclesial, evitando tanto reducionismos devocionais quanto formulações teológicas desvinculadas da centralidade cristológica.

A centralidade de Maria na tradição católica encontra sólido fundamento nas Sagradas Escrituras e foi progressivamente explicitada pelo Magistério da Igreja. A definição dogmática de Maria como Theotokos no Concílio de Éfeso (431) representou marco decisivo para a consolidação da doutrina cristológica, ao reconhecer que aquele concebido em seu ventre é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem (Denzinger; Hünermann, 2007). Essa compreensão foi posteriormente reafirmada pelo Concílio Vaticano II, cuja Constituição Dogmática Lumen Gentium integrou definitivamente a Mariologia ao tratado sobre a Igreja, reafirmando que toda reflexão sobre Maria deve conduzir ao mistério de Cristo e da comunidade eclesial (Concílio Vaticano II, 1964).

A renovação mariológica promovida pelo Concílio Vaticano II exerceu profunda influência sobre a compreensão contemporânea da espiritualidade mariana. A Exortação Apostólica Marialis Cultus, promulgada por Paulo VI, estabeleceu critérios para que as devoções marianas permanecessem fundamentadas na Sagrada Escritura, em sintonia com a liturgia e orientadas para Cristo (Paulo VI, 1974). Posteriormente, João Paulo II reafirmou essa perspectiva na Encíclica Redemptoris Mater, ao apresentar Maria como modelo do discipulado cristão (João Paulo II, 1987), e aprofundou especificamente a compreensão do Santo Rosário por meio da Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, caracterizando-o como verdadeira escola de contemplação dos mistérios da vida de Cristo (João Paulo II, 2002).

Entre as diversas manifestações da piedade mariana, o Santo Rosário consolidou-se historicamente como uma das práticas devocionais mais difundidas da tradição católica. Sua permanência ao longo dos séculos evidencia não apenas sua relevância pastoral, mas também sua capacidade de integrar oração, catequese, contemplação e transmissão da fé. Conforme Montfort (2019), o Rosário constitui uma síntese dos principais mistérios da vida de Cristo contemplados sob o olhar de Maria. Em perspectiva semelhante, Boff (2019) compreende essa devoção como importante expressão da espiritualidade cristã, na medida em que aproxima o fiel da experiência de discipulado vivida pela mãe de Jesus.

Nas últimas décadas, a religiosidade popular passou a ocupar espaço significativo na produção teológica e pastoral da Igreja. O Documento de Aparecida reconhece a piedade popular como autêntico lugar teológico e importante meio de transmissão da fé, destacando seu papel evangelizador na realidade latino-americana (Celam, 2007). Em consonância com essa compreensão, o Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia afirma que as expressões devocionais populares constituem patrimônio espiritual da Igreja, desde que permaneçam em comunhão com a liturgia e fundamentadas na tradição cristã (Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, 2002). Para García Paredes (2008), a espiritualidade mariana contemporânea deve ser interpretada como dimensão integrante da missão evangelizadora da Igreja, articulando tradição, experiência espiritual e compromisso pastoral.

Embora o Santo Rosário permaneça entre as práticas religiosas mais difundidas do catolicismo, observa-se que parte significativa da literatura concentra-se em abordagens históricas, catequéticas ou exclusivamente devocionais. Ainda são relativamente escassos estudos que integrem, de forma sistemática, seus fundamentos bíblicos, seu desenvolvimento histórico, sua elaboração teológica e sua inserção na religiosidade popular contemporânea. Essa lacuna evidencia a necessidade de pesquisas capazes de articular diferentes perspectivas da Mariologia, da espiritualidade cristã e da teologia pastoral, contribuindo para uma compreensão mais ampla dessa tradição devocional (De Fiores, 1995; García Paredes, 2008).

Diante desse contexto, o presente estudo busca responder ao seguinte problema de pesquisa: quais fundamentos bíblicos, históricos e teológicos sustentam a devoção ao Santo Rosário como expressão da religiosidade popular na tradição católica?

O objetivo geral consiste em analisar os fundamentos bíblicos, históricos e teológicos da devoção ao Santo Rosário, investigando sua relação com a Mariologia e sua contribuição para a constituição da espiritualidade cristã e da religiosidade popular na tradição católica. Especificamente, pretende-se identificar os fundamentos escriturísticos da maternidade divina de Maria, compreender a evolução histórica da devoção ao Rosário, discutir sua consolidação no Magistério da Igreja e analisar sua permanência como expressão significativa da experiência religiosa católica.

A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza exploratória, desenvolvida mediante revisão bibliográfica e análise documental. Foram examinadas fontes primárias do Magistério da Igreja - incluindo documentos conciliares, encíclicas, exortações apostólicas e o Catecismo da Igreja Católica - além de obras clássicas e contemporâneas dedicadas à Mariologia, à espiritualidade cristã e à religiosidade popular. A análise fundamenta-se na interpretação crítica dessas fontes, buscando compreender como a Escritura, Tradição e reflexão teológica convergem para sustentar a devoção ao Santo Rosário na experiência histórica da Igreja.

Ao reunir essas diferentes perspectivas, pretende-se contribuir para a compreensão do Santo Rosário não apenas como prática devocional, mas como expressão teologicamente fundamentada da espiritualidade cristã, da tradição eclesial e da religiosidade popular, favorecendo o diálogo entre a pesquisa acadêmica em Teologia e a experiência religiosa vivida nas comunidades católicas.

2. METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza exploratória, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica narrativa associada à análise documental de fontes primárias e secundárias relacionadas à Mariologia, à devoção ao Santo Rosário e à religiosidade popular na tradição católica.

Segundo Gil (2019), a pesquisa bibliográfica possibilita ao pesquisador estabelecer diálogo crítico com a produção científica existente, permitindo compreender o estágio atual do conhecimento sobre determinado fenômeno e identificar convergências, divergências e lacunas na literatura especializada. No campo da Teologia, esse procedimento assume relevância particular, uma vez que a reflexão teológica se desenvolve historicamente mediante permanente diálogo entre a Sagrada Escritura, a Tradição da Igreja, o Magistério e a produção acadêmica contemporânea (Libanio, 2014).

A revisão bibliográfica concentrou-se em obras clássicas e contemporâneas dedicadas à Mariologia, à espiritualidade cristã, à religiosidade popular e à história da devoção ao Santo Rosário. Foram priorizados autores reconhecidos na literatura especializada, tais como Laurentin (1995), De Fiores (1995), García Paredes (2008), Montfort (2019), Boff (2019) e Pessotto (2018), além de estudos nacionais relacionados à espiritualidade mariana e à piedade popular.

Paralelamente à revisão bibliográfica, realizou-se análise documental de fontes primárias do Magistério da Igreja Católica, compreendendo documentos considerados referenciais para a compreensão da Mariologia contemporânea. Entre esses documentos destacam-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium (Concílio Vaticano II, 1964), a Exortação Apostólica Marialis Cultus (Paulo VI, 1974), a Encíclica Redemptoris Mater (João Paulo II, 1987), a Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae (João Paulo II, 2002), o Catecismo da Igreja Católica (Igreja Católica, 1997), o Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia (Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, 2002) e o Documento de Aparecida  (Celam, 2007). Também foram utilizadas como fontes primárias as Sagradas Escrituras, considerando especialmente as passagens relacionadas à maternidade divina de Maria, aos relatos da infância de Jesus, às Bodas de Caná, ao Calvário e aos demais textos tradicionalmente utilizados na fundamentação bíblica da Mariologia.

A seleção das referências observou critérios de relevância temática, reconhecimento acadêmico, atualidade e influência na construção da doutrina mariana e da espiritualidade católica. Foram priorizadas obras que apresentassem contribuições para a compreensão histórica, bíblica, teológica e pastoral da devoção ao Santo Rosário, buscando contemplar tanto autores clássicos da Mariologia quanto documentos oficiais da Igreja que orientam a reflexão contemporânea sobre a piedade mariana.

A análise das fontes foi conduzida mediante abordagem hermenêutico-documental, compreendida como procedimento interpretativo voltado à compreensão dos significados presentes nos textos teológicos e magisteriais em seus respectivos contextos históricos e doutrinários (Gadamer, 1999). Nessa perspectiva, procurou-se identificar como a devoção ao Santo Rosário foi progressivamente elaborada na tradição cristã e quais fundamentos bíblicos e teológicos sustentam sua permanência como uma das principais expressões da religiosidade popular católica.

Para organização da discussão, o corpus documental foi analisado em quatro eixos temáticos: (i) fundamentos bíblicos da Mariologia; (ii) desenvolvimento histórico da devoção ao Santo Rosário; (iii) consolidação teológica da espiritualidade mariana no Magistério da Igreja; e (iv) inserção do Santo Rosário na religiosidade popular contemporânea. Essa categorização permitiu articular diferentes fontes documentais e bibliográficas em uma perspectiva integradora, favorecendo a compreensão das relações entre a Escritura, Tradição, Magistério e experiência religiosa.

Ressalta-se que esta investigação não pretende avaliar empiricamente práticas devocionais nem mensurar comportamentos religiosos dos fiéis. Seu propósito consiste em analisar criticamente os fundamentos teológicos que sustentam a devoção ao Santo Rosário, evidenciando sua construção histórica, sua fundamentação bíblica e sua importância para a espiritualidade cristã na tradição católica.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES

3.1. A Mariologia na Economia da Salvação: Fundamentos Bíblicos da Maternidade Divina

A compreensão da maternidade divina de Maria constitui o fundamento da Mariologia cristã e representa um dos principais eixos da reflexão teológica sobre a participação da Virgem na economia da salvação. Entretanto, essa compreensão não se fundamenta exclusivamente na tradição devocional da Igreja, mas desenvolve-se a partir do testemunho das Sagradas Escrituras, da interpretação patrística e da formulação doutrinária consolidada nos primeiros concílios ecumênicos. Conforme observa Laurentin (1995), a Mariologia somente pode ser compreendida em íntima relação com a Cristologia, pois toda afirmação acerca de Maria remete, em última instância, à identidade e à missão de Jesus Cristo. Nessa perspectiva, estudar Maria significa aprofundar a compreensão do mistério da Encarnação e da ação salvífica de Deus na história.

A fundamentação bíblica da maternidade divina encontra seu ponto de partida nos relatos da infância de Jesus, especialmente no Evangelho de Lucas. A narrativa da Anunciação (Lc 1,26-38) apresenta Maria como destinatária do anúncio do anjo Gabriel e como aquela que, mediante livre adesão ao projeto divino, acolhe a missão de conceber o Filho do Altíssimo. A resposta de Maria - "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1,38) - constitui um dos textos centrais da espiritualidade cristã, sendo tradicionalmente interpretada como expressão máxima da cooperação humana com a iniciativa salvífica de Deus (De Fiores, 1995).

A literatura mariológica contemporânea tem destacado que o significado teológico desse episódio ultrapassa o aspecto biográfico da maternidade de Maria. Segundo García Paredes (2008), o "fiat" mariano representa a resposta livre da humanidade ao plano redentor de Deus, tornando Maria paradigma do discipulado cristão. Essa interpretação desloca o foco de uma compreensão meramente biológica da maternidade para uma perspectiva teológica, segundo a qual Maria participa ativamente da história da salvação mediante sua fé e obediência.

O Evangelho de Lucas reforça essa compreensão ao narrar a Visitação (Lc 1,39-45). Durante o encontro entre Maria e Isabel, esta proclama: "Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite?" (Lc 1,43). A expressão "mãe do meu Senhor" possui profunda relevância cristológica, pois o termo Kyrios, empregado pelo evangelista, corresponde ao título utilizado pela tradição bíblica para designar Deus. Como observa Brown (1993), esse reconhecimento não pretende apenas exaltar Maria, mas afirmar a identidade divina daquele que ela concebeu, constituindo uma das primeiras profissões cristológicas presentes no Novo Testamento.

Essa compreensão alcançou formulação dogmática no Concílio de Éfeso (431), quando a Igreja reconheceu Maria como Theotokos ("Mãe de Deus"). A definição não teve como objetivo atribuir origem divina à Virgem Maria, mas proteger a integridade da doutrina cristológica diante das controvérsias suscitadas pelo nestorianismo. Conforme explica Denzinger e Hünermann (2007), afirmar Maria como Mãe de Deus significa reconhecer que aquele nascido de seu ventre é uma única pessoa, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Assim, o dogma mariano possui finalidade eminentemente cristológica, reafirmando a unidade da pessoa de Cristo.

Nessa perspectiva, o Concílio Vaticano II recupera a compreensão patrística ao situar Maria no interior do mistério de Cristo e da Igreja. O capítulo VIII da Constituição Dogmática Lumen Gentium afirma que Maria ocupa lugar singular na história da salvação por sua cooperação livre na obra redentora, mas ressalta que sua missão permanece inteiramente subordinada à mediação única de Cristo (Concílio Vaticano II, 1964). Tal posicionamento representou importante renovação da Mariologia contemporânea ao evitar interpretações que isolasse Maria da economia da salvação ou que lhe atribuíssem protagonismo independente da missão de seu Filho.

A interpretação conciliar aproxima-se das análises desenvolvidas por Laurentin (1995) e De Fiores (1995), que defendem uma Mariologia essencialmente cristocêntrica. Para esses autores, toda devoção mariana encontra legitimidade apenas quando conduz o fiel ao encontro com Cristo, evitando formas de espiritualidade que obscureçam o núcleo do Evangelho. Essa perspectiva também é reafirmada por Paulo VI na Exortação Apostólica Marialis Cultus, ao estabelecer que toda devoção mariana deve possuir fundamento bíblico, orientação litúrgica e finalidade cristológica (Paulo VI, 1974).

A fundamentação escriturística da maternidade divina não se restringe aos relatos da infância de Jesus. O Evangelho de João amplia significativamente a compreensão da missão de Maria ao apresentá-la em dois momentos decisivos da vida pública de Cristo: as Bodas de Caná (Jo 2,1-11) e a Crucificação (Jo 19,25-27). Nas Bodas de Caná, Maria aparece como aquela que conduz os serventes à obediência da palavra de Cristo ao afirmar: "Fazei tudo o que ele vos disser" (Jo 2,5). A tradição teológica interpreta esse episódio como manifestação paradigmática da função mediadora da maternidade espiritual de Maria, não como substituição da mediação de Cristo, mas como serviço que conduz inteiramente ao Filho (João Paulo II, 1987).

No relato da crucificação, o evangelista registra a entrega recíproca entre Maria e o discípulo amado (Jo 19,26-27). A literatura mariológica interpreta esse episódio em dupla dimensão: histórica e simbólica. Historicamente, Jesus assegura o cuidado de sua mãe; simbolicamente, inaugura-se uma nova relação espiritual entre Maria e a comunidade dos discípulos. Conforme García Paredes (2008), essa passagem fundamenta a compreensão da maternidade espiritual de Maria, posteriormente desenvolvida pela tradição patrística e reafirmada pelo Magistério da Igreja.

Além dos textos neotestamentários, diversos autores identificam no Antigo Testamento figuras tipológicas que prefigurariam a missão de Maria na história da salvação. Embora tais interpretações devam ser compreendidas dentro da tradição hermenêutica cristã, documentos como a Lumen Gentium reconhecem a legitimidade dessa leitura ao relacionar Maria à nova Eva, à Filha de Sião e à Arca da Aliança (Concílio Vaticano II, 1964). Segundo Boff (2019), essas imagens não pretendem demonstrar provas históricas, mas evidenciar a unidade do plano salvífico de Deus revelado progressivamente ao longo da história bíblica.

A leitura tipológica encontra respaldo na tradição patrística desde Santo Irineu de Lião, para quem Maria representa a nova Eva, cuja obediência contrasta com a desobediência da primeira mulher. Essa interpretação influenciou profundamente a teologia mariana posterior, sendo retomada por autores contemporâneos como Laurentin (1995), De Fiores (1995) e García Paredes (2008). Em todos esses casos, observa-se que a figura de Maria somente adquire pleno significado em referência ao mistério pascal de Cristo.

Dessa forma, a análise das fontes bíblicas, patrísticas e magisteriais permite concluir que a maternidade divina constitui o eixo estruturante da Mariologia cristã. Mais do que um privilégio atribuído à Virgem Maria, trata-se de uma afirmação essencialmente cristológica, cuja finalidade consiste em preservar a verdade da Encarnação e evidenciar a participação livre de Maria no desígnio salvífico de Deus. Sob essa perspectiva, a Mariologia revela-se inseparável da Cristologia e da Eclesiologia, fornecendo o fundamento teológico sobre o qual se desenvolvem as diversas expressões da espiritualidade mariana, entre elas a devoção ao Santo Rosário, objeto específico das seções seguintes.

3.2. Desenvolvimento Histórico da Devoção Ao Santo Rosário

A devoção ao Santo Rosário constitui uma das mais importantes expressões da espiritualidade cristã no catolicismo. Sua permanência ao longo de aproximadamente oito séculos evidencia que essa prática ultrapassou a condição de simples oração repetitiva para consolidar-se como instrumento de contemplação dos mistérios da vida de Cristo, formação catequética e fortalecimento da religiosidade popular. Sua configuração atual resulta de um longo processo histórico marcado por transformações litúrgicas, pastorais e teológicas.

As origens do Rosário remontam às práticas monásticas dos primeiros séculos do cristianismo. Entre os séculos III e V, a recitação diária dos 150 Salmos estruturava a Liturgia das Horas e constituía importante exercício de oração contínua (Jungmann, 1959). Como grande parte dos fiéis não dominava a leitura dos Salmos, desenvolveram-se formas simplificadas de oração baseadas inicialmente na repetição do Pai-Nosso e, posteriormente, da Ave-Maria (Giulietti, 2014). Conforme destaca Le Goff (2005), esse processo refletiu a necessidade de ampliar a participação dos leigos na vida espiritual por meio de práticas acessíveis e pedagogicamente eficazes.

A tradição atribui a difusão do Rosário a São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem dos Pregadores, no século XIII. Segundo a tradição preservada por Montfort (2019), a Virgem Maria teria apresentado o Saltério Mariano como instrumento de evangelização e combate às heresias. Embora estudos históricos não confirmem documentalmente esse episódio (Thurston, 1906; Winston-Allen, 1997), reconhece-se sua relevância para a construção simbólica da devoção mariana. De acordo com Winston-Allen (1997), o Rosário consolidou-se progressivamente durante a Baixa Idade Média pela convergência de práticas devocionais, confrarias religiosas e iniciativas pastorais voltadas à formação espiritual dos leigos.

No século XV, o Beato Alain de la Roche desempenhou papel decisivo na reorganização e difusão das confrarias do Rosário, contribuindo para a sistematização da devoção e para sua ampla expansão na Europa (Giulietti, 2014). A partir dos séculos XVI e XVII, em meio ao contexto da Reforma Católica, o Rosário tornou-se importante instrumento de catequese e fortalecimento da identidade católica. Conforme Delumeau (1997), as práticas devocionais assumiram papel estratégico na aproximação dos fiéis com a doutrina da Igreja por meio de linguagem simples e forte conteúdo simbólico.

Nesse período, o Rosário consolidou-se como verdadeira síntese catequética dos principais acontecimentos da vida de Cristo. Sua estrutura contemplativa favorecia a assimilação dos conteúdos fundamentais da fé, especialmente entre populações com reduzido acesso à formação religiosa formal. Segundo João Paulo II (2002), essa característica explica sua extraordinária difusão e permanência ao longo da história da Igreja.

Entre os principais responsáveis pelo aprofundamento espiritual dessa devoção destaca-se São Luís Maria Grignion de Montfort, que apresentou o Rosário como caminho privilegiado para a união com Cristo. Para o autor, a repetição das orações somente adquire pleno significado quando conduz à contemplação dos mistérios da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus (Montfort, 2019).

O Magistério contemporâneo reafirmou essa compreensão cristocêntrica. A Exortação Apostólica Marialis Cultus destacou que a oração do Rosário deve permanecer profundamente enraizada na Sagrada Escritura e orientada para Cristo (Paulo VI, 1974). Posteriormente, João Paulo II (2002) ampliou sua dimensão contemplativa com a introdução dos Mistérios Luminosos, incorporando episódios da vida pública de Jesus e reforçando o Rosário como verdadeira síntese do Evangelho (De Fiores, 1995).

Outro aspecto marcante de sua evolução histórica foi a capacidade de adaptação às diferentes culturas. Incorporado às tradições religiosas de diversos continentes, o Rosário preservou sua estrutura essencial ao mesmo tempo em que assumiu expressões culturais variadas. Essa flexibilidade pastoral contribuiu para sua consolidação como patrimônio espiritual universal da Igreja. Conforme observa Boff (2019), sua permanência decorre justamente da capacidade de articular profundidade doutrinária, simplicidade devocional e experiência concreta da fé vivida pelo povo de Deus.

Assim, a evolução histórica do Santo Rosário demonstra que essa devoção não resulta de um único acontecimento ou personagem, mas de um processo contínuo de desenvolvimento espiritual, pastoral e teológico. Desde suas origens monásticas até sua renovação pelo Magistério contemporâneo, o Rosário preservou sua orientação cristológica e consolidou-se como uma das mais importantes expressões da espiritualidade e da religiosidade popular na tradição católica.

3.3. O Santo Rosário na Espiritualidade Cristã

A permanência do Santo Rosário na tradição cristã ao longo de mais de oito séculos não pode ser explicada apenas por sua ampla difusão entre os fiéis ou pelo incentivo recebido do Magistério da Igreja. Sua continuidade histórica decorre, sobretudo, de sua capacidade de integrar oração, contemplação, catequese e formação espiritual em uma única prática devocional. Diferentemente de outras expressões da piedade popular que surgiram em contextos históricos específicos, o Rosário consolidou-se como uma síntese da espiritualidade cristã precisamente por conduzir o fiel à contemplação progressiva do mistério de Cristo mediante o olhar da Virgem Maria (João Paulo II, 2002).

Essa característica permite compreender que o centro da oração do Rosário não é Maria, mas o próprio Cristo. Embora sua estrutura seja composta majoritariamente pela repetição da Ave-Maria, a finalidade da oração consiste na contemplação dos principais acontecimentos da vida, morte e ressurreição de Jesus. Conforme afirma João Paulo II (2002), o Rosário constitui "compêndio do Evangelho", pois conduz o fiel a percorrer, de forma meditativa, os principais momentos da história da salvação. Nessa perspectiva, Maria ocupa papel pedagógico, conduzindo o cristão ao encontro de Cristo e favorecendo uma leitura contemplativa das Escrituras.

Essa interpretação representa importante evolução da compreensão teológica da devoção mariana. Durante longo período histórico, o Rosário foi frequentemente percebido como oração predominantemente dirigida à Virgem Maria. Entretanto, a renovação promovida pelo Concílio Vaticano II deslocou essa compreensão para um horizonte explicitamente cristocêntrico. A Constituição Dogmática Lumen Gentium estabelece que toda veneração dirigida à Mãe de Deus encontra seu sentido na íntima relação que ela mantém com Cristo e com a Igreja (Concílio Vaticano II, 1964). Assim, a espiritualidade mariana não constitui caminho paralelo à espiritualidade cristológica, mas uma de suas expressões mais significativas.

A Exortação Apostólica Marialis Cultus aprofunda essa perspectiva ao afirmar que a autêntica devoção mariana deve possuir caráter bíblico, litúrgico, ecumênico e antropológico (Paulo VI, 1974). Entre esses elementos, merece destaque a dimensão bíblica, pois a contemplação dos mistérios do Rosário pressupõe constante referência às narrativas evangélicas. Não se trata, portanto, da simples repetição mecânica de fórmulas de oração, mas de um exercício espiritual que busca atualizar, na experiência do fiel, os acontecimentos centrais da história da salvação.

Nesse contexto, a repetição das orações adquire significado distinto daquele frequentemente atribuído por seus críticos. Na tradição cristã oriental e ocidental, a repetição constitui importante método contemplativo, presente desde os primeiros séculos do cristianismo. Conforme observa Ware (1997), a oração repetitiva não pretende multiplicar palavras, mas favorecer o recolhimento interior e a abertura da pessoa à ação da graça. O mesmo princípio encontra-se presente na tradição monástica do deserto, na oração de Jesus do cristianismo oriental e nas práticas meditativas desenvolvidas pelas ordens religiosas ao longo da Idade Média.

A repetição da Ave-Maria durante o Rosário desempenha função semelhante à de um ritmo contemplativo, permitindo que a atenção do fiel permaneça concentrada sobre cada mistério meditado. João Paulo II (2002) ressalta que as palavras da Ave-Maria funcionam como pano de fundo para a contemplação de Cristo, evitando que a oração se reduza a mero exercício intelectual. O elemento central permanece sendo a meditação dos acontecimentos salvíficos narrados pelos Evangelhos.

Essa dimensão contemplativa aproxima o Rosário da tradição da lectio divina, prática secular da espiritualidade cristã baseada na leitura orante das Escrituras. Embora possuam estruturas distintas, ambas compartilham finalidade semelhante: favorecer o encontro pessoal com Deus mediante a contemplação da Palavra revelada. Conforme observa De Fiores (1995), o Rosário constitui verdadeira pedagogia da contemplação, pois conduz progressivamente o fiel a interiorizar os mistérios da vida de Cristo mediante sucessivas etapas de meditação, oração e silêncio.

Outro aspecto relevante refere-se ao caráter cristológico da espiritualidade mariana. A tradição teológica contemporânea insiste que Maria nunca constitui finalidade da vida espiritual, mas caminho privilegiado para o seguimento de Cristo. Laurentin (1995) afirma que toda Mariologia autêntica deve permanecer subordinada à Cristologia, princípio igualmente reafirmado pelo Catecismo da Igreja Católica ao reconhecer que a missão de Maria consiste em conduzir continuamente os fiéis ao seu Filho (Igreja Católica, 1997). Essa compreensão evita interpretações que atribuam autonomia à devoção mariana ou que estabeleçam concorrência entre a mediação de Cristo e a intercessão de Maria.

Nesse sentido, Montfort (2019) desenvolve uma das formulações mais influentes da espiritualidade mariana moderna ao afirmar que a verdadeira devoção à Virgem conduz necessariamente ao conhecimento e ao seguimento de Cristo. Embora sua linguagem reflita o contexto espiritual do século XVIII, sua proposta permanece atual ao compreender Maria como modelo de discipulado, humildade e disponibilidade ao projeto divino. A consagração mariana proposta por Montfort não possui finalidade em si mesma, mas orienta-se inteiramente para a configuração do cristão à vida de Cristo.

A espiritualidade do Rosário também apresenta importante dimensão antropológica. Em uma sociedade marcada pela aceleração do tempo, pela fragmentação das experiências religiosas e pela predominância de práticas individuais de espiritualidade, o Rosário oferece ritmo contemplativo que favorece a interiorização da fé. Conforme observa Francisco (2013), a evangelização contemporânea necessita recuperar espaços de silêncio, contemplação e encontro pessoal com Deus, elementos frequentemente presentes nas expressões mais autênticas da religiosidade popular. Sob essa perspectiva, o Rosário permanece atual precisamente porque oferece ao fiel oportunidade de interromper o ritmo cotidiano para contemplar os mistérios centrais da fé cristã.

Outro aspecto frequentemente destacado pela literatura refere-se ao caráter pedagógico da oração do Rosário. Muito antes da ampla difusão da catequese sistematizada, essa prática já desempenhava função formativa ao apresentar, de maneira acessível, os principais acontecimentos da vida de Cristo. Conforme Giulietti (2014), cada mistério contemplado representa verdadeiro itinerário catequético, permitindo que mesmo cristãos com reduzida formação teológica assimilassem progressivamente os conteúdos fundamentais do Evangelho. Essa característica explica, em parte, sua ampla difusão entre diferentes culturas e contextos históricos.

Além da dimensão individual, o Rosário possui relevante dimensão comunitária. Sua recitação em famílias, comunidades religiosas, grupos paroquiais e movimentos eclesiais favorece a construção da identidade coletiva da fé, fortalecendo vínculos comunitários e preservando tradições religiosas transmitidas entre gerações. Essa característica contribui para compreender por que a devoção permanece profundamente enraizada em diferentes culturas, especialmente na América Latina, onde a religiosidade popular constitui elemento estruturante da experiência cristã (Celam, 2007).

Sob a perspectiva teológica, observa-se que o Rosário reúne simultaneamente elementos bíblicos, litúrgicos, cristológicos, mariológicos e pastorais. Essa integração explica sua extraordinária capacidade de adaptação às diferentes épocas da história da Igreja. Ao invés de constituir simples prática paralela à liturgia, o Magistério contemporâneo compreende o Rosário como importante complemento da vida sacramental e da oração litúrgica, favorecendo a assimilação pessoal dos mistérios celebrados pela Igreja (Paulo VI, 1974).

Dessa forma, a espiritualidade do Santo Rosário revela-se muito mais ampla do que uma prática devocional baseada na repetição de fórmulas religiosas. Trata-se de verdadeiro itinerário de contemplação cristológica que integra Escritura, tradição, oração e experiência espiritual em um processo contínuo de formação da vida cristã. Sua permanência ao longo dos séculos decorre justamente dessa capacidade de articular simplicidade pastoral e profunda densidade teológica, permitindo que diferentes gerações de cristãos encontrem, na contemplação dos mistérios de Cristo sob o olhar de Maria, caminho privilegiado de crescimento espiritual e amadurecimento da fé.

3.4. Mariologia e Religiosidade Popular

A religiosidade popular ocupa posição de destaque na tradição cristã, especialmente no contexto latino-americano, onde a experiência da fé frequentemente se expressa por meio de práticas devocionais, peregrinações, festas religiosas, promessas, procissões e orações comunitárias. Longe de representar manifestação periférica da vida eclesial, essas práticas constituem importante dimensão da experiência religiosa, preservando elementos da memória coletiva, da identidade cultural e da transmissão intergeracional da fé. Nesse contexto, a devoção mariana e, particularmente, o Santo Rosário consolidaram-se como algumas das expressões mais difundidas da religiosidade popular católica.

Historicamente, a relação entre Teologia e religiosidade popular nem sempre foi compreendida de forma consensual. Durante parte do século XX, algumas correntes pastorais interpretavam determinadas práticas devocionais como manifestações de religiosidade pouco fundamentadas teologicamente ou excessivamente marcadas por elementos culturais. Em alguns casos, a piedade popular era vista como forma de religiosidade inferior quando comparada à participação litúrgica oficial da Igreja (Suess, 2007). Essa perspectiva começou a ser revista de maneira significativa a partir do Concílio Vaticano II, especialmente pela valorização da participação do povo de Deus na vida e na missão da Igreja.

A Constituição Dogmática Lumen Gentium inaugurou uma compreensão mais ampla da santidade vivida nas diferentes expressões da comunidade cristã, reconhecendo que a ação do Espírito Santo não se limita às estruturas institucionais, mas manifesta-se também na experiência concreta do povo de Deus (Concílio Vaticano II, 1964). Essa mudança de perspectiva permitiu compreender a religiosidade popular não apenas como conjunto de práticas culturais, mas como espaço legítimo de vivência, transmissão e amadurecimento da fé cristã.

Esse entendimento foi aprofundado por Paulo VI na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, ao afirmar que a religiosidade popular, quando devidamente evangelizada, constitui verdadeira força missionária da Igreja (Paulo VI, 1975). O pontífice reconhece que essas expressões religiosas possuem extraordinária capacidade de aproximar o povo do mistério cristão, preservando valores espirituais, comunitários e culturais que nem sempre são plenamente alcançados por formas exclusivamente acadêmicas ou institucionais de evangelização.

No contexto latino-americano, essa valorização alcançou especial desenvolvimento nas Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano. O Documento de Puebla já reconhecia a religiosidade popular como patrimônio espiritual dos povos latino-americanos (Celam, 1979). Posteriormente, o Documento de Aparecida aprofundou essa compreensão ao afirmar que a piedade popular constitui "precioso tesouro da Igreja Católica" e autêntico lugar de encontro com Jesus Cristo  (Celam, 2007). Para os bispos latino-americanos, longe de representar religiosidade secundária, essas práticas expressam uma forma concreta de inculturação do Evangelho, mediante a qual a fé cristã se torna parte integrante da vida cotidiana das comunidades.

Essa perspectiva encontra respaldo na reflexão teológica contemporânea. Segundo García Paredes (2008), a espiritualidade mariana desenvolvida nas expressões da religiosidade popular revela extraordinária capacidade de integrar elementos doutrinários, afetivos e culturais em uma única experiência religiosa. Maria torna-se, simultaneamente, personagem bíblica, modelo de discipulado, mãe espiritual e referência afetiva para milhões de cristãos, permitindo que a experiência da fé seja vivida em linguagem acessível ao conjunto do povo de Deus.

A compreensão da religiosidade popular como verdadeiro locus theologicus representa uma das contribuições mais relevantes da Teologia latino-americana contemporânea. Embora o conceito de "lugar teológico" tenha sido tradicionalmente associado às fontes clássicas da Teologia, autores como Clodovis Boff (2012) defendem que a experiência histórica do povo crente também constitui espaço privilegiado para a reflexão teológica, desde que interpretada em diálogo permanente com a Sagrada Escritura, a Tradição e o Magistério. Nessa perspectiva, as expressões da piedade popular deixam de ser compreendidas apenas como objeto de estudo para tornar-se também fonte de compreensão da experiência cristã.

É nesse contexto que o Santo Rosário adquire relevância singular. Sua ampla difusão entre famílias, comunidades e movimentos religiosos evidencia que essa devoção ultrapassa o âmbito da oração individual para tornar-se elemento estruturante da identidade religiosa de inúmeras comunidades católicas. Conforme observa Boff (2019), a devoção mariana apresenta extraordinária capacidade de aproximar o mistério cristão da realidade concreta da vida cotidiana, favorecendo uma espiritualidade marcada pela confiança, pela esperança e pela solidariedade comunitária.

Sob a perspectiva antropológica, a permanência do Rosário pode ser compreendida também como mecanismo de preservação da memória religiosa. A repetição periódica dos mistérios da vida de Cristo, associada às experiências familiares e comunitárias de oração, contribui para transmitir narrativas, símbolos e valores entre diferentes gerações. Conforme destaca Geertz (2008), os sistemas religiosos organizam universos simbólicos capazes de conferir sentido às experiências humanas. Nesse aspecto, o Rosário funciona não apenas como oração, mas como prática cultural que estrutura a percepção religiosa da realidade e fortalece vínculos de pertencimento comunitário.

Essa dimensão cultural não reduz o conteúdo teológico da devoção. Pelo contrário, evidencia a capacidade da tradição cristã de dialogar com diferentes contextos históricos e sociais. O Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia reconhece que as expressões da religiosidade popular constituem patrimônio espiritual da Igreja precisamente porque conseguem traduzir o conteúdo da fé em linguagem acessível às comunidades, desde que permaneçam em comunhão com a liturgia e orientadas pelo Magistério (Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, 2002).

Ao analisar especificamente o Rosário, observa-se que sua estrutura favorece essa articulação entre tradição e experiência religiosa. Cada mistério contempla acontecimentos centrais da história da salvação narrados nas Escrituras, permitindo que a prática devocional permaneça continuamente vinculada ao núcleo da fé cristã. Dessa forma, a repetição das orações não constitui finalidade em si mesma, mas recurso pedagógico que favorece a interiorização do Evangelho e a assimilação progressiva dos conteúdos fundamentais da Revelação.

Outro aspecto relevante refere-se ao potencial evangelizador da espiritualidade mariana. Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, Francisco (2013) afirma que a piedade popular constitui verdadeira força evangelizadora, pois preserva formas espontâneas de anúncio da fé frequentemente inacessíveis às estruturas pastorais tradicionais. Segundo o pontífice, a devoção mariana permanece viva porque responde às necessidades espirituais concretas das pessoas, oferecendo linguagem simbólica capaz de integrar sofrimento, esperança, gratidão e confiança na providência divina.

Essa compreensão reforça que a religiosidade popular não pode ser interpretada apenas como conjunto de manifestações emocionais ou culturais. Ao contrário, trata-se de realidade complexa que envolve memória, identidade, tradição, espiritualidade e elaboração teológica. O Santo Rosário, nesse contexto, representa uma das expressões mais completas dessa integração, reunindo contemplação bíblica, oração comunitária, formação catequética e experiência espiritual em uma prática acessível a diferentes grupos sociais e culturais.

Portanto, a análise da relação entre Mariologia e religiosidade popular demonstra que a devoção ao Santo Rosário não constitui fenômeno marginal da vida cristã, mas importante expressão da forma como a tradição católica foi historicamente apropriada pelas comunidades de fé. Sua permanência ao longo dos séculos evidencia a capacidade da espiritualidade mariana de integrar doutrina, cultura e experiência religiosa, contribuindo para a formação da identidade cristã e para a transmissão da fé entre gerações. Sob essa perspectiva, o Rosário revela-se não apenas como oração mariana, mas como verdadeiro instrumento de evangelização, memória e formação espiritual, confirmando a profunda articulação entre Mariologia e religiosidade popular na tradição católica contemporânea.

4. CONCLUSÃO

O presente estudo teve como objetivo analisar os fundamentos bíblicos, históricos e teológicos da devoção ao Santo Rosário, investigando sua relação com a Mariologia e sua contribuição para a constituição da religiosidade popular na tradição católica. Partiu-se do problema de compreender como esses diferentes fundamentos contribuíram para a consolidação do Rosário como uma das principais expressões da espiritualidade cristã ao longo da história da Igreja.

A análise desenvolvida permitiu demonstrar que a devoção ao Santo Rosário não constitui prática religiosa sustentada apenas pela tradição devocional ou pela permanência histórica de costumes populares. Ao contrário, verificou-se que sua continuidade ao longo dos séculos decorre da convergência entre a fundamentação bíblica da maternidade divina de Maria, o desenvolvimento doutrinário promovido pela tradição cristã, a consolidação da Mariologia no Magistério da Igreja e sua profunda inserção na experiência religiosa das comunidades católicas. Nesse sentido, o Rosário revela-se expressão teológica complexa, na qual a Escritura, Tradição, espiritualidade e prática pastoral permanecem estreitamente articuladas.

Os resultados evidenciaram que a Mariologia contemporânea compreende Maria essencialmente em relação ao mistério de Cristo. A análise dos documentos do Concílio Vaticano II, especialmente da Constituição Dogmática Lumen Gentium, bem como das exortações e encíclicas posteriores, demonstrou que a devoção mariana somente encontra sua legitimidade quando conduz o fiel ao encontro de Jesus Cristo e favorece maior participação na vida litúrgica e sacramental da Igreja. Dessa forma, a espiritualidade do Rosário apresenta natureza eminentemente cristológica, afastando interpretações que reduzam essa prática a manifestações exclusivamente afetivas ou desvinculadas do núcleo da fé cristã.

A investigação histórica permitiu compreender que a configuração atual do Santo Rosário resulta de longo processo de desenvolvimento espiritual, pastoral e teológico. Desde suas raízes nas práticas monásticas medievais até sua renovação promovida pelo Magistério contemporâneo, a devoção revelou extraordinária capacidade de adaptação às diferentes realidades culturais sem perder sua identidade fundamental. Essa continuidade histórica demonstra que a tradição cristã permanece dinâmica, reinterpretando práticas seculares à luz das necessidades evangelizadoras de cada época.

No âmbito da religiosidade popular, verificou-se que o Rosário ocupa posição singular por integrar elementos doutrinários, espirituais, culturais e comunitários em uma única prática religiosa. Mais do que simples oração privada, constitui importante instrumento de transmissão da fé, fortalecimento da identidade cristã e preservação da memória religiosa entre gerações. Os documentos do Magistério analisados reconhecem a piedade popular como espaço legítimo de evangelização, desde que permaneça em comunhão com a liturgia, a Palavra de Deus e a tradição eclesial. Sob essa perspectiva, a devoção ao Rosário representa uma das manifestações mais consistentes da capacidade da Igreja de inculturar o Evangelho em diferentes contextos históricos e sociais.

A principal contribuição deste estudo consiste em demonstrar que a compreensão teológica do Santo Rosário exige abordagem integradora, capaz de articular simultaneamente seus fundamentos bíblicos, históricos, doutrinários e pastorais. Em vez de interpretar essa devoção apenas como prática mariana ou manifestação da religiosidade popular, propõe-se compreendê-la como expressão sintética da espiritualidade cristã, na qual convergem Cristologia, Mariologia, Eclesiologia e Teologia Pastoral. Essa perspectiva amplia a compreensão do Rosário como verdadeiro itinerário de contemplação da história da salvação, favorecendo uma leitura mais abrangente de seu significado na tradição católica.

Do ponto de vista acadêmico, o estudo também evidencia a necessidade de superar abordagens que tratam a Mariologia apenas sob perspectivas históricas ou confessionais. O diálogo estabelecido entre a literatura especializada, os documentos do Magistério e as contribuições da Teologia contemporânea demonstra que a reflexão mariana permanece campo fértil para investigações interdisciplinares envolvendo Teologia Sistemática, História da Igreja, Ciências da Religião, Antropologia da Religião e Teologia Pastoral. A riqueza desse diálogo revela que a figura de Maria continua ocupando lugar relevante tanto na reflexão teológica quanto na experiência religiosa vivida pelas comunidades cristãs.

Entretanto, este estudo apresenta limitações inerentes à sua natureza metodológica. Por tratar-se de pesquisa fundamentada em revisão bibliográfica e análise documental, não contemplou investigação empírica sobre a recepção contemporânea da devoção ao Santo Rosário em diferentes contextos socioculturais. Também não foram exploradas comparações entre a espiritualidade mariana católica e outras tradições cristãs, nem as distintas formas de apropriação dessa devoção em diferentes realidades culturais.

Diante dessas limitações, sugerem-se pesquisas futuras que investiguem a presença do Santo Rosário nas práticas religiosas contemporâneas, especialmente em comunidades urbanas, movimentos eclesiais e ambientes digitais, bem como estudos comparativos entre diferentes contextos culturais e confessionais. Tais investigações poderão ampliar a compreensão acerca das transformações recentes da espiritualidade mariana e de sua contribuição para os processos de evangelização no século XXI.

Conclui-se, portanto, que a devoção ao Santo Rosário permanece plenamente atual não apenas por seu valor histórico ou por sua ampla difusão entre os fiéis, mas por constituir uma síntese singular da espiritualidade cristã. Fundamentado na Revelação, desenvolvido pela Tradição, aprofundado pelo Magistério e continuamente atualizado na experiência do povo de Deus, o Rosário conserva sua relevância como caminho de contemplação do mistério de Cristo, de formação da vida espiritual e de expressão qualificada da religiosidade popular na tradição católica. Nessa perspectiva, a Mariologia revela-se não como temática periférica da Teologia, mas como dimensão integradora que ilumina a compreensão da pessoa de Cristo, da missão da Igreja e da vivência concreta da fé cristã.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOFF, Clodovis. Mariologia social: o significado da Virgem para a sociedade. São Paulo: Paulus, 2012.

BOFF, Clodovis. Mariologia: síntese sistemática. Petrópolis: Vozes, 2019.

BROWN, Raymond E. O nascimento do Messias: comentário às narrativas da infância nos Evangelhos de Mateus e Lucas. São Paulo: Paulinas, 1993.

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática Lumen Gentium: sobre a Igreja. Vaticano, 21 nov. 1964. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html. Acesso em: 8 jul. 2026.

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Diretório sobre piedade popular e liturgia: princípios e orientações. Vaticano, 2002. Disponível em: https://www.vatican.va/content/dam/wss/roman_curia/congregations/ccdds/documents/rc_con_ccdds_doc_20020513_vers-direttorio_sp.html. Acesso em: 8 jul. 2026.

CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (CELAM). Documento de Puebla. São Paulo: Paulinas, 1979.

CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO E CARIBENHO (CELAM). Documento de Aparecida: texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Brasília: Edições CNBB; São Paulo: Paulus; Paulinas, 2007.

DE FIORES, Stefano. Maria na teologia contemporânea. São Paulo: Paulus, 1995.

DELUMEAU, Jean. O catolicismo entre Lutero e Voltaire. Lisboa: Terramar, 1997.

DENZINGER, Heinrich; HÜNERMANN, Peter. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas; Loyola, 2007.

FRANCISCO, Papa. Evangelii Gaudium: Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. Vaticano, 2013. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html. Acesso em: 6 jul. 2026.

GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.

GARCÍA PAREDES, José Cristo Rey. Mariologia. São Paulo: Ave-Maria, 2008.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.

GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019.

GIULIETTI, Paolo. História do Rosário. Aparecida: Santuário, 2014.

IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1997. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/prima-pagina-cic_po.html. Acesso em: 8 jul. 2026.

JOÃO PAULO II, Papa. Redemptoris Mater: Carta Encíclica sobre a Bem-Aventurada Virgem Maria na vida da Igreja peregrina. Vaticano, 1987. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_25031987_redemptoris-mater.html. Acesso em: 6 jul. 2026.

JOÃO PAULO II, Papa. Rosarium Virginis Mariae: carta apostólica sobre o Santo Rosário. Vaticano, 16 out. 2002. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_letters/2002/documents/hf_jp-ii_apl_20021016_rosarium-virginis-mariae.html. Acesso em: 8 jul. 2026.

JUNGMANN, Josef Andreas. Missarum Sollemnia: origem histórica da liturgia romana. Petrópolis: Vozes, 1959.

LAURENTIN, René. Maria: chave do mistério cristão. São Paulo: Paulinas, 1995.

LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. 2. ed. Bauru: EDUSC, 2005.

LIBANIO, João Batista. Introdução à Teologia Fundamental. São Paulo: Loyola, 2014.

MONTFORT, Luís Maria Grignion de. O segredo admirável do Santíssimo Rosário. Petrópolis: Vozes, 2019.

PAULO VI, Papa. Evangelii Nuntiandi: Exortação Apostólica sobre a evangelização no mundo contemporâneo. Vaticano, 1975. Disponível em: https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/apost_exhortations/documents/hf_p-vi_exh_19751208_evangelii-nuntiandi.html. Acesso em: 6 jul. 2026.

PAULO VI, Papa. Marialis Cultus: Exortação Apostólica para a reta ordenação e desenvolvimento do culto à Bem-Aventurada Virgem Maria. Vaticano, 1974. Disponível em: https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/apost_exhortations/documents/hf_p-vi_exh_19740202_marialis-cultus.html. Acesso em: 6 jul. 2026.

PESSOTTO, Afonso Murad. Maria, toda de Deus e tão humana. São Paulo: Paulinas, 2018.

SUESS, Paulo. Evangelização e inculturação. São Paulo: Paulus, 2007.

THURSTON, Herbert. The Rosary. London: Burns & Oates, 1906.

WARE, Kallistos. O poder do Nome: a oração de Jesus na espiritualidade ortodoxa. São Paulo: Paulinas, 1997.

WINSTON-ALLEN, Anne. Stories of the Rose: the making of the Rosary in the Middle Ages. University Park: Pennsylvania State University Press, 1997.


1 ORCID: https://orcid.org/0009-0008-0536-1741

2 ORCID: https://orcid.org/0009-0000-2671-0113

3 ORCID: https://orcid.org/0009-0009-5137-0910

4 ORCID: https://orcid.org/0009-0007-7736-3693