REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780808182
RESUMO
O texto tem como objetivo refletir sobre a importância das práticas de letramento com crianças da fase de alfabetização nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, bem como, a relevância do protagonismo infantil na aprendizagem. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, caracterizando-se como pesquisa-ação por ser resultado de intervenção no Componente Curricular Estágio Supervisionado I do Curso de Pedagogia Anos Iniciais. O estágio acorreu no Primeiro Ano dos Anos Iniciais em uma escola da Rede Pública Municipal de Educação. Os resultados mostram que é possível desenvolver uma prática de letramento na turma de alfabetização partindo de texto da literatura infantil para explorar oralidade, leitura, escrita e análise linguística e criar com as crianças um novo texto coletivo e significativo para elas, de acordo com o que é orientado para alfabetizar letrando. Quando possibilitado que as crianças participem ativamente da construção da aprendizagem elas demonstram protagonismo, desejo de autoria e potência.
Palavras-chave: Alfabetização e letramento; Estágio Supervisionado; Práticas de letramento; Protagonismo infantil.
ABSTRACT
This text aims to reflect on the importance of literacy practices with children in the early years of elementary school, as well as the relevance of children's protagonism in learning. It is a qualitative research study, characterized as action research because it resulted from an intervention in the Supervised Internship I component of the Early Years Pedagogy course. The internship took place in the first year of elementary school in a public municipal school. The results show that it is possible to develop a literacy practice in the literacy class starting from a children's literature text to explore orality, reading, writing, and linguistic analysis, and to create a new collective and meaningful text with the children, in accordance with the guidelines for literacy through reading and writing. When children are given the opportunity to actively participate in the construction of learning, they demonstrate protagonism, a desire for authorship, and potential.
Keywords: Literacy and literacy practices; Supervised Internship; Literacy practices; Child protagonism.
1. INTRODUÇÃO
A alfabetização das crianças nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental demanda uma caminhada de mãos dadas com o letramento para que a leitura e a escrita tenham sentido e usos sociais. Alfabetização e letramento são dois processos distintos, mas que precisam estar articulados para alfabetizar letrando na escola. Magda Soares (2022), defendeu amplamente o letramento junto da alfabetização como possibilidade para todas as crianças poderem ler e escrever. No entanto, para que esses processos ocorram no período da alfabetização das crianças é indicado que os professores organizem propostas de atividades com intencionalidade, partindo de textos reais. Os projetos ou as práticas de letramento (Heinig, 2021) são formas de planejar para abranger os dois processos e oportunizar sentido e usos sociais para a leitura e escrita.
O estágio é um momento fundamental na formação dos futuros pedagogos e envolve teoria, prática e reflexão sobre a prática. O Estágio Supervisionado I do Curso de Pedagogia Anos Iniciais de uma universidade no Vale do Itajaí, aconteceu no segundo semestre letivo de 2024, com o Primeiro Ano dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental em uma escola pública de Santa Catarina. O estágio está organizado com momento de pesquisa e fundamentação teórica, observação em campo seguida de elaboração de relatórios, análise do campo e planejamento de intervenção, e intervenção e análise dos dados. Por meio desse processo constatou-se a necessidade de práticas de letramento e protagonismo das crianças na construção da aprendizagem.
Durante a intervenção do estágio foi desenvolvida uma prática de letramento partindo de livros de literatura infantil, trabalhando oralidade, leitura, escrita e análise linguística, finalizando com a criação de um livro pelas crianças da turma. Essa pesquisa-ação que contou com a intervenção e análise das estagiárias transformou-se no presente relato de experiência que tem como objetivo principal refletir sobre a importância das práticas de letramento com crianças da fase de alfabetização nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, bem como, a relevância do protagonismo das crianças na aprendizagem ativa.
No relato haverá a base teórica que sustenta as análises e a descrição e discussão dos dados observados em campo, com foco na elaboração de um livro coletivo com a turma durante a prática de letramento. As análises dos dados coletados foram feitas à luz dos estudos de Soares (2022), Morais (2019), Heinig (2021), Kleiman (2010; 2014), Vygotsky (2018); Edwards; Gandini; Forman (2016); Piccoli e Camini (2012); Ferreiro e Teberosky (1991).
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A revisão teórica aponta para a importância do conhecimento sobre as bases para a alfabetização (Soares, 2022), a relevância do desenvolvimento da consciência fonológica (Morais, 2019) e da psicogênese da língua escrita (Ferreiro, Teberosky, 1991), o desenvolvimento do desenho da criança (Vygotsky, 2018) e as práticas de letramento (Heinig, 2021; Kleiman, 2010) como possibilidade de intervenção para alfabetizar letrando. Outro estudo importante que emerge é sobre o protagonismo da criança que pode aprender de forma ativa (Edwards; Gandini; Forman, 2016) e com práticas lúdicas que consideram a especificidade da criança (Piccoli e Camini, 2012).
Na primeira etapa do estágio foi feito aprofundamento dos estudos e novas pesquisas bibliográficas para compor a fundamentação teórica. De todos os estudos teóricos resultou um olhar mais atento e sensível durante o Estágio Supervisionado no Primeiro Ano do Ensino Fundamental. O Primeiro Ano está na fase de alfabetização e é composto por crianças de seis até sete anos de idade. As crianças têm suas particularidades, singularidades, preferências e muita potência, e tudo isso precisa ser levado em consideração ao elaborar o planejamento de aulas para aprendizagem da língua escrita.
De acordo com Soares (2022) existem camadas de aprendizagens da língua escrita: contextos culturais e sociais de uso da escrita; ler e escrever textos: usos da escrita; aprendizagem da escrita alfabética. As duas primeiras camadas referem-se ao letramento, com as demandas sociais e culturais de escrita e a última camada refere-se à alfabetização. Assim, não há como separar os processos de alfabetização e letramento na aprendizagem da língua escrita. Fazendo sentido o trabalho com práticas de letramento durante o Estágio Supervisionado.
Alfabetização e letramento são dois processos distintos que demandam planejamentos distintos, mas, precisam estar articulados no cotidiano da alfabetização. Soares (2022) afirma que alfabetização é a aprendizagem de um sistema de representação, em que os signos, os grafemas, representam os sons da fala, os fonemas. Já o letramento é o desenvolvimento sistemático de habilidades e estratégias de leitura e escrita, reconhecendo seus usos sociais. Por isso, é necessário aliar a alfabetização ao letramento, aprender o sistema alfabético de escrita e conhecer seus usos sociais, como ler, interpretar e produzir textos adequados aos interlocutores. Soares (2022) adverte que para que a alfabetização ocorra é fundamental que os professores tenham total domínio e consciência das bases da alfabetização, que são os processos pelos quais as crianças passam para alfabetizarem-se: consciência fonológica, desenvolvimento psicogenético e conhecimento das letras. Esses processos necessários à alfabetização fundamentam-se na ideia de que toda aprendizagem tem como ponto de partida o próprio aluno que é sujeito ativo e não o conteúdo.
A apropriação pela criança do princípio alfabético é esperada como um subproduto de suas explorações ativas dos portadores de texto, ou seja, uma decorrência do letramento. Os letramentos tratados no plural por Kleiman (2010, p. 377) são “práticas sociais nas quais a escrita tem um papel relevante no processo de interpretação e compreensão dos textos orais ou escritos circulantes na vida social.” Dai a importância de o trabalho na alfabetização partir de textos envolvendo oralidade, leitura, escrita e análise linguística.
Para que essa prática ocorra na escola pode-se optar pelo trabalho com projetos de letramento ou práticas de letramento que são organizadas em forma de sequência didática ou atividade esporádica. Um projeto de letramento possibilita o contato com o mundo da cultura escrita, é uma ocasião em que os textos escritos fazem parte das interações e interpretações do grupo (Heinig, 2021). Esse tipo de projeto envolve eventos de letramentos e seus elementos visíveis: participantes, ambientes, artefatos e atividades. O texto é o elemento central que possibilita articular letramento e alfabetização.
Os estudos teóricos como de Piccoli e Camini (2012) mostram, também, a importância da ludicidade e da corporeidade no processo de alfabetização já que se trata de crianças. Assim, há a necessidade de planejar diferentes atividades envolvendo movimento, a brincadeira, o uso de espaços dentro e fora da sala de aula, explorando a comunicação que o corpo oferece nessas situações de interação com os colegas e o meio.
E por fim, é preciso pensar na mediação da leitura que servirá como base da prática de letramento. A mediação se dá como uma ação de um leitor junto a outro para que haja a compreensão do texto. No caso, o professor junto das crianças que ainda não sabem ler implementa estratégias de compreensão leitora (Kleiman, 2014) apresentando para as crianças um repertório de textos, estabelecendo objetivos, informando, fazendo perguntas que ajudam as crianças a elaborarem hipótese sobre o que determinado texto quer dizer. Desta forma, gradativamente, o leitor vai se tornando autônomo, estabelecendo as maneiras de ler e de compreender. Portanto, o professor mediador de leitura precisa selecionar bons textos e compreender os textos antes de interagir com as crianças.
3. METODOLOGIA
O presente texto é resultado de uma análise da ação de intervenção durante o Estágio Supervisionado I do Curso de Pedagogia Anos Iniciais. A intervenção ocorreu com a regência em uma turma de Primeiro Ano dos Anos Iniciais de uma escola pública da Rede Municipal de Ensino, no segundo semestre letivo de 2024.
A pesquisa é de abordagem qualitativa, classificando como uma pesquisa de campo descritiva realizada por meio de observações e práticas na escola. A pesquisa de campo, segundo Brandão (2007), é uma vivência, ou seja, mais do que um puro ato científico. Assim sendo, é por meio desta experiência que busca-se compreender de forma mais profunda a dinâmica escolar e a interação dos alunos com o ambiente educacional e as aprendizagens. Constitui-se em uma pesquisa-ação (Lisita, Rosa e Lipovetsky, 2001) na qual atua-se como um investigador da própria prática, olhando e analisando de dentro, articulando conhecimentos teóricos e práticos a partir de uma autorreflexão sobre a produção de conhecimento do seu trabalho. Acolhendo os resultados do trabalho, como conhecimentos produzidos pode-se transformar práticas por meio de reflexão sobre a ação.
O Estágio Supervisionado seguiu uma abordagem metodológica estruturada em etapas, conforme descrito a seguir: inicialmente, realizou-se uma pesquisa bibliográfica para compor a fundamentação teórica, pautada nos estudos sobre a infância, nos documentos oficiais que regem a Educação no Brasil enfocando a criança dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e os processos de alfabetização e letramento, visando refletir sobre práticas pedagógicas.
Após esta etapa foi realizada a observação em campo, no que se refere à regência do professor e análise documental da escola permitindo a coleta de dados detalhada sobre a prática pedagógica, a interação entre professor e crianças, entre as crianças e o meio, o cotidiano da turma e a organização escolar. As observações foram registradas por meio de um Diário de Bordo, com um registro reflexivo e analítico das experiências vivenciadas em diferentes espaços, tempo e contextos escolares, permitindo a identificação das ações pedagógicas que ocorreram no dia a dia. A etapa seguinte foi a elaboração dos Planos de Ação, com base nas observações feitas anteriormente, seguido da etapa da regência com a aplicação dos planos e registros, efetivando a ação docente. Por fim, a última etapa consistiu na elaboração dos Relatórios da regência e Análise de Dados pautada em todo processo que compõe o Estágio e com base na fundamentação teórica.
A prática de letramento foi planejada com base nos estudos teóricos sobre alfabetização e letramento e partiu da literatura infantil. Foram trabalhados com os eixos da língua portuguesa (Brasil, 2017) oralidade, leitura, escrita, análise linguística e também ocorreu o processo de imaginação e criação na confecção de um livro coletivo.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Com base nos estudos teóricos foi elaborada uma prática de letramento por meio de uma sequência didática para cinco aulas com o Primeiro Ano dos Anos Iniciais. A turma em que ocorreu a ação foi o Primeiro Ano C, composta por 26 alunos, no período vespertino. A turma apresentava no momento níveis diferentes de leitura e escrita e crianças com laudos de Autismo e Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, tendo uma professora regente, professores de disciplinas específicas e monitor.
A sala de aula da turma era um espaço pequeno e contava com três armários nos fundos, onde os materiais ficam guardados, um nicho com alguns brinquedos disponíveis para uso coletivo e um cantinho com tapete. Resultando em pouco espaço para o movimento das crianças e atividades práticas e lúdicas. Fora da sala havia uma área coletiva coberta que é utilizada por toda a escola, a qual conta com crianças de Primeiro ao Nono Ano do Ensino Fundamental. Porém, essas dificuldades de espaço físico não impediram a realização da prática de letramento.
A proposta iniciou com a leitura mediada de dois livros de literatura infantil “O colecionador de palavras” de Peter Hamilton Reynolds, ilustrado pelo próprio autor e traduzido por Bruna Beber e “Mania de explicação” de Adriana Falcão com ilustrações de Mariana Massarani. O primeiro livro apresenta a história do menino Lucas e sua incrível coleção de palavras, nas quais ele se aventura, descobrindo as magias que elas são capazes de fazer, e o segundo é uma divertida brincadeira da autora com as explicações que as crianças dão para tudo. Os dois livros remetem a palavras que as crianças são capazes de proferir, à capacidade de explicar fenômenos da vida e a potência para imaginar e criar. Foram boas escolhas para partir de textos com a turma e provocar a participação e autoria. As atividades e leituras mediadas (Kleiman, 2014) integraram as crianças ao mundo letrado de forma lúdica e significativa. Após as leituras, uma em cada dia, foi realizada uma conversa sobre as palavras presentes nos textos dos livros e os significados empregados pelo narrador. A partir dai foi lançada a ideia de criar um livro coletivo com a turma, o qual foi intitulado “Mãos livres espalhando palavras pelo mundo”, inspirado na leitura dos dois livros de literatura infantil.
O livro coletivo nasceu de experimentações com as palavras, explorando o que elas dizem e os sentidos atribuídos à elas. A partir da pergunta norteadora “Quais palavras e significados vocês querem espalhar pelo mundo?”, iniciou a produção do livro. O processo de criação seguiu três etapas: a primeira consistiu em refletir sobre os sentidos e as palavras que cada criança escolheria, envolvendo oralidade e pensamento, a segunda envolveu a realização das ilustrações individuais, e a terceira, de forma coletiva, foi dedicada ao desenvolvimento dos desenhos.
Na primeira etapa, para garantir que o tema fosse bem compreendido, foram feitas perguntas e reflexões que ajudaram as crianças a se direcionarem para o início da atividade. Durante esse processo, surgiram muitas dúvidas, que foram sanadas com o auxílio individualizado. Dialogar com as crianças sobre um texto ou uma atividade a partir de um texto é fundamental para que o letramento ocorra. O professor que conduz a prática de letramento sabe que irá partir do texto, explorar oralidade, leitura, escrita e análise linguística, para no final chegar à construção de novos textos (Soares, 2022), que foi o que aconteceu durante essa prática que está sendo relatada.
A segunda etapa da construção do livro envolveu as criações artísticas e a escrita espontânea de cada aluno. Eles ilustraram suas preferências pessoais com base em suas vivências e individualidades como mostra a imagem a seguir.
Figura 1 - Escrita espontânea e ilustração para o livro coletivo
Os alunos que já estavam em um nível mais avançado de escrita começaram pelas palavras que haviam pensado e queriam registrar, seguidas de frases curtas que explicavam seus significados, para então realizar as ilustrações. Já as crianças que ainda necessitavam de auxílio para a escrita, iniciaram com as ilustrações, para depois escreverem as palavras.
Os desenhos e escritas das crianças demonstraram aquilo que a psicogênese da língua escrita apresenta (Ferreiro; Teberosky, 1991), cada criança evolui de nível de acordo com suas aprendizagens e desenvolvimento cognitivo. Nem todas estarão em um mesmo nível de escrita na alfabetização, mas, necessitam de interferências adequadas do professor para evoluir. Nessa fase é fundamental atividades de desenvolvimento da consciência fonológica e fonêmica, passando pelas rimas e consciência de sílaba (Morais, 2019), compreendendo os sons da fala que serão representados por grafemas (Soares, 2022). Também é fundamental o conhecimento das letras e as condições físicas e motoras para segurar o lápis e realizar o traçado adequado das letras. Por isso, que na alfabetização a corporeidade é muito importante, as atividades precisam ser lúdicas, envolver materiais concretos e práticas com movimento e brincadeiras (Piccoli; Camini, 2012), já que se trata de crianças. Todas as crianças participaram, mesmo aquelas que não sabiam escrever suas palavras, desenharam e registraram como conseguiam no momento, mostrando que desejam participar e se expressar.
Na terceira etapa foi feita a construção coletiva do livro, criando as capas e páginas. Diversos materiais foram disponibilizados para a confecção das páginas. A imagem a seguir mostra os materiais organizados para a etapa.
Figura 2 - Materiais para elaboração do livro coletivo
As páginas do livro foram feitas de papel pardo e as ilustrações das crianças em folha A4 foram coladas sobre elas. Todas as crianças participaram como autoras do livro usando criatividade e imaginação para representar os seus mundos. Durante esse processo, duas crianças foram chamadas por vez para ajudar na construção da capa do livro com tintas guache. As crianças demonstraram que desejam participar como sujeitos ativos e capazes de autoria. A ação das crianças durante a elaboração do livro mostra que elas são protagonistas do seu processo de aprendizagem (Edwards; Gandini; Forman, 2016), são capazes de imaginar e criar sustentando o desenvolvimento do pensamento (Vygotsky, 2018). Portanto, analisou-se que se as crianças tiverem oportunidade de participar ativamente elas farão e aprenderão de maneira significativa.
A montagem final do livro foi realizada posteriormente pelas estagiárias utilizando colagens das produções individuais das crianças, resultando na obra coletiva. Essas atividades proporcionaram um momento de interação e cooperação entre as crianças, além de contribuir significativamente para o desenvolvimento, especialmente, do processo de alfabetização.
A imagem a seguir mostra as páginas do livro coletivo com escritas e ilustrações das crianças que espalharam as suas palavras pelo mundo. Cada uma contribuiu com as palavras que conhece, cada criança se expressou com suas singularidades e preferências e da forma como conseguiu.
Figura 3 - Página do livro coletivo
A figura 3, mostra os desenhos e a escrita de duas crianças que proferiram palavras sobre a alegria, ilustrando e descrevendo aquilo que desperta alegria. Outras crianças optaram por escrever sobre outras emoções como a tristeza. Um dos alunos, ao ser provocado sobre o que gostaria de escrever, logo disse: “sobre o cervejinha”, e ao ser questionado sobre quem era o cervejinha ele respondeu: “Cervejinha era o meu cachorro, e ele morreu”. Em outro momento, outro aluno mostrou seu desenho de coração e disse que tinha escrito: “As pessoas tem que amar mais o mundo”. Os desenhos, escritas e as falas das crianças demonstram que são afetivas e desejam expressar emoções e sentimentos. As crianças são corpo e por isso a corporeidade precisa ser considerada na alfabetização (Piccoli; Camini, 2012), não somente o movimento do corpo é necessário, mas tudo que afeta a criança como as emoções.
Figura 4 - Página do livro coletivo
Entre os desenhos e escritas da turma os familiares e animais receberam destaque. As palavras proferidas envolveram afeto e as marcas positivas ou negativas que familiares e animais de estimação provocaram nas crianças. Na figura 4, a criança desenha o gato e um coração e escreve seu nome e algumas letras. Na frase escreve a percepção afetiva que tem com o gato. Outra criança ao ser questionada sobre quem havia desenhado respondeu: “Esse é meu pai, eu amo ele. Ele me dá carinho, comida e cuida de mim e da minha mãe.” A afetividade demonstrada pelas crianças é fundamental na aprendizagem, é preciso uma relação afetiva adequada com familiares e professores para que aprendizagens ocorram levando ao desenvolvimento. Outro aspecto analisado aqui é que a criança representa graficamente o que ela conhece, por meio das imagens mentais que tem, das coisas do cotidiano e do contato com o mundo letrado (Soares, 2022). O desenho é uma forma de representação e uma das atividades guia da criança (Vygotsky, 2018), necessitando estar presente no cotidiano, ser estimulado e possibilitado na escola. Dos desenhos nasce a escrita e em algumas crianças o desenho permanecerá e continuará na adolescência, em outras o desenho ficará estagnado após essa fase, mas ele cumpre seu papel de guia na criança.
A prática de letramento desenvolvida proporcionou muitas aprendizagens para as estagiárias. Observando as expressões criativas das crianças puderam constatar que todas têm palavras para proferir e capacidade para demonstrar, seja no desenho, na oralidade, na escrita de letras, palavras ou frases. Portanto, partir de textos possibilita alfabetizar letrando e oportuniza as crianças dizerem as palavras que desejam, considerando seus mundos, seus cotidianos, fazendo desta forma, uma alfabetização com significado para elas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O relato de experiência teve como objetivo refletir sobre a importância das práticas de letramento com crianças da fase de alfabetização nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, bem como, a relevância do protagonismo das crianças na aprendizagem. Por meio de uma pesquisa-ação durante a intervenção com regência no Componente Curricular Estágio Supervisionado I do Curso de Pedagogia Anos Iniciais foi desenvolvida a prática de letramento com o Primeiro Ano dos Anos Iniciais em uma escola da Rede Pública Municipal de Educação. Durante o estágio constatou-se a necessidade de práticas de letramento e protagonismo das crianças na construção da aprendizagem, e por esse motivo a ação foi planejada e desenvolvida.
Alguns desafios foram encontrados e superados. A sala de aula era pequena e sem espaço lúdico para leitura de livros de literatura infantil. As crianças demonstraram falta de hábito em ler e ouvir histórias sentadas em círculo, resultando em dispersão durante os primeiros momentos de leitura pelas estagiárias. Elas também demonstraram pouco apoio para criar e se expressarem, por isso, inicialmente queriam reproduzir as obras lidas. E outro grande desafio foi lidar com aulas descontínuas, interrompidas por outras disciplinas e atividades da escola. Mesmo com os desafios a prática aconteceu, mudanças foram necessárias no planejamento, mas as adaptações não prejudicaram a ideia principal. Apesar da falta de habito de mediação de leitura, a maioria das crianças interagiram muito bem durante os questionamentos após as histórias, e elas faziam contribuições e ficaram maravilhadas com os livros e a obra final criada coletivamente.
Os resultados mostram que é possível desenvolver uma prática de letramento na turma de alfabetização partindo de texto da literatura infantil, explorando oralidade, leitura, escrita e análise linguística, garantindo o direito que as crianças têm de aprender a língua escrita de forma lúdica e com usos sociais. Também é possível criar com as crianças um novo texto, um texto coletivo e significativo para elas, da qual sejam protagonistas.
O Estágio Supervisionado é um momento importantíssimo na formação dos futuros pedagogos. Essa oportunidade de estar com as crianças na fase de alfabetização e desenvolver uma prática de letramento, foi mais do que um aprendizado para as crianças, foi uma lição para as estagiárias de que quando é possibilitado às crianças participação ativa na construção da aprendizagem elas demonstram protagonismo, desejo de autoria e potência.
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1 Professora Dra. em Educação. Professora do Centro Universitário de Brusque - UNIFEBE. Líder da Linha de Pesquisa Cultura, Educação e Infâncias, do Grupo de Pesquisa GPOP UNIFEBE. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso de Pedagogia Anos Iniciais do Centro Universitário de Brusque - UNIFEBE. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Discente do Curso de Pedagogia Anos Iniciais do Centro Universitário de Brusque - UNIFEBE. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail