REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779913138
RESUMO
Este artigo analisa os efeitos de sentidos construídos através do discurso jornalístico do AGORA SANTA INÊS acerca das manifestações culturais maranhenses, mais especificamente as festas juninas focando na construção do imaginário e a tradição popular. Como aporte teórico é possível citar as contribuições de Michel Pêcheux 1975 e Eni Orlandi 2009, o estudo compreende o discurso como prática histórica, social e ideológica, atravessada por relações de poder e por condições de produção específicas. O estudo também foca nas reportagens publicadas entre maio e julho de 2025, período em que as festas juninas são preparadas e comemoradas. A pesquisa, de natureza qualitativa e caráter exploratório, busca compreender as posições discursivas e ideológicas assumidas pelo sujeito discursivo e como elas produzem sentido, também investiga o funcionamento do dito e do não dito e como eles influenciam a interpretação e o sentido através do silencio. Os resultados indicam que o jornal prioriza reportagens com o foco em gastos públicos, questionamentos políticos e críticas administrativas enquanto silencia a importância cultural, histórica e simbólica do São João, isso produz efeitos que deslocam as festas juninas enquanto dimensão cultural para uma dimensão política e econômica. O trabalho conclui assim que o discurso jornalístico analisado contribui significativamente para a construção de um imaginário fragilizado quanto a tradição popular maranhense ao diminuir sua complexidade simbólica refletindo o papel da mídia na construção da memória e identidade cultural.
Palavras-chave: Análise do Discurso; Discurso jornalístico; Efeitos de sentido; Imaginário; Festas juninas.
ABSTRACT
This article analyzes the effects of meaning constructed through the journalistic discourse of AGORA SANTA INÊS regarding the cultural manifestations of Maranhão, more specifically the June festivals, focusing on the construction of the imaginary and popular tradition. As a theoretical framework, the contributions of Michel Pêcheux (1975) and Eni Orlandi (2009) can be cited. The study understands discourse as a historical, social, and ideological practice, traversed by power relations and specific conditions of production. The study also focuses on reports published between May and July 2025, the period in which the June festivals are prepared and celebrated. The research, of a qualitative and exploratory nature, seeks to understand the discursive and ideological positions assumed by the discursive subject and how they produce meaning. It also investigates the functioning of the said and the unsaid and how they influence interpretation and meaning through silence. The results indicate that the newspaper prioritizes reporting focused on public spending, political questioning, and administrative criticism, while silencing the cultural, historical, and symbolic importance of São João (Saint John's Day). This produces effects that shift the June festivities from a cultural dimension to a political and economic one. The study concludes that the journalistic discourse analyzed significantly contributes to the construction of a weakened imaginary regarding the popular tradition of Maranhão by diminishing its symbolic complexity, reflecting the role of the media in the construction of cultural memory and identity.
Keywords: Discourse Analysis; Journalistic Discourse; Effects of Meaning; Imaginary; June Festivals.
1. INTRODUÇÃO
No estado do Maranhão a cultura popular é viva e forte é no mês de junho que acontece as festas juninas, com manifestações folclóricas como o tambor de crioula, dança do cacuriá, dança portuguesa, dança do coco e como destaque o bumba meu boi, sendo a maior manifestação folclórica e cultural do estado. A partir das representatividades da cultura popular o interesse científico despertam pesquisas nas áreas das Ciências sociais da antropologia ou qualquer outra ciência envolvendo temáticas específicas no diagnóstico e compreensão da formação cultural de um povo. Nesse sentido esse artigo propõe recorrer no campo da análise do discurso. Logo a forma de publicação interação informação em meio de comunicação como revistas jornais trabalhos científicas TVs mídias sociais entre outras configuram-se de diversas maneiras de divulgação e propaganda das festividades do Maranhão.
A concepção do princípio da cidadania cultural prevê que a sociedade busca o reconhecimento e a valorização dos bens culturais que possui exteriorização histórica e de cidadania de um determinado povo este artigo aborda o histórico, simbolismo e diversidade cultural popular do Estado do Maranhão com análise discursiva da contribuição do jornalismo midiático para a formação discursiva da tradição popular maranhense.
Considerando que o discurso midiático é um espaço de disputa simbólica e histórica de produção de sentidos, surge a problemática: de que forma os efeitos de sentidos desenvolvidos pela formação discursiva do texto jornalístico do jornal AGORA SANTA INÊS constituem o imaginário de tradição popular maranhense?
Como objetivo geral o artigo propõe investigar os efeitos de sentidos no discurso jornalístico do jornal AGORA SANTA INÊS que constituem a formação imaginaria de tradição popular maranhense. Sendo assim traçados os objetivos específicos 1) Analisar as posições discursivas do sujeito e suas manifestações linguísticas nas reportagens do AGORA SANTA INÊS. 2)Verificar as formações discursivas que são apresentadas no gênero textual jornalístico do AGORA SANTA INÊS e 3) Averiguar como os efeitos de sentidos são construídos a partir da posição enunciativa do sujeito do discurso.
Esse trabalho se justifica da necessidade de levar o ponto de vista da análise do discurso para uma relação de trabalho com o gênero discursivo jornalístico, a linguagem nunca será vista de forma objetiva, pois não podemos ter uma base de entendimento de que o texto jornalístico mesmo sendo tratado por sua realidade de atos e clareza, pois não se trata de entender o discurso como exato, mas analisar o pensar e o dizer do sujeito presentificado no discurso e posicionando-se em caráter determinante.
É nesse sentido que a pesquisa se enquadra na perspectiva da análise do discurso levando em consideração e percorrendo o da linha francesa e que Pêcheux define a formação discursiva e formação imaginaria enquanto aquilo que se pode ser em um determinado discurso.
Dessa maneira os estudos da análise do discurso dão início a uma discussão sobre a noção de ideologia. No caso das ideologias presentes no discurso jornalístico, não há ocultação de sentido, pelo contrário, os sujeitos assumem posições que permitem a incursão de suas ideologias nos discursos produzidos para compor a manifestação cultural popular através dos efeitos de sentido que contribuem para a construção do imaginário popular maranhense.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1. Discurso, Sentido e Imaginário
A análise do discurso de linha francesa compreende o discurso como a língua em funcionamento repleta de características simbólicas que são atravessadas pela história e ideologia. Então não se trata de estudar a língua como um sistema estático e sim como uma prática capaz de produzir sentidos de acordo com suas condições de produção. Conforme afirma CALIXTO (2024 p. 2) “a AD tem como objeto de estudo o discurso, a língua em funcionamento, a língua produzindo sentidos”.
Essa afirmativa evidencia que o sentido não é dado de forma transparente e imediata e sim construído através de um processo histórico e ideológico que atravessa o dizer, ou seja, o sentido não pode ser reduzido a dimensão puramente linguística como afirma PÊCHEUX (1997 APUD Calixto 2024) “raciocinar sobre a natureza desse funcionamento e assegurar que ele não é totalmente linguístico, pois também tem relação direta com suas condições de produção”.
Nessa perspectiva teórica o sujeito não é visto como como origem plena do discurso, ou seja, não é o ponto central apesar de sua importância, ele é percebido como um elemento constituído de formações ideológicas e de um domínio de saber que o rege. Para (CALIXTO 2024)
a língua para a análise do discurso contém um sujeito que se constitui a partir de uma formação ideológica, de um domínio de saber, entre outras inferências que esse outro olhar sobre a língua traz para os estudos da linguagem. (CALIXTO 2024 p. 2)
Dessa forma a análise do discurso desloca o foco para esse sujeito discursivo compreendendo que é através da linguagem que ele se constitui. Como afirma Orlandi (2009 pg. 15) “o discurso é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso, observa-se o homem falando”. O discurso é então uma prática social e histórica na qual o sujeito e o sentido são produzidos ao mesmo tempo. Então o sentido não depende apenas no sujeito e muito menos residem na palavra em si uma vez que para Pêcheux 1975 uma palavra não tem sentido próprio preso a sua literariedade, o sentido surge da relação entre língua, sujeito e condições de produção.
Os efeitos de sentidos não nascem da condição social do sujeito e sim da forma como essa condição é simbolicamente projetada e articulada dentro do discurso, no funcionamento do discurso o simbólico tem grande importância e é nesse deslocamento entre empírico e simbólico que o discurso produz sentido. De acordo com ORLANDI 2009
[...] todos esses mecanismos de funcionamento do discurso repousam no que chamamos formações imaginárias. Assim não são os sujeitos físicos nem os seus lugares empíricos como tal, isto é, como estão inscritos na sociedade, e que poderiam ser sociologicamente descritos, que funcionam no discurso, mas suas imagens que resultam de projeções. São essas projeções que permitem passar das situações empíricas - os lugares dos sujeitos - para as posições dos sujeitos no discurso. Essa é a distinção entre lugar e posição. ORLANDI (2009 p.40)
Então é possível compreender que o discurso, sentido e imaginário se entrelaçam de forma indissociável já que os sentidos são produzidos através das posições discursivas do sujeito e sustentada por formações ideológicas e imaginarias tornando-se assim parte um do outro e não podendo ser compreendido separadamente. É nesse sentido que o discurso é compreendido como prática histórica, social e simbólica marcada por relações de poder e por processos que estruturam o dizer.
2.2. Efeitos de Sentido: A Construção de Sentido Através do Silêncio
Na perspectiva discursiva o sentido não é transparente nem estável segundo (ROCHA 2022) “o sentido é movente e instável” uma vez que ele vai ser compreendido a partir de formações discursivas e ideológicas constituindo-se historicamente na relação ente sujeito, linguagem e ideologia.
Nesse sentido o silencio, o não dito não é percebido como ausência de algo e sim como um elemento constitutivo do próprio dizer, capaz de produzir significado. Como afirmam Boucher e Soares (2021pg.5) “Entre os não ditos pode-se mencionar o silêncio, pois este também carrega sentido”. Assim o silencio deixa de ser entendido como um vazio algo sem valor e passa a ser compreendido como elemento que participa ativamente da construção e formação dos efeitos de sentido tomando assim um papel fundamental na análise do discurso.
Essa teoria dialoga com a contribuição de Michel Pêcheux que afirma “há sempre um não dito no interior do que é dito (PÊCHEUX, 1990, p. 44 apud Silva et al 2011 p.4)), para o autor todo discurso é atravessado por memoria discursiva, isto é a presença de outro discurso para a compreensão deste, formações ideológicas e condições de produção que regem o que pode ou não ser dito. Dessa forma o sentido não é construído apenas linguisticamente, não é só o que está explicito, mas também o que foi silenciado pois é também o deslocamento, silencio e apagamento que constituem o funcionamento do discurso.
Essa compreensão também dialoga com reflexões de Michel Foucault quando ele afirma que “em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída” (FOUCAULT, 1999, p. 8-9). Tal controle na produção do discurso implica em processos de exclusão que delimitam quais vozes serão legitimas e quais serão silenciadas. O silencio nesse contexto pode ser entendido como efeito dessas relações de poder que permeiam o discurso, mostrando que aquilo que não é dito também participa da construção de sentido.
Assim compreender os efeitos de sentido através do silenciamento implica reconhecer que o discurso é perpassado por processos de apagamento, silencio e memoria discursiva. O não dito está longe de ser um vazio, pelo contrário, é cheio de significado que se torna uma dimensão fundamental na produção e compreensão do sentido dentro do discurso e evidencia que o sentido se constrói tanto pelo que é enunciado quanto pelo que é silenciado.
2.3. A Análise do Discurso: Cultura e Mídia
A análise do discurso é um campo que permite um estudo aprofundado e com muitas ramificações, ao falar de cultura por exemplo é possível percebê-la como um espaço para produção de sentido uma vez que a sua compreensão no âmbito discursivo vai além um conjunto de prática ou manifestações simbólicas. Assim toda representação cultural é composta por valores e disputas simbólicas evidenciando que a cultura, assim como a língua, não é neutra, e sim um espaço de construção de sentido. Ao entender a cultura como um campo normativo conforme discutido por amado 2010:
Se pensarmos a cultura como um ‘campo normativo’ 8, cujo termo relaciona-se com as práticas de organização simbólica de construção do sentido e de relacionamento do sujeito cultural com o seu real9, perceberemos como a própria terminologia, “campo normativo”, nos sugere que a noção de cultura está diretamente relacionada a regras, discursos e sanções positivas e/ou negativas. AMADO (2010 p. 360)
Essa perspectiva conversa com a análise do discurso principalmente quando se entende que os sentidos não são dados, mas historicamente produzidos em determinada condição de produção, regras. Assim os valores que estruturam a cultura são efeitos de formações discursivas que estabelecem o que pode ou não ser dito. Sendo assim todas as formas de manifestações culturais regidas por regras, sejam elas regionais ou não são importantes para o estudo da análise do discurso, pois carregam valor inestimável como afirma AMADO (2010 p. 360) “Portanto, toda representação cultural está carregada de valores incalculáveis”.
Outro elemento de grande importância para a análise do discurso é a mídia como afirma GREGOLIN (2007 p.13) “A articulação entre os estudos da mídia e os de análise do discurso enriquece dois campos que são absolutamente complementares, pois ambos têm como objeto as produções sociais de sentidos.”. A mídia é um espaço privilegiado para a circulação do discurso, pois produz interpretações sobre acontecimentos, produzindo efeitos até mesmo ao silenciá-los, além de ser um fator importante para a formação histórica de presente, passado e futuro. Segundo GREGOLIN (2007),
Na sociedade contemporânea, a mídia é o principal dispositivo discursivo por meio do qual é construída uma “história do presente” como um acontecimento que tensiona a memória e o esquecimento. É ela, em grande medida, que formata a historicidade que nos atravessa e nos constitui, modelando a identidade histórica que nos liga ao passado e ao presente. (GREGOLIN 2007 p.16)
Seguindo essa perspectiva a mídia é responsável por ditar o que o público vai saber e aquilo que será silenciado, moldando assim a história, a política e até mesmo a cultura, dando espaço para inúmeras interpretações como afirma Orlandi (1998, p.16 apud CYRRE 2013 pg.44) diz que “a mídia é lugar de interpretação, ela rege a interpretação para mobilizá-la”. Daí, passamos a investigar como os sentidos são apresentados e como são construídos os acontecimentos [...]”
Desse modo a análise do discurso no meio cultural, midiático e jornalístico é uma ferramenta de grande valor para a compreensão dos efeitos de sentido produzidos através da mídia e cultura, além de ter um papel fundamental para a formação de memória e identidade cultural de um povo.
3. METODOLOGIA
Para o desenvolvimento deste estudo, foram adotados instrumentos para validação das concepções dos principais autores e publicações científicas recentes que abordam a temática que subsidia a revisão bibliográfica. Temos a pesquisa bibliográfica como fontes e bibliografia já tornada pública em relação ao tema evidenciado. Sendo assim, a base para coleta de dados foram livros e periódicos.
A pesquisa, no que tange à conquista dos objetivos, é de caráter exploratório com vista a demonstrar de que maneira o texto jornalístico do AGORA SANTA INÊS contribui para o desenvolvimento da formação discursiva da tradição popular maranhense. Assim, este trabalho realizou uma análise de discurso, em que o foco foi analisar os dados de caráter qualitativo no tocante ao desenvolvimento das análises de reportagem jornalísticos.
Partindo do pressuposto de que podemos analisar os textos jornalísticos na perspectiva da AD – como foco na análise linguística discursiva dos textos do jornal AGORA SANTA INÊS, a partir da subjetividade discursiva materializadas nos textos das reportagens- levantamos alguns questionamentos para a compreensão da contribuição discursiva do gênero discursivo jornalístico para a formação discursiva da tradição popular maranhense:
Quais as posições discursivas do sujeito e suas manifestações linguísticas nas reportagens do AGORA SANTA INÊS?
Quais formações discursivas foram apresentadas no gênero textual jornalísticos do AGORA SANTA INÊS?
Quais efeitos de sentidos foram construídos a partir da posição enunciativa do sujeito no discurso?
Como os efeitos de sentido desenvolvidos pelas formações discursivas dos textos do AGORA SANTA INÊS constituem o imaginário de tradição popular maranhense?
Como já citado, a pesquisa teve em suas analises os textos jornalísticos do portal AGORA SANTA INÊS, entre os meses de maio/2025 e julho/2025.
As análises são apresentadas primeiramente na integra, para que o leitor possa conhecer e ver a estrutura poética e textual. Em seguida, as análises acontecem a partir de cada manifestação linguística estabelecida, por meio das escolhas lexicais, pontuando a construção de efeitos de sentido.
Com a posse dos principais pontos observados no estudo, adotamos a análise de discurso para fragmentos dos textos abordados em discurso. Conforme Orlandi (2009), isso favorece uma observação na íntegra dos discursos do sujeito- elemento que possui forte interferência no desenvolvimento do conhecimento.
Assim, o material de análise teve como amostra os textos jornalísticos do AGORA SANTA INÊS, porque acredita-se que essa contempla e responde ao objeto deste estudo, pois será por este caminho da AD que iremos romper a concepção de sentido como projeto do autor, e a ideia de um sentido original a ser descoberto, e atentar para os efeitos de sentidos e de construção histórico, social e imaginário.
4. ANÁLISE DE DADOS
Essa análise tem como foco as matérias publicadas pelo jornal AGORA SANTA INÊS principalmente nos meses maio, junho e julho que é quando ocorrem os preparativos e a comemoração das festas juninas, festividades que tem grande destaque no Maranhão e mostram a riqueza, identidade e cultura de um povo.
A análise do discurso tem como foco o discurso, a língua, aquilo que é dito. Mas diferente do que possa parecer não é apenas o que é dito que carrega sentido, mas também o não dito, o silêncio no discurso, a falta de algo. Segundo ORLANDI (2009 p.83-84) “O que não é dito, o que é silenciado constitui igualmente o sentido do que é dito”. Então o discurso é constituído do dito e do não dito e ambos produzem sentido, afinal o silêncio não é vazio ele também busca comunicar algo. ORLANDI (2009 p.84) ainda complementa sua fala ao afirmar “As palavras acompanham de silêncio e são elas mesmas atravessadas de silêncio” aqui Orlandi deixa claro nenhuma palavra diz tudo, todas elas carregam lacunas que possibilita inúmeras interpretações através desse silencio, assim ao ler algo o leitor preenche essa ausência com base em seu conhecimento e sua memória discursiva, a partir desses pontos é percebido a importância do dito e do não dito para a análise do discurso.
No período analisado, o jornal privilegia a publicação de matérias que associam as festas juninas a política, mais especificamente aos gastos públicos, questionamentos políticos e suspeitas administrativas, enquanto silencia os aspectos culturais, históricos e simbólicos da festividade que é o que preserva essas festas como identidade do povo maranhense. Esse “apagamento” discursivo da importância cultural do São João produz um efeito de sentido que reduz a festa a apenas um evento econômico e político, visando enaltecimento de candidatos e tirando assim o seu valor enquanto patrimônio imaterial e expressão da cultura popular.
A ausência de reportagens que mostram a valorização das práticas culturais juninas contribui para a construção de um imaginário discursivo no qual essa tradição maranhense aparece fragilizada e descredibilizada, pois não dá a devida importância para a parte simbólica do São João, como a participação popular, os grupos culturais, os mitos folclóricos, os saberes do povo e a memória coletiva. Esses efeitos de sentido é o resultado de uma formação discursiva que prioriza a denúncia política e desvaloriza a cultura local. Esse apagamento do São João nas matérias jornalísticas reduz sua importância cultural formando um imaginário em que as festas juninas aparecem como apenas mais um gasto da prefeitura com o dinheiro público e não como um investimento cultural e social. Todos esses efeitos de sentidos são produzidos através do dito e do não dito em discursos midiáticos e influenciam diretamente na formação imaginaria popular. Segundo Boucher e Soares (2021 p.213)
Há no discurso midiático uma produção de sentidos muito mais densa pela qual o sujeito-leitor é influenciado, não só pelo que está explícito ou até mesmo implícito no texto, mas também por aquilo que está em silêncio, produzindo sentidos ou os apagando. (Boucher e Soares 2021 p.213)
Na perspectiva da AD o leitor não interpreta o texto apenas pelo conteúdo explicito, mas também pelo implícito, aquilo que está em silêncio, pois o sentido não se constrói apenas através das palavras visíveis no texto jornalístico, ele é influenciado pela ausência, pelo silencio e até mesmo pelo apagamento que atravessam o discurso. O que reforça a perspectiva pêcheuxtiana sobre o funcionamento do não dito no interior do que é dito.
“Essa é uma pergunta que todos estão se fazendo em Santa Inês, pelo menos os que não tem obrigação de bater palmas para reis e rainhas sem coroas que querem se perpetuar no poder. Outro questionamento, que inclusive deveria ser feito pelo Ministério Público e pela Câmara Municipal coisa que jamais fará é como o São João (as festas juninas) que são comemoradas em todo o Brasil no mês de junho, aqui em Santa Inês acontecerá no mês de julho. Logo não seria o São João, mas o "São Julhão". Voltando a primeira pergunta; quanto vai custar a brincadeira com atrações como Tarcísio do Acordeon cujo cachê seria em torno de 450 mil, Banda Seu Desejo, 350 mil, Zezo 250 mil, Joelma 300 mil, isso fora som, palcos, luz, camarotes, barracas e outros gastos. O pacote pode ficar na casa de 2 milhões de reais”, sinalizou ao agora Santa Inês, um aliado do grupo prefeitural que prefere se manter no anonimato. É o besta! Mas segundo uma tabela de preços dos cachês pagos para um São João no sertão pernambucano – do lado de onde moram esses artistas- os valores são esses mesmos. E vejam que em junho todos estão na estrada, são cidades próximas umas das outras, mas em julho, estarão saindo de suas cidades para viajar até Santa Inês para uma única apresentação. É mais barato? É aí que o tema é uma boa pauta para o MP e outras autoridades.
Nessa reportagem publicada pelo AGORA SANTA INÊS é possível observar que o autor toma uma posição discursiva de questionamento e crítica em relação aos valores gastos nas festas juninas, não critica as festividades em si, e sim os gastos tidos pela prefeitura para trazer artistas famosos para essa atração que ainda segundo o autor não seria festa junina uma vez que seriam realizadas no mês de julho.
Essa posição pode ser observada a partir dos seguintes questionamentos: quanto vai custar o São João (fora de época) da rainha para a prefeitura de Santa Inês? e “é mais barato?” O autor também utiliza expressões como “bater palmas para reis e rainhas sem coroas que querem se perpetuar no poder” para explicitar sua posição crítica em relação a gestão dos recursos públicos e utiliza uma menção ao ministério público para cobrar transparência com os gastos e fiscalização.
Em momento algum as festividades são expostas como movimento cultural, sempre como ferramenta para criticar o mandato atual, silenciando assim a sua importância e o seu valor enquanto patrimônio cultural e identidade de um povo. Essa matéria mostra como o silencio a respeito da importância da festa junina enquanto cultura constrói um efeito de sentido que enxerga o São João apenas como mais um movimento que incentiva o gasto de dinheiro público, ou seja, ele é retratado como um elemento político restringindo assim o seu significado e grandiosidade.
5. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A análise das reportagens publicadas entre maio e julho de 2025 revelam que o jornal AGORA SANTA INÊS constrói um discurso crítico em relação aos investimentos públicos que dentro do discurso é percebido como gastos em relação as festividades juninas. As reportagens privilegiam questionamentos em relação aos valores gastos e possíveis interesses políticos silenciando assim a importância do São João enquanto manifestação cultural e identidade maranhense.
Os efeitos de sentido produzidos através da ausência dessas reportagens mostram que a ausência não é o vazio e sim a construção de algo, no caso das reportagens do AGORA SANTA INÊS é um efeito de sentido que constrói um cenário no qual as festas juninas não têm tanta importância e não é um espaço privilegiado enquanto cultura e memória de um povo.
A partir da perspectiva teórica da AD observa-se que esse silenciamento não é uma escolha neutra e sim resultado de uma formação discursiva que mostra o São João como elemento político e econômico e desmoraliza essas festividades como patrimônio simbólico e cultural. Enquanto isso as festas juninas continuarão sendo tradadas como objeto de críticas políticas ao invés de serem festejadas e vistas como cultura o que ela realmente é.
6. CONCLUSÃO
A partir da análise desenvolvida é possível compreender que o discurso jornalístico do jornal AGORA SANTA INÊS tem um papel fundamental para ascender debates a respeito da construção do imaginário a partir da analise discursiva das reportagens do jornal. Assim esse trabalho conclui que sob a perspectiva da análise do discurso de linha francesa o sentido não está apenas naquilo que é dito, mas também no que é implícito, apagado ou silenciado sendo espaço para construção de sentidos.
O jornal é um dos principais veículos de informação responsável pela propagação de informações que irá definir como o discurso carregado de história e ideologia chegará ao publico produzindo efeitos de sentido, formando o imaginário e construindo assim memória.
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1 Graduanda em Letras – Inglês/Português e Literaturas, Universidade Estadual do Maranhão – UEMA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Doutorando em Letras – Estudos da Linguagem – Universidade Federal do Maranhão – FURG. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail