REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787803728
RESUMO
A poesia de Vinicius de Moraes constitui um espaço privilegiado para a compreensão das relações entre linguagem, história e ideologia. Partindo dessa perspectiva, este artigo analisa os poemas Operário em Construção e Rosa de Hiroshima sob o enfoque da Análise do Discurso de linha francesa, articulando contribuições de Michel Pêcheux, Dominique Maingueneau, Eni Orlandi e Mikhail Bakhtin. O objetivo consiste em compreender de que maneira os processos de intertextualidade e interdiscursividade participam da construção dos sentidos presentes nessas obras, evidenciando como diferentes formações discursivas dialogam, confrontam-se e produzem efeitos de significação. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza bibliográfica e interpretativa, fundamentada em referenciais da Linguística Textual, da Análise do Discurso e dos estudos sobre dialogismo. As análises demonstram que os poemas selecionados transcendem a dimensão estética ao incorporarem discursos religiosos, políticos, sociais e históricos que se articulam na constituição de uma crítica às relações de poder, à exploração do trabalho e aos impactos da violência produzida pela guerra. Conclui-se que a poesia de Vinicius de Moraes revela a literatura como prática discursiva capaz de mobilizar memórias coletivas, produzir novas interpretações da realidade e ampliar as possibilidades de leitura do texto literário para além de sua materialidade linguística.
Palavras-chave: Análise do Discurso; Intertextualidade; Interdiscursividade; Vinicius de Moraes; Poesia.
ABSTRACT
The poetry of Vinicius de Moraes offers a privileged space for understanding the relationships between language, history, and ideology. From this perspective, this article analyzes the poems “Operário em Construção” and “Rosa de Hiroshima” using the French school of Discourse Analysis, drawing on the contributions of Michel Pêcheux, Dominique Maingueneau, Eni Orlandi, and Mikhail Bakhtin. The aim is to understand how the processes of intertextuality and interdiscursivity contribute to the construction of meaning in these works, highlighting how different discursive formations engage in dialogue, clash, and generate signifying effects. This is a qualitative study of a bibliographic and interpretive nature, grounded in frameworks from Text Linguistics, Discourse Analysis, and dialogism studies. The analysis demonstrates that the selected poems transcend the aesthetic dimension by incorporating religious, political, social, and historical discourses; these discourses combine to critique power relations, labor exploitation, and the impact of war-induced violence. The study concludes that Vinicius de Moraes’s poetry reveals literature as a discursive practice capable of mobilizing collective memories, generating new interpretations of reality, and expanding the possibilities for reading literary texts beyond their linguistic materiality.
Keywords: Discourse Analysis; Intertextuality; Interdiscursivity; Vinícius de Moraes; Poetry.
1. INTRODUÇÃO
A literatura constitui um dos espaços privilegiados de produção, circulação e ressignificação dos discursos sociais. Muito além da dimensão estética, o texto literário dialoga continuamente com a história, a cultura e as ideologias que atravessam uma determinada sociedade, estabelecendo relações permanentes com outros textos, outras vozes e outras formas de representação do mundo. Sob essa perspectiva, compreender um texto literário implica reconhecer que os sentidos nele produzidos não decorrem exclusivamente da organização linguística, mas resultam das múltiplas relações estabelecidas entre memória discursiva, contexto histórico e posições ideológicas assumidas pelos sujeitos da enunciação.
Nesse horizonte teórico insere a Análise do Discurso de linha francesa, desenvolvida inicialmente por Michel Pêcheux na década de 1960. Ao deslocar o foco da língua enquanto sistema para o funcionamento do discurso, essa perspectiva rompe com a ideia de neutralidade da linguagem e passa a compreendê-la como prática social, historicamente situada e atravessada pelas relações de poder. Nessa concepção, os sentidos não são fixos nem transparentes, mas constituídos na interação entre sujeitos inscritos em determinadas formações ideológicas, cuja materialização ocorre por meio das formações discursivas (PÊCHEUX, 1995).
Essa compreensão aproxima-se das reflexões de Bakhtin (2011), para quem nenhum discurso existe de forma isolada. Toda enunciação responde a enunciados anteriores e antecipa possíveis respostas futuras, constituindo aquilo que o autor denomina dialogismo. Assim, qualquer produção textual é permeada por outras vozes que se entrecruzam, complementam-se ou entram em conflito, conferindo ao texto uma natureza essencialmente polifônica. Dessa forma, a leitura deixa de ser concebida como simples decodificação de informações para assumir a condição de processo interpretativo, no qual o leitor mobiliza conhecimentos históricos, culturais e discursivos na construção dos sentidos.
Dentro desse cenário, a poesia de Vinicius de Moraes revela-se particularmente fecunda para investigações discursivas. Reconhecido como um dos principais representantes da literatura brasileira do século XX, o poeta transitou por diferentes fases de produção, consolidando uma obra marcada tanto pelo lirismo amoroso quanto pelo compromisso com questões sociais e humanitárias. Em sua fase de maior engajamento político, especialmente entre as décadas de 1950 e 1960, Vinicius amplia o alcance de sua escrita ao incorporar reflexões sobre desigualdade social, exploração do trabalho, violência, guerra e dignidade humana, transformando a poesia em espaço de denúncia e de resistência.
Entre as obras que melhor representam essa dimensão social destacam-se os poemas Operário em Construção (1956) e Rosa de Hiroshima (1954). Embora tratem de acontecimentos distintos, ambos estabelecem intenso diálogo com discursos históricos e culturais que ultrapassam a dimensão literária. No primeiro, a narrativa poética acompanha o processo de conscientização política de um trabalhador que rompe com a alienação e passa a compreender sua posição dentro das relações de produção capitalista. No segundo, a tragédia provocada pela bomba atômica lançada sobre Hiroshima converte-se em símbolo universal da destruição, da desumanização e da necessidade de construção de uma cultura de paz.
A força desses poemas reside precisamente na maneira como mobilizam diferentes memórias discursivas. Em Operário em Construção, observa-se a incorporação de elementos provenientes do discurso religioso, especialmente da tradição bíblica, que são ressignificados para sustentar uma crítica às estruturas de dominação econômica e social. Já em Rosa de Hiroshima, discursos científicos, históricos, políticos e humanitários entrelaçam-se para construir uma poderosa metáfora da devastação causada pelo avanço tecnológico empregado como instrumento de guerra. Em ambos os casos, a intertextualidade e a interdiscursividade não aparecem como simples recursos estilísticos, mas como mecanismos constitutivos da produção dos sentidos.
Nesse contexto, este artigo tem como objetivo analisar de que maneira os processos de intertextualidade e interdiscursividade participam da construção discursiva dos poemas Operário em Construção e Rosa de Hiroshima, evidenciando as relações estabelecidas entre linguagem, memória, ideologia e história. Busca-se compreender como diferentes formações discursivas são mobilizadas por Vinicius de Moraes para produzir efeitos de significação que ultrapassam o plano estritamente literário, conferindo à poesia uma dimensão crítica capaz de interpelar o leitor e provocar novas formas de compreensão da realidade social.
Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e interpretativa, fundamentada nos pressupostos da Análise do Discurso francesa, da Linguística Textual e da teoria dialógica da linguagem. O corpus é constituído pelos poemas Operário em Construção e Rosa de Hiroshima, analisados à luz das contribuições de Michel Pêcheux, Dominique Maingueneau, Eni Orlandi, Mikhail Bakhtin e outros estudiosos que discutem a constituição dos sentidos na linguagem.
Ao privilegiar uma leitura discursiva dessas obras, pretende-se demonstrar que a poesia de Vinicius de Moraes permanece atual justamente por articular diferentes vozes sociais, históricas e ideológicas, produzindo textos cuja riqueza interpretativa se renova a cada leitura. Assim, mais do que manifestações estéticas, seus poemas configuram práticas discursivas que problematizam as relações de poder, convocam a memória coletiva e reafirmam o papel da literatura como espaço de reflexão crítica sobre a condição humana.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1. Análise do Discurso: Linguagem, História e Ideologia
A Análise do Discurso (AD), desenvolvida na França a partir da década de 1960, representa um importante deslocamento em relação aos estudos linguísticos centrados exclusivamente na estrutura da língua. Ao propor que a linguagem deve ser compreendida em sua materialidade histórica e ideológica, Michel Pêcheux inaugura uma perspectiva segundo a qual os sentidos não estão prontos nas palavras, mas são produzidos nas relações entre sujeitos, discursos e condições de produção. A língua deixa de ser concebida como um sistema autônomo para ser entendida como prática social, atravessada pelas disputas políticas, pelos conflitos ideológicos e pelas diferentes posições ocupadas pelos sujeitos na sociedade (PÊCHEUX, 1995).
Essa mudança de paradigma amplia significativamente as possibilidades de interpretação do texto literário. Em vez de restringir a análise aos aspectos formais da linguagem, a AD busca compreender como os discursos se constituem historicamente e como determinados sentidos se estabilizam ou se transformam em diferentes contextos sociais. Conforme observa Orlandi (2020), interpretar um discurso significa considerar as condições históricas de sua produção, os sujeitos envolvidos na enunciação e os processos ideológicos que atravessam o dizer.
Nessa perspectiva, o discurso não corresponde simplesmente ao conteúdo expresso por um texto, mas ao conjunto de relações que o torna possível. Cada enunciado está inserido em determinadas formações discursivas, entendidas por Pêcheux (1995) como conjuntos relativamente estáveis de regras que delimitam aquilo que pode ou deve ser dito em determinada conjuntura histórica. Essas formações não são homogêneas nem imutáveis; ao contrário, constituem espaços de tensão permanente, onde diferentes posições ideológicas disputam legitimidade e produzem sentidos distintos para uma mesma realidade.
Essa compreensão afasta a ideia de que o sujeito controla integralmente aquilo que diz. Para a AD, o sujeito é constituído pelo próprio discurso e pela ideologia, razão pela qual suas escolhas linguísticas refletem não apenas intenções individuais, mas também processos históricos e sociais que antecedem sua fala. Conforme afirma Orlandi (2020), o sujeito acredita ser a origem do próprio dizer, quando, na verdade, sua enunciação é atravessada por discursos anteriores que condicionam tanto aquilo que pode ser formulado quanto os efeitos de sentido produzidos.
Na poesia de Vinicius de Moraes, essa concepção torna-se particularmente evidente. Seus poemas não expressam apenas uma sensibilidade individual; eles incorporam discursos provenientes de diferentes esferas da vida social, permitindo que conflitos políticos, religiosos, econômicos e culturais sejam reelaborados poeticamente. A literatura, nesse contexto, transforma-se em espaço privilegiado para observar como diferentes formações discursivas dialogam, confrontam-se e produzem novas interpretações da realidade.
Em Operário em Construção, por exemplo, a consciência política do trabalhador não surge de maneira espontânea, mas é construída ao longo da narrativa mediante o confronto entre o discurso da dominação e o discurso da emancipação. O poema evidencia que as relações de trabalho são sustentadas por mecanismos ideológicos capazes de naturalizar a desigualdade social, ao mesmo tempo em que demonstra a possibilidade de ruptura dessa lógica quando o sujeito passa a compreender criticamente sua posição no mundo.
Situação semelhante ocorre em Rosa de Hiroshima. A crítica à guerra ultrapassa a simples descrição da destruição provocada pela bomba atômica e assume caráter simbólico, incorporando discursos científicos, históricos, éticos e humanitários. O poema converte um acontecimento histórico específico em metáfora universal da violência produzida pela racionalidade técnica quando dissociada dos princípios éticos da convivência humana.
Esses exemplos demonstram que os poemas analisados não podem ser compreendidos apenas por sua dimensão estética. A construção dos sentidos depende das relações estabelecidas entre linguagem, memória, história e ideologia, fundamentos centrais da Análise do Discurso.
2.2. Intertextualidade e Interdiscursividade na Construção dos Sentidos
Entre os conceitos fundamentais para a compreensão da linguagem literária destacam-se a intertextualidade e a interdiscursividade. Embora frequentemente utilizados como sinônimos, esses termos designam fenômenos distintos, ainda que complementares, no processo de produção dos sentidos.
O conceito de intertextualidade ganhou notoriedade a partir dos trabalhos de Julia Kristeva (1974), fortemente influenciada pelo pensamento de Mikhail Bakhtin. Segundo essa perspectiva, nenhum texto nasce isoladamente; toda produção textual estabelece relações com outros textos que a antecedem, seja por meio de citações explícitas, alusões, paráfrases ou referências implícitas. O texto passa, assim, a ser compreendido como um espaço de encontro entre diferentes vozes e diferentes tradições discursivas.
Essa concepção rompe definitivamente com a ideia de originalidade absoluta da obra literária. Escrever significa sempre dialogar com uma memória textual já existente, apropriando-se dela, transformando-a ou contestando-a. Koch, Bentes e Cavalcante (2012) observam que a intertextualidade constitui um dos principais mecanismos responsáveis pela construção da coerência textual, uma vez que mobiliza conhecimentos compartilhados entre autor e leitor.
No caso da poesia de Vinicius de Moraes, a intertextualidade manifesta-se de forma recorrente. Em Operário em Construção, observa-se a incorporação de elementos provenientes da tradição bíblica, especialmente do episódio da tentação de Cristo narrado nos Evangelhos. Contudo, a referência religiosa não é reproduzida literalmente; ela é ressignificada para construir uma crítica às formas contemporâneas de exploração do trabalho e às relações de dominação presentes na sociedade capitalista.
Ao reconhecer essas referências, o leitor amplia sua compreensão do texto, percebendo que o poema não se limita à narrativa do operário, mas dialoga com valores culturais profundamente enraizados na tradição ocidental. A memória religiosa passa, assim, a funcionar como estratégia discursiva capaz de intensificar os efeitos de sentido produzidos pela narrativa poética.
Entretanto, a riqueza interpretativa desses poemas não decorre apenas da presença de outros textos, mas sobretudo da interação entre diferentes discursos sociais. É nesse ponto que se torna necessário recorrer ao conceito de interdiscursividade.
Para Maingueneau (2008), todo discurso mantém relações permanentes com outros discursos, mesmo quando essas relações não aparecem explicitamente no texto. O discurso constitui-se precisamente nesse espaço de diálogo, confronto, complementação ou oposição entre diferentes posições ideológicas. Não existe discurso completamente autônomo; cada enunciação responde a discursos anteriores e antecipa possíveis respostas futuras.
A interdiscursividade revela-se, portanto, como condição constitutiva da linguagem. Segundo Orlandi (2020), todo dizer é atravessado por uma memória discursiva que antecede o sujeito e orienta as possibilidades de significação. Dessa forma, aquilo que parece novo frequentemente resulta da reorganização de discursos já existentes em outros contextos históricos.
Na obra de Vinicius de Moraes, essa dinâmica manifesta-se de maneira intensa. Em Operário em Construção, confrontam-se o discurso religioso, o discurso político, o discurso econômico e o discurso sindical. Nenhum deles aparece isoladamente; todos participam da construção do conflito central do poema, representado pelo processo de conscientização do trabalhador diante das estruturas de exploração.
Já em Rosa de Hiroshima, articulam-se discursos científicos, militares, pacifistas, históricos e humanitários. A imagem da rosa sintetiza essas múltiplas vozes, transformando-se simultaneamente em símbolo da beleza, da destruição, da memória e da denúncia. O efeito poético nasce justamente da tensão produzida entre esses diferentes campos discursivos.
Essa articulação confirma uma das principais contribuições de Bakhtin (2011): toda linguagem é essencialmente dialógica. Cada palavra carrega ecos de outras palavras, de outros sujeitos e de outras experiências históricas. A literatura, longe de representar um universo fechado em si mesmo, constitui espaço privilegiado de circulação dessas vozes, permitindo que diferentes discursos se encontrem, se confrontem e produzam novas possibilidades de interpretação.
Sob essa perspectiva, a poesia de Vinicius de Moraes revela-se muito mais do que expressão subjetiva do poeta. Seus textos configuram práticas discursivas complexas, nas quais memória, história, ideologia e linguagem se entrelaçam para construir uma reflexão crítica sobre a condição humana. A intertextualidade e a interdiscursividade deixam de ser apenas recursos formais e passam a desempenhar papel fundamental na constituição dos sentidos, tornando possível compreender como a literatura participa da produção de conhecimentos sobre a sociedade e sobre o próprio sujeito.
3. METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, fundamentada na interpretação discursiva de textos literários. O percurso metodológico ancora-se nos pressupostos da Análise do Discurso de linha francesa, especialmente nas contribuições de Michel Pêcheux, articuladas às reflexões de Dominique Maingueneau, Eni Orlandi e Mikhail Bakhtin acerca da constituição dos sentidos, do dialogismo e da heterogeneidade discursiva. Complementam esse referencial aportes da Linguística Textual, particularmente no que se refere aos estudos sobre intertextualidade desenvolvidos por Koch, Bentes e Cavalcante (2012).
O corpus da pesquisa é constituído pelos poemas Operário em Construção e Rosa de Hiroshima, ambos pertencentes à fase social da produção literária de Vinicius de Moraes. A escolha dessas obras decorre de sua relevância para a compreensão da dimensão política assumida pela poesia do autor a partir da década de 1950, período em que sua produção passa a evidenciar preocupações relacionadas à desigualdade social, à exploração do trabalho, à violência e à defesa da dignidade humana.
A análise foi conduzida considerando três eixos articulados. O primeiro consistiu na identificação das formações discursivas predominantes em cada poema, observando os diferentes lugares ideológicos ocupados pelos sujeitos da enunciação. O segundo eixo concentrou-se na investigação das relações intertextuais estabelecidas com outros textos pertencentes à tradição religiosa, histórica e cultural. Por fim, buscou-se compreender de que maneira essas relações produzem efeitos de sentido capazes de ampliar a dimensão crítica da obra poética.
Mais do que descrever recursos linguísticos, a proposta consistiu em compreender como a linguagem literária se constitui como prática social. Assim, a análise não se restringe à estrutura formal dos poemas, mas considera suas condições de produção, os discursos mobilizados e as memórias históricas que sustentam sua construção simbólica. Essa perspectiva permite compreender a poesia como espaço de circulação de diferentes vozes sociais, nas quais se manifestam conflitos ideológicos, disputas de poder e processos de resistência.
4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
4.1. A Construção da Consciência Social em Operário em Construção
Entre as produções de caráter social de Vinicius de Moraes, Operário em Construção ocupa lugar singular por apresentar, em forma narrativa, o processo de transformação da consciência de um trabalhador diante das relações de exploração que estruturam a sociedade capitalista. O poema ultrapassa a denúncia das desigualdades econômicas e constrói uma reflexão sobre a alienação, a consciência de classe e o poder transformador do conhecimento.
Desde seus versos iniciais, observa-se a construção de um sujeito que desconhece a dimensão histórica do próprio trabalho. O operário participa da edificação da cidade, mas permanece incapaz de perceber sua condição enquanto agente fundamental da produção material da sociedade. Essa alienação constitui precisamente o ponto de partida da narrativa.
Ao longo do poema, entretanto, ocorre um deslocamento discursivo. A personagem deixa de reconhecer apenas o produto de seu trabalho e passa a compreender sua participação nas estruturas sociais que sustentam a riqueza produzida. Essa mudança de percepção representa aquilo que Pêcheux (1995) compreende como deslocamento entre formações discursivas. O sujeito passa a ocupar outra posição ideológica, reinterpretando a realidade a partir de novos referenciais de sentido.
Nesse processo, Vinicius de Moraes constrói um percurso marcado por sucessivas descobertas. O operário compreende que a cidade, os edifícios, os objetos de consumo e até mesmo o conforto desfrutado pelas classes dominantes resultam diretamente do trabalho daqueles que permanecem invisíveis no processo produtivo. A repetição dessa percepção produz um efeito cumulativo que conduz à tomada de consciência expressa simbolicamente pela palavra "não", pronunciada pelo personagem diante das tentativas de submissão.
Esse "não" constitui um dos momentos centrais do poema. Mais do que uma negativa individual, ele representa a ruptura com uma determinada formação discursiva baseada na obediência e na naturalização das desigualdades. O discurso dominante, sustentado pela lógica da exploração econômica, passa a ser confrontado por outro discurso, fundamentado na consciência política e na emancipação do trabalhador.
Sob essa perspectiva, percebe-se que a narrativa poética organiza-se em torno da oposição entre duas formações ideológicas distintas. De um lado, encontram-se os discursos da dominação, do poder econômico e da submissão; de outro, emergem discursos relacionados à justiça social, à dignidade do trabalho e à emancipação coletiva. A tensão entre essas posições constitui a principal força estruturante do poema.
Outro aspecto particularmente significativo refere-se à presença da intertextualidade bíblica. Em diversos momentos, Vinicius de Moraes recupera elementos presentes nos relatos evangélicos, sobretudo aqueles relacionados às tentações de Cristo no deserto. As promessas de riqueza, poder e conforto oferecidas ao operário retomam simbolicamente esse episódio, produzindo uma analogia entre a sedução exercida pelo capital e as tentações presentes na tradição cristã.
Essa aproximação não ocorre de maneira ornamental. O discurso religioso é ressignificado para potencializar a crítica social construída pelo poeta. A recusa do operário deixa de representar apenas uma decisão individual e assume dimensão ética, aproximando sua trajetória daquela dos personagens bíblicos que resistem às formas de corrupção moral e política.
Nessa perspectiva, a intertextualidade funciona como mecanismo de ampliação dos sentidos. O leitor que reconhece essa memória cultural atribui novas camadas interpretativas ao poema, compreendendo que a narrativa dialoga simultaneamente com a tradição religiosa, com os debates políticos do século XXI e com as discussões acerca dos direitos dos trabalhadores.
Sob o olhar da Análise do Discurso, essa articulação evidencia que os sentidos não são produzidos exclusivamente pelas palavras presentes no texto, mas pelas relações estabelecidas entre diferentes discursos que circulam historicamente na sociedade. A poesia transforma-se, assim, em espaço de confronto ideológico, onde diferentes vozes disputam legitimidade e procuram orientar determinadas formas de compreender o mundo.
4.2. Rosa de Hiroshima: Memória, Guerra e Humanização do Discurso Poético
Se em Operário em Construção a crítica social concentra-se nas relações de trabalho, em Rosa de Hiroshima Vinicius de Moraes desloca seu olhar para uma das maiores tragédias da história contemporânea: o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima, em agosto de 1945. Contudo, o poema não pretende reconstruir historicamente o acontecimento. Seu objetivo consiste em transformar esse episódio em símbolo universal da violência produzida pela guerra e pela utilização destrutiva da ciência.
Logo nos primeiros versos, a repetição insistente do verbo "pensem" estabelece uma relação direta entre o eu lírico e o leitor. Não se trata apenas de narrar um acontecimento distante, mas de convocar uma reflexão ética sobre suas consequências humanas. A linguagem assume caráter apelativo, rompendo com qualquer postura de neutralidade diante da violência representada.
Essa estratégia discursiva aproxima o poema do discurso humanitário. O foco desloca-se da explosão nuclear para suas vítimas: crianças, mulheres, famílias, corpos mutilados e vidas interrompidas. A destruição material converte-se em sofrimento humano, tornando impossível separar a dimensão histórica da dimensão afetiva do texto.
A imagem da rosa constitui o principal núcleo simbólico do poema. Tradicionalmente associada à beleza, ao amor e à delicadeza, ela é resignificada para representar justamente seu contrário: a devastação produzida pela radioatividade. A "rosa de Hiroshima" deixa de ser símbolo de vida e transforma-se em metáfora da morte, da contaminação e da herança trágica deixada pela guerra.
Essa inversão simbólica produz um dos efeitos discursivos mais expressivos da obra. Ao aproximar beleza e destruição numa mesma imagem, Vinicius evidencia as contradições da modernidade, demonstrando que o avanço científico pode converter-se em instrumento de extermínio quando submetido às disputas políticas e militares.
Sob a perspectiva da interdiscursividade, observa-se a coexistência de diferentes discursos ao longo do poema. O discurso científico aparece representado pela referência implícita à radioatividade; o discurso histórico remete aos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial; o discurso político emerge nas críticas à corrida armamentista; e o discurso humanitário manifesta-se na valorização da vida humana diante da barbárie.
Essa multiplicidade de vozes confirma a compreensão bakhtiniana segundo a qual todo texto constitui espaço de encontro entre diferentes discursos. Nenhuma dessas vozes aparece isoladamente; elas interagem continuamente, produzindo um tecido discursivo complexo que amplia significativamente as possibilidades interpretativas da obra.
Ao mesmo tempo, a memória histórica ocupa posição central na construção dos sentidos. Hiroshima deixa de representar apenas uma cidade japonesa e transforma-se em signo universal da destruição provocada pela intolerância, pelo militarismo e pelo uso irresponsável do conhecimento científico. O poema converte uma experiência localizada em patrimônio da memória coletiva da humanidade.
Assim, Vinicius de Moraes demonstra que a poesia pode exercer importante função social ao preservar acontecimentos históricos, denunciar formas de violência e mobilizar reflexões éticas sobre os rumos da civilização. Mais do que registrar uma tragédia passada, Rosa de Hiroshima permanece atual por recordar continuamente os riscos produzidos pela banalização da guerra e pela perda da sensibilidade diante do sofrimento humano.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise dos poemas Operário em Construção e Rosa de Hiroshima permitiu compreender que a poesia de Vinicius de Moraes ultrapassa os limites da expressão estética para constituir-se como uma prática discursiva profundamente comprometida com as questões históricas, sociais e humanitárias de seu tempo. Em ambas as obras, a construção poética evidencia que os sentidos não se encontram apenas na materialidade linguística do texto, mas resultam das relações estabelecidas entre linguagem, memória, ideologia e contexto histórico.
A partir dos pressupostos da Análise do Discurso de linha francesa, verificou-se que a constituição dos sentidos decorre do funcionamento das formações discursivas que atravessam o texto literário. Conforme propõe Pêcheux (1995), o discurso é sempre determinado pelas condições históricas de produção e pelas posições ideológicas ocupadas pelos sujeitos. Assim, os poemas analisados revelam sujeitos discursivos inseridos em conflitos sociais que extrapolam suas experiências individuais e dialogam com problemáticas universais, como a exploração do trabalho, a violência institucionalizada e a destruição provocada pela guerra.
Em Operário em Construção, o percurso narrativo acompanha o processo de conscientização do trabalhador, cuja transformação representa a passagem de uma posição marcada pela alienação para outra fundamentada na consciência crítica. Essa mudança evidencia que a linguagem participa ativamente da constituição das identidades sociais e da possibilidade de resistência frente às estruturas de dominação. O poema demonstra que a emancipação não ocorre apenas no plano econômico, mas também no plano simbólico, quando o sujeito passa a reconhecer seu lugar na história e a questionar os discursos que legitimam as desigualdades.
Por sua vez, Rosa de Hiroshima amplia essa reflexão ao transformar um acontecimento histórico específico em uma representação universal da condição humana diante da guerra. A imagem da rosa, tradicionalmente associada à vida e à beleza, é ressignificada para simbolizar os efeitos devastadores da violência tecnológica. Ao articular discursos científicos, históricos, políticos e humanitários, Vinicius de Moraes constrói uma poesia que denuncia a destruição física e moral provocada pelos conflitos armados, reafirmando o papel da literatura como espaço de preservação da memória coletiva e de defesa da dignidade humana.
Outro aspecto evidenciado ao longo da análise refere-se ao funcionamento da intertextualidade e da interdiscursividade como elementos constitutivos da escrita poética. As referências à tradição bíblica, aos acontecimentos históricos do século XX e aos discursos sociais não desempenham função meramente ornamental. Pelo contrário, ampliam significativamente o horizonte interpretativo dos poemas, permitindo que diferentes memórias culturais dialoguem na produção dos sentidos. Dessa forma, confirma-se a perspectiva de Bakhtin (2011) segundo a qual toda enunciação é essencialmente dialógica, construída a partir do encontro entre múltiplas vozes que se complementam, se confrontam ou se transformam mutuamente.
As reflexões desenvolvidas neste estudo também reforçam a importância da Análise do Discurso como referencial teórico para a investigação do texto literário. Ao deslocar a atenção da estrutura linguística para as condições históricas de produção dos sentidos, essa perspectiva possibilita compreender a literatura como prática social, na qual diferentes ideologias disputam legitimidade e diferentes sujeitos constroem formas particulares de interpretar o mundo.
Embora este trabalho tenha privilegiado apenas dois poemas de uma obra vasta e multifacetada, os resultados obtidos demonstram a riqueza discursiva da produção poética de Vinicius de Moraes e evidenciam o potencial de novas pesquisas que aprofundem a análise de outras obras do autor sob diferentes perspectivas teóricas. Sua poesia permanece atual justamente porque continua dialogando com problemas que atravessam a contemporaneidade, como a desigualdade social, a intolerância, os conflitos armados e a necessidade permanente de defesa dos direitos humanos.
Conclui-se, portanto, que a leitura discursiva da poesia de Vinicius de Moraes amplia a compreensão do texto literário ao evidenciar sua dimensão histórica, política e ideológica. Mais do que objetos de apreciação estética, Operário em Construção e Rosa de Hiroshima constituem discursos de resistência que convocam o leitor a refletir criticamente sobre as relações de poder, sobre a responsabilidade coletiva diante da violência e sobre o papel da linguagem na construção de uma sociedade mais justa e humanizada.
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