REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789785471
RESUMO
As doenças sistêmicas exercem influência significativa nos desfechos cirúrgicos em cirurgia bucomaxilofacial, podendo comprometer a cicatrização tecidual, aumentar o risco de infecções e favorecer a ocorrência de complicações trans e pós-operatórias. O presente estudo teve como objetivo analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, o impacto das principais doenças sistêmicas nos resultados cirúrgicos, com ênfase na resposta inflamatória, no processo de reparo tecidual e no prognóstico clínico. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com busca realizada nas bases PubMed, SciELO, Web of Science e Scopus. Foram incluídos 24 estudos publicados em português e inglês sobre a influência das doenças sistêmicas nos desfechos cirúrgicos em cirurgia bucomaxilofacial, cujos achados foram analisados de forma descritiva e temática. Os achados demonstram que essas condições interferem diretamente em mecanismos biológicos fundamentais, como angiogênese, função imunológica e remodelação óssea, resultando em maior suscetibilidade a complicações, como infecção, deficiência de sutura e atraso na cicatrização. Destaca-se que o grau de controle da doença sistêmica é determinante para o prognóstico cirúrgico. Conclui-se que a avaliação pré-operatória criteriosa, o planejamento individualizado e o acompanhamento pós-operatório rigoroso são fundamentais para reduzir riscos e otimizar os resultados clínicos em pacientes sistemicamente comprometidos.
Palavras-chave: Cirurgia Maxilofacial; Complicações pós-operatórias; Diabetes Mellitus; Cicatrização; Infecção dos Ferimentos.
ABSTRACT
Systemic diseases significantly influence surgical outcomes in oral and maxillofacial surgery, potentially compromising tissue healing, increasing infection risk, and predisposing patients to intraoperative and postoperative complications. This study aimed to analyze, through an integrative literature review, the impact of major systemic diseases on surgical outcomes, focusing on the inflammatory response, tissue repair processes, and clinical prognosis. An integrative literature review was conducted using the PubMed, SciELO, Web of Science, and Scopus databases. Twenty-four studies published in Portuguese and English regarding the influence of systemic diseases on surgical outcomes in oral and maxillofacial surgery were included; their findings were analyzed descriptively and thematically. The results demonstrate that these conditions directly interfere with fundamental biological mechanisms—such as angiogenesis, immune function, and bone remodeling—leading to increased susceptibility to complications like infection, suture failure, and delayed healing. Notably, the degree of systemic disease control is a decisive factor for surgical prognosis. It is concluded that thorough preoperative assessment, individualized planning, and rigorous postoperative follow-up are essential to minimize risks and optimize clinical outcomes in systemically compromised patients.
Keywords: Maxillofacial surgery; Postoperative complications; Diabetes mellitus; Wound healing; Wound infection.
1. INTRODUÇÃO
As condições sistêmicas de saúde desempenham papel relevante na resposta do organismo frente às intervenções cirúrgicas, especialmente no contexto da cirurgia bucomaxilofacial (MUNSHI et al., 2024). Doenças como diabetes mellitus, hipertensão arterial, alterações cardiovasculares, osteoporose e distúrbios autoimunes podem interferir em mecanismos biológicos essenciais ao reparo tecidual, à resposta inflamatória e à recuperação pós-operatória. Essas alterações podem aumentar a suscetibilidade a infecções, comprometer o processo de cicatrização e influenciar a evolução clínica e o prognóstico dos procedimentos cirúrgicos (LOPES et al., 2023; ARAUJO JUNIOR, 2019).
Na prática clínica, a presença de comorbidades sistêmicas representa um desafio para o cirurgião bucomaxilofacial, uma vez que exige avaliação criteriosa e planejamento individualizado. A indicação e a execução dos procedimentos devem considerar não apenas as características da condição bucomaxilofacial, mas também o estado geral de saúde do paciente, o grau de controle das doenças preexistentes e os possíveis riscos associados ao procedimento. Nesse contexto, podem ser necessárias adaptações das técnicas cirúrgicas, dos cuidados perioperatórios e das condutas farmacológicas, com o objetivo de minimizar complicações e favorecer uma recuperação adequada (LOPES et al., 2023; SOBRINHO et al., 2025).
Embora procedimentos bucomaxilofaciais sejam frequentemente realizados em indivíduos jovens e sistemicamente saudáveis, a prática clínica também envolve pacientes com diferentes níveis de comprometimento sistêmico, incluindo portadores de doenças crônicas, condições sindrômicas e histórico de doenças oncológicas. (LOPES et al., 2023) A presença dessas condições pode aumentar a complexidade do atendimento e influenciar a tomada de decisões clínicas, especialmente em relação à indicação cirúrgica, ao manejo perioperatório e ao acompanhamento pós-operatório (BRIJS et al., 2022). Dessa forma, o conhecimento acerca da influência das condições sistêmicas sobre os desfechos cirúrgicos é fundamental para a adoção de estratégias de prevenção e manejo das possíveis complicações.
Apesar da relevância clínica do tema, a literatura apresenta diferentes evidências quanto à magnitude da influência das doenças sistêmicas sobre os resultados dos procedimentos bucomaxilofaciais, além de apresentar heterogeneidade quanto às condições clínicas investigadas e aos desfechos avaliados. (SOBRINHO et al., 2025) Essa diversidade evidencia a necessidade de reunir e analisar criticamente os conhecimentos disponíveis, de modo a contribuir para uma compreensão mais abrangente dos fatores sistêmicos relacionados à evolução cirúrgica. Nesse sentido, a revisão integrativa da literatura constitui uma estratégia pertinente para sintetizar as evidências disponíveis e identificar os principais efeitos das condições sistêmicas sobre o tratamento cirúrgico bucomaxilofacial (LOPES et al., 2023; SOBRINHO et al., 2025).
Diante desse contexto, o objetivo deste estudo foi analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, a influência das doenças sistêmicas nos desfechos cirúrgicos em cirurgia bucomaxilofacial, com ênfase nas principais complicações, no processo de cicatrização tecidual e no prognóstico dos procedimentos realizados.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa, descritiva e analítica, realizada com o objetivo de reunir e sintetizar evidências científicas acerca da influência das doenças sistêmicas nos desfechos cirúrgicos em cirurgia bucomaxilofacial. A revisão foi desenvolvida a partir da busca, seleção e análise de estudos científicos relacionados à temática proposta.
A busca dos estudos foi realizada nas bases de dados eletrônicas PubMed, SciELO, Web of Science e Scopus. Foram utilizados descritores em português e inglês, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR. Entre os termos empregados, destacaram-se: “systemic diseases”, “oral and maxillofacial surgery”, “surgical outcomes”, “postoperative complications” e “wound healing”, bem como seus correspondentes em português. Foram considerados estudos publicados nos últimos 10 anos, disponíveis nos idiomas português e inglês, que abordassem a relação entre doenças sistêmicas e desfechos cirúrgicos em cirurgia bucomaxilofacial.
Como critérios de inclusão, foram considerados estudos que apresentassem informações relacionadas a complicações pós-operatórias, alterações ou atraso na cicatrização, infecções, falhas terapêuticas e outros desfechos associados à presença de condições sistêmicas. Foram priorizados revisões sistemáticas, revisões narrativas recentes, estudos observacionais, incluindo estudos de coorte e caso-controle, e estudos clínicos retrospectivos. Foram excluídos artigos duplicados, estudos que não estivessem relacionados ao contexto da cirurgia bucomaxilofacial, publicações sem aplicação clínica direta e aqueles que não abordassem desfechos cirúrgicos relacionados a condições sistêmicas.
Após a aplicação dos critérios de elegibilidade, 24 artigos foram selecionados para análise. Os dados foram analisados de forma descritiva e interpretativa e organizados em categorias temáticas, incluindo: bases biológicas da resposta cirúrgica; impacto das principais doenças sistêmicas nos desfechos cirúrgicos; estratégias de manejo clínico; e implicações para a prática clínica. Essa organização permitiu integrar os principais achados dos estudos selecionados e discutir a influência das condições sistêmicas sobre a evolução dos procedimentos cirúrgicos, contribuindo para a tomada de decisão clínica.
3. REVISÃO DE LITERATURA
3.1. Doenças Sistêmicas e Bases Biológicas da Resposta Cirúrgica
A resposta biológica do organismo às intervenções cirúrgicas constitui um processo dinâmico e coordenado, dependente da manutenção da homeostase sistêmica e da interação entre mecanismos de hemostasia, inflamação, proliferação celular e remodelação tecidual (MUNSHI et al., 2024). No contexto da cirurgia bucomaxilofacial, as condições sistêmicas do paciente podem interferir nesses mecanismos e modificar a resposta ao trauma cirúrgico, influenciando a cicatrização e os desfechos clínicos (LOPES et al., 2023; ARAUJO JUNIOR, 2019).
A fase inflamatória e a resposta imunológica constituem etapas fundamentais do processo de cicatrização. Entretanto, condições como diabetes mellitus e estados de imunossupressão podem comprometer a quimiotaxia, a atividade e a função das células de defesa, resultando em alterações na resposta inflamatória (PAULA; LIMA; RODRIGUES, 2025). Essas alterações podem reduzir a capacidade de defesa do organismo e aumentar a suscetibilidade a infecções pós-operatórias, além de favorecer complicações relacionadas à cicatrização, como a deiscência da ferida cirúrgica (BORGES et al., 2020; SOBRINHO et al., 2025).
A angiogênese e a síntese de matriz extracelular também desempenham papel essencial no reparo dos tecidos. Em pacientes com diabetes mellitus, alterações metabólicas podem comprometer a atividade fibroblástica, a deposição e a organização do colágeno, contribuindo para o atraso da cicatrização (PAULA; LIMA; RODRIGUES, 2025). Além disso, fatores comportamentais, como o tabagismo, podem potencializar essas alterações ao reduzir a oxigenação tecidual e comprometer a vascularização, prejudicando a reparação e a viabilidade dos tecidos submetidos à intervenção cirúrgica (BORGES et al., 2020; PAULA; LIMA; RODRIGUES, 2025).
No tecido ósseo, o equilíbrio entre formação e reabsorção é fundamental para a manutenção da estrutura e para o processo de remodelação após procedimentos cirúrgicos. Alterações no metabolismo ósseo, como as observadas em pacientes com osteoporose, podem modificar esse equilíbrio e interferir na reparação óssea. (RUKSAKIET et al., 2025) Da mesma forma, o uso de determinados medicamentos antirreabsortivos, especialmente os bisfosfonatos, está associado à redução do remodelamento ósseo e pode estar relacionado ao desenvolvimento de complicações, como a osteonecrose dos maxilares, particularmente diante de procedimentos invasivos (LOPES et al., 2023; RUKSAKIET et al., 2025)
Além dos mecanismos locais, a resposta sistêmica ao trauma cirúrgico envolve alterações neuroendócrinas e cardiovasculares. A liberação de mediadores relacionados ao estresse pode contribuir para alterações hemodinâmicas, especialmente em indivíduos com hipertensão arterial ou doenças cardiovasculares preexistentes. Dessa forma, o controle adequado das condições sistêmicas e a avaliação clínica pré-operatória são elementos fundamentais para reduzir riscos e favorecer uma evolução cirúrgica mais segura (BORGES et al., 2020; ARAÚJO-JÚNIOR et al., 2019).
3.2. Impacto das Principais Doenças Sistêmicas nos Desfechos Cirúrgicos
As doenças sistêmicas podem interferir em diferentes etapas do tratamento cirúrgico bucomaxilofacial, desde a avaliação pré-operatória até a recuperação pós-operatória. Entre os principais desfechos relacionados às condições sistêmicas estão alterações na resposta inflamatória, atraso na cicatrização, infecções, alterações hemodinâmicas, comprometimento da reparação óssea e outras complicações que podem interferir na evolução clínica (BORGES et al., 2020; PAULA; LIMA; RODRIGUES, 2025).
A repercussão dessas condições sobre os resultados cirúrgicos, entretanto, não ocorre de maneira uniforme, sendo influenciada pelo tipo e pela gravidade da doença, pelo grau de controle clínico, pelos medicamentos utilizados, pelas características e extensão do procedimento e pelas condições gerais do paciente. Dessa forma, a avaliação sistêmica detalhada e o planejamento individualizado são fundamentais para a identificação de fatores de risco e para a adoção de estratégias destinadas à prevenção e ao manejo de possíveis complicações (ARAÚJO-JÚNIOR et al., 2019).
Entre as condições sistêmicas de maior relevância para a cirurgia bucomaxilofacial destacam-se o diabetes mellitus, as doenças cardiovasculares e a hipertensão arterial, as alterações do metabolismo ósseo, as condições de imunossupressão e as doenças autoimunes. Cada uma dessas condições apresenta mecanismos fisiopatológicos específicos e pode repercutir de maneira distinta sobre a resposta ao trauma cirúrgico e sobre a recuperação do paciente. (DELPACHITRA; SKLAVOS; KUMAR, 2021).
3.2.1. Diabetes Mellitus
O diabetes mellitus constitui uma das condições sistêmicas de maior relevância para os desfechos cirúrgicos, uma vez que as alterações metabólicas associadas à hiperglicemia podem comprometer diferentes etapas da resposta ao trauma e do reparo tecidual (PAULA; LIMA; RODRIGUES, 2025). Em pacientes submetidos a procedimentos bucomaxilofaciais, essas alterações podem contribuir para uma recuperação mais lenta e aumentar a ocorrência de complicações pós-operatórias.
Entre os principais efeitos relacionados ao diabetes destacam-se o atraso da cicatrização, alterações na angiogênese, redução da atividade fibroblástica e comprometimento da deposição de colágeno. Além disso, a hiperglicemia pode prejudicar a resposta imunológica e favorecer condições que aumentam a suscetibilidade a infecções, podendo também contribuir para a deiscência da ferida cirúrgica (PAULA; LIMA; RODRIGUES, 2025; BORGES et al., 2020).
Nesse contexto, o controle glicêmico constitui um importante componente do manejo perioperatório. A avaliação do estado clínico do paciente, associada à identificação do grau de controle metabólico e à consideração do tipo e da extensão do procedimento, permite estabelecer condutas individualizadas e reduzir o risco de complicações durante o período de recuperação. (KO KI, 2021).
3.2.2. Doenças Cardiovasculares e Hipertensão
As doenças cardiovasculares e a hipertensão arterial requerem atenção especial no planejamento de procedimentos cirúrgicos bucomaxilofaciais devido às possíveis repercussões hemodinâmicas associadas ao estresse cirúrgico. A ansiedade, a dor e a resposta fisiológica ao procedimento podem contribuir para elevações transitórias da pressão arterial e da frequência cardíaca, especialmente em pacientes com controle inadequado da doença (BORGES et al., 2020).
Durante o período perioperatório, a identificação de pacientes com doença cardiovascular previamente diagnosticada, bem como a avaliação do controle da pressão arterial e das medicações em uso, são fundamentais para a redução de riscos. Em situações de doença cardiovascular descompensada ou de alterações hemodinâmicas relevantes, a realização do procedimento pode exigir avaliação médica complementar, adequação do planejamento ou, quando necessário, adiamento da intervenção até que haja maior estabilidade clínica (ARAÚJO-JÚNIOR et al., 2019; LOPES et al., 2023).
Outro aspecto relevante está relacionado aos pacientes que utilizam medicamentos antitrombóticos, como anticoagulantes e antiagregantes plaquetários. Nesses casos, o risco de sangramento deve ser avaliado individualmente, considerando o medicamento utilizado, a indicação terapêutica, o risco tromboembólico associado à sua suspensão e o grau de invasividade do procedimento. Dessa forma, alterações na terapia medicamentosa não devem ser realizadas de maneira indiscriminada, sendo necessária avaliação individualizada e, quando pertinente, interação com o médico responsável (BIKDELI et al., 2024; BOCCATONDA et al., 2023).
A endocardite infecciosa também constitui uma preocupação em determinados pacientes com condições cardíacas de alto risco. Embora procedimentos odontológicos que envolvam manipulação dos tecidos gengivais ou da região periapical possam produzir bacteremia transitória, a antibioticoprofilaxia não é indicada de forma universal. Sua utilização deve ser restrita aos pacientes e procedimentos contemplados pelas recomendações clínicas vigentes, após avaliação individualizada do risco de endocardite e das características do procedimento (ARAÚJO-JÚNIOR et al., 2019; LOPES et al., 2023).
3.2.3. Osteoporose e Uso de Bisfosfonatos
As alterações relacionadas ao metabolismo ósseo podem apresentar repercussões relevantes nos procedimentos cirúrgicos bucomaxilofaciais que envolvem manipulação do tecido mineralizado. A osteoporose caracteriza-se pela redução da resistência óssea e pelo comprometimento da microarquitetura do tecido ósseo, podendo influenciar a capacidade de remodelação e reparação após intervenções cirúrgicas. Entretanto, a repercussão clínica deve ser analisada considerando a gravidade da condição, o tipo de procedimento e as demais características clínicas do paciente (LOPES et al., 2023).
Os bisfosfonatos, por sua vez, são medicamentos antirreabsortivos que atuam principalmente sobre a atividade dos osteoclastos, reduzindo a reabsorção e o remodelamento ósseo. Embora sejam amplamente utilizados no tratamento de doenças que cursam com perda de massa óssea, seu uso está associado a um risco aumentado de osteonecrose dos maxilares relacionada à medicação, particularmente em determinados pacientes submetidos a procedimentos odontológicos invasivos. Essa complicação pode apresentar exposição óssea persistente, dor, inflamação e infecção secundária, podendo comprometer a recuperação e o prognóstico do paciente (LOPES et al., 2023; ALI et al., 2025; RUKSAKIET et al., 2025).
Dessa forma, a identificação do uso de medicamentos antirreabsortivos durante a avaliação pré-operatória é fundamental para a estratificação individual do risco. A decisão quanto à realização do procedimento deve considerar a indicação do medicamento, sua duração e via de administração, as características do procedimento cirúrgico e as condições clínicas do paciente, evitando-se a suspensão indiscriminada da terapia antirreabsortiva. (RUKSAKIET et al., 2025).
3.2.4. Doenças Autoimunes e Imunossupressão
As doenças autoimunes podem influenciar os desfechos cirúrgicos em razão da presença de processos inflamatórios crônicos e, em muitos casos, do uso prolongado de medicamentos imunomoduladores ou imunossupressores. No contexto bucomaxilofacial, determinadas doenças autoimunes podem apresentar manifestações que comprometem estruturas do sistema estomatognático, incluindo a articulação temporomandibular, podendo resultar em dor, limitação funcional e alterações estruturais que devem ser consideradas durante o planejamento terapêutico (SOBRINHO et al., 2025).
Além das manifestações próprias da doença, a utilização de corticosteroides e outros agentes imunossupressores pode modificar a resposta imunológica e interferir no processo de reparo tecidual. Consequentemente, determinados pacientes podem apresentar maior suscetibilidade a infecções e alterações na cicatrização, especialmente quando há doença ativa, tratamento imunossupressor intenso ou presença de outras condições sistêmicas associadas (SOBRINHO et al., 2025; PAULA; LIMA; RODRIGUES, 2025).
Em procedimentos que envolvem a articulação temporomandibular ou alterações dentofaciais associadas a doenças autoimunes, o planejamento deve considerar a atividade da doença, o comprometimento funcional e articular e a resposta esperada ao tratamento. Na cirurgia ortognática, por exemplo, alterações articulares preexistentes podem influenciar a estabilidade do resultado e o planejamento do procedimento, tornando necessária uma avaliação individualizada e, quando indicado, abordagem multidisciplinar (SOBRINHO et al., 2025).
3.2.5. Fatores Associados: Tabagismo, Obesidade e Etilismo
Além das doenças sistêmicas propriamente ditas, determinados fatores comportamentais e metabólicos podem modificar a resposta do organismo ao trauma cirúrgico e contribuir para o desenvolvimento de complicações. Entre esses fatores destacam-se o tabagismo, a obesidade e o consumo excessivo de álcool, cuja influência deve ser considerada durante a avaliação pré-operatória e o planejamento do tratamento (BORGES et al., 2020).
O tabagismo está associado à redução da oxigenação tecidual e a alterações vasculares que podem comprometer a cicatrização e aumentar a ocorrência de complicações pós-operatórias, incluindo infecções e alterações no reparo tecidual (BORGES et al., 2020; PAULA; LIMA; RODRIGUES, 2025). Por esse motivo, a identificação do hábito de fumar durante a anamnese é relevante para a avaliação do risco cirúrgico e para a orientação do paciente quanto à cessação ou redução do consumo de tabaco no período perioperatório.
A obesidade, por sua vez, está associada a alterações metabólicas e a um estado inflamatório crônico, além de apresentar relação frequente com outras comorbidades, como diabetes mellitus e doenças cardiovasculares. Essa associação pode aumentar a complexidade do manejo perioperatório e influenciar a recuperação após procedimentos cirúrgicos (BORGES et al., 2020).
Pacientes com doenças oncológicas, especialmente aqueles submetidos a tratamentos para câncer de cabeça e pescoço, também podem apresentar condições clínicas que tornam o manejo cirúrgico mais complexo. A própria doença e seus tratamentos podem interferir nas condições locais e sistêmicas do paciente, exigindo avaliação individualizada e, frequentemente, atuação multidisciplinar para minimizar complicações e preservar os resultados funcionais e estéticos (LOPES et al., 2023).
De modo geral, os efeitos das doenças sistêmicas e dos fatores associados sobre os desfechos cirúrgicos resultam da interação entre alterações metabólicas, inflamatórias, imunológicas, vasculares e ósseas. Entretanto, a magnitude dessas repercussões varia de acordo com a condição clínica, o grau de controle da doença, os medicamentos utilizados e as características do procedimento cirúrgico (PAULA; LIMA; RODRIGUES, 2025; BORGES et al., 2020).
Assim, o planejamento cirúrgico deve ser precedido por avaliação clínica criteriosa, identificação dos fatores de risco e controle adequado das condições sistêmicas. A individualização das condutas e, quando necessário, a atuação multidisciplinar são fundamentais para reduzir complicações e favorecer resultados mais seguros e previsíveis em cirurgia bucomaxilofacial (ARAÚJO-JÚNIOR et al., 2019; LOPES et al., 2023).
3.3. Manejo Clínico e Estratégias para Redução de Complicações
O manejo de pacientes com doenças sistêmicas submetidos à cirurgia bucomaxilofacial exige avaliação criteriosa e abordagem individualizada, considerando que diferentes condições clínicas podem interferir na resposta inflamatória, na cicatrização, na estabilidade hemodinâmica e na recuperação pós-operatória. Comorbidades como diabetes mellitus, distúrbios hemorrágicos e doenças cardiovasculares podem aumentar a complexidade do atendimento e demandar medidas específicas de planejamento e controle perioperatório (LI et al., 2022; MUNSHI et al., 2024; PIEDADE et al., 2020).
A avaliação pré-operatória constitui uma etapa fundamental para a identificação e a estratificação dos riscos associados às condições sistêmicas. Deve incluir anamnese detalhada, avaliação clínica, análise dos medicamentos em uso, classificação do estado físico segundo a American Society of Anesthesiologists (ASA) e, quando indicada, solicitação de exames laboratoriais complementares. A avaliação deve considerar ainda o estado clínico do paciente e as características do procedimento planejado, especialmente sua extensão e grau de invasividade, permitindo a adoção de medidas individualizadas para reduzir o risco de complicações perioperatórias (LIEBLICH, 2018; CHAWLA et al., 2022).
Em pacientes com diabetes mellitus, o controle glicêmico deve ser considerado durante o planejamento cirúrgico, uma vez que a hiperglicemia pode interferir nos mecanismos inflamatórios e reparadores envolvidos na cicatrização. Nesse contexto, a avaliação da glicemia e da hemoglobina glicada (HbA1c) pode auxiliar na caracterização do controle metabólico e na tomada de decisão antes de procedimentos odontológicos invasivos, contribuindo para o planejamento individualizado do tratamento (KIM et al., 2023; KO; SCULEAN; GRAVES, 2021).
Durante o procedimento cirúrgico, a adoção de estratégias que reduzam o trauma tecidual e favoreçam a estabilidade clínica é particularmente importante em pacientes com comprometimento sistêmico. A utilização de técnicas cirúrgicas adequadas, controle efetivo da dor e da ansiedade, além da redução desnecessária do tempo operatório, pode contribuir para maior estabilidade durante o procedimento.(LIAO et al., 2025) A monitorização dos sinais vitais deve ser realizada de acordo com o porte cirúrgico e as condições clínicas do paciente, especialmente naqueles com doenças cardiovasculares, respiratórias ou outras condições que possam aumentar o risco de instabilidade durante o período perioperatório (CHOHAN et al., 2024; LIAO et al., 2025).
O manejo farmacológico também deve ser individualizado, considerando a condição sistêmica do paciente, os medicamentos de uso contínuo, possíveis interações e contraindicações. A escolha de analgésicos, anti-inflamatórios e antimicrobianos deve considerar o perfil de risco individual e as características do procedimento. Em pacientes com doenças gastrointestinais ou fatores de risco para complicações relacionadas ao trato gastrointestinal, o uso de anti-inflamatórios não esteroidais deve ser avaliado com cautela, devido ao potencial de eventos adversos (LENS et al., 2023). Da mesma forma, a antibioticoprofilaxia para prevenção da endocardite infecciosa não deve ser utilizada de forma indiscriminada, sendo indicada apenas para pacientes e procedimentos que atendam aos critérios estabelecidos nas recomendações clínicas vigentes (ARAÚJO-JÚNIOR et al., 2019).
No período pós-operatório, o acompanhamento clínico sistemático é essencial para a identificação precoce e o manejo adequado de possíveis complicações, como infecções, sangramentos, deiscência e alterações no processo de cicatrização. (WANG et al., 2025) O controle adequado da dor, a orientação quanto aos cuidados domiciliares e o acompanhamento periódico podem favorecer a recuperação e permitir a intervenção precoce diante de alterações clínicas. Em pacientes sistemicamente comprometidos, a frequência e a duração do acompanhamento devem ser determinadas de acordo com o procedimento realizado, a condição de saúde e os fatores de risco identificados (WANG et al., 2025; BRIJS et al., 2022).
Dessa forma, a prevenção de complicações em cirurgia bucomaxilofacial depende da integração entre avaliação pré-operatória, planejamento cirúrgico individualizado, manejo adequado das condições sistêmicas e acompanhamento pós-operatório. A atuação multidisciplinar, quando necessária, possibilita maior integração entre as diferentes áreas envolvidas no cuidado e contribui para a tomada de decisões mais seguras, especialmente em pacientes com múltiplas comorbidades ou maior complexidade clínica. (BRYANT, 2022).
3.4. Integração das Evidências e Implicações para a Prática Clínica
A análise integrada das evidências demonstra que a influência das doenças sistêmicas sobre os desfechos da cirurgia bucomaxilofacial é multifatorial e resulta da interação entre alterações metabólicas, imunológicas, inflamatórias, vasculares e do metabolismo ósseo, além de fatores comportamentais e características específicas do procedimento cirúrgico (LOPES et al., 2023; BORGES et al., 2020).
Nesse contexto, condições como diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, alterações do sistema imunológico e distúrbios do metabolismo ósseo podem modificar a resposta do organismo ao trauma cirúrgico e influenciar a ocorrência de complicações durante a recuperação (PAULA; LIMA; RODRIGUES, 2025; ARAÚJO-JÚNIOR et al., 2019).
Entretanto, os efeitos das doenças sistêmicas não devem ser considerados de forma isolada ou uniforme. A magnitude do risco pode variar de acordo com o grau de controle da doença, a presença de comorbidades associadas, o uso de medicamentos, a idade e as condições gerais do paciente, além da extensão e complexidade do procedimento cirúrgico. Dessa forma, a presença de uma condição sistêmica não determina, por si só, um desfecho desfavorável, sendo necessária a avaliação individualizada dos fatores que podem modificar o prognóstico (BORGES et al., 2020; LOPES et al., 2023).
As evidências analisadas também reforçam a importância da avaliação pré-operatória como instrumento para identificação e estratificação dos riscos. A investigação do histórico médico, dos medicamentos utilizados e do grau de controle das doenças de base permite estabelecer estratégias específicas para cada paciente. (VÉGH et al., 2023) Entre essas medidas, destacam-se o controle metabólico em indivíduos com diabetes, a avaliação cardiovascular e da pressão arterial em pacientes com doenças cardiovasculares, a análise do risco hemorrágico em pacientes com alterações da coagulação e a identificação do uso de medicamentos antirreabsortivos em pacientes submetidos a procedimentos envolvendo tecido ósseo (LI et al., 2022; LOPES et al., 2023).
No período transoperatório, a adoção de técnicas que minimizem o trauma tecidual, associada ao controle adequado da dor e da ansiedade e à monitorização compatível com o estado clínico do paciente, constitui importante estratégia de segurança. Da mesma forma, a escolha dos medicamentos utilizados no período perioperatório deve considerar possíveis interações, contraindicações e características individuais, evitando condutas padronizadas que não levem em consideração o perfil clínico de cada paciente (CHOHAN et al., 2024; LIAO et al., 2025; LENS et al., 2023).
No período pós-operatório, o acompanhamento sistemático permite reconhecer precocemente alterações como infecção, sangramento, deiscência e atraso na cicatrização. A orientação adequada do paciente e a continuidade do acompanhamento são particularmente importantes nos indivíduos com fatores de risco identificados, possibilitando intervenções precoces quando necessárias e contribuindo para uma recuperação mais segura (WANG et al., 2025; BRIJS et al., 2022).
Assim, a integração das evidências indica que o manejo de pacientes com doenças sistêmicas em cirurgia bucomaxilofacial deve ultrapassar a identificação isolada das comorbidades, considerando a interação entre doença, tratamento medicamentoso, estado clínico e características do procedimento. Nesse sentido, a avaliação individualizada, o controle adequado das condições sistêmicas e a atuação multidisciplinar constituem elementos centrais para a redução de riscos e para a otimização dos desfechos cirúrgicos (LOPES et al., 2023; ARAÚJO-JÚNIOR et al., 2019).
Por fim, embora os estudos analisados forneçam evidências relevantes sobre os mecanismos e fatores associados às complicações cirúrgicas, observa-se heterogeneidade quanto às populações avaliadas, às condições sistêmicas investigadas e aos desfechos considerados. Essa diversidade limita a comparação direta entre os estudos e reforça a necessidade de pesquisas clínicas mais robustas e de protocolos baseados em evidências, capazes de orientar de maneira mais precisa a estratificação de risco e o manejo perioperatório de pacientes sistemicamente comprometidos na cirurgia bucomaxilofacial.
4. CONCLUSÃO
As evidências analisadas nesta revisão integrativa demonstram que as doenças sistêmicas exercem influência significativa nos desfechos cirúrgicos em cirurgia bucomaxilofacial, impactando diretamente o processo de cicatrização tecidual, o risco de infecções, a ocorrência de complicações e o prognóstico dos procedimentos. Condições como diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, osteoporose e estados de imunossupressão estão consistentemente associadas a piores resultados clínicos, devido às alterações na resposta inflamatória, na angiogênese e na função imunológica. No entanto, observa-se que a magnitude desses impactos pode variar conforme o grau de controle da condição sistêmica e as estratégias terapêuticas adotadas, evidenciando a importância de uma abordagem clínica bem planejada.
Diante disso, torna-se fundamental que o manejo de pacientes sistemicamente comprometidos seja realizado de forma individualizada, com ênfase na avaliação pré-operatória criteriosa, no controle adequado das comorbidades e na adaptação das técnicas cirúrgicas e farmacológicas. O acompanhamento pós-operatório rigoroso também se mostra essencial para a prevenção e identificação precoce de complicações. Além disso, destaca-se a necessidade de estudos futuros mais padronizados e robustos, que contribuam para o desenvolvimento de protocolos clínicos baseados em evidências, visando aumentar a previsibilidade dos desfechos e promover maior segurança na prática da cirurgia bucomaxilofacial.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Cirurgião-dentista, Universidade Santa Cecília, Santos São Paulo, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: Orcid: https://orcid.org/0009-0002-8039-9383.
2 Graduanda Universidade Estadual de Montes Claros, Montes Claros, Minas Gerais, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-0337-9146.
3 Graduando em Odontologia - Centro Universitário FAMETRO, Manaus, Amazonas, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-2745-2301.
4 Graduada em odontologia Faculdade UNA, Jataí, GO, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-3234-6934.
5 Residente em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial - Hospital São Lucas - ISSAL, Pato Branco, Paraná PR , Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-2126-4116.
6 Graduando em Odontologia - Universidade Federal de Goiás, Goiânia, Goiás, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-0798-568X.
7 Graduando em Odontologia - Unidade de Ensino Superior de Feira de Santana, Feira de Santana, Bahia, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6301-4872.
8 Graduanda em Odontologia- Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), Cidade, Estado, País: São Paulo, SP, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-7345-6862.
9 Graduado em odontologia, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, Paraná, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0002-2675-8357.
10 Graduando em odontologia Universidade Regional de Blumenau - FURB, Blumenau, Santa Catarina, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-9526-7937.
11 Graduando em odontologia - Centro Universitário Maurício de Nassau (UNINASSAU/CARPINA), Carpina, Pernambuco, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-8670-5884.
12 Graduada em odontologia - Faculdade Zarns, Pouso Alegre, Minas Gerais, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-9358-905X.
13 Graduanda em odontologia Faculdade UNIBH, Sabará, Minas Gerais, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0002-6454-9505.
14 Cirurgiã-Dentista, Graduada em Odontologia - Faculdade UNIG, RJ, Brasil. Especialista em Periodontia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0713-2017.
15 Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde - FEPECS, Brasília, Distrito Federal, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1429-7832.