REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782260674
RESUMO
A exposição prolongada à violência extrema em contextos de guerra constitui um fator de risco significativo para o desenvolvimento de alterações neuropsicológicas duradouras em veteranos. Evidências apontam que experiências traumáticas relacionadas ao combate estão associadas a prejuízos cognitivos, emocionais e funcionais que comprometem o processo de reintegração à vida civil. O presente estudo teve como objetivo analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura baseada em artigos empíricos, as alterações neuropsicológicas associadas ao trauma de guerra e sua relação com prejuízos cognitivos, emocionais e dificuldades de reintegração social no período pós-conflito. Trata-se de uma revisão integrativa de natureza qualitativa, realizada a partir de artigos empíricos selecionados nas bases SciELO, PubMed, PsycINFO, PePSIC e Google Scholar, utilizando métodos como neuroimagem e avaliação clínica. Livros e documentos institucionais foram utilizados como suporte teórico complementar. Os resultados indicam alterações consistentes em regiões cerebrais como a amígdala, o hipocampo e o córtex pré-frontal, associadas a sintomas de hipervigilância, déficits de memória, desregulação emocional e dificuldades interpessoais. Conclui-se que o trauma de guerra produz impactos neuropsicológicos complexos e persistentes, demandando abordagens integradas de cuidado em saúde mental voltadas às especificidades da população veterana.
Palavras-chave: trauma de guerra; neuropsicologia; veteranos; transtorno de estresse pós-traumático; reintegração social.
ABSTRACT
Prolonged exposure to extreme violence in wartime contexts constitutes a significant risk factor for the development of long-lasting neuropsychological alterations in veterans. Evidence suggests that combat-related traumatic experiences are associated with cognitive, emotional, and functional impairments that compromise the process of reintegration into civilian life. The present study aimed to analyze, through an integrative literature review based on empirical studies, the neuropsychological alterations associated with war-related trauma and their relationship with cognitive impairments, emotional disturbances, and difficulties in social reintegration during the post-conflict period. This qualitative integrative review was conducted using empirical articles selected from the SciELO, PubMed, PsycINFO, PePSIC, and Google Scholar databases, employing methods such as neuroimaging and clinical assessment. Books and institutional documents were used as complementary theoretical support. The findings indicate consistent alterations in brain regions such as the amygdala, hippocampus, and prefrontal cortex, which are associated with symptoms of hypervigilance, memory deficits, emotional dysregulation, and interpersonal difficulties. It is concluded that war-related trauma produces complex and persistent neuropsychological impacts, requiring integrated mental health care approaches tailored to the specific needs of the veteran population.
Keywords: war trauma; neuropsychology; veterans; PTSD; social reintegration.
1. INTRODUÇÃO
A guerra configura-se como uma experiência extrema caracterizada pela exposição contínua à violência, à ameaça de morte e à imprevisibilidade. Seus efeitos extrapolam o período do conflito armado, produzindo repercussões duradouras sobre a saúde mental dos indivíduos diretamente expostos ao combate. Nesse contexto, destaca-se como foco deste estudo os impactos neuropsicológicos do trauma de guerra em veteranos no período pós-conflito, considerando que essa população apresenta maior vulnerabilidade em função da vivência prolongada em ambientes hostis.
Estudos em neuropsicologia do trauma demonstram que experiências de guerra estão associadas a alterações estruturais e funcionais em regiões cerebrais como a amígdala, o hipocampo e o córtex pré-frontal, estruturas centrais no processamento de ameaças, na consolidação da memória e no controle inibitório (Shin et al., 2006). Evidências empíricas mais recentes reforçam essa relação, indicando que indivíduos com transtorno do estresse pós traumático apresentam redução do volume do hipocampo, alterações na atividade da amígdala e comprometimento do córtex pré frontal, associados a prejuízos cognitivos e emocionais (Logue et al., 2018; Ben-Zion et al., 2023; Zhang et al., 2023).
No período pós-conflito, esses comprometimentos neuropsicológicos tornam-se especialmente relevantes, pois interferem diretamente no processo de reintegração à vida civil. A dificuldade em restabelecer vínculos interpessoais, retomar atividades ocupacionais e adaptar-se a contextos de segurança relativa evidencia que o trauma de guerra não se limita a um evento passado, mas se inscreve de forma contínua no funcionamento psíquico e corporal dos veteranos. Diante desse cenário, o presente estudo é orientado pela seguinte questão de pesquisa: de que maneira as alterações neuropsicológicas decorrentes do trauma de guerra se relacionam aos prejuízos cognitivos, emocionais e a adaptação psicossocial de veteranos no pós-conflito?
Observa-se que a maior parte das pesquisas sobre trauma de guerra e alterações neuropsicológicas é produzida em contexto internacional, havendo ainda escassez de estudos brasileiros voltados especificamente para à população veterana. Sendo assim, torna-se relevante ampliar as discussões sobre os impactos cognitivos, emocionais e neurobiológicos do trauma em indivíduos expostos ao combate, contribuindo para o fortalecimento da produção científica na área.
Com base nessa problemática, o estudo tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, as principais alterações neuropsicológicas associadas ao trauma de guerra em veteranos e suas repercussões cognitivas, emocionais e psicossociais no período pós-conflito. A relevância desta pesquisa se sustenta tanto no âmbito científico quanto social. No campo da Psicologia, contribui para o aprofundamento da compreensão dos efeitos neuropsicológicos do trauma extremo, possibilitando o desenvolvimento de estratégias de intervenção mais eficazes e integradas, voltadas às especificidades da população veterana.
As bases de dados utilizadas para a busca dos estudos foram:
SciELO
PubMed
PsycINFO
PePSIC
Google Scholar
Diferentemente de revisões narrativas, o presente estudo busca analisar de forma sistemática os achados de estudos empíricos recentes, com foco nas evidências sobre alterações neuropsicológicas e suas implicações no funcionamento cognitivo, emocional e social de veteranos de guerra.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1. Trauma de Guerra e Suas Manifestações Psicossociais
A guerra constitui uma experiência extrema marcada pela exposição contínua à violência, à ameaça de morte e a situações de intenso estresse físico e emocional. Seus efeitos podem ultrapassar o período do conflito armado, produzindo consequências duradouras para a saúde mental e para o funcionamento neuropsicológico dos indivíduos diretamente expostos ao combate (Van der Kolk, 2020). Nesse contexto, os veteranos de guerra representam uma população particularmente vulnerável ao desenvolvimento de alterações cognitivas, emocionais e comportamentais associadas ao trauma.
Eventos históricos como a Segunda Guerra Mundial evidenciam a magnitude desses impactos, uma vez que milhões de pessoas, entre soldados e civis, foram submetidas a experiências de medo intenso, perdas significativas e situações de desamparo. Essas vivências ultrapassam a capacidade habitual de elaboração psíquica, resultando em consequências duradouras que persistem mesmo após o término do conflito, manifestando-se por meio de sintomas como ansiedade, insônia, depressão e sensação constante de ameaça.
Segundo Van der Kolk (2020), o trauma não é apenas um evento que se recorda, mas uma experiência que modifica o funcionamento do cérebro, do sistema nervoso e do corpo. O autor explica que pessoas traumatizadas “sentem que não estão seguras dentro de seus próprios corpos”, pois o organismo permanece em estado de alerta, mesmo quando o perigo já passou. Essa compreensão amplia o olhar sobre o trauma, que deve ser visto também como uma condição corporal. Conforme o autor, as lembranças traumáticas não se organizam como uma história coerente, mas como fragmentos sensoriais e emocionais que se manifestam em forma de tensão, medo ou reações físicas automáticas diante de situações que lembram o evento original. Quando colocadas no contexto dos veteranos, essas características do trauma se tornam ainda mais evidentes. A vivência cotidiana de combate, marcada por riscos constantes, perdas sucessivas e exposição repetida à morte, produz um tipo de registro traumático persistente, que atua simultaneamente no corpo, na memória e nas respostas emocionais. Portanto, os mecanismos descritos por Van der Kolk não apenas explicam o trauma da guerra de modo geral, mas iluminam especialmente a experiência daqueles que estiveram diretamente na linha de frente de batalha.
Durante e após a Segunda Guerra Mundial, alguns estudos mostraram como os efeitos do trauma permaneceram por décadas entre os sobreviventes. Uma pesquisa realizada na Alemanha com pessoas que eram crianças durante a guerra revelou que mais de 10% ainda apresentavam sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) sessenta anos depois (Streuber et al., 2007). Outro estudo, feito com sobreviventes poloneses, identificou que cerca de 32% apresentavam sinais de TEPT e outros distúrbios emocionais, mesmo após esses anos (Rzeszutek et al., 2023). Esses dados evidenciam que o trauma de guerra não desaparece com o tempo e pode influenciar até mesmo as gerações seguintes, transmitindo-se através de padrões de comportamento e da forma como as pessoas lidam com o sofrimento.
As marcas deixadas pela guerra também se manifestam fisicamente. Estudos recentes apontam que idosos que viveram a Segunda Guerra Mundial têm maior propensão a apresentar dores crônicas, distúrbios do sono e doenças cardiovasculares (Gerhold et al., 2021). Essas condições não podem ser compreendidas apenas como efeitos do envelhecimento, mas como reflexos de um corpo que permaneceu, por décadas, em estado de defesa e vigilância. Van der Kolk (2020) ajuda a entender esse fenômeno ao afirmar que o corpo de uma pessoa traumatizada continua reagindo como se o perigo ainda existisse, mantendo o sistema de estresse constantemente ativado. Portanto, o trauma de guerra não se limita às lembranças, ele se torna uma presença constante no corpo e na vida do sujeito. Muitos veteranos e civis que vivenciaram a guerra relatam sensações de medo repentino, reações físicas diante de sons altos, pesadelos recorrentes e dificuldades para se relacionar. Essas respostas são formas pelas quais o corpo tenta lidar com a memória do trauma, mesmo quando a mente tenta esquecê-lo. No caso dos veteranos, essas manifestações físicas tendem a aparecer de maneira ainda mais intensa, pois configuram-se como o resultado de anos de hipervigilância, ativação fisiológica contínua e exposição a estressores extremos. A cronicidade desse estado de defesa permanente se inscreve no corpo, gerando um conjunto de sintomas que ultrapassam a dimensão psicológica e afetam profundamente a saúde física.
Dessa forma, pode-se compreender que o trauma gerado pela guerra ultrapassa a dimensão do evento histórico e se inscreve na experiência humana como uma marca profunda e duradoura. As feridas deixadas pelos conflitos não desaparecem quando cessam os tiros, pois continuam a se manifestar em corpos que guardam memórias, em gestos atravessados pelo medo e em sentimentos que resistem ao esquecimento. Nos sujeitos diretamente expostos ao combate, os veteranos, essas marcas assumem intensidade ainda maior, configurando um caso complexo de sofrimento com alterações corporais, emocionais e neuropsicológicas. Essas reflexões constituem a base para os capítulos seguintes, que irão abordar de maneira mais aprofundada as bases neuropsicológicas do trauma e seus desdobramentos cognitivos e emocionais.
2.2. Impactos Neuropsicológicos Pós-trauma
Para compreender os impactos do trauma de guerra, é necessário analisar como essas experiências afetam o funcionamento do cérebro, especialmente em áreas responsáveis pelas emoções, pela memória e pelas respostas ao estresse. Estudos na área da neuropsicologia indicam que a exposição prolongada a situações de perigo pode provocar alterações importantes nesses sistemas (Van der Kolk, 2020).
Uma das estruturas mais envolvidas nesse processo é a amígdala, que está relacionada à percepção de ameaças e às respostas de medo. Em pessoas que passaram por situações traumáticas, essa região tende a ficar mais sensível, o que faz com que o indivíduo permaneça em estado de alerta constante, mesmo quando não há perigo real. Esse funcionamento ajuda a explicar por que muitos veteranos apresentam hipervigilância e sensação de insegurança no período pós-conflito (LeDoux, 2000). O hipocampo está ligado à memória e à organização das experiências vividas, quando afetado pelo trauma ele pode dificultar a distinção entre passado e presente, fazendo com que lembranças traumáticas apareçam de forma intensa e desorganizada. Isso contribui para a ocorrência de flashbacks e revivescências, frequentemente observados em quadros de estresse pós-traumático (Bremner, 2006).
Outra região importante é o córtex pré-frontal, responsável por ajudar no controle das emoções e na tomada de decisões. Em indivíduos traumatizados, essa área pode ter sua atuação reduzida, o que dificulta o controle de reações emocionais e aumenta a ocorrência de ansiedade, irritabilidade e impulsividade (Shin; Liberzon, 2010). Além dessas alterações cerebrais, o trauma também está associado a uma ativação prolongada do sistema de estresse do organismo. Isso significa que o corpo permanece funcionando como se ainda estivesse em perigo, liberando hormônios como o cortisol de forma contínua. Com o tempo, esse estado pode gerar prejuízos tanto emocionais quanto físicos (Yehuda, 2002).
Nesse sentido, o trauma de guerra não afeta apenas um aspecto isolado do funcionamento humano, mas envolve alterações em diferentes sistemas que atuam de maneira integrada. Compreender essas bases neuropsicológicas é fundamental para analisar como o trauma se manifesta na vida dos indivíduos.
3. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa, realizada com o objetivo de analisar alterações neuropsicológicas associadas ao trauma de guerra em veteranos no período pós-conflito. A pesquisa foi orientada pela questão: de que maneira as alterações neuropsicológicas decorrentes do trauma de guerra se relacionam aos prejuízos cognitivos, emocionais e à adaptação psicossocial de veteranos no pós-conflito?
A busca foi realizada nas bases SciELO, PubMed, PsycINFO, PePSIC e Google Scholar, foram utilizados os descritores “transtorno de estresse pós-traumático”, “veteranos”, “neuroimagem”, “hipocampo”, “amígdala” e “córtex pré-frontal”, e foram incluídos artigos empíricos publicados a partir de 2012, que investigassem alterações neuropsicológicas relacionadas ao trauma de guerra por meio de métodos como ressonância magnética (MRI), ressonância magnética funcional (fMRI), testes neuropsicológicos e escalas clínicas validadas. Foram excluídos estudos de opinião, pesquisas realizadas apenas com civis e estudos que não abordassem diretamente o trauma de guerra.
A seleção ocorreu em duas etapas: leitura dos títulos e resumos e, posteriormente, análise completa dos estudos selecionados. Dessa forma, 44 artigos foram selecionados para leitura na íntegra, e então 36 estudos foram excluídos por não apresentarem dados empíricos compatíveis com os objetivos deste trabalho. Ao final, 8 artigos empíricos compuseram a revisão. Para organização dos dados, foi utilizada uma planilha contendo autor/ano, objetivo, método, regiões cerebrais analisadas e principais resultados encontrados.
4. RESULTADOS
Os oito estudos selecionados foram organizados na tabela abaixo. As regiões cerebrais mais investigadas foram o hipocampo, presente em seis estudos, a amígdala, em cinco, e o córtex pré-frontal, em quatro. Seis estudos utilizaram ressonância magnética estrutural (MRI), dois utilizaram ressonância magnética funcional (fMRI) e um associou testes neuropsicológicos à neuroimagem.
Os principais achados encontrados envolveram redução volumétrica do hipocampo, hiper reatividade da amígdala e alterações funcionais no córtex pré-frontal. Essas alterações estiveram relacionadas a déficits de memória, hipervigilância, desregulação emocional, prejuízos no controle inibitório e dificuldades de adaptação psicossocial no período pós-conflito.
Autor/Ano | Objetivo do estudo | Método | Regiões cerebrais analisadas | Principais resultados (cognitivos, emocionais e funcionais) |
Logue et al. (2018) | Investigar diferenças no volume cerebral em indivíduos com TEPT | Ressonância magnética (MRI) | Hipocampo | Redução do volume hipocampal associada a déficits de memória e dificuldade na contextualização de experiências traumáticas |
Ben-Zion et al. (2023) | Analisar alterações em subcampos do hipocampo e estruturas associadas ao TEPT | MRI | Hipocampo e amígdala | Alterações estruturais associadas a hipervigilância e maior sensibilidade a estímulos ameaçadores |
Zhang et al. (2023) | Avaliar alterações estruturais e microestruturais no TEPT | MRI multiparamétrica | Amígdala, hipocampo e córtex pré-frontal | Alterações nessas regiões associadas à desregulação emocional, prejuízos cognitivos e maior gravidade dos sintomas |
Kuhn et al. (2018) | Investigar alterações cerebrais em veteranos expostos ao combate | MRI | Hipocampo | Redução volumétrica associada a prejuízos de memória e dificuldades cognitivas gerais |
Morey et al. (2012) | Avaliar alterações volumétricas da amígdala em veteranos | MRI | Amígdala | Redução volumétrica bilateral da amígdala em veteranos com TEPT |
Kroes et al. (2016) | Investigar o processamento da memória traumática no TEPT | fMRI | Hipocampo | Prejuízo na memória contextual, dificultando a diferenciação entre situações seguras e ameaçadoras |
Hayes et al. (2012) | Analisar padrões de atividade neural no TEPT | fMRI | Amígdala e córtex pré-frontal | Hiperatividade da amígdala associada à hipervigilância e redução da atividade pré-frontal relacionada à dificuldade de regulação emocional |
Fenster et al. (2018) | Avaliar déficits cognitivos e funcionamento cerebral no TEPT | Testes neuropsicológicos + neuroimagem | Córtex pré-frontal | Déficits executivos, prejuízo no controle inibitório e dificuldades na tomada de decisão |
5. DISCUSSÃO
5.1. Síntese dos Principais Achados
A análise integrada dos estudos selecionados permitiu identificar padrões consistentes nas alterações neuropsicológicas associadas ao trauma de guerra em veteranos. De modo geral, os resultados apontaram alterações em regiões cerebrais relacionadas à memória, ao processamento emocional e à regulação do comportamento, com destaque para o hipocampo, a amígdala e o córtex pré-frontal.
Os estudos demonstraram que essas alterações estão associadas a prejuízos cognitivos, emocionais e funcionais observados no período pós-conflito. Entre as manifestações mais frequentes destacam-se déficits de memória, hipervigilância, dificuldades de regulação emocional e comprometimentos na adaptação psicossocial, sugerindo que os efeitos do trauma de guerra envolvem diferentes sistemas neurais de forma integrada.
Embora os resultados apresentem importante convergência, algumas divergências foram observadas quanto à intensidade das alterações identificadas. Essas diferenças podem estar relacionadas às características das amostras analisadas, ao tempo decorrido desde a exposição ao trauma e às particularidades metodológicas dos estudos incluídos. Ainda assim, o conjunto das evidências aponta para a existência de alterações neurobiológicas consistentes associadas à experiência traumática de combate.
5.2. Comparação com a Literatura
Ao comparar os estudos selecionados, observa-se que determinadas alterações aparecem de forma recorrente, especialmente aquelas relacionadas ao hipocampo, à amígdala e ao córtex pré-frontal. Embora os métodos empregados sejam diferentes, os resultados caminham na mesma direção ao indicar que o trauma de guerra produz repercussões que ultrapassam os sintomas emocionais imediatos, afetando também processos cognitivos e comportamentais importantes para a vida cotidiana dos veteranos.
Um dos aspectos mais consistentes entre os estudos refere-se aos prejuízos relacionados à memória. As alterações observadas no hipocampo sugerem que a exposição prolongada a situações de combate pode comprometer a forma como experiências traumáticas são organizadas e recuperadas. Isso ajuda a compreender por que muitos veteranos apresentam lembranças intrusivas, dificuldades para contextualizar eventos passados e sensação recorrente de reviver situações traumáticas. Essa interpretação está alinhada às contribuições de Bremner (2006), que destaca a importância do hipocampo na contextualização das memórias, e aos achados de Logue et al. (2018), que identificaram associação entre transtorno de estresse pós-traumático e redução do volume dessa estrutura cerebral.
Entretanto, os impactos do trauma não se limitam às alterações na memória. Os estudos analisados também demonstram que muitos veteranos permanecem em estado constante de alerta mesmo após o término do conflito. Sintomas como hipervigilância, irritabilidade e sensibilidade excessiva a estímulos ambientais aparecem de forma frequente nas pesquisas revisadas. Nesse contexto, as alterações observadas na amígdala oferecem uma possível explicação neurobiológica para esses comportamentos. Conforme proposto por LeDoux (2000), essa estrutura desempenha papel fundamental na identificação de ameaças e na ativação de respostas de defesa. Assim, a hiper reatividade encontrada em diversos estudos pode refletir a permanência de mecanismos que foram adaptativos durante o combate, mas que passam a gerar sofrimento quando continuam ativos em ambientes seguros.
Outro ponto que merece destaque é que as dificuldades relatadas pelos veteranos não parecem estar relacionadas apenas às lembranças traumáticas ou ao estado constante de alerta. Parte dos estudos sugere que alterações no córtex pré-frontal também podem contribuir para problemas de regulação emocional, impulsividade e dificuldades de adaptação à vida civil. Considerando que essa região está envolvida em funções como planejamento, tomada de decisões e controle das respostas emocionais, seu comprometimento pode ter consequências significativas. Essas consequências repercutem diretamente no funcionamento social e ocupacional desses indivíduos. Essa compreensão é compatível com o modelo apresentado por Shin e Liberzon (2010), segundo o qual o córtex pré-frontal exerce importante influência reguladora sobre estruturas associadas às respostas emocionais, especialmente a amígdala.
Quando analisados em conjunto, os resultados reforçam a ideia de que os impactos neuropsicológicos do trauma de guerra não podem ser compreendidos a partir de uma única estrutura cerebral. Pelo contrário, as evidências sugerem a participação de diferentes sistemas neurais que atuam de maneira integrada. Essa perspectiva se aproxima das discussões apresentadas por Van der Kolk (2020), para quem o trauma produz alterações que envolvem simultaneamente memória, emoções, comportamento e percepção do ambiente. Dessa forma, os achados desta revisão contribuem para compreender por que os efeitos do trauma frequentemente persistem mesmo após o fim do conflito, interferindo na reintegração social, profissional e emocional dos veteranos.
5.3. Limitações da Revisão
Apesar da consistência dos resultados encontrados, algumas limitações devem ser consideradas. A primeira refere-se ao número reduzido de estudos incluídos na revisão, o que restringe a generalização dos achados.
Além disso, os estudos analisados apresentaram diferenças metodológicas importantes, incluindo variações nos tamanhos das amostras, nos critérios diagnósticos adotados e nos métodos de avaliação utilizados. Essas diferenças dificultam comparações diretas entre os resultados.
Outra limitação relevante é a predominância de pesquisas realizadas em contextos internacionais, especialmente nos Estados Unidos, evidenciando a escassez de estudos brasileiros voltados especificamente à população de veteranos de guerra. Essa lacuna limita a compreensão das particularidades socioculturais que podem influenciar a manifestação e o impacto do trauma em diferentes contextos.
5.4. Implicações para a Prática Clínica
Os resultados desta revisão possuem implicações importantes para a prática clínica e para o planejamento de intervenções em saúde mental voltadas a veteranos. A identificação de alterações em regiões cerebrais relacionadas à memória, ao processamento emocional e ao controle comportamental reforça a necessidade de abordagens terapêuticas integradas que considerem tanto os aspectos psicológicos quanto os neurobiológicos do trauma.
Nesse contexto, intervenções baseadas em evidências, como a Terapia Cognitivo-Comportamental focada no trauma, a Exposição Prolongada e a Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares (EMDR), podem contribuir para a redução dos sintomas traumáticos e para a melhora do funcionamento emocional e cognitivo. Além disso, o conhecimento sobre os mecanismos neuropsicológicos envolvidos no TEPT pode auxiliar profissionais de saúde na elaboração de estratégias mais individualizadas de tratamento e acompanhamento.
Por fim, os resultados reforçam a importância de políticas públicas e programas de assistência que favoreçam a reintegração social dos veteranos, considerando que os impactos do trauma de guerra frequentemente ultrapassam a esfera individual e afetam diferentes áreas da vida cotidiana.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve como objetivo analisar as alterações neuropsicológicas associadas ao trauma de guerra em veteranos e compreender de que forma essas alterações podem afetar aspectos cognitivos, emocionais e sociais no período pós-conflito. A análise dos estudos selecionados permitiu identificar que a exposição ao trauma de guerra está associada a alterações neurobiológicas e neuropsicológicas relevantes, especialmente em sistemas cerebrais relacionados à memória, ao processamento emocional e à regulação do comportamento. Essas alterações foram frequentemente acompanhadas por prejuízos cognitivos, sintomas de hipervigilância, dificuldades de regulação emocional e comprometimentos na adaptação à vida cotidiana.
Dessa forma, os achados da literatura analisada confirmam a hipótese apresentada na pesquisa, indicando uma associação consistente entre o trauma de guerra e alterações neuropsicológicas duradouras capazes de afetar significativamente a adaptação social de veteranos no período pós-conflito. Entretanto, algumas limitações precisam ser consideradas. Os estudos apresentam diferenças metodológicas, como variações nas amostras e nos instrumentos utilizados, o que pode influenciar os resultados encontrados. Além disso, ainda há poucos estudos nacionais voltados especificamente para os impactos neuropsicológicos do trauma de guerra, mostrando a necessidade de novas pesquisas sobre o tema.
Sendo assim, sugere-se que futuras pesquisas invistam em estudos longitudinais, amostras mais diversificadas e investigações realizadas em contextos ainda pouco explorados, incluindo países da América Latina. O aprofundamento dessas discussões poderá ampliar o desenvolvimento de estratégias de prevenção, tratamento e reabilitação mais adequadas às necessidades dessa população.
Por fim, destaca-se que a compreensão dos impactos neuropsicológicos do trauma de guerra possui relevância não apenas científica, mas também social e clínica, reforçando a importância de abordagens terapêuticas que considerem simultaneamente os aspectos psico e neurobiológicos do trauma. Os resultados nos mostram a necessidade de políticas públicas e programas de acompanhamentos voltados para reintegração social e qualidade de vida dessa população.
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1 Discente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Maria Thereza. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Doutor e Mestre em Psicologia pela Universidade Salgado de Oliveira, Neuropsicólogo Clínico pelo Instituto de Psicologia Aplicada e Formação/IPAF e Graduado em Psicologia pela Faculdade Maria Thereza/FAMATH. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail