REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782262066
RESUMO
A demência representa um dos principais desafios de saúde pública da atualidade, em razão de seus impactos cognitivos, emocionais e sociais sobre os indivíduos acometidos e seus familiares. O estudo objetiva analisar as evidências científicas acerca das intervenções psicológicas destinadas a pacientes com demência e cuidadores familiares, destacando seus benefícios para a saúde mental e a qualidade de vida. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura realizada nas bases de dados PubMed, LILACS e SciELO, contemplando estudos publicados entre 2018 e 2026. O protocolo da revisão foi registrado no PROSPERO (CRD420261421753, 2026). Os resultados demonstram que intervenções como psicoeducação, apoio psicoterapêutico, grupos de suporte, treinamento de habilidades de enfrentamento e acompanhamento psicológico contribuem para a redução da sobrecarga do cuidador, dos sintomas de ansiedade e depressão e do sofrimento emocional associado à progressão da doença. Além disso, tais estratégias favorecem a adaptação às mudanças decorrentes da demência e fortalecem a rede de apoio familiar. Conclui-se que o cuidado psicológico constitui um componente essencial da assistência multidisciplinar, promovendo maior bem-estar, qualidade de vida e suporte emocional para pacientes e cuidadores familiares.
Palavras-chave: Demência; Cuidado psicológico; Cuidadores familiares; Saúde mental; Qualidade de vida.
ABSTRACT
Dementia represents one of the major public health challenges of today due to its cognitive, emotional, and social impacts on affected individuals and their families. This study aims to analyze the scientific evidence regarding psychological interventions for people with dementia and family caregivers, highlighting their benefits for mental health and quality of life. This integrative literature review was conducted using the PubMed, LILACS, and SciELO databases and included studies published between 2018 and 2026. The review protocol was registered in PROSPERO (CRD420261421753, 2026). The findings demonstrate that interventions such as psychoeducation, psychotherapeutic support, support groups, coping skills training, and psychological follow-up contribute to reducing caregiver burden, anxiety and depressive symptoms, and emotional distress associated with disease progression. Furthermore, these strategies facilitate adaptation to dementia-related changes and strengthen family support networks. It is concluded that psychological care is an essential component of multidisciplinary dementia care, promoting greater well-being, quality of life, and emotional support for both patients and family caregivers.
Keywords: Dementia; Psychological care; Family caregivers; Mental health; Quality of life.
1. INTRODUÇÃO
A demência compreende um conjunto de síndromes neurodegenerativas caracterizadas pelo declínio progressivo das funções cognitivas, comportamentais e funcionais, comprometendo a autonomia e a qualidade de vida dos indivíduos acometidos. O envelhecimento populacional observado nas últimas décadas tem contribuído para o aumento expressivo da prevalência da doença em todo o mundo, tornando-a um dos principais desafios para os sistemas de saúde e para as famílias responsáveis pelo cuidado desses pacientes (Majer et al., 2020). Além dos déficits cognitivos, a demência frequentemente está associada a sintomas neuropsiquiátricos, como ansiedade, depressão, apatia, irritabilidade e alterações comportamentais, os quais exercem impacto significativo sobre o bem-estar dos pacientes e de seus cuidadores (Majer et al., 2020).
O processo de adoecimento decorrente da demência não afeta apenas a pessoa diagnosticada, mas também os familiares que assumem o papel de cuidadores. Em muitos casos, o cuidado é realizado de forma contínua e prolongada, exigindo dedicação física, emocional e social. Estudos demonstram que cuidadores familiares apresentam elevados níveis de sobrecarga, estresse, ansiedade, depressão e prejuízos na qualidade de vida, especialmente diante da progressão da doença e do aumento das demandas assistenciais (Rebêlo et al., 2021; Souza et al., 2025; Raphael et al., 2026). Além disso, a presença de sintomas neuropsiquiátricos nos pacientes está diretamente relacionada ao aumento do desgaste emocional dos cuidadores, constituindo um importante fator de risco para o adoecimento psicológico dessa população (Majer et al., 2020; Hermes-Pereira et al., 2025).
Diante desse cenário, tem crescido o interesse por intervenções psicológicas destinadas a minimizar os impactos emocionais da demência e promover melhor adaptação ao processo de cuidado. Diferentes estratégias vêm sendo descritas na literatura, incluindo programas de psicoeducação, terapia cognitivo-comportamental, terapia de aceitação e compromisso, grupos de apoio, aconselhamento psicológico e intervenções digitais voltadas para pacientes e cuidadores familiares (Wilz et al., 2018; Zhao et al., 2019; Orgeta et al., 2022; Han et al., 2025). Evidências apontam que essas abordagens podem contribuir para a redução de sintomas depressivos e ansiosos, fortalecimento das estratégias de enfrentamento, diminuição da sobrecarga e melhoria da qualidade de vida dos envolvidos no processo de cuidado (Orgeta et al., 2022; Xiao et al., 2024).
Entre as intervenções mais promissoras destacam-se os programas psicoeducativos, que oferecem informações sobre a doença, orientações para o manejo dos sintomas e suporte emocional aos cuidadores, favorecendo o desenvolvimento de habilidades para lidar com os desafios cotidianos impostos pela demência (Damien et al., 2020; Duarte et al., 2023; Xiao et al., 2024). Paralelamente, abordagens psicoterapêuticas têm demonstrado potencial para auxiliar no enfrentamento do sofrimento psicológico, promovendo maior resiliência, adaptação emocional e bem-estar psicológico (Wilz et al., 2018; Han et al., 2025). Esses resultados reforçam a importância da incorporação do cuidado psicológico como componente fundamental da assistência integral às pessoas com demência e seus familiares.
Apesar dos avanços observados, os resultados disponíveis na literatura permanecem dispersos em diferentes contextos, populações e modalidades de intervenção, dificultando uma compreensão abrangente sobre as principais estratégias psicológicas empregadas e seus respectivos benefícios. Além disso, a diversidade metodológica dos estudos evidencia a necessidade de reunir e sintetizar criticamente as evidências produzidas sobre o tema, contribuindo para o aprimoramento das práticas assistenciais e para a construção de modelos de cuidado centrados nas necessidades de pacientes e cuidadores.
Considerando a crescente prevalência da demência e seus impactos sobre a saúde mental e a qualidade de vida de pacientes e cuidadores familiares, esta revisão integrativa justifica-se pela necessidade de sistematizar o conhecimento científico disponível acerca das intervenções psicológicas utilizadas nesse contexto. Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar as evidências científicas relacionadas ao cuidado psicológico na demência, identificando as principais intervenções direcionadas a pacientes e cuidadores familiares e seus efeitos sobre a saúde mental, a qualidade de vida e a sobrecarga associada ao processo de cuidado.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Demência: Conceito, Características Clínicas e Impacto na Saúde Pública
A demência é uma síndrome caracterizada pelo declínio progressivo das funções cognitivas, incluindo memória, atenção, linguagem, orientação e capacidade de julgamento, comprometendo a autonomia e a funcionalidade dos indivíduos acometidos. Trata-se de uma condição multifatorial e geralmente irreversível, associada a diferentes etiologias, sendo a doença de Alzheimer a forma mais prevalente. Além dos déficits cognitivos, a demência frequentemente envolve alterações comportamentais e psicológicas que interferem significativamente na qualidade de vida dos pacientes e de seus familiares (Majer et al., 2020).
O aumento da expectativa de vida observado nas últimas décadas tem contribuído para o crescimento da prevalência das síndromes demenciais em todo o mundo. Esse cenário representa um importante desafio para os sistemas de saúde, em razão da elevada demanda por cuidados contínuos, acompanhamento multiprofissional e suporte às famílias. A progressão da doença está associada à perda gradual da independência funcional, tornando os pacientes cada vez mais dependentes de terceiros para a realização das atividades básicas e instrumentais da vida diária (Raphael et al., 2026).
Além dos prejuízos cognitivos, muitos indivíduos com demência apresentam sintomas neuropsiquiátricos, como depressão, ansiedade, irritabilidade, apatia, agitação, alterações do sono e sintomas psicóticos. Esses sintomas constituem importante fonte de sofrimento para os pacientes e representam um dos principais fatores associados à institucionalização precoce e à sobrecarga dos cuidadores familiares (Majer et al., 2020). Nesse contexto, a compreensão da demência deve ultrapassar a perspectiva exclusivamente biomédica, incorporando também seus impactos emocionais, sociais e familiares.
A literatura contemporânea destaca a necessidade de abordagens centradas na pessoa, capazes de promover não apenas o manejo clínico da doença, mas também o bem-estar psicológico, a participação social e a preservação da qualidade de vida. Dessa forma, o cuidado à pessoa com demência requer estratégias integradas que contemplem as necessidades físicas, cognitivas, emocionais e relacionais ao longo de todo o curso da doença (Ziebuhr et al., 2023).
2.2. Repercussões Psicológicas da Demência para Pacientes e Cuidadores Familiares
As repercussões da demência estendem-se muito além das alterações cognitivas observadas nos pacientes. O diagnóstico da doença frequentemente desencadeia sentimentos de medo, insegurança, tristeza e incerteza quanto ao futuro, podendo favorecer o surgimento de sintomas depressivos e ansiosos. À medida que a doença progride e as limitações funcionais se tornam mais evidentes, muitos pacientes experimentam redução da autoestima, isolamento social e perda da percepção de controle sobre a própria vida, comprometendo significativamente sua saúde mental e qualidade de vida.
Paralelamente, os familiares que assumem a responsabilidade pelo cuidado tornam-se vulneráveis a diferentes formas de sofrimento psicológico. A necessidade de supervisão constante, o manejo de sintomas comportamentais complexos e as exigências associadas ao cuidado prolongado podem gerar elevados níveis de estresse, exaustão emocional e sobrecarga física. Estudos demonstram que cuidadores familiares de pessoas com demência apresentam maior prevalência de ansiedade, depressão, distúrbios do sono e prejuízos na qualidade de vida quando comparados à população geral (Rebêlo et al., 2021; Souza et al., 2025).
A intensidade da sobrecarga está frequentemente relacionada à presença de sintomas neuropsiquiátricos nos pacientes. Alterações como agressividade, agitação, delírios, alucinações e apatia demandam maior esforço por parte dos cuidadores, aumentando o desgaste emocional e dificultando a adaptação ao processo de cuidado (Majer et al., 2020). Além disso, a dedicação intensa às necessidades do familiar doente pode resultar em redução das atividades sociais, dificuldades profissionais e comprometimento das relações interpessoais.
Diversos estudos apontam que a sobrecarga do cuidador constitui um dos principais problemas associados à demência, repercutindo negativamente sobre sua saúde física e psicológica. Fatores como ausência de rede de apoio, baixa renda, tempo prolongado de cuidado e dificuldades no acesso a serviços especializados podem potencializar esse processo, favorecendo o desenvolvimento de sofrimento emocional e adoecimento mental (Hermes-Pereira et al., 2025; Raphael et al., 2026).
Diante desse contexto, torna-se evidente a necessidade de estratégias de suporte psicológico voltadas tanto para os pacientes quanto para os cuidadores familiares. O reconhecimento das demandas emocionais associadas à demência constitui um passo fundamental para a construção de intervenções capazes de promover adaptação, resiliência e melhoria da qualidade de vida dos envolvidos no processo de cuidado.
2.3. Qualidade de Vida, Resiliência e Estratégias de Enfrentamento na Demência
A qualidade de vida tem sido reconhecida como um dos principais indicadores de bem-estar em pessoas com demência e seus cuidadores familiares. Embora a progressão da doença esteja associada a limitações cognitivas e funcionais crescentes, fatores emocionais, sociais e ambientais exercem influência significativa sobre a percepção de qualidade de vida. Estudos demonstram que a manutenção de vínculos sociais, a participação em atividades significativas e a presença de suporte familiar contribuem para melhores indicadores de bem-estar e satisfação com a vida (Silvano et al., 2020; Polo et al., 2025).
No contexto do cuidado familiar, a qualidade de vida está intimamente relacionada à capacidade de adaptação às demandas impostas pela doença. A sobrecarga emocional, o desgaste físico e as alterações na rotina podem comprometer o equilíbrio psicológico dos cuidadores, tornando-os mais vulneráveis ao estresse e ao adoecimento mental (Souza et al., 2025). Nesse sentido, a resiliência emerge como um importante fator protetivo, favorecendo a adaptação positiva diante das adversidades e contribuindo para a manutenção da saúde mental.
Além da resiliência, estratégias de enfrentamento adequadas têm sido associadas a melhores desfechos psicológicos entre cuidadores familiares. O apoio social, a participação em grupos de suporte, a espiritualidade e a religiosidade são frequentemente apontadas como recursos que auxiliam na redução do sofrimento emocional e na promoção do bem-estar psicológico (Pessotti et al., 2018; Tedrus et al., 2020). Dessa forma, a compreensão dos fatores que influenciam a qualidade de vida e a adaptação ao cuidado é fundamental para o desenvolvimento de intervenções voltadas à promoção da saúde mental de pacientes e cuidadores.
2.4. Intervenções Psicológicas para Pacientes com Demência
As intervenções psicológicas têm assumido papel crescente na assistência às pessoas com demência, especialmente em razão dos impactos emocionais e comportamentais associados à doença. Embora não sejam capazes de interromper a progressão do comprometimento cognitivo, essas abordagens contribuem para a redução do sofrimento psicológico, melhora da adaptação ao diagnóstico e promoção da qualidade de vida.
Entre as estratégias mais empregadas destacam-se a psicoterapia, a terapia cognitivo-comportamental adaptada, as intervenções de apoio emocional e os programas psicossociais. Essas abordagens buscam auxiliar os pacientes no manejo de sintomas depressivos e ansiosos, além de favorecer a manutenção da autonomia e da participação social pelo maior tempo possível (Orgeta et al., 2022).
A literatura também evidencia benefícios associados a intervenções não farmacológicas voltadas ao fortalecimento das habilidades de enfrentamento e à promoção do bem-estar psicológico. Programas estruturados de suporte emocional podem contribuir para a redução de sintomas neuropsiquiátricos, melhora da autoestima e maior capacidade de adaptação às mudanças decorrentes da progressão da doença (Duarte et al., 2023). Nesse contexto, as intervenções psicológicas constituem importante componente do cuidado integral à pessoa com demência.
2.5. Intervenções Psicológicas para Cuidadores Familiares
Os cuidadores familiares representam um dos principais alvos das intervenções psicológicas no contexto da demência. A elevada sobrecarga associada ao cuidado contínuo tem impulsionado o desenvolvimento de estratégias destinadas a promover suporte emocional, fortalecimento das habilidades de enfrentamento e redução dos impactos negativos sobre a saúde mental.
Entre as intervenções mais estudadas destacam-se os programas de psicoeducação, que fornecem informações sobre a doença, manejo de sintomas comportamentais, estratégias de comunicação e recursos de apoio disponíveis. Evidências indicam que a psicoeducação contribui para o aumento do conhecimento sobre a demência, melhora da autoconfiança dos cuidadores e redução dos níveis de estresse e sobrecarga (Damien et al., 2020; Xiao et al., 2024).
Além da psicoeducação, intervenções baseadas na terapia cognitivo-comportamental têm demonstrado resultados positivos na redução de sintomas depressivos e ansiosos, promovendo maior adaptação emocional às demandas do cuidado (Wilz et al., 2018). Mais recentemente, abordagens como a Terapia de Aceitação e Compromisso têm apresentado potencial para favorecer a flexibilidade psicológica, o desenvolvimento de estratégias adaptativas e a melhoria da qualidade de vida dos cuidadores (Han et al., 2025).
O avanço das tecnologias digitais também possibilitou o desenvolvimento de intervenções online e programas remotos de suporte psicológico. Essas estratégias ampliam o acesso ao cuidado, especialmente para cuidadores que enfrentam dificuldades de deslocamento ou limitações de tempo, mostrando-se eficazes na promoção do bem-estar psicológico e no fortalecimento das redes de apoio (Zhao et al., 2019; Xiao et al., 2024).
2.6. Desafios e Perspectivas para o Cuidado Psicológico na Demência
Apesar dos avanços observados nas últimas décadas, diversos desafios ainda limitam a implementação ampla e efetiva das intervenções psicológicas voltadas às pessoas com demência e seus cuidadores. Entre os principais obstáculos destacam-se a escassez de serviços especializados, a insuficiência de profissionais capacitados, as barreiras financeiras e as dificuldades de acesso aos recursos de apoio psicológico.
Outro aspecto relevante refere-se à baixa adesão de alguns cuidadores aos programas de suporte disponíveis. Estudos apontam que fatores como desconhecimento dos serviços, percepção reduzida das próprias necessidades emocionais e dificuldades relacionadas à rotina de cuidados podem interferir na busca e utilização de estratégias de apoio psicológico (Zwingmann et al., 2020).
Por outro lado, observa-se crescente interesse no desenvolvimento de intervenções personalizadas, integradas e centradas nas necessidades individuais dos pacientes e cuidadores. A expansão das tecnologias digitais, a incorporação de recursos de teleatendimento e o fortalecimento das abordagens multidisciplinares representam perspectivas promissoras para ampliar o acesso ao cuidado psicológico e promover assistência mais abrangente e humanizada (Kwok et al., 2023; Raphael et al., 2026).
Diante desse cenário, torna-se fundamental o investimento em pesquisas que permitam avaliar a efetividade das diferentes modalidades de intervenção psicológica e identificar estratégias capazes de responder às demandas crescentes impostas pela demência. O fortalecimento do cuidado psicológico pode contribuir significativamente para a melhoria da saúde mental, da qualidade de vida e do bem-estar de pacientes e cuidadores familiares.
3. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, realizada com o objetivo de analisar as evidências científicas acerca das intervenções psicológicas direcionadas a pacientes com demência e cuidadores familiares. A revisão integrativa possibilita a síntese e análise de estudos com diferentes delineamentos metodológicos, contribuindo para uma compreensão abrangente do conhecimento produzido sobre determinado fenômeno.
A questão norteadora da pesquisa foi: quais são as principais intervenções psicológicas direcionadas a pessoas com demência e cuidadores familiares e quais seus efeitos sobre a saúde mental, a qualidade de vida e a sobrecarga associada ao cuidado?
A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), selecionadas por sua relevância na área da saúde e por reunirem publicações nacionais e internacionais relacionadas ao tema investigado. Foram considerados estudos publicados entre os anos de 2018 e 2026, nos idiomas português, inglês e espanhol.
Para a recuperação dos estudos, foram utilizados descritores e termos relacionados à demência, cuidadores familiares, saúde mental, qualidade de vida e suporte psicológico, combinados por meio do operador booleano AND. Na base PubMed, foi empregada a seguinte estratégia de busca: ("Dementia") AND ("Psychological Intervention*" OR "Psychological Care" OR "Psychological Support" OR "Psychotherapy" OR "Psychoeducation") AND ("Family Caregiver*" OR "Caregiver*") AND ("Mental Health" OR "Quality of Life" OR "Caregiver Burden"). Nas bases SciELO e LILACS, foi utilizada a seguinte estratégia: ("Dementia") AND ("Caregiver*" OR "Family Caregiver*") AND ("Mental Health" OR "Quality of Life" OR "Psychological Support").
A busca resultou em 394 registros, sendo 249 provenientes da PubMed, 121 da LILACS e 24 da SciELO. Os estudos recuperados foram organizados em planilha eletrônica para análise. A identificação dos registros duplicados foi realizada manualmente por meio da comparação dos títulos, autores, ano de publicação e periódico. Após essa etapa, os estudos remanescentes foram submetidos à triagem por título e resumo.
Foram incluídos estudos originais publicados entre 2018 e 2026, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês e espanhol, que abordassem intervenções psicológicas direcionadas a pessoas com demência e/ou cuidadores familiares. Foram considerados estudos quantitativos, qualitativos e de métodos mistos que investigassem aspectos relacionados à saúde mental, qualidade de vida, suporte psicológico, psicoeducação, psicoterapia, sobrecarga do cuidador e estratégias de enfrentamento no contexto da demência.
Foram excluídos artigos duplicados, revisões de literatura, revisões integrativas, revisões sistemáticas, meta-análises, editoriais, cartas ao editor, protocolos de pesquisa, resumos de eventos, dissertações, teses e estudos sem acesso ao texto completo. Também foram excluídos estudos que não abordavam intervenções psicológicas voltadas a pessoas com demência ou cuidadores familiares, bem como aqueles cujos resultados não respondiam ao objetivo da revisão.
Após a leitura dos títulos e resumos, os estudos potencialmente elegíveis foram selecionados para leitura na íntegra. Nessa etapa, foi realizada nova avaliação quanto à adequação aos critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos. Os artigos que atenderam aos critérios metodológicos e temáticos da pesquisa foram incluídos na amostra final da revisão.
A extração dos dados foi realizada mediante instrumento elaborado pelas autoras, contemplando as seguintes informações: autoria, ano de publicação, país de origem, objetivo do estudo, delineamento metodológico, população investigada, tipo de intervenção psicológica desenvolvida e principais resultados encontrados. Os dados obtidos foram organizados em quadro sinóptico para facilitar a comparação entre os estudos e a identificação dos principais achados.
A análise dos dados ocorreu de forma descritiva e interpretativa, por meio da síntese narrativa das evidências encontradas. Os resultados foram agrupados em categorias temáticas relacionadas às intervenções psicológicas para pacientes com demência, intervenções destinadas aos cuidadores familiares, efeitos sobre a saúde mental e qualidade de vida, além dos desafios e perspectivas para o fortalecimento do cuidado psicológico nesse contexto.
Por se tratar de uma revisão integrativa da literatura desenvolvida a partir de dados secundários disponíveis em publicações científicas, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme as diretrizes vigentes para estudos dessa natureza.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A busca realizada nas bases de dados PubMed, LILACS e SciELO resultou na identificação de 394 registros, sendo 249 provenientes da PubMed, 121 da LILACS e 24 da SciELO. Após a remoção manual de 98 registros duplicados, permaneceram 296 estudos para a etapa de triagem por título e resumo. Nessa fase, 120 registros foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão estabelecidos. Assim, 176 estudos foram selecionados para leitura na íntegra. Após a avaliação detalhada dos textos completos, 149 artigos foram excluídos por não apresentarem aderência ao objetivo da revisão ou por não abordarem intervenções psicológicas voltadas a pacientes com demência e/ou cuidadores familiares. Dessa forma, a amostra final da revisão foi composta por 27 artigos científicos.
O processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos está apresentado na Figura 1.
Figura 1: Fluxograma do processo de seleção dos estudos conforme PRISMA 2020
4.1. Caracterização dos Estudos Incluídos
Os 27 estudos incluídos nesta revisão foram publicados entre os anos de 2018 e 2026 e apresentaram diferentes delineamentos metodológicos, incluindo ensaios clínicos randomizados, estudos observacionais, pesquisas qualitativas, estudos de métodos mistos e revisões de evidências primárias. Os estudos foram conduzidos em diversos países, evidenciando o interesse internacional pelo cuidado psicológico no contexto da demência.
Observou-se predominância de pesquisas direcionadas aos cuidadores familiares, especialmente aquelas voltadas à avaliação da sobrecarga, saúde mental, qualidade de vida e efetividade de intervenções psicológicas. Entre as intervenções identificadas destacaram-se programas de psicoeducação, terapia cognitivo-comportamental, terapia de aceitação e compromisso, grupos de apoio, aconselhamento psicológico e intervenções digitais.
A Tabela 1 apresenta a caracterização dos estudos incluídos quanto à autoria, ano de publicação, país de realização, delineamento metodológico, população investigada, tipo de intervenção e principais resultados.
Tabela 1: Caracterização dos estudos incluídos na revisão integrativa sobre cuidado psicológico na demência: intervenções para pacientes e cuidadores familiares (n = 27)
Autor/Ano | País | Delineamento | População/ Amostra | Objetivo | Principais resultados |
Griffiths et al. (2018) | EUA | Estudo de intervenção | 64 cuidadores | Avaliar o programa Tele-Savvy | Redução da sobrecarga e dos sintomas depressivos |
Karg et al. (2018) | Alemanha | Transversal | 386 cuidadores | Avaliar qualidade de vida relacionada ao cuidado | Maior sobrecarga e menor qualidade de vida entre cuidadores de pessoas com demência |
Pessotti et al. (2018) | Brasil | Transversal | Cuidadores familiares | Investigar religiosidade, resiliência e sobrecarga | Resiliência associada à menor sobrecarga |
Wilz et al. (2018) | Alemanha | Ensaio clínico | Cuidadores familiares | Avaliar intervenção psicológica para cuidadores | Melhora no alcance de metas terapêuticas |
Konerding et al. (2019) | Multicentro | Observacional | Cuidadores familiares | Identificar fatores associados à sobrecarga | Problemas físicos e emocionais aumentaram a sobrecarga |
Damien et al. (2020) | Bélgica | Caso-controle retrospectivo | 91 cuidadores | Avaliar programa psicoeducativo para cuidadores de pessoas com demência | Não houve redução significativa da sobrecarga dos cuidadores nem atraso na institucionalização; observou-se maior sobrevida dos pacientes cujos cuidadores participaram do programa |
Majer et al. (2020) | Hungria | Transversal | Pessoas com demência e cuidadores | Avaliar sintomas neuropsiquiátricos e qualidade de vida | Sintomas neuropsiquiátricos aumentaram a sobrecarga |
Silvano et al. (2020) | Portugal | Estudo transversal | 27 idosos com e sem demência, além de cuidadores formais e informais | Analisar a concordância das percepções sobre qualidade de vida entre idosos e cuidadores | As percepções de qualidade de vida dos idosos foram mais semelhantes às dos cuidadores informais do que às dos formais, reforçando a importância de incluir a voz da própria pessoa com demência na avaliação do cuidado |
Tedrus et al. (2020) | Brasil | Observacional | Pacientes e cuidadores | Investigar religiosidade e qualidade de vida | Religiosidade associada a melhor qualidade de vida |
Zwingmann et al. (2020) | Alemanha | Ensaio controlado randomizado por clusters | 226 díades de cuidadores familiares e pessoas com demência | Analisar a rejeição de serviços de apoio por cuidadores familiares de pessoas com demência | A maioria dos cuidadores aceitou os serviços recomendados, porém houve elevada rejeição de grupos de apoio, principalmente por considerá-los desnecessários, indesejados ou por falta de tempo |
Altieri et al. (2021) | Itália | Observacional | 84 cuidadores | Avaliar impactos da COVID-19 em cuidadores de pessoas com demência | Aumento da depressão e da sobrecarga dos cuidadores durante o isolamento social |
Llibre-Rodríguez et al. (2021) | Cuba | Transversal | Cuidadores familiares | Avaliar sobrecarga durante a pandemia | Aumento do estresse e da sobrecarga |
Elias et al. (2021) | Brasil | Observacional | Cuidadores familiares | Investigar sobrecarga emocional | Sintomas neuropsiquiátricos associados à sobrecarga |
García-Castro (2021) | Espanha | Transversal | 115 cuidadores | Avaliar fortalezas psicológicas e saúde mental | Esperança e resiliência associadas a menor sofrimento |
Hartmann et al. (2021) | Alemanha | Transversal | 191 pessoas com demência avançada e cuidadores | Avaliar qualidade de vida na demência avançada | Sintomas neuropsiquiátricos e sofrimento associaram-se à pior qualidade de vida |
Rebêlo et al. (2021) | Brasil | Transversal | 85 idosos com demência e 85 cuidadores | Avaliar fatores associados à sobrecarga e qualidade de vida dos cuidadores | Maior dependência funcional do idoso associou-se a maior sobrecarga e pior qualidade de vida dos cuidadores |
Schmidt et al. (2021) | Brasil | Transversal | Cuidadores familiares | Avaliar saúde mental durante a COVID-19 | Aumento da ansiedade e sofrimento emocional |
Cheung et al. (2022) | Nova Zelândia | Estudo qualitativo | 16 pessoas com demência e cuidadores familiares | Explorar a compreensão e as experiências de viver com demência entre chineses residentes na Nova Zelândia | Identificou estigma, estresse dos cuidadores, impacto emocional da demência e necessidade de psicoeducação e suporte psicológico |
Hanna et al. (2022) | Reino Unido | Qualitativo | Pessoas com demência e cuidadores | Investigar impactos da COVID-19 | Isolamento social agravou sintomas emocionais |
Duarte et al. (2023) | Brasil | Estudo de intervenção | 72 idosos com demência institucionalizados e 54 cuidadores formais | Investigar sintomas comportamentais e psicológicos da demência, sobrecarga dos cuidadores e efeitos de uma intervenção psicoeducacional | Os cuidadores apresentaram sobrecarga (36,1%) e transtornos mentais comuns (33,3%). Após a intervenção psicoeducacional, 42,8% apresentaram redução da sobrecarga, evidenciando os benefícios do suporte psicoeducativo |
Nascimento et al. (2023) | Brasil | Qualitativo | 12 cuidadores informais | Avaliar a qualidade de vida dos cuidadores durante a COVID-19 | A pandemia agravou a sobrecarga emocional e reduziu a qualidade de vida dos cuidadores |
Xiao et al. (2024) | Multicentro | Ensaio clínico randomizado | Cuidadores familiares | Avaliar programa online iSupport | Melhora da saúde mental e redução da sobrecarga |
Alvarez Polo et al. (2025) | Colômbia | Observacional | Pessoas com demência e cuidadores | Avaliar fatores associados à qualidade de vida | Características do cuidador influenciaram a qualidade de vida |
Alves et al. (2025) | Brasil | Quase-experimental (antes e depois) | 56 cuidadores familiares de idosos com demência | Analisar a influência da psicoeducação na qualidade de vida dos cuidadores | A psicoeducação aumentou a qualidade de vida e o conhecimento dos cuidadores, além de reduzir significativamente a sobrecarga física e emocional |
Han et al. (2025) | EUA | Ensaio clínico randomizado | 33 cuidadores | Avaliar ACT por videoconferência | Redução de ansiedade, depressão e sobrecarga |
Hermes-Pereira et al. (2025) | Brasil | Transversal | 119 cuidadores | Identificar fatores associados à sobrecarga | Sintomas depressivos explicaram grande parte da sobrecarga |
Souza et al. (2025) | Brasil | Transversal | Cuidadores familiares | Avaliar fatores associados à qualidade de vida | Sobrecarga associada à pior qualidade de vida |
4.2. Repercussões Psicológicas da Demência para Pacientes e Cuidadores Familiares
Os estudos analisados evidenciaram que a demência produz impactos significativos sobre a saúde mental dos pacientes e de seus familiares. Entre as pessoas acometidas pela doença foram identificados sintomas de ansiedade, depressão, isolamento social, sofrimento emocional e redução da qualidade de vida decorrentes da perda progressiva da autonomia e das limitações funcionais impostas pela evolução clínica (Cheung et al., 2022; Hanna et al., 2022; Hartmann et al., 2021).
Entre os cuidadores familiares, observou-se elevada prevalência de sobrecarga física e emocional, associada a sintomas de ansiedade, depressão, estresse crônico e exaustão psicológica (Altieri et al., 2021; Rebêlo et al., 2021; Souza et al., 2025). A intensidade da sobrecarga mostrou-se diretamente relacionada à presença de sintomas neuropsiquiátricos nos pacientes, incluindo agitação, agressividade, irritabilidade e alterações do sono (Majer et al., 2020; Elias et al., 2021; Hermes-Pereira et al., 2025).
Os resultados também demonstraram que a qualidade de vida dos cuidadores tende a ser progressivamente comprometida à medida que aumentam as demandas assistenciais. Fatores como ausência de rede de apoio, limitações financeiras e tempo prolongado de cuidado foram frequentemente associados ao sofrimento psicológico e ao desenvolvimento de problemas de saúde mental (Karg et al., 2018; Konerding et al., 2019).
Durante a pandemia de COVID-19, esses impactos tornaram-se ainda mais evidentes. Os estudos de Llibre-Rodríguez et al. (2021), Schmidt et al. (2021) e Nascimento et al. (2023) demonstraram que o isolamento social, a interrupção de atividades presenciais e a redução do acesso aos serviços de saúde intensificaram a sobrecarga emocional dos cuidadores e agravaram sintomas comportamentais em pessoas com demência. Além disso, a necessidade de distanciamento social limitou o acesso aos serviços de suporte psicológico e às redes de apoio tradicionalmente utilizadas pelos familiares. Esses achados reforçam a importância de estratégias de cuidado psicológico capazes de responder às demandas emocionais tanto em situações habituais quanto em contextos de crise sanitária.
4.3. Intervenções Psicológicas Direcionadas a Pacientes com Demência
Os estudos incluídos identificaram diferentes modalidades de intervenções psicológicas voltadas diretamente às pessoas com demência. As estratégias mais frequentes envolveram suporte emocional, intervenções psicossociais e programas psicoeducacionais destinados ao manejo de sintomas comportamentais e emocionais (Duarte et al., 2023).
Os resultados demonstraram que essas abordagens contribuem para a redução do sofrimento psicológico, favorecem a adaptação ao diagnóstico e promovem melhorias nos indicadores de qualidade de vida. Duarte et al. (2023) observaram que intervenções psicoeducacionais direcionadas aos cuidadores repercutem positivamente no cuidado prestado às pessoas com demência, contribuindo para a redução da sobrecarga e para o manejo mais adequado dos sintomas neuropsiquiátricos.
Além disso, estudos que exploraram a experiência subjetiva de viver com demência apontaram que o suporte psicológico favorece maior aceitação do diagnóstico, fortalecimento da autoestima e preservação das relações sociais (Cheung et al., 2022; Hanna et al., 2022). Esses aspectos são particularmente relevantes diante do estigma frequentemente associado à doença e das dificuldades enfrentadas pelos pacientes ao longo da progressão do quadro clínico.
Os achados reforçam a importância da incorporação de intervenções psicológicas ao cuidado integral da pessoa com demência, ampliando o foco assistencial para além dos aspectos biomédicos e contemplando também as necessidades emocionais e psicossociais dos pacientes.
4.4. Intervenções Psicológicas Direcionadas a Cuidadores Familiares
A maior parte dos estudos selecionados concentrou-se nas intervenções direcionadas aos cuidadores familiares, evidenciando a relevância desse grupo para o cuidado em demência. As estratégias mais frequentemente identificadas foram programas de psicoeducação, terapia cognitivo-comportamental, terapia de aceitação e compromisso, grupos de apoio e intervenções digitais (Damien et al., 2020; Wilz et al., 2018; Han et al., 2025; Xiao et al., 2024).
Os programas de psicoeducação mostraram-se importantes para ampliar o conhecimento dos cuidadores sobre a doença e fortalecer estratégias de enfrentamento. Estudos como os de Alves et al. (2025), Duarte et al. (2023) e Xiao et al. (2024) evidenciaram redução da sobrecarga e melhora da qualidade de vida dos cuidadores. Por outro lado, Damien et al. (2020) observaram que, embora a intervenção psicoeducativa não tenha reduzido significativamente a sobrecarga ou retardado a institucionalização, foram identificados benefícios potenciais relacionados ao acompanhamento dos cuidadores e à sobrevida dos pacientes, evidenciando a heterogeneidade dos resultados encontrados na literatura.
As intervenções baseadas na terapia cognitivo-comportamental apresentaram resultados positivos na redução de sintomas depressivos e ansiosos. Wilz et al. (2018) identificaram melhora significativa dos objetivos terapêuticos estabelecidos pelos participantes, enquanto Han et al. (2025) observaram redução dos sintomas depressivos por meio da Terapia de Aceitação e Compromisso, demonstrando benefícios para a adaptação emocional dos cuidadores.
Outro aspecto relevante refere-se às intervenções realizadas por meio de plataformas digitais. Griffiths et al. (2018) e Xiao et al. (2024) demonstraram que programas online podem ampliar o acesso ao suporte psicológico, reduzir barreiras geográficas e oferecer assistência contínua aos cuidadores familiares. Esses resultados tornaram-se particularmente relevantes após a pandemia de COVID-19, quando estratégias remotas passaram a ocupar papel central na oferta de cuidados e apoio psicológico.
De modo geral, os estudos evidenciaram que intervenções psicológicas estruturadas contribuem para o fortalecimento das estratégias de enfrentamento, para a redução da sobrecarga emocional e para a promoção da saúde mental dos cuidadores familiares, favorecendo um cuidado mais seguro e eficaz às pessoas com demência.
4.5. Efeitos das Intervenções Sobre Saúde Mental e Qualidade de Vida
Os estudos analisados demonstraram que as intervenções psicológicas exercem impacto positivo sobre diferentes indicadores de saúde mental. Entre os benefícios mais frequentemente relatados destacaram-se a redução dos níveis de ansiedade, depressão, estresse e sobrecarga, bem como a melhoria da qualidade de vida e do bem-estar psicológico (Wilz et al., 2018; Han et al., 2025; Xiao et al., 2024).
A participação em programas de suporte psicológico favoreceu o desenvolvimento de estratégias adaptativas de enfrentamento e fortaleceu a percepção de apoio social entre os cuidadores familiares (Damien et al., 2020; Alves et al., 2025). Esses fatores contribuíram para maior capacidade de adaptação às demandas impostas pelo cuidado prolongado e para a redução do sofrimento emocional associado à doença.
Além dos aspectos emocionais, alguns estudos destacaram a importância de fatores protetivos, como resiliência, espiritualidade, religiosidade e esperança. García-Castro (2021) demonstrou que maiores níveis de esperança e resiliência estão associados a menor sofrimento psicológico entre cuidadores de pessoas com demência. De forma semelhante, Pessotti et al. (2018), Tedrus et al. (2020) e Silvano et al. (2020) identificaram associação entre esses recursos e melhores indicadores de qualidade de vida.
Estudos conduzidos por Karg et al. (2018), Alvarez Polo et al. (2025) e Souza et al. (2025) reforçam que a melhoria da qualidade de vida dos cuidadores está diretamente relacionada à disponibilidade de suporte psicológico e social. Além disso, Alvarez Polo et al. (2025) demonstraram que a competência do cuidador, a menor sobrecarga e melhores condições de bem-estar estão associadas a melhores indicadores de qualidade de vida das pessoas com demência.
Dessa forma, os resultados evidenciam que as intervenções psicológicas constituem ferramenta fundamental para a promoção da saúde mental, redução da sobrecarga e fortalecimento do cuidado integral às pessoas com demência e seus familiares.
4.6. Desafios e Perspectivas para o Cuidado Psicológico na Demência
Apesar dos benefícios observados, os estudos apontaram desafios importantes para a implementação das intervenções psicológicas. Entre os principais obstáculos destacaram-se a escassez de serviços especializados, a insuficiência de profissionais capacitados, as limitações financeiras e as dificuldades de acesso aos programas de suporte psicológico (Zwingmann et al., 2020; Cheung et al., 2022).
Outro aspecto frequentemente mencionado refere-se à baixa adesão de alguns cuidadores às intervenções disponíveis. Segundo Zwingmann et al. (2020), muitos familiares apresentam dificuldades para reconhecer suas próprias necessidades emocionais ou encontram barreiras relacionadas à rotina intensa de cuidados, limitando sua participação em programas de apoio psicológico.
Por outro lado, os estudos evidenciaram perspectivas promissoras relacionadas à expansão das tecnologias digitais, ao desenvolvimento de programas de teleatendimento e à implementação de intervenções personalizadas (Xiao et al., 2024). Além disso, experiências observadas durante e após a pandemia de COVID-19 demonstraram o potencial das estratégias remotas para ampliar o acesso ao suporte psicológico e fortalecer o acompanhamento contínuo dos cuidadores familiares (Llibre-Rodríguez et al., 2021; Hanna et al., 2022).
Diante desse cenário, torna-se fundamental o investimento em políticas públicas e programas assistenciais que incorporem o cuidado psicológico como componente essencial da atenção às pessoas com demência e seus familiares. A ampliação do acesso às intervenções psicológicas poderá contribuir significativamente para a redução da sobrecarga, melhoria da qualidade de vida e fortalecimento da saúde mental dessa população.
4.7. Síntese dos Principais Achados
A análise dos 27 estudos incluídos nesta revisão evidenciou que a demência produz repercussões significativas sobre a saúde mental e a qualidade de vida de pacientes e cuidadores familiares (Majer et al., 2020; Altieri et al., 2021; Hermes-Pereira et al., 2025). Os resultados demonstraram que intervenções psicológicas, especialmente programas de psicoeducação, psicoterapia, grupos de apoio e intervenções digitais, contribuem para a redução da ansiedade, depressão e sobrecarga associadas ao cuidado (Damien et al., 2020; Wilz et al., 2018; Han et al., 2025; Xiao et al., 2024).
Além disso, observou-se melhora dos indicadores de qualidade de vida, fortalecimento das estratégias de enfrentamento e ampliação do suporte emocional oferecido aos participantes (Pessotti et al., 2018; Tedrus et al., 2020; Souza et al., 2025). Estudos também evidenciaram que fatores como resiliência, religiosidade, apoio social e competência do cuidador exercem influência positiva sobre a adaptação ao cuidado e a qualidade de vida de pacientes e familiares (Silvano et al., 2020; Alvarez Polo et al., 2025).
Apesar dos avanços identificados, persistem desafios relacionados ao acesso aos serviços especializados, à disponibilidade de profissionais capacitados e à implementação ampla dessas intervenções nos diferentes contextos assistenciais (Zwingmann et al., 2020; Cheung et al., 2022).
Dessa forma, os achados reforçam a importância do cuidado psicológico como componente essencial da assistência integral às pessoas com demência e seus cuidadores familiares, destacando a necessidade de ampliação das estratégias de suporte emocional e fortalecimento das políticas públicas voltadas a essa população.
5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão integrativa alcança o objetivo proposto ao analisar as evidências científicas relacionadas ao cuidado psicológico na demência, identificando as principais intervenções direcionadas a pacientes e cuidadores familiares. As evidências demonstram que o cuidado psicológico constitui componente essencial da assistência integral, favorecendo o enfrentamento das repercussões emocionais associadas à doença e ao processo de cuidado.
As intervenções psicológicas mostram potencial para promover adaptação emocional, fortalecimento das estratégias de enfrentamento e melhoria da qualidade de vida, contribuindo para a redução dos impactos psicossociais vivenciados por pacientes e cuidadores. Além disso, a ampliação das modalidades de suporte, especialmente por meio de recursos digitais e programas estruturados de acompanhamento, amplia as possibilidades de acesso ao cuidado e fortalece as redes de apoio.
Do ponto de vista teórico, o estudo evidencia a relevância da abordagem psicológica no contexto da demência e reforça a necessidade de integração entre os diferentes componentes do cuidado. Na prática, os achados podem subsidiar profissionais de saúde e gestores na elaboração de estratégias assistenciais mais abrangentes e centradas nas necessidades dos indivíduos e de suas famílias. Como limitação, destaca-se a inclusão de estudos publicados apenas nos idiomas português, inglês e espanhol e a utilização de três bases de dados, o que pode ter restringido a identificação de outras evidências relevantes. Recomenda-se que pesquisas futuras ampliem as fontes de busca e investiguem a efetividade das diferentes modalidades de intervenção psicológica em distintos contextos socioculturais.
Conclui-se que o cuidado psicológico representa um elemento fundamental para a promoção da saúde mental e da qualidade de vida de pessoas com demência e cuidadores familiares, devendo ser incorporado de forma sistemática às práticas assistenciais e às políticas de atenção voltadas a essa população.
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1 Mestra em Ciência da Saúde – PROCISA da Universidade Federal de Roraima Campus Paricarana. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-8664-0739
2 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Santa Teresa, Boa Vista, RR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0002-7156-6741
3 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Santa Teresa, Boa Vista, RR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-1592-8299
4 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Santa Teresa, Boa Vista, RR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0002-0311-6829
5 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Santa Teresa, Boa Vista, RR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-5559-0316
6 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Santa Teresa, Boa Vista, RR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-7675-6443
7 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Santa Teresa, Boa Vista, RR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-7379-5514
8 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Santa Teresa, Boa Vista, RR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-5746-2470