REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/783656712
RESUMO
Em cenários de contato entre línguas, culturas e memórias, a constituição identitária tornou-se um processo marcado por deslocamentos, pertencimentos e negociações simbólicas. Este artigo examinou processos de subjetivação em contextos multilíngues e multiculturais, tomando a linguagem como prática por meio da qual sujeitos elaboraram vínculos, diferenças e modos de reconhecimento. Metodologicamente, desenvolveu-se uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, orientada pela leitura interpretativa de produções sobre identidade, cultura, linguagem, multilinguismo e multiculturalidade. O percurso analítico indicou que as posições subjetivas se constituíram em repertórios linguísticos, experiências migratórias, fronteiras culturais, línguas maternas, línguas adicionais e práticas discursivas compartilhadas. Os usos da linguagem organizaram formas de inserção social e revelaram tensões entre memória, exclusão, pertencimento e legitimação. Nesse movimento, o encontro entre línguas e culturas produziu deslocamentos subjetivos, pois cada situação comunicativa acionou valores, afetos, expectativas e modos de leitura do mundo. As fontes examinadas permitiram relacionar escolhas linguísticas, trajetórias culturais e posições assumidas em espaços de convivência social. Desse modo, a investigação mostrou que identidades multilíngues e multiculturais se formaram em processos instáveis de negociação, nos quais a língua funcionou como marca de pertencimento, conflito e invenção de si. Concluiu-se que compreender a subjetivação nesses contextos exigiu reconhecer a linguagem como prática social, pois foi por meio dela que sujeitos reelaboraram vínculos culturais e produziram sentidos sobre si, sobre o outro e sobre os lugares historicamente habitados.
Palavras-chave: Cultura; Identidade; Linguagem; Multiculturalidade; Subjetivação.
ABSTRACT
In settings shaped by contact among languages, cultures, and memories, identity constitution became a process marked by displacements, belongings, and symbolic negotiations. This article examined subjectivation processes in multilingual and multicultural contexts, taking language as a practice through which subjects elaborated bonds, differences, and modes of recognition. Methodologically, bibliographic research was developed, with a qualitative approach guided by an interpretative reading of works on identity, culture, language, multilingualism, and multiculturality. The analytical path indicated that subjective positions were constituted through linguistic repertoires, migratory experiences, cultural borders, mother tongues, additional languages, and shared discursive practices. The uses of language organized forms of social insertion and revealed tensions between memory, exclusion, belonging, and legitimation. Within this movement, the encounter between languages and cultures produced subjective displacements, since each communicative situation activated values, affections, expectations, and ways of reading the world. The examined sources made it possible to relate linguistic choices, cultural trajectories, and positions assumed in spaces of social coexistence. Thus, the investigation showed that multilingual and multicultural identities were formed through unstable processes of negotiation, in which language functioned as a mark of belonging, conflict, and self-invention. It was concluded that understanding subjectivation in these contexts required recognizing language as a social practice, since it was through language that subjects reworked cultural bonds and produced meanings about themselves, about others, and about historically inhabited places.
Keywords: Culture; Identity; Language; Multiculturality; Subjectivation.
1. INTRODUÇÃO
Em sociedades marcadas por encontros linguísticos e culturais, a identidade se forma em meio a vínculos, memórias, deslocamentos e disputas por reconhecimento. Cada sujeito carrega marcas de pertencimento que se reorganizam nas relações com outras línguas, outros modos de vida e diferentes formas de nomear o mundo. Nesse cenário, a linguagem ocupa lugar decisivo, pois participa da construção de sentidos sobre si, sobre o outro e sobre os espaços sociais nos quais experiências multiculturais ganham existência concreta.
A relação entre identidade e cultura ganha densidade quando se observa que os sujeitos não se reconhecem apenas por origem, território ou língua de nascimento. As experiências de convivência, migração, escolarização, circulação social e contato entre grupos produzem formas de pertencimento que se deslocam conforme os contextos. A identidade, portanto, constitui-se em processo, pois cada interação pode confirmar vínculos, produzir estranhamentos, ampliar repertórios e reorganizar modos de presença diante de comunidades linguísticas e culturais distintas.
Nesse percurso, os contextos multilíngues tornam visível que a língua não funciona somente como instrumento de comunicação. Ela carrega memórias, hierarquias, afetos, valores e marcas de legitimação social. O uso de uma língua materna, de uma língua adicional ou de repertórios híbridos pode aproximar sujeitos de determinados grupos e, ao mesmo tempo, produzir distanciamentos em relação a outros. Por isso, a construção das identidades linguísticas envolve pertencimento, diferença e reconhecimento em situações sociais sempre marcadas por relações de valor.
A cultura também participa desse processo ao organizar práticas, narrativas, gestos, crenças e modos de interpretar experiências compartilhadas. Em ambientes multiculturais, os sujeitos negociam sentidos entre referências herdadas e novas formas de convivência, o que modifica modos de falar, agir, lembrar e se posicionar. Essa negociação revela que a subjetivação não ocorre fora das relações sociais, pois se constitui no encontro entre histórias pessoais, repertórios coletivos e expectativas produzidas em espaços nos quais diferentes matrizes culturais coexistem.
O problema deste artigo situa-se justamente nessa zona de contato entre língua, cultura e formação subjetiva. Interessa compreender como sujeitos inseridos em contextos multilíngues e multiculturais constroem identidades, elaboram pertencimentos e negociam diferenças por meio das práticas de linguagem. A pesquisa parte do entendimento de que cada escolha linguística pode carregar modos de adesão, resistência, memória ou deslocamento, sobretudo quando línguas e culturas se encontram em relações marcadas por assimetrias, expectativas sociais e disputas de legitimidade.
Diante desse horizonte, o presente artigo examina processos de subjetivação em contextos multilíngues e multiculturais, considerando a linguagem como prática social implicada na produção de identidades. A investigação assume natureza bibliográfica, abordagem qualitativa e leitura interpretativa de produções relacionadas à identidade, cultura, linguagem, multilinguismo e multiculturalidade. O percurso analítico busca compreender como pertencimentos, memórias e diferenças se articulam nas práticas sociais, formando posições subjetivas que se modificam conforme os sujeitos transitam entre línguas, valores e experiências culturais.
A organização do estudo acompanha dois movimentos articulados. Inicialmente, discute-se a relação entre pertencimento, memória e diferença na construção das identidades linguísticas, com atenção aos modos pelos quais a língua inscreve vínculos e fronteiras simbólicas. Em seguida, a análise volta-se às práticas de linguagem e à negociação subjetiva em fronteiras culturais, observando como os sujeitos elaboram posições, reorganizam repertórios e produzem sentidos sobre si e sobre o outro em espaços multilíngues e multiculturais.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1. Pertencimento, Memória e Diferença na Construção das Identidades Linguísticas
Em contextos multilíngues, a identidade linguística constitui-se em relações que articulam língua, memória e pertencimento. A língua materna, as línguas herdadas e os repertórios adquiridos ao longo das experiências sociais participam da forma como os sujeitos reconhecem a si mesmos e são reconhecidos por comunidades específicas. Jalil (2018) contribui para essa discussão ao analisar falantes de árabe em Foz do Iguaçu, mostrando que narrativas migratórias e heranças culturais sustentam modos de identificação marcados por deslocamentos, lembranças e vínculos comunitários.
A construção das identidades linguísticas também envolve práticas situadas, nas quais os sujeitos atribuem valores às línguas conforme histórias familiares, espaços de convivência e experiências de socialização. Nesse sentido, Zomer (2020, p. 43) compreende que “as línguas são, na verdade, e nada mais e nada menos, do que práticas, resultantes de interações entre seres humanos”, o que desloca a língua de uma visão abstrata para uma dimensão social. O pertencimento, portanto, forma-se nos usos concretos e nas relações construídas pelos falantes.
Teixeira Júnior e Carvalho (2021) situam a língua como dimensão constitutiva das identidades e das percepções culturais, sobretudo nos processos de formação de sujeitos que transitam entre estudo, ensino e vivência social. A leitura dos autores permite compreender que falar uma língua implica assumir posições, acessar memórias e mobilizar referências culturais. Cada prática linguística, nesse sentido, participa da elaboração subjetiva, pois a palavra não circula isolada de histórias, vozes, afetos e valores compartilhados em determinados grupos.
Nessa direção, a memória aparece como elemento que sustenta vínculos entre língua e pertencimento, principalmente quando grupos migrantes preservam marcas linguísticas associadas à origem familiar. Jalil (2018, p. 9) afirma que “a preservação das memórias do movimento migratório e da língua árabe [...] foram e têm sido essenciais na construção e no fortalecimento deste grupo”, perspectiva que ajuda a compreender a língua como arquivo vivo de experiências coletivas. O sujeito, nesse processo, inscreve-se em histórias que ultrapassam sua trajetória individual.
A diferença linguística, entretanto, não se organiza apenas como traço cultural; ela também participa de classificações, hierarquias e disputas de legitimidade. Zomer (2020) mostra que línguas presentes em comunidades multilíngues recebem funções e valores distintos conforme instituições, práticas e expectativas locais. Assim, uma língua pode carregar valor afetivo, outra pode assumir função de circulação ampla, e ambas podem compor o repertório identitário dos sujeitos. A identidade linguística, nesse caso, forma-se em negociações entre reconhecimento, uso social e memória comunitária.
A relação entre língua e cultura também ganha força quando os sujeitos percebem que sua formação ocorre no contato com vozes diversas. Teixeira Júnior e Carvalho (2021, p. 3) assinalam que “a língua é um fenômeno social que [...] traz [...] a qualidade perene de manifestar ininterruptamente a cultura e as identidades do seu usuário”, o que reforça a dimensão social da linguagem. Por meio dela, pertencimentos são narrados, diferenças são percebidas e experiências culturais ganham forma em práticas compartilhadas.
Jalil (2018) permite observar que as narrativas de migração produzem sentidos sobre identidade porque articulam lembranças familiares, experiências de acolhimento, episódios de discriminação e formas de continuidade cultural. No caso dos falantes de árabe analisados pela autora, a língua aparece vinculada a herança, comunidade e reconstrução de trajetórias em território brasileiro. Desse modo, a subjetivação ocorre pela maneira como os sujeitos narram suas origens, interpretam deslocamentos e reafirmam pertencimentos em uma cidade marcada por pluralidade linguística e cultural.
A análise das políticas e ideologias linguísticas em Zomer (2020) ajuda a compreender que a escolha de uma língua em determinado espaço comunica valores coletivos. Igreja, escola, museu e família podem atribuir funções diferentes aos repertórios em circulação, fazendo com que a língua atue como marca de tradição, pertencimento ou adaptação social. A identidade linguística, portanto, organiza-se em práticas que revelam como grupos negociam continuidade cultural, inserção comunitária e reconhecimento diante das transformações produzidas pelo contato intercultural.
No processo formativo, a língua também atua como espaço de encontro entre o sujeito e o outro, pois cada experiência de uso linguístico reorganiza percepções culturais. Teixeira Júnior e Carvalho (2021) discutem o estudante de Letras em uma condição de fronteira entre aprender e ensinar, o que amplia a compreensão sobre identidade em contextos de linguagem. Essa condição permite pensar que toda formação linguística envolve deslocamentos, já que os sujeitos se constituem por vozes que recebem, selecionam, interpretam e reelaboram.
A diferença, em contextos multilíngues, pode produzir vínculos e expor desigualdades, pois algumas línguas recebem maior prestígio social enquanto outras permanecem associadas a espaços familiares ou comunitários. Em Jalil (2018), a língua árabe funciona como marca de herança cultural e, ao mesmo tempo, como elemento ligado a histórias de migração e minoritarização. A identidade linguística, por isso, precisa ser compreendida como construção em disputa, pois envolve orgulho, memória, pertencimento e enfrentamento de imagens sociais produzidas sobre grupos migrantes.
Zomer (2020, p. 168) observa que “as línguas são diferentemente avaliadas, uma vez que suas funções são flexibilizadas conforme as atividades nas quais os falantes estão inseridos”, e essa compreensão ajuda a interpretar identidades linguísticas como processos situados. Em uma mesma comunidade, a língua pode assumir valor doméstico, religioso, escolar ou patrimonial. As diferenças entre usos revelam que o pertencimento não depende de uma língua única, mas das formas pelas quais repertórios são mobilizados em práticas sociais.
A construção das identidades linguísticas, portanto, reúne pertencimento, memória e diferença em experiências que se modificam conforme os sujeitos transitam por espaços culturais diversos. Teixeira Júnior e Carvalho (2021) reforçam que a língua participa da formação das identidades porque carrega culturas, vozes e relações sociais. Nessa perspectiva, o sujeito multilíngue não apenas acumula repertórios; ele reorganiza modos de dizer, lembrar e pertencer. A linguagem torna-se, assim, lugar de inscrição social, reconhecimento e elaboração contínua de si.
2.2. Práticas de Linguagem e Negociação Subjetiva em Fronteiras Culturais
Fronteiras culturais não se limitam a territórios, pois aparecem nas formas de falar, escutar, traduzir e ocupar lugares sociais. Em contextos de contato linguístico, cada prática de linguagem pode aproximar sujeitos, marcar diferenças ou deslocar sentidos já estabilizados nas comunidades. Aguiar Volpato (2021) contribui para compreender que a linguagem participa da construção do sujeito, pois organiza modos de expressão, interpretação e pertencimento. Assim, negociar subjetivamente significa lidar com vozes, memórias e expectativas que ganham forma nas interações sociais.
A presença de mais de uma língua em uma comunidade produz escolhas que ultrapassam a comunicação imediata. Mackedanz e Amaral (2017, p. 1) afirmam que “o bilinguismo é elemento crucial para a compreensão não somente dos usos linguísticos e de fenômenos variacionistas”, pois a alternância entre línguas revela vínculos comunitários, trajetórias familiares e posições sociais. Nas fronteiras culturais, a língua escolhida pode indicar confiança, pertença, distância ou adaptação diante das relações estabelecidas entre sujeitos e grupos.
Santana (2012) permite ampliar essa reflexão ao tratar a língua como espaço simbólico de identificação. Em diferentes comunidades, a linguagem atua como marca cultural e como forma de inscrição social, pois possibilita que sujeitos reconheçam vínculos, compartilhem histórias e produzam sentidos sobre seus lugares de origem. A negociação subjetiva ocorre, nesse caso, porque falar uma língua envolve assumir referências culturais, reinterpretar memórias e participar de coletividades que definem modos de pertencimento por meio de práticas discursivas.
A linguagem organiza a experiência social porque torna possível ao sujeito elaborar sentidos sobre si e sobre os lugares que ocupa. Nessa direção, Aguiar Volpato (2021, p. 82) sustenta que “enquanto ser social, o sujeito precisa da linguagem verbal e não verbal para a expressão, a compreensão, a comunicação”, pois toda presença subjetiva depende de mediações simbólicas. Em fronteiras culturais, palavras, gestos e silêncios participam da maneira como grupos minoritários buscam reconhecimento e afirmam suas experiências.
Em comunidades bilíngues, a subjetividade não se organiza fora das relações sociais que atribuem valor às línguas em circulação. Para Mackedanz e Amaral (2017), o pomerano e o português compõem práticas situadas, associadas à memória, à ruralidade, à família, à escola e ao pertencimento comunitário. A negociação subjetiva, nesse contexto, aparece quando o sujeito decide qual língua mobilizar, em que situação e diante de quem. Cada escolha revela relações de proximidade, prestígio, proteção cultural ou adaptação às exigências sociais.
A língua, quando colocada em relação com cultura e identidade, permite compreender como sujeitos se reconhecem em comunidades marcadas por trajetórias plurais. Santana (2012, p. 48) observa que a língua “institui-se como espaço simbólico de identificação” ao definir comunidades linguísticas e diferenciar grupos sociais. Essa compreensão ajuda a perceber que fronteiras culturais não desaparecem no contato entre línguas, pois cada repertório mobilizado carrega pertencimentos, lembranças, disputas e formas de legitimação social construídas historicamente.
Aguiar Volpato (2021) aproxima linguagem, sujeito e lugar de fala ao mostrar que discursos socialmente visíveis interferem na forma como grupos minoritários ocupam posições de reconhecimento. A negociação subjetiva, nesse plano, não depende apenas de falar, mas de poder ser ouvido em condições de legitimidade. Nos contextos multiculturais, determinadas vozes encontram maior acolhimento, enquanto outras precisam disputar espaço para narrar experiências, nomear violências simbólicas e produzir sentidos sobre sua própria existência social.
A convivência entre línguas pode gerar pertencimento, mas também exige decisões diante das expectativas de cada comunidade. Mackedanz e Amaral (2017, p. 4) compreendem que “a identidade é constituída nas interações socioculturais, sendo a interação linguística uma delas”, o que torna a prática de linguagem parte da formação subjetiva. O sujeito bilíngue, ao alternar códigos e adequar repertórios, interpreta ambientes, avalia relações e constrói presença social em fronteiras culturais nem sempre estáveis.
Santana (2012) discute a língua portuguesa em contextos diversos de circulação e mostra que uma mesma língua pode assumir sentidos culturais distintos conforme histórias, territórios e comunidades. Essa leitura contribui para pensar que a negociação subjetiva ocorre quando o falante precisa lidar com pertencimentos que não cabem em uma referência única. A língua funciona como elo e diferença, pois aproxima sujeitos em torno de uma comunidade linguística e, simultaneamente, revela marcas locais de cultura, memória e posição social.
A construção subjetiva depende das formas pelas quais o sujeito se inscreve na linguagem e reconhece a posição que ocupa nas relações de poder. Aguiar Volpato (2021, p. 90) afirma que “o sujeito, para a psicanálise, é aquele que se constitui na relação com o Outro através da linguagem”, de modo que falar de si envolve responder a vozes anteriores. Em fronteiras culturais, a subjetividade se elabora entre heranças, escutas, disputas e possibilidades de enunciação.
Mackedanz e Amaral (2017) ajudam a compreender que o bilinguismo pode sustentar a manutenção de línguas herdadas quando permanece associado a práticas familiares, religiosas, escolares e comunitárias. Essa manutenção, entretanto, depende das avaliações sociais construídas sobre cada língua e dos lugares que ela ocupa na vida cotidiana. Nas fronteiras culturais, a negociação subjetiva aparece como movimento de continuidade e ajuste, pois os sujeitos preservam repertórios ao mesmo tempo que respondem às demandas de circulação social mais ampla.
As práticas de linguagem em fronteiras culturais revelam que a subjetivação ocorre por meio de escolhas, deslocamentos e formas de reconhecimento. Em diálogo com Santana (2012), pode-se compreender que língua, cultura e identidade se articulam na produção de espaços simbólicos de pertencimento. O sujeito, nesse processo, negocia memórias, incorpora vozes e reorganiza sua presença diante de comunidades distintas. Assim, contextos multilíngues e multiculturais mostram que toda identidade linguística se constrói em relação, circulação e disputa social.
3. METODOLOGIA
A construção metodológica deste artigo partiu da necessidade de examinar produções acadêmicas voltadas às relações entre identidade, cultura, linguagem e processos de subjetivação em contextos multilíngues e multiculturais. O estudo organizou-se como pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, com leitura interpretativa das fontes selecionadas. Em Gerhardt e Silveira (2009, p. 69), os procedimentos metodológicos “incluem tanto os tipos de pesquisa quanto as técnicas de coleta e análise de dados”, orientação que sustentou a definição do caminho adotado neste trabalho.
O corpus teórico foi composto por livros, artigos científicos, capítulos e dissertações que tratavam de identidades linguísticas, pertencimento cultural, memória, multilinguismo e práticas de linguagem em situações de contato intercultural. A seleção das fontes considerou a proximidade com o objetivo do artigo, a consistência acadêmica e a capacidade de contribuir para a compreensão da subjetivação como processo produzido nas relações sociais. Assim, o levantamento concentrou-se em textos capazes de articular língua, cultura e constituição subjetiva sem afastamento do recorte proposto.
As buscas foram orientadas por descritores diretamente relacionados ao tema, como “identidade linguística”, “cultura e linguagem”, “subjetivação”, “multilinguismo”, “multiculturalidade”, “pertencimento cultural” e “práticas de linguagem”. A triagem descartou textos opinativos, materiais sem autoria identificada, publicações sem aderência ao problema e estudos cujo enfoque recaía apenas sobre ensino de línguas sem discutir pertencimento, memória ou diferença. Com isso, a delimitação do material preservou coerência entre título, objetivo, capítulos e base analítica do artigo.
A leitura das fontes ocorreu por aproximação temática, observando como cada produção tratava a relação entre repertórios linguísticos, trajetórias culturais e modos de reconhecimento social. Gerhardt e Silveira (2009, p. 86) assinalam que, para interpretar material qualitativo, “é preciso penetrar nos significados que os atores sociais compartilham na vivência de sua realidade”, perspectiva que orientou a análise dos textos selecionados. Dessa forma, a interpretação buscou apreender sentidos atribuídos à linguagem em experiências marcadas por pluralidade cultural e linguística.
O tratamento analítico concentrou-se na identificação de recorrências, contrapontos e deslocamentos conceituais presentes nas obras examinadas. As fontes foram relacionadas aos dois eixos do artigo, o primeiro vinculado a pertencimento, memória e diferença na construção das identidades linguísticas, e o segundo voltado às práticas de linguagem e à negociação subjetiva em fronteiras culturais. A investigação trabalhou exclusivamente com material publicado, sem entrevistas, questionários, observação direta ou coleta com participantes, pois o objetivo exigiu elaboração teórica a partir da literatura selecionada.
A organização final da metodologia procurou manter correspondência entre problema, objetivo e discussão teórica. As obras reunidas foram examinadas como base para compreender de que modo sujeitos, línguas e culturas se relacionam na produção de identidades em contextos multilíngues e multiculturais. Desse modo, a pesquisa bibliográfica ofereceu sustentação ao percurso interpretativo do artigo, permitindo analisar os processos de subjetivação como experiências sociais produzidas na linguagem, nas memórias compartilhadas e nas fronteiras simbólicas de convivência.
4. DISCUSSÕES
As fontes examinadas revelaram que as identidades linguísticas se organizaram em torno de memórias, deslocamentos e vínculos culturais. Em Jalil (2018), as narrativas de falantes de árabe em Foz do Iguaçu mostraram a língua como herança afetiva e marca comunitária, enquanto Zomer (2020) destacou os valores atribuídos ao holandês e ao português em práticas institucionais. Entre esses enfoques, a língua apareceu como recurso de pertencimento e como elemento sujeito a avaliações sociais distintas.
No diálogo entre cultura e linguagem, Teixeira Júnior e Carvalho (2021) situaram a língua como dimensão formativa das percepções culturais, especialmente nos processos em que o sujeito se reconhece por meio das experiências de uso. Santana (2012), por sua vez, tratou a língua como espaço simbólico de identificação, associada à história e à autoafirmação coletiva. As duas contribuições aproximaram a identidade de práticas sociais nas quais falar, lembrar e pertencer constituíram modos de inscrição cultural.
A relação entre subjetivação e reconhecimento ganhou relevo quando Aguiar Volpato (2021) vinculou linguagem, sujeito e lugar de fala às condições de visibilidade social dos grupos. Mackedanz e Amaral (2017) acrescentaram a esse debate a experiência do bilinguismo pomerano-português como característica sociocultural relacionada à manutenção identitária. A aproximação entre esses autores mostrou que a constituição subjetiva dependeu dos repertórios mobilizados e das condições sociais que autorizaram, limitaram ou valoraram determinadas vozes.
Nos contextos multilíngues analisados, as línguas assumiram funções variáveis conforme os espaços familiares, escolares, comunitários e institucionais. Zomer (2020) indicou que práticas comunicativas na colônia holandesa se reorganizaram conforme ideologias e políticas linguísticas locais, enquanto Mackedanz e Amaral (2017) associaram bilinguismo, identidade e permanência cultural em Santa Augusta. Jalil (2018), em outro recorte, colocou a migração no centro da análise, mostrando que memória e língua herdada sustentaram pertencimentos em território intercultural.
O conjunto teórico permitiu compreender que identidade, cultura e linguagem se entrelaçaram em processos de subjetivação marcados por fronteiras simbólicas. Teixeira Júnior e Carvalho (2021) e Aguiar Volpato (2021) contribuíram para pensar a formação do sujeito pela linguagem, enquanto Santana (2012), Jalil (2018) e Zomer (2020) evidenciaram a língua como pertencimento, memória e diferença. Assim, o objetivo do artigo encontrou resposta na compreensão de que sujeitos multilíngues elaboraram sentidos sobre si em práticas sociais situadas.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O percurso realizado permitiu afirmar que o objetivo de examinar processos de subjetivação em contextos multilíngues e multiculturais, considerando a linguagem como prática social implicada na produção de identidades, foi alcançado. A pesquisa mostrou que os sujeitos constituíram modos de pertencimento em relações marcadas por línguas, memórias e referências culturais distintas. Nessa dinâmica, a identidade apareceu como processo relacional, produzido em experiências de contato, deslocamento e reconhecimento social, nas quais cada prática linguística carregou sentidos sobre si e sobre o outro.
As discussões desenvolvidas indicaram que as identidades linguísticas se formaram em meio a vínculos afetivos, trajetórias coletivas e disputas por legitimidade. A língua materna, as línguas adicionais e os repertórios híbridos participaram da elaboração de posições subjetivas, pois cada escolha de linguagem pôde aproximar, diferenciar ou reposicionar sujeitos diante de determinados grupos. A pesquisa evidenciou, assim, que pertencimento e diferença permaneceram articulados em práticas sociais nas quais falar, silenciar, traduzir ou alternar códigos produziu efeitos de reconhecimento.
Na análise empreendida, a memória cultural assumiu papel decisivo porque sustentou vínculos simbólicos entre sujeitos, comunidades e experiências anteriores de socialização. As marcas linguísticas não apareceram como registros neutros, mas como formas de reinscrever histórias, afetos, valores e modos de convivência. O objetivo do artigo encontrou sustentação nesse ponto, pois os processos de subjetivação foram compreendidos como movimentos nos quais o sujeito reelaborou referências herdadas e produziu novas formas de presença em ambientes marcados por contatos linguísticos e culturais.
As práticas de linguagem, por sua vez, revelaram que a subjetividade se organizou em fronteiras móveis, nas quais diferentes repertórios culturais se encontraram e produziram zonas de negociação. A pesquisa demonstrou que o contato entre línguas e culturas favoreceu reorganizações identitárias, especialmente quando os sujeitos precisaram ajustar modos de fala, pertencimento e interpretação diante de outros grupos. Dessa forma, a linguagem funcionou como espaço de elaboração subjetiva, pois permitiu construir aproximações, lidar com estranhamentos e sustentar posições em situações de convivência multicultural.
Os resultados alcançados mostraram que os contextos multilíngues e multiculturais não produziram identidades homogêneas, pois cada experiência de contato envolveu assimetrias, expectativas e disputas de valor. A pesquisa permitiu compreender que determinadas línguas e práticas culturais adquiriram maior legitimidade social, enquanto outras foram colocadas em posições de menor reconhecimento. Esse dado reforçou a necessidade de observar os processos de subjetivação a partir das relações de poder que definiram quais repertórios foram valorizados, silenciados ou deslocados nas interações sociais.
Com base no conjunto analisado, tornou-se possível reconhecer que a cultura participou da constituição subjetiva por meio de narrativas, gestos, valores e modos de interpretar o mundo. Os sujeitos, ao transitarem entre referências diversas, não abandonaram simplesmente uma pertença para assumir outra, mas reorganizaram sentidos conforme as experiências vividas. A pesquisa, nesse aspecto, indicou que a multiculturalidade constituiu campo de negociação permanente, no qual identidades foram elaboradas em meio a lembranças, tensões, escolhas linguísticas e formas de inserção social.
A investigação bibliográfica, de abordagem qualitativa e leitura interpretativa, ofereceu condições para compreender que os processos de subjetivação ocorreram em relações concretas entre linguagem, cultura e reconhecimento. O estudo respondeu ao objetivo proposto ao mostrar que identidades multilíngues se constituíram por práticas discursivas situadas, nas quais o sujeito negociou pertencimentos, enfrentou diferenças e produziu sentidos sobre sua própria trajetória. Essa compreensão ampliou a leitura sobre o tema, pois vinculou língua, memória e cultura à experiência social da identidade.
A reflexão final conduziu à compreensão de que contextos multilíngues e multiculturais exigiram leitura sensível das formas pelas quais sujeitos ocuparam lugares sociais por meio da linguagem. Cada repertório mobilizado, cada deslocamento vivido e cada fronteira cultural negociada participou da produção de modos de existência. Assim, a pesquisa encerrou-se reconhecendo que a subjetivação, nesses contextos, envolveu responsabilidade ética diante das diferenças, pois a linguagem tanto pôde sustentar exclusões quanto abrir possibilidades de reconhecimento, convivência e reconstrução dos vínculos culturais.
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1 Doutor em Educação – Especialização em TDICs na Educação pela São Luiz University, reconhecimento de diploma pela Universidade Católica de Brasília e doutorando em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Cuiabá.
2 Mestra em Educação – Especialização em Formação de Professores pela Universidad Internacional Iberoamericana, com reconhecimento de diploma pela Universidade Metropolitana de Santos.
3 Mestra em Educação – Especialização em Formação de Professores pela Universidad Europea del Atlántico.
4 Mestra em Educação – Especialização em Formação de Professores pela Universidad Europea del Atlántico, com reconhecimento de diploma pela Universidade Metropolitana de Santos.
5 Mestranda em Educação pela Universidad Europea del Atlántico.
6 Mestrando em Educação pela Universidad Europea del Atlántico.
7 Mestrando em Educação pela Universidad Europea del Atlántico.
8 Mestranda em Educação pela Universidad Europea del Atlántico.