HABITATS DE INOVAÇÃO EM UNIVERSIDADES: UMA REVISÃO INTEGRATIVA SOBRE ELEMENTOS ESTRUTURANTES DE AMBIENTES COLABORATIVOS

INNOVATION HABITATS IN UNIVERSITIES: AN INTEGRATIVE REVIEW ON STRUCTURING ELEMENTS OF COLLABORATIVE ENVIRONMENTS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789698189

RESUMO
Este trabalho traz uma revisão integrativa da literatura a respeito dos habitats de inovação nas universidades, focando na identificação de suas categorias e na avaliação dos elementos que fomentam a colaboração e a inovação. Foram analisados 28 artigos publicados de 2020 a 2025, considerando diferentes contextos institucionais e geográficos. Os resultados sugerem que a eficácia desses habitats depende da combinação sinérgica de liderança transformacional, cultura organizacional inovadora, engajamento multissetorial, gestão estratégica do conhecimento, recursos adaptáveis, metodologias centradas no usuário e criação de valor compartilhado. Ademais, a sustentabilidade e a escalabilidade desses ambientes dependem de políticas públicas consistentes e de estratégias institucionais alinhadas. Teoricamente, a pesquisa contribui ao apresentar uma perspectiva unificada dos fatores de sucesso; em termos práticos, fornece apoio a gestores universitários e formuladores de políticas no fortalecimento de ecossistemas de inovação.
Palavras-chave: Habitats de inovação; Colaboração; Elementos Estruturantes.

ABSTRACT
This study presents an integrative literature review on innovation habitats in universities, focusing on the identification of their categories and the assessment of the elements that foster collaboration and innovation. A total of 28 articles published between 2020 and 2025 were analyzed, covering diverse institutional and geographical contexts. The results suggest that the effectiveness of these habitats depends on the synergistic combination of transformational leadership, an innovation-oriented organizational culture, multisectoral engagement, strategic knowledge management, adaptable resources, user-centered methodologies, and the creation of shared value. Furthermore, the sustainability and scalability of these environments rely on consistent public policies and aligned institutional strategies. Theoretically, the study contributes by presenting a unified perspective of success factors; in practical terms, it offers support to university managers and policymakers in strengthening innovation ecosystems.
Keywords: Innovation habitats; Collaboration; Structuring elements.

1. INTRODUÇÃO

As universidades empreendedoras são capazes de influenciar a intenção e o comportamento inovador de estudantes e egressos (Murad; Othman; Kamarudin, 2024).

Nesse cenário, os habitats de inovação emergem como mecanismos centrais para articular competências, recursos e capital intelectual. Concebidos como habitats colaborativos, esses espaços conectam múltiplos stakeholders para fomentar a criatividade, o empreendedorismo e a transferência de tecnologia (Depiné; Clarissa Stefani Teixeira, 2020; Dzingirai, 2026). Ao mesmo tempo, configuram-se como expressões concretas dos ecossistemas de inovação (Trzeciak et al., 2018), ambientes sociotécnicos que favorecem a experimentação (Mazzuco et al., 2020; Mezzaroba; Panisson; Teixeria, 2020), a aprendizagem coletiva e a interação entre agentes diversos, ampliando o potencial inovador (Depiné; Teixeira, 2018)

Mais do que estruturas voltadas ao empreendedorismo ou à transferência tecnológica, os habitats de inovação podem ser definidos como espaços que promovem autonomia, participação e produção de saberes socialmente referenciados, em consonância com a perspectiva crítica de que a universidade deve contribuir para a transformação social (Freire, 2019; Santos, 2005). Estudos recentes indicam que universidades contemporâneas estão reorientando suas missões para integrar a inovação social e o engajamento comunitário (Burke et al., 2024; Menter, 2024). Dessa forma, os habitats de inovação articulam ciência, tecnologia e educação crítica, conciliando o papel tradicional da universidade com a demanda atual por impacto social.

Os habitats universitários de inovação podem ser compreendidos como unidades de inovação tecnológica e social que promovem a inovação aberta no ambiente acadêmico (Mejia; Hincapie; Giraldo, 2019). Caracterizam-se por uma organização fractal, que lhes confere flexibilidade para se adaptarem às mudanças do ambiente, facilitando a participação ativa da comunidade universitária e o aproveitamento do potencial social e humano local na construção de uma base empreendedora (Mejia; Hincapie; Giraldo, 2019). Assumem formatos diversos, desde estruturas formalizadas, como incubadoras e parques tecnológicos, até arranjos experimentais e em rede, mas convergem no papel de centros de apoio à educação empreendedora que transformam oportunidades em soluções práticas para a sociedade (Depiné; Clarissa Stefani Teixeira, 2020; Dzingirai, 2026).

Neste contexto, a inovação é conceituada como um processo dinâmico de recombinação de conhecimentos, competências e tecnologias, capaz de gerar valor e transformar sistemas sociais e organizacionais (Chen et al., 2023; Chesbrough, 2003; Toner-Rodgers, 2025). Apesar do reconhecimento generalizado de sua importância, persistem lacunas na literatura quanto à compreensão dos elementos estruturantes que tornam os habitats universitários de inovação mais eficazes, sobretudo em países em desenvolvimento, onde predominam estudos de caso isolados ou análises fragmentadas.

Diante disso, este estudo tem como objetivo traçar o perfil dos habitats de inovação presentes no ambiente universitário. A pesquisa é guiada por duas questões centrais:

  1. Quais são os principais tipos de habitats de inovação encontrados no ambiente universitário?

  2. Quais elementos são consistentemente apontados na literatura como cruciais para a promoção da colaboração e da inovação nesses espaços?

2. METODOLOGIA

Este estudo utiliza a revisão integrativa como abordagem principal, combinando rigor, abrangência e profundidade na análise (Whittemore; Knafl, 2005). O protocolo adotou a estrutura sugerida por Tranfield, Denyer e Smart (2003) para revisões sistemáticas, com a orientação adicional de Torraco (2016), com o objetivo de identificar padrões, lacunas e contribuições da literatura sobre os habitats de inovação universitários.

Para garantir rastreabilidade, consistência interna e reprodutibilidade, o processo metodológico foi organizado em etapas sucessivas, adaptadas do protocolo PRISMA (Page et al., 2021), assegurando maior transparência ao processo de revisão. O Quadro 1 mostra as etapas:

Quadro 1. Etapas da Pesquisa

Etapa

Descrição

Definição da Questão de Pesquisa

Formulação da pergunta da pesquisa

Elaboração da Estratégia de Busca

Com strings adaptadas a cada base: Scopus, Web of Science e SciELO

Seleção das Fontes de Dados

Priorizando Scopus, Web of Science e SciELO

Critérios de Inclusão e Exclusão

Critérios rigorosos para a seleção dos artigos primários

Processo de Triagem

Critérios de seleção em duas fases

Extração e Síntese dos Dados

Informações relevantes dos artigos selecionados e sua organização para análise

Fonte: Elaborado pelos autores (2026), adaptado de Page et al. (2021).

O processo de triagem foi conduzido em duas fases: na primeira, os artigos foram avaliados com base no título e no resumo; na segunda, os pré-selecionados foram lidos na íntegra para confirmação da elegibilidade.

Foram estabelecidos como critérios de inclusão:

  1. Artigos completos publicados em periódicos científicos revisados por pares;

  2. Artigos que abordam habitats de inovação, ambientes colaborativos ou ecossistemas de inovação no contexto universitário;

  3. Artigos disponíveis na íntegra;

  4. Artigos publicados em português, inglês ou espanhol;

  5. Artigos publicados a partir de 2020, considerando a natureza emergente e a evolução do tema.

O critério temporal considerou a data de disponibilização online, o que permitiu a inclusão de Bittencourt e Figueiró (2019), cuja versão online foi publicada em janeiro de 2020, apesar do fascículo referir-se ao último trimestre de 2019.

As buscas foram realizadas no Scopus, Web of Science e SciELO com termos como ‘innovation hub’, ‘university innovation’, ‘collaborative environments’ e ‘innovation habitats’, combinados com operadores booleanos e adaptados à sintaxe de cada base de dados. Na primeira rodada, foram encontrados, ao todo, 379 artigos.

A partir disso, foram usados os seguintes critérios de exclusão:

  1. Artigos duplicados;

  2. Artigos que não abordam o tema central (habitats de inovação em universidades ou elementos colaborativos);

  3. Teses, dissertações, anais de congresso, livros ou capítulos de livros (exceto se forem a única fonte relevante e justificável);

  4. Artigos que se concentram exclusivamente em incubadoras, parques tecnológicos ou aceleradoras, sem uma conexão clara com o conceito de habitats universitários de inovação.

  5. Processo de Triagem e Análise do Corpus

Com a primeira fase concluída, dos 379 artigos identificados, após a filtragem na base segundo os critérios de inclusão e exclusão, restaram 78 artigos. Na segunda fase, foi realizada a leitura dos resumos para a confirmação da aderência dos artigos à questão de pesquisa, onde chegamos a um corpus final com 28 artigos. A análise do corpus foi conduzida de forma temática, com o objetivo de identificar padrões, convergências e lacunas na literatura.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise do corpus permitiu a categorização dos artigos em cinco grupos metodológicos, conforme apresentado no Quadro 2. Observa-se predominância de estudos empíricos qualitativos (n=10), que abrangem estudos de caso e pesquisas exploratórias voltadas à investigação de experiências específicas em habitats de inovação. Estudos conceituais e frameworks (n=4) apresentam modelos para compreensão dos ecossistemas universitários de inovação. Revisões sistemáticas e integrativas (n=4) sintetizam o conhecimento existente sobre a colaboração entre a universidade e a indústria. Estudos empíricos quantitativos (n=6) empregam métodos estatísticos para avaliar o desempenho e relatar os resultados de colaboração. Por fim, estudos de políticas públicas (n=4) analisam o papel das políticas públicas na promoção da inovação universitária.

Quadro 2. Distribuição do corpus por cluster metodológico

Cluster

N

Artigos

Estudos empíricos qualitativos

10

Cochrane e Sinfield, 2022; Kaniak et al., 2025; Kettunen et al., 2022; Klooker e Hölzle, 2024; Tercanli, Jongbloed e Van Der Meulen, 2024; Vásquez-Luna et al., 2023; Vicente-Saez, Gustafsson e Van Den Brande, 2020; Wolfert et al., 2023; Zabaniotou, 2020; Zermeño e Garza, 2021

Estudos conceituais/frameworks

4

Angrisani, Cannavacciuolo e Rippa, 2023; Bernert et al., 2022; Bittencourt e Figueiró, 2019; Subrahmanya e Arun Kumar, 2024

Revisões sistemáticas e integrativas

4

Herth, Verburg e Blok, 2025; Mora et al., 2023; Vedana e Andreassi, 2025; Yström et al., 2025

Estudos empíricos quantitativos

6

Alegado e Olipas; Carlos, 2025; Cui, Zhu e Wang, 2020; Li e Zhu, 2021; Lv et al., 2022; Papadopoulos et al., 2025; Semeraro et al., 2020

Estudos de políticas públicas

4

Lages et al., 2023; Valič et al., 2023; Yasheva et al., 2022; Zenkienė e Leišytė, 2024

Total

28

 

Fonte: Elaborada pelos autores (2026).

3.1. Focos Temáticos Predominantes

A análise revela os principais focos temáticos que permeiam a literatura: os modelos teóricos de colaboração, que abrangem as abordagens da Hélice Tríplice e Quádrupla e os ecossistemas de inovação; as estruturas e atores institucionais, incluindo universidades empreendedoras, NITs e living labs; e os fatores críticos de sucesso, que englobam liderança, cultura organizacional, colaboração, gestão do conhecimento, metodologias e políticas públicas

3.1.1. Modelos de Hélice

O modelo da Hélice Tríplice, proposto por Etzkowitz e Leydesdorff (2000), descreve a rede triangular de interações entre universidade, indústria e governo, sendo fundamental para a criação de uma nova infraestrutura de conhecimento baseada em relações socioeconômicas não lineares (Angrisani; Cannavacciuolo; Rippa, 2023; Cui; Zhu; Wang, 2020; Lv et al., 2022). Esse modelo constitui a base estrutural das universidades empreendedoras contemporâneas, orientando a alocação de recursos, a transferência de conhecimento e as parcerias regionais entre a academia, o setor produtivo e o poder público (Kaniak et al., 2025; Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Valič et al., 2023; Vedana; Andreassi, 2025; Yasheva et al., 2022).

Na sua evolução, o modelo da Hélice Quádrupla, desenvolvido por Carayannis e Campbell (2009), expande a estrutura tríplice ao incorporar a sociedade civil como quarto ator, representada por cidadãos, comunidades locais ou organizações não governamentais. Essa inclusão reorienta a inovação para uma dinâmica de cocriação voltada ao desenvolvimento socioeconômico regional. O corpus evidencia esse modelo em diferentes contextos: Vedana e Andreassi (2025) e Zenkienė e Leišytė (2024) destacam seu papel central para que universidades liderem ecossistemas regionais de inovação; Herth, Verburg e Blok (2025) e Mora et al. (2023) aplicam a estrutura multiator, ressaltando que, sob diferentes nomenclaturas, a governança urbana e os living labs universitários convergem para práticas de cocriação com a comunidade (Bittencourt; Figueiró, 2019).

3.1.2. Ecossistemas de Inovação e Empreendedorismo

Podemos considerar os ecossistemas de inovação como ambientes dinâmicos e abertos, baseados na interconexão de múltiplos atores para a cocriação de valor (Angrisani; Cannavacciuolo; Rippa, 2023; Bittencourt; Figueiró, 2019; Lv et al., 2022; Wolfert et al., 2023). Há três tipos principais de interconexões que se sobrepõem nesse arranjo: os Ecossistemas de Transferência de Tecnologia (ETT), pensado à exploração de novos conhecimentos; os Ecossistemas Empreendedores (EE), que são orientados à geração de valor; e os Ecossistemas de Inovação (EI), que atuam como intermediários entre os dois (Angrisani; Cannavacciuolo; Rippa, 2023; Yström et al., 2025).

O conceito de Ecossistema de Inovação Acadêmica (AIE) coloca a universidade como agente central, encarregada de coordenar e harmonizar os objetivos dos participantes para gerar valor para o ecossistema. Nesse contexto, o Ecossistema de Inovação (IE) atua como intermediário entre o Ecossistema de Transferência de Tecnologia (ETT), focado na exploração de novos conhecimentos, e o Ecossistema de Negócios, focado na geração de valor por meio da aplicação desses conhecimentos (Angrisani; Cannavacciuolo; Rippa, 2023).

3.1.3. Universidades Empreendedoras e NITs

A universidade empreendedora é uma instituição que, além da docência e da pesquisa, assume a missão de contribuir para o desenvolvimento econômico e social (Kaniak et al., 2025; Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Vásquez-Luna et al., 2023; Yasheva et al., 2022; Zenkienė; Leišytė, 2024). Assim é estimulada uma cultura empreendedora interna que envolve professores, funcionários e alunos, com o intuito de formar egressos qualificados não apenas como candidatos a emprego, mas como criadores de emprego (Kaniak et al., 2025; Lv et al., 2022; Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Vásquez-Luna et al., 2023). Em essência, são habitats de inovação naturais que transformam ideias em empreendimentos de impacto social e econômico por meio de estruturas de apoio como escritórios de transferência de tecnologia, NITs, incubadoras e parques científicos (Kaniak et al., 2025; Lv et al., 2022; Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Yasheva et al., 2022).

No Brasil, as agências de inovação e os Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) foram institucionalizados a partir da Lei de Inovação (Lei nº 10.973) (Brasil, 2004), passando a ser os órgãos responsáveis por gerenciar as políticas de inovação e por intermediar a transferência de tecnologia entre as universidades, os institutos de pesquisa e o setor privado (Kaniak et al., 2025). Esse arcabouço regulatório nacional continuou a evoluir em direção a uma maior autonomia de decisão para empresas e pesquisadores acadêmicos com a promulgação do Decreto nº 10.534 (Brasil, 2020), que estabeleceu a Política Nacional de Inovação (Vedana; Andreassi, 2025).

3.1.4. Living Labs e Laboratórios Abertos

Laboratórios de inovação, como os Urban Living Labs, Sustainable Living Laboratories e Real-World Laboratories, representam métodos experimentais para envolver as universidades em projetos de transição para a sustentabilidade (Bernert et al., 2022; Herth; Verburg; Blok, 2025; Zabaniotou, 2020). Laboratórios Abertos para Inovação Social funcionam como espaços experimentais de cocriação transdisciplinar, situados na fronteira entre pesquisa, inovação e políticas públicas, servindo como elo entre a sociedade e a academia (Tercanli; Jongbloed; Van Der Meulen, 2024; Zabaniotou, 2020; Zermeño; Garza, 2021). Esses espaços viabilizam redes de conhecimento que ligam a ciência universitária à sociedade civil por meio de plataformas de cocriação, design participativo e pesquisa transdisciplinar (Vicente-Saez; Gustafsson; Van Den Brande, 2020).

3.2. Principais Tipos de Habitats de Inovação

A análise do corpus revela uma diversidade de habitats de inovação presentes no ambiente universitário, que podem ser classificados conforme sua estrutura, foco e abrangência. Os principais tipos identificados são:

  1. Universidades Empreendedoras: vão além do ensino e da pesquisa, incluindo ativamente a geração de empreendedorismo baseado em conhecimento e a criação de startups. O foco é transformar a cultura institucional para promover o crescimento econômico e a mudança social, atuando como motor de inovação e desenvolvimento regional (Kaniak et al., 2025; Lv et al., 2022; Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Vásquez-Luna et al., 2023; Vedana; Andreassi, 2025; Zenkienė; Leišytė, 2024).

  2. Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) / Agências de Inovação Universitárias: estruturas formalizadas, muitas vezes exigidas por leis, que atuam como interface entre a universidade e o setor produtivo. Sua função principal é gerenciar a política de inovação da instituição, promover a transferência de tecnologia, cuidar da propriedade intelectual e intermediar parcerias (Kaniak et al., 2025; Vásquez-Luna et al., 2023; Vedana; Andreassi, 2025; Yström et al., 2025).

  3. Incubadoras de Empresas: fornecem um ambiente de suporte técnico, financeiro e administrativo para novas empresas com ideias inovadoras, ajudando-as a se desenvolver e consolidar no mercado (Kaniak et al., 2025; Lv et al., 2022; Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Vásquez-Luna et al., 2023; Vedana; Andreassi, 2025).

  4. Parques Científicos e Tecnológicos: reúnem empresas de base tecnológica, centros de pesquisa e, frequentemente, estão associados a universidades, criando um ecossistema favorável à inovação por meio da interação entre academia e indústria e da geração de startups de tecnologia profunda (Lv et al., 2022; Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Vedana; Andreassi, 2025; Yasheva et al., 2022; Yström et al., 2025).

  5. Living Labs: espaços colaborativos onde a inovação é testada em contextos da vida real, com envolvimento ativo de múltiplos stakeholders, incluindo cidadãos, empresas, agências públicas e a própria universidade. Podem assumir formatos específicos como Campus Living Labs, Urban Living Labs ou Laboratórios de Inovação Transformadora, sendo ambientes ideais para cocriação e experimentação (Bernert et al., 2022; Herth; Verburg; Blok, 2025; Mora et al., 2023; Semeraro et al., 2020; Tercanli; Jongbloed; Van Der Meulen, 2024; Yström et al., 2025; Zabaniotou, 2020).

  6. Ecossistemas de Inovação e Ecossistemas Empreendedores: redes complexas de atores (academia, indústria, governo, comunidade) e suas interações para cocriar valor, gerenciar conhecimento e fomentar o empreendedorismo (Bittencourt; Figueiró, 2019; Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Vedana; Andreassi, 2025; Wolfert et al., 2023; Zenkienė; Leišytė, 2024). Angrisani, Cannavacciuolo e Rippa (2023) propõem, dentro dessa categoria, o Ecossistema de Inovação Acadêmica como um tipo específico construído em torno da universidade, integrando elementos de transferência de tecnologia, inovação e empreendedorismo.

  7. Cooperação Indústria-Universidade-Governo (Hélice Tríplice): não é um habitat no sentido físico, mas um modelo conceitual que descreve a interação dinâmica entre academia, indústria e governo (e, na hélice quádrupla, a sociedade civil) como motor fundamental da inovação. A universidade é vista como provedora-chave de conhecimento e talentos (Angrisani; Cannavacciuolo; Rippa, 2023; Cui; Zhu; Wang, 2020; Li; Zhu, 2021; Lv et al., 2022; Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Valič et al., 2023; Vedana; Andreassi, 2025; Yasheva et al., 2022).

  8. Laboratórios de Inovação Colaborativa e Parcerias Universidade-Indústria: ambientes de projeto e pesquisa onde acadêmicos e profissionais da indústria colaboram para resolver problemas do mundo real, incluindo formatos emergentes como joint labs, science-based open-labs e laboratórios físicos abertos (Cochrane; Sinfield, 2022; Vicente-Saez; Gustafsson; Van Den Brande, 2020; Yström et al., 2025).

  9. Laboratórios Sociais e Laboratórios de Mudança: diferenciam-se por focarem na inovação social direta, no aprendizado transformador e na reconfiguração de práticas culturais, e não no desenvolvimento de produtos comerciais. Incluem os Change Labs voltados à reflexão crítica e a transformação de barreiras culturais (Zabaniotou, 2020), e os Laboratórios Abertos para Inovação Social atuando em territórios de alta vulnerabilidade social (Zermeño; Garza, 2021).

  10. Makerspaces e Espaços Colaborativos de Inovação: ambientes internos que operam no microespaço organizacional, ativando a criatividade cotidiana por meio de dinâmicas físicas e sociomateriais. Klooker e Hölzle (2024) propõem o modelo de Collaborative Innovation Spaces como catalisador de mudança de mentalidade inovadora, enquanto Lv et al. (2022) detalham a introdução de makerspaces em universidades técnicas como espaços horizontais para prototipagem com ferramentas de manufatura rápida.

Além dos habitats consolidados, a análise corpus aponta para o surgimento de arranjos emergentes que ampliam o conceito de habitats de inovação. As Alianças de Universidades Europeias explicam uma configuração transnacional em rede que conecta ecossistemas regionais de diferentes países em torno da coesão social e da cocriação (Zenkienė; Leišytė, 2024). De forma simultânea, as plataformas digitais de inovação e repositórios de conhecimento compartilhado, como o Treasure Chest do programa Need for Speed (Kettunen et al., 2022) e as plataformas geoespaciais NextLand/NextOcean (Lages et al., 2023), indicam a migração de dinâmicas colaborativas para ambientes digitais e em rede, ampliando o alcance dos habitats para além do espaço físico universitário.

Em síntese, os habitats de inovação universitários apresentam-se de diversas formas, desde estruturas formalizadas e físicas, como NITs, incubadoras e parques científicos, até arranjos mais amplos, como Living Labs, ecossistemas e modelos conceituais de cooperação intersetorial. Também se destacam os laboratórios voltados à inovação social, os espaços colaborativos internos e os arranjos emergentes em redes transnacionais ou digitais. Todos esses habitats compartilham o objetivo de promover colaboração e inovação, diferenciando-se pela abrangência, pelo grau de formalização e pela forma como integram os stakeholders. Em todos os modelos, a universidade desempenha um papel central como catalisadora e facilitadora da inovação.

3.3. Elementos Estruturantes dos Habitats de Inovação

O corpus analisado revela seis elementos estruturantes que atravessam os diferentes tipos de habitats e são recorrentemente apontados como críticos para o sucesso das dinâmicas de colaboração e inovação. São eles: liderança e capacidades dinâmicas, cultura e processo de mudança, colaboração e engajamento multissetorial, gestão do conhecimento e propriedade intelectual, recursos e estruturas de apoio, e valor compartilhado e alinhamento de interesses.

3.3.1. Liderança e Capacidades Dinâmicas

A liderança, especialmente a transformacional, é elemento fundamental para promover uma cultura de empreendedorismo e inovação. Ela possibilita a criação de visões que vão além do status quo e influencia os integrantes da organização a adotarem atitudes mais proativas (Kaniak et al., 2025; Tercanli; Jongbloed; Van Der Meulen, 2024; Yström et al., 2025).

Os gestores das agências de inovação e NITs desempenham um papel central na quebra de modelos ideológicos e no estabelecimento de novas bases culturais, enfrentando resistências internas à transferência de tecnologia e a parcerias público-privadas (Kaniak et al., 2025; Yasheva et al., 2022). Para as universidades empreendedoras, a capacidade de gestão da equipe de liderança é o núcleo das capacidades dinâmicas, crucial para direcionar recursos e expandir os ecossistemas de inovação (Mora et al., 2023; Vedana; Andreassi, 2025).

Um requisito para essa agilidade é a descentralização das decisões, o que torna as escolhas mais adaptáveis e rápidas diante das oportunidades de negócios e colaboração (Kaniak et al., 2025; Klooker; Hölzle, 2024; Tercanli; Jongbloed; Van Der Meulen, 2024).

3.3.2. Cultura e Processo de Mudança

A transição de uma universidade convencional para uma instituição empreendedora requer uma profunda transformação organizacional, frequentemente caracterizada pela lentidão do processo, resistências internas e inércia institucional (Kaniak et al., 2025; Lages et al., 2023; Zenkienė e Leišytė, 2024). Tal transformação exige uma abordagem holística que envolva docentes, discentes, funcionários e ex-alunos, promovendo normas, comportamentos e exemplos de sucesso capazes de converter intenções em ações concretas de inovação (Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Vedana; Andreassi, 2025).

A transformação cultural, entretanto, não se restringe ao campo das ideias. Ela deve ser sustentada por espaços colaborativos e intermediários, físicos ou virtuais, conhecidos como in-between spaces ou espaços neutros (Cochrane; Sinfield, 2022; Klooker; Hölzle, 2024). Esses ambientes atuam como infraestrutura humana de fronteira, conectando as lógicas e competências de universidades, empresas e sociedade civil, além de estabelecer condições físicas, cognitivas e de confiança essenciais para o desenvolvimento de projetos de cocriação (Herth; Verburg; Blok, 2025; Tercanli; Jongbloed; Van Der Meulen, 2024; Vicente-Saez; Gustafsson; Van Den Brande, 2020).

O fortalecimento dessa cultura cotidiana depende de incentivos formais ao corpo docente, de políticas de proteção à propriedade intelectual, de makerspaces interdisciplinares e de eventos que aproximem a ciência das demandas do mercado (Lv et al., 2022; Subrahmanya e Arun Kumar, 2024; Vásquez-Luna et al., 2023).

3.3.3. Colaboração e Engajamento Multissetorial

A colaboração e a troca de conhecimento são fundamentais para o progresso em ecossistemas de inovação, em que a interação entre diversos participantes é essencial à criação de valor (Bittencourt; Figueiró, 2019; Valič et al., 2023). O corpus analisado confirma que a inovação tende a ser mais intensa à medida que aumenta a diversidade dos participantes. Angrisani, Cannavacciuolo e Rippa (2023) sustentam que múltiplos atores, quando trabalham juntos, alcançam resultados superiores quando o ecossistema reúne diversidade de competências, independência operacional e mecanismos de agregação de contribuições. Li e Zhu (2021) mostram que a heterogeneidade tecnológica entre parceiros impacta positivamente a inovação exploratória. Klooker e Hölzle (2024), por sua vez, apontam que a combinação de diferentes históricos e expertises é o que justifica a inovação colaborativa como estratégia central das organizações contemporâneas.

Um exemplo representativo dessa dinâmica é a parceria universidade-indústria, que combina lógicas paradigmáticas distintas, mas pode gerar sinergias inovadoras quando bem articulada (Valič et al., 2023; Yström et al., 2025). O êxito requer uma perspectiva sistêmica de interdependência: Wolfert et al. (2023) definem o ecossistema como um sistema de sistemas integrado, no qual o valor sinérgico da rede supera a soma das partes; Angrisani, Cannavacciuolo e Rippa (2023) reforçam que o ecossistema deve conectar a exploração científica à captura de valor de mercado; e Lages et al. (2023) demonstram empiricamente que ecossistemas com múltiplos atores e agendas concorrentes exigem uma mentalidade de coexistência de objetivos para que a cocriação de valor seja possível.

Essa dinâmica, contudo, só se sustenta com o engajamento contínuo e equilibrado de todos os atores da Hélice Quádrupla, o que é essencial para consolidar parcerias com impacto real no desenvolvimento local (Bittencourt; Figueiró, 2019; Papadopoulos et al., 2025). É por isso que as abordagens de Hélice Tríplice e Quádrupla são essenciais: mostram como a coordenação entre universidades, indústria, governo e sociedade civil fortalece a governança e o alinhamento de interesses em um ecossistema de inovação robusto (Angrisani; Cannavacciuolo; Rippa, 2023; Cui; Zhu; Wang, 2020; Mora et al., 2023; Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Zenkienė; Leišytė, 2024).

3.3.4. Gestão do Conhecimento e Propriedade Intelectual

A capitalização e a transferência de conhecimento são fundamentais para os ecossistemas de inovação, refletindo a capacidade das universidades de criar, codificar, disseminar e transferir conhecimento de forma eficaz para o setor produtivo e para a sociedade (Kaniak et al., 2025; Kettunen et al., 2022; Subrahmanya; Arun Kumar, 2024). Na prática, esse fluxo de conhecimento tecnológico e intangível ocorre principalmente por meio de registros e depósitos de Propriedade Intelectual (PI), o que exige gerenciamento e assessoria jurídica especializada por parte das agências universitárias para superar gargalos burocráticos e alinhar interesses de mercado (Kaniak et al., 2025; Vásquez-Luna et al., 2023).

A eficácia desse processo depende do equilíbrio entre a diversidade e a complementaridade dos parceiros envolvidos. Li e Zhu (2021) demonstram que as disparidades de conhecimento atuam como moderador em formato de U invertido: tanto a distância excessiva quanto a proximidade extrema reduzem a capacidade de absorção. Valič et al. (2023) destacam que a cooperação entre universidades e indústrias (U-I) envolve lógicas paradigmáticas distintas, o que exige a gestão de barreiras, como a ausência de competências especializadas e preocupações relacionadas à propriedade intelectual. Kettunen et al. (2022) indicam que a transferência eficaz requer mecanismos de codificação que minimizem o conflito entre a busca industrial por soluções imediatas e o foco acadêmico em publicações. Para conectar essas esferas, intermediários como escritórios de transferência de tecnologia (TTOs), escritórios de patentes e parques de pesquisa são essenciais, pois gerenciam ativamente as fronteiras institucionais e as expectativas concorrentes entre os diferentes atores (Yström et al., 2025).

Em living labs, a cocriação transdisciplinar com especialistas e comunidades favorece o compartilhamento de conhecimento e a compreensão dos problemas locais (Zermeño e. Herth, Verburg e Blok (2025) definem os laboratórios em campus como Parcerias Público-Privadas-Pessoas (4P), nas quais pesquisadores, empresas e cidadãos colaboram sob governança compartilhada para abordar questões que afetam diretamente suas comunidades. (Tercanli, Jongbloed e Van Der Meulen (2024) enfatizam que esse modelo exige gestão flexível para navegar pela incerteza da cocriação. Zabaniotou (2020) caracteriza esses espaços como ambientes de aprendizado social que reúnem indivíduos de origens diversas para desenvolver soluções criativas. Complementarmente, a promoção da ciência aberta ganha destaque ao se apoiar nos princípios de transparência, acessibilidade, autorização e participação ativa (Vicente-Saez; Gustafsson; Van Den Brande, 2020), permitindo que as empresas combinem descobertas científicas abertas com a criação de vantagens competitivas proprietárias em modelos de duplo impacto (Vicente-Saez; Gustafsson; Van Den Brande, 2020; Yström et al., 2025).

3.3.5. Recursos e Estruturas de Apoio

A disponibilização de suporte completo, abrangendo aspectos técnicos, financeiros e de assessoria administrativa especializada, é crucial para reduzir incertezas e sustentar iniciativas de empreendedorismo e a inovação acadêmica (Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Vásquez-Luna et al., 2023; Vedana; Andreassi, 2025). Esse ecossistema funciona graças a fluxos contínuos de recursos tangíveis e intangíveis, nos quais o investimento financeiro e as infraestruturas, como incubadoras, aceleradoras e parques tecnológicos, proporcionam as condições materiais que permitem a continuidade de projetos em fases iniciais (Bittencourt; Figueiró, 2019; Kaniak et al., 2025; Vedana; Andreassi, 2025). A literatura mostra que esse apoio se torna mais eficaz quando combinado à oferta de recursos adaptáveis, que dão aos gestores flexibilidade para realocar orçamentos e ajustar escopos à medida que pesquisas e projetos avançam (Herth; Verburg; Blok, 2025; Tercanli; Jongbloed; Van Der Meulen, 2024). Essa capacidade de reconfiguração atua como um diferencial competitivo contra a rigidez burocrática que costuma dominar as instituições públicas (Kaniak et al., 2025; Tercanli; Jongbloed; Van Der Meulen, 2024).

No plano metodológico, o corpus evidencia que abordagens práticas na educação empreendedora, como simulações, mentorias e makerspaces, são mais eficazes do que abordagens teóricas para desenvolver a mentalidade empreendedora (Kaniak et al., 2025; Lv et al., 2022; Vedana; Andreassi, 2025). Enquanto Vedana e Andreassi (2025) sustentam que essa transição exige métodos andragógicos e heutagógicos que preparem o estudante para gerenciar incertezas de modo autônomo, Lv et al. (2022) mostram, na prática, que isso se viabiliza por meio de simuladores de negócios e makerspaces interdisciplinares. As incubadoras generalistas, por sua vez, precisam migrar para estratégias especializadas em propriedade intelectual e redes corporativas (Vásquez-Luna et al., 2023), uma vez que o tratamento jurídico de patentes e o licenciamento de tecnologias representam os maiores gargalos para os inventores universitários (Kaniak et al., 2025; Yasheva et al., 2022).

Complementarmente, métodos ágeis focados no usuário, como o desing thinking, a pesquisa baseada em design (DBR), a Value Creation Wheel (VCW) e a prototipagem rápida, ajudam a desenvolver soluções por meio de iterações, garantindo que as inovações respondam às necessidades reais do contexto (Cochrane; Sinfield, 2022; Lages et al., 2023).

Em abordagens adaptativas, a criação de produtos mínimos viáveis (MVPs) e a construção de uma cultura de experimentação constante dependem de ciclos regulares de feedback dos stakeholders e de gestão alinhada com princípios ágeis (Klooker; Hölzle, 2024; Tercanli; Jongbloed; Van Der Meulen, 2024; Wolfert et al., 2023). Programas de educação transformadora e transdisciplinar têm papel importante ao preparar alunos e profissionais para resolver problemas complexos de sustentabilidade e desenvolvimento local (Bernert et al., 2022).

Ao usar métodos como a Aprendizagem Baseada em Desafios e laboratórios de mudança, esse modelo pedagógico ativo promove o aprendizado social e a criação de conhecimento orientado à ação, ajudando a comunidade acadêmica a impulsionar mudanças socioecológicas e tecnológicas que vão além das fronteiras tradicionais da universidade (Bernert et al., 2022; Zabaniotou, 2020; Zermeño; Garza, 2021).

3.3.6. Valor Compartilhado e Alinhamento de Interesses

A continuidade da colaboração em habitats de inovação exige que todos os participantes identifiquem valor tangível em sua participação, alinhando seu desenvolvimento a benefícios ambientais e sociais (Bittencourt; Figueiró, 2019). O sucesso desses ambientes está condicionado a uma governança que equilibre interesses individuais e coletivos, o que requer acordos explícitos sobre custos, responsabilidades e uma divisão equitativa de receitas (Cui; Zhu; Wang, 2020; Lages et al., 2023).

A falta de transparência na distribuição dos resultados inovadores compromete a confiança entre os parceiros e pode resultar na dissolução das parcerias (Cui; Zhu; Wang, 2020). Portanto, a sustentabilidade do ecossistema depende do estabelecimento de relações de benefício mútuo que conciliem as tensões entre as lógicas de negócios e científicas (Cochrane; Sinfield, 2022; Kettunen et al., 2022), promovendo impactos positivos e valor compartilhado em todos os níveis e para todos os participantes (Angrisani; Cannavacciuolo; Rippa, 2023; Bittencourt; Figueiró, 2019).

A análise dos seis elementos demonstra que a colaboração e a inovação em habitats universitários decorrem da interação entre múltiplos fatores, e não de elementos isolados. Uma combinação robusta de cultura institucional, engajamento multissetorial, gestão do conhecimento, suporte estrutural, metodologias adaptativas e mecanismos de valor compartilhado é essencial. Esses fatores apresentam interdependência: a cultura institucional, sem suporte estrutural, tende à estagnação; metodologias adaptativas, sem governança de valor, geram conflitos; o engajamento, sem gestão do conhecimento, se dissipa. O sucesso dos habitats universitários depende, portanto, da capacidade das universidades de integrar essas dimensões de forma articulada, com uma liderança que assegure a coerência sistêmica ao longo do tempo.

3.4. Relação com Políticas Públicas e Sistemas Nacionais de Inovação

O contexto regulatório e estratégico em nível nacional e regional é determinante para a eficácia dos habitats e ecossistemas.

3.4.1. Sistemas Nacionais de Inovação (NIS)

O Sistema Nacional de Inovação (NIS) é definido como um conceito sociológico que descreve uma rede de instituições que interagem na importação, modificação e difusão de novas tecnologias, estruturada pelos fluxos de informação entre diferentes atores (Valič et al., 2023). O modelo da Hélice Tríplice exemplifica a aplicação operacional do NIS ao estabelecer a aliança entre governo, empresas e universidades como elemento central do sistema de inovação. A atuação conjunta desses atores, por meio de spin-offs, startups e transferência de tecnologia, estabelece condições institucionais favoráveis ao desenvolvimento desses sistemas (Yasheva et al., 2022; Zenkienė; Leišytė, 2024). No contexto brasileiro, os NITs funcionam como conectores práticos desse arranjo, intermediando o fluxo de conhecimento entre universidades e setor privado, consolidando-se como pilares do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (Kaniak et al., 2025).

A transição para o modelo da Hélice Quádrupla expande o escopo sistêmico ao incorporar a sociedade civil como quarto ator, redirecionando o NIS para enfrentar os Grandes Desafios Contemporâneos, como as mudanças climáticas, a saúde pública e a desigualdade socioeconômica. Essa abordagem ocorre por meio de iniciativas orientadas a missões que mobilizam diversos setores em torno de objetivos comuns (Yström et al., 2025; Zenkienė; Leišytė, 2024). Essa mudança representa uma transição do modelo de inovação centrado na empresa para um modelo centrado em redes, no qual o foco passa da geração exclusiva de novos negócios para a criação de valor compartilhado em toda a região (Bittencourt; Figueiró, 2019). Como resultado, universidades envolvidas em redes de cocriação com atores governamentais, industriais e sociais passam a exercer influência ativa na formulação de políticas públicas de ensino superior e a inovação (Zenkienė; Leišytė, 2024).

3.4.2. Políticas e Legislação para Inovação

As políticas governamentais e os sistemas jurídicos são fundamentais para a cooperação entre universidades e indústrias: a presença de uma Estratégia Nacional de Inovação eficaz e de um ambiente jurídico adequado figura entre os requisitos institucionais mais importantes (Valič et al., 2023). Os marcos regulatórios atuam como força motriz da institucionalização, como no caso do Brasil onde a Lei de Inovação (Brasil, 2004), o Marco Legal da CT&I (Brasil, 2016) e a Política Nacional de Inovação (Brasil, 2020) impulsionaram a estruturação de NITs e agências de inovação (Kaniak et al., 2025; Vedana; Andreassi, 2025), enquanto em outros contextos leis específicas de fomento ao empreendedorismo viabilizam a sinergia entre setor produtivo e universidades (Vásquez-Luna et al., 2023).

Além dos marcos legais, um ambiente institucional atrativo é essencial para atrair e reter talentos qualificados no ecossistema regional, papel que cabe às universidades empreendedoras como agentes de mudança (Lv et al., 2022; Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Vedana; Andreassi, 2025). Complementarmente, a proteção efetiva dos direitos de Propriedade Intelectual, por meio da patenteabilidade, do licenciamento e de contratos de transferência de tecnologia, é o mecanismo que quebra resistências acadêmicas e alinha interesses entre a universidade e o mercado (Angrisani; Cannavacciuolo; Rippa, 2023; Kaniak et al., 2025; Vásquez-Luna et al., 2023; Yasheva et al., 2022).

3.4.3. Intervenção Governamental e Financiamento

O apoio governamental e a formulação de políticas públicas devem priorizar os elementos fundamentais da inovação colaborativa (Cui; Zhu; Wang, 2020). A atuação das autoridades públicas é particularmente relevante em países em desenvolvimento, pois garante as condições estruturais indispensáveis à consolidação do Sistema Nacional de Inovação (NIS) (Valič et al., 2023). Em ecossistemas de inovação digital, a presença de um agente dominante pode ser determinante para a coordenação entre setores dispersos (Wolfert et al., 2023). Esse papel manifesta-se por meio do fornecimento de bolsas, subsídios, infraestrutura básica e custeio de proteção intelectual (Subrahmanya; Arun Kumar, 2024), da gestão de fundos públicos destinados a spin-offs e startups acadêmicas (Yasheva et al., 2022) e do financiamento inicial, que confere visibilidade e legitimidade aos livings labs perante parceiros industriais e sociais (Herth; Verburg; Blok, 2025).

Apesar dos benefícios, os governos frequentemente apresentam baixa tolerância a riscos e erros, o que pode limitar a experimentação necessária à inovação (Wolfert et al., 2023). Tercanli, Jongbloed e Van Der Meulen (2024) demonstram empiricamente que exigências como orçamentos inflexíveis, cronogramas rígidos e relatórios detalhados podem conflitar com o caráter experimental de ambientes de cocriação, levando laboratórios a restringir seus escopos para atender às exigências dos financiadores. Mora et al. (2023) observam que a governança pública é limitada por restrições burocráticas e políticas tradicionais de aquisição, e defendem a adoção de metodologias de experimentação regulatória para superar o modelo de prever para depois agir. Vicente-Saez, Gustafsson e Van Den Brande (2020) acrescentam que a rigidez das legislações sobre propriedade intelectual e direitos autorais restringe a abertura e a transparência exigidas pela era digital.

4. IMPLICAÇÕES TEÓRICAS E PRÁTICAS

A revisão mostra que os habitats de inovação têm naturezas diversas, como universidades empreendedoras, Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs), living labs, laboratórios sociais e ecossistemas colaborativos, o que reforça a necessidade de tipologias teóricas mais matizadas que reflitam a complexidade e a singularidade de cada modelo. Esse movimento favorece o progresso das teorias contingenciais, que podem esclarecer por que certos tipos de habitats são mais eficientes em contextos particulares ou para propósitos distintos (Angrisani; Cannavacciuolo; Rippa, 2023; Bittencourt; Figueiró, 2019; Kaniak et al., 2025; Vedana; Andreassi, 2025; Yström et al., 2025).

Outro ponto importante é a identificação dos elementos fundamentais para a colaboração e inovação, incluindo liderança transformacional (Kaniak et al., 2025; Tercanli; Jongbloed; Van Der Meulen, 2024), cultura organizacional positiva (Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Vedana; Andreassi, 2025), engajamento multissetorial (Bittencourt; Figueiró, 2019; Papadopoulos et al., 2025), gestão do conhecimento (Kettunen et al., 2022; Li; Zhu, 2021), recursos adaptáveis (Herth; Verburg; Blok, 2025; Tercanli; Jongbloed; Van Der Meulen, 2024) e metodologias inovadoras (Bernert et al., 2022; Cochrane; Sinfield, 2022). Quando considerados de forma interconectada, esses elementos indicam a demanda por modelos teóricos que evidenciem a sinergia entre as dimensões internas e externas, ampliando as perspectivas da Hélice Tríplice e suas extensões (Angrisani; Cannavacciuolo; Rippa, 2023; Yström et al., 2025; Zenkienė; Leišytė, 2024). Essa abordagem não só retrata as interações, mas também possibilita uma análise mais aprofundada dos mecanismos que promovem ou impedem a cooperação nas instituições de ensino superior, destacando como esses fatores moldam e impulsionam a inovação.

Outra contribuição teórica importante é a gestão da propriedade intelectual (PI) e da ciência aberta. A tensão entre salvaguardar o conhecimento e compartilhá-lo de maneira aberta cria um terreno propício para novos modelos que explorem como as instituições de ensino superior podem conciliar esses imperativos aparentemente opostos (Vicente-Saez; Gustafsson; Van Den Brande, 2020; Yström et al., 2025). A velocidade e o alcance da transferência de tecnologia, bem como a criação de ecossistemas de inovação mais inclusivos, são diretamente afetados pelas diversas estratégias de PI e ciência aberta adotadas pelas instituições (Angrisani; Cannavacciuolo; Rippa, 2023; Kaniak et al., 2025; Vásquez-Luna et al., 2023; Vedana; Andreassi, 2025; Yasheva et al., 2022).

No âmbito institucional e regulatório, a análise enfatiza a relevância das políticas públicas e a função do Estado na criação e na manutenção dos ecossistemas de inovação. A Lei do Marco Legal da CT&I (Brasil, 2016), que alterou e ampliou a Lei nº 10.973/2004 (Brasil, 2004) exemplifica como o quadro regulatório brasileiro pode afetar as estratégias das organizações e os processos de inovação nas universidades, ao mesmo tempo em que expõe os desafios de implementação e adaptação às novas circunstâncias. Esse contexto destaca a importância de modelos teóricos que tratem da coevolução entre políticas públicas e habilidades institucionais (Kaniak et al., 2025; Lages et al., 2023; Tercanli; Jongbloed; Van Der Meulen, 2024; Valič et al., 2023; Yasheva et al., 2022).

No aspecto prático, os resultados sugerem que administradores acadêmicos e líderes de habitats devem reforçar a liderança transformacional, capacitando líderes que possam inspirar suas equipes, eliminar obstáculos burocráticos e promover culturas focadas na inovação e no empreendedorismo (Kaniak et al., 2025; Tercanli; Jongbloed; Van Der Meulen, 2024). Também é fundamental estabelecer espaços, tanto físicos quanto virtuais, para interação e cocriação (Cochrane; Sinfield, 2022; Klooker; Hölzle, 2024), garantir a flexibilidade organizacional (Herth; Verburg; Blok, 2025; Tercanli; Jongbloed; Van Der Meulen, 2024), investir na gestão do conhecimento e da propriedade intelectual com base em ciência aberta (Kaniak et al., 2025; Vicente-Saez; Gustafsson; Van Den Brande, 2020), além de mobilizar recursos técnicos, financeiros e administrativos sólidos (Subrahmanya; Arun Kumar, 2024; Vásquez-Luna et al., 2023). A incorporação de abordagens focadas no usuário, como desing thinking, prototipagem rápida e pesquisa orientada por design, combinada com programas educacionais transformadores, é fundamental para capacitar estudantes e profissionais para contextos de inovação (Bernert et al., 2022; Cochrane; Sinfield, 2022; Lv et al., 2022; Zabaniotou, 2020).

Por fim, para os formuladores de políticas públicas, a revisão aponta para a importância de atualizar constantemente o quadro regulatório (Valič et al., 2023; Yasheva et al., 2022), criar mecanismos de financiamento estratégico (Herth; Verburg; Blok, 2025; Subrahmanya; Arun Kumar, 2024), reforçar a governança e o alinhamento de interesses nos ecossistemas (Angrisani; Cannavacciuolo; Rippa, 2023; Cui; Zhu; Wang, 2020; Mora et al., 2023), além de valorizar a extensão universitária como um meio de inovação (Bittencourt; Figueiró, 2019; Semeraro et al., 2020). Experiências como o Marco Legal da CT&I (Brasil, 2016) demonstram que avanços regulatórios podem proporcionar autonomia e eficiência aos NITs, mas também evidenciam que sua implementação integral enfrenta obstáculos (Kaniak et al., 2025; Lages et al., 2023). A governança deve ser vista como uma prática de diálogo e colaboração entre as partes interessadas, que adota os princípios da ciência aberta e os mecanismos de engajamento que garantem a conversão da produção científica em benefícios reais para a sociedade (Vicente-Saez; Gustafsson; Van Den Brande, 2020; Zabaniotou, 2020; Zermeño; Garza, 2021).

5. CONCLUSÃO

A presente revisão integrativa evidenciou que os habitats universitários de inovação desempenham um papel central na promoção de ecossistemas colaborativos com impactos econômicos, sociais e científicos. A análise e categorização dos principais tipos, juntamente com a identificação dos elementos estruturantes, demonstraram que a eficácia desses habitats decorre da interação entre liderança transformacional, cultura organizacional favorável à inovação, engajamento multissetorial, gestão estratégica do conhecimento, disponibilidade de recursos adaptáveis, metodologias centradas no usuário e mecanismos de valor compartilhado entre os stakeholders. O êxito desses ambientes está mais relacionado à capacidade de adaptação ao contexto local e ao fortalecimento dos vínculos entre academia, indústria, governo e sociedade do que à adoção de modelos predefinidos.

Embora os resultados desta pesquisa enfatizem a importância dos habitats universitários de inovação, é fundamental considerar as limitações metodológicas e de escopo. O recorte temporal e a escolha das bases de dados podem ter levado à exclusão de estudos importantes provenientes de outros contextos. Além disso, a literatura revisada ainda apresenta lacunas conceituais quanto à articulação entre os diversos tipos de habitats e à mensuração de seus resultados, o que limita as generalizações. Além disso, há predominância de estudos exploratórios, que exigem validações empíricas mais robustas.

Contudo, essas restrições não diminuem a importância desta revisão. Em vez disso, as restrições mostram a importância de estudar comparações em contextos, instituições e lugares distintos, a necessidade de criar métricas de desempenho mais precisas e a importância de levar em conta a visão dos usuários finais e das comunidades beneficiadas. Assim, as evidências apresentadas neste estudo constituem uma base para a criação de estratégias que transformem os ambientes universitários de inovação em motores eficientes de crescimento sustentável, inclusivo e duradouro.

Declaração de uso de IA: durante a preparação deste trabalho, os autores utilizaram ferramentas de IAGen no processo de planejamento, para aperfeiçoamento do texto e melhoria da legibilidade. Após o uso destas ferramentas, os textos foram revisados e editados, estando em conformidade com o método científico. Os autores assumem total responsabilidade pelo conteúdo da publicação.

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1 Docente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia, Gestão e Mídia do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina

2 Discente do Departamento de Gestão, Mídia e Tecnologia da Universidade Federal de Santa Catarina

3 Discente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia, Gestão e Mídia do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina