REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/785447189
RESUMO
Este estudo investiga a constituição das tiras de Armandinho à luz do dialogismo conceitualizado por Bakhtin (1997), que enfatiza os gêneros do discurso como formas "relativamente estáveis", moldadas por contextos sócio-históricos específicos (Bakhtin, 2003). Desse modo, o objetivo deste trabalho é analisar a constituição das tiras de Armandinho publicadas no período de pandemia da Covid-19, contexto escolhido devido à importância da temática nos tempos atuais. Para desenvolver este estudo, foi realizada uma pesquisa no Facebook, na página oficial do quadrinista, a www.facebook.com/tirasarmandinho, espaço no qual o artista publica seu trabalho com frequência. A pesquisa observou o período de publicação entre as datas de 1º de janeiro de 2020 a 22 de abril de 2022, considerando como data inicial o período em que a pandemia avançou no Ocidente e, como data final, a publicação da portaria GM/MS nº 913, de 22 de abril de 2022, que decretou o fim do estado pandêmico no Brasil. A análise é fundamentada nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) (Brasil, 1998) e na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2018). Durante o estudo, buscou-se examinar como as tiras de Armandinho capturam e interpretam as complexidades emocionais e sociais desse período, utilizando o humor gráfico como meio de reflexão crítica e comentário social. Esta análise visa contribuir para a compreensão de como os quadrinhos contemporâneos se posicionam e dialogam com crises globais e desdobramentos no Brasil. A partir das análises, percebe-se que as tiras do Alexandre Beck que versam sobre a temática da pandemia de Covid-19 exploram discussões sociais que permearam este período, como a falta de leitos em UTIs, vacinas, panelaços, entre outros. Infere-se que este estudo permite não apenas a ampliação dos subsídios para a formação de leitores, mas também o desenvolvimento da habilidade de interpretar e compreender diferentes gêneros do discurso, abrangendo sua diversidade linguística e cultural.
Palavras-chave: gêneros do discurso; tiras; pandemia de Covid-19.
ABSTRACT
This study investigates the constitution of Armandinho's comic strips in the light of dialogism conceptualized by Bakhtin (1997), which emphasizes discourse genres as "relatively stable" forms, shaped by specific socio-historical contexts (Bakhtin, 2003). Thereby, this work aims to analyse the constitution of Armandinho’s comic strips published during the Covid-19 pandemic period, a context chosen due to the theme’s importance in current times. To develop this study, research was carried out on Facebook, on the comic artist's official page, www.facebook.com/tirasarmandinho, a space in which his work is frequently published. The research observed the publication period between January 1, 2020, and April 22, 2022, considering as the starting date the period in which the pandemic advanced in the West and, as the end date, the publication of the GM/MS Ordinance n. 913, of April 22, 2022, which decreed the end of the pandemic state in Brazil. The analysis is based on the Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) (Brazil, 1998) and the Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brazil, 2018). During the study, we sought to examine how Armandinho's comic strips capture and interpret the emotional and social complexities of this period, using graphic humour as a means of critical reflection and social commentary. This analysis aims at contributing to the understanding of how contemporary comic strips position themselves and dialogue with global crises and developments in Brazil. From the analysis, it is noticeable that Alexandre Beck's comic strips that deal with the theme of the Covid-19 pandemic explore social discussions that permeated this period, such as the lack of beds in ICUs, vaccines, “panelaço” protests, among others. It is inferred that this work allows not only the expansion of subsidies for the training of readers, but also the development of the ability to interpret and understand different discourse genres, encompassing their linguistic and cultural diversity.
Keywords: discourse genres; comic strips; covid-19 pandemic.
1. INTRODUÇÃO
A língua é concebida como um objeto em transformação, ocorrendo e efetivando-se de acordo com o discurso e com os movimentos sociais e a relação humana. A análise dialógica do discurso compreende entender o desenvolvimento da língua e como esta é efetivada nos gêneros. Sob a perspectiva do dialogismo de Bakhtin (1997), a língua e a linguagem transcendem sua função de expressão de pensamentos e sentimentos. São, antes de tudo, formas pelas quais exercemos influência sobre aqueles com quem nos comunicamos, buscando alcançar objetivos pré-definidos. Nesse contexto, a língua não se resume a ser apenas um código; ela se manifesta também como um fenômeno social, uma forma de atuação interativa profundamente ligada ao contexto e à esfera socioculturais.
Para participar de interações sociais nas mais diversas esferas de atividade humana, os sujeitos lançam mão de gêneros discursivos. Segundo Bakhtin (2003), os gêneros do discurso representam formas de expressão "relativamente estáveis", sendo moldados por contextos sócio-históricos específicos e toda comunicação, oral ou escrita ocorre por meio desses gêneros. Os indivíduos possuem um vasto repertório de gêneros, muitas vezes inconscientemente e mesmo em conversas informais, o discurso é influenciado pelo gênero em uso.
Bakhtin (2003) compara a aquisição dos gêneros à familiaridade com a língua materna, indicando que assim como dominamos naturalmente nossa língua antes de estudar gramática, os gêneros do discurso também são assimilados de maneira semelhante, sendo que eles podem ser primários ou secundários. Os gêneros primários referem-se a situações comunicativas do dia a dia, caracterizadas por espontaneidade, simplicidade e informalidade, indicando uma comunicação direta, como a carta, o bilhete e o diálogo cotidiano. Por outro lado, os gêneros secundários, geralmente mediados pela escrita, surgem em contextos comunicativos mais elaborados e complexos, como no teatro, romance, na tese científica e palestra, entre outros. É importante destacar que a essência dos gêneros é a mesma, uma vez que, independentemente da classificação, são constituídos por fenômenos de natureza verbal. A distinção entre eles, por sua vez, reside no nível de complexidade com o qual semanifestam.
A partir desse conhecimento, este trabalho tem o olhar voltado para as tirinhas como forma ou gênero discursivos, a partir da análise de sua linguagem. A escolha desse gênero deve-se, primeiro, ao fato de os principais documentos que regem a educação no país, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) (Brasil, 1998) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2018), destacarem e preverem o trabalho deste gênero textual em sala de aula e, segundo, à presença deste gênero na vida cotidiana, já que, de acordo com o estudo Retratos da Leitura no Brasil (2019), realizado pelo Instituto Pró Livro, 11% dos entrevistados leem textos em formato de quadrinhos e gibis, seja diariamente ou pelo menos uma vez por semana. Os resultados dessa pesquisa indicam que as HQs estão entre as 10 formas de leitura mais populares no Brasil. Além disso, no que se refere à educação, o estudo revelou que as maiores taxas de leitura de quadrinhos e gibis ocorrem nos Anos Iniciais (13%) e Anos Finais (12%) do Ensino Fundamental.
Neste trabalho, foram selecionadas as tiras de Armandinho, de autoria de Alexandre Beck, pois a presença delas nos materiais didáticos, como livros didáticos do Ensino Fundamental Anos Iniciais e Anos Finais e Ensino Médio e ainda em avaliações, como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM - 2021), o vestibular da PUC-RS (2020) e o da UNESP (2019), é relevante.
Desse modo, o objetivo deste trabalho é analisar a constituição das tiras de Armandinho publicadas no período de pandemia da Covid-19, contexto escolhido devido à importância da temática nos tempos atuais. Para desenvolver este estudo, realizamos uma pesquisa no Facebook, na página oficial do quadrinista, a www.facebook.com/tirasarmandinho, espaço no qual o artista publica seu trabalho com frequência. A pesquisa observou o período de publicação entre as datas de 1º de janeiro de 2020 a 22 de abril de 2022, considerando como data inicial o período em que a pandemia avançou no Ocidente e, como data final, a publicação da portaria GM/MS nº 913, de 22 de abril de 2020, que decretou o fim do estado pandêmico no Brasil.
Este trabalho caracteriza-se como quantitativo, ao passo que é feito um levantamento do número de publicações de tiras na temática escolhida; bem como qualitativo, pois algumas tirinhas são trazidas para a análise dos aspectos constitutivos do gênero.
Quanto à organização, o artigo apresenta três seções, além desta introdução. A seção 1, “O gênero tirinha: origem e constituição”, define e classifica o gênero estudado à luz das teorias do discurso; a seção 2, “Armandinho, por Alexandre Beck”, conceitua o personagem das tiras, traz a representação do autor e versa acerca das temáticas e discussões presentes nas produções do autor; enquanto a seção 3, “As tiras de Armandinho em contexto pandêmico”, traz a análise de tiras produzidas na pandemia de Covid-19.
As tiras de Alexandre Beck estão amplamente presentes em redes sociais, livros didáticos, jornais e revistas, conferindo-lhes relevância significativa. Durante a pandemia, Beck produziu cerca de 40 tiras sobre a Covid-19, publicadas no Facebook. Este estudo investigou as tirinhas de Armandinho do mesmo período, analisando seu gênero discursivo à luz da teoria bakhtiniana, focando nas seis que abordaram a crise sanitária e ambiental. Discutiu-se também a importância educacional dos quadrinhos ao ampliar e aprofundar temas, promovendo a leitura crítica e a autonomia dos leitores.
2. O GÊNERO TIRINHA: ORIGEM E CONSTITUIÇÃO
Para compreender o gênero tirinha, é necessário observar sua origem. Segundo Vergueiro (2016), acredita-se que a origem das histórias em quadrinhos remonta à Pré-História, quando nossos antepassados gravavam imagens nas paredes das cavernas onde viviam para representar suas atividades e descobertas diárias. Além disso, os hieróglifos feitos pelos egípcios também são considerados precursores da linguagem dos quadrinhos, pois, por meio de uma combinação de letras e ilustrações, eles retratavam a vida dos faraós e seus anseios para a vida após a morte.
As tirinhas são originadas das histórias em quadrinhos (HQs) e sua produção e circulação no Brasil datam do início do século XX com a chegada da revista “O Tico-Tico” em nosso país. Com isso, as tiras vieram a ser reproduzidas em jornais e revistas da época, tendo por sua primeira reprodução as histórias maiores e, posteriormente, as tiras com dois, três, quatro quadrinhos.
Seguindo as contribuições de Bakhtin (1997) acerca dos gêneros discursivos, as tiras são compostas por três elementos.
Estes três elementos (conteúdo temático, estilo e construção composicional) fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera da comunicação. Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso (Bakhtin, 1997, p. 280).
O gênero tirinha possui características específicas e emerge na esfera da vida cotidiana, com uma linguagem simples e com temáticas que abrangem os mais variados problemas sociais, com humor e sátira. Apresenta-se por meio de um, dois, três ou mais quadrinhos, sendo cada quadro composto por representação visual, verbal ou verbo visual. Esse gênero representa uma narrativa constituída por meio de uma sequência de imagens, com o objetivo de disseminar informações, cujos aspectos temáticos são diversos, abrangendo conteúdos acerca da política, sociedade, futebol, relacionamento, economia e até mesmo Covid-19, para exemplificar a atualidade dos temas presentes nas produções do gênero em estudo. A partir das características das tiras, Mendonça (2005) destaca que
As tiras são um subtipo de HQ, mais curtas (até 4 quadrinhos) e, portanto, de caráter sintético, podem ser sequencias (capítulos de narrativas maiores) ou fechadas (um episódio por dia). Quanto às temáticas, algumas tiras também satirizam aspectos econômicos e políticos do país, embora não sejam tão “datadas” como a charge. Dividimos as tiras fechadas em dois subtipos: a) tiras piadas, em que o humor é obtido por meio das possibilidades de dupla interpretação, sendo selecionada pelo autor a menos provável; b) tiras episódio, nas quais o humor é baseado especificamente no desenvolvimento da temática numa determinada situação, de modo a realçar as características das personagens (Mendonça, 2005, p. 199).
Após algumas considerações sobre o gênero tirinhas, antes de proceder à análise dos dados, apresentaremos brevemente as tiras do Armandinho.
3. ARMANDINHO, POR ALEXANDRE BECK
Alexandre Beck é um ilustrador e quadrinista catarinense. Seu trabalho com as tirinhas do Armandinho chega a diversos públicos, especialmente por meio das publicações feitas em sua página no Facebook Armandinho, a qual carrega o nome do personagem principal.
O fenômeno Armandinho constitui-se como um protagonista da história. É um garoto de cabelos azuis, muito curioso e que tem um sapo como seu fiel animal de estimação. As narrativas se desenrolam tanto em sua companhia com os amigos quanto com seus pais e outras figuras importantes em sua vida.
No entanto, um detalhe intrigante é que apenas as crianças são retratadas visualmente. Todos os adultos são representados apenas por meio de diálogos em balões e suas pernas são as únicas partes de seus corpos mostradas ao leitor, nunca revelando a imagem completa dos adultos, como pode ser observado na Tirinha 1 a seguir:
Tirinha 1. Armandinho
Na tirinha acima, pode-se destacar a visão de uma criança frente a um adulto, que é representado apenas pelas pernas e pelo discurso escrito. Esse recurso implica que a tira tem como fundamento a perspectiva da criança, ou seja, é a partir dela que o significado é elaborado no texto. O enquadramento, quando visto da altura da criança, torna-se um elemento estilístico da linguagem não verbal com a finalidade de ilustrar o ponto de visão da criança. Nesse exemplo, observa-se, ainda, a presença do sapo, o melhor amigo e fiel escudeiro do Armandinho. Quanto à temática, já percebemos o discurso político na crítica da condução desastrosa da compra e distribuição da vacina da Covid-19, proferido por meio do personagem através da placa escrita “FORA”. Essa expressão em destaque está associada à frase de grito da população brasileira contrária ao governo integracionista do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Quanto à classificação apresentada por Mendonça (2005), pode-se perceber que as tirinhas do Armandinho são fechadas, ou seja, têm a situação resolvida na própria tira. Esse grupo de tirinhas, conforme destaca a autora, pode ser chamado de tiras piadas ou tiras episódios. Tomando para exemplo as tiras selecionadas para este trabalho, observa-se na produção pandêmica do Alexandre Beck uma presença das tiras do tipo episódio, as quais são marcadas pelo desenvolvimento da temática específica. Cabe observar a tirinha 2 a seguir.
Tirinha 2. Armandinho
O autor desenvolve a Tirinha 2 em quatro quadrinhos, sem o aspecto da piada com o tom humorístico e cômico, colabora com a presença da progressão da temática referente às vacinas contra a Covid-19 através da reflexão do personagem Armandinho. Aqui o significado é interpretado sem duplo sentido. Fechada em si própria com a compreensão restrita a esse quadro, a tira observada possui uma linguagem objetiva, concisa e simples, aspectos facilmente observados, de modo geral, no desenrolar dos quadrinhos da obra do autor, sobre a qual trataremos especificamente a seguir.
A partir do movimento que faz as tirinhas um gênero destaque no cotidiano, a presença das tiras do Alexandre Beck é perceptível nas redes sociais, nos jornais e nas revistas e nos livros didáticos da área de linguagens. Apenas para exemplificar, livros didáticos como: Se liga nas linguagens (Moderna, 2020), Aprender e Saber Língua Portuguesa 5º ano (MVC Editora, 2022), Revisa Enem: Ciências Humanas Volume 2 (Editora Grafset, 2022), Mais Saber Língua Portuguesa 7º ano (Lunik, 2020) trazem tiras do autor. Além de as tiras serem textos muito presentes na sociedade, o que demanda, logicamente, que estejam em estudo na Educação Básica, é possível tomar por hipótese que a gama de temas abordados nas tiras do Armandinho (a exemplo: amor, família, amizade, trabalho, política, saúde) pode justificar o grande uso nos materiais didáticos.
A presença do gênero em estudo na sala de aula segue, como já destacado, a BNCC (Brasil, 2018), que orienta a relação de ensino e aprendizagem ao gênero história em quadrinhos. A título de ilustração, seguem alguns exemplos de habilidades previstas no documento para o Ensino Fundamental Anos Finais.
Quadro 1. Habilidades da BNCC referentes ao gênero tirinha
(EF67LP28) Ler, de forma autônoma, e compreender – selecionando procedimentos e estratégias de leitura adequados a diferentes objetivos e levando em conta características dos gêneros e suportes –, romances infantojuvenis, contos populares, contos de terror, lendas brasileiras, indígenas e africanas, narrativas de aventuras, narrativas de enigma, mitos, crônicas, autobiografias, histórias em quadrinhos, mangás, poemas de forma livre e fixa (como sonetos e cordéis), vídeo-poemas, poemas visuais, dentre outros, expressando avaliação sobre o texto lido e estabelecendo preferências por gêneros, temas, autores. | (EF12LP05) Planejar e produzir, em colaboração com os colegas e com a ajuda do professor, (re)contagens de histórias, poemas e outros textos versificados (letras de canção, quadrinhas, cordel), poemas visuais, tiras e histórias em quadrinhos, dentre outros gêneros do campo artístico-literário, considerando a situação comunicativa e a finalidade do texto. | (EF15LP14) Construir o sentido de histórias em quadrinhos e tirinhas, relacionando imagens e palavras e interpretando recursos gráficos (tipos de balões, de letras, onomatopeias). |
Fonte: BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 30 ago. 2024.
As habilidades EF67LP28 e a EF15LP14 tratam da significação e da construção de sentido por meio do leitor e sua relação com a leitura desse gênero. Com isso, é possível afirmar que a formação leitora ocorre de modo a ser direcionada ao criticismo e ao letramento. A BNCC estimula também a produção desse gênero textual através da habilidade EF12LP05, no que tange à produção em parceria entre os colegas da sala de aula e a recontagem dessas histórias, estimulando a promoção da leitura.
Tendo apresentado as tirinhas de Armandinho e, ainda, discutido brevemente a presença do gênero nos materiais didáticos em sala de aula, passaremos à análise dos textos selecionados na pesquisa.
4. AS TIRAS DE ARMANDINHO EM CONTEXTO PANDÊMICO
Como já destacado, a pesquisa foi realizada na página do Facebook Armandinho. Com o objetivo de selecionar os textos que trouxessem como temática a pandemia de Covid-19, foram pesquisadas as publicações de 1º de janeiro de 2020 a 22 de abril de 2022, como explicado anteriormente na Introdução deste trabalho. Foram encontradas 291 tirinhas, dentre as quais 104 versam a respeito da pandemia de Covid-19. No entanto, mesmo após o pico da pandemia, o autor permaneceu publicando acerca do tema. A sua primeira tira sobre o tema analisado foi postada no dia 4 de janeiro de 2020 e a última, no dia 31 de março de 2021. Serão apresentadas quatro tiras selecionadas para discussão, pois exploram a pandemia em diferentes ângulos e destacam a importância das vacinas, a questão da crise sanitária de Manaus com os cemitérios a céu aberto naquele período, a negligência do governo e os efeitos da doença na vida do povo brasileiro.
Enquanto gênero, as tirinhas selecionadas do Armandinho são constituídas pela função cotidiana, destacando, por meio de unidades temáticas relacionadas à pandemia de Covid-19 e seus desdobramentos no Brasil, discussões sobre a chegada da vacina, o posicionamento negacionista em relação ao problema de saúde pública instaurado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, a quarentena e as relações sociais no período pandêmico.
Observe a Tirinha 3 a seguir.
Tirinha 3. Armandinho
Essa foi a primeira tirinha produzida pelo Alexandre Beck com alusão à Covid-19, publicada no Facebook em 1º de fevereiro de 2021. As tiras do autor variam em sua forma de dois a quatro quadrinhos, tendo majoritariamente três quadrinhos. A tirinha observada apresenta dois quadrinhos e retrata a situação de um bote afundando. Explicitamente, por meio da linguagem não verbal, ou seja, a utilização da máscara de proteção contra o vírus pelo Armandinho, é possível enquadrar a tirinha à temática da pandemia. Já na linguagem verbal, pode-se associar a situação retratada como uma metáfora para a necessidade de aplicação de vacinas para proteger a população, já que os especialistas em saúde apontavam que a solução para a crise sanitária (representada pelo bote afundando) era a aplicação de um maior número de vacinas (representadas pelos furos). O Armandinho traz em sua mão uma ferramenta perfurante e diz ao seu companheiro de bote que precisa fazer mais furos para a água sair. O autor representa a situação do país através da água, isto é, quanto mais furos (vacina), mais água (a doença) sai do bote. A tira é carregada de crítica ao governo quanto à ausência da vacinação, trazendo ao leitor, através de um tom cômico, o sentido de prevenção e cuidado com as questões pandêmicas.
Observe, agora, mais uma tirinha.
Tirinha 4. Armandinho
A Tirinha 4 é desenvolvida pelo autor em quatro quadrinhos e tem uma linguagem objetiva, concisa e simples, aspectos facilmente observados no desenvolver dos quadrinhos.
No primeiro quadrinho, o personagem menciona o panelaço, atitude da população que foi muito comum no período, para representar uma mobilização dos cidadãos brasileiros frente a não conformidade com o des(governo). Quanto mais críticas eram dirigidas ao ex-presidente, menos ele agia, deixando a população completamente desassistida, apesar da mobilização constante. É relevante destacar a importância da onomatopeia presente na terceira vinheta, representando o som de uma panela ao cair na cabeça do homem, significando a real situação das manifestações dos brasileiros, através do panelaço, frente ao descaso do governo. As tiras são fechadas em si mesmas, como destaca Mendonça (2005), e o sentido resolve-se dentro dele mesmo, ou seja, a situação é solucionada dentro da própria tira. A presença da onomatopeia faz com que a significação seja ampla e carregada de sentidos. Com isso, esse exemplo destaca o negacionismo, a falta de escuta da população pelo governo e a negligência estatal.
Vejamos mais um exemplo.
Tirinha 5. Armandinho
Na Tirinha 5, há uma crítica à ausência de leitos, à falta de vacinas e também à falta de habilidades socioemocionais como a empatia e a união. O autor consegue imprimir uma voz discursiva desse contexto por meio de um texto verbo-visual. A presença no primeiro quadro de uma máscara contra o vírus e no terceiro, de uma crítica ao comportamento dos vizinhos com os resíduos gerados. Uma temática trabalhada nas tiras, dentro e fora do contexto da pandemia da Covid-19, é a reciclagem, a compostagem orgânica e o comportamento humano frente aos resíduos produzidos por eles mesmos. O autor sempre traz à reflexão a necessidade de pensar ecologicamente. O cenário de pandemia no Brasil contribui para a obra do autor, destacando uma perspectiva de um coletivo que se encontra imerso em um acirramento da polarização política que se manifesta em todas as esferas da sociedade, inclusive na abordagem da preservação da vida humana durante uma crise sanitária, um momento em que, em teoria, essa contenda entre diferentes espectros políticos deveria ser relegada a um plano secundário.
Veja a Tirinha 6.
Tirinha 6. Armandinho
A Tirinha 6 imprime o sentimento de muitos brasileiros frente ao processo de aceitação e vivências durante o período pandêmico sob o reflexo de uma criança. A impaciência por permanecer em casa, por ter as relações sociais minimizadas ao passo do estreitamento do acesso aos espaços definiu e delimitou o comportamento das pessoas nesse momento de calamidade pública. As relações interpessoais foram restritas aos aparelhos eletrônicos e ao estar em casa por meio da quarentena.
Com o avanço dos casos e o sistema de saúde com alta demanda, foi necessária a quarentena, na qual as pessoas ficaram em casa para se isolar do contato com o vírus e tomando as medidas sanitárias possíveis. Esse momento na pandemia foi importante para reduzir o número de contaminação pelo vírus SARS-CoV-2, consequentemente diminuir a ocupação nos leitos nos hospitais, fortalecendo, assim, a proteção da saúde pública.
Tendo concluído a apresentação dos exemplos selecionados, passaremos às considerações finais.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presença das tirinhas do Alexandre Beck é perceptível nas redes sociais, nos livros didáticos de linguagens, nos jornais e nas revistas. Esse alcance traz uma relevância importante para o conteúdo temático e para o desenvolvimento das questões trabalhadas. No período pandêmico, sua produção soma-se em aproximadamente 40 tiras produzidas com a temática da Covid-19 e publicadas no Facebook do personagem.
O presente estudo investigou especificamente as tiras de Armandinho veiculadas durante o período pandêmico, analisando o gênero discursivo à luz da teoria bakhtiniana por meio da análise de seis tiras que abordaram questões pertinentes à crise de saúde pública representada pela pandemia de Covid-19; apontou-se, brevemente, a presença dos quadrinhos no contexto educacional, a partir de direcionamentos trazidos por documentos normativos como os PCNs (Brasil, 1998) e a BNCC (Brasil, 2018).
Acredita-se que as tiras de quadrinhos desempenham um papel crucial na promoção da leitura crítica e no desenvolvimento de leitores autônomos. Suas características distintas, como narrativas concisas e potencialidades multimodais permitem a criação de um ambiente dialógico complexo em que enunciados, palavras e imagens interagem dinamicamente. Essa interação não apenas enriquece a compreensão textual, mas também reflete e influencia o contexto sociocultural em que estão inseridas, mediando a relação entre linguagem, sociedade e o sujeito leitor.
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