REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778119983
RESUMO
As forças de caráter têm sido progressivamente reconhecidas como disposições psicológicas positivas associadas ao desenvolvimento humano saudável, à adaptação emocional e à promoção do bem-estar. No campo da Psicologia Positiva, esse construto ganhou destaque por permitir uma compreensão mais abrangente das potencialidades humanas, ultrapassando modelos centrados exclusivamente em déficits, sintomas e adoecimento. O presente estudo teve como objetivo analisar, na literatura científica, a relação entre forças de caráter e satisfação com a vida, identificando os principais achados empíricos, os contextos de investigação e as implicações psicológicas desse vínculo. Trata-se de uma revisão integrativa de literatura, desenvolvida a partir das etapas propostas por Mendes, Silveira e Galvão, com buscas realizadas nas bases SciELO, PePSIC, Biblioteca Virtual em Saúde e Portal de Periódicos CAPES. Foram adotados critérios de inclusão relacionados à pertinência temática, disponibilidade do texto completo, recorte temporal e aderência ao problema de pesquisa. Os estudos analisados indicam, de modo consistente, associação positiva entre forças de caráter e indicadores de bem-estar subjetivo, bem-estar psicológico, autorregulação emocional, projeto de vida e funcionamento adaptativo. Entre as forças mais frequentemente relacionadas à satisfação com a vida e ao florescimento destacam-se esperança, gratidão, amor, vitalidade, curiosidade, perdão, prudência e autorregulação. Conclui-se que o investimento no reconhecimento e desenvolvimento das forças de caráter representa estratégia relevante para a promoção da saúde mental, da qualidade de vida e do desenvolvimento integral em diferentes grupos populacionais.
Palavras-chave: forças de caráter; satisfação com a vida; bem-estar; psicologia positiva; revisão integrativa.
ABSTRACT
Character strengths have increasingly been recognized as positive psychological dispositions associated with healthy human development, emotional adjustment, and the promotion of well-being. In the field of Positive Psychology, this construct has gained prominence because it enables a broader understanding of human potential, going beyond models focused exclusively on deficits, symptoms, and illness. This study aimed to analyze, in the scientific literature, the relationship between character strengths and life satisfaction, identifying the main empirical findings, research contexts, and psychological implications of this association. This is an integrative literature review, developed based on the stages proposed by Mendes, Silveira, and Galvão, with searches conducted in the SciELO, PePSIC, Virtual Health Library, and CAPES Journal Portal databases. Inclusion criteria were related to thematic relevance, full-text availability, time frame, and adherence to the research problem. The studies analyzed consistently indicate a positive association between character strengths and indicators of subjective well-being, psychological well-being, emotional self-regulation, life purpose, and adaptive functioning. Among the strengths most frequently related to life satisfaction and flourishing are hope, gratitude, love, vitality, curiosity, forgiveness, prudence, and self-regulation. It is concluded that investing in the recognition and development of character strengths is a relevant strategy for promoting mental health, quality of life, and integral development in different population groups.
Keywords: character strengths; life satisfaction; well-being; positive psychology; integrative review.
1. INTRODUÇÃO
Durante muitos anos, grande parte da produção científica em Psicologia concentrou-se na investigação de transtornos, déficits, conflitos e fatores de risco, privilegiando uma lógica explicativa centrada no sofrimento psíquico e na reparação de danos. Embora esse movimento tenha sido essencial para o avanço do campo, ele não contemplava, com a mesma intensidade, as potencialidades, capacidades e recursos que também constituem a experiência humana. Nesse contexto, a Psicologia Positiva emerge como uma perspectiva comprometida com o estudo científico das virtudes, forças pessoais, emoções positivas, bem-estar e funcionamento ótimo.
Entre os construtos centrais dessa abordagem, destacam-se as forças de caráter, entendidas como traços positivos relativamente estáveis, expressos em pensamentos, sentimentos e comportamentos moralmente valorizados e potencialmente desenvolvíveis. A literatura internacional e nacional tem demonstrado que tais forças não representam apenas atributos desejáveis em nível abstrato, mas componentes concretos do funcionamento psicológico saudável, com repercussões importantes sobre adaptação, desempenho, relações interpessoais e qualidade de vida (PARK; PETERSON; SELIGMAN, 2006; REPPOLD; D’AZEVEDO; NORONHA, 2021).
A classificação mais difundida das forças de caráter organiza 24 forças agrupadas em seis virtudes amplas: sabedoria, coragem, humanidade, justiça, temperança e transcendência. Essa taxonomia vem sendo amplamente utilizada em estudos que buscam compreender como diferentes forças se associam a desfechos emocionais, cognitivos, sociais e existenciais. No contexto brasileiro, o tema ganhou robustez metodológica com investigações sobre a estrutura interna da Escala de Forças de Caráter, suas evidências de validade e suas relações com outros construtos psicológicos relevantes (NORONHA; BATISTA, 2020a; ROCHA et al., 2024).
Paralelamente, a satisfação com a vida constitui um dos principais indicadores do bem-estar subjetivo. Trata-se de um julgamento cognitivo global que o indivíduo realiza sobre a própria vida, a partir de critérios pessoais e do grau de congruência entre expectativas, valores e experiências concretas. Por essa razão, a satisfação com a vida não se reduz a estados emocionais passageiros, mas reflete uma avaliação mais ampla da existência e da própria trajetória (DIENER et al., 1985).
A aproximação entre forças de caráter e satisfação com a vida tem se mostrado particularmente fecunda, pois permite compreender de que maneira recursos internos positivos favorecem percepções mais adaptativas da vida, maior sentido existencial e melhor enfrentamento das adversidades. Estudos nacionais vêm mostrando correlações significativas entre forças de caráter e indicadores de bem-estar subjetivo, enquanto revisões recentes apontam que algumas forças aparecem repetidamente associadas ao florescimento e à saúde mental positiva, como esperança, gratidão, bondade, espiritualidade, amor e vitalidade (OLIVEIRA et al., 2016; BABOLIN; FUKUDA, 2024).
Diante desse cenário, o problema que orienta este estudo pode ser sintetizado na seguinte questão: como a literatura científica tem descrito a relação entre forças de caráter e satisfação com a vida? A resposta a essa pergunta é relevante não apenas do ponto de vista teórico, mas também clínico, educacional, organizacional e comunitário, uma vez que o reconhecimento dessas relações pode subsidiar intervenções mais preventivas, promocionais e centradas em recursos pessoais.
Assim, o objetivo deste artigo é analisar, por meio de revisão integrativa da literatura, as evidências científicas sobre a relação entre forças de caráter e satisfação com a vida, discutindo os principais achados empíricos, seus contextos de aplicação e suas implicações para a promoção do bem-estar.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA2.1. FORÇAS DE CARÁTER NO CAMPO DA PSICOLOGIA POSITIVA
2.1. Forças de Caráter no Campo da Psicologia Positiva
As forças de caráter ocupam posição central na Psicologia Positiva por representarem um deslocamento epistemológico importante: em vez de investigar apenas o que está comprometido no sujeito, busca-se também compreender aquilo que funciona bem, aquilo que sustenta a resiliência, a saúde e o florescimento. Nessa perspectiva, o sujeito não é concebido exclusivamente a partir de suas vulnerabilidades, mas também de seus recursos adaptativos, valores e capacidades.
Reppold, D’Azevedo e Noronha (2021) destacam que a avaliação das forças de caráter tem adquirido crescente importância justamente porque possibilita o reconhecimento sistemático de atributos positivos com utilidade prática para a saúde mental, a educação e a intervenção psicológica. Essa ampliação do foco avaliativo contribui para uma compreensão mais completa do funcionamento humano, permitindo identificar dimensões protetivas e promotoras de desenvolvimento.
No Brasil, a consolidação desse campo também passou pela qualificação dos instrumentos disponíveis. Noronha e Batista (2020a), ao analisarem a estrutura interna da Escala de Forças de Caráter, evidenciaram a relevância de se aprofundar a investigação psicométrica do construto. Mais recentemente, Rocha et al. (2024) apresentaram novas evidências de validade da escala, reforçando a consistência do instrumento e sua utilidade para a investigação científica em diferentes contextos populacionais.
Esse avanço metodológico é decisivo, porque permite que o estudo das forças de caráter deixe de ser apenas conceitual e passe a sustentar investigações empíricas mais robustas. Ao mesmo tempo, favorece a incorporação do construto em práticas aplicadas, tornando possível identificar perfis de forças predominantes, padrões relacionais com outros indicadores de saúde psicológica e possibilidades de intervenção baseadas em recursos pessoais.
2.2. Satisfação com a Vida e Bem-estar
A satisfação com a vida é um componente cognitivo do bem-estar subjetivo e expressa a apreciação global que o indivíduo faz da própria existência. Diferentemente de medidas exclusivamente emocionais, esse indicador envolve juízo reflexivo, comparação com metas pessoais e percepção de coerência entre o vivido e o desejado. Diener et al. (1985), ao desenvolverem a Satisfaction with Life Scale, ofereceram um marco importante para a mensuração desse construto, que passou a integrar inúmeros estudos nacionais e internacionais sobre qualidade de vida e saúde mental positiva.
Na literatura contemporânea, a satisfação com a vida é frequentemente analisada em interface com outras dimensões do bem-estar, como emoções positivas, sentido de vida, relações interpessoais saudáveis, propósito, engajamento e funcionamento psicológico positivo. Nesse sentido, as forças de caráter aparecem como variáveis explicativas relevantes, pois podem influenciar a forma como as pessoas interpretam eventos, enfrentam dificuldades, constroem vínculos e elaboram expectativas sobre o futuro.
Oliveira et al. (2016), em estudo de correlação com forças de caráter, demonstraram que há relação positiva entre esse construto e o bem-estar subjetivo. Tal achado é particularmente relevante porque indica que as forças não se limitam a traços desejáveis do ponto de vista moral, mas possuem efeitos psicológicos concretos sobre a percepção de felicidade e satisfação.
Além disso, a satisfação com a vida não deve ser entendida como experiência homogênea ou produzida por um único fator. Ela resulta da articulação entre aspectos individuais, relacionais, contextuais e existenciais. Nesse cenário, as forças de caráter funcionam como disposições que podem favorecer avaliações mais positivas da vida, maior capacidade de regulação emocional, maior engajamento com metas significativas e melhor qualidade das relações interpessoais.
3. MÉTODO
Este estudo caracteriza-se como revisão integrativa da literatura. A escolha desse método decorre de sua capacidade de reunir, sintetizar e interpretar resultados de pesquisas sobre um determinado tema, favorecendo uma compreensão ampla e crítica do estado do conhecimento. Para sua condução, adotaram-se as etapas propostas por Mendes, Silveira e Galvão (2008): identificação do tema e da questão norteadora; estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão; definição das informações a serem extraídas; avaliação dos estudos selecionados; interpretação dos resultados; e apresentação da síntese do conhecimento.
A questão norteadora definida foi: quais evidências científicas descrevem a relação entre forças de caráter e satisfação com a vida?
As buscas foram realizadas nas bases SciELO, PePSIC, Biblioteca Virtual em Saúde e Portal de Periódicos CAPES. Utilizaram-se, de forma combinada, descritores em português relacionados a “forças de caráter”, “satisfação com a vida”, “bem-estar”, “bem-estar subjetivo” e “psicologia positiva”. Como critérios de inclusão, consideraram-se: artigos disponíveis em texto completo; publicações em português, inglês ou espanhol; estudos empíricos e revisões diretamente relacionados ao tema; e materiais que abordassem explicitamente a relação entre forças de caráter e indicadores de satisfação com a vida ou bem-estar. Foram excluídos textos duplicados, materiais sem aderência ao problema de pesquisa e estudos que abordavam o construto de modo apenas tangencial.
Embora a ênfase analítica tenha recaído sobre produções mais recentes, foram mantidos no referencial teórico alguns estudos clássicos e estruturantes, especialmente aqueles referentes à definição de satisfação com a vida, à classificação das forças de caráter e à metodologia da revisão integrativa, por constituírem bases conceituais indispensáveis para a discussão.
Após leitura dos títulos, resumos e textos completos, os estudos elegíveis foram organizados segundo autoria, ano, população investigada, foco temático e principais achados. Em seguida, realizou-se análise descritiva e interpretativa do material, buscando identificar regularidades, convergências e contribuições para a compreensão da relação entre forças de caráter e satisfação com a vida.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A literatura analisada evidencia, de modo consistente, que as forças de caráter se associam positivamente a indicadores de bem-estar, satisfação com a vida e funcionamento psicológico adaptativo. Ainda que os estudos variem quanto ao delineamento, à população e aos instrumentos utilizados, observa-se uma convergência importante: indivíduos que reconhecem, valorizam e expressam mais intensamente determinadas forças tendem a apresentar avaliações mais positivas da própria vida.
Um dos estudos nacionais mais relevantes nessa discussão é o de Oliveira et al. (2016), que investigou a correlação entre bem-estar subjetivo e forças de caráter. Os resultados apontaram associação positiva entre os construtos, fortalecendo a hipótese de que essas forças funcionam como recursos psicológicos importantes para a vivência de emoções positivas e para julgamentos mais favoráveis sobre a vida. Esse achado é especialmente significativo porque ajuda a deslocar a compreensão do bem-estar de uma perspectiva exclusivamente circunstancial para uma abordagem que inclui disposições internas e recursos pessoais.
A revisão sistemática desenvolvida por Babolin e Fukuda (2024) reforça esse entendimento ao demonstrar que, na produção empírica recente sobre forças de caráter e bem-estar, algumas forças aparecem com maior recorrência em associação a desfechos positivos, especialmente gratidão, esperança, bondade, espiritualidade e entusiasmo. Tal resultado sugere que o vínculo entre forças de caráter e satisfação com a vida não é aleatório, mas tende a se concentrar em forças com forte conteúdo relacional, motivacional e transcendental. Em outras palavras, forças relacionadas à valorização do futuro, à apreciação da vida, ao vínculo com o outro e à experiência de sentido parecem exercer papel especialmente relevante para avaliações positivas da existência.
Esse padrão também aparece em grupos específicos. Freitas e Barbosa (2022), ao estudarem idosos da comunidade, verificaram que participantes com maior bem-estar psicológico e menos sintomas depressivos apresentavam maior endosso de forças como esperança, perdão, curiosidade, vitalidade e amor. O dado é particularmente importante porque evidencia que as forças de caráter mantêm relevância mesmo em fases da vida marcadas por mudanças biográficas, perdas, limitações funcionais e desafios ligados ao envelhecimento. Nesse grupo, as forças parecem atuar como recursos subjetivos capazes de favorecer ajustamento emocional e percepção mais satisfatória da própria trajetória.
No âmbito da juventude e do desenvolvimento vocacional, Hayashi, Souza e Noronha (2023) demonstraram relações entre forças de caráter, projeto de vida e autoeficácia para escolha profissional. Embora o foco do estudo não tenha sido exclusivamente a satisfação com a vida, os resultados indicam uma interface importante entre forças pessoais, sentido existencial e direcionamento de metas, elementos estreitamente vinculados ao bem-estar. Quando o indivíduo percebe suas potencialidades, vislumbra objetivos coerentes com seus valores e sente-se capaz de agir em direção a eles, há maior probabilidade de experienciar satisfação e coerência subjetiva.
Em crianças e pré-adolescentes, D’Azevedo et al. (2024) mostraram que o tema das forças de caráter pode ser apreendido de forma significativa mesmo em faixas etárias precoces. Esse resultado amplia o horizonte de compreensão do construto, sugerindo que o desenvolvimento de linguagem, consciência e intervenção em torno das forças pode começar cedo, contribuindo preventivamente para a construção de autoconceito positivo, repertório socioemocional e bem-estar ao longo da vida.
Outra contribuição importante emerge do estudo de Noronha e Batista (2020b), que analisou relações entre forças de caráter e autorregulação emocional em universitários brasileiros. Os autores verificaram que, com exceção da espiritualidade, todas as forças se associaram significativamente aos fatores de autorregulação emocional avaliados, com destaque para vitalidade e autorregulação. Esses achados ajudam a compreender um mecanismo possível para a associação entre forças e satisfação com a vida: pessoas com maior repertório de forças podem regular melhor emoções difíceis, responder de modo mais adaptativo a experiências negativas e, por consequência, construir avaliações mais estáveis e positivas sobre a própria existência.
Essa hipótese ganha sustentação adicional quando se consideram intervenções aplicadas. Wolff e Andretta (2023) avaliaram a eficácia de uma intervenção voltada à percepção das forças de caráter e ao bem-estar psicológico em profissionais de tecnologia da informação. Após a intervenção, observou-se aumento na percepção de forças como criatividade, prudência e sensatez, bem como incremento em dimensões do bem-estar psicológico, especialmente domínio do ambiente e autonomia. O estudo sugere que as forças não apenas se correlacionam com o bem-estar, mas podem ser mobilizadas de modo intencional em práticas interventivas, favorecendo mudanças psicológicas mensuráveis.
De forma complementar, Reppold, D’Azevedo e Noronha (2021) chamam atenção para a importância das estratégias de avaliação das forças de caráter, ressaltando que sua adequada mensuração é condição necessária para o avanço do campo. Sem instrumentos consistentes, as relações encontradas com bem-estar e satisfação com a vida tenderiam a permanecer frágeis ou inconclusivas. Assim, parte da maturidade atual da literatura decorre justamente do refinamento conceitual e psicométrico alcançado nos últimos anos.
No cenário brasileiro, esse amadurecimento pode ser observado também nas novas evidências de validade da Escala de Forças de Caráter apresentadas por Rocha et al. (2024). O fortalecimento dos instrumentos nacionais amplia as possibilidades de pesquisa em diferentes grupos etários, contextos institucionais e desenhos metodológicos, favorecendo análises mais precisas sobre quais forças se associam mais intensamente a determinados desfechos de bem-estar.
A partir do conjunto de estudos examinados, é possível afirmar que a relação entre forças de caráter e satisfação com a vida parece ocorrer por múltiplas vias. Em primeiro lugar, algumas forças favorecem interpretações mais construtivas da realidade, como ocorre com esperança e gratidão. Em segundo lugar, certas forças contribuem para melhor manejo emocional, como vitalidade, prudência e autorregulação. Em terceiro lugar, forças de natureza relacional, como amor, bondade e perdão, tendem a melhorar a qualidade dos vínculos interpessoais, aspecto central para a experiência de bem-estar. Em quarto lugar, forças de transcendência, como espiritualidade e apreciação da beleza, podem ampliar a percepção de sentido existencial. Todas essas vias, combinadas, ajudam a explicar por que indivíduos com maior reconhecimento e uso de forças de caráter tendem a relatar maior satisfação com a vida.
Entretanto, a literatura também indica a necessidade de cautela interpretativa. Nem todas as forças apresentam a mesma magnitude de associação com todos os indicadores de bem-estar, e as relações observadas podem variar conforme faixa etária, contexto cultural, instrumentos utilizados e delineamento do estudo. Além disso, grande parte das pesquisas ainda possui caráter correlacional, o que limita inferências de causalidade. Isso significa que, embora haja associação consistente entre forças de caráter e satisfação com a vida, ainda são necessários mais estudos longitudinais, experimentais e interventivos para esclarecer a direção e os mecanismos dessa relação.
Apesar dessas limitações, o panorama encontrado é suficientemente robusto para sustentar a relevância teórica e prática do tema. Em contextos clínicos, o reconhecimento das forças pode contribuir para intervenções menos centradas em déficits e mais orientadas ao fortalecimento de recursos internos. No campo educacional, pode favorecer desenvolvimento socioemocional, projeto de vida e autorregulação. Em organizações, pode subsidiar programas de saúde ocupacional, engajamento e bem-estar. Em ações comunitárias e gerontológicas, pode oferecer caminhos para promoção da saúde mental e envelhecimento positivo.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A revisão integrativa realizada permitiu identificar que a relação entre forças de caráter e satisfação com a vida é amplamente sustentada pela literatura analisada. Os estudos convergem ao demonstrar que o reconhecimento e a expressão de forças pessoais se associam a maiores níveis de bem-estar subjetivo, bem-estar psicológico, autorregulação emocional, propósito de vida e adaptação positiva em diferentes fases do desenvolvimento.
Entre as forças que mais frequentemente apareceram relacionadas a desfechos positivos destacam-se esperança, gratidão, amor, vitalidade, curiosidade, perdão, prudência, criatividade, bondade e autorregulação. Essas forças parecem atuar como recursos protetivos e promotores de saúde, influenciando tanto a forma como o indivíduo interpreta a própria vida quanto sua capacidade de enfrentar desafios, construir vínculos e manter engajamento com objetivos significativos.
Também se observou que o campo tem avançado não apenas em termos conceituais, mas metodológicos, especialmente com o aprimoramento das estratégias de avaliação e com a apresentação de novas evidências de validade para instrumentos brasileiros. Tal amadurecimento fortalece a credibilidade dos achados e amplia as possibilidades de aplicação prática do construto.
Conclui-se, portanto, que as forças de caráter constituem uma via promissora para a compreensão e promoção da satisfação com a vida. Mais do que qualidades abstratas, elas configuram disposições concretas com repercussões relevantes para a saúde mental e para o desenvolvimento humano. Recomenda-se que futuras pesquisas invistam em delineamentos longitudinais e interventivos, de modo a aprofundar a compreensão dos mecanismos pelos quais essas forças contribuem para a construção de vidas mais saudáveis, significativas e satisfatórias.
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1 Educadora Física, Palestrante, Autônoma. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
2 Docente do Centro Educacional Leila Ribeiro – CEDUC, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
3 Docente da Faculdade Cidade de Aparecida de Goiânia – FacCidade, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
4 Médico, Universidade Católica de Brasília, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
5 Médico, Centro Universitário do Estado do Pará – CESUPA, Brasília-DF, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
6 Enfermeira, Centro Universitário Alves Faria – UNIALFA, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
7 Farmacêutico-Bioquímico, Universidade Federal de Juiz de Fora, Brasília-DF, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
8 Docente da UniEVANGÉLICA – Universidade Evangélica de Goiás, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
9 Enfermeiro, Secretaria de Saúde do Distrito Federal – SES-DF, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
10 Enfermeira, Docente da UniEVANGÉLICA – Universidade Evangélica de Goiás, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
11 Acadêmica de Enfermagem, Universidade Evangélica de Goiás – UniEVANGÉLICA, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
12 Docente do Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos – UNICEPLAC, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.