REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/774382265
RESUMO
O Filho de Mil Homens apresenta uma narrativa sensível e profundamente humanizada sobre sujeitos marcados pela solidão, pelo abandono e pela busca por pertencimento. A trama acompanha personagens socialmente marginalizados que, ao longo da história, constroem vínculos afetivos não baseados em laços biológicos, mas na escolha, no cuidado e no reconhecimento mútuo, evidenciando a possibilidade de formação de novos arranjos familiares. A obra, inspirada no romance de Valter Hugo Mãe, permite uma importante reflexão acerca da homofobia, ao expor as violências simbólicas e sociais vivenciadas por sujeitos que não se enquadram nas normas tradicionais de gênero e sexualidade. Ao mesmo tempo, apresenta o afeto como elemento transformador, capaz de ressignificar trajetórias marcadas pela exclusão. Destaca-se, ainda, a relevância do filme ao problematizar o conceito de família, ampliando sua compreensão para além dos modelos convencionais, valorizando relações construídas pelo cuidado, pela empatia e pela convivência. Nesse sentido, trata-se de uma obra de suma importância, especialmente no contexto contemporâneo, por contribuir para o debate sobre diversidade, inclusão e respeito às diferenças, além de incentivar uma leitura mais sensível e acolhedora das múltiplas formas de existência humana. O presente artigo, elabora tal obra com a finalidade de sumariar os elementos acima apresentados.
Palavras-chave: Valter Hugo Mãe, Filho de Mil Homens, Homofobia, Família.
ABSTRACT
The Son of a Thousand Men presents a sensitive and deeply humanized narrative about individuals marked by loneliness, abandonment, and the search for belonging. The plot follows socially marginalized characters who, throughout the story, build affective bonds not based on biological ties, but on choice, care, and mutual recognition, highlighting the possibility of forming new family arrangements. Inspired by Valter Hugo Mãe's novel, the work allows for important reflection on homophobia, exposing the symbolic and social violence experienced by individuals who do not conform to traditional gender and sexuality norms. At the same time, it presents affection as a transformative element, capable of giving new meaning to trajectories marked by exclusion. Furthermore, the film stands out for its relevance in problematizing the concept of family, broadening its understanding beyond conventional models and valuing relationships built on care, empathy, and shared experiences. In this sense, it is a work of paramount importance, especially in the contemporary context, as it contributes to the debate on diversity, inclusion, and respect for differences, in addition to encouraging a more sensitive and welcoming reading of the multiple forms of human existence. This article elaborates on this work with the aim of summarizing the elements presented above.
Keywords: Valter Hugo Mãe, Son of a Thousand Men, Homophobia, Family.
INTRODUÇÃO
As plataformas fílmicas representam, em grande medida, realidades fantasiosas que servem como entretenimento dos mais variados públicos. Adorno; Horkheimer (1985) nos colocam que os filmes, sobretudo aqueles atrelados aos cinemas, devem ser lidos como produtos de uma indústria cultural específica e que, apesar disso, permitem a apreensão de realidades particulares por parte dos expectadores. Os autores ressaltam que quando um filme rompe com fórmulas já previamente estabelecidas e causa estranhamento ele tem perspectiva de estimular a consciência sobre uma série de situações e contradições que se expressam na realidade. Assim, o filme não deixa de ser um produto cultural, destinado a um público específico, mas, ainda assim possui uma conotação importante no sentido de conscientização, de reflexão crítica.
Obviamente que não são todos os filmes que possuem essa potência, mas, ultimamente temos visto que as películas têm avançado nesse sentido, ou seja, de compor peças que entretenham mas que sensibilizem, motivem a população. Dentre eles podemos citar o filme “O Filho de Mil Homens”, uma produção nacional que nos apresenta três personagens principais que possuem histórias de vida enredadas em um destino comum. Ao fazê-lo nos indica elementos associados a paternidade solo, aos preconceitos vividos por homens homoafetivos e por mulheres que decidem romper um relacionamento “formal”. Dessa forma, o filme se mostra como extremamente relevante por duplo viés: primeiro porque ele é uma produção nacional e segundo pelos termas que aborda.
A partir dos estudos dos autores do presente artigo houve o interesse em aprofundar o conhecimento sobre a obra citada através da elaboração do presente artigo. Isso porque há o interesse dos autores nas temáticas apresentadas no filme e também pelo fato de que o desejo por essa pesquisa, usando a fonte como estudo, também tem se configurado como um motivador para o desenvolvimento de pesquisas propostas. Dessa forma, o texto nos dá a saber sobre as questões de violência, de exclusão e segregação daquele que é diferente e nos apresenta a força do cinema e do cinema nacional nesse processo, ressaltando a relevância da arte nacional para a sociedade contemporânea.
Há que seja realizado um pequeno apontamento em relação a fonte usada. O filme é uma adaptação do livro escrito por Valter Hugo Mãe, um autor português8 que tem vários livros que apresentam tiragens exemplares. Nele o autor traz um contributo importante para a realidade social contemporânea. O filme atualmente está disponível na plataforma Netflix e foi indicado a vários prêmios como o reconhecimento da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) como um dos dez melhores filmes produzidos no ano de 2025 no país e em grande medida isso pode ser em decorrência do fato de a obra trabalhar temas sensíveis de uma maneira bastante acolhedora e afetiva. Consideramos assim que seja de grande relevância estudos que se aproximem de produções tão importantes socialmente tal como o que é proposto no presente texto.
No aspecto metodológico delimitamos por assistir ao filme e anotar todas as informações sobre o mesmo. Ao fazê-lo optamos por sua recomposição, ou seja, por recontar a história no presente manuscrito assim os leitores que porventura não conheçam a obra passarão a ter ciência da mesma. Por conseguinte, a recomposição ou resumo do livro será apresentada na parte inicial do texto. No item subsequente será realizada a análise de eixos da obra estudada visando a reflexão sobre os tópicos avistados sendo esses: a questão da paternidade, o tratamento conferido pela sociedade a homoafetividade e entendimento atribuído a fim dos relacionamentos, no caso, do casamento. Dessa forma é possível observar como a sociedade vê, percebe determinados fenômenos e eventos sociais.
APRESENTAÇÃO DA NARRATIVA: O FILHO DE MIL HOMENS
Rodrigo Santoro representa, no filme Filho de Mil Homens, o personagem Crisóstomo. Crisóstomo quando garoto teve sua mãe assassinada pois ela foi espancada e morta resultado de um crime de homofobia. A violência resultante da intolerância leva o garoto, que presenciou o corpo de sua mãe em praça pública, ferido e sem vida, a viver sozinho em uma caverna.
Violado pela violência homofobia que o fez órfão, sozinho e discriminado pela sua comunidade, descobre no grito emitido de frente para o mar alguma fonte de alívio da dor, sofrimento que beira a loucura. Crisóstomo também se apega a um boneco, sem nome, e de sorriso parado, e ao barulho das conchas; fontes, recursos, estratégias para sobreviver àquela condição. O boneco, feito por ele, permanece sempre sentado a beira do sofá ou em outros momentos em que Crisóstomo está só. Nesse sentido, há contextos em que o boneco fica alocado na cozinha quando o protagonista prepara suas refeições.
A violência resultante da homofobia o levou à solidão, e quando adulto Crisóstomo, um pescador, passa a distribuir bilhetes às pessoas informando que procura e deseja por um filho; até que, através de uma mulher ele recebe Camilo, também órfão, o garoto que precisava de um pai é recebido por Crisóstomo, que logo depois também acolhe Isaura e Antonino.
Crisóstomo se configura então figura parental de Camilo, ele alimenta e protege assim como contribuir para formação subjetiva saudável e livre de preconceitos quando assume um postura firme diante de crenças homofóbicas de Camilo dirigidas a Antonino, a cena apresenta importantes reflexões sobre o conceito de amor e a homofobia. Camilo, por sua vez, era filho de Francisca, uma mulher com nanismo e que morreu no parto do menino. Camilo foi criado por seu avô. É apresentado que o avô tem condições materiais e provê todas as necessidades do menino mas também é posto que em contextos que o avô acompanha o menino para compras em uma feria o mesmo é proibido de comprar um doce porque na barraca quem o vendia era uma pessoa trans. Assim, o avô e Camilo é extremamente preconceituoso. Em recorrência do seu falecimento, Camilo passa a residir com Crisóstomo.
A necessidade de vinculo, pertencimento, de presença, se mostra no filme através de várias personagens e Crisóstomo é aquele que coloca sua casa com lugar de possibilidade de lar, ele gera espaço de afeto e aceitação. Os quatro personagens, Crisóstomo, Camilo, Isaura e Antonino constinuem-se, ao longo do filme, em uma família, as relações entre eles são construídas com acolhimento; a fome e solidão são então substituídas por apego, suporte e vínculo, o preconceito e a exclusão em aceitação e respeito.
Em cada cena as condições do órfão, da mulher e da pessoa homoafetiva, de identidade de gênero dissidente, sofrem violências, preconceitos e exclusões em meio à comunidade afetada pelo patriarcado, pelo machismo, a homofobia e o capacitismo. A figura de Crisóstomo faz da obra não um drama, já que o personagem, seus diálogos e cenas, quebram crenças, reestruturam subjetividades, rompem a transgeracionalidade das violências.
Ao fim do filme, Crisóstomo não vive mais em solidão, ao contrário, concebe sua família, o personagem é impactante, provoca reflexão, expressa dores profundas e sofrimentos adoecedores provocados pelo meio violento em que vive; a obra é delicada, é doída e emociona. A história de Crisóstomo entrelaça com as dos demais personagens e apresenta como as relações se afetam mutuamente; como outros modos de ser família são possíveis e saudáveis e que a condição de família tradicional, binária, heteronormativa não é, por si só, condição que garanta vínculo, pertencimento, aceitação, segurança e respeito, para além das condições biológicas e instituídas socio-historicamente “Filho de Mil Homens” apresenta a formação humana como resultado de um conjunto de encontros e experiências com outros que se dispõe a amar, coloca que a dor, assim como a cura, não é individual mas coletiva é atravessada por outras pessoas e modos de ser.
A personagem Isaura é introduzida no filme aos 25:21, sob o olhar de Crisóstomo, que a observa pela janela. Todavia, é apenas no Capítulo IV "Os homens eram todos iguais, a diferença era coisa apenas das mulheres" que compreendemos realmente quem é aquela moça. Inicialmente, ela aparece sentada nas pedras à beira-mar, vestida de branco, presença que cativa o rapaz. Isaura é descrita como uma jovem sonhadora, poetisa e vaidosa, de longos cabelos cacheados. Na noite em que é cortejada pelo rapaz, veste um verde-claro com bordados delicados no busto, traje que ela utilizou na noite em que um rapaz a corteja em sua casa, pessoa na qual, sua mãe acreditava ser o ideal marido. No entanto, o marido idealizado a abandona e tempos depois ela se une a Antonino, homem gay que aceita o casamento tentando conseguir aceitação social.
Isaura possui uma mãe idealista, matriarcal e autoritária, que se utiliza de metáforas para aconselhar a filha sobre a vida; naquela ocasião considerada "especial e única", nem ao menos o cabelo a jovem pôde deixar solto. Para a jovem moça, existiam apenas duas vertentes sobre o amor: "o amor estraga tudo" ou "o amor é a espera"?. A relação de Isaura com essa mãe é apresentada como bastante atípica pois a mãe constantemente destaca a importância de que Isaura pudesse se casar. Casamento aqui apresentado e lido como uma possibilidade e alternativa para a provisão da mulher. Por conseguinte, casamento não é lido ou apresentado como algo que associe a amor, mas sim, a sobrevivência feminina. A mãe de Isaura adoece , permanece acamada por um certo período e chega falecer. Há uma ideia de que a morte de sua genitora funcione como um período de libertação da personagem que agora acaba ficando mais livre dessa influência.
Diante das incertezas e permeada pelas crendices e conselhos maternos, Isaura segue o fluxo do momento e o instinto da própria natureza no auge da juventude. Movida pela curiosidade sobre o desconhecido, ela ignora os caminhos preestabelecidos, visto que seus sentimentos e vontades são reprimidos dentro da própria casa. Com um pai de voz silenciosa e também subjugado. A quem recorrer? A moça, então, torna-se "mulher", seja pelo medo ou pela promessa de casamento. Logo após, tenta "lavar-se" na esperança de recuperar a “pureza” perdida; porém, o amargor se completa com a descoberta da mãe e sua reação implacável: mais preconceito e nenhum acolhimento.
Marcando uma nova fase, Isaura guarda seu caderno de escritos e corta o cabelo longo; surge agora alguém coberta de tristeza e luto, perceptível pela utilização das cores escuras em suas vestimentas e o cabelo preso. Forçada pela mãe a um casamento de conveniência, ela vivencia novamente a rejeição, pois seu noivo também fora obrigado à união. Mais adiante, ocorre o reencontro com Crisóstomo na praia e o convite para visitá-lo. Pela primeira vez, a personagem sente-se incluída.
O verde começa a reaparecer em sua vida: sentada no sofá, ela usa um vestido da mesma cor de sua juventude, embora ainda mantenha os braços cobertos por um agasalho. Como diz Umberto Eco: "O vestuário é comunicação" (1970,p. 81).. Percebemos que a personagem inicia uma transformação interna através da gentileza do rapaz, embora ainda permaneça cercada de medos. A presença do cuidado e do afeto permite que Isaura se liberte dos estigmas do passado. Finalmente, vemos a personagem com os braços à mostra e cabelos soltos, abandonando o verde-claro simples por um vestido verde-escuro, de tecido sofisticado e traços marcantes, para ir ao encontro de seu verdadeiro amor, vivenciando essa nova fase de maturidade.
Ao final, encontramos Isaura em total plenitude. Ela ressurge em um novo tom de verde, mais moderno e vibrante, adornado com flores e bordados que remetem à delicadeza de sua juventude. O detalhe das alças, deixando os braços à mostra, simboliza a queda definitiva de suas armaduras e repressões. Vestida de sua própria essência, ela se entrega a um abraço afetivo e acolhedor, celebrando o encontro com sua verdadeira família. Nesse momento, a família já está composta por Crisóstomo, Isaura, Camilo e Antonino, apresentando assim uma configuração nada usual e convencional.
AS REPRESENTAÇÕES CONFERIDAS SOBRE HOMOAFETIVIDADE, SOBRE A PATERNIDADE E SOBRE O DIVÓRCIO
Ao longo do filme, o espectador pode ser levado a acreditar que a história terá um desfecho mais tradicional, baseado em um modelo familiar clássico. Esse momento ocorre, por exemplo, quando a mulher aparece na praia vestida de branco, logo após a criança dizer que quer um pai e uma mãe. Após isso, é fácil imaginar que a história será conduzida para esse tipo de encerramento. Essa expectativa ocorre de maneira bastante comum no imaginário social, onde a ideologia de família está associada ao modelo heteronormativo.
A história social e cultural do país, faz com que as pessoas ainda esperem que a família seja formada por um homem e uma mulher em um relacionamento conjugal monogâmico e com filhos biológicos. Isso faz com que outras formas de organização familiar sejam menos reconhecidas e muitas vezes deslegitimadas socialmente. Lane (2017) nos fala que nossa inserção no mundo nos faz estabelecer construções subjetivas a respeito da realidade, formando conceitos sobre os mais vários fenômenos sociais. É por isso que, subjetivamente por haver essa idealização quanto a composição de uma família.
No entanto, no filme, a família que é constituída no final rompe com essas expectativas e apresenta uma relação construída baseada em cuidado, confiança e pertencimento onde a formação de vínculo se desprende dessas normas sociais rígidas, incorporando a essa dinâmica sociofamiliar Antonino. Antonino é apresentado como um rapaz homoafetivo com quem Isaura fora casada. O próprio casamento de Isaura aconteceu sob circunstâncias específicas: ela fora abandonada pelo primeiro relacionamento e buscava nesse segundo casamento, uma união que a resguardasse da sociedade. Já Antonino, por ser homoafetivo, buscava adesão e aceitação social.
Quanto a Antonino o mesmo é retratado como um menino criado pela mãe e que sempre apresentou comportamento criticado por amigos e vizinhos que transitavam pelo espaço familiar. É destacado, aliás, que uma amiga da mãe de Antonio chega até a propor para que a mãe abandone o menino ou lhe corrija uma vez que o mesmo é considerado “anormal”. Naquele contexto a mãe se coloca contrária a proposta mas começa a desenvolver um grande esforço para que o filho possa contrair um casamento com uma mulher.
O final emocionante do filme, convida o espectador a repensar todas as concepções sobre o que é família e mostra que os laços que realmente sustentam uma boa convivência familiar não dependem necessariamente de estruturas previamente programadas, mas baseadas em afeto entre as pessoas. Lane (2017) nos coloca que subjetivamente estabelecemos essas construções pautadas na cultura de uma determinada sociedade e considerando um tempo histórico específico. Assim, temos em nós essa perspectiva já estruturada e enraizadas de que a família deve ser composta de forma heteronormativa. O filme, brinca com essa percepção mas vai orientando a narrativa para outra forma de compreender e entender a composição das famílias.
A paternidade buscada por Crisóstomo foge ao padrão instituído como família convencional. No filme O Filho de Mil Homens, a história de vida de Crisóstomo, interpretado por Rodrigo Santoro, nos faz refletir sobre o que realmente significa formar uma família hoje. Sua busca por um filho foge do padrão tradicional que a sociedade atual estabelece como família, aquele modelo rígido baseado apenas no sangue, na figura do pai provedor e na estrutura biológica. Crisóstomo traz essa lógica ao mostrar que a paternidade não é um destino genético, mas uma escolha. No sentido posto, é bastante importante e representativa a história de Crisóstomo uma vez que destaca um novo arranjo sociofamiliar realizado pois nessa composição não é necessária a existência da mulher. Como sabemos, conforme também pactua Lane (2017) os modelos sociofamiliares não são estanques e sofrem alterações da realidade social e cultura presente nos mais variados momentos e contextos.
Essa mudança de perspectiva apresentada reflete as transformações das famílias. No dia a dia, vemos isso acontecer o tempo todo: é o padrasto que assume a criação do enteado com todo o amor, a avó que faz o papel de mãe, ou aquele vizinho que se torna a referência paterna de uma criança solitária. Assim como Crisóstomo, essas pessoas provam que o papel de pai ou mãe pertence a quem se dispõe a cuidar, proteger e orientar. Lane (2017) nos orienta que a delimitação de papéis sociais é estruturada nas famílias, espaço esse de socialização primária dos seres humanos. Nesse sentido, há a possibilidade de a estruturação de figuras de referência, na socialização primária, apresentar para a criança outros formatos para além dos convencionais. De acordo com a autora a compreensão a criança sobre a organização das estruturas parentais, a adoção de normas é estruturada a partir do vínculo, da afetividade, não demandando, para isso, um dado sexo biológico de nascimento. Por conseguinte, a obra retrata essa possibilidade, de construção de novas figuras de referência.
Ao acolher Camilo, Crisóstomo não apenas oferece uma casa, mas constrói um ambiente de segurança, cuidado e diálogo. Um dos pontos mais impactante é quando ele usa sua posição para educar Camilo contra o preconceito, ensinando-o a respeitar antonino. Esse gesto demonstra que a paternidade moderna é, acima de tudo, uma função ética e de respeito. Ele não quer apenas "ter" um filho; ele quer formar um ser humano melhor, baseando essa relação na empatia e no respeito à diversidade.
A união que se forma entre Crisóstomo, Camilo, Isaura e Antonino é o retrato de uma "família de escolha". Ela demostra que a composição familiar atual é plural e não cabe mais em moldes únicos. Seja em famílias monoparentais, recompostas ou socioafetivas, o que define o pertencimento não é mais os laços de sangue ou um papel de cartório, mas a força do vínculo e a responsabilidade assumida. O filme um lembrete de que família é uma escolha , onde o cuidado cria raízes e onde o afeto decide morar. A experiência apresentada destaca, nos termos e Lane (2017) que a organização de famílias é cultural, e, histórica. Conforme as normas sociais vão sendo alteradas, a forma de compor as famílias também muda. Como a sociedade poderia compreender e ler esses novos arranjos?. Esse é o desafio que se torna presente e recorrente no sentido de não julgar e criminalizar esses novos arranjos.
CONCLUSÃO
A partir da análise realizada, é possível perceber que O Filho de Mil Homens se destaca como uma obra que tensiona diretamente os padrões normativos da sociedade, principalmente no que diz respeito à heteronormatividade e à ideia tradicional de família. Ao apresentar personagens marcados pela dor, pela exclusão e por diferentes formas de preconceito, a obra constrói, gradualmente, um espaço em que o afeto se sobrepõe às rígidas normas sociais.
Considerando a perspectiva da indústria cultural e conforme discutido por Adorno e Horkheimer (1985), o filme busca a reflexão crítica ao provocar estranhamento em vez de ser algo meramente para o entretenimento. A trajetória de Crisóstomo e dos demais personagens demonstra que é possível romper com ciclos de violência. Além disso, aponta para a construção de novas formas de existência coletiva baseadas na aceitação e no acolhimento. Esse movimento evidencia o potencial do cinema nacional como instrumento de conscientização social, capaz de abordar temáticas sensíveis de maneira acessível e humanizada.
Com isso, fica evidente o papel do cinema enquanto ferramenta potente de transformação social, especialmente quando se propõe a dar visibilidade a experiências marginalizadas. A obra analisada emociona e provoca deslocamentos importantes no olhar do espectador, o que contribui para uma compreensão mais plural e sensível da sociedade. Por isso, é necessário ampliar o olhar sobre as múltiplas formas de ser família, reconhecendo que a diversidade não é exceção, mas parte constitutiva da realidade contemporânea.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
ECO, U. O hábito fala pelo monge. In: ECO, U. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 1970.
LANE, S. T. M. O que é psicologia social. São Paulo: Brasiliense, 2017.
MINAYO, M. C. de S.(Org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.
Fontes
O FILHO DE MIL HOMENS. Direção: Daniel Rezende. Brasil: Biônica Filmes, 2025. 1 filme (126 min).
1 Psicóloga Clínica, psicóloga do SUAS, Mestre em Educação pela Unesp de Marília. E-mail: [email protected]
2 Docente do Curso Superior de Psicologia do Instituto de Ciências Humanas da UNIP, Campus Assis. Mestre em Psicologia pela Unesp de Assis, Mestre em História pela Unesp de Assis e Doutora em História pela Unesp de Assis. E-mail: [email protected]
3 Assistente social do CEIV Vicentino Casa da Criança Dom Antônio José dos Santos. Graduada em serviço social pela Unopar Assis , pós graduada em gestão do SUAS pela Unopar Assis e MBA em gestão de pessoas pela faculdade São Braz. E-mail :[email protected]
4 Docente de Língua Portuguesa da Escola Técnica Augusto Tortolero Araújo. Graduada em Letras pela Unesp de Assis, Graduada em pedagogia pela UNIMAR de Marília e pós-graduada em Linguística Aplicada e Ensino de Línguas pela UFMS. E-mail: [email protected]
5 Graduanda em Psicologia na Universidade Paulista de Assis. E-mail: [email protected]
6 Psicóloga atuante na clínica de reabilitação neurofuncional Neurotherapy em Assis - SP. E-mail: [email protected]
7 Graduanda em Psicologia na Universidade Paulista de Assis. E-mail: [email protected]
8 Disponível em https://www.fronteiras.com/descubra/pensadores/exibir/valter-hugo-mae. Acesso: 10 de fev. 2025.