ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL: IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA PEDAGÓGICA E A FORMAÇÃO DO PEDAGOGO

SUPERVISED CURRICULAR INTERNSHIP IN THE EARLY YEARS OF ELEMENTARY EDUCATION: IMPLICATIONS FOR PEDAGOGICAL PRACTICE AND TEACHER EDUCATION

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777082189

RESUMO
Este artigo analisa o estágio curricular supervisionado como componente formativo central na constituição da prática pedagógica e da identidade profissional do pedagogo nos anos iniciais do ensino fundamental. O estudo parte da compreensão de que o estágio se configura como espaço privilegiado de articulação entre os conhecimentos teóricos construídos na formação inicial e as experiências vivenciadas no cotidiano escolar. Adota-se uma abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, fundamentada em autores clássicos da educação e em documentos normativos que orientam a formação docente no Brasil. A análise evidencia que o estágio supervisionado favorece processos reflexivos sobre o trabalho docente, contribuindo para a compreensão da prática pedagógica como ação ética, social e historicamente situada. Os resultados também apontam a centralidade da mediação pedagógica exercida pelo professor colaborador e as limitações institucionais que atravessam a organização do estágio. Conclui-se que o estágio curricular supervisionado, quando integrado ao currículo e acompanhado por supervisão qualificada, desempenha papel estruturante na formação do pedagogo, fortalecendo a compreensão crítica da docência nos anos iniciais do ensino fundamental.
Palavras-chave: Estágio curricular supervisionado; Formação docente; Prática pedagógica.

ABSTRACT
This article analyzes the supervised curricular internship as a central formative component in the constitution of pedagogical practice and the professional identity of pedagogues in the early years of elementary education. The study is grounded in the understanding that the internship constitutes a privileged space for articulating theoretical knowledge developed in initial teacher education with experiences lived in the school context. A qualitative approach of a bibliographic and documentary nature is adopted, drawing on classical authors in the field of education and on normative documents that guide teacher education in Brazil. The analysis indicates that the supervised internship promotes reflective processes regarding teaching work, contributing to the understanding of pedagogical practice as an ethical, social, and historically situated action. The findings also highlight the central role of pedagogical mediation carried out by the cooperating teacher, as well as the institutional limitations that affect the organization of the internship. It is concluded that the supervised curricular internship, when integrated into the curriculum and supported by qualified supervision, plays a structuring role in the education of pedagogues, strengthening a critical understanding of teaching in the early years of elementary education.
Keywords: Supervised curricular internship; Teacher education; Pedagogical practice.

1. INTRODUÇÃO

A formação inicial do pedagogo tem sido amplamente discutida no campo educacional, sobretudo quando se considera o papel central que esse profissional assume nos anos iniciais do ensino fundamental. Nessa etapa, o professor atua diretamente na alfabetização, na construção de conhecimentos básicos e no desenvolvimento social das crianças. Por isso, o estágio curricular supervisionado aparece como um momento-chave da graduação, pois aproxima o estudante da realidade concreta da escola. É no estágio que muitos futuros professores têm o primeiro contato sistemático com a docência. Esse contato costuma provocar expectativas, inseguranças e descobertas que marcam profundamente a identidade profissional. Autores como Pimenta e Lima (2018) destacam que o estágio não deve ser visto como simples cumprimento de carga horária, mas como espaço formativo essencial.

Ao tratar do estágio supervisionado, é importante compreender que ele se insere em um contexto de relações sociais, institucionais e pedagógicas bastante complexas. A escola não é um ambiente neutro, pois carrega valores, normas, rotinas e conflitos que influenciam o trabalho docente. André (2009) aponta que a prática escolar precisa ser analisada a partir de uma perspectiva que considere o cotidiano e os significados atribuídos pelos sujeitos que nela atuam. Nesse sentido, o estagiário passa a observar, participar e refletir sobre situações reais de ensino e aprendizagem. Essas experiências permitem compreender a docência para além do que está prescrito nos documentos oficiais. Assim, o estágio se constitui como espaço de aprendizagem situada e contextualizada.

A legislação educacional brasileira reconhece a importância da articulação entre teoria e prática na formação docente. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelece princípios que orientam os cursos de licenciatura, reforçando a necessidade de práticas formativas ao longo do percurso acadêmico (Brasil, 1996). As Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Pedagogia também enfatizam o estágio como componente obrigatório e estruturante da formação profissional (Brasil, 2006). Mais recentemente, a Resolução CNE/CP nº 4/2024 reafirma essa centralidade ao propor ajustes na organização da formação inicial (Brasil, 2024). Esses documentos indicam que o estágio deve promover reflexão crítica e aproximação efetiva com a realidade escolar. Contudo, a existência de normativas não garante, por si só, a qualidade das experiências vivenciadas.

Nos anos iniciais do ensino fundamental, a prática pedagógica envolve desafios específicos relacionados às características da infância e às demandas curriculares. O professor precisa lidar com turmas heterogêneas, diferentes ritmos de aprendizagem e múltiplas formas de expressão das crianças. A Base Nacional Comum Curricular define competências e habilidades que orientam o trabalho docente nessa etapa, influenciando diretamente as práticas observadas pelos estagiários (Brasil, 2018). Muitas vezes, o futuro pedagogo encontra uma distância significativa entre o que estuda na universidade e o que observa na escola. Essa distância pode gerar frustração ou reprodução acrítica de práticas já estabelecidas. Por isso, o estágio precisa ser acompanhado de processos reflexivos consistentes.

A relação entre o estagiário, o professor colaborador da escola e o supervisor da universidade é outro aspecto central nesse processo formativo. Pesquisas indicam que o professor colaborador exerce papel fundamental na mediação entre teoria e prática, orientando e acolhendo o estudante no cotidiano escolar (Cyrino, Benites, Souza Neto, 2015). No entanto, nem sempre esse professor recebe formação específica para atuar como formador. Em muitos casos, a supervisão ocorre de forma improvisada, dependendo da boa vontade e da experiência individual do docente. Essa realidade pode limitar as possibilidades formativas do estágio. Ainda assim, quando há diálogo e parceria, o estágio se torna uma experiência potente de aprendizagem profissional.

Do ponto de vista pedagógico, o estágio também é espaço de construção de saberes docentes relacionados à didática e à organização do trabalho pedagógico. Aroeira e Pimenta (2018) defendem que o estágio deve estar integrado às disciplinas do curso, evitando a fragmentação entre conteúdos teóricos e práticas escolares. Essa integração permite que o estudante compreenda o sentido do planejamento, da avaliação e da mediação pedagógica. Além disso, favorece o desenvolvimento de uma postura investigativa sobre a própria prática. O estágio, portanto, pode contribuir para que o futuro professor desenvolva autonomia e senso crítico. Essa perspectiva se aproxima da concepção freireana de formação docente.

Paulo Freire destaca que ensinar exige reflexão permanente sobre a prática e compromisso ético com os educandos (Freire, 1996). Para o autor, a formação do professor não se encerra na aquisição de técnicas, mas envolve consciência política, diálogo e respeito à autonomia dos alunos. Em obras posteriores, Freire (2021) reforça a valorização da identidade profissional docente e a rejeição de práticas que desqualificam o trabalho do professor. Essas ideias dialogam diretamente com o estágio supervisionado, que pode fortalecer ou fragilizar essa identidade em construção. Quando o estágio é reduzido à observação passiva, perde-se seu potencial formativo. Quando é vivido de forma crítica, amplia-se a compreensão da docência como prática social transformadora.

Diante desse cenário, torna-se relevante discutir os desafios e as possibilidades do estágio curricular supervisionado na formação do pedagogo para os anos iniciais do ensino fundamental. Este artigo propõe refletir sobre como o estágio pode contribuir para a construção de práticas pedagógicas mais conscientes e contextualizadas. Busca-se articular contribuições teóricas e normativas que ajudem a compreender esse processo formativo. Ao dialogar com autores como Pimenta, André e Freire, pretende-se evidenciar a importância do estágio como espaço de aprendizagem profissional. Também se reconhecem os limites impostos pelas condições institucionais das escolas e dos cursos de formação. Ainda assim, aposta-se no estágio como lugar privilegiado de reflexão, aprendizagem e construção da identidade docente.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A A formação inicial do pedagogo tem sido amplamente debatida na literatura educacional, especialmente quando se analisa o papel do estágio curricular supervisionado na construção da prática pedagógica. Esse componente formativo aparece como espaço privilegiado de aproximação entre universidade e escola, permitindo ao estudante vivenciar situações reais de ensino. A legislação educacional brasileira reconhece essa centralidade ao estabelecer diretrizes que reforçam a articulação entre teoria e prática ao longo da formação docente (Brasil, 1996). As Diretrizes Curriculares do curso de Pedagogia também reafirmam o estágio como elemento estruturante do currículo, destacando sua função formativa e reflexiva (Brasil, 2006). Mais recentemente, a Resolução CNE/CP nº 4/2024 reforça a necessidade de experiências práticas qualificadas na formação inicial (Brasil, 2024). Nesse cenário, o estágio se consolida como eixo fundamental da profissionalização docente.

A literatura sobre formação inicial e estágio aponta que a prática pedagógica não se reduz à aplicação de receitas técnicas. Ao contrário, ela demanda mediação constante entre saberes teóricos, saberes construídos na prática e as condições concretas do trabalho escolar. Paulo Freire enfatiza que o ato de ensinar envolve responsabilidade ética, compromisso político e reflexão permanente sobre a prática educativa (Freire, 1996). Para o autor, a formação docente deve estimular a autonomia crítica e o respeito à experiência dos educandos, elementos que se constroem no contato direto com a realidade escolar. Em obras posteriores, Freire reafirma a valorização da identidade profissional do professor e a necessidade de reconhecer o ensino como prática social (Freire, 2021). Essas ideias ajudam a compreender o estágio como momento de formação integral. Assim, o estágio passa a ser visto como espaço de reflexão e construção da identidade docente.

A etnografia da prática escolar, conforme desenvolvida por André, contribui de forma significativa para a compreensão do cotidiano escolar. A autora propõe que a prática pedagógica seja analisada a partir das interações, das rotinas e dos significados produzidos pelos sujeitos da escola (André, 2009). Essa abordagem permite que o estagiário desenvolva um olhar atento e sensível para além das aparências. Situações recorrentes em sala de aula passam a ser interpretadas como expressões de culturas escolares específicas. O estágio, nessa perspectiva, deixa de ser apenas observação passiva. Ele se transforma em espaço de investigação e análise crítica da prática. Essa vivência favorece a construção de saberes profissionais contextualizados.

No campo da didática e dos estudos sobre estágio, autores como Aroeira e Pimenta defendem que o estágio deve estar integrado ao currículo do curso de Pedagogia. Para essas autoras, não faz sentido pensar a prática dissociada das disciplinas teóricas que fundamentam o trabalho docente (Aroeira, Pimenta, 2018). Essa integração permite ao estudante compreender o sentido pedagógico das ações realizadas na escola. Pimenta e Lima reforçam que o estágio deve ser concebido como eixo articulador da formação docente, promovendo reflexão sistemática sobre a prática (Pimenta, Lima, 2018). Sem essa articulação, o estágio tende a se tornar atividade burocrática. Quando bem estruturado, ele amplia as possibilidades formativas. Dessa forma, contribui para a constituição de professores mais críticos e conscientes.

As pesquisas empíricas sobre estágio supervisionado evidenciam ainda o papel central do professor colaborador no processo de formação inicial. Cyrino, Benites e Souza Neto apontam que esse profissional atua como mediador entre universidade e escola, influenciando diretamente a aprendizagem da docência (Cyrino, Benites, Souza Neto, 2015). No entanto, os autores ressaltam que muitos professores colaboradores não recebem formação específica para exercer essa função. Além disso, o reconhecimento institucional desse papel ainda é limitado. Essas condições acabam impactando a qualidade da supervisão oferecida aos estagiários. Apesar desses desafios, a relação colaborativa pode fortalecer o processo formativo. Assim, evidencia-se a importância de políticas que valorizem essa atuação.

O estágio também pode ser compreendido como espaço de aprendizagem profissional da docência. Castro e Salva destacam que a experiência do estágio possibilita ao estudante compreender a complexidade do trabalho docente e desenvolver competências relacionadas ao planejamento, à mediação pedagógica e à avaliação (Castro, Salva, 2012). Essa vivência contribui para que o futuro pedagogo reflita sobre suas escolhas pedagógicas. O estágio permite experimentar, errar, repensar e reconstruir práticas. Esse movimento é fundamental para a formação profissional. Ao viver o cotidiano escolar, o estagiário amplia sua compreensão sobre o papel do professor. Assim, o estágio se consolida como espaço formativo essencial.

No que se refere à prática pedagógica nos anos iniciais, a Base Nacional Comum Curricular exerce influência direta sobre o trabalho docente. Ao definir competências e habilidades, a BNCC orienta as práticas observadas e desenvolvidas pelos estagiários nas escolas (Brasil, 2018). Esse documento demanda do professor sensibilidade para lidar com a diversidade e com os diferentes ritmos de aprendizagem. Nesse contexto, o estágio permite ao futuro pedagogo compreender os desafios da implementação curricular. Ele aprende a relacionar objetivos de aprendizagem com práticas concretas. Essa experiência favorece uma compreensão mais ampla da docência nos anos iniciais. O estágio, portanto, aproxima formação inicial e demandas curriculares.

A dimensão da inclusão escolar também aparece de forma recorrente no debate sobre formação docente. Padilha e Oliveira destacam que a escola contemporânea precisa responder à diversidade de sujeitos e contextos, o que exige práticas pedagógicas inclusivas e sensíveis às diferenças (Padilha, Oliveira, 2013). Durante o estágio, o futuro pedagogo se depara com essa realidade e precisa refletir sobre suas próprias concepções de ensino. Essa vivência contribui para o desenvolvimento de uma postura ética e comprometida com a educação para todos. O estágio se torna espaço de aprendizagem sobre inclusão na prática. Assim, amplia-se a compreensão do papel social do professor. Essa dimensão é fundamental para a formação do pedagogo.

Por fim, autores como Ostetto ampliam o olhar sobre a prática pedagógica ao enfatizar os encontros, os afetos e as experiências que atravessam o cotidiano escolar. Para a autora, educar envolve relações humanas que marcam professores e alunos, indo além da transmissão de conteúdos (Ostetto, 2000). Essa perspectiva contribui para que o estagiário compreenda a docência como prática relacional. Durante o estágio, o futuro professor vivencia situações que exigem escuta, sensibilidade e empatia. Essas experiências influenciam diretamente sua formação profissional. O estágio supervisionado, portanto, se configura como espaço de formação técnica, ética e humana. Essa compreensão reforça sua importância na formação do pedagogo.

3. METODOLOGIA

A presente investigação fundamenta-se em uma abordagem qualitativa, uma vez que busca compreender sentidos, concepções e construções teóricas relacionadas à formação docente e ao estágio supervisionado. Conforme assinala Gil (2019), a pesquisa qualitativa é particularmente adequada quando o objetivo central não reside na mensuração de fenômenos, mas na interpretação aprofundada de processos sociais e educacionais. Nessa perspectiva, privilegia-se a análise do conteúdo teórico e normativo que estrutura o campo investigado. Tal escolha metodológica permite examinar criticamente as concepções de estágio e formação inicial presentes na literatura especializada. Ademais, favorece a articulação entre diferentes tradições teóricas que dialogam com a prática pedagógica. Assim, a abordagem adotada revela-se consistente com a natureza do problema de pesquisa.

Do ponto de vista dos procedimentos técnicos, trata-se de uma pesquisa bibliográfica e documental. A pesquisa bibliográfica, segundo Gil (2019), desenvolve-se a partir de material já elaborado, constituído principalmente por livros, artigos científicos e produções acadêmicas consolidadas. Foram selecionadas obras clássicas e contemporâneas do campo da educação, da didática e da formação de professores, com especial atenção aos estudos sobre estágio supervisionado. Esse levantamento permitiu mapear conceitos, categorias analíticas e debates recorrentes na área. A pesquisa documental, por sua vez, contemplou a análise de legislações, diretrizes curriculares e documentos normativos que regulamentam a formação docente. Tais fontes foram consideradas essenciais para compreender o enquadramento institucional do estágio.

O processo de seleção das fontes seguiu critérios de relevância temática, reconhecimento acadêmico dos autores e recorrência de citação na literatura da área. Conforme orienta Gil (2019), a definição criteriosa das fontes é condição fundamental para garantir a consistência teórica e metodológica do estudo. Nesse sentido, priorizaram-se autores clássicos da educação, como Freire, Pimenta e Saviani, bem como pesquisadores reconhecidos no campo da didática e do estágio supervisionado. Paralelamente, foram incluídos estudos empíricos que problematizam a relação entre universidade e escola. Essa estratégia permitiu contemplar tanto abordagens teóricas quanto análises ancoradas na prática educacional. O corpus teórico, portanto, foi constituído de modo intencional e sistemático.

A análise do material coletado baseou-se em leitura analítica e interpretativa das fontes selecionadas. De acordo com Gil (2019), esse procedimento implica identificar ideias centrais, categorias recorrentes e pressupostos teóricos subjacentes aos textos examinados. A leitura foi acompanhada de fichamentos analíticos, que possibilitaram o registro de conceitos-chave e de argumentos relevantes para o problema investigado. Posteriormente, realizou-se o cotejo entre diferentes autores e documentos, buscando convergências, tensões e lacunas interpretativas. Esse movimento analítico favoreceu a construção de sínteses teóricas críticas. Dessa forma, evitou-se uma abordagem meramente descritiva da literatura.

A síntese resultante do processo analítico teve como objetivo articular evidências teóricas e normativas relacionadas à formação docente por meio do estágio supervisionado. Conforme destaca Gil (2019), a etapa de síntese é fundamental para transformar informações dispersas em conhecimento sistematizado. Assim, buscou-se identificar desafios recorrentes apontados pela literatura, tais como a fragmentação entre teoria e prática e a fragilidade da supervisão de estágio. Paralelamente, foram analisadas proposições e experiências que indicam possibilidades de aprimoramento formativo. Essa articulação permitiu compreender o estágio como espaço de mediação entre saberes acadêmicos e saberes da prática. Desse modo, a análise contribuiu para aprofundar a compreensão do fenômeno investigado.

Por fim, destaca-se que o percurso metodológico adotado está alinhado aos objetivos do estudo e à natureza do objeto analisado. A opção pela pesquisa qualitativa, bibliográfica e documental possibilitou uma abordagem densa e fundamentada do tema. Conforme argumenta Gil (2019), a clareza metodológica fortalece a validade interna da pesquisa e confere rigor à análise empreendida. Ao privilegiar autores clássicos e documentos normativos, o estudo assegura consistência teórica e relevância acadêmica. Assim, a metodologia adotada constitui um suporte adequado para as reflexões e conclusões apresentadas ao longo do trabalho.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise dos documentos legais e das produções teóricas evidencia que o Brasil dispõe de O estágio curricular supervisionado como espaço de articulação entre teoria, prática e identidade docente

Os resultados evidenciam que o estágio curricular supervisionado constitui um dos principais momentos de aproximação entre a formação teórica e a realidade concreta da docência nos anos iniciais do ensino fundamental. Ao vivenciar o cotidiano escolar, o estagiário passa a confrontar os conhecimentos construídos na universidade com as exigências práticas da sala de aula. Esse movimento favorece a problematização de concepções idealizadas sobre o ensino e a aprendizagem. Conforme discutem Pimenta e Lima (2018), o estágio permite compreender que a prática docente é marcada por escolhas, tensões e decisões pedagógicas situadas. Dessa forma, a articulação entre teoria e prática não ocorre de maneira automática, mas exige mediação e reflexão sistemática.

A formação da identidade docente emerge, nesse contexto, como um processo gradual, construído a partir das experiências vividas no estágio. Os dados analisados indicam que o contato com a escola provoca deslocamentos importantes na forma como os futuros pedagogos percebem o papel do professor. Freire ressalta que a identidade profissional se constitui na prática refletida, entendida como espaço de compromisso ético e político com a educação (Freire, 1996). Assim, o estágio contribui para que o estudante deixe de se perceber apenas como aprendiz e passe a se reconhecer como sujeito em formação para a docência. Esse reconhecimento envolve assumir responsabilidades, lidar com inseguranças e desenvolver autonomia crítica. Trata-se de um processo marcado por aprendizagens e revisões constantes.

A literatura aponta que a ausência de reflexão crítica pode reduzir o estágio a uma experiência meramente técnica ou observacional. Nesse sentido, Freire alerta para os riscos de uma formação que não problematiza a prática e que desconsidera o contexto social em que o ensino se realiza (Freire, 2021). Os resultados indicam que, quando o estágio é acompanhado de espaços de discussão e análise, ele favorece a compreensão do ensino como prática social. O estagiário passa a reconhecer que ensinar envolve relações humanas, decisões curriculares e posicionamentos pedagógicos. Essa compreensão amplia o sentido formativo do estágio. Assim, a prática deixa de ser apenas execução e passa a ser objeto de reflexão.

A análise dialoga também com a etnografia da prática escolar, ao evidenciar que o estágio permite apreender o cotidiano da escola em sua complexidade. André destaca que compreender a prática docente exige atenção às interações, às rotinas e aos significados produzidos no ambiente escolar (André, 2009). Os resultados mostram que o estágio possibilita observar não apenas o que se ensina, mas como se ensina e em quais condições. Esse olhar contribui para a formação de um pedagogo mais atento às dimensões simbólicas e institucionais da escola. Dessa forma, o estágio se configura como espaço de aprendizagem contextualizada. Essa perspectiva fortalece a articulação entre teoria, prática e identidade profissional.

Por fim, os achados reforçam que o estágio curricular supervisionado desempenha papel estruturante na formação inicial do pedagogo. Conforme indicam as diretrizes nacionais, a prática deve estar presente ao longo de todo o curso, de modo articulado aos demais componentes curriculares (Brasil, 2006; Brasil, 2024). Quando concebido dessa forma, o estágio contribui para a construção de uma identidade docente crítica, reflexiva e comprometida com a educação pública. Os resultados confirmam que a qualidade dessa experiência depende da forma como ela é organizada e acompanhada. Assim, o estágio se afirma como espaço privilegiado de articulação formativa. Ele se constitui como eixo central da profissionalização docente.

5. A MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA NO ESTÁGIO E O PAPEL DO PROFESSOR COLABORADOR NA FORMAÇÃO INICIAL

Os resultados apontam que a mediação pedagógica desempenha papel decisivo na qualidade das experiências vividas pelos estagiários. Essa mediação ocorre, sobretudo, por meio da atuação do professor colaborador da escola, que acompanha o estudante no cotidiano da sala de aula. A literatura destaca que esse profissional funciona como referência prática para o futuro pedagogo, influenciando sua compreensão sobre planejamento, condução das atividades e relação com os alunos (Cyrino, Benites, Souza Neto, 2015). Os dados analisados indicam que a presença de um professor colaborador disponível e comprometido amplia significativamente as possibilidades formativas do estágio. Essa relação favorece a troca de experiências e a construção de saberes profissionais. Assim, a mediação pedagógica se mostra elemento central do processo formativo.

Entretanto, os resultados também evidenciam limites importantes relacionados à atuação do professor colaborador. Em muitos casos, esse profissional não recebe formação específica para exercer a função de supervisor de estágio. Cyrino, Benites e Souza Neto apontam que essa ausência de preparo pode comprometer o acompanhamento pedagógico do estagiário (Cyrino, Benites, Souza Neto, 2015). Além disso, o reconhecimento institucional desse papel ainda é restrito, o que afeta as condições de trabalho e o engajamento dos professores colaboradores. Esses fatores contribuem para que a mediação ocorra de forma desigual entre diferentes contextos escolares. Assim, a qualidade do estágio depende, em grande medida, das condições oferecidas pela instituição.

A literatura sobre didática e estágio reforça que a mediação pedagógica não deve ser compreendida como mera orientação técnica. Aroeira e Pimenta defendem que o acompanhamento do estágio precisa favorecer a reflexão crítica sobre a prática docente (Aroeira, Pimenta, 2018). Os resultados dialogam com essa perspectiva ao indicar que o estagiário aprende mais quando é convidado a problematizar suas ações e observações. A mediação, nesse sentido, envolve diálogo, escuta e análise conjunta das experiências vividas. Essa postura contribui para evitar a reprodução acrítica de práticas já consolidadas. Assim, o estágio se torna espaço de aprendizagem reflexiva.

A articulação entre universidade e escola aparece como elemento fundamental nesse processo de mediação. Pimenta e Lima destacam que o estágio deve ser concebido como espaço de cooperação entre essas duas instituições, com responsabilidades compartilhadas na formação docente (Pimenta, Lima, 2018). Os resultados indicam que, quando essa articulação é frágil, o estágio tende a se limitar a atividades pontuais. Por outro lado, quando há diálogo entre supervisores universitários e professores colaboradores, a formação do estagiário é fortalecida. Essa articulação favorece a coerência entre os objetivos formativos do curso e as práticas desenvolvidas na escola. Dessa forma, a mediação pedagógica se amplia e se qualifica.

Por fim, os achados reforçam a necessidade de políticas institucionais que valorizem o papel do professor colaborador no estágio supervisionado. A literatura aponta que o fortalecimento dessa função pode contribuir para a melhoria da formação inicial do pedagogo (Zanata, Capellini, 2018). Os resultados confirmam que a mediação pedagógica qualificada é condição essencial para que o estágio cumpra sua função formativa. Assim, torna-se fundamental investir na formação e no reconhecimento desses profissionais. Essa valorização impacta diretamente a qualidade do estágio. Consequentemente, contribui para a formação de professores mais preparados para os desafios da docência.

6. PRÁTICA PEDAGÓGICA NOS ANOS INICIAIS, CURRÍCULO E DESAFIOS INSTITUCIONAIS DA FORMAÇÃO DO PEDAGOGO

Os resultados revelam que a prática pedagógica nos anos iniciais do ensino fundamental é marcada por elevada complexidade, o que se reflete diretamente nas experiências de estágio. O estagiário se depara com turmas heterogêneas, diferentes ritmos de aprendizagem e múltiplas demandas institucionais. A Base Nacional Comum Curricular orienta o trabalho docente ao estabelecer competências e habilidades a serem desenvolvidas nessa etapa (Brasil, 2018). Essa orientação curricular influencia as práticas observadas e realizadas durante o estágio. Os dados indicam que o futuro pedagogo precisa aprender a articular prescrições curriculares e realidade escolar. Esse processo exige reflexão e flexibilidade pedagógica.

A implementação do currículo, no entanto, ocorre em contextos institucionais marcados por limitações estruturais. Os resultados evidenciam tensões entre o que é prescrito nos documentos oficiais e as condições concretas de trabalho nas escolas. A legislação educacional reconhece a importância da formação prática, mas nem sempre assegura condições adequadas para sua efetivação (Brasil, 1996; Brasil, 2006). O estágio permite ao estudante perceber essas contradições de forma direta. Essa vivência contribui para uma compreensão mais realista da docência. Assim, o estágio se torna espaço de leitura crítica das políticas educacionais.

A prática pedagógica nos anos iniciais também envolve o enfrentamento de desafios relacionados à inclusão escolar. Padilha e Oliveira destacam que a educação contemporânea exige práticas que considerem a diversidade de sujeitos e contextos (Padilha, Oliveira, 2013). Os resultados indicam que o estágio possibilita ao futuro pedagogo refletir sobre estratégias inclusivas no cotidiano escolar. Essa reflexão é fundamental para a construção de uma postura ética e comprometida com a educação para todos. O contato com situações reais de inclusão amplia a compreensão sobre o papel social do professor. Dessa forma, o estágio contribui para uma formação mais sensível às diferenças.

A dimensão relacional da prática pedagógica também se destaca nos resultados analisados. Ostetto enfatiza que educar envolve encontros, afetos e experiências que atravessam o cotidiano escolar (Ostetto, 2000). Os dados indicam que o estágio possibilita vivenciar essas dimensões de forma concreta. O estagiário aprende que o trabalho docente não se limita à transmissão de conteúdos. Ele envolve relações, escuta e sensibilidade. Essa compreensão amplia o significado da prática pedagógica nos anos iniciais. Assim, o estágio contribui para uma formação docente mais humana e contextualizada.

Por fim, os resultados reforçam que os desafios institucionais da formação do pedagogo exigem repensar a organização do estágio supervisionado. As diretrizes curriculares recentes apontam para a necessidade de práticas formativas mais integradas e reflexivas (Brasil, 2024). O estágio, quando articulado ao currículo e acompanhado de mediação qualificada, pode contribuir para enfrentar esses desafios. Os achados confirmam que a prática pedagógica nos anos iniciais demanda formação sólida e contextualizada. Nesse sentido, o estágio se consolida como espaço estratégico da formação inicial uma vez que possibilita compreender criticamente a docência e seus desafios contemporâneos.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve como objetivo discutir o estágio curricular supervisionado e a prática pedagógica nos anos iniciais do ensino fundamental, considerando seus desafios e possibilidades na formação do pedagogo. A análise realizada ao longo do trabalho evidenciou que o estágio se configura como componente central da formação inicial, na medida em que possibilita a articulação entre os conhecimentos teóricos construídos na universidade e as experiências concretas vivenciadas no cotidiano escolar. Essa articulação mostrou-se fundamental para a compreensão da docência como prática social, ética e historicamente situada, conforme defendido por autores clássicos da área da educação.

Os resultados indicaram que o estágio supervisionado contribui de forma significativa para a construção da identidade docente do futuro pedagogo. Ao vivenciar situações reais de ensino, o estagiário é desafiado a refletir sobre suas concepções, escolhas pedagógicas e responsabilidades profissionais. Essa vivência favorece o desenvolvimento de uma postura crítica e reflexiva, alinhada à perspectiva freireana de formação docente, que compreende o ensinar como prática comprometida com a autonomia e com a transformação social. Nesse sentido, o estágio ultrapassa a dimensão técnica e assume caráter formativo mais amplo.

Outro aspecto relevante evidenciado refere-se ao papel do professor colaborador e à mediação pedagógica no contexto do estágio. A pesquisa reforçou que a atuação desse profissional é decisiva para a qualidade das experiências formativas vividas pelos estagiários. Entretanto, também foram identificadas fragilidades relacionadas à ausência de formação específica e ao limitado reconhecimento institucional dessa função. Esses elementos apontam para a necessidade de políticas e práticas que valorizem o professor colaborador e fortaleçam a articulação entre universidade e escola, condição essencial para a efetivação do estágio como espaço de aprendizagem profissional.

No que se refere à prática pedagógica nos anos iniciais do ensino fundamental, a análise evidenciou a complexidade do trabalho docente diante das exigências curriculares, da diversidade dos alunos e das condições institucionais das escolas. O estágio permitiu ao futuro pedagogo compreender as tensões existentes entre as prescrições normativas, como a Base Nacional Comum Curricular, e a realidade concreta da sala de aula. Essa compreensão contribui para uma formação mais realista e crítica, capaz de preparar o professor para lidar com os desafios contemporâneos da educação básica.

Diante dessas considerações, conclui-se que o estágio curricular supervisionado constitui espaço privilegiado de formação do pedagogo, desde que seja concebido de forma integrada ao currículo, acompanhado por mediação pedagógica qualificada e orientado por processos reflexivos sistemáticos. Investir na qualidade do estágio significa fortalecer a formação inicial e, consequentemente, contribuir para a melhoria da prática pedagógica nos anos iniciais do ensino fundamental. Por fim, destaca-se a importância de novos estudos que aprofundem a análise das experiências de estágio em diferentes contextos educacionais, ampliando o debate sobre a formação docente e suas interfaces com a prática escolar.

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1 Doutor e mestre em Educação (UFES). Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás. E-mail: [email protected].

2 Doutora em Educação. pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Docente na Universidade dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). E-mail: [email protected].

3 Doutora em Agroecologia e Desenvolvimento Territorial, UFRPE. Faculdade do Sertão do Pajeú (FASP). E-mail: [email protected]