REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778552224
RESUMO
Este artigo analisa a produção de dissertações defendidas entre 2016 e 2024 no Programa de Pós-Graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável (PPGADR) da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), com foco nas temáticas de gênero e mulheres em interface com a agroecologia e o desenvolvimento rural sustentável. A pesquisa, de natureza qualitativa e bibliográfica, fundamenta-se em revisão narrativa e análise documental das dissertações disponíveis no repositório institucional e na Plataforma Sucupira. Também utiliza a metodologia de imagens pela Cultura Visual. Os resultados evidenciam algumas categorias analíticas recorrentes, como invisibilidade e divisão sexual do trabalho, agroecologia, movimentos sociais, saberes tradicionais, sistemas alimentares, reprodução social e desenvolvimento rural sustentável, que se apresentam de forma articulada. A agroecologia emerge como eixo integrador dessas dimensões, relacionada à autonomia das mulheres, à organização coletiva e à construção de alternativas ao modelo hegemônico. Conclui-se que, apesar dos avanços, persistem lacunas na incorporação transversal da perspectiva de gênero, evidenciando a necessidade de seu fortalecimento no campo da agroecologia e do desenvolvimento rural sustentável.
Palavras-chave: Agroecologia; Desenvolvimento rural; Gênero; Mulheres; Produção científica.
ABSTRACT
This article analyzes the production of dissertations defended between 2016 and 2024 in the Graduate Program in Agroecology and Sustainable Rural Development (PPGADR) at the Federal University of Fronteira Sul (UFFS), focusing on the themes of gender and women in relation to agroecology and sustainable rural development. The research, which is qualitative and bibliographic in nature, is based on a narrative review and documentary analysis of the dissertations available in the institutional repository and on the Sucupira Platform. It also employs the methodology of images through Visual Culture. The results highlight several recurring analytical categories, such as invisibility and the gendered division of labor, agroecology, social movements, traditional knowledge, food systems, social reproduction, and sustainable rural development, which are presented in an interconnected manner. Agroecology emerges as the integrating axis of these dimensions, related to women’s autonomy, collective organization, and the construction of alternatives to the hegemonic model. It is concluded that, despite advances, gaps persist in the cross-cutting incorporation of the gender perspective, highlighting the need to strengthen it in the fields of agroecology and sustainable rural development.
Keywords: Agroecology; Rural development; Gender; Women; Scientific research.
1. INTRODUÇÃO
As trajetórias de luta das mulheres camponesas, dos estudos feministas e de gênero contribuíram significativamente para a re (construção) dos conceitos de agroecologia e desenvolvimento rural sustentável. No entanto, persiste uma invisibilidade histórica sobre as práticas das mulheres, ou seja, embora articulem produção e saberes sociais, muitas dessas atividades ainda são desvalorizadas por serem confundidas com o trabalho doméstico e de subsistência.
A partir da década de 1970, esse cenário passou a ser questionado à medida que os estudos feministas e de gênero denunciaram a divisão sexual do trabalho. Essas análises evidenciaram como o apagamento das funções produtivas das mulheres no campo decorre de uma estrutura social que naturaliza sua mão de obra como meramente complementar, de “ajuda” (Paulilo, 1987; 2016). Para além disso, abordagens interseccionais e decoloniais (Hooks, 2015; Collins, 2019; Lugones, 2014) têm sido fundamentais para compreender e elucidar a complexidade dessas experiências e vivências.
No campo da agroecologia, essa discussão ganha densidade particular, uma vez que as mulheres têm papel central na produção de alimentos, no manejo da agrobiodiversidade, na preservação de sementes, no cultivo de plantas medicinais, na organização do autoconsumo e na transmissão intergeracional de conhecimentos. Ao mesmo tempo, sua participação continua frequentemente subsumida à ideia de ajuda familiar ou diluída em categorias amplas como agricultura familiar, comunidade rural ou unidade produtiva. Desse modo, a relação entre agroecologia, desenvolvimento rural e gênero não pode ser compreendida apenas a partir da dimensão produtiva, mas exige atenção às relações sociais, aos processos de reconhecimento, às desigualdades de poder e às formas de resistência construídas pelas mulheres nos territórios.
Ainda são relativamente escassos os estudos que se voltam para a própria produção acadêmica da área, buscando identificar como essas temáticas vêm sendo incorporadas, nomeadas e desenvolvidas nos programas de pós-graduação stricto sensu. Essa lacuna é particularmente importante porque a produção científica não apenas reflete debates sociais e políticos mais amplos, mas também contribui para legitimar certos objetos, categorias analíticas e sujeitos de pesquisa, ao mesmo tempo em que pode manter outros em posição secundária ou invisibilizada.
Nesse sentido, analisar a produção de dissertações de um programa como o Programa de Pós-Graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável (PPGADR), da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Laranjeiras do Sul/PR, permite compreender não apenas a presença quantitativa dessas temáticas, mas também os modos pelos quais gênero, mulheres, agroecologia e desenvolvimento rural sustentável se articulam no interior de uma agenda acadêmica específica. Permite, ainda, identificar continuidades, inflexões e lacunas, bem como observar se as mulheres aparecem como sujeitas centrais da análise ou apenas de forma indireta, em temas historicamente marcados por sua atuação, como alimentação, autoconsumo, saberes tradicionais, quintais produtivos, cuidado e reprodução social.
É nesse contexto que se insere este artigo, fruto de um projeto de pesquisa apoiado pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) por meio do Edital nº 154/GR/UFFS/2024 (Grupo 1 – Fomento a Subprojeto de Pesquisa Científica PES-2024-0351). O objetivo deste trabalho foi analisar e mapear as dissertações defendidas entre os anos de 2016 e 2024 no Programa de Pós-Graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável (PPGADR), da UFFS, campus Laranjeiras do Sul/PR, que tratam das temáticas de gênero e mulheres em diálogo com a agroecologia e o desenvolvimento rural sustentável.
Dessa forma, o artigo busca contribuir para o debate sobre gênero e agroecologia em dois níveis complementares. No primeiro, ao evidenciar o lugar das mulheres e das relações de gênero no interior da produção acadêmica do PPGADR. No segundo, ao mostrar que temas como movimentos sociais, saberes tradicionais, sistemas alimentares, reprodução social, interseccionalidade e decolonialidade constituem dimensões fundamentais para compreender como a agroecologia vem sendo pensada no programa. Assim, ao mapear e interpretar esse conjunto de dissertações, pretende-se contribuir para a qualificação do debate acadêmico, para a visibilização das mulheres como sujeitas centrais da agroecologia e para o fortalecimento de uma leitura crítica do desenvolvimento rural sustentável.
Sendo assim, este artigo está organizado em duas partes, além desta introdução. A primeira, apresenta os procedimentos metodológicos adotados na pesquisa. A segunda, discute os resultados da análise das dissertações, destacando as principais categorias identificadas, os modos de incorporação da questão de gênero no corpus selecionado e a análise das imagens por meio da Cultura Visual. Por fim, se reúne as considerações finais, retomando os principais achados e as possibilidades de aprofundamento futuro.
2. METODOLOGIA
A metodologia utilizada foi de natureza qualitativa, bibliográfica, ampara-se na revisão narrativa, nas imagens por meio da Cultura Visual e na perspectiva interdisciplinar de construção do conhecimento. Por pesquisa qualitativa, a compreendemos como “uma tentativa de se explicar em profundidade o significado e as características do resultado das informações obtidas através de entrevistas ou questões abertas, sem a mensuração quantitativa de características ou comportamento” (Oliveira, 2005, p. 66). Para a pesquisa bibliográfica e métodos científicos em geral, Lakatos e Marconi (2003) nos auxiliam na compreensão de modo a fundamentar o levantamento e a análise das dissertações nas diretrizes que orientam a sistematização crítica e o tratamento científico de fontes bibliográficas. Além desses autores, Enrique Leff (2011) traz contribuições essenciais para a compreensão da interdisciplinaridade e do diálogo de saberes na pesquisa agroecológica, promovendo uma integração de diferentes perspectivas disciplinares e valorizando os conhecimentos locais e tradicionais das comunidades rurais. É a partir da revisão narrativa que buscamos bases de argumentação para melhor entendermos os conceitos-chave da pesquisa, dentre esses: mulheres, gênero, agroecologia e desenvolvimento rural sustentável. As expressões objetivam descrever o que as produções exploram conceitualmente e mostram o que já foi produzido. Para tanto, são revisadas e discutidas dissertações, disponíveis no Repositório Digital da UFFS e nos arquivos disponibilizados na Plataforma Sucupira, em busca de qualificar o que melhor define conceitualmente e de ampliar o debate em relação às relações de gênero em interface com a área de concentração do PPGADR. Compreendemos que a revisão narrativa permite ao leitor adquirir conhecimento sobre uma temática específica em um tempo curto, mas apresenta as desvantagens de não ser reprodutível, às vezes incompleta e, em alguns casos, inconclusiva (Atallah; Castro, 1997). As buscas por pesquisas que contemplam a mesma temática constituem-se de análise de literatura que contribui para compreensão e análise crítica e pessoal dos autores. Da mesma forma, permitem identificar quais as lacunas da temática que ainda não foram pesquisadas e são possíveis de serem exploradas pelo pesquisador. Já as imagens por meio da Cultura Visual são produzidas visando atender a um público específico; contudo, também são recebidas por outros que não compõem o escopo destinatário e que são detentores de um arcabouço cultural distinto (Melo, 2024).
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Do total de 110 dissertações defendidas no período de 2016 a 2024, 11 trabalhos apresentam menção direta a gênero ou mulheres no título, evidenciando uma abordagem explícita da temática, enquanto cerca de 9 dissertações abordam temas que indicam potencial discussão de gênero, ainda que essa dimensão não esteja nomeada diretamente.
Esses dados indicam que há a existência de um conjunto consistente de trabalhos com foco explícito em mulheres camponesas, feminismo e agroecologia e isso demonstra que o tema possui relevância e certa continuidade entre as dissertações defendidas, porém, o fato de a maior parte da produção não incorporar o gênero nem mesmo de forma indireta sugere que essa ainda não é uma abordagem transversal no conjunto das pesquisas. Assim, entre 2016 e 2024, o gênero aparece como um tema relevante, mas não dominante, concentrado em parte específica da produção e mais associado a determinadas agendas de pesquisa do que ao conjunto das dissertações do programa, conforme podemos evidenciar no Quadro a seguir.
Quadro 1 - Total de trabalhos analisados
Autoria | Título | Ano | Orientação | Principais categorias utilizadas |
ANA CLAUDIA RAUBER | Conhecimento etnobotânico sobre plantas medicinais e plantas alimentícias não convencionais das famílias agricultoras pertencentes ao Núcleo Regional Luta Camponesa da Rede Ecovida de Agroecologia | 2016 | Gilmar Franzener | Conhecimento etnobotânico; plantas medicinais; PANC; campesinato; transição agroecológica; biodiversidade; soberania e segurança alimentar; conhecimentos tradicionais; quintais produtivos |
BRUNA VIANA NOBRE | Alimentos nativos e tradicionais: explorando benefícios e desafios de sua produção/consumo em comunidade agroextrativista do município de Santarém-PA | 2022 | Rozane M. Triches | alimentos nativos e tradicionais; comunidade agroextrativista; biodiversidade; segurança alimentar e nutricional; sustentabilidade; produção e consumo; sociobiodiversidade; circuitos curtos |
CAMILA EDUARDA VIANA | Construção social da qualidade do queijo colonial na microrregião de Capanema (Sudoeste do Paraná) | 2016 | Rozane M. Triches | construção social da qualidade; queijo colonial; alimentos tradicionais; risco; confiança; informalidade; consumo; tradição e cultura alimentar |
CASSIE KACZUK REFOSCO | Mulheres camponesas, agroecologia e cotidiano: um estudo de caso do Assentamento Oito de Junho de Laranjeiras do Sul/PR sob o aspecto do desenvolvimento rural sustentável | 2021 | Liria A. Andrioli | mulheres camponesas; agroecologia; cotidiano; modos de vida; desenvolvimento rural sustentável; patriarcado; ecofeminismos; cuidado; reforma agrária; movimentos sociais |
CHEILA APARECIDA RAMOS | “Entre taquaras, cestos e cultura”: um estudo da vida de mulheres kaingang da terra indígena Rio das Cobras sob a perspectiva da agroecologia - Nova Laranjeiras-PR | 2022 | Siomara A. Marques | mulheres indígenas; Kaingang; povos tradicionais; gênero; divisão sexual do trabalho; agroecologia; cultura; natureza; cosmologias; cuidado |
CRISTIANE KUBIAK | A pedagogia feminista e a agroecologia como ferramentas de transformação social na vida de mulheres camponesas do movimento dos trabalhadores sem terra da Cantuquiriguaçu/PR | 2023 | Siomara A. Marques | mulheres camponesas; pedagogia feminista; agroecologia; transformação social; patriarcado; feminismo; equidade de gênero; MST; Escola Regional de Mulheres |
CRISTINA STURMER DOS SANTOS | Análise do processo de transição agroecológica das famílias agricultoras do Núcleo da Rede Ecovida de Agroecologia Luta Camponesa | 2016 | Pedro I. Christoffoli | transição agroecológica; agroecologia; famílias agricultoras; movimentos sociais; desenvolvimento rural; territorialidade; estratégias familiares; fatores desencadeadores; dependência/autonomia |
DANIELI BASSANESI | Mulheres camponesas e sementes crioulas: o papel das práticas agroecológicas na tomada de consciência | 2022 | Liria A. Andrioli | mulheres camponesas; sementes crioulas; práticas agroecológicas; tomada de consciência; processo organizativo; patriarcado; ética do cuidado; movimentos sociais; sustentabilidade |
DEISE INGRID SCHNEIDERS | Possíveis contribuições do movimento de mulheres camponesas para o desenvolvimento sustentável: um estudo de caso no extremo oeste catarinense | 2024 | Siomara A. Marques | movimento de mulheres camponesas; desenvolvimento sustentável; feminismo camponês e popular; agroecologia; bem-viver; transformação social; ODS; emergência climática |
FERNANDA PAULA PIRAN KUSNIEWSKI | Agroecologia e educação do campo: meios de promover a permanência do jovem no campo? | 2018 | Maude R. Borba | agroecologia; educação do campo; juventude rural; permanência no campo; sucessão familiar; assentamentos; desenvolvimento rural; oportunidades |
FLAVIA REGINA FERNANDES SILVA | Gênero e Agroecologia: estudo de caso de uma organização productive de mulheres camponesas em Laranjeiras do Sul Paraná | 2016 | Josimeire A. Leandrini | gênero; agroecologia; mulheres camponesas; agricultura familiar; relações sociais de gênero; identidade; divisão sexual do trabalho; desenvolvimento rural sustentável |
GENECI RIBEIRO DOS SANTOS | Quintais produtivos e o papel das mulheres camponesas para o fortalecimento da produção agroecológica: um estudo das experiências desenvolvidas pelo Movimento de Mulheres Camponesas – MMC/ SC | 2021 | Siomara A. Marques | quintais produtivos; mulheres camponesas; produção agroecológica; MMC; economia feminista; movimento social; transição agroecológica; autonomia econômica; autoconsumo |
GRACIELI CRISTIANI SCHROEDER CASTILHO | Reflexões sobre o feminismo camponês e popular em interface com a agroecologia | 2024 | Liria A. Andrioli | feminismo camponês e popular; agroecologia; mulheres camponesas; desenvolvimento sustentável; igualdade de gênero; MMC; transformação social; preservação ambiental |
ILDA CORNELIO BERNARDO | Resíduos sólidos domésticos na terra indígena Rio das Cobras Ẽg tỹ nẽn vãvãm tῖ kaingag ag ga tȳ Rio das Cobras tá | 2017 | Betina Muelbert | resíduos sólidos domésticos; comunidade indígena; meio ambiente; educação ambiental; políticas públicas; gestão de resíduos; bem-estar físico e cultural |
JOSEANE PEREIRA | Desperdício de alimentos em domicílios de classe média baixa a partir do método do itinerário | 2023 | Rozane M. Triches | desperdício de alimentos; comportamento do consumidor; sustentabilidade; consumo alimentar; cultura alimentar; cadeia de abastecimento; método do itinerário; políticas públicas |
JOSIANE GRACIELI PRESCHLAK FIORESE | A produção para autoconsumo na agricultura familiar: uma questão de liberdade alimentar | 2017 | Clerio Plein | autoconsumo; agricultura familiar; liberdade alimentar; desenvolvimento como liberdade; reprodução social; representações sociais; segurança alimentar; estratégias familiares |
MILENA REGINA MUSSOI | “Sem folha, não há orixá”: conhecimentos relacionados à produção e consumo de alimentos de povos e comunidades de terreiro | 2023 | Rozane M. Triches | povos e comunidades de terreiro; agroecologia; alimentação; saberes e práticas alimentares; decolonialidade; oralidade; ancestralidade; cultura alimentar; religiosidade |
MIRIAN MARIA KUNRATH | Corporeidade, agroecologia e mulheres: um processo de construção de saberes por meio da Escola Regional de Mulheres do MST | 2023 | Liria A. Andrioli | corporeidade; agroecologia; mulheres; construção de saberes; diálogo de saberes; processo formativo; MST; identidade camponesa; relações de gênero |
PEDRO PAULO FERNANDES DA COSTA | Saberes ancestrais, alimentação e o processo de envelhecimento de mulheres indígenas do médio Rio Negro/Amazonas: contribuições para pensar as práticas agroecológicas, o bem-estar e a saúde | 2024 | Liria A. Andrioli | saberes ancestrais; mulheres indígenas; envelhecimento; agroecologia; bem-estar; saúde; segurança alimentar; diálogo intercultural; sistema agrícola tradicional |
RENATA ROCHA GADELHA | Recampesinização e Ressignificação do Campesinato: histórias de vida no Movimento de Mulheres Camponesas do Paraná (MMC/PR) | 2017 | Antonio I. Andrioli | recampesinização; campesinato; movimento de mulheres camponesas; patriarcado; agroecologia; participação; conscientização; relações de gênero; transição agroecológica |
Fonte: Os autores (2026).
A sistematização das dissertações do PPGADR revela dois níveis distintos de abordagem: um grupo de caráter explícito, onde o gênero é categoria estruturante e as mulheres são protagonistas (frequentemente articuladas ao feminismo camponês, movimentos sociais e perspectivas interseccionais), e um segundo grupo de caráter implícito, cujos temas como etnobotânica, autoconsumo e sistemas alimentares que não nomeiam ou problematizam as relações de gênero diretamente. Diante disso, as categorias analíticas eleitas foram: Invisibilidade e divisão sexual do trabalho, Agroecologia, Movimentos sociais, Saberes tradicionais, Desenvolvimento rural sustentável, Sistemas alimentares e Reprodução social nos permitem compreender como essas dimensões se materializam na produção acadêmica do PPGADR.
Nesse viés, a invisibilidade do trabalho das mulheres aparece como uma das categorias mais recorrentes. As dissertações de Silva (2016), Gadelha (2017), Refosco (2021), Santos (2021), Bassanesi (2022), Ramos (2022), Kubiak (2023) e Kunrath (2023) mostram que atividades vinculadas ao cuidado, ao autoconsumo, à produção alimentar por parte das mulheres seguem sendo desvalorizadas por sua associação ao espaço doméstico. O trabalho nos arredores da casa, por exemplo, acaba sendo subestimado. Vale ressaltar, entretanto, que os quintais produtivos contribuem significativamente para a geração de renda das mulheres ao integrar o cultivo das hortas e das ervas medicinais ao cultivo dos animais (Kempf, 2022). Contudo, a divisão sexual do trabalho se mantém como elemento estruturante, mesmo em contextos agroecológicos (Paulilo, 1986; 2016). Aponta-se ainda que as mulheres acumulam responsabilidades produtivas e reprodutivas, enquanto permanecem parcialmente excluídas de espaços decisórios.
Já a agroecologia figura como eixo central em 12 textos analisados, sendo eles: Rauber (2016), Refosco (2021), Ramos (2022), Kubiak (2023), Santos (2016), Bassanesi (2022), Schneiders (2024), Kusniewski (2018), Silva (2016), Santos (2021), Schroeder Castilho (2024) e Kunrath (2023). Nestes trabalhos a agroecologia não aparece de forma isolada, mas associada a categorias analiticas que estruturam a produção científica do programa, especialmente àquelas relacionadas à autonomia das mulheres, à organização coletiva, à saúde, aos sistemas alimentares, à biodiversidade, à resistência ao modelo agrícola hegemônico, à reprodução social e ao desenvolvimento rural sustentável. Nesse contexto, observa-se que a apropriação da agroecologia por mulheres camponesas constitui uma ferramenta de enfrentamento às desigualdades de gênero, na medida em que possibilita o reconhecimento social do trabalho desenvolvido por elas (Siliprandi, 2015).
As dissertações de autoria de Gadelha (2017), Santos (2021), Refosco (2021), Bassanesi (2022), Kubiak (2023), Kunrath (2023), Castilho (2024), Schneiders (2024), Rauber (2016) e Santos (2016) revelam forte presença de movimentos sociais como mediação central entre agroecologia e transformação das relações de gênero. Experiências vinculadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ao Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e à Rede Ecovida emergem como espaços de formação política, construção de identidade e fortalecimento da autonomia das mulheres. Em parte significativa do corpus, a transformação social vinculada à agroecologia não é entendida apenas como mudança produtiva, mas como processo pedagógico, organizativo e político. A Escola Regional de Mulheres, a pedagogia feminista e a formação no MST e na educação do campo aparecem como mediações fundamentais na construção de sujeitos críticos e na produção de novos sentidos para o campo e para as relações de gênero. Nesses espaços, a organização coletiva não apenas fortalece a autonomia das mulheres, mas também consolida a construção de conhecimento em diálogo com a transformação social. Autonomia dialoga por um viés da práxis ética do cuidado (Ulrich; Strober; La Paz, 2020).
Sete trabalhos trataram o tema da valorização dos saberes tradicionais, sendo eles: Rauber (2026), Bassanesi (2022), Ramos (2022), Mussoi (2023), Kunrath (2023), Costa (2024) e Nobre (2022). Cabe salientar que esta categoria analítica constitui um eixo estruturante do conjunto analisado. As dissertações abordam conhecimentos relacionados a plantas medicinais, sementes crioulas, alimentação tradicional, práticas agrícolas, oralidade, religiosidade e cosmologias. Esses saberes são tratados como fundamentais para a agroecologia e para a sustentabilidade dos territórios, sendo transmitidos por meio da convivência, da prática cotidiana e da memória coletiva. É por meio do diálogo de saberes entre o conhecimento científico e popular que a agroecologia se fortalece como práxis integrando diferentes racionalidades por meio da interdisciplinaridade e saber ambiental (Leff, 2011). As experiências de vida das mulheres têm saber, modificam olhares e visões de mundo e as mulheres são sujeitas da luta ecológica (Andrioli, 2022).
Observa-se uma ampliação recente das abordagens para incluir perspectivas interseccionais e decoloniais, dentre os textos analisados seis deles tratavam de estudos sobre mulheres indígenas, povos de terreiro e comunidades tradicionais articulando a etnia, território, ancestralidade, religiosidade e colonialidade evidenciando assim a complexidade das relações e experiências analisadas nesses textos. Os trabalhos que trazem esta temática são: Ramos (2022), Mussoi (2023), Costa (2024), Nobre (2022), Castilho (2024) e Schneiders (2024). Essa abordagem interseccional permite ainda perceber que as desigualdades de gênero geralmente são atravessadas por marcadores sociais que influenciam tanto de forma individual quanto de forma simultânea, produzindo diversas formas de opressão Crenshaw, (1989); Collins, (2019). Collins (2019) ainda teoriza que os sistemas de opressões não atuam de maneira isolada, eles agem de forma interligada, exigindo então análises que considerem essas interações, nesse sentido observa-se que a incorporação da abordagem interseccional no campo de estudos dos pesquisadores e pesquisadoras do PPGADR evidencia uma sensibilidade crescente para o território de pesquisa e para a diversidade de relações sociais que estruturam esses territórios. Nesse viés, Carla Akotirene (2019) argumenta que no contexto brasileiro a interseccionalidade se apresenta como ferramenta fundamental para compreender os entrecruzamentos entre racismo, patriarcado e desigualdades de classe, sendo essencial a incorporação desse olhar dos pesquisadores e pesquisadoras nas análises que partem dessa perspectiva contra hegemônica, ao valorizar saberes populares e ancestrais, que sabe-se são historicamente marginalizados, questionando, assim, a colonialidade do Poder e do Saber (Lugones, 2014), o que reforça a relevância dessas iniciativas no âmbito do programa.
O desenvolvimento rural sustentável aparece como horizonte compartilhado nas dissertações, geralmente associado à agroecologia, à segurança alimentar, à permanência no campo e à valorização da agricultura familiar. Essa categoria de pesquisa foi observada manifestando-se de mais especificamente nos trabalhos de Refosco (2021), Kubiak (2023), Schroeder Castilho (2024), Schneiders (2024), Gadelha (2017), Santos (2016), Kusniewski (2018) e Nobre (2022), evidenciando o Desenvolvimento Rural Sustentável não apenas como um objetivo econômico ou produtivo, mas como um complexo processo que articula a ressignificação do campesinato, as reflexões sobre o feminismo camponês e colocando a agroecologia e a educação do campo como meios de promover a permanência do jovem no campo. Os trabalhos aprofundam a visão da agroecologia como ferramenta de transformação social também na vida de mulheres camponesas ao analisar as possíveis contribuições do movimento de mulheres camponesas para o desenvolvimento sustentável, articulando conhecimentos científicos a saberes locais, o que resulta na construção de uma agricultura mais sustentável (Siliprandi, 2015). Sendo assim, o desenvolvimento rural sustentável, nos trabalhos analisados, se configura como um processo que ultrapassa a dimensão econômica, incorporando transformações nas relações sociais, especialmente de gênero, e na organização dos territórios.
Outro eixo importante do corpus diz respeito à alimentação. As dissertações de Rauber (2016), Nobre (2022), Viana (2016), Pereira (2023), Fiorese (2017), Mussoi (2023) e Costa (2024) elucidam que a agroecologia se articula fortemente à produção, ao consumo, ao autoconsumo, à cultura alimentar e à segurança alimentar e nutricional. Esse conjunto amplia a compreensão da agroecologia, deslocando-a do campo estritamente produtivo para os sistemas alimentares e para a reprodução da vida. A alimentação, nesse viés, passa a ser vista também como um direito, ao contrário de mercadoria. Assume-se a força política da alimentação já que valoriza a interdependência entre a saúde do solo, do corpo humano e do ecossistema. “Alimento é qualquer substância contida na natureza que se possa esperar que seja ingerida por seres vivos e seja capaz de fornecer nutrientes necessários para a manutenção da vida” (Jaime, 2021, p. 119). As dissertações também permitem destacar a reprodução social como categoria importante. Em vários estudos, como os de Rauber (2016), Santos (2021), Pereira (2023), Fiorese (2017), Nobre (2022) e Bassanesi (2022) o autoconsumo, a produção de alimentos, os quintais produtivos, a renda derivada do excedente e a autonomia econômica das mulheres aparecem como elementos centrais para compreender a sustentabilidade dos modos de vida rurais.
3.1. Análise de Imagens
A análise da imagem é um processo que busca compreender as imagens a partir de um objetivo específico. Trata da interpretação da imagem em seu contexto, não se limitando à sua percepção apenas. Analisar imagens e compreender seus significados faz parte da interpretação, intentando conhecer relações entre o que foi representado e o que foi apresentado (Vicente, 2000). Todavia, a interpretação é atravessada pelas experiências individuais e coletivas, bem como pelos contextos de geração ou de produção das imagens.
As produções visuais atuam como dispositivos simbólicos que mobilizam interpretações e elaboram sentidos nos sujeitos que as observam, contribuindo para a construção de universos de sentido (Mendes, 2019, p. 8). Configuram-se como representações imperfeitas da realidade, portadoras de discursos (Mendes, 2019, p. 16), atravessadas pela cultura, que “proporciona ao indivíduo […] sistemas de classificação através dos quais ele irá compreender sua experiência empírica e dar continuidade ao seu projeto reflexivo” (Mendes, 2019, p. 19).
Melo (2024, p. 2) relata que “as perspectivas dos estudos da Cultura Visual podem ser analisadas nos modos de ver e sentir os grupos humanos e, em formas de concebermos o conhecimento em nossas práticas e nas construções visuais das concepções de mundo”. Já segundo Baliscei (2024, p. 5), a cultura visual pode englobar “todo artefato que, visualmente, promove significados”. Entende-se assim, que estão inseridas no campo de significados as imagens artisticamente consagradas, mas, também, “outras mais populares e ordinárias”.
A análise de imagens, especialmente de fotografias, possibilita um espaço privilegiado para discutir gênero e as representações das mulheres, permitindo uma articulação interdisciplinar que evidencia tanto continuidades históricas quanto transformações nas formas de ver e representar o feminino. Desse modo, os constructos históricos que mediam as relações culturais, como as de gênero, por exemplo, são embasados em experiências históricas e socioculturais, que se assentam em papéis hierarquicamente diferenciados, e, portanto, produzem modos de ver e sentir o que representado (Melo, 2024). As imagens, como produtos desse contexto, atuam na (trans)formação de identidades, de gênero e de sexualidade (Baliscei, 2024). Assim, sua análise de imagens deve ser entendida como uma prática crítica, capaz de revelar ideologias subjacentes e disputas simbólicas.
Das 110 dissertações defendidas entre 2016 e 2024, 11 foram agrupadas no tema “Gênero e mulheres”, totalizando 186 imagens, categorizadas em cinco grupos: desenho, diagrama, fotografia, gráfico e mapa/croqui. Em 10 dessas dissertações, estavam presentes imagens dos tipos “fotografia” e “mapa/croqui”, sendo a fotografia a mais recorrente, com 139 ocorrências, justificando a escolha dessa categoria para a análise (Gráficos 1 e 2).
Gráficos 1 e 2 - Distribuição de categorias e representações de imagens nas dissertações
As fotografias foram analisadas com base da metodologia de análise comparativa (Vicente, 2000), buscando-se reconhecer similaridades entre as imagens selecionadas.Após essa etapa, as imagens foram agrupadas conforme os objetos capturados.
Os objetos foram agrupados em 9 categorias, sendo possível que uma mesma imagem integrasse mais de uma delas. Buscou-se identificar analogias, distinções e possíveis correspondências, considerando o contexto e a trajetória dos produtores das imagens. Já as imagens foram categorizados em Paisagens, abarcando os espaços abertos naturais ou antropizados, urbanos ou rurais; Movimento Social, englobando todas aquelas que apresentavam ações ou elementos ligados aos movimentos, tais como bandeiras, cartazes, camisetas e outros; Pessoas, imagens com a identificação da presença humana; Plantas, imagens com a identificação de plantas; Construções, presença de edificações de variadas tipologias; Artesanias, todas as imagens que apresentam elementos artesanais, artesanato e objetos antropológicos; Elementos, considerou-se imagens com elementos naturais, tais como fogo, água, etc; Meios de transportes, agrupou imagens com a presença de meios de transportes terrestres e aquáticos; e Animais, imagens com a identificação de animais.
Do conjunto de imagens, três foram selecionadas por apresentarem maior aderência ao tema “Gênero e mulheres”. Optou-se por fotografias produzidas pelos próprios autores das dissertações e nas quais eles estivessem inseridos, indicando sua inserção dentro do tema de pesquisa, caracterizando práticas de fotoetnografia (Achutti, 2004). As fotografias foram analisadas tanto em seus aspectos formais e iconográficos quanto em seus elementos paratextuais, como legendas.
Considera-se a imagem não apenas como objeto de análise, mas também meio de expressão e intervenção social, tornando-se central para compreender como o gênero é produzido, negociado e transformado visualmente. “A interpretação de uma fotografia não necessita [...] de um código de deciframento compartilhado” (Pateo, 2024, p. 136). Ainda assim, cada sujeito é atravessado por significados próprios e individuais, construções socioculturais que perpassam os sujeitos imersos em uma determinada sociedade. Frequentemente, atribui-se objetividade à fotografia em contexto científico, uma suposta transparência e veracidade; todavia, a individualidade de leituras e o não controle sobre o ato de fotografar geram imagens muito mais subjetivas que os pesquisadores gostariam de aceitar. São tomadas várias fotos, mas selecionada(s) aquela(s) que melhor se ajusta(m) a proposta defendida pelo texto.
A seguir, analisamos uma imagem de um encontro de formação trazido na dissertação “Corporeidade, agroecologia e mulheres: um processo de construção de saberes por meio da Escola Regional de Mulheres do MST”.
Figura 1 - 2ª Turma da Escola Regional de Mulheres (2013)
A imagem acima retrata um momento de descontração durante uma atividade formativa, evidenciando elementos característicos dos espaços educativos vinculados a movimentos sociais. Observam-se as bandeiras dispostas no chão e as camisetas usadas pela maioria das participantes ligadas aos movimentos, o que remete a processos de construção identitária coletiva e à “democratização da participação das mulheres em seus sindicatos, organizações e movimentos sociais” (Cavalcante, 2025, p. 14). A disposição das participantes em semicírculo sugere uma organização pensada para o registro da imagem, apresentando a questão da teatralidade da imagem. Nesse contexto, a fotografia cumpre com múltiplas funções: de registro histórico, documentação pedagógica e da construção narrativa da ação formativa. Elementos do espaço físico, como a parede de madeira ao fundo, indicam adaptações estruturais, sugerindo a ressignificação do ambiente que originalmente não era destinado à educação. Tal aspecto reforça a compreensão de que práticas educativas em movimentos sociais frequentemente se dão em espaços improvisados ou reconfigurados, o que dialoga com estudos sobre pedagogias do campo e educação popular (Arroyo, 2012). A iluminação natural e a presença de vegetação visível pelas janelas marcam uma territorialidade rural, reforçando o vínculo entre a educação, a natureza e o contexto sociocultural. Ademais, nas mulheres que participam da atividade observamos posturas distintas: enquanto algumas demonstram expressividade e abertura corporal, outras apresentam gestos mais contidos. Uma delas toca o violão, as demais acompanham nas palmas, com exceção de uma que segura a cuia de chimarrão, trazendo um elemento forte da cultura local e sem presente nas reuniões sociais. As posturas divergentes entre aquelas que estão mais soltas, dispostas, expansíveis, e outras que estão acanhadas, com suas mãos e braços justos ao corpo, num processo de encolhimento reforça que mesmo em um espaço formativo somente de mulheres os posicionamentos ainda passam por graus distintos de expressão corporal, refletindo o tratamento recebido por essas mulheres na sociedade. A presença da música demonstra um deslocamento momentâneo da centralidade da figura docente, valorizando as práticas artísticas como formas de expressão e aprendizagem. A centralidade do momento passa da figura à frente, a professora, para a musicista representado um movimento dinâmico na imagem. Além disso, merece destaque que todas as mulheres estão em pé, mesmo estando dentro de uma sala de aula e em frente às suas carteiras, numa postura de luta e enfrentamento, condizente com a premissas dos movimentos sociais e os tópicos abordados na dissertação. O enquadramento da imagem, com predominância na metade inferior da fotografia ocupada pelo chão da sala, e neste, centralizadas três bandeiras de movimentos sociais distintos, busca-se ressaltar a centralidade destes no contexto performado, deslocando a centralidade das pessoas para os movimentos. Este recurso visual sugere uma intencionalidade de descaracterização do individual para enfatizar o coletivo. Tal recurso, aliado ao fato de não nomear essas mulheres na legenda da foto, pode implicar que suas individualidades e histórias são apagadas em função do bem coletivo, mais uma vez demandando seu sacrifício para a coletividade, reproduzindo um discurso muito caro ao que temos na sociedade atual (Ribeiro et al., 2025).
Na sequência, analisamos uma imagem de um encontro de formação trazido na dissertação “Reflexões sobre feminismo camponês e popular em interface com a agroecologia”:
Figura 2 - Evento alusivo à comemoração dos 40 anos do Movimento de Mulheres Camponesas realizado em Chapecó/SC/Grupo de mulheres camponesas do Paraná
A imagem da Figura 2 apresenta uma composição frontal que privilegia a visibilidade das mulheres participantes do evento comemorativo dos 40 anos do movimento Mulheres Camponesas. A centralidade das figuras femininas, combinada com a presença de símbolos como os bonés, as camisetas com referência ao 8 de Março (Dia Internacional da Mulher), evidencia uma forte intenção na construção de uma identidade feminina política e coletiva. As cores predominantes em tons de rosas e lilases e as variadas estampas são ressignificadas. Tradicionalmente associadas à fragilidade feminina no imaginário patriarcal, esses elementos são apropriados como símbolos de resistência, autoestima e afirmação identitária. Embora todas as mulheres estejam sorrindo, observa-se uma diversidade de expressões corporais que indicam diferentes níveis de pertencimento e conforto no espaço. Algumas ocupam o ambiente de maneira expansiva, enquanto outras apresentam posturas mais retraídas, evidenciando que participação não elimina as marcas individuais de socialização e experiências e a superação de tais condições é processual. O enquadramento privilegia tanto as participantes quanto a faixa alusiva ao evento, que explicita a intencionalidade e o contexto da reunião, cumprindo com o papel de referendar as informações discutidas na dissertação. A imagem, assim, cumpre uma função de validação da narrativa textual, atuando como evidência visual dos argumentos apresentados. Porém, como argumenta Mitchell (1994), as imagens não apenas ilustram discursos, mas também produzem significados próprios, inclusive por meio de suas ausências, sendo estas tão significativas quanto às presenças. Desta maneira, destacam-se algumas lacunas merecedoras de menção: a aparente homogeneidade etária levanta questionamentos sobre as ausências de crianças e idosas e suas representações em estados decisórios e de lutas. Além disso, o espaço físico ocupado pelo evento, possivelmente uma quadra esportiva, pelos indícios do chão verde e faixas brancas, parece intencionalmente ocupado ou reduzido, sugerindo uma tentativa de neutralizar elementos espaciais que poderiam diminuir a grandiosidade do evento ou desviar a atenção do tema central. Por fim, a ausência de identificação nominal das participantes da fotografia reforça um padrão observado nas imagens das dissertações com priorização do coletivo e das ações e eventos em detrimento das individualidades.
A seguir, nos debruçamos sobre a dissertação “Saberes ancestrais, alimentação e o processo de envelhecimento de mulheres indígenas do médio Rio Negro/Amazonas: contribuições para pensar as práticas agroecológicas, o bem-estar e a saúde”:
Figura 3 - Raspagem da mandioca
A imagem retrata uma atividade comunitária centrada no processamento da mandioca, elemento fundamental para a subsistência de diversas comunidades tradicionais e rurais. A composição visual destaca a mandioca no centro inferior da imagem, destacando seu protagonismo na imagem e sua centralidade como objeto de trabalho. A cena retrata uma narrativa temporal com a presença das cascas no entorno, próximas aos pés dos trabalhadores, indicando a ação em processo. A ação de descascar é processual e iniciou-se no passado. A ação continua no presente, com uma grande quantidade de raízes por destacar, mostrando a grandiosidade do trabalho por executar, e sua demanda de coletividade. As panelas ao fundo sugerem a etapa futura de preparo de produtos derivados da mandioca, a farinha, o beiju ou outros, nas quais a massa da mandioca será torrada, aquecida ou preparada. Essa articulação temporal evidencia o caráter processual do trabalho, aproximando-se de abordagens da fotoetnografia que compreendem a imagem como narrativa (Achutti, 2004). Mulheres e homens estão reunidos na mesma atividade, buscando indicar uma isonomia laboral, no entanto, embora compartilhada, a atividade mantém certa separação espacial, mulheres à esquerda da imagem e homens à direita. No centro, no ato da ação o autor da dissertação, inserindo-se na cena como sujeito e objeto da narrativa, o que levanta questões sobre autoria, participação e performatividade, pois a imagem narra e estrutura o conteúdo que se quer afirmar. A atmosfera da imagem é marcada por expressões contidas, com rostos sérios, olhares baixos e ausências de interação direta com a câmera, produzindo uma percepção de distanciamento e neutralidade. A presença da marca d’água do dispositivo móvel no canto inferior direito evidencia a mediação tecnológica na produção da imagem, reforçando que toda fotografia é resultado de escolhas, sejam de enquadramento, momento e perspectiva que, a critério do autor, incluem e excluem elementos. Mas também, como relata Flusser (2018) há um desconhecimento dos processos tecnológicos envolvidos no processo de feitura da imagem, que podem levar a mecanismos de exclusão e seleção para além da percepção do autor. A ausência de crianças e observadores periféricos intensifica a sensação de isolamento da cena, reforçando o aspecto performático da criação da imagem. Além disso, merece menção a presença de um símbolo religioso em uma das vestimentas desafiando expectativas sobre religiosidades em comunidades tradicionais. Assim, como nas imagens anteriores, destaca-se a ausência de identificação dos sujeitos retratados, o que contribui para processos de silenciamento (Ribeiro et al., 2025). A imagem, portanto, revela tanto quanto oculta, exigindo uma leitura crítica que considere seus silêncios e escolhas.
A partir da análise conjunta das três imagens pode-se identificar elementos comuns quanto a construção intencional das cenas, a centralidade do coletivo, a performatividade dos corpos e os processos de (in)visivbilização. As imagens operam como dispositivos de produção de sentido, não sendo meros registros neutros da realidade. Conforme Mirzloeff (2015), ver é um ato cultural e político. As escolhas de enquadramento, composição e seleção revelam interesses, valores e dispostas simbólicas. Um elemento comum entre as imagens é a tensão entre coletivo e individual. As imagens privilegiam narrativas coletivas, sejam movimentos sociais, eventos comemorativos ou trabalho comunitário, mas frequentemente o fazem à custa da individualidade dos sujeitos, que permanecem anônimos. Outro aspecto recorrente é a performatividade. As disposições corporais, os sorrisos, os gestos e até mesmo a aparente espontaneidade são, em certa medida, construídos para a câmera. Isso reforça a ideia que as imagens não apenas capturam a realidade, mas a encenam. Tornar-se consciente desse processo permite a busca crítica de melhor representação e menos engodo de imparcialidade sobre a produção visual. Por fim, destaca-se o papel das ausências, daquilo que não é mostrado, seja o espaço, outros sujeitos ou elementos contextuais, é tão significativo quanto o que está visível. As lacunas produzem sentidos e orientam interpretações e, exigindo uma leitura crítica e contextualizada.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo teve como objetivo analisar e mapear as dissertações defendidas no Programa de Pós Graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável (PPGADR) da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Laranjeiras do Sul, no intuito de evidenciar como as temáticas de gênero e mulheres vêm sendo debatidas em dois níveis complementares no programa, sendo eles um que evidencia o lugar das mulheres e das relações de gênero no programa e outro que identifica as principais categorias analíticas que estruturam a produção científica do programa.
Os resultados encontrados indicam a existência de um conjunto consistente de trabalhos que colocam as mulheres como sujeitas centrais de pesquisa, evidenciando a relevância do tema no âmbito do programa. O mapeamento das dissertações permitiu identificar um conjunto de categorias analíticas recorrentes de pesquisa como invisibilidade e divisão sexual do trabalho, agroecologia, movimentos sociais, saberes tradicionais, desenvolvimento rural sustentável, sistemas alimentares e reprodução social.
A análise do corpus imagético das dissertações, permitiu observar como se dão as relações de gênero no campo visual, as fotografias analisadas revelam as relações de coletividade nas atividades em grupo, a forte presença dos movimentos sociais e a performatividade dos corpos por meio de observação das posições, vestimentas e das expressões corporais, mostrando que as fotos configuram mais do que registros ilustrativos, mas como ferramentas que contribuem na compreensão das relações sociais estudadas em cada pesquisa analisada.
Por fim, este estudo contribui não apenas para o aprofundamento do debate entre gênero e agroecologia na produção acadêmica do PPGADR, mas também para mostrar quais temas constituem as dimensões fundamentais para compreender como a problemática de gênero vem sendo abordada no programa, indicando as possibilidades de aprofundamento futuro e também para reforçar e ampliar o potencial crítico e transformador dos pesquisadores e pesquisadoras em agroecologia e desenvolvimento rural sustentável.
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Este artigo é resultado de um projeto de pesquisa apoiado pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) por meio do Edital nº 154/GR/UFFS/2024 (Grupo 1 – Fomento a Subprojeto de Pesquisa Científica PES-2024-0351).
1 Professora na Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Laranjeiras do Sul/PR. Doutora em Educação nas Ciências pela Unijuí com período sanduíche na Westfälische Wilhelms-Universität, em Münster, na Alemanha. Mestre em Educação nas Ciências. Graduada em Filosofia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0670-1521
2 Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal do Paraná (UFPR), com período de pesquisas junto ao Centre for Global Women's Studies na National University of Ireland, Galway (NUI Galway). Economista formada pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), mestre em Desenvolvimento Regional pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1998-5343
3 Mestre em Agricultura Orgânica pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Técnico administrativo em Educação da Universidade Federal da Fronteira Sul Campus Laranjeiras do Sul/PR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6412-8439
4 Mestranda em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável Universidade na Universidade Federal da Fronteira Sul Campus Laranjeiras do Sul/PR. Desenvolve pesquisas no campo da agroecologia a partir de uma abordagem interdisciplinar, articulando estudos de gênero, interseccionalidade e territorialidade. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0009-0003-0049-3095