REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781154395
RESUMO
A subjetividade humana constitui-se a partir de processos históricos, sociais e culturais que incidem diretamente sobre a vida psíquica e os modos de relação do sujeito consigo mesmo e com o outro. Na contemporaneidade, tais processos assumem configurações específicas, marcadas pela fragilização dos vínculos, pela aceleração do tempo social e pela intensificação das exigências de desempenho e produtividade, produzindo novas formas de sofrimento psíquico. Este artigo tem como objetivo analisar a subjetividade humana na contemporaneidade a partir das contribuições da psicanálise freudiana, articuladas às reflexões socioculturais de autores contemporâneos. A situação problema que orienta o estudo consiste em compreender de que modo o sofrimento psíquico atual se configura entre experiências de vazio relacional e excesso de exigências, sem que isso represente uma ruptura com os conflitos estruturais descritos pela psicanálise. Justifica-se a relevância do estudo pela necessidade de ampliar a compreensão do sofrimento humano para além de leituras individualizantes e patologizantes, situando-o em sua articulação com a cultura e os modos de subjetivação contemporâneos. O referencial teórico fundamenta-se nas contribuições de Freud, especialmente em A interpretação dos sonhos (1900), O eu e o id (1923) e O mal-estar na cultura (1930), que concebem o sofrimento como efeito estrutural da relação entre pulsão e cultura. Dialogam com essa base as reflexões de Bauman (2001) sobre a modernidade líquida e a fragilização dos vínculos, de Han (2015) acerca da sociedade do desempenho e da autoexploração, bem como as contribuições de Dunker (2017) e Homem (2012), que abordam o sofrimento contemporâneo como efeito das transformações simbólicas, afetivas e relacionais. Conclui-se que o sofrimento psíquico contemporâneo resulta da conjugação entre a instabilidade dos laços sociais e a intensificação das exigências de desempenho, reafirmando a atualidade da psicanálise como campo de escuta e elaboração simbólica do mal-estar humano.
Palavras-chave: subjetividade; psicanálise; sofrimento psíquico; contemporaneidade; vínculos sociais.
ABSTRACT
Human subjectivity is constituted through historical, social, and cultural processes that directly affect psychic life and the ways individuals relate to themselves and to others. In contemporary society, these processes take on specific configurations, characterized by the weakening of social bonds, the acceleration of social time, and the intensification of demands for performance and productivity, giving rise to new forms of psychological suffering. This article aims to analyze human subjectivity in contemporary times through the contributions of Freudian psychoanalysis, articulated with the sociocultural reflections of contemporary authors. The research problem guiding this study is to understand how contemporary psychological suffering is configured between experiences of relational emptiness and excessive demands, without representing a rupture with the structural conflicts described by psychoanalysis. The relevance of this study lies in the need to broaden the understanding of human suffering beyond individualizing and pathologizing perspectives, situating it within its relationship to culture and contemporary modes of subjectivation. The theoretical framework is based on Freud’s contributions, particularly in The Interpretation of Dreams (1900), The Ego and the Id (1923), and Civilization and Its Discontents (1930), which conceive suffering as a structural effect of the relationship between drives and culture. Complementing this foundation are Bauman’s (2001) reflections on liquid modernity and the fragility of social bonds, Han’s (2015) analysis of the achievement society and self-exploitation, as well as the contributions of Dunker (2017) and Homem (2012), who address contemporary suffering as an effect of symbolic, affective, and relational transformations. It is concluded that contemporary psychological suffering results from the combination of unstable social ties and intensified performance demands, reaffirming the relevance of psychoanalysis as a field of listening and symbolic elaboration of human discontent.
Keywords: subjectivity; psychoanalysis; psychological suffering; contemporaneity; social bonds.
1. INTRODUÇÃO
A subjetividade humana constitui-se a partir de processos históricos e sociais que atravessam a vida psíquica e moldam as formas de relação do sujeito consigo mesmo e com o outro. Na contemporaneidade, tais processos assumem contornos específicos, marcados pela aceleração do tempo, pela centralidade do consumo, pela fragilização dos vínculos e pela intensificação das exigências dirigidas ao indivíduo. Esse cenário incide diretamente sobre a constituição subjetiva, produzindo novas formas de sofrimento psíquico e de elaboração do mal-estar.
A psicanálise freudiana oferece um referencial teórico fundamental para a compreensão desses fenômenos ao conceber o sujeito como atravessado pelo inconsciente e pelo conflito pulsional. Em A interpretação dos sonhos, Freud (1900) rompe com a concepção racionalista do psiquismo ao demonstrar que os atos psíquicos são amplamente determinados por processos inconscientes. Tal perspectiva permite deslocar a compreensão do sofrimento de uma lógica individualizante para uma leitura estrutural, na qual o mal-estar é compreendido como inerente à constituição do sujeito.
Ao aprofundar essa reflexão, Freud (1930), em O mal-estar na cultura, evidencia que a vida em sociedade exige renúncias pulsionais como condição para a organização da cultura e da convivência coletiva. Essas renúncias produzem tensões internas permanentes, manifestadas por meio de angústia, culpa e insatisfação, configurando o sofrimento como efeito estrutural da relação entre sujeito e cultura. Embora esse conflito seja constitutivo da experiência humana, suas formas de manifestação variam conforme o contexto histórico.
Nesse sentido, autores contemporâneos contribuem para a ampliação da análise freudiana ao refletirem sobre as transformações sociais atuais. Bauman (2001) descreve a modernidade líquida como um tempo marcado pela instabilidade das relações e pela fragilidade dos vínculos, o que repercute na dificuldade de sustentação de laços duradouros e na intensificação de sentimento de insegurança e vazio.
Paralelamente, Han (2015) analisa a sociedade do desempenho como um contexto no qual o sofrimento psíquico deixa de se organizar predominantemente pela repressão externa e passa a operar por meio da autoexigência, da produtividade incessante e da responsabilização individual pelo fracasso.
O diálogo entre Freud, Bauman e Han permite compreender que o sofrimento psíquico contemporâneo não representa uma ruptura com os conflitos estruturais da subjetividade, mas uma reconfiguração das exigências culturais e dos modos de subjetivação. Entre o vazio produzido pela fragilização dos vínculos e o excesso imposto pelas demandas de desempenho, o sujeito contemporâneo vê-se convocado a sustentar sozinho sua existência, suas escolhas e seus fracassos.
Diante desse cenário, este artigo propõe analisar a subjetividade humana na contemporaneidade, articulando as contribuições da psicanálise freudiana às reflexões críticas sobre o contexto social atual, a fim de ampliar a compreensão do sofrimento psíquico e de suas formas de elaboração.
Para alcançar o objetivo, o artigo organiza-se da seguinte forma. Na seção 2, Referencial Teórico, são apresentados os fundamentos da psicanálise freudiana, com destaque para as contribuições de Freud acerca da constituição do sujeito, do conflito pulsional e do mal-estar na cultura, bem como as leituras socioculturais de Bauman (2001) sobre a modernidade líquida e de Han sobre a sociedade do desempenho.
Na seção 3, Subjetividade, cultura e sofrimento na contemporaneidade, desenvolve-se a análise teórica propriamente dita, estruturada em três subseções. A subseção 3.1 retoma o sujeito freudiano e o sofrimento como efeito estrutural da cultura. A subseção 3.2 analisa as transformações da cultura e a fragilização dos vínculos a partir das contribuições de Bauman (2001).
A subseção 3.3 aprofunda a discussão sobre a sociedade do desempenho e as novas formas de sofrimento psíquico, articulando as reflexões de Han com as contribuições de Dunker e Homem sobre sofrimento, vínculo e empobrecimento simbólico. Por fim, a seção 4 apresenta as considerações finais, destacando as contribuições da psicanálise para a compreensão da subjetividade contemporânea e para a elaboração do sofrimento psíquico no contexto atual, a contemporaneidade e as relações entre os sujeitos.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1. Psicanálise Freudiana e a Constituição do Sujeito
A psicanálise freudiana constitui um marco na compreensão do sujeito ao deslocar o foco do psiquismo consciente para a centralidade do inconsciente, indicando que o eu não detém pleno domínio sobre os próprios atos e desejos. Em A interpretação dos sonhos, Freud (1900) sustenta que formações como sonhos, atos falhos e sintomas expressam determinações inconscientes, permitindo compreender a subjetividade como atravessada por conflitos e por processos que escapam ao controle voluntário.
Na sequência do desenvolvimento teórico, Freud aprofunda a noção de conflito ao articular pulsão, defesa e organização psíquica. Em O eu e o id, Freud (1923) propõe uma modelagem do aparelho psíquico que evidencia tensões entre instâncias e forças internas, em especial no modo como o eu negocia exigências pulsionais, realidade e interditos, o que contribui para compreender sofrimento psíquico como expressão de impasses estruturais e não como simples falha individual.
Em O mal-estar na civilização, Freud (1930) amplia a análise ao situar a experiência de sofrimento na relação entre sujeito e cultura. Para o autor, a vida em sociedade exige renúncias e regulações que incidem sobre a satisfação pulsional, tornando o conflito uma condição constitutiva da experiência humana.
Essa perspectiva sustenta a tese de que a subjetividade se forma em permanente tensão entre desejo e limites culturais, o que permite interpretar a contemporaneidade como um cenário de reconfiguração dessas exigências, com impactos diretos sobre os modos de laço e sobre a forma de elaboração do sofrimento.
2.2. Transformações dos Vínculos e Subjetividade na Modernidade Líquida
As mudanças contemporâneas nos laços sociais podem ser abordadas, no plano sociológico, pela noção de modernidade líquida, proposta por Bauman (2001). O autor descreve um contexto de instabilidade, fluidez e enfraquecimento das referências duráveis, no quais vínculos tendem a ser vividos sob a lógica da provisoriedade, com repercussões sobre a experiência de segurança, pertencimento e continuidade subjetiva. Nessa configuração, a relação com o outro tende a oscilar entre a busca por conexão e a evitação do compromisso, produzindo formas de vínculo mais frágeis e maior vulnerabilidade afetiva.
2.3. Sociedade do Desempenho, Autoexigência e Sofrimento Psíquico
A leitura crítica de Han (2015) contribui para compreender o deslocamento de modelos centrados na repressão para dinâmicas marcadas pela autoexigência, produtividade e autogerenciamento. Ao analisar a sociedade do cansaço, o autor descreve um cenário em que o imperativo de desempenho intensifica a responsabilização individual, favorecendo experiências de esgotamento e sofrimento silenciado. Essa chave interpretativa é relevante para o artigo por iluminar o modo como o excesso de demanda se articula à fragilização dos vínculos e incide sobre a constituição subjetiva, especialmente quando reconhecimento e valor passam a depender do rendimento e da performance.
2.4. Articulação Teórica para o Tema Entre o Vazio e o Excesso
A contribuição freudiana oferece base para compreender que o sofrimento não é mero acidente, mas emerge de conflitos constitutivos, intensificados e reorganizados segundo condições históricas. Bauman (2001) permite situar, no plano social, a fragilização dos vínculos e a instabilidade como fatores que potencializam experiências de insegurança e vazio. Han (2015) acrescenta a dimensão do excesso, ao evidenciar a internalização das exigências e a produção de sujeitos orientados à autoexploração. Assim, o diálogo entre os autores sustenta o eixo do artigo ao indicar que, na contemporaneidade, vazio e excesso tendem a operar conjuntamente na produção de sofrimento e nas formas de subjetivação, exigindo uma leitura que articule cultura, laço e economia psíquica.
3. SUBJETIVIDADE, CULTURA E SOFRIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE
3.1. O Sujeito Freudiano e o Sofrimento Como Efeito Estrutural da Cultura
A psicanálise freudiana inaugura uma compreensão da subjetividade que rompe com a centralidade da razão e da consciência como instâncias soberanas do psiquismo. Em A interpretação dos sonhos, Freud (1900) demonstra que os atos psíquicos são amplamente determinados por processos inconscientes, evidenciando que o sujeito não é senhor absoluto de seus pensamentos, desejos e ações.
Essa concepção inaugura uma leitura estrutural do sofrimento, deslocando-o de uma perspectiva moralizante ou individualizante para um campo no qual o conflito é constitutivo da experiência humana.
A psicanálise freudiana inaugura uma compreensão da subjetividade que rompe com a centralidade da razão e da consciência como instâncias soberanas do psiquismo. Na sua obra, A interpretação dos sonhos, Freud (1900) demonstra que os atos psíquicos são amplamente determinados por processos inconscientes, evidenciando que o sujeito não é senhor absoluto de seus pensamentos, desejos e ações. Tal formulação desloca a compreensão do sofrimento de uma perspectiva moralizante ou individualizante para uma leitura estrutural, na qual o conflito é constitutivo da experiência humana e inerente à própria condição de sujeito.
Essa concepção se torna particularmente relevante para a análise das relações na contemporaneidade. Ao desconsiderar a dimensão inconsciente, o discurso social atual tende a exigir do sujeito domínio emocional, coerência constante e autorregulação plena, produzindo a expectativa de que vínculos afetivos sejam transparentes, estáveis e plenamente controláveis.
A psicanálise, ao contrário, evidencia que o laço com o outro é atravessado por ambivalências, repetições inconscientes, desejos contraditórios e conflitos que escapam à racionalidade. Assim, as dificuldades relacionais não podem ser compreendidas apenas como falhas de comunicação ou inadequações individuais, mas como expressões de impasses estruturais do desejo e do vínculo.
Nas relações contemporâneas, marcadas pela aceleração do tempo, pela fragilização dos compromissos e pela valorização da satisfação imediata, a recusa em reconhecer o conflito e a falta como elementos constitutivos do laço tende a intensificar o sofrimento psíquico.
O outro passa a ser investido como objeto de completude ou descartado diante da frustração, o que empobrece a experiência relacional e dificulta a elaboração simbólica das perdas e dos desencontros. A leitura freudiana permite compreender que o mal-estar presente nas relações não é sinal de inadequação subjetiva, mas efeito da impossibilidade estrutural de harmonização plena entre desejo, expectativa e realidade, impossibilidade esta que se torna ainda mais evidente no contexto contemporâneo.
Tal compreensão é aprofundada quando Freud, em O mal-estar na cultura, explicita que a vida em sociedade impõe ao sujeito a renúncia pulsional como condição para a convivência coletiva (Freud, 1930). A cultura, ao organizar a vida social e oferecer proteção contra ameaças externas, exige a contenção das pulsões agressivas e sexuais, produzindo tensões internas inevitáveis. O sofrimento psíquico emerge, assim, como efeito estrutural da relação entre pulsão e cultura, manifestando-se por meio de angústia, culpa e sentimento persistente de insatisfação.
Tal compreensão é aprofundada quando Freud, em O mal-estar na cultura, explicita que a vida em sociedade impõe ao sujeito a renúncia pulsional como condição para a convivência coletiva (Freud, 1930). A cultura, ao organizar a vida social e oferecer certa proteção frente aos perigos externos, exige a contenção das pulsões agressivas e sexuais, instaurando limites à satisfação imediata do desejo.
Essa renúncia, contudo, não se realiza sem custos psíquicos, produzindo tensões internas permanentes que se expressam por meio da angústia, da culpa e de um sentimento persistente de insatisfação. O sofrimento psíquico emerge, assim, não como falha individual, mas como efeito estrutural da articulação entre pulsão e cultura.
No contexto contemporâneo, essa dinâmica freudiana adquire novas configurações no campo das relações interpessoais. Se, em modelos sociais anteriores, os limites culturais eram mais claramente delimitados por normas, instituições e papéis sociais relativamente estáveis, na atualidade observa-se uma flexibilização desses referenciais, acompanhada por uma intensificação das exigências subjetivas.
A renúncia pulsional não desaparece, mas se reorganiza, deslocando-se do campo das interdições externas para a interiorização de ideais de felicidade, desempenho afetivo e satisfação constante nos vínculos. O sujeito é convocado a amar, desejar e relacionar-se de forma plena e contínua, sem conflitos aparentes, o que intensifica o sofrimento diante da inevitável frustração.
Nesse cenário, as relações passam a ser atravessadas por uma tensão paradoxal entre liberdade e obrigação. Ao mesmo tempo em que o sujeito se percebe mais livre para escolher seus parceiros e formas de vínculo, experimenta maior responsabilização pelo sucesso ou fracasso de suas relações.
A impossibilidade de sustentar ideais de completude e harmonia relacional tende a ser vivida como inadequação pessoal, reforçando sentimento de culpa e insuficiência. A leitura freudiana permite compreender que tais impasses não resultam de falhas individuais, mas da própria condição de sujeito em cultura, cuja estrutura permanece marcada pelo conflito entre desejo, limite e laço social, ainda que sob novas formas na contemporaneidade.
Nessa perspectiva, o mal-estar não é compreendido como uma anomalia ou patologia individual, mas como uma condição inerente à própria constituição do sujeito em laço com o outro. O sujeito freudiano é, portanto, marcado por uma divisão estrutural, atravessado por conflitos que não podem ser plenamente eliminados, mas apenas simbolizados e elaborados ao longo da vida.
3.2. Transformações da Cultura e Fragilização dos Vínculos na Modernidade Líquida
As formulações de Freud fornecem uma base teórica fundamental para compreender o sofrimento psíquico, porém as transformações históricas e sociais da contemporaneidade exigem a ampliação desse debate.
Bauman (2001) descreve a modernidade líquida como um contexto marcado pela instabilidade das relações, pela fluidez dos vínculos e pela fragilização das estruturas sociais que, em períodos anteriores, ofereciam maior sustentação simbólica ao sujeito. As relações tornam-se provisórias, facilmente substituíveis e orientadas por critérios de utilidade e satisfação imediata.
As formulações de Freud fornecem uma base teórica fundamental para compreender o sofrimento psíquico ao situá-lo como efeito estrutural da relação entre sujeito e cultura. No entanto, as transformações históricas e sociais da contemporaneidade exigem a ampliação desse debate, uma vez que os modos de organização social e os vínculos interpessoais passaram por profundas reconfigurações.
Nesse sentido, Bauman (2001) descreve a modernidade líquida como um contexto marcado pela instabilidade das relações, pela fluidez dos vínculos e pela fragilização das estruturas sociais que, em períodos anteriores, ofereciam maior sustentação simbólica ao sujeito.
Na modernidade líquida, as relações tendem a ser vividas sob a lógica da provisoriedade e da substituibilidade, orientadas por critérios de utilidade, conveniência e satisfação imediata. O vínculo deixa de ser concebido como espaço de construção simbólica e de continuidade subjetiva e passa a operar como objeto de consumo, passível de descarte diante de qualquer frustração ou exigência de elaboração. Essa dinâmica produz efeitos significativos sobre a constituição da subjetividade, intensificando experiências de insegurança, instabilidade afetiva e sensação de vazio.
Do ponto de vista psíquico, a fragilização dos vínculos implica uma dificuldade crescente de sustentar laços duradouros, nos quais a falta, o conflito e a diferença possam ser simbolizados. O sujeito contemporâneo é convocado a manter-se permanentemente disponível para novas conexões, ao mesmo tempo em que evita compromissos que impliquem dependência, responsabilidade ou renúncia. Essa oscilação entre aproximação e afastamento gera relações marcadas pela ambivalência, nas quais o desejo de vínculo convive com o medo da perda de autonomia.
Ao articular Bauman (2001) com a perspectiva freudiana, torna-se possível compreender que a fluidez das relações não elimina o conflito estrutural do sujeito em cultura, mas o reconfigura. Se, em Freud, o sofrimento emerge da repressão pulsional imposta pela cultura, na modernidade líquida ele se manifesta como efeito da ausência de referências estáveis e da precarização dos laços. O sujeito permanece atravessado pelo mal-estar, agora intensificado pela exigência de gerir sozinho suas relações, seus afetos e sua identidade em um cenário marcado pela instabilidade e pela falta de garantias simbólicas duradouras.
Essa reconfiguração dos laços sociais repercute diretamente na constituição da subjetividade. O vínculo deixa de operar como espaço simbólico de continuidade e reconhecimento, passando a ser vivido sob a lógica da descartabilidade. Como consequência, intensificam-se experiências de insegurança afetiva, solidão e sensação de vazio, mesmo em meio a múltiplas conexões sociais. O sujeito contemporâneo é convocado a administrar sozinho suas relações e sua identidade, em um cenário marcado pela ausência de garantias duradouras.
O diálogo entre Freud e Bauman (2001) permite compreender que o sofrimento psíquico permanece como elemento estrutural da subjetividade, ainda que suas formas de manifestação se transformem. Se, em Freud, o mal-estar decorre da repressão pulsional imposta pela cultura, em Bauman (2001) ele se atualiza como efeito da fragilização dos vínculos e da instabilidade relacional. Trata-se, portanto, de uma mudança nas modalidades do sofrimento, e não de sua superação.
3.3. Sociedade do Desempenho, Autoexigência e Novas Formas de Sofrimento Psíquico
As reflexões de Han (2015) aprofundam a análise do sofrimento contemporâneo ao identificar a transição de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho. Segundo Han (2015), o sofrimento psíquico atual não se organiza prioritariamente em torno da repressão externa, mas da autoexigência permanente de produtividade, eficiência e superação. O sujeito passa a internalizar as demandas sociais, tornando-se simultaneamente agente e alvo da exploração.
As reflexões de Han (2015) aprofundam a análise do sofrimento contemporâneo ao identificar a transição de uma sociedade disciplinar, marcada pela coerção externa e pela normatização explícita dos comportamentos, para uma sociedade do desempenho, estruturada pela autoexigência e pela internalização das demandas sociais.
Han (2015), o sofrimento psíquico atual não se organiza prioritariamente em torno da repressão externa, mas da exigência permanente de produtividade, eficiência e superação contínua. Nesse contexto, o sujeito passa a se perceber como empreendedor de si mesmo, responsável integral por seu sucesso ou fracasso.
Essa mudança produz um deslocamento significativo na forma como o poder opera sobre a subjetividade. Se nas sociedades disciplinares o controle se exercia por meio da proibição e da vigilância, na sociedade do desempenho ele se manifesta como incentivo constante à performance e à otimização pessoal. O sujeito não se sente coagido, mas convocado a produzir cada vez mais, a corresponder a ideais elevados de eficiência, felicidade e realização. Como resultado, a exploração deixa de ser percebida como imposição externa e passa a ser vivida como escolha individual.
No plano das relações interpessoais, essa lógica repercute na transformação dos vínculos, que passam a ser atravessados por critérios de rendimento, utilidade e validação simbólica. As relações tendem a ser avaliadas a partir do quanto agregam valor, reconhecimento ou bem-estar imediato, tornando-se mais frágeis e condicionadas ao desempenho emocional e social dos envolvidos. O outro deixa de ser reconhecido em sua alteridade e passa a ocupar, muitas vezes, a função de espelho narcísico ou de suporte funcional para a manutenção da autoestima.
Do ponto de vista psíquico, a internalização das exigências sociais intensifica sentimentos de inadequação, culpa e insuficiência, uma vez que o sujeito se percebe como único responsável por não atingir os padrões esperados. O sofrimento tende a ser silenciado, pois admitir limites, cansaço ou falha passa a ser vivido como fracasso pessoal. Esse cenário favorece a emergência de estados de esgotamento psíquico, angústia persistente e desamparo, nos quais o sujeito se encontra exaurido pela exigência constante de desempenho, mas privado de espaços simbólicos de elaboração do mal-estar.
Ao dialogar com Freud e Bauman, Han permite compreender que o sofrimento contemporâneo não decorre apenas da fragilização dos vínculos ou da renúncia pulsional, mas da conjugação entre excesso de demanda e ausência de limites simbólicos claros. O sujeito permanece atravessado pelo conflito estrutural, porém agora submetido a uma lógica que exige produção contínua de si mesmo, aprofundando a experiência de vazio e intensificando o sofrimento psíquico nas relações e na constituição subjetiva.
Nesse contexto, o fracasso deixa de ser atribuído a fatores externos e passa a ser vivido como responsabilidade individual, intensificando sentimentos de inadequação e culpa. O sofrimento tende a ser silenciado, uma vez que o sujeito se percebe como único responsável por não corresponder às expectativas sociais. Esse cenário favorece a emergência de quadros de esgotamento psíquico, angústia persistente e desamparo.
As contribuições de Dunker (2025) ampliam essa leitura ao compreender o sofrimento como fenômeno intrinsecamente ligado às transformações dos modos de vida e de vínculo. Dunker (2025) destaca que o sofrimento contemporâneo não pode ser compreendido apenas como disfunção individual, mas como efeito das condições simbólicas, econômicas e afetivas que atravessam o sujeito. A precarização dos vínculos e a exigência de performance emocional dificultam os processos de simbolização e elaboração do sofrimento.
Homem (2011), por sua vez, enfatiza que a subjetividade contemporânea é marcada pela exposição constante e pela exigência de produção contínua de sentido (Homem, 2012). A dificuldade de sustentar tempos de falta, silêncio e elaboração favorece experiências de vazio e angústia, nas quais o sujeito se vê convocado a preencher permanentemente aquilo que não pode ser simbolizado de forma imediata.
A articulação entre Freud, Bauman, Han, Dunker e Homem evidencia que o sofrimento psíquico contemporâneo resulta da conjugação entre fragilização dos vínculos, intensificação da autoexigência e empobrecimento das mediações simbólicas.
As contribuições de Dunker (2025) ampliam a compreensão do sofrimento psíquico ao situá-lo como efeito direto das transformações nos modos de vida, nos vínculos e nas condições simbólicas que atravessam o sujeito na contemporaneidade. Para
Dunker (2025), o sofrimento não pode ser reduzido a uma disfunção individual ou a um desajuste intrapsíquico isolado, mas deve ser compreendido como expressão das formas pelas quais o laço social se organiza. A precarização das relações, a instabilidade dos pertencimentos e a exigência de uma performance emocional constante dificultam os processos de simbolização, comprometendo a possibilidade de elaboração do sofrimento e favorecendo experiências de desamparo e desorganização subjetiva.
Homem (2011), por sua vez, destaca que a subjetividade contemporânea é atravessada pela exposição permanente e pela exigência contínua de produção de sentido, o que reduz os espaços de silêncio, falta e elaboração psíquica (Homem, 2012). A impossibilidade de sustentar tempos de suspensão e de negatividade intensifica vivências de vazio e angústia, nas quais o sujeito se vê compelido a preencher imediatamente aquilo que não encontra mediação simbólica.
A articulação entre Freud, Bauman, Han, Dunker e Homem permite compreender que o sofrimento psíquico contemporâneo resulta da conjugação entre fragilização dos vínculos, intensificação da autoexigência e empobrecimento das mediações simbólicas, configurando modos de subjetivação marcados pela tensão entre o vazio relacional e o excesso de demandas.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise desenvolvida ao longo deste artigo permitiu compreender que a subjetividade humana na contemporaneidade se constitui em um campo atravessado por tensões estruturais que articulam dimensões psíquicas, sociais e culturais.
A partir das contribuições da psicanálise freudiana e do diálogo com autores contemporâneos, evidenciou-se que o sofrimento psíquico atual não representa uma ruptura com os conflitos constitutivos do sujeito, mas uma reconfiguração histórica das exigências culturais e dos modos de subjetivação.
Freud oferece um referencial fundamental ao situar o mal-estar como efeito estrutural da relação entre pulsão e cultura, demonstrando que a vida em sociedade implica renúncias que produzem tensões inevitáveis. Na contemporaneidade, tais tensões assumem novas formas, intensificadas pela fragilização dos vínculos descrita por Bauman e pela lógica da autoexigência analisada por Han.
O sujeito contemporâneo encontra-se, simultaneamente, exposto à instabilidade relacional e convocado a responder individualmente às demandas de desempenho, produtividade e autorrealização, o que aprofunda experiências de insegurança, vazio e esgotamento psíquico.
As contribuições de Dunker e Homem ampliam essa compreensão ao evidenciar que o sofrimento contemporâneo não pode ser reduzido a uma dimensão individual ou patológica, mas deve ser compreendido como efeito das transformações nos modos de vida, nos vínculos e nas mediações simbólicas.
A dificuldade de sustentar laços duradouros, tempos de falta e processos de elaboração simbólica compromete a possibilidade de simbolização do sofrimento, favorecendo vivências marcadas pela angústia, pela sensação de inadequação e pelo silenciamento do mal-estar.
Nesse contexto, a psicanálise mantém sua relevância ao oferecer um espaço de escuta e elaboração que resiste às lógicas de imediatismo, desempenho e patologização. Ao reconhecer a singularidade do sujeito e a dimensão inconsciente de sua experiência, a psicanálise contribui para a construção de modos mais éticos de compreensão do sofrimento humano, reafirmando a importância do vínculo, da palavra e do tempo psíquico em um mundo marcado pela aceleração, pela instabilidade das relações e pela exigência constante de produtividade.
Assim, ao situar a subjetividade contemporânea entre o vazio e o excesso, este artigo busca ampliar a compreensão dos impasses atuais e reafirmar a relevância da psicanálise como caminhos e possibilidades críticas e clínica para a leitura e compreensão do sofrimento na contemporaneidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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DUNKER, Christian. Reinvenção da intimidade: políticas do sofrimento cotidiano. São Paulo: Ubu Editora, 2025. Disponível em: https://www.ubueditora.com.br/reinvencao-da-intimidade.html. Acesso em: 6 fev. 2026.
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HOMEM, Maria. No limiar do silêncio e da letra: traços da autoria em Clarice Lispector. São Paulo: USP, 2011. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-17102011-104726/publico/2011_MariaLuciaHomem.pdf. Acesso em: 6 fev. 2026.