REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/774490450
RESUMO
Este artigo analisa a construção do herói-malandro em Memórias de um Sargento de Milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida, sob a ótica antropológica de Roberto DaMatta em Carnavais, malandros e heróis (1997). A investigação foca na "fórmula triangular" de DaMatta, que classifica os tipos sociais brasileiros entre os vértices do Caxias (a ordem), do Renunciador (o afastamento) e do Malandro (a mediação/carnavalização). Através de pesquisa bibliográfica e análise literária, discute-se como Leonardinho opera em um "entre-lugar" social, utilizando o sistema de relações pessoais e o "jeitinho" para navegar em uma estrutura marcada pela desigualdade. O estudo dialoga com a "Dialética da Malandragem" de Antonio Candido, propondo que a figura almeidiana não é apenas um tipo literário, mas uma representação da ambiguidade institucional brasileira. Conclui-se que Leonardinho encarna o herói nacional que sobrevive à margem da lei formal, transformando o rito da desordem em um mecanismo de integração social.
Palavras-chave: Roberto DaMatta; Manuel Antônio de Almeida; Malandragem; Herói Nacional; Antropologia Social.
ABSTRACT
This article analyzes the construction of the rogue-hero (herói-malandro) in Memórias de um Sargento de Milícias (1854), by Manuel Antônio de Almeida, through the anthropological lens of Roberto DaMatta’s Carnavais, malandros e heróis (1997). The investigation centers on DaMatta’s "triangular formula," which classifies Brazilian social types among the vertices of the Caxias (order), the Renunciador (withdrawal), and the Malandro (mediation/carnivalization). Through bibliographic research and literary analysis, it discusses how the character Leonardinho operates within a social "in-between" (entre-lugar), utilizing the system of personal relations and the "knack" (jeitinho) to navigate a structure marked by inequality. The study establishes a critical dialogue with Antonio Candido's "Dialectics of Roguery," proposing that the Almeidian figure transcends the literary type to become a representation of Brazilian institutional ambiguity. It concludes that Leonardinho embodies the national hero who survives on the margins of formal law, transforming the rite of disorder into a fundamental mechanism of social integration for the understanding of national identity.
Keywords: Roberto DaMatta; Manuel Antônio de Almeida; Roguery; National Hero; Social Anthropology.
1. O ESPAÇO DA MALANDRAGEM NA LITERATURA BRASILEIRA: ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
A literatura brasileira oitocentista, ao tentar mapear a identidade nacional, encontrou na zona urbana do Rio de Janeiro um terreno fértil para a subversão dos modelos europeus. Memórias de um Sargento de Milícias (1854) destaca-se nesse cenário por não sucumbir ao romantismo idealizante, preferindo as frestas da sociedade do "tempo do rei", também, tempo da lei frequentemente mediada pela simpatia e pelos laços de compadrio. Manuel Antônio de Almeida captura, com precisão quase etnográfica, uma realidade social desigual que provoca discussões profundas sobre os dramas vividos pelos sujeitos que não se encaixam nas molduras institucionais rígidas.
O presente estudo aborda a trajetória de Leonardinho de forma a não ser lida apenas como uma sucessão de peripécias picarescas, mas como um drama social que reflete o dilema brasileiro entre o indivíduo e a pessoa. Para tal, utiliza-se a moldura teórica de Roberto DaMatta, especificamente sua tipologia de heróis nacionais, para entender como o personagem se situa entre as forças coercitivas do Estado (o Caxias) e a negação mística do mundo (o Renunciador).
Nesse sentido, a análise fundamenta-se na ideia de que estamos diante de uma ideologia vocacionada à definição do "herói-malandro" em conformidade com a própria "curvatura" da sociedade brasileira. DaMatta, em seu "triângulo equilátero de ritos ou dramas", constrói uma fórmula que permite identificar Leonardinho como uma figura paradigmática. Ele não é apenas um personagem de ficção, mas um tipo social caricaturado, reconhecidamente nacional, que opera no polo da "carnavalização" e da desordem.
Diferente do "Caxias", que zela pela ordem absoluta e pela letra fria da lei — representado na obra pela figura implacável do Major Vidigal —, e do "Renunciador", que se afasta das tensões do mundo social por uma via mística ou de isolamento, Leonardinho opta pelo caminho da mediação. Sua malandragem, ou "malsinação", como o texto almeidiano sugere, é o que o impulsiona a ocupar um lugar intermediário. Ele utiliza o sistema de relações pessoais para "desnivelar" a rigidez das normas, transformando o "jeitinho" em uma ferramenta de sobrevivência e integração.
Através desse prisma, a obra de Manuel Antônio de Almeida revela-se como um espelho de uma sociedade que se balança entre polos opostos. Leonardinho, o herói nascido de "uma pisadela e um beliscão", personifica a recusa em ser apenas um indivíduo isolado perante o Estado, preferindo a proteção das "comadres" e dos padrinhos. Assim, a malandragem deixa de ser um desvio para tornar-se uma categoria de entendimento da própria brasilidade, onde o drama social é resolvido não pela reforma das estruturas, mas pela habilidade de navegar entre o Caxias e o Renunciador.
2. O TRIÂNGULO DE RITOS E DRAMAS COMO MATRIZ SOCIAL: A VISÃO DE DAMATTA
Para compreender a trajetória e a construção de Leonardinho, é preciso recorrer ao que DaMatta (1997) denomina "fórmula triangular equilátera de ritos ou dramas". Segundo o antropólogo, a sociedade brasileira não se organiza apenas de forma binária (rico/pobre ou ordem/desordem), mas sim em três grandes eixos de ação social que se manifestam em momentos específicos da vida nacional: as Paradas (militares e cívicas), as Procissões (religiosas) e o Carnaval.
Esses eixos não são apenas eventos, mas domínios simbólicos que moldam tipos de heróis distintos, nas palavras do antropólogo:
O Caxias é o herói da ordem, da lei, do sistema e do cumprimento integral de uma rotina burocrática e impessoal. O Renunciador, por outro lado, é aquele que abandona o sistema por uma via mística ou ideológica. Já o Malandro é o herói da mediação, aquele que opera nos interstícios, utilizando o sistema de relações pessoais para driblar a impessoalidade da lei (DaMatta, 1997, p. 195).
Nesta perspectiva, a sociedade é vista como uma rede arquitetada pelo malandro que "desnivela" a rigidez das normas através do "jeitinho". DaMatta explica que, no Brasil, o malandro é aquele que "descobriu que as leis são para os indivíduos, mas as exceções são para as pessoas" (DaMatta, 1997, p. 198). Essa distinção é fundamental para o entendimento de que: o indivíduo é a unidade abstrata da lei, enquanto a pessoa é o sujeito definido por suas relações e laços sociais.
Ao aplicar essa lógica à obra almeidiana, percebe-se que a malandragem de Leonardinho é uma resposta à "curvatura" de uma sociedade que se quer moderna no papel, mas opera na base do favor. O malandro ocupa o vértice da carnavalização, onde o trabalho é substituído pela astúcia. Como o próprio DaMatta reforça, "o malandro é um personagem que não quer mudar o mundo, mas sim mudar a sua posição dentro dele, sem ter que passar pelo sacrifício do trabalho ou pela rigidez da lei" (1997, p. 202). Assim, convém ressaltar que essa ideologia é vocacionada à definição de um tipo social caricaturado, mas reconhecidamente nacional. Leonardinho, portanto, não opera no vácuo; ele reage a uma realidade desigual onde os dramas sociais são resolvidos no "entre-lugar". Enquanto o Caxias tenta impor uma ordem impessoal que não encontra eco na realidade das ruas do Rio joanino, Leonardinho humaniza essa mesma realidade através da desordem criativa. Ele é o mediador que impede que o sistema se torne puramente opressivo ou puramente caótico, utilizando a malandragem como um liame que conecta as diferentes esferas da vida brasileira.
Assim, o triângulo de DaMatta serve como a bússola para entender que a "malsinação" de Leonardinho não é um erro de caráter, mas uma adaptação antropológica. Ele é a síntese do herói que sobrevive em uma estrutura de dinâmica de poder, onde a impessoalidade da lei é suplantada pelo peso das relações que, conforme Roberto Schwarz (1977), é a coexistência de ideias liberais europeias em uma base escravocrata e clientelista. Para Schwarz, o “saber com quem se está falando” não é apenas um vício de conduta, mas a manifestação prática de uma sociedade que opera por meio do favor. Ao cruzar essa visão com a antropologia de DaMatta, percebe-se que Leonardinho sobrevive justamente porque domina essa gramática social: ele sabe que, no Brasil, a eficácia de um direito depende menos do código jurídico e mais do prestígio da rede de proteção que o sustenta (Schwarz, 1977, p. 16).
A permanência dessas estruturas de mediação pessoal no Rio de Janeiro do século XIX, que permitem a existência de um Leonardinho, pode ser compreendida através do que Fragoso e Florentino (2001) denominam 'o arcaísmo como projeto'. Segundo os autores, a elite colonial e imperial não buscava uma modernização plena nos moldes europeus, mas sim a reiteração de privilégios e hierarquias tradicionais. Nesse sentido, para Fragoso; Florentino (2001), a malandragem não é um erro do sistema, mas um subproduto de uma estrutura que prioriza o clientelismo e o compadrio como formas de controle e coesão social.
3. A MALSINAÇÃO COMO NATUREZA E O DIÁLOGO COM A TRADIÇÃO MALANDRA
Diferente de outros personagens que podem transitar ocasionalmente pelo erro por necessidade ou pressão externa, Leonardinho apresenta o que Manuel Antônio de Almeida qualifica como uma "malsinação" — uma inclinação natural e quase lúdica ao desvio. Destaca-se que essa característica o afasta imediatamente do polo do Renunciador de DaMatta. Enquanto este busca uma transcendência, um isolamento ou um afastamento do mundo social (DaMatta, 1997, p. 195), Leonardinho faz o oposto: ele mergulha na realidade social com um "imperturbável sangue-frio" (ALmeida, 2012, p. 22).
A cena em que o menino assiste à briga entre Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça é o "batismo" dessa natureza. Enquanto a mãe apanha, ele "rasgava as folhas dos autos que o pai trouxera e deixara cair" (p. 22). Ao destruir os "autos" — o símbolo máximo da burocracia do Caxias —, Leonardinho não comete um erro de percurso, mas afirma sua identidade. Sua reação ao castigo — o pontapé do pai — não é a emenda ou o arrependimento, mas a fuga estratégica para os braços do padrinho barbeiro. Aqui, estabelece-se o liame fundamental da malandragem: o uso de uma relação pessoal (o compadrio) para anular a impessoalidade da punição.
Essa inclinação ao desvio sem violência sangrenta antecipa e dialoga com outros grandes tipos da literatura nacional. Podemos traçar um paralelo direto com o João Grilo, de O Auto da Compadecida de Ariano Suassuna, que, tal como Leonardinho, habita o "entre-lugar" social e utiliza a astúcia verbal para driblar autoridades e a própria morte. Ambos representam o que se define neste texto como o herói que "não quer mudar o mundo, mas mudar sua posição nele" através do drible.
Da mesma forma, Leonardinho prefigura o Pedro Archanjo, de Jorge Amado em sua obra Tenda dos Milagres, no que tange à resistência cultural à impessoalidade do sistema. Se Archanjo utiliza a cultura e o saber para mediar conflitos raciais e sociais na Bahia, Leonardinho utiliza a rede de "comadres" e o favoritismo no Rio de Janeiro joanino. Em ambos, a "arte de viver sem trabalhar" não é preguiça, mas uma recusa política silenciosa à disciplina do trabalho fabril ou burocrático que o polo do Caxias tenta impor.
Assim, ao agarrar-se às pernas do padrinho, Leonardinho inaugura uma linhagem de heróis que Roberto Schwarz (1977, p. 16) identificaria como os mestres do favor. Ele prova que, na "curvatura" da sociedade brasileira, a melhor defesa contra o rigor da lei não é a justiça, mas ter um bom padrinho que largue o "freguês com o rosto ensaboado" para acudir um afilhado "endiabrado" (Almeida, 2012, p. 23). A compreensão da "malsinação" de Leonardinho como uma marca indelével de sua personalidade permite-nos avançar para a análise de como esse herói interage com as estruturas de poder do Estado. Se a gênese do personagem é marcada pelo desvio e pela fuga para o domínio do compadrio, é no embate direto com as forças de ordem que a eficácia da malandragem é posta à prova.
O próximo item investiga como o Major Vidigal, encarnação do vértice "Caxias", acaba por ser tragado pela própria lógica do favor que tentava combater. Registra-se que a autoridade, no universo almeidiano, não é uma barreira intransponível, mas uma fronteira permeável. Esse confronto entre o Malandro e o Caxias revela que a ascensão de Leonardinho à farda de sargento não é uma rendição à ordem, mas a prova definitiva de que a mediação é a verdadeira bússola da identidade nacional brasileira.
4. ENTRE TIPOS: MAJOR VIDIGAL (O CAXIAS) VERSUS LEONARDINHO (O MALANDRO)
O confronto sistemático entre Leonardinho e o Major Vidigal revela a "curvatura da sociedade brasileira". Vidigal surge como o Caxias: o símbolo da lei e da rotina burocrática impessoal (DaMatta, 1997, p. 195). Entretanto, a força do herói-malandro reside em sua capacidade de desarmar o oponente através do sistema de relações. Nesse caso, entende-se que, Leonardinho é um sujeito que tende a ocupar o lugar intermediário da ordem/desordem. Isso se cristaliza no desfecho: através das intercessões de Maria Arregalada e do padrinho, a rigidez de Vidigal é dobrada. Ao final, o Major nomeia Leonardinho sargento, consagrando-o herói da mediação no tecido social.
Sob a ótica de DaMatta, esse lugar de mediador é o vértice do Malandro no triângulo equilátero dos ritos. Leonardinho não deseja subverter a sociedade de forma violenta ou revolucionária; sua astúcia é silenciosa e baseada na conveniência. Conforme DaMatta (1997, p. 202), "O malandro é um personagem que não quer mudar o mundo, mas sim mudar a sua posição dentro dele, sem ter que passar pelo sacrifício do trabalho ou pela rigidez da lei". A malandragem de Leonardinho é, portanto, uma forma de heroísmo à custa da astúcia, sem recorrer a violências sangrentas. Ele representa o que se pode definir como uma "caricatura reconhecida nacionalmente": o herói sem caráter que sobrevive através de vínculos de favor. Ao invés de enfrentar o Major Vidigal (o Caxias), ele o seduz e o envolve nas redes de influência de seus protetores.
A recorrência desse tipo de herói na literatura e nos dramas sociais brasileiros sugere que a figura de Leonardinho não é um caso isolado, mas uma resposta estrutural. Tem-se que, a malandragem passa a ser vista como parte da personalidade do sujeito nacional porque a sociedade, em sua "curvatura", premia aquele que sabe navegar na desordem e consagra como uma espécie de mito.
Enquanto o "Renunciador" de DaMatta seria aquele que se afasta do mundo (como o escravo que foge ou o santo que se isola), Leonardinho faz o oposto: ele se infiltra. Ele é o herói do "Carnaval", no sentido de que subverte as hierarquias sem desejar destruí-las. Sua malandragem pode ser visto como uma "malsinação" porque a empurra para o lugar intermediário. Ele não busca o trabalho formal (rechaçado pelo malandro), mas também não busca o isolamento. Ele vive do favor, do padrinho barbeiro, da proteção das "comadres". É a personificação do que DaMatta chama de "a arte de viver sem trabalhar", não por preguiça, mas por uma resistência cultural à impessoalidade do sistema produtivo.
No trecho:
o menino correu para a loja do barbeiro e agarrou-se às suas pernas. [...] o compadre olhou. desculpando-se com o freguês, saiu da loja e foi ver o que se passava, embora já adivinhasse o que acabara de acontecer. [...] — deixe estar, compadre, disse o barbeiro, o rapazinho não tem culpa... eu tomo tudo sobre mim; ele de hoje em diante fica por minha conta. (Almeida, 2012, p. 23).
Quando o barbeiro diz que o menino fica "por sua conta", ele retira Leonardinho da lógica da sobrevivência pelo trabalho ou pela disciplina familiar, inserindo-o no domínio do favor. Como você aponta, não é preguiça, mas a utilização de um "lugar intermediário" onde a proteção pessoal é mais eficaz que qualquer lei. Após esse evento, o que se mostra é o papel das "Comadres" e Padrinhos numa rede de favor que se rede se expande. Leonardinho vive de casa em casa, ora com o padrinho, ora com a madrinha, e é essa circulação que DaMatta (1997, p. 202) define como a habilidade de "mudar a sua posição no mundo sem ter que passar pelo sacrifício do trabalho". Para tratar da “personificação da arte de viver” cunhada por DaMatta, observa-se que, o fato de o padrinho largar um "freguês com o rosto ensaboado" para atender ao afilhado mostra que, no universo de Leonardinho, os laços humanos e de compadrio estão sempre acima dessa impessoalidade do serviço ou do sistema produtivo. Nesse sentido, o que se entende por "malsinação" de Leonardinho é, na verdade, um batismo nessa rede de favores que Roberto Schwarz identifica como a base da vida social brasileira da época.
Leonardinho transforma a sua exclusão inicial em uma vantagem estratégica. Ao não se fixar nem na ordem absoluta, nem na renúncia total, ele torna-se o herói da "carnavalização" permanente. Ele é a prova de que, no universo almeidiano, o destino não é algo a ser seguido passivamente, mas algo a ser "malandreado" através das relações de simpatia e apadrinhamento.
Por outro lado, apresenta-se o Major Vidigal como o Caxias no universo almeidiano. Ele é a lei encarnada, o terror dos vadios e o símbolo da ordem que não aceita mediações. Entretanto, a genialidade de Manuel Antônio de Almeida reside em mostrar que, no Brasil, até o Caxias é permeável. Ao final do romance, quando Vidigal perdoa Leonardinho e o nomeia sargento por influência de Maria Arregalada, vemos a vitória da malandragem sobre a rigidez institucional.
5. A DIALÉTICA DE CANDIDO E A ANTROPOLOGIA DE DAMATTA
É impossível tratar da malandragem sem citar Antonio Candido. Em Dialética da Malandragem (1970), Candido observa que a obra de Almeida reflete uma sociedade de "vizinhança e favor". A contribuição de DaMatta expande essa visão ao dar um nome antropológico a esse movimento: o malandro é o navegador do "jeitinho".
Essa estrutura de relações que sustenta a malandragem de Leonardinho não é um fenômeno isolado, mas reflete o que Fragoso e Florentino (2001) denominam como um 'arcaísmo como projeto', onde as hierarquias tradicionais se preservam através de mecanismos de clientelismo. Nesse cenário, o 'jeitinho' brasileiro, analisado por Francisco de Oliveira (2012), deixa de ser uma simples esperteza para se tornar uma tentativa de interpretação do caráter nacional, uma forma de navegação social em que o sujeito tenta humanizar uma estrutura inerentemente desigual.
Leonardinho não é um vilão. Ele é, antes, um mediador que denuncia a "curvatura da sociedade brasileira". Ele demonstra que, em um país onde a lei é sentida como algo externo e opressor (o Caxias), a malandragem torna-se um mecanismo de sobrevivência e, ironicamente, de ordem social — uma ordem baseada na amizade e no parentesco, e não no contrato social.
Levando em conta o embate de tipos sociais como Major Vidigal e leonardinho, percebe-se que o clímax do drama social em Memórias de um Sargento de Milícias não reside apenas nas peripécias de Leonardinho, mas no confronto sistemático entre ele e o Major Vidigal. Como proposto nesta análise, estamos diante de uma realidade social desigual que provoca discussões sobre os dramas vividos, chegando ao nível da representação de diversos atores e papéis sociais no campo da literatura.
Assim, ver-se Major Vidigal na obra como a encarnação do vértice que DaMatta denomina Caxias. Ele é o símbolo da ordem, da lei e do sistema. Sua função é patrulhar a cidade e eliminar a vadiagem, operando sob uma lógica de cumprimento integral de uma rotina burocrática e impessoal. No entanto, o texto almeidiano revela a "dinâmica da sociedade" ao mostrar que mesmo o Caxias, no Brasil, não é imune às relações pessoais. Vidigal persegue Leonardinho não apenas pelo crime em si, mas pelo que ele representa: a desordem carnavalizada que desafia a autoridade. Entretanto, a força do herói-malandro reside em sua capacidade de não se dobrar à violência sangrenta, mas de utilizar a astúcia para desarmar o oponente.
A vitória da mediação e do lugar intermediário é registrada na recuperação de Leonardinho como um sujeito que tende a ocupar esse lugar da ordem/desordem na sociedade. Essa posição fica clara no desfecho da obra. Quando Leonardinho é finalmente capturado e corre o risco de sofrer as penas rigorosas da lei, entra em cena a rede de proteção que caracteriza o "jeitinho". Através das intercessões de Maria Arregalada (antigo amor de Vidigal) e do padrinho barbeiro, a rigidez do Caxias é dobrada. O Major Vidigal, que deveria ser o garantidor da punição, acaba por promover Leonardinho a Sargento de Milícias. Esta cena é o exemplo máximo da ideologia da malandragem sob a ótica de DaMatta: "No Brasil, o malandro é aquele que consegue transformar um conflito de leis em uma negociação de pessoas. Ele faz com que o 'Caxias' reconheça o laço humano acima do código legal" (DaMatta, 1997, p. 205).
Nesta análise, tomando o mito do heroísmo à custa da astúcia e considerando a farda como uma extensão do favor, a trajetória de Leonardinho culmina em uma aparente contradição: o vadio que se torna sargento. No entanto, como entende-se que Leonardinho faz tantas diabruras que sua malandragem passa a ser vista não como um desvio momentâneo, mas como parte constituinte de sua personalidade. Essa "malsinação" não se resolve pela punição, mas pela acomodação. Ao ser nomeado sargento, ele não se torna um defensor da ordem por convicção ou dever cívico, mas por um "arranjo" tipicamente brasileiro que mantém seu status de mediador entre o legal e o real.
A cena da nomeação é o exemplo máximo dessa "carnavalização" das instituições. Após uma vida de fugas do Major Vidigal, o herói é salvo pela rede de proteção que o circunda. O narrador descreve a mudança de status de forma quase irônica, ressaltando que a farda não apaga o malandro:
Leonardo foi o primeiro que se apresentou para o serviço: apareceu fardado da cabeça até os pés, com uma certa arrogância de quem se sente protegido por altos personagens. O Major Vidigal, ao vê-lo, não pôde deixar de sorrir; lembrou-se de quantas vezes o tinha perseguido pelas ruas e de como agora o via ali, sob as suas ordens, por força de um empenho que não podia recusar (Almeida, 2012, p. 158).
Aqui, a figura de Vidigal — o Caxias — é domesticada pelo sistema de relações. O Major reconhece que Leonardinho está ali "por força de um empenho", ou seja, pelo favor. Isso nos remete ao que Roberto Schwarz (1977, p. 16) define como a "prática geral do favor" que desloca a universalidade da lei. Leonardinho não vence o sistema pelo confronto, mas pelo drible; ele traz as obrigações do Caxias para o terreno do favor, onde a sua inclinação ao desvio deixa de ser um estigma para se tornar uma ferramenta estratégica de ascensão social.
Pela recorrência desse tipo de herói sem caráter em outros dramas sociais — que DaMatta (1997, p. 198) identifica como o herói que "descobriu que as leis são para os indivíduos, mas as exceções são para as pessoas" —, temos uma caricatura reconhecida nacionalmente: o herói-malandro em liames diferenciados. Leonardinho prova que, no "tempo do rei", a melhor forma de lidar com a rigidez das "paradas" militares e burocráticas é filtrá-las pela lógica do Carnaval.
Sua vitória final — o casamento com Luisinha e a patente de sargento — sela o mito do heroísmo à custa da astúcia. Ele permanece no lugar intermediário: possui a autoridade da farda, mas mantém a alma da vadiagem, provando que na constituição da sociedade brasileira, a ordem é apenas uma desordem que soube se arranjar através de bons padrinhos.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS: O HERÓI-MALANDRO COMO SÍNTESE NACIONAL
A análise de Memórias de um Sargento de Milícias sob a ótica de Roberto DaMatta permite concluir que a figura de Leonardinho não é apenas um personagem literário, mas a representação de uma ideologia vocacionada à definição do herói-malandro em conformidade com a própria "curvatura" da sociedade brasileira. Ao longo deste estudo, demonstrou-se como o personagem almeidiano representa um tipo social caricaturado e reconhecidamente nacional.
É consensual que estamos diante de uma realidade social desigual que provoca discussões sobre os dramas sociais vividos. Leonardinho, ao se situar entre o rigor do Major Vidigal (o Caxias) e a passividade do Renunciador, apresenta-se coerente aos dramas que impulsionam o sujeito a ocupar um lugar intermediário na sociedade. Ele é o herói que faz tantas diabruras e age com tanta astúcia que sua malandragem passa a ser vista como parte de sua personalidade pelos que com ele convivem.
Sua trajetória prova que, no Brasil, a ordem e a desordem não são excludentes, mas faces de uma mesma moeda mediada pelo favor. Pela recorrência desse tipo de herói sem caráter em outros dramas sociais, temos uma caricatura reconhecida nacionalmente: o herói-malandro em liames diferenciados que, no entanto, tende sempre a ocupar esse lugar intermediário da ordem/desordem na sociedade.
Em última análise, o herói de Manuel Antônio de Almeida sobrevive e ascende não pela negação do sistema, mas pela sua "carnavalização". Ele nos ensina que, em uma estrutura social moldada pelo “jeitinho brasileiro”a malandragem é o recurso das "pessoas" para garantir seu espaço e sua humanidade.
Em suma, a trajetória de Leonardinho prova que a malandragem não é um erro de caráter, mas uma adaptação antropológica. Ele representa um tipo social caricaturado e reconhecidamente nacional, uma figura-mito de um heroísmo que se constrói à custa de sua astúcia, sem a necessidade de uma violência mais sangrenta.
Como você conclui em seu texto, Leonardinho é o herói-malandro que, por meio de liames diferenciados, tende sempre a ocupar esse lugar intermediário na sociedade brasileira, onde a "malsinação" deixa de ser um estigma para se tornar a ferramenta definitiva de sobrevivência entre o Caxias e o Renunciador.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um Sargento de Milícias (1854). 6. ed. São Paulo: Martin Claret, 2012.
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SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 34. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2005.
1 Professora Doutora. IFPI
2 Professor Doutor. UPFI
3 Professora Mestra. UNAMA
4 Professora Doutora. UFPI