ENTRE LINGUAGEM E LITERATURA: UMA ABORDAGEM ESTILÍSTICA DA POESIA DE ADAILTON MEDEIROS

BETWEEN LANGUAGE AND LITERATURE: A STYLISTIC APPROACH TO THE POETRY OF ADAILTON MEDEIROS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790001159

RESUMO
A estilística, como disciplina que estuda os recursos linguístico-expressivos da linguagem, oferece uma variedade de ferramentas que podem ser exploradas para promover a apreciação e compreensão da literatura. Além de sua função emancipatória e reflexiva, o texto literário proporciona entretenimento e prazer estético aos leitores. Partindo desse pressuposto, o presente artigo objetiva apresentar uma proposta de letramento literário, tendo como base a poesia do autor caxiense, Adailton Medeiros. As obras do autor abordam uma ampla gama de questões sociais, políticas, éticas e filosóficas, capazes de estimular a reflexão crítica e o debate intelectual entre os livros e os leitores. Nesse sentindo, a estilística vem destacar a profusão de estratégias aplicadas ao texto literário para transformá-lo em um captador de atenção, imaginário e espaço para manifestações diversas, bem como seu aspecto facilitador para a construção do leitor literário. O presente trabalho resulta de uma pesquisa bibliográfica, tendo como aporte teórico, Rocha (2014), Cosson (2021), Rodrigues (2005) e outros.
Palavras-chave: estilística; letramento; literatura.

ABSTRACT
Stylistics, as a discipline that studies the linguistic-expressive resources of language, offers a variety of tools that can be explored to promote the appreciation and understanding of literature. In addition to its emancipatory and reflective function, literary texts provide entertainment and aesthetic pleasure to readers. Based on this premise, the present article aims to propose a model for literary literacy, based on the poetry of the Caxias author, Adailton Medeiros. The author's works address a wide range of social, political, ethical, and philosophical issues, capable of stimulating critical reflection and intellectual debate among books and readers. In this sense, stylistics highlights the profusion of strategies applied to the literary text, transforming it into a vehicle for capturing attention, imagining, and providing space for diverse manifestations, as well as facilitating the construction of the literary reader. This paper results from a bibliographic research, drawing theoretical support from Rocha (2014), Cosson (2021), Rodrigues (2005), and others.
Keywords: stylistics; literacy; literature.

1. INTRODUÇÃO

É fundamental repensar as formas de ensinar literatura, considerando que o incentivo ao letramento literário deve ser contínuo. A simples alfabetização não basta; é essencial que o aluno leia, sinta e compreenda o texto de maneira completa. Diante disso, esta pesquisa tem como objetivo apresentar uma proposta de letramento literário por meio da leitura de poemas, utilizando, em especial, a obra do poeta caxiense/maranhense Adailton Medeiros. A escolha se justifica pela expressividade de sua produção literária, que se destaca pelo uso de recursos estilísticos capazes de tornar o texto mais atrativo ao leitor. Essa riqueza linguística favorece diversas interpretações, conferindo ao texto um caráter dinâmico.

Este artigo fundamenta a escolha do poema Através da história com base em seu potencial expressivo e estético, característico da linguagem poética. A poesia, ao condensar significados em formas breves e densas, possibilita uma experiência de leitura que conduz o leitor ao núcleo da expressão artística, por meio da musicalidade, das imagens evocativas e da valorização estética da linguagem. Ressalta-se que a proposta aqui apresentada não se configura como solução definitiva, mas como uma recomendação flexível, passível de adaptação a distintas realidades educacionais.

2. INCENTIVO À LEITURA LITERÁRIA POR INTERMÉDIO DOS RECURSOS LINGUÍSTICO-EXPRESSIVOS

A estilística, como disciplina que estuda os recursos linguístico-expressivos da linguagem, oferece uma variedade de ferramentas que podem ser exploradas para promover a apreciação e compreensão da literatura. Para Henriques (2010, p.93), “a estilística é parte indispensável nos estudos do português e é preciso examinar seus vínculos com o léxico, com a sintaxe, a morfologia, a fonética e a fonologia”. Cressot (1980, p.20), por sua vez, complementa: “a estilística coordena estes diversos contributos numa nova síntese, com objetivos que lhe são próprios: a determinação da relação qualitativa e quantitativa entre a expressão e o sentimento expresso numa dada circunstância”.

Além de sua função educativa e reflexiva, o texto literário proporciona entretenimento e prazer estético aos leitores. A habilidade dos escritores em criar histórias envolventes, poesias emocionantes e diálogos marcantes cativa o público e enriquece a experiência de leitura. Tratando a poesia individualmente para a presente sugestão de estudo, vê-se que:

A linguagem poética não detém um significado convencional, é utilizada pelo artista tendo em vista as possibilidades de criação. Uma mesma palavra pode corresponder a significados distintos, dados pelo leitor de acordo com seu grau de conhecimento linguístico e/ou cultural (Rocha, 2014, p. 56).

Advém da estilística o estilo singular de cada autor e como ele interage com os aspectos disponíveis dentro dessa área da literatura, pois, o estilo literário é “um fenômeno de linguagem escrita que pressupõe uma utilização particularizada (singular ou coletiva) da língua, com algumas finalidades, entre elas a de alcançar a beleza” (Rodrigues, 2005, p.128).

As obras de Adailton Medeiros abordam uma ampla gama de questões sociais, políticas, éticas e filosóficas, capazes de estimular a reflexão crítica e o debate intelectual entre os livros e os leitores. Seus textos literários provocam questionamentos sobre justiça, liberdade, identidade, moralidade e outros temas importantes na sociedade, retratando, de forma pessoal, cada evento, enquanto ainda possibilita espaço para compreensões de “espectadores”, aqui, seus leitores. A respeito disso, cabe destacar que “o uso da palavra no poema nem sempre deixa explícito o pensamento, dando margem ao leitor a expectativas, à criação de novos significados, enfim, tornando-o mais dinâmico no preenchimento das lacunas deixadas pelo poeta” (Rocha, 2014, p.42).

A leitura de poemas é uma jornada intensa e direcionada ao âmago da expressão artística. Com formas compactas e concentradas, exploram a linguagem de maneira inovadora e estética, convidando os leitores a apreciar a beleza das palavras, a sonoridade das frases e as imagens evocativas que criam. São veículos poderosos para a expressão de emoções universais, permitindo o contato com experiências intensas e complexas, oferecendo conforto, inspiração e conexão com os outros.

A forma concisa dos poemas exige atenção especial dos leitores, desenvolvendo a capacidade de concentração e síntese. Nesse espaço limitado de texto, os leitores captam significados e nuances que enriquecem a experiência literária. Cabe ainda citar a expansão do repertório literário, oferecendo um terreno fértil para explorar técnicas poéticas e desenvolver habilidades interpretativas. Assim, os poemas não apenas encantam com sua linguagem única, mas também são um convite para uma jornada introspectiva e enriquecedora, moldando a competência literária dos leitores.

A familiaridade com livros desse nicho concede mais desenvoltura no processo de aprendizagem, comprovando que “a exposição a uma quantidade variada de livros e materiais de leitura proporciona o embasamento necessário para crianças e jovens lidarem com diferentes situações da vida e compreenderem mais facilmente o universo” (Rigoleto; Di Giorgi, 2009, p.234).

Em sala de aula, como proposto por Silva, nota-se a possibilidade de trabalhar os poemas (produções feitas pelos próprios alunos ou análise de textos já existentes, como os de Adailton Medeiros) e suas figuras de linguagem como recursos expressivos:

Não se trata apenas de expor o conceito de cada figura de linguagem, seguido de uma frase que funcionaria como um exemplo descontextualizado, mas, sim, discutir como as figuras de linguagem são usadas nas produções poéticas para que os estudantes possam perceber as possibilidades que dispõem para escrever seus próprios poemas. (Silva, 2022, p.62)

Para além da sala de aula, Silva (2022, p.90) demonstra a possibilidade de práticas que podem suprir a necessidade da potencialização na formação dos leitores literários, como eventos, clubes e espaços literários: “a sociabilidade em torno da leitura de obras literárias é fundamental para o letramento literário, porque é pela e na interação social que os sujeitos podem se constituir como leitores”.

Em suma, levanta-se a importância da motivação da leitura literária na contemporaneidade, trazendo um novo significado para literatura, uma ideia que mantenha os indivíduos leitores abertos ao que poderá ser oferecido de acordo com a cultura e seus avanços – agarrando-se a ideia da criticidade e indagação acerca de um futuro promissor no meio literário.

3. ADAILTON MEDEIROS: UM POETA APTO A PREENCHER O ESPAÇO LITERÁRIO EM SALA DE AULA

Adailton Medeiros nasceu em 16 de julho de 1938, em um povoado nomeado Angical, na zona rural de Caxias, Maranhão. Ainda que carregando consigo memórias de sua cidade natal – que viriam a ganhar grande destaque dentro de seus livros –, Medeiros passou a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro. Inicialmente, o filho mais velho de uma família que seria composta, futuramente, por dez irmãos, teve como pai, Nadir Medeiros, e como mãe, Raimunda Borges de Lemos. Adailton era considerado um homem bondoso e dedicado, exemplo para seus irmãos, citado até mesmo como o sustentáculo da família.

Antes de sua primeira viagem para o Rio de Janeiro, o escritor foi para a cidade de Caxias, especificamente para o Bairro Cangalheiro, na Rua do Fio. Em seguida, junto aos seus familiares, mudou-se para a Rua do Cotovelo. Vale ressaltar o apego às suas lembranças, visto que essas informações são referenciadas em alguns de seus poemas em uma tentativa de relembrar e reviver momentos marcantes da juventude recebendo destaque dentro da literatura produzida por ele por meio de descrições ou personagens valorosos da época. A literatura adailtoniana surge a partir desses aspectos autobiográficos e humanistas que revolvem todas as suas obras, unindo as diferentes realidades vividas pelo autor.

Em 1961, Adailton vai para o Rio de Janeiro de forma definitiva graças à sua irmã Adailma. O autor trabalha por um tempo com contabilidade, em seguida, adentra o universo das Letras, onde se formou em Jornalismo e se tornou Mestre em Literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A paixão que sentia pela literatura era forte, mas a religião cativou a vida de Adailton Medeiros temporariamente, tornando-o Irmão Cirilo Alexandrino, do Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, durante quatro anos (1990-1994). Renunciou à vida religiosa para se dedicar à vida de escritor, buscando, durante seus anos em vida, eternizar seu nome nos livros. Sua bibliografia figura em sete livros, sendo eles: Oculto Piano, O Sol Fala aos Sete Reis das Leis das Aves, CristóVÃO Cristo: Imitações, Revoltoso Ribamar Palmeira, Poema Ser Poética e Mais Oito Pré-textos, Lição dc Mundo e Bandeira Vermelha.

Seu primeiro livro, Oculto Piano (1958-1959), é descoberto, após a morte de Adailton, por sua irmã Adailma. O livro apresenta diversas reflexões em sonetos, menções à Caxias, sua cidade natal e recordações de sua infância; O Sol Fala aos Sete Reis das Leis das Aves (1972) é sua segunda produção, uma dedicatória aos pais envolvendo traços modernistas e o praxismo (poesia-práxis), movimento literário no qual o autor se destaca como representante; publicado no Maranhão, em São Luís, CristóVÃO Cristo : Imitações (1976) é seu terceiro livro, focado novamente na Poesia-Práxis; Seu quarto livro, Revoltoso Ribamar Palmeira (1978), é uma experiência realizada por Adailton no meio da prosa, um romance com características históricas focadas no Maranhão; Poema Ser Poética e Mais Oito Pré-textos (1981) é sua quinta obra, uma dissertação de mestrado apresentada em versos; sua penúltima obra, Lição do Mundo (1992), é uma dedicatória ao avô, Honorato Medeiros, reunindo poemas datados de 1978-1990, composto por elementos autobiográficos e autorreferências abrangendo diversos assuntos, como solidão, política, religião, etc.; por fim, Bandeira Vermelha (2001), uma reedição do livro As Mulheres e As Coisas, do mesmo ano, se trata de uma junção de memórias, homenagens, seus pensamentos e opiniões.

Adailton Medeiros faleceu em 9 de fevereiro de 2010, no Rio de Janeiro, aos setenta e um anos de idade, após uma cirurgia no estômago. Suas cinzas foram depositadas no Mosteiro de São Bento, na cripta de Nossa Senhora do Pilar. O autor é considerado referência na vanguarda poética brasileira e um dos representantes da Poesia-Práxis, importância co-literária (ao lado de Mário Chamie) confirmada em diversos registros, como exemplos: o livro Pedro Geraldo Escosteguy: A Poética que Ultrapassa Fronteiras (Porto Alegre: ediPUCRS, 2021), de Soraya Patrícia Rossi Bragança; e o livro Música Popular e Moderna Poesia Brasileira (São Paulo: Nova Alexandria, 2013), de Affonso Romano de Sant’Anna.

O autor caxiense tornou-se membro da Academia Brasileira de Literatura, da Academia Internacional de Ciências Humanísticas (Uruguaiana - RS), do Instituto Histórico e Geográfico de Uruguaiana, do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro, da Academia Uruguaiense de Letras (Uruguaiana), da Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro, da Associação Brasileira de Imprensa, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, da Academia Caxiense de Letras e da International Writers and Artist Association (Toledo, Ohio, Estados Unidos).

Cabe ressaltar que as informações biográficas utilizadas foram majoritariamente retiradas da coletânea de livros “Obra Reunida” (2022), que contém todas as obras escritas por Adailton Medeiros. Edmilson Sanches, membro da Academia Caxiense de Letras, da Academia Maranhense de Ciências, do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias, do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e da Academia Internacional de Literatura Brasileira (Estados Unidos), foi o responsável pela introdução/apresentação da produção, cedendo informações relevantes sobre a vida do poeta para leitores e pesquisadores interessados.

4. A CRESCENTE NECESSIDADE DO INCENTIVO À LEITURA NA ESCOLA

Uma das razões para o incentivo à leitura persistir como um desafio é a desvalorização da literatura enquanto disciplina, onde alguns podem pontuar até mesmo como um saber desnecessário, como afirma Cosson (2021, p.10).

é essa postura arrogante com relação ao saber literário que leva a literatura a ser tratada como apêndice da disciplina de Língua Portuguesa, quer pela sobreposição a simples literatura no ensino fundamental, quer pela redução da literatura como história literária no ensino médio.

Constata-se que é necessário um olhar atento para perceber na literatura bem mais que o óbvio apresentado na superficialidade do texto, pois a prática da literatura, seja pela leitura, seja pela escrita, consiste exatamente em uma exploração das potencialidades da linguagem, da palavra, e da escrita (Cosson, 2021, p.16), é essa potencialidade que deve ser apresentada aos alunos/leitores em formação. Os alunos precisam descobrir, no texto literário, as plurissignificações resultantes de um trabalho minucioso, capaz de revelar um estilo autoral e singular do escritor e que se mistura à sua obra. No que compete ao estilo, é correto afirmar que é a maneira de escrever, a utilização pelo escritor dos meios de expressão para fins literários, distinguindo-se, portanto, da gramática, que define o sentido e correção das formas (Guiraud, 1970, p. 17). Nesse ínterim, a estilística vem destacar a profusão de estratégias aplicadas ao texto literário para transformá-lo em um captador de atenção, imaginário e espaço para manifestações diversas, uma vez que no texto literário:

há valores expressivos que traduzem os sentimentos, os desejos, o caráter, o temperamento, a origem social, a situação do indivíduo falante, e valores imprecisos que representam suas intenções deliberadas, a impressão que ele quer produzir, valores de grande importância na expressão literária (Guiraud, 1970, p.97)

E são essas possibilidades que devem ser apresentadas para o aluno ao trabalhar o texto literário, sendo essa, uma recomendação explícita na Base Nacional Comum Curricular, ao elencar, na disciplina de Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental anos finais no que compete o campo artístico e literário.

o descritor (EF69LP48) que aponta a necessidade de interpretar, em poemas, efeitos produzidos pelo uso de recursos expressivos sonoros (estrofação, rimas, aliterações etc), semânticos (figuras de linguagem, por exemplo), gráfico espacial (distribuição da mancha gráfica no papel), imagens e sua relação com o texto verbal (Brasil, 2018, p.65).

Ao incentivar interpretações aliadas aos recursos expressivos, professores e alunos serão conduzidos a múltiplas possibilidades dentro do texto literário. Conclui-se então, com Rodrigues (2005, p.123), que “o texto literário se sujeita a várias miradas, tudo dependendo do gosto e do interesse do analista”.

5. PROPOSTA DE INCENTIVO À LEITURA LITERÁRIA A PARTIR DA POESIA DE ADAILTON MEDEIROS

As práticas de salas de aula precisam contemplar o processo de letramento literário e não apenas a mera leitura das obras (Cosson, 2021, p.47), uma vez que letramento se trata não da aquisição da habilidade de ler e escrever, como concebemos usualmente a alfabetização, mas sim da apropriação da escrita e das práticas sociais que estão a ela relacionadas (Cosson, 2021, p.11).

Nesse cenário, o professor deve mediar o contato com obras literárias de forma que o aluno/leitor se sinta atraído para desvendar as plurissignificações presentes no texto. O que ainda acontece de forma tímida na escola, espaço onde se dá o primeiro contato com a leitura, visto que ainda vigoram “metodologias em que o aluno apenas extrai informações contidas na superfície do texto, sem ser orientado a entrar nas estruturas textuais mais profundas para construir sentidos. (Rocha, 2014, p.25).

Assim é necessária uma abordagem interativa entre texto e leitor para que em sala sejam constatadas que “as potencialidades expressivas vão além da função denotativa, pois ultrapassam e se desvinculam do propósito puramente normativo, numa demonstração de novas possibilidades de abordagem” (Rocha, 2014, p.25). Para tanto, elencamos algumas sugestões de atividades que podem ser implementadas em sala de aula a partir da poesia Adailtoniana. Ressalta-se que as atividades sugeridas devem ser vistas como exemplos do que pode ser feito e não modelos que devem ser seguidos cegamente (Cosson, 2021, p. 48). Cosson propõe como incentivo à leitura uma sequência básica para inserir o letramento literário na escola. Essa sequência básica é constituída por quatro passos: motivação, introdução, leitura e interpretação. A título de ilustração, escolheu-se o poema, Através da história, do livro Oculto piano, para exemplificar a proposta.

Através da história

Compondo Caxias do passado,
Que presente nada mais é,
lá está o Alecrim pasmado
pois lá, há de pasmar até!...

Na história do Maranhão
com a Balaiada se resume…
De lembranças resta um canhão
enferrujado lá no cume!

Hoje vivendo do passado…
No presente, topografado
para sonho de irrealidade.

Coberto de dor e saudade,
e verde folhagem, que invade
os escombros abandonados...

(Medeiros, 2022, p. 67)

Inicialmente o professor deve criar uma situação fictícia que induza os alunos a manipular o livro do autor trabalhado, nesse contexto, Adailton Medeiros. Com uma oficina, por exemplo, o professor pode pedir aos alunos que manipulem os livros, organizem e identifiquem os títulos dos livros e dos poemas. Em seguida, relatem a impressão inicial sobre a obra a partir das poucas informações disponibilizadas em capas e títulos em uma síntese. Por conseguinte, devem compartilhar com a turma suas impressões registradas. Crianças, adolescentes e adultos embarcam com mais entusiasmo nas propostas de motivação e consequentemente, na leitura quando há uma moldura, uma situação que lhes permitem interagir de modo criativo com as palavras (Cosson, 2021, p. 53). Esse primeiro passo, denominado motivação, indica que seu objetivo consiste exatamente em preparar o aluno para entrar no texto.

Essa proposta de motivação envolve conjuntamente atividades de leitura, escrita e oralidade, e isso corrobora para um ensino efetivo de língua materna na escola, pois não há sentido em separar o ensino da literatura do ensino de língua portuguesa porque um está contido no outro (Cosson, 2021, p. 57).

O segundo passo é propiciar aos alunos leitores uma introdução, chamamos de introdução a apresentação do autor da obra (Cosson,2021, p.57). Esse momento não deve se transformar em uma longa aula sobre a vida do escritor, com detalhes biográficos que interessam a pesquisadores, mas não são importantes para quem vai ler um dos seus textos.

A leitura não pretende reconstituir a intenção do autor ao escrever aquela obra, mas aquilo que está dito para o leitor. No momento da introdução é suficiente que se forneçam informações básicas sobre o autor e, se possível, ligadas ao texto trabalhado (Cosson, 2021, p.60). Ao apresentar o autor e sua obra para os alunos caxienses, por exemplo, é relevante chamar atenção dos leitores para o fato do autor ser conterrâneo e que possivelmente o escritor passou pelos mesmos lugares que os alunos atualmente frequentam.

Essa familiarização entre autor e leitor é fundamental para fortalecer os laços de afetividade e curiosidade com o texto literário. Ao trabalhar o poema, Através da história, o aluno pode compartilhar se tem familiaridade com o poema a partir das descrições de paisagens e fatos (Caxias, Alecrim - Morro do Alecrim-, Maranhão, Balaiada, Canhão -fixado em frente à UEMA-). Todas as informações do poema podem ser destacadas para que o aluno identifique o regionalismo apontado pelo autor e que conversa com a realidade do leitor.

O terceiro passo consiste na leitura do poema selecionado. Neste momento cabe destacar que o professor não deve vigiar o aluno para saber se está lendo, mas acompanhar o processo de leitura para auxiliá-lo em suas dificuldades (Cosson, 2021, p. 62). Pode ser feita a leitura conjunta do poema para ser trabalhado estilisticamente em microanálise de recursos expressivos que interessam ao professor e aos alunos (Cosson, 2021, p.63).

Ao discutir a expressividade do poema, à luz da estilística, é possível identificar os recursos linguísticos capazes de tornar os textos atraentes e ao mesmo tempo expressivos (Rocha, 2014, p.60) colaborando para tornar o poema mais apreciável e inclinado a desenvolver no leitor o prazer em ler. A expressividade de Adailton está alicerçada nas figuras de linguagem usadas para reforçar a significação emotiva das palavras, que podem ser elencadas em grupos fônicos, lexicais, semânticos e sintáticos. No poema selecionado para proposta, o professor pode identificar com os alunos os recursos expressivos que compõem o texto poético, destacando figuras de linguagem e sua contribuição no sentido do texto.

Por fim, o último passo remete à interpretação, que pode acontecer em dois momentos: um interior e um exterior (Cosson, 2021, p. 65). O objetivo dessa ação é a exteriorização da leitura, por intermédio de seu registro, onde as resenhas críticas são um recurso muito utilizado para o registro das impressões sobre o texto. É importante que após todo o processo para o letramento literário, com base em uma obra e autor específico, o texto faça sentido para o leitor, de modo que ele forme uma opinião sobre o material trabalhado, e “essa opinião deve ser registrada de maneiras diversas, o que pode variar de acordo com o tipo de texto, a idade do aluno, a série escolar, entre outros aspectos” (Cosson, 2021, p.66).

Os alunos podem ser incentivados a visitar a cidade e relacionar os lugares visitados com os espaços do poema e discutir a influência do local para o sentido do texto, a proposta pode ser concluída com a realização de produções escritas realizadas pelos alunos e depois socializada em sala. Como se nota, não há restrições para as atividades de interpretação, desde que se mantenha o caráter de registro do que foi lido. Ao seguir as etapas, o professor sistematiza seu trabalho e oferece ao aluno um processo coerente de letramento literário (Cosson, 2021, p. 69).

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

É sabido que há uma crescente necessidade de promover o letramento literário entre os alunos da educação básica, uma vez que o interesse de crianças e jovens pela leitura tem se tornado cada vez mais escasso e fragmentado. É necessário que novas metodologias sejam adotas a fim de tornar a leitura prazerosa e interessante para o público escolar e o letramento é incisivo em sua proposta de buscar alternativas para o ensino literário contextualizado.

A partir desses pressupostos abre-se espaço para inserir em sala de aula autores com uma abrangente produção literária e que ainda não figuram no campo literário, a exemplo do autor aqui apresentado, o caxiense, Adailton Medeiros. Propõem-se, portanto, que sua poesia seja incluída nas salas de aulas para que os jovens tenham acesso a sua produção artística, ornamentada por recursos linguísticos-expressivos que corroboram para a diversidade do seu texto literário, concedendo a este, caráter literário e passível de múltiplas significações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Brasil. Base Nacional Comum Curricular. Ensino Médio. Ministério da Educação. 2018.

Cosson, Rildo. Letramento Literário: teoria e prática / Rildo Casson. – 2. Ed., 12ª reimpressão. – São Paulo: Contexto, 2021.

Cressot, Marcel. O estilo e as suas técnicas. Trad. de Madalena Cruz Ferreira. Lisboa: Edições 70, 1980.

Guiraud, Pierre. A estilística. Trad. de Miguel Mailler. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

Henriques, Cláudio Cézar. Estilística e discurso: estudos produtivos sobre texto e expressividade. São Paulo: Campus, 2010. p. 224.

Medeiros, Adailton. Obra reunida. Rio de Janeiro: Imprimatur, 2022.

Rigoleto, Ana Paula C.; DI GIORGI, Cristiano A. G. Outros parceiros na biblioteca: democratização e incentivo à leitura. In: SOUZA, Renata J. (org.). Biblioteca escolar e práticas educativas: o mediador em formação. Campinas, São Paulo: Mercado de Letras, 2009. p. 219-237.

Rocha, Marinalva Aguiar Teixeira. A expressividade em Ana Maria Machado e José Paulo Paes: uma proposta para motivar a leitura. Curitiba: Appris, 2014.

Rodrigues, Milton Hermes. Abordagem estilística. In: BONNICI, Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana (org.). Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 2. ed. rev. e ampl. Maringá: Eduem, 2005. p.123-140.

Silva, Paulo Ricardo Moura da. Práticas escolares e letramento literário: sugestões para leitura literária e produção textual. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2022.


1 Artigo resultante do projeto de pesquisa, A literariedade na obra do poeta caxiense, Adailton Medeiros: (des)vendando a expressividade linguística e literária. Plano de trabalho, A literariedade de Adailton Medeiros: um estudo estilístico das obras Oculto piano e O sol fala aos sete reis das leis das aves. Executado durante os anos de 2023-2024, financiado pela UEMA e executado por Bolsista PIBIC/UEMA.