ENTRE LÍNGUA, TERRITÓRIO E CULTURA: POVOADOS DE ARAPIRACA

BETWEEN LANGUAGE, TERRITORY, AND CULTURE: RURAL SETTLEMENTS OF ARAPIRACA

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781377009

RESUMO
A Toponímia, como disciplina científica da Onomástica, permite compreender as representações reais e simbólicas de um território ao refletir, no léxico, marcas de elementos naturais, sociais, históricos e culturais do espaço geográfico onde o topônimo se insere. Sob esse viés, objetiva-se discutir sobre seis poliotopônimos arapiraquenses que apresentam, em seus signos toponímicos, as lexias comunidade, sítio e vila na nomeação desses aglomerados rurais isolados do município de Arapiraca/Alagoas, buscando compreender suas conexões com a dinâmica de organização socioespacial em diálogo com as concepções de toponímia, território e cultura. Nesse sentido, descreve-se como esses nomes revelam aspectos da dinâmica do povoamento de territórios e se articulam às dimensões culturais desse município do agreste alagoano. Quanto aos pressupostos teórico-metodológicos, filia-se ao campo da Toponímia, em especial as contribuições toponomásticas Dickianas; em diálogo interdisciplinar com os trabalhos acerca de território de Haesbaert (2004); Schneider e Tartaruga (2004) e dos estudos culturais de Laraia (2001); Hall (2003); Bauman (2005), entre outros, e configura-se como um estudo de natureza básica, de abordagem qualitativa, de objetivo descritivo e interpretativo. Os dados apontaram que os poliotopônimos, por meio do processo de toponimização dos termos genéricos dos aglomerados humanos fundadores dos atuais povoados, constituem-se verdadeiros fósseis linguísticos, revelando ações sociais e dinâmicas culturais que formaram os espaços vividos nestes recortes do território arapiraquense. Evidencia-se que, a força do uso social na continuidade dos topônimos primitivos (sítio, vila e comunidade), que tendem a ser preservados na memória coletiva, funcionam como marcadores identitários e culturais, apesar das novas nomeações oficiais.
Palavras-chave: Toponímia; Território; Cultura; Município de Arapiraca; Toponimização.

ABSTRACT
Toponymy, as a scientific discipline within Onomastics, enables the understanding of the real and symbolic representations of a territory by reflecting, in the lexicon, traces of the natural, social, historical, and cultural elements of the geographical space in which the place name is situated. From this perspective, the objective is to discuss six polytoponyms from Arapiraca that present, in their toponymic signs, the lexical items comunidade, sítio, and vila in the naming of these isolated rural settlements in the municipality of Arapiraca, Alagoas, seeking to understand their connections with the dynamics of socio-spatial organization in dialogue with the concepts of toponymy, territory, and culture. In this sense, the study describes how these names reveal aspects of the dynamics of territorial settlement and how they are articulated with the cultural dimensions of this municipality in the agreste region of Alagoas. Regarding the theoretical and methodological assumptions, the study is grounded in the field of Toponymy, especially in Dickian toponymic contributions, in interdisciplinary dialogue with studies on territory by Haesbaert (2004), Schneider and Tartaruga (2004), and cultural studies by Laraia (2001), Hall (2003), and Bauman (2005), among others. It is characterized as a basic study with a qualitative approach and descriptive and interpretative objectives. The data showed that the polytoponyms, through the process of toponymization of the generic terms used for the human settlements that gave rise to the present-day villages, constitute true linguistic fossils, revealing social actions and cultural dynamics that shaped the lived spaces within these portions of the territory of Arapiraca. It is evident that the strength of social usage in maintaining the original place names (sítio, vila e comunidade), which tend to be preserved in collective memory, allows them to function as identity and cultural markers despite new official designations.
Keywords: Toponymy; Territory; Culture; Municipality of Arapiraca; Toponymization.

1. INTRODUÇÃO

A Toponímia, enquanto uma disciplina científica da Onomástica que é uma área das Ciências do Léxico, pode nos ajudar a desvelar o cenário aproximado das representações reais e/ou simbólicas de um dado território, uma vez que os topônimos materializam na língua, em especial em nível do léxico, traços da paisagem natural, de aspectos sociais, históricos e culturais do espaço geográfico nomeado.

O ato de nomear lugares habitados é realizado pelo sujeito-nomeador3, configurando-se numa prática discursiva de apropriação de um espaço. Esse processo linguístico-cultural é motivado por diversos fatores, entre eles: físicos, históricos, políticos ou culturais; podendo revelar como os aglomerados humanos percebem e organizam o território-espaço.

A linguagem, nesse viés, pode expressar a maneira como cada povo constrói sua visão de mundo, refletindo e refratando a íntima relação entre o espaço vivido, o meio ambiente e a cultura que o define. Assim, as pesquisas toponímicas, enquanto um campo interdisciplinar, visto que elas dialogam com outras ciências que contribuem para compreender a relação entre linguagem, território e cultura; podem viabilizar uma melhor compreensão acerca das conexões do ato de nomear lugares habitados com as dinâmicas de organização socioespacial.

É pertinente evidenciar que os estudos científicos acerca dos aglomerados humanos rurais alagoanos possuem poucos registros escritos sobre suas origens toponímicas, inexistindo pesquisas avançadas acerca dessa temática. Nesse contexto, esta pesquisa visa investigar quais fatores geográficos, históricos, culturais e línguo-culturais motivaram as escolhas toponímicas atribuídas a esse recorte de povoados do município de Arapiraca.

Sob essa égide, este trabalho se justifica por apresentar uma temática relevante e atual, articulando concepções como: memória, história, identidade, território e toponímia no contexto rural de Alagoas, na busca de se compreender, de forma interdisciplinar, suas possíveis relações entre o povoado, sua cultura e o sujeito-nomeador. Por conseguinte, tem como objetivo principal discutir acerca de seis poliotopônimos arapiraquenses, que trazem em seus signos toponímicos os termos específicos comunidade, sítio e vila; atribuídos a aglomerados rurais isolados do município de Arapiraca, buscando compreender suas conexões com a dinâmica de organização socioespacial em diálogo com as concepções de toponímia, território e cultura.

Quanto aos pressupostos teóricos, filiamo-nos, em linhas gerais, ao campo da Toponímia, em especial as contribuições da teoria Dickiana; em diálogo interdisciplinar com os trabalhos acerca de território de Haesbaert (2004) e dos estudos culturais de Hall (2003), dentre outros; quanto aos aspectos metodológicos, à luz dos conceitos de Paiva (2019), trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, isto é, ocorre no mundo real com o propósito de compreender e descrever o ato de nomear aglomerados rurais isolados do município de Arapiraca/Alagoas e de objetivo descritivo e interpretativo, uma vez que tem o foco de descrever e interpretar o referido fenômeno toponímico estudado, é de natureza básica, visto que tem como intuito intensificar o conhecimento científico e gênero teórico, pois se propõe a contribuir com novos conhecimentos, em especial à toponímia rural alagoana.

Nessa perspectiva, este artigo organiza-se em seis seções principais. A primeira apresenta as considerações iniciais, situando a temática e a relevância do estudo sobre os poliotopônimos na formação identitária de Arapiraca. A segunda seção traz um breve histórico do município de Arapiraca e de seus povoados, contextualizando o espaço geográfico e social da pesquisa. A terceira discute os fundamentos teóricos que articulam os conceitos de Toponímia, Cultura e Território. A quarta detalha o percurso metodológico que orientou a realização da pesquisa. Por fim, a quinta seção apresenta a análise e discussão dos resultados, evidenciando como os nomes de povoados do município de Arapiraca refletem a relação entre língua e cultura na construção simbólica do território arapiraquense. Ao final do texto, expõem-se as considerações finais e as referências.

2. O MUNICÍPIO DE ARAPIRACA E SEUS POVOADOS: UM BREVE HISTÓRICO

Antes do processo de urbanização, a área que hoje corresponde ao município de Arapiraca era coberta por matas e vegetação nativa. A formação do município ocorreu a partir da atividade agrícola, desenvolvida com base nos recursos naturais disponíveis. Dessa forma, a agricultura não apenas favoreceu o surgimento dessa localidade, mas também estruturou suas bases econômicas, espaciais e culturais, contribuindo para a expansão territorial do lugar. Assim, os povoados desempenham papel fundamental na constituição do território arapiraquense e na formação de sua identidade histórica e cultural.

Quanto à origem do nome, Dantas (2023) afirma que Arapiraca deriva de uma árvore da família das mimosáceas, comum na região do povoamento. De origem indígena, o termo resulta da junção de ara (periquito), poya (pousa) e aca (ramo), significando “árvore em que o periquito pousa”. No plano histórico, Filho e Silva (2024) relatam que, em 1843, o capitão Amaro da Silva Valente adquiriu a propriedade Cangandu. Em 1848, sua filha, Maria Isabel da Silva Valente, e seu esposo, Manoel André, ocuparam parte dessas terras, iniciando atividades agrícolas e fundando o sítio Lagoa de Arapiraca, núcleo inicial do município.

Apresenta-se, a seguir, a Figura 1 que ilustra a localização espacial dos povoados do município arapiraquense.

Figura 1 - Mapa da localização dos povoados no território de Arapiraca/AL

Fonte: IBGE (2017; 2022; 20254); AL em Dados (2019; 2020); SEMARH (2007).

Além da sede municipal que está situada na área urbana, o município de Arapiraca, localizado no agreste alagoano, conforme observado no mapa, possui 24 povoados que compõem sua zona rural e contribuem para a configuração territorial, cultural e econômica dessa Unidade Político-Administrativa do estado de Alagoas. Segundo o IBGE (1999), o povoado é uma localidade rural com número significativo de edificações e serviços de uso coletivo - como escola, capela, posto de saúde ou comércio -, não sendo sede municipal nem distrital. Classifica-se como aglomerado rural isolado, caracterizado pela concentração de moradias em área não contínua ao perímetro urbano e pela existência de vida comunitária própria.

Segundo dados da Prefeitura Municipal de Arapiraca (2026), essas localidades vêm recebendo investimentos em infraestrutura, pavimentação, educação e mobilidade, reforçando a relevância do espaço rural na construção das identidades culturais e nas dinâmicas socioespaciais do município, além de evidenciar a permanência desses espaços no processo de desenvolvimento territorial.

Para a Prefeitura Municipal de Arapiraca (s.d.), desde sua emancipação, em 1924, o município passou a ser reconhecido como a “terra da prosperidade”, em função de seu desenvolvimento econômico e social baseado na produção agrícola familiar. Ao longo do tempo, o território passou por diversas transformações, especialmente nas atividades agrícolas, práticas culturais e dinâmicas econômicas, elementos fundamentais para sua consolidação.

Xavier e Dornellas (2012) destacam que o município possui altitude média de aproximadamente 250 metros e apresenta uma configuração geomorfológica composta por serrotes distribuídos em uma superfície predominantemente plana. A região é drenada por quatro bacias hidrográficas: Piauí, Perucaba, Coruripe e uma pequena porção do riacho Salgado, tributário do rio Traipu. As bacias dos rios Piauí, Perucaba e Traipu integram o sistema hidrográfico do rio São Francisco, enquanto a bacia do rio Coruripe pertence ao domínio estadual, desaguando no oceano Atlântico.

O município de Arapiraca localiza-se na região do Agreste de Alagoas, na porção central do estado, sendo a segunda maior cidade em termos populacionais e distante cerca de 130 km de Maceió (AL). Segundo Lima (1965), insere-se na região do Agreste subúmido, com clima do tipo “As”, conforme a classificação de Koppen, caracterizado por estação seca no verão e período chuvoso no outono e inverno. Nimer (1977) complementa ao afirmar que o clima do Nordeste apresenta temperaturas elevadas, com média anual em torno de 25 °C e precipitação entre 750 e 1000 mm, concentrando os maiores índices pluviométricos entre maio e julho.

No que se refere à organização regional, Arapiraca integra a Região Geográfica Intermediária definida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2017), que articula diferentes Regiões Geográficas Imediatas a partir de centros urbanos de maior influência regional, responsáveis por serviços de maior complexidade, como saúde especializada e ensino superior. As Regiões Geográficas Imediatas, por sua vez, têm como referência os centros urbanos locais e se estruturam a partir dos fluxos cotidianos da população, especialmente no acesso a comércio, saúde e educação. Nesse contexto, Arapiraca exerce papel de polo regional, articulando municípios e espaços rurais que o constituem.

Dick (1992, p. 35) explica que:

[...] através das camadas onomásticas, revelam-se, numa perspectiva globalizante, as feições características do local, sejam as de ordem física quanto socioculturais. De tal modo esses aspectos se corporificam nos topônimos que se pode mesmo, muitas vezes, estabelecer a correlação entre ‘nome’ dos acidentes e o ‘ambiente’ em que ele se acha inscrito.

Portanto, compreender o lócus da pesquisa implica analisar as formas de ocupação, nomeação e significação desses espaços, cuja diversidade toponímica reflete a memória, a identidade e os valores linguístico-culturais da população do município de Arapiraca. Com efeito, à luz dessa perspectiva, buscaremos compreender como os poliotopônimos registram traços da natureza do assentamento dos povoados arapiraquenses e funcionam como marcas linguísticas da realidade geográfica e social. Acreditamos que essa relação se torna ainda mais evidente quando a nomeação de um aglomerado rural isolado resiste mesmo após a reclassificação oficial (retoponimização), esse fenômeno demonstra a carga simbólica que há nesses nomes para a organização social.

3. ENTRE A TOPONÍMIA, O TERRITÓRIO E A CULTURA: POSSÍVEIS DIÁLOGOS

Esta seção está alicerçada em conceitos basilares do campo da Toponímia, Território, Cultura e Memória, em diálogo com o contexto rural do município de Arapiraca, no agreste alagoano, a fim de fundamentar os principais argumentos que conduziram as análises apresentadas neste estudo e contribuir para a reflexão e discussão dos dados alcançados. Logo, estruturou-se esta seção nas seguintes subseções: Do ato de nomear lugares habitados à Toponímia, onde se discute a natureza do signo toponímico; A nomeação de lugares habitados enquanto processo cultural, abordando as marcas da cultura no nome; e, por fim, Do Território ao povoado: uma relação de completude, que analisa a dimensão geográfica e social.

3.1. Do Ato de Nomear Lugares Habitados à Toponímia

As pesquisas toponímicas no Brasil ganharam destaque com os estudos de Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick, que, em 1980, apresentou sua tese A motivação toponímica: princípios teóricos e modelos taxionômicos na Universidade de São Paulo. Nesse estudo, ela sistematizou uma taxonomia que permitiu classificar os nomes de lugares, os topônimos, segundo suas motivações físicas e antropoculturais. Essa proposta representou um marco nos estudos toponímicos brasileiros, pois trouxe uma metodologia científica que possibilitou identificar as causas motivadoras dos nomes de lugares inseridos na realidade brasileira.

Segundo Dick (1990, p. 19), a Toponímia corresponde a “um imenso complexo línguo-cultural, em que dados das demais ciências se interseccionam necessariamente e, não, exclusivamente”. Consequentemente, podemos compreender que o ato de nomear povoados arapiraquenses se constitui em uma prática social em que o sujeito-nomeador está em uma íntima relação com a língua e com o lugar nomeado, visto que ao se atribuir um topônimo a um aglomerado humano de moradores fixos, estabelece-se uma conexão entre a localidade e o signo toponímico a ela atribuído, em que as partes formam um todo representativo. É notável essa conexão nos nomes de povoados, onde os moradores recorrem à nomeação como forma de representar suas vivências, valores e percepções do espaço em que estão inseridos.

Nas palavras de Melo (2013, p. 40), esse processo simbiótico, entre o homem, a língua e seu habitat, exprime que:

[...] o modo como a língua retrata a visão de mundo de um povo evidencia a inter-relação que se estabelece entre língua, meio ambiente e cultura. É importante destacarmos que ao pensar sobre o processo denominativo, é preciso compreender que esse ato se constitui nessa relação: léxico, habitat e sociedade, por conseguinte, pensar sobre o ato de designar lugares requer, considerarmos que esse processo linguístico se constitui nessa mesma relação.

A partir do processo de nomeação dos aglomerados rurais isolados e consequentemente da formação do léxico toponímico rural de Arapiraca, instala-se “a cadeia onomasiológica propriamente dita, em um determinado espaço, o que possibilitará o desenvolvimento de análises nominais e a consequente afixação de um modelo ou padrão de nomes [...]” (Dick, 2008, p. 142). Dessa forma, por meio de pesquisas toponímicas seus resultados possibilitam conhecer novos saberes em interlocução com a Linguística, com a Geografia, com a História, com a Sociologia, com a Psicologia e com outras ciências humanas e sociais.

A Toponímia pode ser entendida, em seu sentido geral, como o estudo dos nomes próprios atribuídos a lugares (do gr. Topos, ‘lugar’), isso é, os topônimos; esses nomes consistem em:

Verdadeiros testemunhos históricos de fatos e ocorrências registrados nos mais diversos momentos da vida de uma população, encerram em si, um valor que transcende ao próprio ato da nomeação: se a Toponímia se situa como crônica de um povo, gravando o presente para o conhecimento das gerações futuras, o topônimo é um instrumento dessa projeção temporal. Chega, muitas vezes, a se espalhar além de seu foco originário, dilatando, consequentemente, as fronteiras políticas e criando raízes em solos distantes. Torna-se, pois, a reminiscência de um passado talvez esquecido, não fora a sua presença dinâmica (Dick, 1990, p. 22).

Desse modo, o acervo toponímico de um território tende a incorporar elementos significativos relacionados à motivação dos nomes de suas localidades, os quais são influenciados por fatores históricos, culturais, sociais, políticos e ideológicos. Dessa maneira, os topônimos revelam memórias e identidades, funcionando como registros simbólicos da dinâmica socioespacial. No topônimo Sítio Fernandes, por exemplo, a permanência da lexia genérica sítio evidencia a preservação de um elemento que marcou a história e o processo de ocupação do lugar. Dick (2008) corrobora com essa perspectiva ao afirmar que a toponímia conserva traços culturais de um espaço e atua como um mecanismo de preservação do legado histórico-cultural, refletido nos diferentes estágios denominativos e em suas múltiplas origens e motivações.

O uso de referências identificadoras de elementos geográficos humanos no processo de nomeação de lugar indica que o sujeito-nomeador se apoia na organização socioespacial para escolher as nomenclaturas, tornando-se um ato frequente. Recorrendo a Melo (2024), no âmbito da nomeação dos nomes de lugares habitados, o referido autor explica que esses nomes próprios:

[...] se incluem em dois blocos, quais sejam: i) no léxico geral, como signos linguísticos que se modificam como os demais lexemas, podendo sofrer todas as influências, mudanças e transformações ocorridas na língua; ii) no léxico específico da ciência onomástica, como signos toponímicos que designam lugares (Melo, 2024, p. 9).

Quanto à formação dos signos toponímicos, eles se apresentam como: elemento específico simples – topônimo formado por um único formante; elemento específico composto – topônimo composto por mais de um elemento formador de uma mesma procedência linguística; elemento específico híbrido – topônimo dotado de elementos de origem linguística diferente (Dick, 1992). Sendo constituídos, no plano mórfico em sua ordem linear, por dois termos, isto é: i. elemento genérico ou vocábulo toponímico básico, que é relativo à entidade geográfica que vai receber a nomenclatura identificando-a e singularizando-a dentre outras semelhantes; ii. elemento específico, que é o topônimo propriamente dito, que individualiza a noção espacial nomeada.

Sendo assim, por exemplo, no signo toponímico: Povoado Laranjal há em sua disposição linear, respectivamente, povoado como termo genérico e Laranjal, como termo específico, ou seja, o topônimo propriamente dito. Todavia, pode ocorrer um processo denominado de toponimização, que segundo Dick (2007, p. 463), caracteriza-se pelo “emprego do designativo do acidente em função denominativa, como se fosse um nome”. No caso de signos toponímicos conferidos a aglomerados rurais isolados, podemos ilustrar esse processo de aglutinação com o nome do Povoado Sítio Cajarana em que o antigo termo genérico sítio, antes utilizado para descrever um pequeno aglomerado humano - é incorporado ao termo específico que passa a nomear o povoado. Como visto, observa-se, assim, que esse processo implica uma mudança na função do termo genérico, desvelando marcas de uma dinâmica territorial.

Em outras palavras, Melo (2026) explica que a toponimização ocorre quando um elemento genérico se incorpora ao elemento específico do signo toponímico, o que leva a perda de sua autonomia semântica, ou seja, a opacização. Esse processo faz com que estes elementos passem a ser entendidos como uma unidade, o que requer a adoção de um novo elemento genérico para acomodar o topônimo à estrutura sintática da língua, visto que, o topônimo passa a ser percebido pelos falantes como uma unidade fixa que se desvincula do seu sentido original.

Esse processo de aglutinação toponímica (toponimização) pode revelar memórias históricas ao “remontar marcas preservadas no léxico toponímico que materializam relações sociais que se manifestam nesses espaços físicos, assim formando as territorialidades” (Melo, 2026, p. 52). Do mesmo modo, evidencia dinâmicas territoriais concretizadas na língua, como a transição de sítio - propriedade rural de pequeno a médio porte - para povoado - aglomerado rural isolado com número significativo de edificações e serviços coletivos -, cujos rastros permanecem nos topônimos. Em vista disso, o nome do lugar deixa de ser apenas descritivo e passa a testemunhar o início do povoamento, registrando o momento em que o espaço humano se transforma em território vivido, revelando valores de um povo.

3.2. A Nomeação de Lugares Habitados Enquanto Processo Cultural

No século XVII, o termo cultura era utilizado para simbolizar aspectos espirituais de uma comunidade. Com o tempo, Edward Tylor reformulou esse conceito, atribuindo ao vocábulo inglês Culture o significado de “todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer capacidade ou hábito adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” (Laraia, 2001, p. 25). Assim como sua terminologia, a cultura tem sofrido transformações ao longo da história, visto que diferentes espaços, identidades e indivíduos podem incorporar valores diversos, adequando-se às formas de ser e viver de cada grupo.

É importante destacar que as diferenças genéticas não determinam a nomeação dos aglomerados rurais, uma vez que o nome de um lugar é uma construção cultural que não depende de raça, sexo, gênero ou nacionalidade dos sujeitos que usam estes nomes. Sob essa perspectiva, Laraia (2001) afirma que o determinismo geográfico leva em conta as particularidades do ambiente físico que influenciam a diversidade cultural. Exemplo disso é o povoado Sítio Poção, cuja denominação incorpora o vocábulo genérico sítio, utilizado para designar um tipo de localidade rural. Esse termo reflete a maneira como os moradores percebiam e organizavam o espaço, evidenciando a influência de aspectos geográficos no processo de nomeação e identificação da localidade. Em vista disso, as nomeações não devem ser explicadas apenas por aspectos sociais ou históricos, mas também pelas condições geográficas que moldam a vida e a visão dos grupos em diferentes regiões.

Em outra perspectiva, Hall apresenta a concepção de sociedades multiculturais, formadas desde antes da expansão europeia. Com as imigrações e deslocamentos, as pessoas passaram a produzir “sociedades étnicas ou culturalmente mistas” (Hall, 2003, p. 55). Isso evidencia que, dentro de um mesmo espaço, podem coexistir valores culturais distintos, a depender da bagagem cultural que cada indivíduo carrega. No âmbito toponímico, essa diversidade também pode refletir-se na manutenção de determinadas nomeações locais, de modo que alguns nomes de povoados, mesmo após alterações oficiais, permanecem em uso popular por estarem vinculados à recordação coletiva e à identidade dos habitantes. Tal fenômeno pode ser observado nos topônimos Sítio Ingazeiras e Comunidade Quilombola Carrasco, cujas denominações anteriores permanecem em uso pela população mesmo após a mudança de categoria territorial para povoado.

Nesse contexto, Hall compreende a cultura como:

O estudo das relações entre elementos em um modo de vida global. A cultura não é uma prática; nem apenas a soma descritiva dos costumes e “culturas populares [folkways]” das sociedades, como ela tende a se tornar em certos tipos de antropologia. Está perpassada por todas as práticas sociais e constitui a soma do inter-relacionamento das mesmas (Hall, 2003, p. 136).

Então, o homem passa a ser resultado do meio em que foi socializado, a partir das experiências e conhecimentos adquiridos ao longo das gerações. Com isso, a fixação de um nome inicial de um lugar também pode ser entendida como um processo cultural, uma vez que foi aprendido e concedido socialmente. Diferente dos animais, o ser humano é capaz de transmitir suas vivências por meio da linguagem, permitindo que a cultura exista e seja continuamente construída. É através da comunicação que os costumes, ideias e aprendizados são compartilhados e preservados ao longo da história.

Conforme Weber (apud Geertz, 2008, p. 4) “o homem é um animal amarrado em teias de significados que ele mesmo teceu” e entende a cultura como essas teias e sua análise. Isso significa que o ser humano vive cercado de significados que ele próprio cria, como crenças, costumes, valores e símbolos, e passa a viver dentro desse sistema cultural. Dessa forma, compreender a cultura é interpretar os sentidos desses nomes e entender o que as ações e os símbolos representam para as pessoas que residem nesses territórios.

Além disso, vivemos em uma sociedade marcada pelo consumo e por mudanças constantes – um nome de um lugar, por exemplo, que era vila, sítio ou uma comunidade, torna-se um povoado. A cultura, por meio das tendências, cria desejos e novas formas de pensar. Como afirma Bauman (2011, p. 14), “a função da cultura não é satisfazer necessidades existentes, mas criar outras – ao mesmo tempo que mantém as necessidades já entranhadas ou permanentemente irrealizadas”. Isso significa que, mesmo quando algo já foi conquistado ou definido, logo surge uma nova necessidade, fazendo com que a satisfação nunca seja completa.

Nessa linha de raciocínio, é notória a relação entre os conceitos discutidos e os nomes de lugares. Assim como a cultura é entendida como um conjunto de valores, costumes e significados construídos socialmente, a toponímia também expressa esses elementos no espaço. A cultura é dinâmica e se transforma ao longo do tempo, os nomes dos espaços também podem retoponimizar, modificando-se conforme novos valores se tornam mais relevantes. Então, a cultura torna-se fundamental para a toponímia, pois os nomes revelam como as sociedades constroem e reinterpretam seus sentidos ao longo da história.

Como observa Bauman (2005, p. 24), “a identidade é um projeto eternamente inacabado”, o que evidencia o caráter processual e mutável das construções culturais. Nesse sentido, os topônimos podem ser elementos de transformação e permanência. Quando se preserva a memória de uma comunidade, o nome de um lugar insere um sentido de continuidade, mesmo em contextos de transformação. Por isso, a toponímia pode ser vista como uma forma de arquivo cultural (Hall, 2003), ao passo em que concentra vestígios da história, das relações de poder e dos valores de uma comunidade. Diante disso, mesmo mediante a processos de reclassificação territorial – como a passagem de sítio para povoado -, a memória compartilhada tende a preservar classificações anteriores no uso diário.

Nessa perspectiva, é importante pontuar que a identidade cultural é constituída através da lembrança coletiva. Nesse ínterim, à luz da concepção de Halbwachs (1990, p. 132) "não há memória coletiva que não se desenvolva num quadro espacial". Esse argumento permite-nos compreender que a continuação do uso dos nomes dos aglomerados rurais está ligada à memória social dos grupos que habitam nesses espaços. Como a memória está contida nesses contextos e limites do grupo social, os nomes iniciais resistem às mudanças administrativas – podemos identificar esse processo como uma marca simbólica de continuidade.

Desse modo, quando se tenta entender a Toponímia e a cultura em conjunto, percebe-se que os topônimos são expressões culturais, uma vez que refletem formas de interpretar e significar o espaço. Esse pensamento se concretiza quando os autores Cuche (1996 apud Mattelart; Neveu, 2004, p. 11) esclarecem sobre a cultura que "o termo tanto pode designar um panteão de grandes obras 'legítimas' como tomar um sentido mais antropológico, por englobar as maneiras de viver, sentir e pensar próprias de um grupo social". Sendo assim, é pertinente ver os nomes de lugares não como rótulos, mas como registros vivos das experiências sociais, funcionando como uma ponte que liga o território ao patrimônio memorial da comunidade e as identidades dos indivíduos ali existentes.

3.3. Do Território Ao Povoado: Uma Relação de Completude

O povoado constitui um espaço que reflete as formas de organização e de vida dos grupos sociais. Ele existe porque há relações entre os moradores, o trabalho e o ambiente. O território influencia a constituição desses povoados, visto que o modo de vida daqueles que ali residem se desenvolve conforme as características do lugar. Os poliotopônimos, por exemplo, revelam marcas das experiências históricas e dos processos que contribuíram para a formação dessas localidades. Os povoados Sítio Poção e Vila Aparecida ilustram essa dinâmica, pois preservam, em seus nomes, vestígios de sua constituição histórica. Nesse sentido, o povoado deixa de ser apenas um agrupamento de casas e pessoas, passando a configurar-se como um espaço de significados construídos pelas experiências humanas.

Partindo disso, os autores Cazella, Bonnal e Maluf (2009, p. 37), explicam que o espaço-território é diferente do espaço-lugar devido a sua 'construção', por causa do dinamismo dos indivíduos que nele vivem. A noção de território, aqui, refere-se ao resultado da interação entre os espaços dos atores, em suas dimensões econômica, sociocultural e ambiental. Nesse viés, entende-se que os povoados são vistos como espaços-lugares em relação ao território de Arapiraca.

O território é uma parcela do espaço definida por limites (linhas), que possui um sistema de leis e uma unidade de governo, a partir do qual as respectivas localizações e características internas são descritas e explicadas, e que, portanto, define o parcelamento do mundo (partitioning) dentro da história da humanidade (Schneider; Tartaruga, 2004, p. 8).

A definição de território é vista com diferentes olhares disciplinares, o que mostra sua complexidade e riqueza analítica. O autor Haesbaert (2004) sugere uma leitura mais profunda sobre a conceituação de território, destacando três aspectos essenciais: a jurídico-política, a simbólico-cultural e a econômica. Na sua concepção, o território é compreendido como “um espaço delimitado e controlado, através do qual se exerce um determinado poder, na maioria das vezes - mas não exclusivamente - relacionado ao poder político do Estado”. Mas, além dessa concepção tradicional, há várias outras formas de se compreender o território, como através dos nomes de lugares, é possível entender como aquele lugar é organizado.

Haesbaert (2004) ainda menciona que o território é como um espaço de significação e vivência, pois o esse é notado, principalmente, como o produto da apropriação ou valorização simbólica de um grupo em relação ao seu espaço vivido. Essa perspectiva corrobora para o conhecimento dos significados subjetivos designados aos lugares, ao território e as etapas de pertencimento, especialmente em situações em que há a desterritorialização5 e reterritorialização6. Nesse sentido, o ato de nomear integra uma das formas mais reveladoras da apropriação do espaço, moldando-o em um território envolto de sentido e lembrança compartilhada.

Em outra visão, o território pode ser entendido como uma unidade ativa de crescimento, que reúne seus próprios recursos, os quais não podem ser transferidos para outro lugar. Estes podem ser materiais ou imateriais, assim como os saberes e práticas originais que, geralmente, estão vinculados à história local (Cazella; Bonnal; Maluf, 2009). Tal perspectiva pode ser observada no topônimo Comunidade Quilombola Carrasco, cuja denominação carrega simbolismos, memórias e referências históricas particulares da comunidade, constituindo um patrimônio imaterial intrinsecamente ligado ao seu território. Desse modo, o nome do lugar expressa elementos identitários que não podem ser dissociados nem transferidos para outro povoado, pois resultam de experiências, tradições e vivências construídas coletivamente ao longo de sua trajetória histórica.

Em diálogo com essa perspectiva, Hall (2003) e Bauman (2005) ajudam a entender as identidades territoriais na contemporaneidade e o papel da linguagem nesse processo. Hall argumenta que as identidades são construções discursivas e que o sujeito moderno vive uma “crise de identidade”, marcada pela fragmentação e pela multiplicidade. Bauman (2005), por sua vez, descreve a modernidade como “líquida”, caracterizada pela fluidez e pela efemeridade dos vínculos. Nesse contexto, os nomes de lugares adquirem uma função contraditória: ao mesmo tempo em que mudam com o tempo, também se tornam pontos de registros simbólicos em meio à mobilidade e à instabilidade social, contribuindo para a manutenção de referências identitárias.

Segundo Halbwachs (1990, p. 30), a memória coletiva é "uma corrente de pensamento contínuo [...] que retém do passado somente aquilo que ainda está vivo ou capaz de viver na consciência do grupo que a mantém". Esse pensamento constante e social manifesta-se no território, que serve como o "quadro fixo" onde os moradores manifestam as suas identidades. Por meio dos nomes de lugares, as comunidades preservam e mudam essa memória no espaço físico, transformando-os em símbolos vivos que ainda fazem sentido apesar do tempo. Assim, essa identidade forma-se a partir da relação entre a memória e o território, visto que, o território carrega e preserva os aspectos identitários ao longo do tempo.

Com isso, vemos que o território não existe apenas como espaço-físico, ele é um resultado da ação humana, sendo constituído através de práticas, experiências e significados empregados pelos sujeitos. Essa perspectiva é confirmada por Gottmann (2012, p. 523) quando diz que, “o território é um conceito gerado por indivíduos organizando o espaço segundo suas necessidades, mas também segundo suas lembranças e aspirações". Nessa perspectiva, o nome de um lugar, portanto, torna-se elemento essencial para a gestão e identificação do território, pois cada topônimo carrega em si a memória e a cultura dos grupos que o nomearam, configurando-se como um símbolo de pertencimento.

4. METODOLOGIA

Esta pesquisa caracteriza-se como de natureza básica, abordagem qualitativa, objetivo descritivo e interpretativo. De acordo com Paiva (2019), investigações dessa natureza desenvolvem-se no contexto real e buscam compreender, descrever e interpretar os fenômenos, procurando explicá-los a partir de diferentes perspectivas. Além disso, utiliza dados provenientes de fontes secundárias, uma vez que, conforme Paiva (2019, p. 12), “a pesquisa secundária utiliza dados de pesquisas já divulgadas”. Diante disso, foram empregados métodos e procedimentos próprios dos estudos da Toponímia.

O corpus foi constituído pelos 24 topônimos atribuídos aos povoados do município de Arapiraca, estado de Alagoas, identificados a partir da listagem oficial disponibilizada pelo IBGE. Desse conjunto, este artigo apresenta um recorte composto pelos seis poliotopônimos nele identificados: Comunidade Quilombola Carrasco, Sítio Cajarana, Sítio Fernandes, Sítio Ingazeiras, Sítio Poção e Vila Aparecida. A seleção dessa taxe fundamenta-se na classificação proposta por Dick (1990), segundo a qual os poliotopônimos correspondem a nomes de lugares relacionados a vocábulos como comunidade, sítio, vila, aldeia etc. Tal escolha justifica-se pelo objetivo deste estudo, que consiste em investigar a relação entre os nomes de lugares do território arapiraquense e o processo de nomeação dessas localidades. Para a análise dos dados, adotou-se o modelo de ficha lexicográfico-toponímica proposto por Dick (1992), o qual será explicado na próxima subseção.

4.1. Percurso Metodológico

No que se refere aos procedimentos metodológicos, a pesquisa foi estruturada em três etapas. Ressalta-se que essas fases não são independentes entre si, mas complementares e inter-relacionadas, a saber:

A) Na primeira etapa, foram obtidos os dados por meio do inventário dos seis poliotopônimos atribuídos aos povoados do território de Arapiraca e de suas possíveis mudanças toponímicas ao longo do tempo. Nessa fase, realizou-se a catalogação dos nomes oficiais designados aos povoados arapiraquenses por meio de fichas toponímico-lexicográficas individuais, com base na atual toponímia consolidada do estado de Alagoas. Essa etapa também foi acompanhada da coleta de dados linguísticos, conforme informações do IBGE (2025).

Para a identificação das causas motivadoras, recorreu-se à pesquisa documental em fontes como Projetos Político-Pedagógicos (PPPs) e o Diagnóstico Comunitário Rural (2001), além de saberes orais da população. Nessa etapa da investigação, foram reunidos fundamentos interdisciplinares de natureza linguística e toponímica, baseados nas proposições de Dick (1990, 2007), Isquerdo (1996, 2012) e Melo (2018, 2026), o que permitiu compreender as motivações e os significados dos topônimos.

Os aspectos geográficos e territoriais foram analisados a partir dos conceitos de Gottmann (2012) e Haesbaert (2004), englobando as discussões sobre desenvolvimento e dinâmicas rurais de Cazella, Bonnal e Maluf (2009), além das contribuições de Schneider e Tartaruga (2004). No que tece aos contextos históricos e culturais e os fundamentos de memória coletiva e identidade, buscaram suporte em Halbwachs (1990), Geertz (2008), Hall (2003) e Laraia (2001), somando-se as perspectivas sobre multiculturalismo de Moreira e Candau (2008) e estudos culturais de Mattelart e Neveu (2004), permitindo articular e relacionar esses conceitos com a análise dos nomes de seus aglomerados isolados rurais em Arapiraca/Alagoas.

A fim de realizar a investigação etimológica e histórico-cultural dos topônimos, foram consultadas diferentes obras de referência, entre elas dicionários etimológicos, como o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Cunha (2012), o Dicionário de Tupi Antigo, de Navarro (2013), e a obra O tupi na geografia nacional, de Theodoro Sampaio (1943). Também foram verificados dicionários toponímicos, como o Dicionário Toponímico de Alagoas – DITAL, além de diagnósticos comunitários rurais, documentos institucionais da Prefeitura Municipal de Arapiraca, leis municipais denominativas, artigos e livros especializados.

B) Na segunda etapa, após a coleta, a organização e a sistematização das informações, os dados foram transpostos para fichas lexicográfico-toponímicas. Estas fichas constituíram um sistema importante de estruturação para as análises e interpretações das localidades estudadas, por contemplar campos conceituais fundamentais relacionados aos topônimos. A partir da exposição desses dados, iniciou-se a análise, a compreensão e a interpretação do material apurado, em busca de subsídios para o estudo da práxis toponímica arapiraquense.

Abaixo, será demonstrada a estrutura da ficha-lexicográfica, a qual engloba aspectos como a localização, topônimo oficial, gentílico, topônimo paralelo, mudança toponímica, taxonomia, etimologia, estrutura morfológica, informações históricas e enciclopédicas e as respectivas fontes.

Quadro 1 - Campos da ficha lexicográfico-toponímica dos nomes dos povoados arapiraquenses

Campo

Descrição

Localização

Posição espacial do povoado dentro do território municipal de Arapiraca, indicando sua distância em relação à Região Geográfica Imediata de Arapiraca (IBGE, 2025).

Topônimo

Nome oficial do povoado na sincronia atual (Povoados-IBGE, 2025).

Gentílico

Designa o habitante de acordo com o seu local de nascimento ou residência dentro do território arapiraquense (Cidades-IBGE, 2025).

Mudança toponímica

Nomes anteriores ao topônimo oficial da sincronia atual, com o indicativo, quando possível, da data de sua adoção (Povoados-IBGE, 2025).

Taxonomia

Classificação toponomástica do nome do povoado conforme a perspectiva léxico-semântico, identificando a natureza de sua motivação de ordem física ou antropocultural (Dick, 1990; Isquerdo, 1996).

Etimologia

Procedência linguística, significado histórico e classificação gramatical. Neste tópico, levamos em conta os étimos das formas-base que deram origem aos topônimos (Cunha, 2012; Guérios, 1994; Queiroz, 1943; Navarro, 2013; Nascentes, 1996).

Estrutura morfológica

A sistematização dos topônimos segue o modelo de Dick (1992), os quais são divididos em três eixos: elemento específico simples, elemento específico composto e elemento específico híbrido. A análise segue uma abordagem estruturalista concatenativa e regular no plano da morfologia, descrevendo as unidades mínimas de significação em morfemas lexicais e gramaticais, formas dependentes e nomes atemáticos (Câmara jr., 2004; Schwindt, 2014) e classificados em topônimos simples, compostos e híbridos, de acordo com as estruturas do sintagma toponímico em sua sequencialidade.

Informações históricas e enciclopédicas

Informações linguísticas e extralinguísticas relacionadas aos fatores que motivaram a permanência e/ou a alteração dos nomes dos povoados arapiraquenses, segundo dados históricos e geográficos de cada lugar. Com isso, pretende-se apresentar a história do local e indicar o histórico dos nomes dos povoados, a fim de evidenciar a motivação do topônimo e a data de sua adoção, indicando o período institucional de criação do povoado e, quando possível, de seu núcleo de origem.

Fonte

Referências às fontes bibliográficas, documentais e às bases disponibilizadas em websites que subsidiaram a geração dos dados da pesquisa.

Revisor

Responsável pela revisão das fichas lexicográfico-toponímicas.

Data da coleta

Data dia/mês/ano da tabulação dos dados.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Partindo desses onze campos conceituais, foram elaboradas as fichas lexicográfica-toponímicas dos seis nomes dos povoados do município de Arapiraca. Nessa etapa, após a elaboração das fichas, foi aplicado o modelo teórico-metodológico dickniano (Dick, 1992 e desdobramentos atuais), que permite a categorização e a sistematização dos topônimos com base em sua origem, estrutura morfológica e motivação semântica, contribuindo para uma análise mais precisa e coerente com os estudos onomásticos. Além disso, foi realizada a quantificação das taxes e dos tipos de mudanças ou alterações toponímicas, o que possibilitou a identificação dos padrões denominativos e compreensão das dinâmicas de transformação linguística e cultural dos nomes atribuídos aos povoados.

Na terceira etapa, depois se finalizar a descrição, análise e interpretação do recorte toponímico estudado, foram iniciadas as tarefas de criação e formatação dos verbetes que serão incluídos no Dicionário Toponímico de Alagoas (DITAL): povoados alagoanos e seus nomes. Esses verbetes trazem um compilado de informações as quais fazem-se presentes nas fichas lexicográfico-toponímicas. Para Melo, a estrutura retórica do verbete toponímico deve possuir a seguinte estrutura:

1. Entrada – topônimo (em negrito, alinhado à esquerda) + 2. Gentílico (entre colchetes) + 3. Origem linguística (entre colchetes) + 4. Processo de formação (entre colchetes) + 5. Remissiva (em itálico e entre parênteses, posposto à abreviatura ‘cf’., quando houver) + 6. Localização geográfica + 7. Taxonomia (em itálico) + 8. Estrutura morfológica + 9. Etimologia (posposto à abreviatura ‘Etim.’) + 10. Nota (em parágrafo único) + 11. Fonte (em itálico) (Melo, 2018, p. 40).

Nesse viés, evidencia-se a relevância dos verbetes toponímicos para a organização das informações referentes aos nomes de lugares, uma vez que funcionam como registros analíticos voltados aos estudos linguísticos, históricos, geográficos e culturais. Por meio deles, é possível compreender o funcionamento do topônimo, bem como os aspectos linguísticos e extralinguísticos que o envolvem. A seguir, será apresentado um exemplo de verbete.

Quadro 2 - Verbete toponímico do povoado Sítio Cajarana

Sítio Cajarana [arapiraquense; lat. + tup.; híbrido]

Localizado na zona rural do Município de Arapiraca. Topônimo classificado como Poliotopônimo. Constituído por ML siti- + VT -o, ML caja- + MGD -rana. sm. do lat. sitius = lócus, i ‘lugar’ (Queiroz, 1943). sf. de origem tup. akaiá ou kaiá ‘frondosa árvore anacardiácea (Spondias mombin L.), cujo fruto, o cajá, é muito apreciado, sobretudo para o preparo de doces (Navarro, 2013).

Nota

O povoado Sítio Cajarana surgiu há cerca de 105 anos, com a chegada de seus primeiros moradores, conhecidos como Mãe Aninha e seu filho Bernardino Gole Malaquias. O nome Cajarana tem origem na existência de uma frondosa árvore onde os moradores se reuniam para conversar. Com o passar do tempo, o povoado consolidou-se como um espaço de agricultura familiar, tendo como principais culturas o fumo e a mandioca, responsáveis pela subsistência de muitas famílias.

Fonte 

Diagnóstico comunitário rural (2001).

Fonte: Elaborado pelos autores.

Encerramos esta seção, destinada aos procedimentos metodológicos empregados neste estudo, salientando que foi a partir dessa metodologia que foram catalogados e categorizados os 6 nomes dos povoados arapiraquenses, seguidos das suas possíveis motivações, formações e etimologias, nos quais se delimitam uma relação linguística e sócio-histórico-cultural entre o espaço físico e o topônimo a ele atribuído. Partindo da ideia de que elementos antropoculturais podem influenciar a constituição dos territórios, ao mesmo passo em que atuam como marca identitária e integram a formação do léxico toponímico. Por fim, esses procedimentos metodológicos possibilitaram a organização do corpus da pesquisa, permitindo a posterior discussão dos resultados.

5. RESULTADOS E DISCUSSÕES

O corpus desta pesquisa é constituído por seis poliotopônimos - nomes de lugares relacionados a vocábulos como comunidade, sítio, vila e aldeia etc. (Dick, 1990), identificados entre os 24 topônimos dos povoados do município de Arapiraca, Alagoas. Integram esse corpus os seguintes nomes: (1) Comunidade Quilombola Carrasco; (2) Sítio Cajarana; (3) Sítio Fernandes; (4) Sítio Ingazeiras; (5) Sítio Poção; e (6) Vila Aparecida. No contexto da zona rural arapiraquense, esses topônimos evidenciam a relação entre memória, identidade e processo de nomeação dos espaços, reforçando o caráter simbólico da toponímia local.

A análise considera a classificação taxonômica dos topônimos, bem como seus aspectos morfológicos, etimológicos e históricos, com o objetivo de compreender as motivações denominativas e sua relação com o contexto sociocultural local.

(1) Comunidade Quilombola Carrasco

O povoado está localizado na zona rural do município de Arapiraca. O poliotopônimo Comunidade Quilombola Carrasco se classifica como elemento específico híbrido, constituído por ML comun- + MGD -(i)dade, ML quilomb- + MGD -ola, ML carrasc- + VT -o. sm. do lat. communitãs -ãtis - comunidade | cõmunydade XIII, comonidade XV. sm. do quimb. ki’lomo ‘povoação’ 'designação comum aos escravos refugiados em quilombos'. sm. de uma raiz pré-romana XVI karr - ‘mata anã, de arbustos de caule e ramos duros e esguios' (Cunha, 2012).

O povoado Comunidade Quilombola Carrasco, de origem quilombola, formou-se por volta de 1800, a partir da doação de terras realizada por Antônia Rosa, considerada uma das primeiras habitantes da localidade. Após o seu falecimento, sem deixar herdeiros, as terras foram destinadas a ex-escravizados alforriados, possibilitando a consolidação do povoado. O nome Carrasco, embora possua o significado literal de carrasco, algoz ou verdugo, está relacionado à vegetação abundante existente na região, composta por árvores popularmente conhecidas como carrasco (Escola de Ensino Fundamental em Tempo Integral Manoel João da Silva, 2024; FACOMAR; Prefeitura Municipal de Arapiraca, 2001).

(2) Sítio Cajarana

O povoado está localizado na zona rural do município de Arapiraca. O poliotopônimo Sítio Cajarana se classifica como elemento específico híbrido, constituído por ML síti- + VT -o, ML caja- + MGD -rana. sm. do lat. sitius = lócus, i ‘lugar’ (Queiroz, 1943). sf. de origem tup. akaiá ou kaiá ‘frondosa árvore anacardiácea (Spondias mombin L.), cujo fruto, o cajá, é muito apreciado, sobretudo para o preparo de doces (Navarro, 2013).

O povoado Sítio Cajarana surgiu há cerca de 105 anos, com a chegada de seus primeiros moradores, conhecidos como Mãe Aninha e seu filho Bernardino Gole Malaquias. O nome Cajarana tem origem na existência de uma frondosa árvore onde os moradores se reuniam para conversar (FACOMAR; Prefeitura Municipal de Arapiraca, 2001).

(3) Sítio Fernandes

O povoado está localizado na zona rural do município de Arapiraca. O poliotopônimo Sítio Fernandes se classifica como elemento específico híbrido, constituído por ML síti- + VT -o, ML Fernand- + MGD – es. sm. do lat. sitius = lócus, i ‘lugar’ (Queiroz, 1943). sm. do port., em vez de Fernández, patron. De Fernando. esp. ant. Fernandez, esp. atual Hernandez (Guérios, 1994).

O povoado Sítio Fernandes existe há mais de 150 anos. Seus primeiros moradores foram Gertulino, Camilo e Antonio Cardoso. A localidade surgiu no início do povoamento da região, desempenhando funções de subsistência, produção agrícola e trabalho artesanal, com destaque para a fabricação de telhas e cachimbos destinados à feira local. Segundo os moradores mais antigos, o nome do povoado originou-se do sobrenome “Fernandes”, pertencente às primeiras famílias que habitaram o lugar (FACOMAR; Prefeitura Municipal de Arapiraca, 2001).

(4) Sítio Ingazeiras

O povoado está localizado na zona rural do município de Arapiraca. O poliotopônimo Sítio Ingazeiras se classifica como elemento específico híbrido, constituído por ML síti- + VT -o, ML inga- + MGD –(z)eira + MGF -s. sm. do lat. sitius = lócus, i ‘lugar’ (Queiroz, 1943). sf. do tupi i’ ga ‘nome comum a diversas plantas da fam. das leguminosas’ (Cunha, 2012).

O povoado Sítio Ingazeiras formou-se há mais de 105 anos, tendo como primeiros moradores Antônia Barbosa dos Santos, Bernardo Francisco dos Santos, Júlio José dos Santos e Maria Joana da Conceição. O nome Sítio Ingazeiras originou-se da existência de uma árvore chamada “Ingazeira”, que ficava próximo a um poço - local onde as mulheres costumavam lavar roupas - tornando-se, assim, referência para a identificação do lugar (FACOMAR; Prefeitura Municipal de Arapiraca, 2001).

(5) Sítio Poção

O povoado está localizado na zona rural do município de Arapiraca. O poliotopônimo Sítio Poção se classifica como elemento específico composto, constituído por ML síti- + VT -o, ML poç- + MGD -ão. sm. do lat. sitius = lócus, i ‘lugar’ (Queiroz, 1943). sm. do lat. XVI putěs -ī ‘cavidade funda, a fim de atingir o lençol aquífero mais próximo da superfície’ (Cunha, 2012).

O povoado Sítio Poção formou-se por volta de 1851, tendo como primeiros moradores José Domingos Sulino Vieira, José Praxedes e João Roberto, que chegaram à região nesse período e deram início à ocupação do território. O nome Sítio Poção está relacionado ao Rio Coruripe que, ao passar pela comunidade, recebe o nome de Poção. Consequentemente, essa nomeação surgiu em razão da existência dessas inúmeras poças e barragens naturais formadas por paredões de pedra que, mesmo no período de seca, represam as águas e formam verdadeiros “poções”, onde se abrigam peixes, pitus e outros animais aquáticos (FACOMAR; Prefeitura Municipal de Arapiraca, 2001).

(6) Vila Aparecida

O povoado está localizado na zona rural do município de Arapiraca. O poliotopônimo Vila Aparecida se classifica como elemento específico composto, constituído por ML vil- + VT -a, ML aparec- + MGD -ida. sf. do lat. villa ‘povoação, cidade’. vb. do lat. apparēscĕre ‘surgir, apresentar-se’ | XIII, appa- XIII (Cunha, 2012).

O povoado Vila Aparecida surgiu na década de 1960, em terras pertencentes a Manoel Ferreira. Após sua morte, a propriedade foi dividida entre os herdeiros, cabendo ao genro, João Gregório, a área onde a comunidade se formou. Entre os primeiros moradores destacam-se Manoel Brandão, Manoel Lopes e seus familiares, além de Manoel Francisco. Inicialmente, a localidade era conhecida como Lagoa dos Cavalos, em razão dos animais que pastavam às margens da lagoa existente na região. Posteriormente, o nome Vila Aparecida foi adotado em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, sendo oficializado em 1963 com a construção da Escola João Lúcio da Silva (Escola de Ensino Fundamental João Lúcio da Silva, 2024; FACOMAR; Prefeitura Municipal de Arapiraca, 2001).

Ao analisar os seis nomes desses povoados de Arapiraca, percebemos que o referencial poliotoponímico - motivação toponímica de natureza antropocultural que faz alusão a nomes relativos a aglomerados humanos, atua como fator motivador no perfil da toponímia rural arapiraquense, influenciando as práticas culturais e identitárias dessas localidades. A presença recorrente de vocábulos como comunidade, sítio e vila constitutivos dos termos específicos mostra que os topônimos de aglomerados rurais desempenham um papel decisivo na organização desses espaços rurais.

Os poliotopônimos analisados estão, em sua maioria, relacionados à classificação toponímica inicial do lugar e foram fundamentais para o desenvolvimento desses espaços. Mesmo diante de mudanças na nomeação desses aglomerados humanos, observamos a continuidade e o vínculo com tais nomenclaturas. Esse fator evidencia a permanência do uso coletivo na constância dos topônimos, uma vez que, após sua constituição, tendem a ser conservados na memória social, tornando-se marcadores identitários e culturais, apesar das novas identificações oficiais.

É importante destacar que, apesar dos critérios de setorização estabelecidos pelo IBGE (1999), já apresentado nesse estudo evidenciamos que o uso popular continua a empregar os nomes tradicionais: comunidade, sítio e vila para identificar e referir-se a esses povoados. Tal fenômeno evidencia um processo de conservadorismo toponímico, no qual esses elementos permanecem ativos na memória compartilhada.

Assim, na época, a Comunidade Quilombola Carrasco, os sítios Cajarana e Ingazeiras, que se caracterizavam pela taxe toponímica de fitotopônimo quando eram comunidade e sítios, o Sítio Poção, que se constituía como hidrotopônimo, além de Vila Aparecida e Sítio Fernandes como antropotopônimos quando eram vila e sítio – na dinâmica territorial e desenvolvimento do território alçando à categoria de povoado mantêm o termo que era genérico para específico, configurando-se na sincronia atual como poliotopônimos, aqui analisados exemplificam o processo de toponimização, uma vez que, anteriormente, correspondiam a uma taxe específica e, ao serem incorporados a nomes que nomeiam lugares, passam a configurar poliotopônimos.

E mais, podemos observar que a toponimização acontece quando um termo descritivo do lugar se cristaliza como nome próprio, desse modo, o falante deixa de reconhecer o elemento isolado em sua origem física ou antropocultural e passa a compreender como um conjunto representativo de um acidente humano. Na zona rural do território arapiraquense, observamos que elementos genéricos vinculados à organização do espaço - como comunidade, sítio e vila - incorporam-se ao elemento específico do signo toponímico.

Cabe destacar que esse processo conduz ao apagamento da semântica original do termo genérico, que passa a ser assimilado ao nome como uma unidade indissociável, perdendo sua função de classificador geográfico isolado. Como consequência, surge a necessidade da adoção de um novo elemento genérico para atender à categoria de classificação toponímica vigente. É o que ocorre, por exemplo, nos signos toponímicos: Povoado Comunidade Quilombola Carrasco, Povoado Sítio Cajarana, Povoado Sítio Fernandes, Povoado Sítio Ingazeiras, Povoado Sítio Poção e Povoado Vila Aparecida: o termo povoado passa a exercer a função de elemento genérico, enquanto os antigos termos genéricos Comunidade Quilombola Carrasco, Sítio Cajarana, Sítio Fernandes, Sítio Ingazeiras, Sítio Poção e Vila Aparecida, em razão de sua unidade semântica, consolidam-se como nomes compostos que passam a atuar como elementos específicos desses sintagmas toponímicos.

Além disso, é pertinente destacar que, no processo de toponimização, o nome passa a assumir novos significados. Em Comunidade Quilombola Carrasco, por exemplo, o elemento “comunidade” evidencia a existência de um grupo social marcado por laços históricos, culturais e identitários, associados, nesse caso, à formação quilombola. Nos demais topônimos, observamos que o termo “sítio” remete a uma ocupação rural de caráter mais individual, enquanto “vila” designa um aglomerado humano com maior nível de organização social. Desse modo, tais elementos passam a fazer parte do nome próprio, reforçando sentidos que ultrapassam sua função descritiva original.

Dessa forma, os nomes que nomeiam os aglomerados humanos traduzem a relação entre território, toponímia e cultura, refletindo e refratando as representações e as experiências dos indivíduos em seus espaços de vivência. A recorrência, na toponímia rural arapiraquense, de elementos classificatórios na nomeação dos povoados do município de Arapiraca reforça o papel dos moradores na construção da identidade desses lugares, ao mesmo tempo em que deixa visível a permanência de práticas denominativas socialmente compartilhadas.

Portanto, ao verificar os seis nomes de povoados classificados como poliotopônimos na toponímia rural arapiraquense, entendemos que os nomes iniciais dessas localidades são importantes para a população local, por terem contribuído para o povoamento e organização do território. Desse modo, a toponimização apresenta-se como um registro linguístico das ações sociais e das dinâmicas culturais que formam o espaço vivido.

6. CONCLUSÃO

A nomeação de lugares com base na organização socioespacial configura-se como uma prática recorrente no Brasil, constituindo um ato simbólico que expressa a relação entre o homem, a língua e a construção do território. Os nomes dos povoados do município de Arapiraca, localizado no agreste alagoano, integram o discurso e a identidade de sua comunidade. Neste estudo, analisamos seis poliotopônimos atribuídos a povoados arapiraquenses vinculados às nomeações iniciais dos espaços humanos, evidenciando como as concepções de Toponímia, Território e Cultura se manifestam e dialogam com esses nomes, refletindo e refratando as representações e influências do espaço geográfico e da cultura do sujeito-nomeador.

A análise dos seis poliotopônimos demonstrou a ocorrência do processo de toponimização, no qual termos inicialmente descritivos (nomes de propriedade rural de pequeno a médio porte como: comunidade, sítio e vila) se cristalizam como nomes próprios, passando a designar o conjunto representativo do acidente humano mais desenvolvido (nomes de aglomerado rural isolado com número significativo de edificações e serviços de uso coletivo). Nessa direção, evidenciamos que esses elementos genéricos relacionados à organização do espaço aglutinaram-se aos elementos específicos do signo toponímico, marcando etapas de formação e desenvolvimento dessa área rural.

Diante disso, os dados indicaram que os poliotopônimos, através do processo de toponimização dos termos genéricos dos aglomerados humanos que deram início aos atuais povoados, são registros linguísticos e evidenciam práticas sociais e dinâmicas culturais responsáveis pela formação dos espaços vividos no território arapiraquense. Nesse contexto, esse fenômeno indica a força do uso social na permanência dos nomes primitivos (sítio, vila e comunidade), que, mesmo após a sua consolidação, são conservados na memória coletiva, tornando-se referências identitárias e culturais, apesar das novas identificações oficiais dos povoados.

Com isso, concluímos a possível articulação entre Toponímia, Território e Cultura, sendo esse diálogo fundamental para compreender as relações entre linguagem, espaço e identidade. Neste contexto, as motivações dos nomes dos povoados revelaram a interação entre o meio físico e os elementos culturais - como memória social, saberes locais e práticas sociais -, evidenciando as múltiplas camadas de sentido presentes no território. Assim, a Toponímia, enquanto instrumento de análise, contribui, sobremaneira, para a valorização do saber popular, o reconhecimento das identidades regionais e a preservação do patrimônio cultural imaterial.

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1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Dinâmicas Territoriais e Cultura (Universidade Estadual de Alagoas - UNEAL). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-5525-5906

2 Doutor em Letras pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Professor titular da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL) e docente do Programa de Pós-Graduação em Dinâmicas Territoriais e Cultura (ProDiC). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4873-564X

3 Neste artigo, adota-se o conceito de sujeito-nomeador proposto por Melo (2026) no Dicionário Toponímico de Alagoas (DITAL): municípios alagoanos e seus nomes, isto é, o sujeito-nomeador de um povoado arapiraquense “não se refere a um indivíduo (um “eu” individual/pessoal) com características psicológicas ou biológicas, mas à posição que ele (ou um grupo social por ele representado) ocupa em relação à linguagem e ao discurso. Essa posição se constitui por fatores históricos, sociais e ideológicos (Melo, 2026, p. 23).

4 A lista de povoados arapiraquenses foi fornecida pela Seção de Base Territorial do IBGE (Unidade Estadual de Alagoas), em maio de 2025.

5 Processo pelo qual indivíduos, grupos sociais, instituições ou práticas perdem ou são forçados a abandonar sua ligação com um território específico.

6 Processo complementar ou consequente à desterritorialização, no qual os grupos constroem novos vínculos territoriais, redefinem sua presença no espaço ou reapropriam outros territórios.