ENSINAR LÍNGUA PORTUGUESA POR MEIO DAS METODOLOGIAS ATIVAS, FUNDAMENTOS TEÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS CONTEMPORÂNEAS
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18273169
Carolina Bernardes de Ávila1
RESUMO
O ensino de Língua Portuguesa, historicamente marcado por práticas transmissivas, conteudistas e centradas na memorização de regras gramaticais, tem sido progressivamente tensionado pelas transformações sociais, culturais, tecnológicas e cognitivas que caracterizam a contemporaneidade. Nesse contexto, as Metodologias Ativas emergem como um paradigma pedagógico que desloca o estudante da posição passiva para o centro do processo de aprendizagem, reconhecendo-o como sujeito histórico, crítico e produtor de sentidos. Este artigo tem como objetivo analisar, em profundidade teórica e crítica, como as Metodologias Ativas podem ressignificar o ensino de Língua Portuguesa, potencializando a construção do letramento, da competência discursiva, da autoria e da leitura crítica do mundo. Fundamentado em autores como Freire (1996), Bacich e Moran (2018), Demo (2004), Vygotsky (2007), Rojo (2012) e Dolz e Schneuwly (2004), o estudo adota metodologia de natureza qualitativa, bibliográfica e analítico-interpretativa. Os resultados evidenciam que as Metodologias Ativas, quando articuladas a uma concepção dialógica de linguagem, promovem aprendizagem significativa, autonomia intelectual, engajamento e desenvolvimento das competências linguísticas e sociocognitivas, configurando-se como estratégia potente para a formação integral do sujeito. Palavras-chave: Ensino de Língua Portuguesa. Metodologias Ativas. Aprendizagem Significativa. Letramento. Protagonismo Discente.
ABSTRACT
The teaching of Portuguese language, historically marked by transmissive, content-centered and rule-memorization practices, has been increasingly challenged by the social, cultural, technological and cognitive transformations that characterize contemporary society. In this context, Active Methodologies emerge as a pedagogical paradigm that shifts students from a passive position to the center of the learning process, recognizing them as historical, critical subjects and producers of meaning. This article aims to analyze, with theoretical and critical depth, how Active Methodologies can re-signify the teaching of Portuguese, enhancing literacy construction, discursive competence, authorship and critical reading of the world. Grounded in authors such as Freire (1996), Bacich and Moran (2018), Demo (2004), Vygotsky (2007), Rojo (2012), and Dolz and Schneuwly (2004), the study adopts a qualitative, bibliographic and analytical-interpretative methodology. The results show that Active Methodologies, when articulated with a dialogical conception of language, promote meaningful learning, intellectual autonomy, engagement and the development of linguistic and socio-cognitive competencies, configuring themselves as powerful strategies for the integral formation of the subject.
Keywords: Portuguese Language Teaching. Active Methodologies. Meaningful Learning. Literacy. Student Protagonism.
1. INTRODUÇÃO
A linguagem constitui-se como uma das mais complexas e fundantes dimensões da experiência humana. É por meio dela que o sujeito organiza o pensamento, constrói identidades, produz sentidos, estabelece vínculos sociais e participa ativamente da vida cultural, política e simbólica da sociedade. Conforme assinala Bakhtin (2003), toda enunciação é atravessada por vozes sociais, valores ideológicos e intencionalidades históricas, de modo que a linguagem jamais é neutra: ela é sempre situada, dialógica e constitutiva do sujeito. Nesse sentido, o ensino de Língua Portuguesa não pode ser compreendido como mera transmissão de normas gramaticais, mas como prática social, política e cultural que incide diretamente na formação da consciência crítica e na inserção do indivíduo no mundo.
Historicamente, entretanto, o ensino de Língua Portuguesa no Brasil foi marcado por uma tradição normativa, prescritiva e estruturalista, herdeira de uma racionalidade positivista que fragmentou a língua em regras, classificações e exercícios mecânicos, dissociando-a de seus contextos reais de uso (Geraldi, 1997). Tal modelo, centrado na memorização e na repetição, reduziu a linguagem a um objeto estático, esvaziando seu caráter vivo, histórico e social. Como observa Freire (1996), essa lógica se aproxima da educação bancária, na qual o aluno é concebido como recipiente passivo de conteúdos, e não como sujeito produtor de conhecimento.
No contexto contemporâneo, marcado pela globalização, pela cultura digital, pela multiplicidade de linguagens e pela aceleração dos fluxos comunicacionais, essa concepção tradicional mostra-se não apenas insuficiente, mas epistemologicamente anacrônica. Vivemos em uma sociedade em rede (Castells, 2010), atravessada por discursos multimodais, hipertextuais e híbridos, que exigem do sujeito competências interpretativas, críticas e autorais cada vez mais complexas. Rojo (2012) afirma que os letramentos, hoje, são múltiplos, situados e multimodais, o que impõe à escola o desafio de formar sujeitos capazes de transitar criticamente entre diferentes linguagens, mídias e práticas discursivas.
É nesse cenário de profundas transformações sociais, culturais e cognitivas que emergem as Metodologias Ativas como um movimento pedagógico que rompe com a centralidade do professor e reposiciona o estudante como protagonista do processo de aprendizagem. Para Moran (2015), as Metodologias Ativas deslocam o foco do ensino para a aprendizagem, valorizando a participação, a investigação, a problematização, a autoria e a construção colaborativa do conhecimento. Bacich e Moran (2018) destacam que essas metodologias não se limitam a técnicas didáticas, mas expressam uma mudança paradigmática na concepção de educação, de sujeito e de conhecimento.
Ao articular as Metodologias Ativas ao ensino de Língua Portuguesa, instaura-se uma ruptura epistemológica com o modelo transmissivo e uma aproximação com perspectivas socioconstrutivistas, dialógicas e críticas de linguagem. Vygotsky (2007) sustenta que o desenvolvimento cognitivo se dá na interação social mediada pela linguagem, o que confere base teórica sólida à centralidade do diálogo, da colaboração e da mediação no processo educativo. Bakhtin (2003), por sua vez, reforça que todo aprendizado da linguagem se dá em contextos reais de enunciação, e não em abstrações descontextualizadas.
Assim, pensar como ensinar Língua Portuguesa por meio das Metodologias Ativas implica assumir que ensinar língua é, antes de tudo, formar sujeitos capazes de ler o mundo, interpretar discursos, posicionar-se criticamente e produzir sentidos. Implica compreender que a sala de aula não é espaço de reprodução, mas de criação; não é lugar de silêncio, mas de voz; não é território de passividade, mas de autoria. Trata-se, portanto, de uma escolha pedagógica, epistemológica e política, que reconhece a linguagem como prática social e a educação como ato de transformação.
Portanto, investigar como ensinar Língua Portuguesa por meio das Metodologias Ativas é, em última instância, investigar como formar sujeitos de linguagem, de pensamento e de ação, capazes de compreender criticamente os discursos que os atravessam e de produzir outros discursos, mais éticos, mais humanos e mais justos. Trata-se de uma escolha pedagógica que assume a educação como ato político, a linguagem como espaço de disputa de sentidos e a escola como lugar de construção de humanidade.
2. OBJETIVOS
2.1. Objetivo Geral
Analisar, de forma teórica, crítica e aprofundada, como as Metodologias Ativas podem contribuir para a ressignificação do ensino de Língua Portuguesa, promovendo aprendizagem significativa, autonomia intelectual, protagonismo discente e desenvolvimento das competências linguísticas.
2.2. Objetivos Específicos
Compreender os fundamentos epistemológicos e pedagógicos das Metodologias Ativas;
Analisar a relação entre linguagem, aprendizagem e interação social à luz de autores clássicos e contemporâneos;
Discutir como as Metodologias Ativas potencializam a leitura, a escrita, a oralidade e a análise linguística;
Investigar o impacto dessas metodologias na formação crítica, ética e cidadã dos estudantes;
Refletir sobre o papel do professor de Língua Portuguesa como mediador, pesquisador e formador de sujeitos.
3. JUSTIFICATIVA
A realização deste estudo justifica-se, primeiramente, pela centralidade da linguagem na constituição do sujeito e pela responsabilidade social da escola na formação de leitores, escritores e intérpretes críticos da realidade. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, culturais e educacionais, como o Brasil, o domínio da língua e das práticas discursivas constitui-se não apenas como competência acadêmica, mas como condição de cidadania, participação política e emancipação social (FREIRE, 1996).
Os baixos índices de proficiência leitora e escritora evidenciados por avaliações nacionais e internacionais, como o SAEB e o PISA (INEP, 2022), revelam uma crise estrutural no ensino de Língua Portuguesa, que não pode ser reduzida a problemas individuais de alunos ou professores, mas deve ser compreendida como expressão de um modelo pedagógico esgotado. Como afirma Demo (2004), a escola que apenas transmite conteúdos forma sujeitos dependentes, frágeis cognitivamente e pouco críticos, incapazes de produzir conhecimento próprio.
Nesse contexto, as Metodologias Ativas apresentam-se não como modismo pedagógico, mas como resposta epistemológica às exigências de uma sociedade complexa, plural e hiperconectada. Elas dialogam com a perspectiva de aprendizagem significativa (AUSUBEL, 2003), ao valorizarem os conhecimentos prévios dos alunos, suas experiências, seus contextos e suas subjetividades. Ao mesmo tempo, alinham-se à concepção freireana de educação como prática da liberdade, ao reconhecerem o educando
Do ponto de vista da Linguística Aplicada e dos estudos do discurso, a adoção das Metodologias Ativas no ensino de Língua Portuguesa é coerente com a compreensão de linguagem como prática social, defendida por autores como Bakhtin (2003), Geraldi (1997) e Marcuschi (2008). Esses autores criticam a fragmentação do ensino da língua e defendem uma abordagem integrada, contextualizada e orientada pelos gêneros discursivos e pelas situações reais de uso.
Além disso, a contemporaneidade é marcada pela cultura digital, pela convergência de mídias e pela produção incessante de discursos em diferentes plataformas. Rojo (2012) destaca que os multiletramentos exigem da escola uma abertura epistemológica para novas formas de leitura, escrita e produção de sentidos. As Metodologias Ativas favorecem essa abertura ao permitirem projetos interdisciplinares, produções multimodais, trabalhos colaborativos e intervenções sociais, ampliando o repertório discursivo e crítico dos estudantes.
Do ponto de vista ético e político, justifica-se este estudo pela necessidade de uma educação que não reproduza desigualdades, mas que as problematize. Como afirma Bourdieu (1998), a escola pode funcionar tanto como mecanismo de reprodução social quanto como espaço de transformação. O ensino de Língua Portuguesa, quando centrado apenas na norma culta e desvinculado das realidades dos alunos, tende a reforçar exclusões. Quando mediado por Metodologias Ativas, dialógicas e contextualizadas, pode tornar-se instrumento de inclusão, reconhecimento e empoderamento.
4. METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, bibliográfica e analítico-interpretativa, fundamentada na análise crítica de obras, artigos científicos e produções acadêmicas de autores nacionais e internacionais que discutem Metodologias Ativas, ensino de Língua Portuguesa, linguagem, aprendizagem e formação docente.
Segundo Minayo (2014), a pesquisa qualitativa permite apreender significados, sentidos, valores e construções simbólicas, sendo adequada para investigações que envolvem processos educativos e subjetivos. A análise dos dados foi realizada por meio de leitura exaustiva, categorização temática e interpretação crítica, buscando estabelecer diálogos entre os autores e construir uma síntese teórica consistente.
5. DESENVOLVIMENTO TEÓRICO
5.1. Linguagem Como Prática Social, Histórica e Ideológica
A compreensão da linguagem como prática social constitui o eixo epistemológico central para qualquer reflexão séria sobre o ensino de Língua Portuguesa. Distante de uma concepção instrumental ou meramente estrutural, a linguagem é, como afirma Bakhtin (2003), um fenômeno essencialmente dialógico, atravessado por vozes sociais, valores ideológicos e disputas de sentido. Cada enunciação carrega marcas históricas, sociais e culturais, de modo que falar, ler e escrever são atos profundamente situados.
Essa perspectiva rompe radicalmente com a tradição gramaticalista que, por décadas, reduziu o ensino de Língua Portuguesa à normatização, à classificação e à correção formal. Para Geraldi (1997), esse modelo esvazia a língua de sua função social e transforma o aluno em mero decodificador de regras, negando-lhe o direito à autoria e à produção de sentidos. Marcuschi (2008) reforça que a língua só existe em uso, em interação, em gêneros discursivos concretos, e não em abstrações isoladas.
Do ponto de vista histórico-cultural, Vygotsky (2007) sustenta que a linguagem é mediadora do desenvolvimento cognitivo, sendo o principal instrumento de internalização dos processos psicológicos superiores. Isso significa que aprender língua não é apenas adquirir competências linguísticas, mas construir formas de pensar, de interpretar e de agir no mundo. A linguagem, portanto, é constitutiva do sujeito, não acessória.
Nesse sentido, ensinar Língua Portuguesa é, inevitavelmente, formar consciências. É introduzir o sujeito nas práticas sociais de leitura, escrita, argumentação, interpretação e produção discursiva que estruturam a vida em sociedade. Trata-se de um processo ontológico, e não apenas didático.
5.2. Metodologias Ativas: Fundamentos Epistemológicos e Ruptura Paradigmática
As Metodologias Ativas inscrevem-se em uma tradição pedagógica que rompe com o paradigma transmissivo e aproxima-se das concepções construtivistas, socioconstrutivistas, humanistas e críticas de educação. Elas dialogam diretamente com Dewey (1979), ao defenderem a aprendizagem pela experiência; com Piaget (1976), ao reconhecerem o sujeito como construtor do conhecimento; com Vygotsky (2007), ao valorizarem a mediação e a interação social; e, sobretudo, com Freire (1996), ao assumirem a educação como prática da liberdade.
Para Moran (2015), as Metodologias Ativas deslocam o foco do ensino para a aprendizagem, compreendendo que o conhecimento não se transmite, mas se constrói. Bacich e Moran (2018) afirmam que essas metodologias promovem envolvimento cognitivo profundo, pois exigem da estudante pesquisa, tomada de decisão, resolução de problemas, autoria e reflexão crítica.
Demo (2004) é categórico ao afirmar que aprender é reconstruir o conhecimento, não copiá-lo. Essa afirmação possui implicações diretas para o ensino de Língua Portuguesa: não basta o aluno saber identificar sujeito, predicado ou conjunções; é necessário que ele saiba interpretar discursos, argumentar, posicionar-se, produzir textos com sentido e ler criticamente o mundo.
Assim, as Metodologias Ativas não são apenas estratégias didáticas inovadoras, mas expressão de uma ruptura epistemológica com a lógica da passividade, da memorização e da obediência intelectual. Elas instauram uma pedagogia da autoria, da investigação e da problematização.
5.3. Ensino de Língua Portuguesa e Protagonismo Discente
O protagonismo discente, tão enfatizado nas Metodologias Ativas, encontra respaldo teórico robusto na Linguística Aplicada crítica. Para Kleiman (2005), o letramento é um conjunto de práticas sociais, e não apenas habilidades técnicas. Rojo (2012) amplia esse conceito ao discutir os multiletramentos, afirmando que o sujeito contemporâneo precisa transitar entre linguagens verbais, visuais, sonoras, digitais e multimodais.
Dolz e Schneuwly (2004), ao proporem o trabalho com gêneros textuais, defendem que o ensino da língua deve partir de situações reais de comunicação, permitindo ao aluno compreender os propósitos, os interlocutores, os contextos e as estruturas dos textos. Isso se alinha profundamente às Metodologias Ativas, que colocam o aluno em situação de produção real: escrever para alguém, falar para um público, argumentar em um debate, intervir em um problema social.
Nesse processo, o aluno deixa de ser objeto do ensino e torna-se sujeito do discurso. Ele não apenas aprende a língua, mas se apropria dela como instrumento de ação no mundo.
5.4. Metodologias Ativas Como Espaço de Autoria, Criticidade e Emancipação
Freire (1996) afirma que ensinar exige respeito à autonomia do educando. Essa autonomia não é apenas operacional, mas intelectual, ética e política. Quando o aluno pesquisa, problematiza, debate, escreve, reescreve, argumenta e cria, ele não apenas aprende conteúdos, mas constrói identidade, consciência e posicionamento.
Bourdieu (1998) alerta que a escola pode funcionar como reprodutora de desigualdades simbólicas. O ensino tradicional de Língua Portuguesa, ao valorizar apenas a norma culta e desconsiderar os repertórios linguísticos dos alunos, frequentemente reforça exclusões. As Metodologias Ativas, quando fundamentadas em uma perspectiva crítica, permitem reconhecer os saberes prévios, as culturas e as vozes dos estudantes, promovendo inclusão e reconhecimento.
Assim, o ensino de Língua Portuguesa mediado por Metodologias Ativas torna-se espaço de disputa simbólica, de construção de sentido e de emancipação. A sala de aula transforma-se em arena discursiva, e não em auditório de obediência.
6. RESULTADOS E ANÁLISE DOS AUTORES
A análise dos autores evidencia uma convergência teórica robusta em torno da centralidade do sujeito, da linguagem e da experiência no processo de aprendizagem. Embora partam de campos distintos – pedagogia, psicologia, linguística, sociologia –, Freire (1996), Vygotsky (2007), Bakhtin (2003), Moran (2015), Bacich (2018), Demo (2004) e Rojo (2012) constroem, em diálogo, uma crítica contundente ao modelo tradicional de ensino.
Freire (1996) denuncia a educação bancária como prática de opressão simbólica, na qual o aluno é silenciado. Vygotsky (2007) demonstra que o desenvolvimento cognitivo se dá na interação, não no isolamento. Bakhtin (2003) afirma que toda linguagem é dialógica, e que não há sentido fora da relação com o outro. Moran (2015) e Bacich (2018) operacionalizam esses fundamentos ao propor metodologias que exigem participação ativa, investigação e autoria.
Do ponto de vista da Linguística, Geraldi (1997) e Marcuschi (2008) desmontam a lógica fragmentada do ensino gramatical e defendem uma abordagem discursiva, contextualizada e funcional da língua. Rojo (2012) amplia esse debate ao inserir a questão dos multiletramentos, mostrando que o ensino tradicional é incapaz de responder às demandas comunicacionais da contemporaneidade.
Ao analisar esses autores em conjunto, observa-se que as Metodologias Ativas não são um acréscimo ao ensino de Língua Portuguesa, mas uma exigência epistemológica. Elas se tornam coerentes com a concepção de linguagem como prática social, com a aprendizagem como construção e com o sujeito como produtor de sentidos.
Os resultados teóricos indicam que:
O aluno aprende mais profundamente quando é autor e não apenas receptor (DEMO, 2004; FREIRE, 1996).
A linguagem se desenvolve na interação e no uso real (BAKHTIN, 2003; VYGOTSKY, 2007; MARCUSCHI, 2008).
O ensino da língua precisa dialogar com a cultura, a tecnologia e a vida social (ROJO, 2012; CASTELLS, 2010).
A escola tem papel político na formação de sujeitos críticos (BOURDIEU, 1998; FREIRE, 1996).
Essa análise revela que o ensino de Língua Portuguesa por meio das Metodologias Ativas não é apenas pedagogicamente eficiente, mas eticamente necessário. Ele desloca o aluno da condição de espectador para a de ator social; da repetição para a criação; do silêncio para a palavra.
Do ponto de vista crítico, é possível afirmar que resistir às Metodologias Ativas no ensino da língua é, em certa medida, manter o aluno em uma posição de subalternidade discursiva. Como afirma Freire (1996), negar a palavra é negar a humanidade. Ensinar Língua Portuguesa de forma ativa é, portanto, um ato de reconhecimento ontológico do sujeito.
SÍNTESE CRÍTICA
À luz da análise realizada, compreende-se que as Metodologias Ativas, quando articuladas a uma concepção dialógica, crítica e social de linguagem, produzem uma inflexão profunda no ensino de Língua Portuguesa. Não se trata de modernizar a aula, mas de reconfigurar a relação entre sujeito, linguagem e mundo.
O aluno deixa de ser treinado para acertar e passa a ser formado para significar. O professor deixa de ser transmissor e passa a ser mediador, intelectual, pesquisador e formador de consciências. A língua deixa de ser norma e passa a ser vida.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerar uma reflexão sobre o ensino de Língua Portuguesa por meio das Metodologias Ativas implica, necessariamente, assumir que não se trata apenas de uma discussão didático-metodológica, mas de uma escolha ontológica, epistemológica e política. Ensinar língua é ensinar modos de existir no mundo. É formar sujeitos de palavra, de pensamento, de interpretação e de ação. É, como nos lembra Freire (1996), um ato profundamente ético, porque incide diretamente sobre a possibilidade de o sujeito dizer-se, narrar-se e posicionar-se na história.
À luz dos autores analisados, compreende-se que a linguagem não é apenas instrumento de comunicação, mas espaço de constituição do sujeito e de disputa de sentidos (Bakhtin, 2003). Toda prática pedagógica em Língua Portuguesa, portanto, carrega implicações ideológicas: ou reforça silêncios, ou produz vozes; ou reproduz subalternidades, ou constrói autoria. Nesse sentido, as Metodologias Ativas, quando fundamentadas em uma perspectiva crítica e dialógica, operam como dispositivos de emancipação simbólica, pois deslocam o aluno da condição de objeto do ensino para a condição de sujeito do discurso.
O ensino tradicional, centrado na fragmentação gramatical, na repetição mecânica e na autoridade unívoca do professor, revela-se epistemologicamente incompatível com a complexidade da linguagem e com as demandas da contemporaneidade. Como afirmam Geraldi (1997) e Marcuschi (2008), a língua só existe em uso, em interação, em práticas sociais concretas. Reduzi-la a regras é esvaziá-la de vida. Reduzi-la a exercícios é negá-la como experiência. Reduzi-la a correção é transformá-la em instrumento de exclusão.
As Metodologias Ativas, por sua vez, instauram uma pedagogia da experiência, da investigação, da problematização e da autoria (Moran, 2015; Bacich; Moran, 2018). Elas dialogam com a perspectiva vygotskiana de aprendizagem como processo social e mediado (Vygotsky, 2007), com a concepção bakhtiniana de linguagem como diálogo (Bakhtin, 2003) e com a visão freireana de educação como prática da liberdade (FREIRE, 1996). Ao integrar esses fundamentos, o ensino de Língua Portuguesa deixa de ser um treinamento técnico e passa a ser um processo formativo integral.
Ensinar língua por meio de projetos, problemas, debates, produções autorais, gêneros reais e práticas sociais é reconhecer que o aluno não aprende para a escola, mas para a vida. É reconhecer que a leitura não é decodificação, mas interpretação; que a escrita não é cópia, mas autoria; que a oralidade não é resposta, mas posicionamento.
Como afirma Rojo (2012), vivemos em um contexto de multiletramentos, no qual a escola precisa formar sujeitos capazes de transitar criticamente entre diferentes linguagens, mídias e discursos. As Metodologias Ativas oferecem o terreno fértil para essa formação, ao integrarem tecnologia, cultura, linguagem e vida.
Do ponto de vista social e político, este estudo reafirma que o ensino de Língua Portuguesa é um espaço de disputa simbólica. Bourdieu (1998) demonstra que a escola pode tanto reproduzir quanto transformar desigualdades. Quando a língua é ensinada como privilégio, ela excluí. Quando é ensinada como direito, ela emancipa. As Metodologias Ativas, ao valorizarem os saberes prévios, as culturas e as vozes dos estudantes, contribuem para a democratização do acesso à palavra e ao sentido.
Assim, ensinar Língua Portuguesa por meio das Metodologias Ativas é, em última instância, reconhecer o aluno como sujeito de linguagem e de história. É assumir que educar não é preencher, mas provocar; não é moldar, mas libertar; não é calar, mas escutar. É compreender que cada texto produzido, cada argumento construído, cada leitura realizada é um ato de existência.
Considera-se, portanto, que as Metodologias Ativas não são um recurso a mais, mas um imperativo pedagógico e ético diante da complexidade do mundo contemporâneo.
Elas não modernizam apenas a aula: humanizam o ensino, politizam a linguagem e dignificam o sujeito. Ensinar Língua Portuguesa, nesse horizonte, é formar consciências, é abrir mundos, é autorizar existências. E isso, como diria Freire (1996), é o mais alto compromisso da educação.
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1 Professora de Língua Portuguesa na Escola Estadual Dr. José Teodoro de Souza. Capetinga-M.G