ELABORAÇÃO DE MANUAL EDUCATIVO DE ESTIMULAÇÃO SENSORIAL PÓS-AVC PARA CUIDADORES

DEVELOPMENT OF AN EDUCATIONAL MANUAL ON POST-STROKE SENSORY STIMULATION FOR CAREGIVERS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776723237

RESUMO
O acidente vascular cerebral (AVC) é uma das principais causas de incapacidade no mundo, resultando frequentemente em déficits sensoriais, motores e cognitivos que demandam reabilitação prolongada e participação ativa de cuidadores familiares. Diante do crescente reconhecimento do papel do cuidador na reabilitação domiciliar e da escassez de materiais educativos acessíveis e fundamentados em evidências, este estudo tem como objetivo elaborar um manual educativo de estimulação sensorial pós-AVC destinado a cuidadores familiares, utilizando revisão narrativa e integrativa da literatura como base metodológica. O estudo integra evidências sobre epidemiologia do AVC, déficits sensoriais e neuroplasticidade, protocolos de estimulação sensorial, papel do cuidador informal e produção de materiais educativos no contexto brasileiro. Os resultados apontam que a estimulação sensorial multimodal, quando estruturada e supervisionada, pode potencializar a recuperação neurológica e funcional do paciente, ao mesmo tempo em que fortalece a competência e reduz a sobrecarga do cuidador. A sistematização dessas evidências em linguagem acessível constitui estratégia relevante para qualificar o cuidado domiciliar e promover a continuidade da reabilitação fora do ambiente clínico. O manual elaborado, apresentado integralmente em (https://revistatopicos.com.br/pdf/MANUAL_CLARA_E_SAYANNE.pdf) deste trabalho, organiza o conteúdo técnico em quatro módulos progressivos, com linguagem adaptada ao cuidador leigo, recursos visuais e protocolos passo a passo.
Palavras-chave: acidente vascular cerebral; estimulação sensorial; cuidadores; reabilitação domiciliar; manuais de saúde.

ABSTRACT
Stroke is one of the leading causes of disability worldwide, frequently resulting in sensory, motor, and cognitive deficits that require prolonged rehabilitation and active participation from family caregivers. Given the growing recognition of the caregiver's role in home-based rehabilitation and the scarcity of accessible, evidence-based educational materials, this study aims to develop an educational manual on post-stroke sensory stimulation for family caregivers, grounded in a narrative and integrative literature review. The study integrates evidence on stroke epidemiology, sensory deficits and neuroplasticity, sensory stimulation protocols, the role of the informal caregiver, and the production of educational materials in the Brazilian context. The findings indicate that multimodal sensory stimulation, when structured and professionally supervised, can enhance neurological and functional recovery while simultaneously strengthening caregiver competence and reducing burden. The manual produced, presented in full in (https://revistatopicos.com.br/pdf/MANUAL_CLARA_E_SAYANNE.pdf) of this work, organizes technical content into four progressive modules with language adapted for lay caregivers, visual resources, and step-by-step protocols.
Keywords: stroke; sensory stimulation; caregivers; home rehabilitation; health manuals.

1. INTRODUÇÃO

O acidente vascular cerebral (AVC) representa uma das mais graves condições neurológicas, constituindo a segunda principal causa de morte e a maior causa de incapacidade adquirida em adultos no mundo (Saini, Guada e Yavagal, 2021; Prust, Forman e Ovbiagele, 2024). No Brasil, o impacto da doença se manifesta tanto em termos de morbimortalidade quanto na organização do sistema de saúde, exigindo respostas articuladas desde a fase aguda até a reabilitação de longo prazo (Brasil, 2013).

Entre as sequelas mais prevalentes do AVC estão os déficits sensoriais, que afetam entre 50% e 80% dos sobreviventes, comprometendo a percepção tátil, a propriocepção e o equilíbrio, e repercutindo diretamente na capacidade funcional, na independência e na qualidade de vida (Hoh e Semrau, 2025; Kessner et al., 2019). Apesar de sua alta prevalência, esses déficits são frequentemente subdiagnosticados e subtratados na prática clínica, o que justifica o desenvolvimento de intervenções específicas e acessíveis (Tyson et al., 2008).

Nesse contexto, o cuidador familiar assume papel central na reabilitação domiciliar, sendo responsável por grande parte das atividades de estimulação, mobilização e apoio ao sobrevivente (Bendová et al., 2024; Chen et al., 2021). No entanto, a maioria dos cuidadores inicia esse papel sem preparo adequado, o que eleva a sobrecarga, compromete a qualidade do cuidado e aumenta o risco de complicações para o paciente (Damaiyanti et al., 2023; Denham et al., 2020).

A elaboração de materiais educativos destinados a cuidadores, como manuais e cartilhas, representa estratégia reconhecida para a qualificação do cuidado domiciliar, a redução de complicações e a continuidade da reabilitação para além dos serviços de saúde formais (Brasil, 2008; Associação Brasil AVC, 2019). A escassez de materiais específicos sobre estimulação sensorial, fundamentados em evidências e adaptados à linguagem dos cuidadores, evidencia uma lacuna relevante que este trabalho busca contribuir para suprir.

Assim, o presente estudo tem como objetivo elaborar um manual educativo de estimulação sensorial pós-AVC destinado a cuidadores familiares, fundamentado em revisão narrativa e integrativa da literatura científica e seguindo a metodologia proposta por Echer (2005) para construção de manuais de orientação em saúde. O manual foi estruturado a partir da sistematização de evidências articuladas em torno de três eixos: reabilitação sensorial domiciliar, capacitação de cuidadores informais e desenvolvimento de materiais educativos acessíveis no contexto brasileiro. O produto final deste trabalho, o Manual de Estimulação Sensorial Pós-AVC para Cuidadores, é apresentado na íntegra no Link de acesso ao manual, com todo o conteúdo detalhado e os protocolos passo a passo.

2. METODOLOGIA

O estudo constitui pesquisa de desenvolvimento metodológico com abordagem qualitativa, voltada à elaboração de um manual educativo sobre estimulação sensorial pós-AVC para cuidadores. A base metodológica articula dois movimentos complementares: a revisão narrativa e integrativa da literatura científica e normativa, que fundamenta o referencial teórico e subsidia as recomendações de conteúdo; e a consulta a documentos e materiais educativos institucionais disponíveis no contexto brasileiro, que orienta as escolhas de estrutura, linguagem e design do manual.

A busca bibliográfica foi conduzida em bases de dados nacionais e internacionais, incluindo PubMed, Cochrane Library, SciELO e LILACS, complementadas pelas plataformas de inteligência acadêmica Consensus e SciSpace, com recorte temporal prioritário dos últimos dez anos, admitindo estudos anteriores de relevância histórica ou normativa. Os descritores articularam os eixos temáticos centrais: acidente vascular cerebral; estimulação sensorial; neuroplasticidade; déficits somatossensoriais; cuidadores informais; reabilitação domiciliar; protocolos de estimulação domiciliar; e desenvolvimento de materiais educativos em saúde.

Os critérios de inclusão priorizaram estudos que descrevessem técnicas, parâmetros, protocolos ou adaptações de estimulação sensorial aplicáveis ao ambiente domiciliar; estudos sobre programas de treinamento e capacitação de cuidadores de sobreviventes de AVC; e estudos metodológicos sobre desenvolvimento, validação e eficácia de materiais educativos para cuidadores.

A estrutura do manual foi planejada seguindo a metodologia de Echer (2005) para elaboração de manuais de orientação ao cuidado em saúde, que preconiza: linguagem acessível a todas as camadas sociais independentemente do grau de instrução; seleção de informações relevantes, objetivas e significativas para o manejo da condição de saúde; uso estratégico de ilustrações para facilitar a compreensão; e tamanho adequado, nem extenso a ponto de desestimular a leitura, nem superficial a ponto de comprometer a orientação. O produto final, o Manual de Estimulação Sensorial Pós-AVC para Cuidadores, é apresentado na íntegra no Link para acesso ao manualdeste trabalho.

3. RESULTADOS

A síntese das evidências revisadas permitiu identificar e organizar os conteúdos, as técnicas e as recomendações que integram o manual de estimulação sensorial pós-AVC para cuidadores, distribuídos em quatro eixos temáticos estruturantes, apresentados a seguir. O manual completo, com todo o conteúdo textual detalhado, protocolos passo a passo, recursos visuais e instruções para o designer gráfico, encontra-se no Link para acesso ao manualdeste trabalho.

3.1. Estrutura e Organização do Manual

A literatura sobre desenvolvimento de materiais educativos para cuidadores aponta convergência metodológica quanto à necessidade de estrutura clara, linguagem acessível, uso intenso de ilustrações e diagramação cuidada, com vocabulário adaptado ao nível de letramento do público-alvo (Kim e Oh, 2020; Rodrigues et al., 2020; Sousa et al., 2021). Com base nesses parâmetros e na metodologia de Echer (2005), o manual organiza-se em quatro módulos progressivos (ver Link de acesso ao manual): Módulo 1 - O AVC e os déficits sensoriais; Módulo 2 - Técnicas de estimulação sensorial; Módulo 3 - Segurança; e Módulo 4 - Rotina, registro e comunicação com a equipe. A sequência parte da compreensão da condição clínica, avança para as técnicas práticas de estimulação fundamentadas na fisioterapia neurológica, e conclui com critérios de segurança e organização da rotina domiciliar. A linguagem é direta, com substituição de termos técnicos por equivalentes cotidianos e ilustrações representativas do contexto domiciliar brasileiro.

3.2. O AVC Explicado para Cuidadores (Módulo 1)

O primeiro módulo do manual contextualiza o AVC para o cuidador em linguagem simples, abordando a distinção entre AVC isquêmico e hemorrágico, os mecanismos da lesão cerebral e o porquê das sequelas variarem entre as pessoas. Em continuidade, apresenta os déficits sensoriais mais comuns, comprometimento tátil, proprioceptivo e de equilíbrio—, que afetam entre 50% e 80% dos sobreviventes e frequentemente passam despercebidos (Hoh e Semrau, 2025; Kessner et al., 2019). O módulo orienta o cuidador a reconhecer sinais observáveis no cotidiano, como não perceber o toque no lado afetado, não saber onde o membro está sem olhar, ou tropeçar em superfícies planas, e a comunicá-los à equipe de saúde. Cuidadores que compreendem o mecanismo da lesão tendem a aderir melhor aos programas de estimulação e a interpretar de forma mais adequada as respostas do sobrevivente (Damaiyanti et al., 2023; Forster et al., 2015).

O módulo também introduz a importância da fisioterapia no processo de reabilitação pós-AVC, esclarecendo ao cuidador que a recuperação sensorial e motora depende de intervenção profissional especializada associada à estimulação domiciliar contínua. A fisioterapia neurológica atua diretamente na avaliação dos déficits, na prescrição de exercícios específicos e no acompanhamento da evolução funcional do sobrevivente, sendo indispensável durante todo o processo de reabilitação (Maso et al., 2024; Minelli et al., 2022).

3.3. Neuroplasticidade em Linguagem Acessível (Módulo 2)

O manual dedica uma seção à justificativa da estimulação sensorial, apresentada de forma compreensível e motivadora. A neuroplasticidade é explicada com analogias cotidianas, a ideia de que o cérebro é capaz de criar novos caminhos para substituir os que foram interrompidos pela lesão, desde que receba estímulos adequados e repetidos. O conteúdo transmite três mensagens centrais: a estimulação sensorial ajuda o cérebro a se reorganizar; quanto mais repetitiva, variada e significativa for a estimulação, maior o potencial de recuperação; e os primeiros meses após o AVC são especialmente importantes, embora a recuperação possa continuar por anos (Kumar et al., 2023; Norwood et al., 2022).

3.4. Técnicas de Estimulação Sensorial (Módulo 3)

Esta é a seção central do manual e a mais detalhada. As técnicas aqui descritas são recursos amplamente utilizados na fisioterapia neurológica, incluindo estímulos táteis, proprioceptivos, auditivos e multissensoriais, que podem contribuir para favorecer a reorganização neural e estimular respostas sensório-motoras (Silva et al., 2024; Norwood et al., 2022; Hoh e Semrau, 2025). Com base na síntese das evidências (Norwood et al., 2022; Silva et al., 2024; Minelli et al., 2022; Nussbaum, 2023), as técnicas foram adaptadas para execução por cuidadores treinados no ambiente domiciliar, sem necessidade de equipamentos especializados, organizando-se em quatro modalidades principais, todas apresentadas em formato passo a passo ilustrado no Link de acesso ao manual.

A estimulação tátil envolve o toque firme e organizado em segmentos afetados, utilizando diferentes texturas como tecidos, esponjas, arroz, feijão e bolas de borracha; escovação leve com movimentos no sentido distal-proximal; e exploração de objetos do cotidiano com diferentes formas, pesos e superfícies. A frequência recomendada é de dez a quinze minutos por dia, em sessões curtas e repetidas, integradas à rotina de higiene e cuidado.

A estimulação proprioceptiva abrange o posicionamento articular guiado com feedback verbal (por exemplo, perguntar "onde está sua mão?" enquanto move o membro afetado); exercícios de reconhecimento de posição com olhos fechados; e atividades que utilizem o membro afetado em tarefas funcionais simples, como alcançar objetos, abrir e fechar recipientes e manipular utensílios domésticos.

A estimulação auditiva rítmica utiliza músicas significativas para o sobrevivente e metrônomos disponíveis em aplicativos gratuitos para sincronizar movimentos de membros superiores e inferiores com o ritmo sonoro, tendo demonstrado melhora em parâmetros de marcha (Scataglini et al., 2023).

A estimulação multissensorial integra dois ou mais tipos de estímulos em uma mesma sessão, tato combinado com música ou estimulação visual com atividades manuais, em sessões de vinte a quarenta minutos, três a cinco vezes por semana, conforme tolerância do paciente (Norwood et al., 2022).

Além das quatro modalidades de estimulação sensorial, o módulo incorpora orientações posturais básicas e atividades funcionais simples que podem ser realizadas pelo cuidador sob supervisão periódica do fisioterapeuta. As orientações posturais incluem o posicionamento adequado do paciente durante as sessões de estimulação e ao longo do dia, respeitando o alinhamento corporal e prevenindo contraturas e lesões por pressão. As atividades funcionais, como alcançar objetos, manipular utensílios domésticos e realizar tarefas de autocuidado com o membro afetado, integram os estímulos sensoriais ao contexto de uso real, potencializando a transferência dos ganhos para as atividades de vida diária (Rowe, 2020; Vlooithuis et al., 2018).

3.5. Segurança, Rotina e Registro (Módulos 3 e 4)

A segurança constitui eixo transversal do manual. As diretrizes brasileiras de reabilitação pós-AVC estabelecem critérios claros de monitoramento durante atividades físicas e de estimulação, incluindo: aferição de pressão arterial antes e após atividades; observação de frequência cardíaca, coloração da pele e sinais de esforço excessivo; e atenção a queixas de dor, tontura, cefaleia ou piora súbita de sintomas, que demandam interrupção imediata da atividade e contato com a equipe de saúde (Maso et al., 2024; Minelli et al., 2022). O manual lista o que nunca deve ser feito pelo cuidador sem orientação profissional e quais situações contraindicam a estimulação no dia.

O manual orienta o cuidador sobre como integrar a estimulação à rotina diária, evitando que ela seja percebida como tarefa adicional e onerosa. Apresenta um modelo de rotina semanal adaptável, com sugestão de distribuição das modalidades ao longo dos dias, respeitando a necessidade de variação dos estímulos e de descanso. Inclui orientações sobre como envolver outros membros da família na rotina de estimulação, distribuindo a responsabilidade e ampliando o suporte ao sobrevivente (Stevenson, 2004; Forster et al., 2015).

O manual inclui instrumentos simples de registro e observação, adaptados ao letramento de cuidadores leigos: um diário de sessões com campos para data, duração, técnicas realizadas, resposta do paciente e intercorrências; escalas visuais simples para registro da resposta do paciente; e orientações sobre quando e como comunicar alterações à equipe de saúde. Incorpora ainda orientações para o cuidado do próprio cuidador, com reconhecimento de sinais de sobrecarga e estratégias de autocuidado (Panzeri, Ferrario e Vidotto, 2019).

3.6. Design, Linguagem e Diretrizes de Produção Gráfica

Quanto às diretrizes de design e linguagem, o manual adota vocabulário simples e direto, frases curtas em voz ativa, ilustrações representativas do contexto domiciliar brasileiro e diagramação que priorize hierarquia visual clara e espaços em branco (Rodrigues et al., 2020; Sousa et al., 2021; Fuhrmann et al., 2021). O roteiro completo para o designer gráfico, com especificações de paleta de cores, tipografia, estilo de ilustrações e orientações de impressão, consta ao final do Link de acesso ao manual.

4. DISCUSSÃO

Os resultados evidenciam que a elaboração de um manual de estimulação sensorial pós-AVC para cuidadores é não apenas viável, mas necessária diante de lacunas identificadas tanto na produção científica quanto no campo dos materiais educativos disponíveis no Brasil. O conjunto de evidências revisado demonstra que a estimulação sensorial domiciliar pode ser ensinada a cuidadores informais e produzir benefícios mensuráveis na recuperação neurológica e funcional do sobrevivente, desde que estruturada com base em princípios neurocientíficos, adaptada ao contexto domiciliar e supervisionada periodicamente por profissionais de reabilitação (Silva et al., 2024; Norwood et al., 2022; Hoh e Semrau, 2025).

O alinhamento com as Diretrizes Brasileiras de Reabilitação do AVC (Minelli et al., 2022) e com o protocolo de fisioterapia em unidades de AVC agudo proposto por Maso et al. (2024) confere ao manual fundamentação normativa nacional, aspecto essencial para sua legitimação junto a equipes de saúde e gestores. As diretrizes brasileiras já reconhecem a estimulação sensorial como componente da reabilitação pós-AVC, embora não descrevam protocolos domiciliares específicos para cuidadores leigos, lacuna que o manual busca suprir.

A fisioterapia neurológica ocupa papel central na reabilitação pós-AVC, e a estimulação sensorial constitui um dos recursos terapêuticos fundamentais dessa especialidade. As técnicas descritas no manual, como estimulação tátil, proprioceptiva, auditiva rítmica e multissensorial, são intervenções utilizadas rotineiramente na prática fisioterapêutica para promover reorganização cortical, estimular respostas sensório-motoras e favorecer a recuperação funcional (Silva et al., 2024; Schranz et al., 2022). Ao sistematizar essas técnicas em linguagem acessível para cuidadores, o manual não pretende substituir a atuação do fisioterapeuta, mas estender o alcance da reabilitação ao ambiente domiciliar, garantindo continuidade dos estímulos entre as sessões profissionais. A importância clínica dessa abordagem reside no fato de que a intensidade e a frequência da estimulação são determinantes para a neuroplasticidade, e a participação ativa do cuidador possibilita que o paciente receba estímulos regulares ao longo da semana, potencializando os resultados obtidos nas sessões de fisioterapia (Norwood et al., 2022; Dromerick et al., 2021).

A ênfase na multimodalidade e na integração com tarefas funcionais significativas, recomendada pela literatura internacional (Norwood et al., 2022; Scataglini et al., 2023), encontra respaldo nas abordagens de reabilitação orientada a tarefas validadas em contexto domiciliar, como o programa TOTE Home (Rowe, 2020) e o CARE4STROKE (Vlooithuis et al., 2018). Esses programas demonstram que o cuidador pode desempenhar papel ativo e efetivo na condução de atividades de reabilitação, desde que receba treinamento estruturado, materiais adequados e suporte profissional sistemático.

A dimensão do letramento em saúde constitui desafio central para o design do manual. Estudos indicam que cuidadores de pessoas idosas frequentemente apresentam dificuldades na compreensão e no uso de materiais escritos em linguagem técnica, o que reduz a adesão e aumenta o risco de erros na execução de cuidados (Kim e Oh, 2020). O currículo de letramento em saúde proposto por Wittenberg, Goldsmith e Parnell (2020) demonstra que competências como buscar informação, dialogar com profissionais e reconhecer limites do cuidado podem ser desenvolvidas por cuidadores informais quando o conteúdo educativo é adequadamente estruturado.

Algumas limitações devem ser reconhecidas. A maioria dos protocolos de estimulação sensorial revisados foi testada em ambiente clínico ou de pesquisa com supervisão profissional direta, o que limita a generalização direta de seus parâmetros para o contexto domiciliar. A tradução de protocolos clínicos em orientações práticas para leigos exige processo cuidadoso de simplificação sem perda de segurança, o que só pode ser verificado por meio de validação com o público-alvo (Fuhrmann et al., 2021). Além disso, a heterogeneidade dos perfis clínicos dos sobreviventes de AVC demanda que o manual preveja adaptações específicas por nível de comprometimento.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo alcançou seu objetivo de elaborar um manual educativo de estimulação sensorial pós-AVC destinado a cuidadores familiares, fundamentado em revisão narrativa e integrativa da literatura e estruturado conforme a metodologia de Echer (2005). O manual, apresentado integralmente no Link de acesso ao manual, organiza em quatro módulos progressivos as evidências sobre AVC e déficits sensoriais, técnicas de estimulação sensorial utilizadas na fisioterapia neurológica, protocolos de segurança e organização da rotina domiciliar.

A importância do manual reside na sua capacidade de traduzir recursos terapêuticos da fisioterapia neurológica, como estímulos táteis, proprioceptivos, auditivos e multissensoriais, em orientações práticas e seguras para cuidadores leigos. A fisioterapia exerce papel indispensável na reabilitação pós-AVC, e o manual potencializa seu impacto ao garantir a continuidade da estimulação sensorial no ambiente domiciliar, ampliando a frequência e a regularidade dos estímulos que favorecem a neuroplasticidade e a recuperação funcional.

Em termos de aplicabilidade, o material pode ser utilizado como recurso complementar por equipes de fisioterapia, enfermagem e saúde da família na orientação de cuidadores durante o planejamento de alta hospitalar e no acompanhamento pela atenção primária. Seu alinhamento com as Diretrizes Brasileiras de Reabilitação do AVC (Minelli et al., 2022) e com a política nacional de atenção ao AVC confere potencial de integração com os serviços do Sistema Único de Saúde.

Pesquisas futuras deverão conduzir o processo de validação por especialistas e público-alvo, bem como a avaliação da efetividade do manual em contexto real de cuidado domiciliar, verificando seu impacto nas competências do cuidador, nos desfechos sensoriais e funcionais do sobrevivente e na qualidade da reabilitação fisioterapêutica prestada.

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Link para acesso ao manual “ESTIMULANDO OS SENTIDOS EM CASA: Guia do Cuidador Pós-AVC": https://revistatopicos.com.br/pdf/MANUAL_CLARA_E_SAYANNE.pdf

1 Discente do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Santo Agostinho

2 Discente do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Santo Agostinho. E-mail: [email protected]

3 Mestre, Docente do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Santo Agostinho