REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792772778
RESUMO
O crescimento da população idosa relaciona-se à maior incidência de doenças neurológicas degenerativas, como a doença de Alzheimer, a doença de Parkinson e a esclerose lateral amiotrófica, condições progressivas que podem afetar a independência, o desempenho funcional e o bem-estar. Nesse contexto, as repercussões psicológicas podem atingir tanto a pessoa idosa quanto seus familiares e cuidadores. A relevância deste estudo está na necessidade de compreender essas repercussões, contribuindo para ampliar a atenção à saúde mental e favorecer uma assistência integral. O presente estudo tem como objetivo compreender, por meio de investigação bibliográfica, as repercussões psicológicas vivenciadas por pessoas idosas e seus familiares diante dessas doenças, considerando a redução gradual da independência, as dificuldades emocionais dos cuidadores, as estratégias de enfrentamento e o papel das redes de suporte. Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, com finalidade exploratória e descritiva, realizado mediante levantamento e análise de estudos científicos publicados em bases de dados, como Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Google Acadêmico, além de artigos disponíveis em revistas científicas e documentos institucionais pertinentes ao tema. Os estudos analisados indicaram que o adoecimento pode gerar consequências emocionais e sociais para os idosos, enquanto familiares e cuidadores podem apresentar sobrecarga e necessidade de apoio. Destaca-se a importância do suporte social, do acompanhamento especializado e da atuação multiprofissional para contribuir com o bem-estar e a assistência integral. Conclui-se que compreender essas repercussões contribui para ampliar as ações voltadas à saúde mental das pessoas idosas e de seus familiares.
Palavras-chave: doenças neurológicas degenerativas; envelhecimento; família; qualidade de vida; saúde mental.
ABSTRACT
The growth of the older adult population is associated with a higher incidence of degenerative neurological diseases, such as Alzheimer’s disease, Parkinson’s disease, and amyotrophic lateral sclerosis, progressive conditions that can affect independence, functional performance, and well-being. In this context, the psychological repercussions may affect both older adults and their family members and caregivers. The relevance of this study lies in the needunderstand these repercussions, contributing to increased attention to mental health and promoting comprehensive care. This study aims to understand, through bibliographic research, the psychological repercussions experienced by Oder adults and their family members in the context of these diseases, considering the gradual loss of independence, caregivers’ emotional difficulties, coping strategies, and the role of support networks. This is a qualitative study with an exploratory and descriptive purpose, conducted through the survey and analysis of scientific studies published in databases such as the Scientific Electronic Library Online (SciELO), the Virtual Health Library (VHL), and Google Scholar, as well as articles available in scientific journals and institutional documents relevant to the topic. The studies analyzed indicated that illness can generate emotional and social consequences for older adults, while family members and caregivers may experience burden and a need for support. The importance of social support, specialized follow-up, and multidisciplinary care is emphasized as a means of promoting well-being and comprehensive assistance. It is concluded that understanding these repercussions contributes to expanding actions aimed at the mental health of older adults and their family members.
Keywords: degenerative neurological diseases; aging; Family; quality of life; mental health; .
1. INTRODUÇÃO
O processo de envelhecimento humano envolve transformações biológicas, psicológicas e sociais que podem repercutir na autonomia, na funcionalidade e na qualidade de vida. Com o aumento da longevidade, torna-se necessário compreender as condições de saúde que afetam o bem-estar das pessoas idosas, especialmente as doenças neurológicas degenerativas, que podem exigir adaptações na rotina e maior necessidade de cuidado. A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020) destaca a importância de preservar a capacidade funcional e promover uma atenção integrada à saúde da pessoa idosa.
Entre essas condições estão a doença de Alzheimer, a doença de Parkinson e a esclerose lateral amiotrófica (ELA), que apresentam características clínicas distintas, mas podem comprometer progressivamente a independência e as atividades cotidianas. Suas repercussões não se restringem aos aspectos físicos e cognitivos, pois também podem envolver dimensões emocionais, familiares e sociais. A necessidade crescente de auxílio pode provocar mudanças na percepção de autonomia da pessoa idosa e favorecer sentimento de insegurança, tristeza, ansiedade e frustração, embora essas experiências variem conforme a história de vida, os vínculos afetivos e os recursos disponíveis.
Na doença de Alzheimer, as alterações cognitivas podem dificultar a realização de atividades diárias e ampliar a participação dos familiares no cuidado. Na doença de Parkinson, as manifestações motoras e outras alterações associadas à progressão da enfermidade podem modificar a rotina e aumentar as necessidades de assistência. Já a ELA caracteriza-se pelo comprometimento progressivo dos neurônios motores, podendo ocasionar limitações funcionais importantes. Essas condições exigem atenção às necessidades individuais e familiares, considerando suas particularidades e os efeitos do adoecimento sobre a qualidade de vida.
As repercussões também podem alcançar os familiares que assumem atividades de cuidado. A necessidade de acompanhar tratamentos, auxiliar nas tarefas diárias e reorganizar responsabilidades pode provocar desgaste físico e emocional, além de mudanças na vida profissional e social. Perepezko et al. (2023), em revisão sistemática sobre a doença de Parkinson, identificaram diferentes dimensões relacionadas à experiência dos cuidadores, incluindo sobrecarga, tensão e aspectos psicológicos. De Wit et al. (2018), por sua vez, investigaram a sobrecarga de cuidadores de pessoas com ELA, evidenciando a relevância de considerar as necessidades de quem oferece assistência. Dessa forma, o cuidado deve ser compreendido para além das tarefas práticas, contemplando também suas repercussões emocionais e relacionais.
Entretanto, a experiência de cuidar não se limita à sobrecarga, pois sentimentos de afeto, responsabilidade e vínculo podem coexistir com cansaço, preocupação e dificuldades de adaptação. Nesse contexto, as estratégias de enfrentamento, o acesso à informação, o acompanhamento psicológico e as redes de apoio podem contribuir para lidar com as mudanças provocadas pela progressão da doença. Assim, torna-se importante considerar tanto as necessidades da pessoa idosa quanto as dos familiares cuidadores, reconhecendo que ambos podem necessitar de acolhimento e suporte profissional.
Diante desse cenário, a pesquisa busca responder ao seguinte problema: como as pessoas idosas diagnosticadas com doenças neurológicas degenerativas e seus familiares lidam psicologicamente com a evolução da enfermidade? O objetivo geral consiste em analisar os impactos psicológicos vivenciados por pessoas idosas com doenças neurológicas degenerativas e por seus familiares diante do agravamento da condição. Como objetivos específicos, busca-se investigar as dificuldades emocionais relacionadas à perda progressiva da autonomia; identificar sentimentos e desafios vivenciados pelos familiares cuidadores; compreender as estratégias de enfrentamento utilizadas diante da evolução da doença; e discutir a relevância do suporte comunitário e profissional para a qualidade de vida das pessoas idosas e de seus cuidadores.
A relevância deste estudo está na necessidade de ampliar a compreensão sobre as repercussões psicológicas das doenças neurológicas degenerativas, considerando a subjetividade, a autonomia, as relações familiares e o bem-estar emocional. Na perspectiva da Psicologia da Saúde, essa compreensão pode contribuir para refletir sobre práticas de acolhimento, orientação e acompanhamento que contemplem as necessidades da pessoa idosa e de seus familiares.
Para alcançar os objetivos propostos, desenvolveu-se uma pesquisa exclusivamente bibliográfica, de abordagem qualitativa e finalidade exploratória e descritiva, baseada em produções científicas e documentos institucionais relacionados ao envelhecimento, às doenças neurológicas degenerativas, às repercussões psicológicas, ao cuidado familiar e às redes de suporte. O levantamento considerou fontes como SciELO, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Google Acadêmico. Não foram realizadas entrevistas, aplicação de questionários ou coleta de dados com participantes; portanto, a discussão fundamenta-se na literatura consultada.
2. ASPECTOS PSICOLÓGICOS DE PESSOAS IDOSAS E FAMILIARES DIANTE DAS DOENÇAS NEUROLÓGICAS DEGENERATIVAS
2.1. Envelhecimento e Saúde Mental
O envelhecimento humano constitui um processo heterogêneo, marcado pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. Por isso, a compreensão da saúde mental na velhice não deve se limitar às alterações físicas decorrentes da idade, sendo necessário considerar também a história de vida, as condições socioeconômicas, os vínculos afetivos e as oportunidades de participação social. O Ministério da Saúde ressalta que a atenção à pessoa idosa deve considerar sua funcionalidade e seu contexto de vida, sem associar automaticamente o envelhecimento à perda de autonomia ou independência (BRASIL, s.d.).
As mudanças vivenciadas nessa etapa podem envolver aposentadoria, perdas afetivas, alterações na rotina e modificações nas relações sociais. Quando associadas à solidão, ao isolamento e à presença de doenças crônicas, essas situações podem aumentar a vulnerabilidade emocional. Oliveira et al. (2018), em uma revisão integrativa sobre envelhecimento, saúde mental e suicídio, identificaram associações entre sofrimento psíquico na velhice e fatores como sintomas depressivos, ansiedade, doenças físicas e condições socioeconômicas desfavoráveis. Esses achados reforçam a importância de uma abordagem que considere a saúde mental em sua relação com as condições de vida da pessoa idosa. Adicionalmente, Ceccon et al.(2021) ponderam que as características sociodemográficas interferem diretamente na taxa de dependência e no grau de vulnerabilidade social a esses idosos estão submetidos.
A Organização Mundial da Saúde destaca que o isolamento social e a solidão constituem fatores de risco para problemas de saúde mental na velhice. Em contrapartida, a manutenção de vínculos, a participação em atividades significativas e o acesso aos serviços de saúde podem contribuir para o bem-estar e a qualidade de vida (WORLD Health Organization, 2026). Dessa forma, o envelhecimento não deve ser compreendido exclusivamente pela perspectiva das perdas, uma vez que as experiências individuais também são influenciadas pelos recursos pessoais, familiares e comunitários disponíveis.
Essa compreensão torna-se especialmente relevante diante do diagnóstico de doenças neurológicas degenerativas, que podem modificar a funcionalidade, a autonomia e a organização da vida cotidiana. A progressão dessas condições pode exigir adaptações por parte da pessoa idosa e de seus familiares, tornando necessário considerar não apenas os aspectos clínicos, mas também as necessidades emocionais e relacionais envolvidas. Nesse sentido, a atenção integral deve contemplar a singularidade da pessoa idosa e favorecer o acolhimento, a escuta e o suporte adequado às mudanças vivenciadas (Brasil, s.d.; WORLD Health Organization, 2026).
Portanto, compreender a relação entre envelhecimento e saúde mental é fundamental para analisar as repercussões psicológicas das doenças neurológicas degenerativas. Essa perspectiva permite reconhecer a influência dos fatores individuais e sociais sobre a experiência do adoecimento e fundamenta a discussão sobre os impactos psicológicos para a pessoa idosa e seus familiares, tema desenvolvido nas próximas seções.
2.2. Doenças Neurológicas Degenerativas na Pessoa Idosa
A doença de Alzheimer é uma condição neurodegenerativa progressiva considerada a principal causa de demência entre pessoas idosas. Caracteriza-se pelo comprometimento gradual das funções cognitivas, especialmente da memória, podendo também afetar a linguagem, a orientação, o raciocínio, o planejamento e a capacidade de realizar atividades cotidianas. Com a progressão da doença, as dificuldades cognitivas e funcionais tendem a se ampliar, embora a velocidade e a forma de evolução variem entre os indivíduos. O diagnóstico envolve avaliação clínica e cognitiva e, quando indicado, a utilização de exames complementares para investigar alterações associadas à doença (Monfared et al., 2022; Liss et al., 2021).
A doença de Parkinson é uma condição neurodegenerativa progressiva que afeta principalmente os sistemas cerebrais envolvidos no controle dos movimentos. Entre suas manifestações motoras mais características estão a lentidão dos movimentos, a rigidez muscular, o tremor de repouso e as alterações de equilíbrio e marcha.
Conforme explicitado por Cabreira e Massano (2019), o entendimento clínico atual foca em atualizações terapêuticas precoces para mitigar esses danos. Entretanto, a doença não se limita às manifestações motoras: também podem ocorrer alterações do sono, do olfato, das funções cognitivas e do funcionamento autonômico. A apresentação clínica é heterogênea, e os sintomas podem se modificar ao longo tempo, tornando necessário o acompanhamento individualizado de acordo com as necessidades de cada pessoa (Váradi, 2020; Pirtošek et al., 2020).
A esclerose lateral amiotrófica (ELA) é uma doença neurodegenerativa que compromete os neurônios motores responsáveis pelo controle dos músculos voluntários. Sua evolução pode provocar fraqueza muscular progressiva, perda de massa muscular e dificuldades para caminhar, falar, engolir e respirar, dependendo das regiões inicialmente afetadas e da progressão do quadro. Embora o comprometimento motor seja central na apresentação clínica, algumas pessoas também apresentam alterações cognitivas, comportamentais ou de linguagem. A evolução varia entre os pacientes, e o acompanhamento requer atuação multidisciplinar, com atenção às necessidades motoras, nutricionais, respiratórias e funcionais (Damme, 2020; Carvalho, 2025).
Embora essas três condições apresentem mecanismos e manifestações diferentes, elas podem produzir limitações progressivas e demandar acompanhamento contínuo. É importante, portanto, não tratá-las como doenças equivalentes: enquanto o Alzheimer se destaca pelo comprometimento cognitivo, o Parkinson apresenta manifestações motoras, e a ELA afeta predominantemente os neurônios motores. A compreensão dessas diferenças contribui para uma abordagem adequada de cada condição e fundamenta a discussão, em tópico específico, sobre suas repercussões psicológicas para a pessoa idosa e para os familiares envolvidos no cuidado (Monfared et al., 2022; Váradi, 2020; Masrori; Damme, 2020).
2.3. Impactos Psicológicos em Idosos e Seus Familiares
As doenças neurológicas degenerativas podem provocar transformações físicas, cognitivas e funcionais que repercutem na saúde mental e na qualidade de vida da pessoa idosa. A diminuição da autonomia e a necessidade de auxílio para realizar atividades cotidianas podem gerar insegurança, tristeza, ansiedade e dificuldades de adaptação às novas condições de vida. No contexto da doença de Alzheimer, Delfino et al. (2021) identificaram a presença de sintomas neuropsiquiátricos, como apatia, ansiedade e depressão, entre os idosos avaliados, evidenciando a importância de considerar essas manifestações durante o acompanhamento. Santos, Oliveira e Souza (2022) corroboram essa perspectiva, apontando que o impacto emocional desestabiliza tanto o idoso quanto o núcleo familiar elementar.
Além dos sintomas clínicos, as limitações progressivas podem interferir na percepção que a pessoa idosa possui de si mesma, na participação social e na manutenção de sua independência. A necessidade de receber ajuda para atividades antes realizadas sem auxílio pode provocar frustração e receio de depender de outras pessoas. Embora essas experiências variem conforme as condições individuais, os achados de Caparrol et al. (2021) sobre as dificuldades funcionais associadas à doença de Alzheimer reforçam a importância de compreender as necessidades da pessoa idosa para além do diagnóstico.
No ambiente familiar, as mudanças provocadas pela doença exigem reorganização da rotina, adaptação dos vínculos e divisão das responsabilidades relacionadas ao cuidado. A convivência pode tornar-se mais complexa diante das alterações cognitivas e comportamentais, das dificuldades de comunicação e da necessidade crescente de assistência. Delfino et al. (2021), ao investigarem cuidadores familiares de idosos com Alzheimer, encontraram associações entre sintomas neuropsiquiátricos dos idosos, sobrecarga e sintomas depressivos dos cuidadores, demonstrando que as experiências de ambos estão relacionadas.
A sobrecarga do cuidador constitui outro aspecto importante, pois envolve exigências físicas, emocionais e sociais decorrentes da responsabilidade contínua pelo cuidado. A falta de tempo para o autocuidado, a redução das atividades de lazer e as dificuldades para conciliar as obrigações familiares e profissionais podem comprometer o bem-estar de quem cuida. Em estudo com familiares de pessoas com Alzheimer, Araújo e Lacerda (2024) identificaram associações entre maior sobrecarga e níveis mais elevados de depressão, ansiedade e estresse, além de pior qualidade de vida. Essa sobrecarga emocional crônica e o consequente sofrimento psíquico também são amplamente discutidos por Nunes e Falcão (2023) e por Silva e Santos (2023), que enfatizam a urgência de amparo a esse cuidador primário.
As dificuldades também podem ser intensificadas quando a responsabilidade pelo cuidado fica concentrada em um único familiar ou quando existe pouco apoio de outras pessoas. Nesses casos, sentimentos de cansaço, culpa, preocupação e frustração podem coexistir com o afeto e o compromisso com o familiar adoecido. Manzini e Vale (2016), ao estudarem a resiliência de cuidadores familiares de idosos com Alzheimer, contribuem para compreender a importância dos recursos pessoais e das condições de enfrentamento diante das exigências do cuidado.
Diante dessas demandas, o apoio psicológico e as intervenções psicoeducativas podem contribuir para orientar os cuidadores, desenvolver estratégias de enfrentamento e favorecer o cuidado com a própria saúde. Caparrol et al. (2021), em um estudo com cuidadores informais de idosos com Alzheimer, observaram melhora significativa nos indicadores de estresse após uma intervenção psicoeducativa domiciliar, embora os resultados não tenham demonstrado a mesma eficácia para todos os aspectos da sobrecarga. Esse achado reforça a necessidade de estratégias de apoio ajustadas às necessidades de cada cuidador.
Portanto, os impactos psicológicos das doenças neurológicas degenerativas devem ser compreendidos considerando a pessoa idosa, sua família e as condições em que o cuidado acontece. O acolhimento, a orientação profissional, o fortalecimento das redes de apoio e a atenção às necessidades emocionais podem favorecer o enfrentamento das mudanças provocadas pela doença. Os estudos de Delfino et al. (2021), Caparrol et al. (2021) e Araújo e Lacerda (2024) sustentam a importância de incluir tanto a pessoa idosa quanto seus cuidadores nas ações de acompanhamento e assistência.
2.4. Estratégias de Enfrentamento e Suporte
O enfrentamento das doenças neurológicas degenerativas exige estratégias que considerem as necessidades da pessoa idosa e de seus familiares. A orientação sobre a doença, o acompanhamento profissional e o acesso a informações confiáveis podem favorecer a adaptação às mudanças e auxiliar na organização do cuidado. Mattos e Kovács (2020) destacam a necessidade de escuta, acolhimento e suporte aos cuidadores familiares ao longo das diferentes fases da doença de Alzheimer.
Entre as estratégias de enfrentamento, a psicoeducação possibilita ampliar o conhecimento sobre a doença, esclarecer dúvidas e desenvolver habilidades para lidar com as mudanças cognitivas, comportamentais e funcionais. Caparrol et al. (2021) investigaram uma intervenção psicoeducativa com cuidadores de idosos com Alzheimer, apontando a importância de ações estruturadas de orientação e apoio para lidar com as exigências do cuidado.
Os grupos de apoio também podem favorecer a troca de experiências entre pessoas que vivenciam situações semelhantes. Esses espaços possibilitam compartilhar dificuldades, sentimentos e estratégias utilizadas no cotidiano, contribuindo para diminuir a sensação de isolamento. Mattos e Kovács (2020) identificaram, nos relatos de cuidadoras familiares, a importância de encontrar espaços de escuta e compartilhar experiências com outras famílias que enfrentam a doença.
Outra estratégia importante é fortalecer a rede de apoio familiar e social, distribuindo as responsabilidades do cuidado sempre que possível. O revezamento entre familiares pode proporcionar períodos de descanso ao cuidador principal e favorecer a manutenção de suas atividades es pessoais. Mattos e Kovács (2020) ressaltam que a experiência de cuidar envolve demandas físicas, emocionais, econômicas e sociais, reforçando a necessidade de considerar as condições de vida dos cuidadores.
O acompanhamento psicológico pode contribuir para o reconhecimento das emoções, o desenvolvimento de estratégias para enfrentar situações difíceis e a preservação do bem-estar. Além disso, intervenções psicossociais e psicoeducativas podem auxiliar na redução do estresse e da sobrecarga e no desenvolvimento de habilidades para o cuidado, conforme apontado pela revisão de intervenções realizadas com grupos de cuidadores de idosos com síndrome demencial (Silva et al., 2018).
Dessa forma, as estratégias de enfrentamento devem integrar orientação, apoio emocional, participação familiar e acesso aos serviços de saúde e assistência social. Mattos e Kovács (2020) enfatizam a importância de equipes interdisciplinares e de espaços de acolhimento para os cuidadores, enquanto Caparrol et al. (2021) reforçam a relevância de intervenções direcionadas às necessidades dessa população.
2.5. A Atuação Psicológica no Cuidado à Pessoa Idosa e à Família
A atuação da Psicologia diante das doenças neurológicas degenerativas deve considerar as mudanças emocionais, cognitivas e sociais vivenciadas pela pessoa idosa e por seus familiares. O avanço dessas condições pode modificar as relações familiares, a rotina e as responsabilidades relacionadas ao cuidado, tornando importante a oferta de acompanhamento psicológico que considere as necessidades de todos os envolvidos. Dessa forma, a intervenção psicológica não deve se restringir à pessoa diagnosticada, mas também contemplar os familiares cuidadores (Mattos; Kovács, 2020).
Entre as possibilidades de atuação, destaca-se o acolhimento psicológico, que permite aos envolvidos expressar sentimentos de medo, tristeza, insegurança e frustração diante das transformações provocadas pela doença. O acompanhamento pode auxiliar na compreensão dessas experiências e na elaboração das perdas relacionadas à diminuição progressiva da autonomia, contribuindo para o enfrentamento das mudanças sem desconsiderar a história de vida e a individualidade da pessoa idosa (Mattos; Kovács, 2020).
Outra estratégia relevante é a psicoeducação, que consiste em oferecer informações sobre a doença, suas manifestações e as demandas do cuidado. Essa intervenção pode favorecer a compreensão dos comportamentos apresentados pela pessoa idosa e ajudar os familiares a desenvolver formas mais adequadas de lidar com as dificuldades cotidianas. Caparrol et al. (2021), ao investigarem uma intervenção psicoeducativa com cuidadores de idosos com doença de Alzheimer, analisaram aspectos como cognição, ansiedade, estresse e sobrecarga, evidenciando a relevância de estudar intervenções direcionadas a esse público.
Além do acompanhamento individual, os grupos de apoio e as intervenções coletivas podem proporcionar espaços de escuta, troca de experiências e compartilhamento de estratégias de enfrentamento. Ao reconhecer que outros familiares vivenciam dificuldades semelhantes, os participantes podem reduzir o sentimento de isolamento e ampliar seus recursos para lidar com as exigências do cuidado. Reis, Novelli e Guerra (2018) identificaram, em sua revisão sistemática, resultados favoráveis de diferentes intervenções destinadas a cuidadores de idosos com síndrome demencial, incluindo ações psicoeducativas e psicossociais.
Portanto, a Psicologia pode contribuir para a construção de um cuidado mais humanizado, considerando tanto a saúde emocional da pessoa idosa quanto as necessidades dos familiares responsáveis pelo acompanhamento diário. A integração entre acolhimento, orientação, intervenções psicológicas e redes de apoio pode favorecer o enfrentamento das dificuldades e a qualidade de vida dos envolvidos, sem desconsiderar a importância do trabalho multiprofissional e das condições sociais em que o cuidado acontece.
3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS
A análise dos estudos permitiu compreender que as doenças neurológicas degenerativas, especialmente a doença de Alzheimer, a doença de Parkinson e a esclerose lateral amiotrófica (ELA), podem produzir repercussões que ultrapassam as alterações físicas e funcionais, atingindo a saúde mental e a qualidade de vida da pessoa idosa e de seus familiares. Dessa forma, o estudo buscou compreender como esses indivíduos enfrentam psicologicamente a evolução da enfermidade e as mudanças decorrentes de seu agravamento.
Os resultados da revisão indicaram que a perda progressiva da autonomia pode provocar medo, tristeza, ansiedade, insegurança e dificuldades de adaptação. A necessidade de auxílio para realizar atividades cotidianas pode afetar a autoestima, a independência e a participação social da pessoa idosa. Assim, o primeiro objetivo específico foi contemplado ao se identificar que as mudanças funcionais podem repercutir na percepção de si e na maneira como o idoso vivencia essa etapa da vida.
Em relação aos familiares cuidadores, a literatura analisada apontou que as responsabilidades contínuas do cuidado podem favorecer sobrecarga física e emocional, estresse, ansiedade e sintomas depressivos. As alterações na rotina, as dificuldades financeiras e a redução do tempo destinado ao autocuidado também podem comprometer o bem-estar dos cuidadores. Esses resultados respondem ao segundo objetivo específico, demonstrando que o adoecimento repercute não apenas na pessoa diagnosticada, mas também nas relações familiares e nas condições de cuidado.
Quanto às estratégias de enfrentamento, identificou-se que a orientação sobre a doença, o acompanhamento psicológico, a divisão das responsabilidades e a participação em grupos de apoio podem auxiliar idosos e familiares a lidar com as mudanças. O fortalecimento das redes de apoio comunitário e profissional também se mostra importante para reduzir o isolamento e favorecer uma assistência mais acolhedora, contemplando os dois últimos objetivos específicos.
Diante do problema de pesquisa, compreendeu-se que o enfrentamento psicológico da evolução dessas doenças depende de fatores individuais, familiares e sociais. Embora existam dificuldades relacionadas à perda de autonomia e à sobrecarga do cuidado, o acesso à informação, ao apoio emocional e aos serviços de saúde pode contribuir para uma adaptação mais adequada às necessidades de cada pessoa. Portanto, a assistência deve considerar tanto a pessoa idosa quanto seus familiares, reconhecendo suas particularidades e necessidades.
Como limitação, destaca-se que a pesquisa foi exclusivamente bibliográfica, estando condicionada à disponibilidade e ao conteúdo das publicações consultadas. Além disso, as diferenças entre as doenças analisadas e as experiências descritas nos estudos não permitem generalizar os resultados para todas as pessoas idosas e famílias.
Por fim, sugere-se que pesquisas futuras aprofundem as experiências psicológicas relacionadas a cada doença e avaliem estratégias de acompanhamento voltadas aos idosos e aos cuidadores familiares. Conclui-se que compreender essas repercussões é fundamental para fortalecer as redes de apoio, ampliar a atenção à saúde mental e promover um cuidado humanizado, que valorize a dignidade e a qualidade de vida de todos os envolvidos.
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1 Acadêmica do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Professora Especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail