DOCÊNCIA NO ENSINO SUPERIOR: AS ESPECIFICIDADES DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DO GRADUANDO

TEACHING IN HIGHER EDUCATION: THE SPECIFICITIES OF THE PROFESSIONAL TRAINING OF UNDERGRADUATE STUDENTS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780630401

RESUMO
Este trabalho aborda os desafios enfrentados pelos docentes no ensino superior, com foco nas dificuldades específicas de ensinar adultos, nos obstáculos organizacionais e burocráticos das instituições de ensino superior (IES), na desvalorização da carreira docente e nos requisitos necessários para ingressar na profissão. O estudo tem como objetivo identificar e analisar essas barreiras, investigando também as estratégias desenvolvidas para as enfrentar. A metodologia utilizada foi uma revisão bibliográfica sistemática, centrada na identificação e análise de artigos científicos publicados nos últimos 15 anos. A busca de trabalhos foi realizada nas bases de dados Google Acadêmico e SciELO, utilizando termos como "docência no ensino superior," "formação profissional do graduando," "desvalorização do docente" e "burocracia para os docentes nas IES." A pesquisa concluiu que a formação e a atuação dos docentes no ensino superior foram moldadas ao longo do tempo, dado que a prática docente é complexa e exige múltiplos conhecimentos. A identidade docente é influenciada por fatores históricos, sociológicos e culturais, e as questões burocráticas, políticas públicas e falta de apoio institucional comprometem a autonomia dos professores. Além disso, a falta de reconhecimento e as condições de trabalho precárias têm afastado os jovens da carreira docente. O estudo fornece uma compreensão sobre a necessidade de políticas educacionais inclusivas, que valorizem a autonomia dos professores, promovam a inovação pedagógica e apoiem o desenvolvimento profissional contínuo.
Palavras-chave: Docência no ensino superior; Formação profissional; Desvalorização docente.

ABSTRACT
This study addresses the challenges faced by higher education faculty, focusing on the specific difficulties of teaching adults, the organizational and bureaucratic obstacles within higher education institutions (HEIs), the devaluation of the teaching profession, and the requirements necessary to enter the field. The research aims to identify and analyze these barriers while investigating strategies to overcome them. The methodology used was a systematic literature review, focusing on identifying and analyzing scientific articles published in the past 15 years. The search for studies was conducted in the Google Scholar and SciELO databases, using terms like "higher education teaching," "professional training of graduates," "teacher devaluation," and "bureaucracy for faculty in HEIs." The research concluded that the formation and performance of higher education faculty have evolved over time, as teaching is a complex practice requiring multiple skills. The teaching identity is influenced by historical, sociological, and cultural factors, and bureaucratic issues, public policies, and lack of institutional support affect the autonomy of teachers. Moreover, the lack of recognition and precarious working conditions have deterred young professionals from pursuing teaching careers. The study provides insights into the need for inclusive educational policies that value teacher autonomy, promote pedagogical innovation, and support continuous professional development.
Keywords: Higher education teaching; Professional qualification; Teacher devaluation.

1. INTRODUÇÃO

A docência no ensino superior tem sido foco de debates acirrados ao longo dos anos, especialmente sobre a formação dos professores que nela atuam e as condições de ingresso destes profissionais. Observa-se um crescente aumento no número de docentes que entram no magistério sem formação ou experiência específica na docência, levando as instituições de ensino superior (IES) a um estado de tensão perceptível. Isso ocorre devido às diferentes visões sobre a relevância de conhecimentos pedagógicos e epistemológicos que fundamentam a prática docente, e que são essenciais para definir a qualidade do ensino.

No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) determina que a preparação para o magistério no ensino superior seja realizada prioritariamente em programas de mestrado e doutorado (Brasil, 2020). No entanto, documentos oficiais avaliam a eficácia dessa formação com base no número de mestres e doutores titulados, como se esses títulos implicassem automaticamente em qualificação pedagógica adequada.

Reconhecendo essa falha, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) instituiu, ainda em 1999, o estágio de docência para programas de pós-graduação stricto sensu, visando à preparação de novos professores para o ensino superior (Brasil, 1999). Contudo, embora essa iniciativa seja uma oportunidade institucionalizada de prática docente, críticas apontam que muitas vezes resulta apenas em uma repetição de modelos de ensino conteudistas e transmissivos.

Neste contexto, é crucial investigar os desafios enfrentados pelos docentes que atuam no ensino superior, sobretudo no que diz respeito às especificidades da formação profissional do graduando. O desafio não está somente em ensinar adultos que possuem expectativas distintas dos alunos mais jovens, mas também em lidar com questões organizacionais e burocráticas das IES. A desvalorização da carreira docente, aliada à falta de apoio e orientação, agrava ainda mais as dificuldades enfrentadas.

Assim, a pergunta que norteia esta pesquisa é: quais são os desafios específicos enfrentados pelos docentes do ensino superior, considerando as dificuldades de ensinar para adultos, os obstáculos organizacionais e burocráticos, e a desvalorização da carreira docente?

O objetivo deste trabalho é identificar e analisar os desafios específicos enfrentados pelos docentes do ensino superior. Para isso, a pesquisa se propõe a abordar as dificuldades de ensinar para adultos, os entraves organizacionais e burocráticos enfrentados pelos professores nas IES, a desvalorização do docente e os requisitos necessários para se tornar professor do ensino superior.

A metodologia adotada será uma revisão bibliográfica sistemática, centrada na identificação e análise de artigos científicos que exploram o tema. As bases de dados escolhidas são o Google Acadêmico e o SciELO, com a busca de trabalhos publicados nos últimos 15 anos. Os termos de busca incluirão "docência no ensino superior", "formação profissional do graduando", "desvalorização do docente" e "burocracia para os docentes nas IES".

Os critérios de inclusão compreenderão estudos que abordem especificamente os desafios da formação docente no ensino superior e as suas dificuldades, bem como as estratégias desenvolvidas para enfrentar esses desafios. Trabalhos que tratam de questões muito amplas ou fora do contexto da docência no ensino superior serão excluídos para garantir a relevância e especificidade dos resultados.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1. Formação Profissional do Graduando e a Docência no Ensino Superior

A formação e atuação dos professores no ensino superior foram sendo moldadas ao longo do tempo, uma vez que a docência nesse nível de ensino é uma atividade complexa que requer múltiplos conhecimentos. A educação, independentemente do nível em que ocorre, é uma atividade humana e está intrinsecamente ligada a um fator relevante: a inserção no mercado de trabalho. Muitos profissionais recorrem ao curso como forma de se reposicionarem profissionalmente, tornando necessário um preparo específico para o exercício da docência (Queiros; Aroeira, 2020).

O período de iniciação na carreira docente deve ser o momento de transmitir a cultura da profissão, incluindo os conhecimentos, valores e símbolos próprios, e de permitir que o professor iniciante se adapte ao meio social em que irá atuar. As experiências vividas nos primeiros anos da carreira influenciam fortemente a vida profissional, sendo elas que ajudam a desenvolver percepções sobre o ensino, os alunos, o contexto no qual atuam e o próprio fazer docente (Masetto, 2020).

A docência no ensino superior é uma atividade complexa, que, segundo Ferreira (2010), só pode avançar com processos de qualificação efetivos ao se reconhecer essa complexidade. Ela exige conhecimentos específicos que são, em grande parte, construídos na prática. No entanto, trata-se de uma prática que não se repete e é sempre única, exigindo capacidades para lidar com situações imprevisíveis (Ferreira, 2010).

O professor no ensino superior deve estar em constante atualização, aplicando as mais recentes e eficazes metodologias de ensino, compreendendo as condições em constante evolução do mercado de trabalho e preparando os futuros profissionais para conquistar seus espaços. A formação continuada enriquece as metodologias aplicadas em sala de aula, mantendo o docente informado sobre as tendências pedagógicas, e facilita o planejamento e a execução de seu trabalho (Martinez, 2019).

Compreender que a formação profissional do professor está ligada ao contexto social, econômico e cultural é fundamental. Conforme Soares e Cunha (2010), a formação do professor implica vê-lo como ator/autor de sua trajetória de vida e parte da rede econômica, social e cultural em que se encontra. Além disso, ele é um profissional que busca formação, reconhece suas necessidades e as do ambiente onde atua, e se compromete com a transformação das práticas e a afirmação da profissionalidade docente. A formação desse profissional deve garantir a articulação entre teoria e prática, considerando a reflexão epistemológica sobre a prática (Soares; Cunha, 2010).

A formação do docente universitário e seu desenvolvimento ao longo da carreira estão vinculados à concepção de formação continuada sob duas perspectivas: institucional e pessoal (Richit; Almeida, 2020). A perspectiva institucional busca uma atuação integralizada na instituição, promovendo uma gestão participativa e democrática para garantir aprendizado significativo e crescimento pessoal aos estudantes. A perspectiva pessoal incentiva uma postura reflexiva sobre práticas, atitudes e crenças, buscando constantemente incorporar o desenvolvimento pessoal e profissional (Richit; Almeida, 2020).

Na universidade, a tríade ensino, pesquisa e extensão ocorre em múltiplas frentes, envolvendo professores, estudantes e a sociedade. Essa estrutura educativa procura aprimorar o desenvolvimento das competências humanas. Adaptações e inovações nas práticas pedagógicas são essenciais para a construção do conhecimento, pois o ensino vai além da sala de aula, abrangendo diferentes saberes, pesquisa, extensão e a formação de professores (Castanho; Castanho, 2013).

Contudo, no contexto atual da revolução das Tecnologias de Informação e Comunicação, surgem novos desafios no espaço-tempo da aula, onde ocorre a integração entre professor e alunos. Frequentemente, os docentes encontram-se "competindo" com as tecnologias, que estão em constante evolução. Tal competição é agravada pelo fluxo contínuo de informações que atinge os alunos, inclusive sobre a própria formação, o que obriga os professores a buscarem estratégias para tornar suas aulas mais atrativas (Masetto, 2020).

Nesse contexto, Gaeta e Masetto (2020) enfatizam que a aprendizagem parte de fundamentos básicos. Portanto, é esperado que os professores enfrentem desafios ao lecionar, exigindo planejamento. Isso pode incluir a indicação de um texto com destaque nos pontos principais para discussão, ou a formulação de perguntas que promovam a interação entre os alunos.

A aula na contemporaneidade não é mais um espaço exclusivo do professor nem se resume a ensinar apenas o conteúdo da disciplina. Trata-se de um território compartilhado entre professores e alunos, no qual ambos, em parceria e corresponsabilidade, desenvolvem um processo de aprendizagem conjunto, sendo essencial que o professor compreenda seu papel na docência do ensino superior (Masetto, 2020).

Os professores enfrentam múltiplos desafios, sendo o primeiro deles a construção de sua identidade profissional. Apesar do valor atribuído à educação nos discursos e narrativas, a profissão docente raramente recebe o devido reconhecimento e valorização. Isso pode ser exemplificado, entre outros fatores, pela baixa remuneração e pelas condições precárias de trabalho em diversos contextos escolares (Santos et al., 2023).

Corazza (2016) destaca que esses profissionais são movidos por uma motivação extra, chamada "vontade de potência". A autora argumenta que, apesar das barreiras governamentais, financeiras e das dificuldades na relação com alunos e famílias, os docentes são impulsionados por uma força extraordinária e abstrata, fazendo da prática docente um ato de resistência.

No que concerne à identidade do professor universitário, Pimenta e Anastasiou (2014) observam que muitos preferem ser identificados por sua formação inicial, como professor universitário, devido à desvalorização social da profissão. O título "professor" sugere uma identidade menor, muitas vezes associada ao ensino primário e secundário.

A construção da identidade do professor universitário se dá principalmente em sala de aula. Com exceção dos que possuem formação em licenciatura ou tiveram contato com disciplinas de docência em cursos de pós-graduação, a maioria dos docentes não tem conhecimento teórico ou prático sobre o processo de ensino-aprendizagem, o que afeta sua atuação profissional. Sendo assim, Pimenta e Anastasiou (2014) argumentam que esses professores são “entregues à própria sorte”, resultando na permanência de uma abordagem tradicional e cientificamente ultrapassada na relação entre professor, aluno e sala de aula.

Outro desafio enfrentado pelos professores refere-se às demandas impostas pela sociedade globalizada e técnico-científica-informacional (UNICEF, 2011). Essa sociedade, por um lado, caracteriza-se pela grande integração mundial através de fluxos de informação, transportes, capitais, bens e pessoas; por outro, há um aumento das desigualdades e problemas sociais e ambientais. Nesse cenário desafiador, os professores precisam, além de formação pedagógica e específica, de uma visão crítica para selecionar e analisar as informações em constante fluxo (UNICEF, 2011).

Além disso, o desenvolvimento profissional do docente envolve não apenas os conhecimentos necessários para ensinar, mas também suas atitudes e as relações interpessoais tanto dentro quanto fora da sala de aula. Isso demonstra que o professor precisa estabelecer relacionamentos sólidos com os alunos e colegas de profissão, um desafio adicional para garantir a harmonia dentro e fora da sala (Queiros; Aroeira, 2020).

A preparação para lecionar no ensino superior exige um grande esforço do profissional, que muitas vezes se depara com desafios como a necessidade de manter-se atualizado para fornecer informações pertinentes dentro da carga horária prevista pela instituição (Araújo, 2020). Ademais, os docentes encontram dificuldades no primeiro dia de aula e no primeiro semestre, enfrentando a falta de prática acadêmica e o volume de trabalho fora da sala, pois a identidade profissional docente do ensino superior é moldada pela capacidade de alcançar seus objetivos mais valorizados, influenciada por fatores históricos, sociológicos, psicológicos e culturais (Oliveira, 2020).

Outros desafios estão relacionados com a preparação das aulas e a transmissão de conhecimento, o modelo tradicional, centrado no professor, tem sido transformado pelas mudanças tecnológicas, levando a metodologias que envolvem maior participação do aluno, mas que nem sempre são empregadas adequadamente (Dos Santos et al., 2021). Nesse sentido, Valente et al., (2017) destacam que uma das maiores problemáticas da educação é desenvolver métodos que vão além dos livros didáticos e da exposição oral do professor, incentivando a curiosidade dos alunos e despertando o desejo de aprender. A construção da identidade docente envolve criar abordagens inovadoras com práticas pedagógicas e metodologias que promovam o interesse dos alunos.

A formação profissional do graduando e a docência no ensino superior evidenciam um processo que requer múltiplos conhecimentos, com um período inicial vital para transmitir os valores, símbolos e práticas da profissão, ajudando o docente a se adaptar ao ambiente social onde atuará. A docência, como uma prática complexa e única, demanda constante atualização e o uso de metodologias eficazes, incluindo a aplicação de técnicas de ensino inovadoras para preparar os futuros profissionais de forma integral.

Além dos conhecimentos técnicos, o docente precisa construir relações sólidas com seus alunos e colegas, criando uma cultura de harmonia e engajamento. A identidade docente é moldada por fatores históricos, sociológicos e culturais que afetam seu papel como educador. Portanto, a preparação para o ensino superior exige esforço contínuo, dado que os desafios enfrentados incluem a atualização constante de metodologias, a gestão da sala de aula e a necessidade de encontrar abordagens inovadoras para estimular o aprendizado.

Porém, mesmo com esses esforços, o professor muitas vezes não é devidamente reconhecido por sua contribuição na formação de estudantes e no avanço do conhecimento. O tópico seguinte explorará os fatores que levam à desvalorização desses profissionais, como a remuneração inadequada, a sobrecarga de trabalho, a falta de reconhecimento e a burocracia que afetam diretamente a motivação e a qualidade do ensino no nível superior.

2.2. Desvalorização do Docente e a Burocracia para os Docentes nas IES

A profissão de professor é uma das mais antigas do mundo e desempenha um papel crucial no processo de ensino e aprendizagem. Acredita-se, portanto, que esses profissionais devem ser formados com base em discussões teóricas e práticas sólidas para garantir esse processo. Nesse contexto, Facci (2023) destaca a importância fundamental da teoria na formação docente, pois ela permite que os professores compreendam os contextos históricos, sociais e culturais. Além disso, uma formação crítica é essencial para que os professores desenvolvam a criticidade nos alunos e compreendam as questões políticas e sociais que influenciam suas práticas cotidianas, possibilitando que tomem decisões que promovam justiça social (Facci, 2023).

Para além da formação, é necessário que os professores tenham condições adequadas para exercer seu trabalho, como infraestrutura e salários. A precariedade da formação inicial e continuada, bem como a ausência de uma carreira estruturada, já que os professores precisam assumir cargos administrativos, como coordenação ou direção, para avançar. Além disso, há poucos interessados em ingressar na carreira docente, e os profissionais em exercício muitas vezes desestimulam novos candidatos (Cericato, 2016).

A escolha pelo magistério entre os jovens tem diminuído, pois além dos baixos salários e condições de trabalho degradantes, principalmente no ensino público, ser professor implica assumir responsabilidades no complexo processo de formar novas gerações (Ferreira; De Queiroz, 2019). Nesse contexto, Adams (2018) salienta que a educação no Brasil está sofrendo retrocessos, com o poder público cada vez mais retirando direitos dos professores, desvalorizando a carreira docente e atacando a autonomia das instituições.

A profissão de professor tem sido vista, historicamente, como de baixo prestígio, com uma percepção social de que não é necessário especialização para ser professor. O governo muitas vezes promove campanhas solicitando voluntários para a docência, como no Programa Brasil Alfabetizado, que conta com voluntários para alfabetizar jovens, adultos e idosos, criando a ideia de que a docência é uma área desprofissionalizada (Oliveira, 2010).

O país enfrenta um grande retrocesso educacional, político, econômico e social, com o governo restringindo a liberdade de expressão, criminalizando movimentos sociais e retirando direitos fundamentais previstos na Constituição. O profissional da educação tem sido atacado devido a retrocessos nas políticas públicas, faltando articulação entre a formação inicial, a formação continuada e as condições de trabalho e carreira (Lino, 2020).

Confirme Rocha et al., (2019), a entidade que deveria valorizar o docente, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), impõe uma lógica centralizadora nos processos educativos, com avaliações em larga escala de alunos, professores e escolas, impactando negativamente a formação de professores e obrigando sua adequação aos itens da BNCC.

A Base Nacional Comum para a Formação de Professores da Educação Básica (BNC-Formação) tem sido tema de amplo debate, sendo uma resolução destinada a estabelecer diretrizes para aprimorar as práticas de ensino e aprendizagem nos cursos de graduação, em especial nos cursos de licenciatura. Políticas públicas, orientadas pelas ações governamentais de diferentes ministérios, como o da Educação (MEC), procuram beneficiar grupos envolvidos no processo de tomada de decisão (Rocha et al., 2019).

A formação continuada, enquanto política pública, visa atender as necessidades daqueles envolvidos no processo (Nogueira; Borges, 2021). No entanto, a falta de recursos compromete a eficácia dessa iniciativa, dificultando o acesso a itens essenciais para a formação, como a internet, tecnologias e transporte. Essa precariedade na implementação de políticas públicas afeta decisões nos níveis municipais e estaduais, prejudicando as condições de trabalho pedagógico dos professores (Nogueira; Borges, 2021).

Os estudos sobre a BNC-Formação Inicial evidenciam que a resolução não aborda o trabalho docente de forma abrangente, deixando de valorizar os princípios que regem a autonomia do professor e as bases teóricas de seu ensino. Em vez disso, a BNC-Formação instrui os docentes a trabalhar com a Base Nacional Comum Curricular, sendo parte de uma concepção neoliberal que trata a educação como um produto do governo. Isso é corroborado por Nogueira e Borges (2021), que observam uma série de projetos e medidas voltadas para formar professores que atendam ao mercado, preparando-os para obter altos escores em avaliações externas.

Outro documento importante, o Plano Nacional de Educação (PNE), promulgado em 25 de junho de 2014, está em vigor por um período de dez anos, com metas estabelecidas até 2024. Dourado (2015) destaca a ligação entre o PNE e a BNC-Formação nº 2/2015, com ênfase nas metas 12, 15, 16, 17 e 18, sendo a meta 16 a que está mais diretamente relacionada à BNC-Formação. Essa meta propõe formar 50% dos professores da educação básica em nível de pós-graduação e fornecer formação continuada a todos os profissionais da educação básica, considerando as demandas e os contextos dos sistemas de ensino (Brasil, 2015).

Com base na meta 16, a formação de professores é vista como uma ferramenta governamental para orientar a implementação do currículo da BNCC. A padronização curricular reflete os interesses que orientam a educação, com desafios em todos os níveis. A BNC-Formação e a BNCC tentam padronizar o currículo e o trabalho docente de acordo com princípios neoliberais, utilizando práticas administrativas e empresariais, como gestão, planejamento, avaliações sistêmicas e controle (Ximenes; Melo, 2022). Esse processo impacta significativamente o currículo e a valorização da ação docente, priorizando os princípios administrativos do mercado sobre a autonomia do educador.

Nesse contexto, a formação dos professores é instrumentalizada como ferramenta para implementar essas diretrizes, e a formação continuada muitas vezes não atende às necessidades de capacitação dos profissionais, dada a falta de recursos. As exigências burocráticas impostas pelas políticas educacionais centralizadas se tornam obstáculos adicionais que os docentes enfrentam diariamente.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa teve como objetivo identificar e analisar os desafios específicos enfrentados pelos docentes no ensino superior, especialmente no que se refere às dificuldades de ensinar adultos, às barreiras organizacionais e burocráticas das IES, à desvalorização da carreira docente e aos requisitos necessários para ingressar na profissão. Partindo dessas diretrizes, a questão-problema a ser respondida foi: quais são os desafios específicos enfrentados pelos docentes do ensino superior, considerando as dificuldades de ensinar adultos, os obstáculos organizacionais e burocráticos, e a desvalorização da carreira docente?

A partir de uma revisão bibliográfica sistemática, o estudo conseguiu elucidar que a formação e atuação dos professores no ensino superior foram moldadas ao longo do tempo, com a docência sendo uma prática complexa que demanda múltiplos conhecimentos. A pesquisa constatou que a identidade docente é moldada por fatores históricos, sociológicos e culturais, que influenciam significativamente a carreira, e revelou como o contexto globalizado e a revolução das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) impõem desafios adicionais. Além disso, verificou-se que as questões burocráticas, as políticas públicas e a falta de apoio institucional afetam diretamente a autonomia dos docentes, dificultando o desenvolvimento de práticas pedagógicas inovadoras.

A pesquisa também destacou a necessidade de aprimorar a formação profissional dos professores e fornecer condições adequadas para o seu trabalho, com infraestrutura, salários justos e oportunidades de progressão na carreira. O levantamento evidenciou ainda que a desvalorização da profissão, associada a condições de trabalho precárias, falta de reconhecimento e baixa remuneração, desestimula jovens profissionais a ingressar na carreira, agravando os problemas do setor.

Conclui-se, portanto, que a análise dos desafios específicos enfrentados pelos docentes no ensino superior permitiu responder à questão proposta e alcançar os objetivos, fornecendo percepções valiosas sobre a necessidade de políticas educacionais mais inclusivas e orientadas à prática docente. Este trabalho oferece uma base sólida para a compreensão das dificuldades dos professores no ensino superior e a importância de superar os obstáculos, visando uma educação que valorize a autonomia dos professores, a inovação pedagógica e o desenvolvimento profissional contínuo.

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1 Graduado Bacharel em Esporte pela Universidade de São Paulo (USP), em Educação Física (Licenciatura) pela Universidade Bandeirante Anhanguera (UNIBAN/UNIAN), em Pedagogia pela Faculdade Campos Elíseos (FCE), graduando em Geografia pelo Centro Universitário Cidade Verde (UniCV) e pós-graduado especialista em Docência para o Ensino Superior pelo Instituto Mineiro de Educação Superior (IMES). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9029-1494.