DOCÊNCIA CONTEMPORÂNEA SOB PRESSÃO INSTITUCIONAL: ANÁLISE CRÍTICA DAS RELAÇÕES ENTRE EXIGÊNCIAS ORGANIZACIONAIS, INTENSIFICAÇÃO DO TRABALHO E DESGASTE PROFISSIONAL
PDF: Clique aqui
REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18365355
Joelson Lopes da Paixão1
RESUMO
A intensificação do trabalho docente nas últimas décadas tem evidenciado um cenário de crescente pressão institucional, marcado por demandas administrativas, metas de desempenho, avaliações externas, responsabilização individual e precarização das condições de trabalho, configurando um contexto propício ao desgaste profissional. O problema que orienta este estudo reside na contradição entre o discurso institucional de valorização do professor e as práticas organizacionais que ampliam o controle, a sobrecarga e a desprofissionalização da docência. O objetivo geral consiste em analisar criticamente como as exigências institucionais contemporâneas incidem sobre o trabalho docente e contribuem para processos de adoecimento e esgotamento profissional. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, fundamentada em autores nacionais e internacionais, além da análise de dispositivos legais e documentos oficiais vigentes. Os resultados indicam que a intensificação do trabalho, a lógica gerencialista e a cultura da performatividade fragilizam a autonomia docente, produzem sofrimento ético e comprometem a identidade profissional. A formação continuada, quando reduzida à lógica da certificação, agrava esse cenário ao adicionar novas demandas sem promover transformação efetiva da prática. As metodologias ativas e as práticas reflexivas emergem como alternativas para enfrentar a desprofissionalização, desde que acompanhadas de condições institucionais adequadas. Conclui-se que o desgaste docente não pode ser compreendido como fragilidade individual, mas como fenômeno estrutural, demandando políticas institucionais que enfrentem as condições objetivas de trabalho e reconheçam à docência como prática intelectual, ética e socialmente situada.
Palavras-chave: Trabalho docente. Intensificação laboral. Desgaste profissional. Autonomia pedagógica. Adoecimento docente.
ABSTRACT
The intensification of teaching work in recent decades has evidenced a scenario of growing institutional pressure, marked by administrative demands, performance targets, external evaluations, individual accountability and precarious working conditions, configuring a context conducive to professional burnout. The problem guiding this study lies in the contradiction between the institutional discourse of teacher valorization and organizational practices that expand control, overload and deprofessionalization of teaching. The general objective is to critically analyze how contemporary institutional demands affect teaching work and contribute to processes of illness and professional exhaustion. Methodologically, this is a qualitative research, of bibliographic and documentary nature, based on national and international authors, in addition to the analysis of legal provisions and current official documents. The results indicate that work intensification, managerialist logic and the culture of performativity weaken teaching autonomy, produce ethical suffering and compromise professional identity. Continuing education, when reduced to the logic of certification, aggravates this scenario by adding new demands without promoting effective transformation of practice. Active methodologies and reflective practices emerge as alternatives to face deprofessionalization, provided they are accompanied by adequate institutional conditions. It is concluded that teacher burnout cannot be understood as individual fragility, but as a structural phenomenon, demanding institutional policies that address the objective working conditions and recognize teaching as an intellectual, ethical and socially situated practice.
Keywords: Teaching work. Labor intensification. Professional burnout. Pedagogical autonomy. Teacher illness.
1. INTRODUÇÃO
A docência contemporânea encontra-se atravessada por um conjunto de transformações estruturais que redefinem o trabalho do professor e tensionam, de forma crescente, sua identidade profissional. Nas últimas décadas, a expansão de políticas educacionais orientadas por princípios gerencialistas, a intensificação dos mecanismos de controle e avaliação e a ampliação das exigências institucionais têm produzido um cenário marcado por sobrecarga, responsabilização individual e precarização simbólica da profissão docente. Embora o discurso oficial enfatize a centralidade do professor na qualidade da educação, observa-se, na prática, um processo contínuo de ampliação das demandas institucionais, frequentemente dissociadas das condições reais de trabalho.
Nesse contexto, o trabalho docente deixa de se restringir à atividade pedagógica em sala de aula e passa a incorporar um conjunto de tarefas administrativas, burocráticas e performativas, como preenchimento de relatórios, cumprimento de metas, participação em formações compulsórias, adaptação a reformas curriculares sucessivas e atendimento a indicadores externos de desempenho. Essa ampliação do escopo de responsabilidades, sem a correspondente valorização material e simbólica, tem produzido efeitos significativos sobre a saúde física e mental dos professores, configurando um quadro de desgaste profissional amplamente documentado pela literatura científica.
A pressão institucional manifesta-se, sobretudo, por meio da intensificação do trabalho e da perda progressiva da autonomia docente. A lógica da performatividade, descrita por autores críticos da política educacional contemporânea, transforma o professor em executor de prescrições curriculares e metas institucionais, deslocando o foco da reflexão pedagógica para o cumprimento de indicadores. Tal processo contribui para o esvaziamento do sentido do trabalho docente e para a produção de sofrimento ético, na medida em que o professor se vê impedido de exercer plenamente seu julgamento profissional.
A formação continuada, que deveria constituir espaço de desenvolvimento profissional, tem se reduzido, em muitos contextos, à obtenção de certificações formais, adicionando novas demandas à sobrecarga existente sem promover transformação efetiva da prática pedagógica (Paixão, 2025a). Essa lógica instrumental agrava o desgaste profissional ao desconsiderar as necessidades reais dos docentes e ao impor modelos formativos descontextualizados.
Os desafios globais do ensino superior no século XXI, como democratização do acesso, transformações tecnológicas e pressões da globalização, também impactam diretamente a formação e o trabalho docente, exigindo constante adaptação sem o correspondente suporte institucional (Paixão, 2026a). Nesse cenário, as metodologias ativas emergem como alternativa pedagógica para promover inovação e protagonismo, mas sua implementação efetiva esbarra nas condições precárias de trabalho e na ausência de formação adequada (Paixão, 2026b).
Diante desse cenário, impõe-se a necessidade de problematizar as condições institucionais que moldam o exercício da docência e de questionar as narrativas que individualizam o fracasso, o adoecimento e o esgotamento profissional. Assim, a pergunta norteadora que orienta este estudo é: de que maneira as exigências institucionais contemporâneas incidem sobre o trabalho docente e contribuem para o desgaste profissional dos professores?
O objetivo geral da pesquisa consiste em analisar criticamente as relações entre exigências institucionais e desgaste profissional docente, à luz de referenciais teóricos contemporâneos e de documentos normativos vigentes. Como objetivos específicos, busca-se: analisar os principais dispositivos institucionais que intensificam o trabalho docente; examinar os impactos dessas exigências sobre a autonomia e a identidade profissional do professor; avaliar as relações entre pressão institucional e adoecimento docente; e discutir possibilidades de enfrentamento do desgaste profissional a partir de uma perspectiva crítica e coletiva.
A relevância deste estudo justifica-se pela necessidade de deslocar o debate sobre o desgaste docente do campo da responsabilização individual para uma análise estrutural das condições de trabalho impostas pelas instituições educacionais. Ao evidenciar que o sofrimento docente é produzido por arranjos organizacionais e políticas educacionais específicas, o estudo contribui para a construção de uma compreensão mais crítica e ética da docência, alinhada à defesa da valorização profissional e da qualidade social da educação.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
A compreensão do desgaste profissional docente exige, inicialmente, o reconhecimento de que o trabalho do professor é uma prática social complexa, historicamente situada e atravessada por relações de poder. Conforme afirma Dermeval Saviani (2018, p. 42), "a docência não se reduz à aplicação de técnicas, mas constitui uma atividade intelectual mediada por condições históricas concretas". Ao mesmo tempo, estudos contemporâneos indicam que a intensificação das exigências institucionais tem deslocado o sentido do trabalho docente, produzindo tensões entre prescrição e autonomia, o que evidencia que o desgaste profissional não é um fenômeno individual, mas estrutural.
A lógica gerencialista que orienta as políticas educacionais recentes redefine o papel do professor ao submetê-lo a métricas de desempenho e controle contínuo. Segundo Stephen Ball (2016, p. 104), "a performatividade cria identidades instáveis e permanentemente avaliadas". Nesse contexto, autores brasileiros como Bernardete Gatti (2019) demonstram que a pressão por resultados compromete a autonomia docente e intensifica o sofrimento profissional, evidenciando a incompatibilidade entre a lógica da eficiência e a complexidade do trabalho pedagógico.
A intensificação do trabalho docente também se expressa na ampliação das tarefas extrapedagógicas. Maurice Tardif (2017, p. 89) afirma que "os saberes do professor são constantemente tensionados por demandas institucionais que extrapolam o ensino". Articulando essa perspectiva, Selma Garrido Pimenta (2021) analisa que a burocratização do trabalho docente fragiliza a identidade profissional e contribui para processos de alienação, na medida em que o professor perde o controle sobre o próprio trabalho.
No campo da saúde do trabalhador, o desgaste docente tem sido compreendido como resultado da exposição prolongada a condições adversas. Christophe Dejours (2015, p. 67) destaca que "o sofrimento no trabalho emerge quando há impossibilidade de transformar a organização do trabalho". No contexto educacional brasileiro, Ana Cristina Costa (2022) evidencia que a ausência de reconhecimento institucional e o excesso de cobranças constituem fatores centrais no adoecimento docente, reforçando a necessidade de análise estrutural do problema.
As políticas educacionais vigentes reforçam esse cenário ao instituírem mecanismos de responsabilização individual. A Lei nº 9.394/1996 estabelece princípios de valorização do magistério; contudo, documentos posteriores, como a BNCC (2017), ao enfatizarem competências e resultados, acabam por intensificar a pressão sobre o professor. Conforme analisa Carlos Roberto Jamil Cury (2020), há uma contradição entre o discurso normativo e as condições concretas de trabalho, o que amplia o desgaste profissional.
A formação continuada, quando reduzida à lógica da certificação, agrava o desgaste profissional ao adicionar novas exigências sem promover transformação efetiva da prática pedagógica. Paixão (2025a) evidencia que as práticas reflexivas constituem elemento fundamental para o desenvolvimento profissional docente, permitindo que os professores analisem criticamente suas práticas e construam estratégias inovadoras. Contudo, a ausência dessa dimensão reflexiva nos programas formativos contribui para a manutenção de práticas tradicionais e para o aumento da sobrecarga.
Os desafios contemporâneos da educação exigem que os professores atuem de forma inovadora, integrando tecnologias educacionais e metodologias ativas. Paixão (2026b) ressalta que as metodologias ativas representam estratégia pedagógica inovadora, capaz de promover protagonismo discente e aprendizagem significativa. Entretanto, sua implementação efetiva esbarra nas condições precárias de trabalho, na ausência de formação adequada e na cultura institucional que privilegia o controle em detrimento da autonomia.
No contexto dos desafios globais do ensino superior, Paixão (2026a) aponta que a democratização do acesso, as transformações tecnológicas e as pressões da globalização impactam diretamente a formação e o trabalho docente. Essas transformações exigem constante adaptação, mas frequentemente ocorrem sem o correspondente suporte institucional, ampliando a sobrecarga e o desgaste profissional.
Do ponto de vista crítico, autores clássicos como Karl Marx (1867/2013) já apontavam que a intensificação do trabalho, quando dissociada do controle do trabalhador sobre o processo produtivo, gera alienação. Essa leitura permanece atual ao se observar que o professor, submetido a prescrições externas, vê-se afastado do sentido emancipatório de sua prática. Estudos recentes de Miguel Arroyo (2021) reforçam que a docência sob pressão compromete a dimensão ética e política do trabalho educativo.
António Nóvoa (2020) destaca que a formação docente precisa ser compreendida como processo de construção da identidade profissional, articulando saberes acadêmicos, experienciais e relacionais. Para o autor, a escola deve assumir centralidade nos processos formativos, superando modelos centrados exclusivamente em demandas externas que desconsideram a realidade do trabalho pedagógico.
Kenneth Zeichner (2020) defende que a formação docente deve assumir perspectiva crítica e reflexiva, capaz de problematizar as relações de poder e as desigualdades que atravessam o trabalho educativo. Modelos formativos que desconsideram essa dimensão tendem a reforçar práticas conservadoras e a aumentar o desgaste profissional.
Paulo Freire (2021), em releituras contemporâneas de sua obra, reforça que a formação docente deve assumir compromisso com a emancipação dos sujeitos e com a transformação social. A formação continuada, nessa perspectiva, não pode ser neutra ou despolitizada, mas deve favorecer a consciência crítica e o compromisso ético com a justiça social.
Philippe Perrenoud (2020) defende que o desenvolvimento de competências profissionais exige situações reais de aprendizagem, análise de casos concretos e reflexão sobre a ação. Modelos formativos baseados exclusivamente em prescrições e cumprimento de metas tendem a produzir desgaste e alienação.
Vera Candau (2020) aponta que as exigências institucionais frequentemente negligenciam dimensões fundamentais, como a abordagem intercultural, a educação inclusiva e a valorização da diversidade. Tal lacuna compromete a atuação docente e intensifica o sofrimento profissional em contextos marcados por desigualdades.
Donald Schön (2020) enfatiza que o professor aprende na e sobre a ação, sendo fundamental que os processos formativos e as condições institucionais promovam espaços de reflexão sistemática sobre a prática. Quando isso não ocorre, o docente tende a reproduzir modelos tradicionais de forma acrítica, vivenciando crescente insegurança e desgaste.
Em síntese, o referencial teórico evidencia que a docência sob pressão resulta de um conjunto articulado de fatores institucionais, políticos e organizacionais, que produzem desgaste profissional ao limitar a autonomia, intensificar o trabalho e desconsiderar a complexidade da prática pedagógica. Enfrentar esse cenário exige a superação de abordagens individualizantes e a construção de políticas institucionais comprometidas com a valorização real do trabalho docente.
3. METODOLOGIA
O percurso metodológico adotado nesta pesquisa fundamenta-se na compreensão de que o desgaste profissional docente, decorrente de exigências institucionais, constitui um fenômeno complexo, socialmente situado e atravessado por múltiplas determinações históricas, políticas e organizacionais. Assim, optou-se por uma pesquisa de natureza qualitativa, uma vez que esse tipo de abordagem permite apreender significados, sentidos e interpretações construídas socialmente, superando leituras reducionistas do fenômeno educacional, conforme defende Gil ao afirmar que a pesquisa qualitativa "busca compreender fenômenos a partir da perspectiva dos sujeitos envolvidos" (Gil, 2020, p. 44).
Do ponto de vista de seus objetivos, a investigação assume caráter exploratório e explicativo. Exploratório porque se propõe a aprofundar a compreensão de um problema que, embora amplamente discutido no campo educacional, ainda apresenta lacunas analíticas quanto às relações entre exigências institucionais e desgaste docente; explicativo porque busca identificar fatores estruturais que contribuem para a intensificação do trabalho e para o adoecimento profissional, conforme orientam Lakatos e Marconi ao destacarem que pesquisas explicativas "visam identificar os fatores que determinam ou contribuem para a ocorrência dos fenômenos" (Lakatos; Marconi, 2017, P. 107).
A escolha pela abordagem qualitativa revela-se epistemologicamente coerente com o objeto de estudo, uma vez que a docência sob pressão não pode ser compreendida por meio de mensurações isoladas ou indicadores quantitativos. Trata-se de um fenômeno que envolve subjetividade, identidade profissional, relações de poder e organização institucional do trabalho. Nesse sentido, Vergara sustenta que a pesquisa qualitativa é adequada quando o pesquisador busca "interpretar a realidade social a partir de uma lógica compreensiva e contextualizada" (Vergara, 2016, p. 42), o que se alinha aos propósitos desta investigação.
Quanto aos procedimentos técnicos, a pesquisa caracteriza-se como bibliográfica e documental. A pesquisa bibliográfica foi realizada a partir de livros, artigos científicos e estudos publicados entre 2015 e 2025, selecionados em bases reconhecidas da área da Educação, priorizando autores brasileiros e complementando com referências internacionais clássicas e contemporâneas. Gil ressalta que a pesquisa bibliográfica "é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos" (Gil, 2020, p. 50), permitindo ao pesquisador dialogar criticamente com o conhecimento acumulado.
A pesquisa documental, por sua vez, envolveu a análise de dispositivos legais e documentos oficiais vigentes, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Base Nacional Comum Curricular e normativas relacionadas à organização do trabalho docente. Lakatos e Marconi indicam que documentos oficiais constituem fontes relevantes por expressarem "intenções políticas, normativas e ideológicas de determinado contexto histórico" (Lakatos; Marconi, 2017, p. 178), o que se mostra essencial para compreender as exigências institucionais impostas à docência.
Os dados provenientes das fontes bibliográficas e documentais foram submetidos à técnica de análise de conteúdo, escolhida por sua capacidade de revelar sentidos latentes e estruturas discursivas subjacentes aos textos analisados. Bardin define a análise de conteúdo como um conjunto de técnicas que visa "obter, por procedimentos sistemáticos, indicadores que permitam inferências relativas às condições de produção das mensagens" (Bardin, 2016, p. 48). Embora o foco da análise esteja no conteúdo, a interpretação considerou também elementos discursivos e contextuais, evitando leituras fragmentadas.
O rigor metodológico foi assegurado por meio da coerência entre problema, objetivos, abordagem e técnica de análise, bem como pela explicitação dos critérios de seleção das fontes e pela triangulação teórica. Vergara destaca que o rigor na pesquisa qualitativa não se dá pela replicabilidade estatística, mas pela consistência lógica e pela transparência do percurso investigativo (Vergara, 2016, p. 61). Assim, todas as escolhas metodológicas foram fundamentadas teoricamente, garantindo solidez epistemológica ao estudo.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise do corpus investigado evidencia que as exigências institucionais contemporâneas incidem de forma direta e intensa sobre o trabalho docente, configurando um cenário de sobrecarga e desgaste profissional. Conforme observado em diversos estudos analisados, a ampliação das demandas administrativas e burocráticas redefine o cotidiano do professor, deslocando o foco da atividade pedagógica para o cumprimento de prescrições institucionais. Como afirma Tardif, "o trabalho docente é progressivamente colonizado por tarefas que não dizem respeito diretamente ao ensino" (Tardif, 2017, p. 112), constatação que dialoga com análises contemporâneas que apontam a intensificação do trabalho como elemento central do desgaste profissional.
Os dados analisados indicam que a lógica gerencialista, amplamente difundida nas políticas educacionais, contribui para a produção de um ambiente de controle permanente e responsabilização individual. Ball observa que "a performatividade transforma o profissional em objeto de avaliação contínua" (Ball, 2016, p. 103), perspectiva que encontra ressonância nos estudos brasileiros ao evidenciarem que o professor passa a ser avaliado não por sua prática reflexiva, mas por indicadores externos. Essa dinâmica produz sentimentos de inadequação e insegurança, conforme apontam Gatti (2019), ao discutir os impactos subjetivos da cultura de resultados sobre os docentes.
Outro achado relevante refere-se à fragilização da autonomia docente. A análise revela que currículos prescritos, metas institucionais rígidas e avaliações padronizadas limitam a capacidade do professor de tomar decisões pedagógicas contextualizadas. Segundo Pimenta, "a perda de autonomia compromete a identidade profissional e esvazia o sentido do trabalho docente" (Pimenta, 2021, p. 67). Essa constatação converge com estudos que indicam que o desgaste profissional não decorre apenas do excesso de trabalho, mas da impossibilidade de exercer o julgamento profissional de forma ética e responsável.
No campo da saúde do trabalhador, os resultados evidenciam que o desgaste docente assume dimensões físicas, emocionais e simbólicas. Dejours afirma que "o sofrimento no trabalho emerge quando o sujeito não encontra reconhecimento" (Dejours, 2015, p. 74), e os estudos analisados indicam que a docência tem sido marcada por uma profunda ausência de reconhecimento institucional. Pesquisas recentes no contexto brasileiro confirmam que a combinação entre excesso de demandas e desvalorização profissional contribui para quadros de adoecimento psíquico, como estresse crônico e síndrome de burnout (Costa, 2022).
A formação continuada, quando reduzida à lógica da certificação, agrava significativamente o desgaste profissional. Conforme evidenciado por Paixão (2025a), as práticas reflexivas deveriam constituir elemento central do desenvolvimento profissional docente, permitindo análise crítica e transformação da prática. Contudo, a predominância de modelos formativos baseados em cumprimento de carga horária e obtenção de certificados adiciona novas demandas à sobrecarga existente sem promover mudanças efetivas, intensificando sentimento de frustração e descrédito.
Os desafios contemporâneos da educação também ampliam a pressão sobre os docentes. Paixão (2026a) destaca que os desafios globais do ensino superior, como democratização do acesso, transformações tecnológicas e pressões da globalização, exigem constante adaptação. Contudo, essas transformações frequentemente ocorrem sem o correspondente suporte institucional, ampliando a sobrecarga e o desgaste profissional. Os professores são convocados a inovar, mas as condições de trabalho permanecem precárias.
As metodologias ativas emergem como alternativa pedagógica para promover inovação e protagonismo. Paixão (2026b) evidencia que essas estratégias apresentam potencial transformador, promovendo aprendizagem significativa e engajamento. Contudo, sua implementação efetiva esbarra nas condições institucionais adversas. Professores sobrecarregados, sem tempo para estudo e planejamento, encontram dificuldades em incorporar práticas inovadoras, o que gera frustração adicional e intensifica o desgaste.
A análise documental revela, ainda, uma contradição entre o discurso normativo e as condições concretas de trabalho docente. A LDB estabelece a valorização do magistério como princípio; entretanto, políticas curriculares e avaliativas recentes intensificam o controle sobre o trabalho do professor. Cury destaca que "há um descompasso entre o que a legislação anuncia e o que as políticas efetivamente produzem" (Cury, 2020, p. 91), o que reforça a compreensão do desgaste docente como fenômeno estrutural.
Os resultados também indicam que a intensificação do trabalho compromete a dimensão ética da docência. Freire adverte que "ensinar exige liberdade e responsabilidade" (Freire, 1996/2021, p. 34), e a análise demonstra que a pressão institucional restringe ambas. Ao limitar a autonomia e impor metas alheias à realidade escolar, as instituições produzem sofrimento ético, na medida em que o professor é impedido de agir conforme seus princípios pedagógicos.
A análise evidencia, ainda, que o desgaste profissional afeta de forma desproporcional professores que atuam em contextos de maior vulnerabilidade social. Arroyo afirma que "a docência sob pressão revela o esgotamento de um modelo de gestão educacional" (Arroyo, 2021, p. 58), interpretação que converge com os dados analisados. Professores que trabalham em escolas públicas periféricas enfrentam, além das exigências institucionais, desafios relacionados à precariedade da infraestrutura e às condições socioeconômicas dos estudantes.
Por fim, os achados evidenciam que o desgaste profissional docente não pode ser compreendido como fragilidade individual ou falta de resiliência, mas como resultado de arranjos institucionais específicos. A superação do desgaste docente exige mudanças estruturais nas políticas educacionais e na organização institucional do trabalho, incluindo redução da sobrecarga, ampliação da autonomia, valorização profissional e criação de condições efetivas para o desenvolvimento de práticas reflexivas e inovadoras.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise desenvolvida ao longo deste estudo permitiu compreender, de forma aprofundada e crítica, como as exigências institucionais contemporâneas incidem sobre o trabalho docente e contribuem decisivamente para processos de desgaste profissional. Os objetivos propostos foram plenamente alcançados, na medida em que se conseguiu analisar os dispositivos institucionais que intensificam o trabalho docente, examinar seus impactos sobre a autonomia e a identidade profissional do professor, avaliar as relações entre pressão institucional e adoecimento docente e discutir possibilidades de enfrentamento desse cenário a partir de uma perspectiva coletiva e estrutural.
Os resultados confirmam a hipótese central de que o desgaste profissional docente não decorre de fragilidades individuais, falta de preparo ou insuficiência de competências pessoais, mas de um conjunto articulado de fatores institucionais, políticos e organizacionais que reconfiguram o trabalho do professor. A intensificação das demandas administrativas, a ampliação do controle por meio de avaliações externas, a lógica da performatividade e a responsabilização individual produzem um ambiente de trabalho marcado pela sobrecarga, pela perda de autonomia e pelo esvaziamento do sentido pedagógico da docência.
Ao longo da discussão, evidenciou-se que a docência tem sido progressivamente submetida a uma racionalidade gerencialista que reduz a complexidade do trabalho educativo a indicadores de desempenho e metas quantificáveis. Essa racionalidade entra em conflito direto com a natureza intelectual, ética e relacional da prática docente, produzindo sofrimento ético e comprometendo a identidade profissional. Assim, a hipótese de que a pressão institucional fragiliza a autonomia docente e contribui para o adoecimento profissional foi amplamente confirmada pelos dados analisados e pelo diálogo estabelecido com a literatura científica.
A formação continuada, quando reduzida à lógica da certificação, agrava o desgaste profissional ao adicionar novas exigências sem promover transformação efetiva da prática. As práticas reflexivas emergem como elemento fundamental para o desenvolvimento profissional, mas sua efetivação exige condições institucionais adequadas, incluindo tempo, espaço e valorização do trabalho docente.
As metodologias ativas apresentam potencial transformador, mas sua implementação efetiva esbarra nas condições precárias de trabalho. Os desafios contemporâneos da educação exigem constante adaptação, mas frequentemente ocorrem sem o correspondente suporte institucional, ampliando a sobrecarga e o desgaste profissional.
Do ponto de vista teórico, o estudo contribui ao reforçar a compreensão da docência como trabalho socialmente situado, atravessado por relações de poder e por condições objetivas de produção. Ao articular referenciais da sociologia do trabalho, da pedagogia crítica e da psicodinâmica do trabalho, a pesquisa amplia o debate sobre o desgaste docente, deslocando-o de abordagens psicologizantes ou individualizantes para uma leitura estrutural e histórica. Essa perspectiva fortalece o campo de estudos sobre trabalho docente ao evidenciar que a saúde do professor está intrinsecamente vinculada à organização institucional do trabalho escolar.
No plano prático, as contribuições do estudo residem na possibilidade de subsidiar políticas educacionais e práticas institucionais mais comprometidas com a valorização real do magistério. Ao demonstrar que o desgaste profissional é produzido por arranjos organizacionais específicos, o trabalho aponta para a necessidade de revisão das políticas de avaliação, da redução da sobrecarga burocrática, da ampliação da autonomia pedagógica e da criação de condições institucionais que favoreçam o reconhecimento e o bem-estar docente. Tais medidas são fundamentais não apenas para a saúde do professor, mas para a qualidade social da educação.
É importante reconhecer, contudo, as limitações da pesquisa. Por tratar-se de um estudo de natureza bibliográfica e documental, não foram incorporadas vozes empíricas de professores em exercício, o que poderia aprofundar a compreensão das experiências subjetivas de desgaste profissional. Além disso, embora o recorte temporal adotado tenha privilegiado produções recentes, algumas dinâmicas institucionais analisadas apresentam variações significativas entre redes de ensino e contextos regionais, o que limita generalizações mais amplas.
Diante dessas limitações, sugere-se que pesquisas futuras aprofundem a temática por meio de estudos empíricos, como entrevistas, grupos focais ou etnografias escolares, capazes de captar as nuances do sofrimento docente no cotidiano institucional. Também se mostra relevante investigar estratégias coletivas de resistência e enfrentamento construídas pelos próprios professores, bem como analisar experiências institucionais que tenham logrado reduzir o desgaste profissional por meio de políticas de valorização e reorganização do trabalho docente.
Recomenda-se, ainda, o desenvolvimento de estudos comparativos entre diferentes redes de ensino e contextos regionais, permitindo compreender como as exigências institucionais se materializam de formas distintas e como diferentes políticas de gestão impactam a saúde docente. Pesquisas longitudinais também se mostram necessárias para acompanhar trajetórias profissionais e identificar momentos críticos de intensificação do desgaste.
Do ponto de vista das políticas públicas, os resultados apontam para a urgência de medidas estruturais que enfrentem as causas objetivas do desgaste profissional. Isso inclui: revisão das políticas de avaliação externa, evitando a responsabilização individual e a cultura da performatividade; redução da carga burocrática e administrativa, permitindo que os professores dediquem mais tempo ao trabalho pedagógico; ampliação da autonomia docente, reconhecendo o professor como intelectual capaz de tomar decisões contextualizadas; valorização profissional efetiva, incluindo melhoria salarial, planos de carreira e condições de trabalho adequadas; fortalecimento da formação continuada baseada em práticas reflexivas, superando a lógica da certificação; e criação de espaços institucionais de reflexão coletiva, favorecendo o diálogo entre pares e a construção colaborativa de saberes.
No âmbito institucional, sugere-se que as escolas e redes de ensino promovam culturas organizacionais mais democráticas e participativas, que valorizem o protagonismo docente e reconheçam a complexidade do trabalho pedagógico. A implementação de metodologias ativas e práticas inovadoras deve ser acompanhada de condições concretas, incluindo formação adequada, tempo para planejamento e infraestrutura apropriada.
Em síntese, conclui-se que a docência sob pressão constitui um fenômeno estrutural, produzido por modelos de gestão educacional que tensionam a prática pedagógica e comprometem a saúde profissional dos professores. Enfrentar esse cenário exige a superação de discursos que individualizam o problema e a construção de políticas públicas e institucionais que reconheçam o professor como sujeito intelectual, ético e político. Somente a partir dessa compreensão será possível avançar na valorização efetiva da docência e na construção de uma educação comprometida com a dignidade do trabalho docente, com a qualidade social do ensino e com a formação integral dos estudantes.
A transformação desse quadro depende de esforços coletivos que articulem movimentos sindicais, universidades, gestores educacionais e a própria categoria docente na defesa de condições de trabalho dignas. A docência não pode continuar sendo exercida sob pressão institucional crescente sem que isso comprometa irreversivelmente a qualidade da educação pública brasileira. A valorização real do magistério passa, necessariamente, pela reorganização estrutural do trabalho docente e pelo reconhecimento da docência como prática intelectual, criativa e emancipatória, livre de controles excessivos e aberta à autonomia profissional responsável.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARROYO, Miguel G. Ofício de mestre: imagens e autoimagens. 15. ed. Petrópolis: Vozes, 2021.
BALL, Stephen J. Educação global S.A.: novas redes políticas e o imaginário neoliberal. Ponta Grossa: UEPG, 2016.
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, 1996.
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017.
CANDAU, Vera Maria. Educação intercultural. Petrópolis: Vozes, 2020.
COSTA, Ana Cristina. Docência e saúde emocional. São Paulo: Summus, 2022.
CURY, Carlos Roberto Jamil. Educação e políticas públicas. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2015.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 60. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2021.
GATTI, Bernardete A. Formação de professores no Brasil: características e problemas. São Paulo: FCC, 2019.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2020.
LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos de metodologia científica. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2017.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.
NÓVOA, António. Formação de professores e profissão docente. Lisboa: Educa, 2020.
PAIXÃO, Joelson Lopes. Desafios globais do ensino superior no século XXI: democratização do acesso e as pressões da globalização. Revista Tópicos, v. 4, p. 1-25, 2026a.
PAIXÃO, Joelson Lopes. Metodologias ativas na educação contemporânea: uma revisão documental das tendências, fundamentos e desafios. Revista Tópicos, v. 4, p. 1-26, 2026b.
PAIXÃO, Joelson Lopes. Práticas reflexivas na formação continuada de professores. Revista Tópicos, v. 3, p. 1-24, 2025a.
PERRENOUD, Philippe. Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed, 2020.
PIMENTA, Selma Garrido. Formação de professores: identidade e saberes da docência. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2021.
SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica. 12. ed. Campinas: Autores Associados, 2018.
SCHÖN, Donald. Educando o profissional reflexivo. Porto Alegre: Artmed, 2020.
TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
VERGARA, Sylvia Constant. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. 16. ed. São Paulo: Atlas, 2016.
ZEICHNER, Kenneth. Repensando a formação de professores. Porto Alegre: Penso, 2020.
1 Mestre em Engenharia Elétrica. Especialista em áreas da Educação e relacionadas à Engenharia Elétrica. Bacharel em Engenharia Elétrica, licenciado em Matemática, Física, Pedagogia e em Formação de professores para a EPT. Foi aluno de IC, atuou como professor na EBTT e participou de vários projetos de P&D. Atualmente, é pesquisador e doutorando em Engenharia Elétrica. E-mail: [email protected]