REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/786321886
RESUMO
O artigo analisa a intrínseca relação entre a formação histórica de Paulistana, no sertão piauiense, e a consolidação da devoção a Nossa Senhora dos Humildes. Argumenta-se que sua festa anual se configura como um fato social total, central para a coesão social, a afirmação identitária e a gestão simbólica do território. Com base em pesquisa documental, memória oral e uma robusta fundamentação na sociologia da religião – dialogando com autores clássicos como Durkheim e Mauss, e contemporâneos como Bourdieu e Halbwachs –, traça-se a trajetória da devoção desde a capela fundada no século XVIII até a institucionalização da paróquia em 1883 e a fixação dos festejos a partir de 1841. A análise demonstra como a celebração transcende o rito litúrgico, funcionando como um poderoso dispositivo de reconhecimento, de transmissão da memória coletiva, de construção de uma territorialidade simbólica e de resistência cultural em contexto de semiárido, em diálogo crítico com o debate sobre a secularização e a emergência de uma epistemologia do sul. O estudo contribui, assim, para a compreensão da religiosidade popular e da construção social no interior do Nordeste brasileiro.
Palavras-chave: Paulistana; Sociologia da Religião; Memória Coletiva; Territorialidade; Fato Social Total.
ABSTRACT
This article analyzes the intrinsic relationship between the historical formation of Paulistana, in the semi-arid region of Piauí, Brazil, and the consolidation of devotion to Our Lady of the Humble (Nossa Senhora dos Humildes). It is argued that its annual feast constitutes a total social fact, central to social cohesion, identity affirmation, and symbolic territorial management. Based on documentary research, oral memory, and a robust theoretical foundation in the sociology of religion – engaging with classical authors such as Durkheim and Mauss, and contemporary ones like Bourdieu and Halbwachs – the study traces the devotion's trajectory from the chapel founded in the 18th century to the institutionalization of the parish in 1883 and the establishment of the festivities from 1841. The analysis demonstrates how the celebration transcends the liturgical rite, functioning as a powerful mechanism for recognition, transmission of collective memory, construction of a symbolic territoriality, and cultural resistance within the semi-arid context, critically dialoguing with the debate on secularization and the emergence of an epistemology of the South. The study thus contributes to the understanding of popular religiosity and social construction in the Brazilian Northeast.
Keywords: Paulistana; Sociology of Religion; Collective Memory; Territoriality; Total Social Fact.
1. INTRODUÇÃO
No sertão piauiense, as devoções populares frequentemente antecedem e estruturam o próprio processo de formação dos municípios. Paulistana insere-se nessa dinâmica: sua origem está vinculada à instalação de uma unidade produtiva de criação e à edificação de uma capela dedicada a Nossa Senhora dos Humildes, erguida na segunda metade do século XVIII por iniciativa de Valério Coelho Rodrigues. A devoção que ali se consolidou deu origem a uma festa que, desde 1841, reúne a população anualmente no dia 15 de agosto, data da solenidade da Assunção de Maria.
O problema que orienta esta análise é: de que maneira a festa de Nossa Senhora dos Humildes participa da constituição social e simbólica de Paulistana, articulando trajetória histórica, relações de poder e memória coletiva ao longo de quase dois séculos?
A hipótese central é que a celebração atua como um fato social total (MAUSS, 1974): congrega dimensões religiosas, econômicas, políticas e afetivas, renovando vínculos sociais e demarcando sentidos de pertencimento. Para a sociologia da religião, isso implica compreender o sagrado não como uma esfera dissociada da vida coletiva, mas como uma força que estrutura relações, produz sentidos e legitima formas de organização comunitária — realidade que se manifesta igualmente nas comunidades quilombola São Martin e indígena Batimaré, recentemente acompanhadas por docentes e discentes do IFPI.
A permanência de manifestações religiosas tradicionais, como os festejos de Nossa Senhora dos Humildes, em um contexto de crescente globalização e secularização, contesta as narrativas que postulam o declínio da religião e demanda uma análise sociológica mais aprofundada e contextualizada. Longe de constituírem apenas resquícios de um passado pré-moderno, essas celebrações se reconfiguram e adquirem novos significados no tempo presente, funcionando como pontos de referência para grupos que buscam preservar suas referências culturais e enfrentar processos de homogeneização social e econômica. Este trabalho propõe-se, portanto, a examinar a festa como um espaço privilegiado em que a tradição dialoga com as dinâmicas sociais contemporâneas, gerando identidades e solidariedades fundamentais para a compreensão da vida social no sertão piauiense.
Nesse sentido, o estudo insere-se em um campo consolidado e produtivo da Sociologia da Religião, que analisa a agência dos sujeitos e a dimensão performática dos rituais. Em vez de tomar a religião como elemento subordinado a outras estruturas sociais, prioriza-se aqui a capacidade da fé e de suas práticas de conformar o espaço, o tempo e as relações entre os indivíduos. A análise da festa de Nossa Senhora dos Humildes possibilitará, assim, evidenciar como a devoção se torna um vetor de organização coletiva, de construção de sentidos compartilhados e de articulação entre a esfera individual e a comunitária, expondo as complexas interações entre o sagrado e o profano na produção da realidade social.
Para alcançar esses objetivos, o artigo adota uma perspectiva teórico-metodológica que associa pesquisa documental e análise da memória oral, estabelecendo diálogo com autores como Maurice Halbwachs (1990) no estudo da memória coletiva, Pierre Bourdieu (1998) na investigação do poder simbólico, e Émile Durkheim (1989) e Marcel Mauss (1974) ao explorar a função integradora do ritual como fato social total. Ademais, autores como Carlos Walter Porto-Gonçalves (2002) e Boaventura de Sousa Santos (2007) oferecem referenciais críticos para a análise da territorialidade e da resistência cultural. O intuito é contribuir para o desenvolvimento da sociologia da religião no Nordeste brasileiro, destacando a riqueza e a complexidade das relações entre devoção, território e memória na formação social de Paulistana.
2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Trata-se de pesquisa qualitativa, de caráter exploratório e interpretativo, fundamentada em três eixos principais:
Pesquisa documental: análise de acervos públicos e eclesiásticos, abrangendo a Coleção das Leis e Resoluções da Província do Piauí, registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, arquivos da Prefeitura Municipal de Paulistana e documentos sob guarda da Cúria Diocesana de Picos, entre os quais atas de criação da paróquia e memoriais paroquiais;
Memória oral: narrativas de lideranças comunitárias, moradores de longa data e agentes pastorais, obtidas por meio de rodas de conversa e entrevistas semiestruturadas, com registro devidamente autorizado e estrito cumprimento dos princípios éticos que regem a pesquisa com seres humanos;
Revisão bibliográfica: interlocução com referências clássicas e contemporâneas da sociologia da religião, da sociologia da cultura e dos campos de estudo sobre memória coletiva e territorialidade.
Os critérios adotados para a análise foram a coerência histórica, a articulação sistemática entre dados empíricos e categorias teóricas, bem como a valorização das narrativas produzidas pelos sujeitos do contexto local. Reconhecem-se como limites da investigação a ausência de documentação digitalizada referente a eventos mais remotos e a própria natureza da transmissão oral como fonte principal para fatos não registrados em documentos oficiais.
O tratamento do material coletado, de viés predominantemente qualitativo e interpretativo, baseou-se na hermenêutica das narrativas e na identificação de padrões e significados que emergem do contato com o objeto de estudo. A reflexividade acerca da posição do pesquisador e de sua inserção no universo investigado constituiu elemento central para a redução de vieses e para o aprofundamento da compreensão das dinâmicas sociais internas à comunidade. O objetivo final não se restringe à descrição da festa, mas consiste em desvelar as estruturas sociais, os sistemas simbólicos e as relações de poder que lhe dão suporte, construindo uma interpretação sociológica consistente sobre os processos de formação identitária e territorial de Paulistana a partir de sua principal manifestação devocional.
3. ORIGENS E FORMAÇÃO HISTÓRICA: DA FAZENDA À PARÓQUIA
O território onde se situa Paulistana foi ocupado a partir de atividades de pecuária, em meados do século XVIII, quando Valério Coelho Rodrigues estabeleceu a “Fazenda Paulista”, em homenagem à esposa, natural de São Paulo. À época, a região integrava o município de Oeiras, então capital da província do Piauí. A capela ali erguida constituiu o núcleo inicial do povoado, que passou a contar com Juizado de Paz em 1829 e, posteriormente, com a criação canônica da Paróquia de Nossa Senhora dos Humildes por meio da Resolução Provincial nº 1078, de 13 de julho de 1883, instalada definitivamente em 15 de agosto de 1888.
A imagem da padroeira chegou à localidade em 1890, trazida pela beata Etelvina, havendo duas versões sobre sua origem: uma aponta o Crato, no Ceará; outra, a Bahia. O topônimo “Paulista” foi alterado para Paulistana em 1944, por determinação do Decreto-lei nº 754, de 30 de dezembro de 1943, que vedava a duplicidade de nomes no território nacional.
Esse percurso demonstra como a instituição eclesiástica acompanhou e legitimou a organização espacial e administrativa do lugar: a paróquia funcionou tanto como referência de culto quanto como centro de registro civil, de educação e de articulação social. Como destaca Pierre Bourdieu (1998), a religião exerce poder simbólico ao produzir e impor categorias de percepção que ordenam o mundo social — dinâmica que se manifesta claramente na delimitação das freguesias e na consolidação da identidade local sob a proteção de uma santa. Em sintonia com Émile Durkheim (1989), os ritos e a devoção compartilhada atuam como força integradora, gerando a efervescência coletiva que reafirma continuamente os laços que unem a comunidade.
A progressiva institucionalização da fé e da organização paroquial, que culminou na instalação da Igreja Matriz em 1888 e na chegada da imagem da padroeira dois anos depois, indica que a devoção se consolidou como um pilar central da vida comunitária. Essa sedimentação da presença católica constituiu fator relevante para a coesão social em um território vasto e de condições adversas como o semiárido piauiense, onde as instâncias estatais apresentavam presença historicamente mais restrita e dispersa. No contexto investigado, a igreja, com sua hierarquia e seu conjunto de ritos, contribuiu para preencher lacunas de governança e integração, consolidando um espaço de pertencimento que ultrapassava os limites individuais de fazendas e linhagens familiares.
Desse modo, a trajetória de Paulistana, desde sua origem como estabelecimento rural até sua elevação à condição de município, permanece indissociável da história da Paróquia de Nossa Senhora dos Humildes. A devoção à padroeira, iniciada de forma mais espontânea, foi gradualmente estruturada e potencializada pela organização eclesiástica, que forneceu o arcabouço necessário para a realização de eventos como a festa anual. A própria alteração do topônimo de “Paulista” para “Paulistana” em 1944, ainda que motivada por determinação legal, reforça a existência de uma identidade que já se afirmava e se distinguia, em grande medida, por suas características culturais e religiosas singulares.
Portanto, a análise da história de Paulistana revela uma profunda imbricação entre o desenvolvimento territorial e a consolidação da fé. A festa, instituída em 1841 e enraizada nesse terreno de devoção progressivamente institucionalizada, assume posição central como momento em que a identidade coletiva é celebrada e reconstituída anualmente. É essa interseção dinâmica entre o percurso histórico e a dimensão religiosa que será aprofundada na seção seguinte, dedicada à consolidação e aos traços sociais da festa de Nossa Senhora dos Humildes.
4. A FESTA COMO PROCESSO DE CONSOLIDAÇÃO: TRAÇOS HISTÓRICOS E DINÂMICA ATUAL
Os festejos em honra a Nossa Senhora dos Humildes têm seu início registrado em 1841, consolidando-se como a principal manifestação cultural e religiosa do município. Historicamente, compreendiam novenas, procissões, missas solenes, leilões e celebrações populares; ao longo de sua trajetória, incorporaram peregrinações pelos bairros, encontros comunitários e ações missionárias.
A continuidade e a ressignificação desses rituais ao longo de quase dois séculos evidenciam a capacidade da festa de se adaptar às transformações, sem perder sua função fundamental como elemento aglutinador da coletividade. As mudanças sociais, econômicas e políticas vivenciadas por Paulistana não romperam o vínculo que une a comunidade à sua padroeira. Ao contrário, a celebração se configura como um cronotopo (BAKHTIN, 2002) — instância espaço-temporal na qual as relações sociais se condensam e se tornam visíveis, permitindo que o grupo reafirme sua presença e seus valores em um contexto de transformação permanente.
Mais do que um evento de cunho religioso restrito a uma esfera específica, os festejos atuam como uma reafirmação performática daquilo que Paulistana representa para seus habitantes: um território marcado por trajetória histórica, memória compartilhada e identidade construída na fé e na resistência. A sucessão de gerações não esmaeceu a centralidade do dia 15 de agosto, que continua a mobilizar recursos, esforços e afetos, demonstrando que o sagrado permanece como força estruturante na organização do tempo social e na produção de sentidos para a vida individual e coletiva. É essa complexa trama que articula história, memória, rito e mobilização social que será analisada com maior aprofundamento na seção subsequente, sob a perspectiva conceitual da sociologia.
4.1. Memória e Atuação Social
A memória coletiva preserva nomes e ações que estruturaram tanto a devoção quanto a própria organização comunitária. Entre esses registros, destaca-se a atuação do sacerdote conhecido como Padre Otto/Oto, de origem alemã, que desenvolveu suas atividades na região provavelmente na década de 1960, colaborando com a catequese e com a estruturação da vida social local; a primeira missa registrada na comunidade quilombola São Martin, inserida na área de abrangência da paróquia, também remete a esse mesmo período. A limitação de registros digitais abrangentes sobre esse sacerdote não diminui seu significado: ao contrário, evidencia que parcela expressiva da história social no interior ainda se mantém preservada na oralidade e em arquivos físicos paroquiais e diocesanos.
Essa valorização da experiência local e dos saberes não institucionalizados dialoga diretamente com a proposição das “epistemologias do sul” (SANTOS, 2007). Essa dimensão oral se manifesta igualmente na própria comunidade: ao mencionarem a iniciativa de produzir um filme sobre sua trajetória, interrompida por insuficiência de recursos, e a elaboração de um projeto de livro, os moradores reafirmam o que Maurice Halbwachs (1990) definiria como a necessidade de materialização da memória coletiva: converter narrativas vivas em suportes que garantam sua continuidade e seu reconhecimento. Como ressalta Carlos Rodrigues Brandão (2013), a memória das comunidades populares não se configura como um bem já dado, mas como uma construção contínua, realizada na partilha e na transmissão entre gerações.
A Festa de Nossa Senhora dos Humildes, nesse quadro, ultrapassa sua dimensão estritamente litúrgica para se afirmar como um ritual de memória em si mesmo. A cada ano, a celebração não apenas rememora a figura da padroeira, mas reencena os laços sociais, as trajetórias familiares e as narrativas coletivas que definem a identidade do grupo. As procissões e as novenas, por exemplo, não se restringem a atos de fé: constituem também percursos que reconfiguram o território social de Paulistana, articulando gerações, reforçando vínculos de pertencimento e, sobretudo, mantendo ativa uma herança cultural que se expressa na oralidade, nas práticas e nas devoções compartilhadas.
A relevância de Padre Otto/Oto, ainda que amparada em poucos registros oficiais, ilustra a centralidade da memória oral na elaboração da história local. Sua atuação na década de 1960, recuperada pelos relatos dos moradores, demonstra como figuras catalisadoras podem emergir e se consolidar no imaginário coletivo, especialmente em contextos onde o registro formal é reduzido. Ele se estabelece como elo entre passado e presente, personagem fundamental que, ao apoiar a organização comunitária e a transmissão da fé, contribuiu para a formação da base social que viria a sustentar a continuidade dos festejos e a própria identidade do grupo, inclusive em territórios mais periféricos como o quilombo São Martin.
Essa valorização da memória, expressa na intenção de registrar a própria história em filme e em livro, reflete uma busca deliberada por reconhecimento e um esforço de contraposição às narrativas hegemônicas. Em um cenário em que a história oficial frequentemente silencia as vozes e as experiências dos grupos populares e tradicionais, o ato de registrar e difundir a trajetória própria se configura como uma forma de resistência epistêmica. A Festa de Nossa Senhora dos Humildes assume, nesse sentido, papel central não apenas como espaço de devoção, mas como instância onde a memória coletiva é continuamente produzida, negociada e transmitida, assegurando que a história de Paulistana seja narrada a partir das suas próprias referências.
4.2. Ritos e Estrutura Simbólica
A festa atual preserva elementos que remontam às suas origens, organizando-se em torno de eixos centrais:
Peregrinação da imagem: percorre bairros e comunidades rurais, reafirmando a unidade do território sob a mesma proteção simbólica;
Novenário e missa solene: constituem o núcleo do culto, mas abrem espaço para a participação de grupos pastorais, famílias e entidades da sociedade civil;
Procissão do dia 15 de agosto: culmina no trajeto pelas vias públicas, materializando a presença da padroeira no espaço compartilhado por todos.
Esses ritos estruturam um sistema simbólico complexo que transcende a dimensão estritamente litúrgica. A peregrinação da imagem pelos bairros e comunidades rurais, por exemplo, não se reduz a um deslocamento físico: funciona como reiteração simbólica da unidade territorial sob a proteção mariana. Ao materializar a presença da santa no cotidiano dos fiéis, estende o espaço sagrado para além dos muros da igreja matriz, abrangendo todo o município e reforçando laços de pertencimento e solidariedade entre os moradores.
O novenário e a missa solene mantêm-se como eixos centrais do culto, mas são constantemente enriquecidos pela participação ativa de grupos pastorais, famílias e instituições locais. Essa pluralidade de sujeitos na organização e realização das práticas demonstra a vitalidade da fé popular e a capacidade da festa de integrar diferentes segmentos em um mesmo empreendimento coletivo. A procissão de 15 de agosto, ao percorrer as ruas da cidade, corporifica a presença simbólica da padroeira no espaço público, configurando-se como momento privilegiado de efervescência coletiva (DURKHEIM, 1989), no qual a comunidade se reconhece e reafirma sua identidade por meio de uma manifestação pública e partilhada.
A opção pela data de 15 de agosto — solenidade da Assunção de Maria, que se consolidou como o ponto alto das celebrações — apresenta, contudo, uma particularidade simbólica e institucional. Essa mesma data marca os festejos principais de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira da Diocese de Picos. A despeito dessa coincidência, a comunidade de Paulistana preserva inalterado o calendário da festa, mantendo-se fiel tanto à tradição local quanto às determinações canônicas. Tal postura reafirma a autonomia devocional da paróquia, sem romper ou fragilizar seu vínculo com a instância diocesana.
Conforme analisa Maria Helena Moreira Alves (2000), as manifestações religiosas populares no Brasil articulam adesão institucional e recriação autônoma: acolhem os referenciais da Igreja, mas reconfiguram ritos conforme suas próprias experiências e necessidades. É precisamente essa dinâmica que se verifica em Paulistana: a estrutura litúrgica obedece às normas canônicas, mas é preenchida por sentidos singulares — como a associação da santa aos humildes, aos trabalhadores, às famílias e ao próprio território sertanejo —, mantendo-se firme em suas raízes históricas e em seu papel central como catalisadora da vida social.
4.3. Transformações Contemporâneas e o Debate Sobre Secularização
A continuidade da festa insere-se em um quadro de profundas transformações nas dinâmicas religiosas contemporâneas. Em oposição à tese clássica da secularização, que previa o progressivo desaparecimento do sagrado, autores como Danièle Hervieu-Léger (2008) e José Casanova (1994) demonstram que o que se verifica, na realidade, é uma reconfiguração: a religião deixa de ser o único princípio ordenador da vida coletiva, mas preserva funções fundamentais na construção de pertencimento e de sentido para os sujeitos. Em Paulistana, esse processo se expressa na convivência entre formas consolidadas de devoção, novas expressões de fé e a presença de saberes de matriz africana e indígena — cenário que demanda, como destaca Antônio Flávio Pierucci (2004), uma análise que não reduza o fenômeno religioso a mero resquício de um tempo pretérito.
Nesse contexto, a Festa de Nossa Senhora dos Humildes não se apresenta como manifestação em extinção, mas como testemunho da capacidade das comunidades de ressignificar o sagrado e de lhe atribuir finalidades sociais renovadas. No município, o ritual anual ultrapassa a esfera estritamente litúrgica para se configurar como evento cultural e social de grande abrangência, atraindo não apenas os fiéis, mas também visitantes, turistas e pessoas que retornam à terra natal por ocasião da celebração. Essa natureza multifacetada, que articula devoção, sociabilidade, reencontro familiar e memória afetiva, corrobora as formulações de Hervieu-Léger (2008) acerca das figuras do “peregrino” e do “convertido” em uma sociedade de identidades fluidas, nas quais os vínculos religiosos são continuamente construídos e renegociados.
Ainda que inserida em um semiárido marcado por persistentes desafios socioeconômicos, a festa funciona como espaço de convergência que reativa redes de solidariedade e apoio recíproco. A mobilização conjunta de recursos humanos e materiais para sua realização, a participação de distintos grupos pastorais e o envolvimento amplo da população — inclusive de católicos que se afastaram das práticas regulares ou de adeptos de outras tradições que se engajam em sua dimensão cultural — evidenciam a resiliência do capital social constituído em torno da devoção.
Essa potência de agregação, mesmo em um quadro de diversificação religiosa, demonstra como o sagrado pode continuar a atuar como elemento estruturante da coesão coletiva, ainda que sob novas configurações e com distintos graus de adesão individual.
Dessa forma, a análise da Festa de Nossa Senhora dos Humildes fornece um contraponto empírico relevante às versões mais deterministas das teorias da secularização. Ao invés de uma dissolução plena do religioso na vida pública, observa-se um movimento de reconfiguração no qual as práticas devocionais populares, longe de desaparecerem, se atualizam, dialogam com as transformações da modernidade e mantêm papel central na elaboração da identidade e da memória compartilhada. Em Paulistana, a celebração revela que, mesmo em tempos de pluralidade e individualização, as formas elementares da vida religiosa (DURKHEIM, 1989) seguem dotadas de relevância, garantindo a renovação constante dos laços sociais e a manutenção de um sentido de comunidade.
5. ANÁLISE SOCIOLÓGICA: DEVOÇÃO, TERRITÓRIO E RECONHECIMENTO
A Festa de Nossa Senhora dos Humildes consolida-se, portanto, como um verdadeiro laboratório sociológico, no qual as tensões e as articulações entre o local e o global, o tradicional e o moderno, o sagrado e o profano são continuamente negociadas. Mais do que mero reflexo da realidade social de Paulistana, ela se configura como agente ativo na sua produção contínua, funcionando como mediação fundamental entre o passado e o futuro. Ao reafirmar a trajetória histórica e a memória compartilhada do grupo, ao demarcar seu território simbólico e ao propiciar instâncias de reconhecimento recíproco, a celebração contribui de modo decisivo para a manutenção de uma identidade coletiva sólida e para a resistência cultural diante dos desafios colocados pelas dinâmicas contemporâneas.
Em suma, o exame da Festa de Nossa Senhora dos Humildes evidencia que a devoção popular no sertão piauiense não se reduz a um fenômeno estritamente religioso, mas constitui uma trama complexa de relações sociais, políticas e culturais. Sua permanência e sua capacidade de mobilização atestam a resiliência das formas elementares da vida religiosa e a centralidade do ritual na sustentação da coesão coletiva. Ao desvelar essas múltiplas camadas, o presente trabalho oferece subsídios a uma sociologia que reconhece a potência das comunidades na elaboração de seus próprios sentidos, reafirmando suas identidades e se opondo a processos de invisibilidade em um contexto de profundas transformações.
A Festa de Nossa Senhora dos Humildes não se resume, assim, a herança recebida do passado: trata-se de prática social viva e em curso, que exerce funções estruturantes:
5.1. Territorialidade Simbólica
Como analisa Carlos Walter Porto-Gonçalves (2002), o território se constitui igualmente por meio de símbolos e rituais. A peregrinação da imagem e a concentração na Igreja Matriz demarcam limites, articulam a zona urbana e a rural e estabelecem a padroeira como o “elo visível” de uma coletividade que se apresenta dispersa no espaço.
A Festa de Nossa Senhora dos Humildes configura-se, nessa direção, como um ato performático de demarcação simbólica do território paulistano. As procissões que percorrem as vias da cidade e as capelas das comunidades do campo funcionam como rituais de consagração do espaço, inscrevendo a presença da santa em cada ponto, cada habitação e cada sujeito. Esse percurso não se reduz a um movimento material: atualiza a distinção entre o sagrado e o profano, convertendo o espaço geográfico em território de fé e de pertencimento. Por meio dessas práticas, a coletividade reafirma sua soberania simbólica sobre a terra, evidenciando que o lugar não se resume a um dado físico, mas resulta de uma construção histórica, memorial e devocional de seus habitantes.
Desse modo, a territorialidade simbólica em Paulistana, mediada pela figura de Nossa Senhora dos Humildes, revela a correlação intrínseca entre a produção do espaço e a dimensão social da religião. Ao funcionar como o elo que conecta o urbano ao rural, o individual ao coletivo, a padroeira atribui uma dimensão cosmológica ao território. Ao encenar essa relação anualmente, a celebração fortalece os laços de coesão e a identidade local, demonstrando que o território é, fundamentalmente, uma construção cultural e simbólica. Nesse sentido, a compreensão da festa como instância de reafirmação territorial torna-se central para a análise sociológica da formação e da continuidade da comunidade de Paulistana.
5.2. Memória Coletiva e Identidade
A celebração reativa e transmite a memória das origens, das lutas e das alianças que marcaram a trajetória coletiva — entre elas a atuação de missionários, a conquista e ocupação do território e a preservação de saberes acumulados. Como destaca Stuart Hall (2006), a identidade cultural não corresponde a uma essência imutável, mas resulta de narrativas compartilhadas: a festa configura-se como um desses momentos privilegiados em que a comunidade narra a si mesma.
Nesse sentido, a Festa de Nossa Senhora dos Humildes atua como potente catalisador da memória coletiva (HALBWACHS, 1990), funcionando como um espaço anual em que a identidade de Paulistana é continuamente reconstituída e negociada. Os ritos, os cânticos e as narrativas partilhadas ao longo das celebrações não se resumem a repetições mecânicas do passado: constituem atos performáticos que reativam e reinterpretam as origens do grupo, os desafios superados e as alianças estabelecidas ao longo de sua história. A cada edição, a festa restabelece o vínculo dos indivíduos com sua herança cultural, com seus antepassados e com os valores que estruturaram o município, configurando-se como um lugar de memória (NORA, 1993) que materializa as lembranças e assegura sua transmissão entre gerações.
Essa construção identitária, por sua vez, não se apresenta como algo estático, mas sim como processo dinâmico e multifacetado. A festa possibilita a convivência de diferentes narrativas e o reconhecimento de múltiplas pertenças no interior da própria comunidade. A presença de figuras como o missionário Padre Otto/Oto, a primeira missa registrada na comunidade quilombola São Martin e a própria beata Etelvina que introduziu a imagem da padroeira são elementos que, recuperados pela memória oral e pela busca dos moradores por registrar sua história — como se observa no projeto de filme e de livro —, adensam o tecido identitário paulistanense. Conforme formula Stuart Hall (2006), a identidade cultural não é uma essência dada, mas um movimento contínuo de devir; e a festa constitui justamente um dos principais espaços em que esse devir coletivo é experienciado e reelaborado.
A celebração de Nossa Senhora dos Humildes revela-se, portanto, muito mais do que uma manifestação de fé: trata-se de uma complexa arquitetura social que ampara e projeta a identidade coletiva de Paulistana. Ao reativar as memórias sobre as origens e as trajetórias de seus habitantes, a festa não apenas fortalece o sentimento de pertencimento individual, mas também confere à comunidade uma percepção compartilhada de continuidade e de propósito. Funciona como o espelho no qual Paulistana se observa e se reconhece, espaço onde se afirma sua existência, sua história e sua singularidade no conjunto diversificado da cultura nordestina.
5.3. Religião e Justiça Social
A própria designação “dos Humildes” já indica uma escolha simbólica voltada aos grupos historicamente situados nas margens das estruturas de poder. Em sintonia com a perspectiva de Boaventura de Sousa Santos (2007), essa devoção pode ser compreendida como expressão de uma epistemologia do sul: reconhece a dignidade de quem habita o sertão, valoriza saberes próprios e reivindica visibilidade diante de processos de apagamento.
A denominação “Nossa Senhora dos Humildes” constitui uma metáfora potente que dialoga diretamente com as condições sociais do sertão piauiense, articulando a dimensão religiosa a preocupações com justiça social. Ao longo da história, as devoções marianas frequentemente se vincularam aos anseios e aos sofrimentos das camadas populares, funcionando não apenas como amparo espiritual, mas também como estímulo à resistência e à afirmação da dignidade. Em Paulistana, a invocação à “Mãe dos Humildes” insere-se nessa tradição, conferindo à padroeira o estatuto de símbolo de proteção e reconhecimento para aqueles recorrentemente submetidos a desigualdades econômicas e políticas.
Nesse sentido, a celebração anual configura-se como espaço privilegiado de manifestação da perspectiva própria às epistemologias do sul (SANTOS, 2007), que centram seu olhar nos saberes, nas lutas e nas cosmovisões dos povos do semiárido. A fé em Nossa Senhora dos Humildes contribui para legitimar e valorizar a vivência daqueles que dependem da terra, da criação de pequeno porte e que convivem tanto com os desafios climáticos quanto com assimetrias sociais. A devoção assume, assim, a feição de uma linguagem compartilhada que expressa esperanças por equidade, canalizando esforços para a construção de uma convivência mais solidária — como se verifica nas diversas redes de auxílio mútuo que se consolidam por ocasião dos festejos.
A participação nos rituais — que abrange procissões, novenário, refeições coletivas e instâncias de partilha — traduz-se em uma práxis religiosa que questiona processos de invisibilização. A festa representa o momento em que os “humildes” de Paulistana adquirem visibilidade recíproca e perante a sociedade em geral: trata-se de uma afirmação pública de existência, fé e dignidade, que reitera o valor e o lugar de cada sujeito sob a proteção da padroeira. Essa dimensão de integração e reconhecimento revela-se fundamental para a coesão social, sobretudo em contextos marcados por vulnerabilidades.
A Festa de Nossa Senhora dos Humildes revela-se, portanto, muito mais do que uma manifestação litúrgica: constitui uma arena social onde as questões de fé se entrelaçam indissociavelmente com as de justiça e dignidade humana. Funciona como um lembrete anual da relevância de zelar pelos mais fragilizados, de lutar por relações mais equitativas e de manter viva a esperança em um futuro compartilhado. Dessa forma, a devoção à padroeira converte-se em compromisso social ativo, que mobiliza a coletividade em torno de valores que transcendem a esfera espiritual e tocam o cerne dos debates sobre justiça social no Nordeste brasileiro.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A trajetória de Paulistana e o percurso histórico da Festa de Nossa Senhora dos Humildes evidenciam que religião e formação social se desenvolvem de modo indissociável no sertão piauiense. A hipótese inicialmente formulada encontra respaldo nos dados analisados: a celebração constitui-se efetivamente como um fato social total, que congrega dimensões religiosas, políticas, econômicas e simbólicas na constituição da coletividade local.
Longe de se reduzir a uma repetição mecânica de ritos, ela revela-se como espaço vivo de criação social: renova vínculos, reafirma o direito à memória e reivindica o reconhecimento daqueles a quem a santa é consagrada — os humildes, os trabalhadores, todos os que constroem e reconstroem o território cotidianamente. Conforme ressalta Durkheim (1989), os rituais não se limitam a recordar o passado: reconstituem periodicamente a própria coletividade que os vivencia. Investigar essa experiência é contribuir para uma sociologia que não apenas descreve fenômenos, mas valoriza as vozes e as práticas que estruturam o Brasil profundo.
A Festa de Nossa Senhora dos Humildes emerge, portanto, como fenômeno multifacetado que transcende a esfera litúrgica, configurando-se como capital simbólico (BOURDIEU, 1998) de central importância para Paulistana. As análises apresentadas demonstram que a devoção popular atua como elemento estruturante na elaboração e preservação da identidade local, na ordenação simbólica do território e na transmissão da memória coletiva. Em um contexto de semiárido marcado por desafios socioeconômicos persistentes e pelas transformações impostas pela modernidade, a festa afirma-se como espaço de resiliência e recriação, onde as tradições são ressignificadas e os laços comunitários renovados a cada ciclo anual.
Este trabalho reitera a relevância de abordagens sociológicas que reconheçam a agência dos sujeitos locais e a centralidade da religião na tessitura da vida social, em contraposição a perspectivas que anunciam seu declínio ou subestimam seu papel. A experiência de Paulistana ilustra de modo expressivo como rituais, símbolos e narrativas religiosas seguem moldando o cotidiano, fomentando a solidariedade e a resistência cultural. Ao destacar a festa como fato social total, o estudo busca ampliar o debate sobre a religiosidade popular no Brasil, oferecendo aportes analíticos para compreender a complexa inter-relação entre fé, história, território e identidade no interior do Nordeste.
Em síntese, a Festa de Nossa Senhora dos Humildes não se configura apenas como um evento que ocorre no município: ela é parte constitutiva do que Paulistana representa para seus habitantes. Sua permanência e vitalidade atestam uma fé que se entrelaça à vida, às lutas e às esperanças de um povo. O aprofundamento de investigações sobre tais manifestações abre caminho profícuo para compreender não apenas o que se passa no território, mas de que maneira as comunidades constroem seus sentidos e afirmam sua presença, oferecendo subsídios fundamentais à sociologia da religião e aos estudos sobre cultura e identidade em contextos periféricos.
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1 Meste em Sociologia pelo PROFSOCIO (Mestrado Profissional em Sociologia). Graduado em Licenciatura em História pela Universidade Federal do Pauí, Campus Senador Helvídio Nunes de Barros - Picos-PI. Graduado em Licenciatura em Sociologia pela Uninter. Professor com vínculo temporário no Instituto Federal do Piauí, campus de Paulistana-PI.