DESAFIOS GLOBAIS DO ENSINO SUPERIOR NO SÉCULO XXI – DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO E AS PRESSÕES DA GLOBALIZAÇÃO

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18204287


Joelson Lopes da Paixão1


RESUMO
O ensino superior, no século XXI, enfrenta desafios globais complexos decorrentes de transformações sociais, econômicas, tecnológicas e políticas que tensionam suas funções históricas de formação, pesquisa e compromisso social. A expansão do acesso, a internacionalização, a mercantilização da educação, a intensificação das tecnologias digitais e as demandas por inovação e empregabilidade têm reconfigurado o papel das instituições de ensino superior em escala mundial. O problema que orienta este estudo consiste em compreender quais são os principais desafios globais enfrentados pelo ensino superior no contexto contemporâneo e de que modo tais desafios impactam sua função formativa e social. O objetivo geral é analisar criticamente os desafios globais do ensino superior no século XXI, considerando suas implicações pedagógicas, institucionais e políticas. Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, com base na análise de produções científicas e documentos internacionais publicados entre 2015 e 2025. Os resultados indicam que os desafios centrais se concentram na tensão entre democratização e qualidade, na pressão por produtividade e competitividade global, na precarização do trabalho docente, na redefinição da relação entre universidade, mercado e Estado e na necessidade de inclusão e sustentabilidade. Conclui-se que enfrentar tais desafios exige políticas públicas articuladas, fortalecimento da autonomia universitária e reafirmação do ensino superior como bem público, comprometido com a produção de conhecimento crítico e com o desenvolvimento social em escala global.
Palavras-chave: Ensino superior. Desafios globais. Educação contemporânea. Universidade. Globalização.

ABSTRACT
Higher education in the 21st century faces complex global challenges stemming from social, economic, technological, and political transformations that strain its historical functions of education, research, and social commitment. The expansion of access, internationalization, the commodification of education, the intensification of digital technologies, and demands for innovation and employability have reconfigured the role of higher education institutions on a global scale. The problem guiding this study is to understand the main global challenges faced by higher education in the contemporary context and how these challenges impact its formative and social functions. The general objective is to critically analyze the global challenges of higher education in the 21st century, considering their pedagogical, institutional, and political implications. Methodologically, a qualitative approach is adopted, of a bibliographic and documentary nature, based on the analysis of scientific publications and international documents published between 2015 and 2025. The results indicate that the central challenges are concentrated in the tension between democratization and quality, the pressure for productivity and global competitiveness, the precariousness of academic work, the redefinition of the relationship between university, market, and state, and the need for inclusion and sustainability. It is concluded that addressing such challenges requires articulated public policies, the strengthening of university autonomy, and the reaffirmation of higher education as a public good, committed to the production of critical knowledge and social development on a global scale.
Keywords: Higher Education. Global Challenges. Contemporary Education. University. Globalization.

1. INTRODUÇÃO

O ensino superior ocupa posição estratégica no cenário global contemporâneo, sendo reconhecido como um dos principais vetores de desenvolvimento científico, tecnológico, econômico e social. No século XXI, entretanto, as instituições de ensino superior encontram-se imersas em um contexto marcado por profundas transformações estruturais, que desafiam seus modelos tradicionais de organização, suas práticas pedagógicas e suas funções sociais. A globalização, a intensificação dos fluxos de informação, a emergência de novas tecnologias e as mudanças nas dinâmicas do trabalho e da produção do conhecimento redefinem continuamente as expectativas depositadas sobre a universidade.

Historicamente, o ensino superior foi concebido como espaço de formação intelectual, produção científica e reflexão crítica, sustentado por princípios como autonomia acadêmica, liberdade de pensamento e compromisso com o interesse público. Contudo, nas últimas décadas, observa-se um deslocamento progressivo desse paradigma, impulsionado por políticas educacionais orientadas por lógicas de mercado, pela competitividade internacional e por indicadores de desempenho. Esse movimento tem provocado tensões entre a função social da universidade e as exigências de eficiência, produtividade e empregabilidade, configurando um dos principais desafios globais do ensino superior no século XXI.

A expansão do acesso à educação superior, frequentemente apresentada como avanço democrático, constitui outro eixo central desse debate. Embora o aumento do número de matrículas represente oportunidade de inclusão social, ele também impõe desafios relacionados à qualidade da formação, à infraestrutura institucional e à valorização do trabalho docente. Em muitos países, a massificação do ensino superior ocorreu sem o devido investimento público, resultando em processos de precarização, segmentação institucional e ampliação das desigualdades educacionais. Assim, democratizar o acesso sem comprometer a qualidade acadêmica tornou-se uma questão central no cenário global.

Paralelamente, a internacionalização do ensino superior emerge como tendência incontornável, associada à mobilidade acadêmica, à cooperação científica e à circulação global do conhecimento. Todavia, essa dinâmica também evidencia assimetrias entre países centrais e periféricos, reproduzindo desigualdades históricas na produção científica e no acesso a recursos tecnológicos e financeiros. A internacionalização, quando orientada exclusivamente por rankings e métricas globais, pode reforçar dependências epistemológicas e enfraquecer projetos acadêmicos comprometidos com realidades locais e regionais.

Outro desafio significativo diz respeito à incorporação das tecnologias digitais nos processos de ensino, aprendizagem e pesquisa. A ampliação do ensino remoto, das plataformas digitais e dos ambientes virtuais de aprendizagem redefine tempos, espaços e formas de interação acadêmica. Embora essas tecnologias ampliem o acesso e a flexibilidade, também suscitam questionamentos sobre a qualidade da formação, a superficialização do conhecimento e a intensificação do trabalho docente. Além disso, a desigualdade no acesso às tecnologias evidencia a persistência de exclusões digitais que impactam diretamente a equidade no ensino superior. Nesse contexto, estudos como os de Paixão (2025) destacam que a integração de tecnologias da informação e comunicação no ensino pode promover inovação e engajamento, mas exige projetos pedagógicos consistentes para evitar a reprodução de desigualdades.

A problematização que orienta este estudo emerge, portanto, da necessidade de compreender como esses múltiplos desafios globais se articulam e impactam o ensino superior no século XXI. Pergunta-se: quais são os principais desafios globais enfrentados pelo ensino superior na contemporaneidade e quais são suas implicações para a função social, formativa e científica da universidade? A partir dessa questão, estabelece-se como objetivo geral analisar criticamente os desafios globais do ensino superior no século XXI, considerando suas dimensões pedagógicas, institucionais e políticas. Como objetivos específicos, busca-se compreender os impactos da globalização e da mercantilização da educação superior, analisar os efeitos da expansão do acesso e da internacionalização, refletir sobre o papel das tecnologias digitais e discutir perspectivas para o fortalecimento da universidade como bem público.

A relevância deste estudo reside na urgência de repensar o papel do ensino superior diante de um cenário global marcado por crises econômicas, sociais e ambientais, bem como por disputas em torno do conhecimento e da educação. Em um contexto no qual a universidade é frequentemente pressionada a atender demandas imediatistas do mercado, torna-se fundamental reafirmar sua função crítica, formativa e socialmente comprometida. Compreender os desafios globais do ensino superior não implica apenas diagnosticá-los, mas problematizá-los à luz de projetos educacionais que defendam a educação como direito social e condição para o desenvolvimento humano sustentável.

Dessa forma, este estudo propõe-se a contribuir para o debate acadêmico ao oferecer uma análise crítica e fundamentada dos desafios globais do ensino superior no século XXI, reconhecendo suas contradições e potencialidades. Ao adotar uma perspectiva analítica e reflexiva, busca-se fortalecer a compreensão da universidade como espaço de produção de conhecimento crítico, formação cidadã e intervenção social, reafirmando sua relevância em um mundo marcado por profundas e aceleradas transformações.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

A compreensão dos desafios globais do ensino superior no século XXI exige situar a universidade em um contexto histórico marcado por profundas transformações nas formas de produção do conhecimento, nas relações entre Estado, mercado e sociedade e nas expectativas sociais atribuídas à educação superior. Tradicionalmente concebida como espaço de formação intelectual, pesquisa científica e reflexão crítica, a universidade passa, nas últimas décadas, por um processo de reconfiguração estrutural que tensiona seus princípios fundantes. Para Santos, a universidade contemporânea vive uma crise multifacetada, na qual se entrelaçam crises de hegemonia, legitimidade e institucionalidade, resultantes da submissão crescente a lógicas econômicas e gerenciais (SANTOS, 2011). Essa leitura permite compreender que os desafios atuais não são pontuais, mas estruturais, exigindo análises que ultrapassem soluções técnicas ou conjunturais.

A globalização constitui um dos eixos centrais desse processo, impactando diretamente o ensino superior em escala mundial. A intensificação dos fluxos de capital, informação e conhecimento redefine as funções da universidade, inserindo-a em um cenário de competição internacional por recursos, prestígio acadêmico e posições em rankings globais. De acordo com Altbach, Reisberg e Rumbley, a globalização tem produzido um sistema de educação superior profundamente desigual, no qual instituições de países centrais concentram recursos, visibilidade e produção científica, enquanto universidades de países periféricos enfrentam limitações estruturais e dependência epistemológica (ALTBACH; REISBERG; RUMBLEY, 2019). Tal dinâmica evidencia que a internacionalização, embora frequentemente apresentada como oportunidade, também constitui desafio que pode aprofundar assimetrias históricas.

Nesse contexto, a mercantilização do ensino superior emerge como fenômeno global, associado à expansão do setor privado, à financeirização da educação e à transformação do conhecimento em mercadoria. Chauí analisa esse processo ao afirmar que a universidade tem sido progressivamente convertida em organização operacional, orientada por critérios de eficiência, produtividade e competitividade, em detrimento de sua função pública e formativa (CHAUÍ, 2003). Essa lógica impacta diretamente o currículo, a pesquisa e as relações de trabalho docente, promovendo a fragmentação do conhecimento e a subordinação da formação acadêmica a demandas imediatas do mercado.

A expansão do acesso ao ensino superior, por sua vez, configura-se como desafio ambivalente. Por um lado, representa avanço no processo de democratização educacional; por outro, impõe tensões relacionadas à qualidade da formação, à infraestrutura institucional e à valorização da docência. Trow, ao analisar os sistemas de ensino superior, destaca que a passagem de um modelo elitista para um modelo de massas exige transformações profundas nas estruturas acadêmicas, sob pena de produzir sistemas segmentados e desiguais (TROW, 2006). No século XXI, muitos países enfrentam justamente esse dilema, ao ampliar o acesso sem assegurar condições equivalentes de qualidade e permanência estudantil.

Outro desafio global relevante refere-se à precarização do trabalho docente no ensino superior. A intensificação das exigências de produtividade científica, associada à flexibilização das relações de trabalho, tem impactado a saúde, a autonomia e a identidade profissional dos docentes. Segundo Nóvoa, a crise da profissão docente no ensino superior está relacionada à perda de tempo para reflexão, investigação e formação, substituídos por uma lógica de desempenho e controle (NÓVOA, 2017). Essa precarização compromete não apenas o trabalho docente, mas a própria qualidade da formação universitária e da pesquisa científica.

As tecnologias digitais e a expansão do ensino remoto e híbrido constituem outro eixo fundamental dos desafios contemporâneos. A incorporação dessas tecnologias redefine práticas pedagógicas, tempos e espaços formativos, ampliando possibilidades de acesso e flexibilização. Contudo, autores como Kenski alertam que a tecnologia, quando adotada sem projeto pedagógico consistente, pode intensificar a superficialização do conhecimento e ampliar desigualdades educacionais (KENSKI, 2019). Além disso, a exclusão digital permanece como obstáculo significativo, sobretudo em países marcados por profundas desigualdades socioeconômicas, o que reforça a necessidade de políticas públicas inclusivas. Nessa direção, pesquisas recentes têm demonstrado que o uso de metodologias ativas e tecnologias educacionais, quando bem articuladas, podem potencializar a aprendizagem e reduzir barreiras de acesso (PAIXÃO, 2025a; SILVA et al., 2025).

A sustentabilidade e o compromisso social da universidade também se configuram como desafios globais no século XXI. Diante de crises ambientais, sanitárias e sociais, espera-se que o ensino superior contribua para a produção de conhecimento orientado ao desenvolvimento sustentável e à justiça social. A Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas destaca o papel estratégico da educação superior na promoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente no que se refere à redução das desigualdades e à construção de sociedades mais justas (ONU, 2015). Essa perspectiva amplia o entendimento da função social da universidade, exigindo articulação entre ensino, pesquisa e extensão em escala local e global.

No plano normativo, organismos internacionais como a UNESCO reafirmam o ensino superior como bem público e direito humano, defendendo a autonomia universitária, a liberdade acadêmica e o compromisso com a diversidade cultural e epistemológica. O relatório "Reimagining our futures together" destaca que a educação superior deve ser repensada a partir de princípios de cooperação, solidariedade e responsabilidade social, superando modelos competitivos e excludentes (UNESCO, 2021). Essa diretriz contrapõe-se às tendências mercadológicas dominantes e reforça a necessidade de projetos acadêmicos comprometidos com o interesse público.

Do ponto de vista teórico, os desafios globais do ensino superior exigem abordagens críticas que considerem a educação como prática social historicamente situada. Autores como Bourdieu contribuem para compreender como o ensino superior reproduz desigualdades por meio de mecanismos simbólicos e institucionais, mesmo quando se apresenta como espaço meritocrático (BOURDIEU; PASSERON, 1992). Essa leitura permite problematizar discursos de democratização que não enfrentam as condições estruturais de exclusão.

Assim, o referencial teórico evidencia que os desafios globais do ensino superior no século XXI não podem ser analisados de forma isolada ou fragmentada. Eles resultam da interseção entre globalização, mercantilização, expansão do acesso, transformações tecnológicas, precarização do trabalho docente e demandas por sustentabilidade e justiça social. Enfrentar tais desafios exige políticas públicas articuladas, fortalecimento da autonomia universitária e reafirmação da educação superior como bem público, orientado não apenas pela lógica da competitividade global, mas pelo compromisso ético com a formação humana, a produção de conhecimento crítico e o desenvolvimento social em escala mundial.

3. METODOLOGIA

A presente investigação foi delineada a partir de um percurso metodológico rigoroso, coerente com a complexidade do objeto de estudo e com a natureza teórica do problema investigado, que consiste na análise dos desafios globais do ensino superior no século XXI. Parte-se do pressuposto de que fenômenos educacionais de ordem estrutural, histórica e política exigem abordagens metodológicas que privilegiem a compreensão aprofundada dos sentidos, discursos e contradições presentes na produção acadêmica e nos documentos institucionais que orientam o campo.

Quanto à natureza, trata-se de uma pesquisa de caráter qualitativo, uma vez que busca interpretar fenômenos sociais complexos, analisando concepções, tendências e problematizações presentes na literatura especializada, sem recorrer a procedimentos estatísticos ou mensurações numéricas. Segundo Gil, a pesquisa qualitativa é indicada quando o objetivo central reside na compreensão dos significados atribuídos a determinados fenômenos, considerando seus contextos históricos e sociais (GIL, 2019, p. 34). Essa abordagem mostrou-se adequada para apreender a multiplicidade de desafios que atravessam o ensino superior em escala global.

No que se refere ao tipo de pesquisa, o estudo caracteriza-se como bibliográfico e documental. A pesquisa bibliográfica fundamentou-se na análise de livros, artigos científicos e capítulos de obras publicados em periódicos e editoras de reconhecida relevância acadêmica, nacionais e internacionais, com recorte temporal prioritário entre 2015 e 2025, sem desconsiderar autores clássicos indispensáveis à compreensão histórica da universidade. Paralelamente, a pesquisa documental envolveu o exame de documentos oficiais e relatórios de organismos internacionais, como UNESCO e Organização das Nações Unidas, bem como legislações e diretrizes educacionais, entendidos como fontes primárias que expressam orientações políticas e concepções institucionais sobre o ensino superior. Lakatos e Marconi afirmam que a pesquisa documental se distingue por analisar materiais que ainda não receberam tratamento analítico sistemático ou que podem ser reinterpretados à luz de novos problemas de pesquisa (LAKATOS; MARCONI, 2021, p. 174).

Quanto aos objetivos, a pesquisa assume caráter exploratório e descritivo. É exploratória porque busca ampliar a compreensão sobre um fenômeno amplo e multifacetado, permitindo maior familiaridade com os desafios globais que incidem sobre o ensino superior contemporâneo, conforme definição apresentada por Gil (2019, p. 41). Simultaneamente, apresenta natureza descritiva ao expor e sistematizar características, tendências e problemáticas recorrentes identificadas na literatura analisada, sem a pretensão de estabelecer relações causais diretas, em consonância com Vergara, que define a pesquisa descritiva como aquela que descreve fenômenos e suas características essenciais (VERGARA, 2021, p. 45).

A constituição do corpus analítico seguiu critérios de relevância temática, atualidade, reconhecimento acadêmico dos autores e pertinência ao objeto de estudo. A seleção das fontes foi orientada pelo princípio da intencionalidade teórica, priorizando produções que discutem globalização, mercantilização da educação, internacionalização, democratização do acesso, tecnologias digitais, trabalho docente e sustentabilidade no ensino superior. Lakatos e Marconi ressaltam que, em pesquisas qualitativas, a seleção das fontes deve privilegiar a profundidade analítica e a capacidade explicativa dos materiais, e não sua representatividade estatística (LAKATOS; MARCONI, 2021, p. 183).

Como procedimento de coleta de dados, adotou-se a leitura analítica e interpretativa das fontes selecionadas, desenvolvida em etapas sucessivas de leitura exploratória, leitura seletiva e leitura crítica. Gil destaca que esse processo permite ao pesquisador identificar categorias relevantes, argumentos centrais e pressupostos teóricos subjacentes aos textos analisados, favorecendo uma compreensão mais aprofundada do fenômeno investigado (GIL, 2019, p. 67). Os dados foram registrados por meio de fichamentos analíticos, nos quais se sistematizaram conceitos-chave, problematizações, convergências e divergências teóricas.

A técnica de análise adotada foi a análise de conteúdo, escolhida por sua adequação à interpretação de textos acadêmicos e documentos institucionais. Segundo Vergara, a análise de conteúdo consiste em um conjunto de técnicas sistemáticas que possibilitam inferir significados, identificar categorias temáticas e interpretar discursos de forma rigorosa e coerente (VERGARA, 2021, p. 73). As categorias analíticas emergiram do próprio material analisado, sendo posteriormente articuladas ao referencial teórico, o que assegurou coerência epistemológica entre método, objeto e interpretação dos dados.

No que concerne ao rigor metodológico, buscou-se garantir clareza, transparência e coerência em todas as etapas da pesquisa, explicitando as escolhas metodológicas e suas justificativas teóricas. Gil enfatiza que a consistência metodológica é condição essencial para a credibilidade científica de uma investigação (GIL, 2019, p. 29). Ademais, a explicitação do percurso metodológico visa possibilitar a replicabilidade teórica do estudo e fortalecer sua validade científica.

Por fim, destaca-se que a metodologia adotada reflete uma postura epistemológica crítica, que compreende o conhecimento como construção histórica e socialmente situada. Conforme argumenta Vergara, toda pesquisa é atravessada pelas escolhas do pesquisador, sendo fundamental reconhecer tais condicionantes para assegurar honestidade intelectual e compromisso científico (VERGARA, 2021, p. 19). Assim, o percurso metodológico delineado sustenta-se como adequado, consistente e alinhado ao propósito de analisar, de forma crítica e fundamentada, os desafios globais do ensino superior no século XXI.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise sistemática da literatura científica e dos documentos institucionais examinados permitiu identificar um conjunto articulado de desafios globais que atravessam o ensino superior no século XXI, evidenciando que tais desafios não se apresentam de forma isolada, mas como expressões interdependentes de transformações estruturais mais amplas. Os resultados apontam que a universidade contemporânea se encontra tensionada entre a ampliação de suas funções sociais e a intensificação de pressões externas de ordem econômica, política e tecnológica, o que impacta diretamente seus modos de organização, suas práticas pedagógicas e a produção do conhecimento científico.

Um dos achados centrais refere-se à tensão permanente entre democratização do acesso e garantia da qualidade acadêmica. A literatura analisada converge ao reconhecer que a expansão do ensino superior constitui avanço significativo do ponto de vista do direito à educação, especialmente em países historicamente marcados por desigualdades sociais. Contudo, os estudos também evidenciam que a ampliação do acesso, quando não acompanhada de investimentos estruturais, tende a produzir sistemas segmentados, nos quais diferentes tipos de instituições oferecem formações desiguais em termos de condições pedagógicas, infraestrutura e oportunidades acadêmicas. Esse resultado dialoga criticamente com Trow, ao indicar que a transição para sistemas de massas exige reformas profundas e sustentadas, sob pena de comprometer a qualidade formativa e reforçar desigualdades internas ao próprio sistema de ensino superior.

Outro resultado expressivo diz respeito ao avanço da mercantilização da educação superior em escala global. A literatura revela que, em diversos contextos nacionais, políticas orientadas por lógicas neoliberais têm promovido a expansão do setor privado, a financeirização das instituições e a transformação do conhecimento em produto comercializável. Esse movimento impacta diretamente a concepção de ensino superior, deslocando o foco da formação integral e da produção de conhecimento crítico para a empregabilidade imediata e a competitividade de mercado. As análises convergem com Chauí ao evidenciar que tal lógica reduz a universidade a uma organização operacional, orientada por metas de desempenho e eficiência, o que fragiliza sua função pública e sua autonomia acadêmica.

No campo da pesquisa científica, os resultados indicam que a intensificação da competição global por visibilidade acadêmica e financiamento tem reforçado a centralidade de rankings internacionais, métricas de impacto e indicadores quantitativos de produtividade. Embora esses instrumentos ampliem a circulação do conhecimento e a cooperação internacional, a literatura analisada aponta efeitos perversos, como a padronização das agendas de pesquisa, a priorização de temas alinhados a interesses globais hegemônicos e a marginalização de investigações voltadas a problemas locais e regionais. Esse achado converge com Altbach, Reisberg e Rumbley, ao demonstrar que a globalização do ensino superior tende a reproduzir assimetrias históricas entre países centrais e periféricos, aprofundando desigualdades na produção e difusão do conhecimento científico.

A internacionalização do ensino superior emerge, assim, como fenômeno ambivalente. Os resultados indicam que programas de mobilidade acadêmica, cooperação científica e redes internacionais ampliam oportunidades formativas e fortalecem a produção do conhecimento. Entretanto, a literatura crítica ressalta que, quando orientada exclusivamente por critérios competitivos e mercadológicos, a internacionalização pode reforçar dependências epistemológicas, desconsiderar contextos locais e subordinar projetos acadêmicos nacionais a padrões globais hegemônicos. Essa tensão evidencia que a internacionalização, para cumprir função formativa e social, deve ser concebida como cooperação solidária e intercâmbio horizontal de saberes, e não apenas como estratégia de posicionamento institucional.

Outro resultado relevante refere-se à intensificação do uso de tecnologias digitais no ensino superior, especialmente a partir da ampliação do ensino remoto e híbrido. A análise revelou que as tecnologias digitais têm potencial para ampliar o acesso, flexibilizar percursos formativos e diversificar linguagens pedagógicas. Contudo, os estudos também evidenciam riscos associados à superficialização do conhecimento, à redução da interação acadêmica e à intensificação do trabalho docente. Além disso, a persistência da exclusão digital em diferentes regiões do mundo reforça desigualdades de acesso e permanência, o que compromete a equidade no ensino superior. Esses achados dialogam com Kenski, ao indicar que a tecnologia, quando dissociada de projetos pedagógicos consistentes, tende a reproduzir problemas estruturais, em vez de superá-los. Estudos recentes reforçam que a adoção de metodologias ativas e tecnologias educacionais, como as analisadas por Paixão (2025a) e Silva et al. (2025), pode mitigar esses riscos ao promover engajamento e aprendizagem significativa, desde que integradas a projetos pedagógicos bem fundamentados.

A precarização do trabalho docente constitui outro eixo crítico identificado nos resultados. A literatura aponta que a intensificação das exigências de produtividade científica, associada à flexibilização das relações de trabalho e à ampliação das tarefas administrativas, tem impactado negativamente a identidade profissional, a saúde e a autonomia dos docentes universitários. Esse cenário compromete a qualidade da formação e da pesquisa, uma vez que reduz o tempo destinado à reflexão, à investigação e ao acompanhamento pedagógico dos estudantes. As análises convergem com Nóvoa ao indicar que a crise do ensino superior está intrinsecamente relacionada à crise da docência universitária, exigindo políticas de valorização profissional e condições dignas de trabalho.

No plano social e ético, os resultados evidenciam que o ensino superior enfrenta desafios crescentes relacionados à inclusão, à diversidade e à sustentabilidade. A literatura analisada destaca que as universidades são chamadas a responder a crises globais, como desigualdades sociais, mudanças climáticas e instabilidades políticas, produzindo conhecimento socialmente relevante e formando cidadãos críticos. Documentos internacionais, como a Agenda 2030, reforçam o papel estratégico do ensino superior na promoção do desenvolvimento sustentável e da justiça social. Contudo, os estudos indicam que essa função social ainda é tensionada por agendas institucionais orientadas por interesses econômicos e pela lógica da competitividade global. Pesquisas como as de Coelho et al. (2025) e Bormann et al. (2025) destacam a importância de estratégias inclusivas e do letramento digital na formação docente, elementos cruciais para a construção de uma universidade mais equitativa e socialmente responsável.

De modo geral, os resultados revelam convergência na compreensão de que os desafios globais do ensino superior no século XXI não podem ser enfrentados por meio de soluções isoladas ou tecnicistas. Ao contrário, a literatura aponta para a necessidade de políticas públicas articuladas, fortalecimento da autonomia universitária, investimento público consistente e reafirmação da educação superior como bem público e direito social. As divergências identificadas concentram-se menos no diagnóstico dos desafios e mais nas estratégias de enfrentamento, variando conforme contextos nacionais, tradições acadêmicas e projetos políticos de educação.

Assim, a discussão dos resultados evidencia que o ensino superior contemporâneo se encontra em um ponto de inflexão histórica. As escolhas realizadas no presente determinarão se a universidade aprofundará sua subordinação a lógicas mercadológicas ou se reafirmará seu compromisso com a formação humana, a produção de conhecimento crítico e a transformação social. Nesse sentido, os desafios globais identificados não devem ser compreendidos apenas como obstáculos, mas como oportunidades para repensar o papel da universidade em um mundo marcado por complexidade, desigualdade e interdependência.

5. CONCLUSÃO

A análise desenvolvida ao longo deste estudo permite afirmar que os desafios globais do ensino superior no século XXI configuram-se como fenômenos estruturais, multidimensionais e interdependentes, que extrapolam conjunturas nacionais e exigem respostas articuladas em escala local, regional e internacional. A investigação evidenciou que o ensino superior contemporâneo se encontra tensionado entre projetos antagônicos de universidade: de um lado, a concepção da educação superior como bem público, direito social e espaço de formação crítica; de outro, a consolidação de modelos orientados pela mercantilização, pela competitividade global e pela lógica gerencialista.

Os objetivos propostos foram plenamente alcançados, na medida em que se identificaram e analisaram criticamente os principais desafios globais que incidem sobre o ensino superior, entre os quais se destacam a expansão do acesso sem garantia de qualidade, a mercantilização da educação, a intensificação das desigualdades entre instituições e países, a precarização do trabalho docente, a padronização da produção científica e as ambiguidades associadas à internacionalização e às tecnologias digitais. A discussão dos resultados demonstrou que tais desafios não operam de forma isolada, mas produzem efeitos cumulativos que impactam a função formativa, científica e social da universidade.

Os achados confirmam a hipótese de que a ampliação quantitativa do ensino superior, quando dissociada de investimentos públicos, políticas de permanência e valorização docente, tende a aprofundar desigualdades educacionais e institucionais. Da mesma forma, a centralidade atribuída a rankings, métricas de produtividade e indicadores de desempenho científico revelou-se incompatível com projetos acadêmicos comprometidos com a diversidade epistemológica, a relevância social do conhecimento e a formação humana integral. Nesse sentido, o estudo reforça as críticas dirigidas à subordinação do ensino superior a lógicas mercadológicas, que reduzem a complexidade da vida universitária a parâmetros de eficiência e competitividade.

Do ponto de vista teórico, a pesquisa contribui para a consolidação de uma leitura crítica sobre o ensino superior no século XXI, ao articular autores clássicos e contemporâneos, bem como documentos internacionais, na compreensão dos desafios globais que atravessam a universidade. Ao evidenciar convergências e divergências na literatura analisada, o estudo reafirma a necessidade de abordagens que reconheçam a historicidade, a diversidade e a dimensão política da educação superior, superando análises fragmentadas ou tecnicistas.

No plano prático e institucional, os resultados apontam para a urgência de políticas públicas que reafirmem o ensino superior como bem público, garantindo financiamento adequado, autonomia universitária e condições dignas de trabalho docente. A internacionalização, a incorporação de tecnologias digitais e a ampliação do acesso devem ser orientadas por princípios de equidade, cooperação solidária e compromisso social, evitando a reprodução de desigualdades e dependências epistemológicas. Além disso, torna-se imprescindível fortalecer a função social da universidade frente a desafios globais como as crises ambientais, sociais e sanitárias, reafirmando seu papel na produção de conhecimento crítico e na formação de cidadãos comprometidos com a transformação social. Pesquisas recentes, como as citadas neste estudo, indicam caminhos possíveis para a integração de tecnologias e metodologias inovadoras na educação superior, desde que vinculadas a projetos pedagógicos claros e comprometidos com a inclusão e a qualidade (PAIXÃO, 2025b; THEOBALD et al., 2025).

Reconhecem-se, entretanto, as limitações inerentes à natureza bibliográfica e documental da pesquisa, que não permite observar empiricamente como esses desafios se materializam em contextos institucionais específicos. Essa limitação, contudo, não compromete a validade dos achados, mas indica a necessidade de investigações futuras que aprofundem a análise por meio de estudos de campo, comparações internacionais e abordagens interdisciplinares.

Como perspectivas para pesquisas futuras, sugere-se o desenvolvimento de estudos empíricos que analisem estratégias institucionais de enfrentamento dos desafios globais, bem como investigações que problematizem os impactos das políticas de avaliação, financiamento e internacionalização sobre a autonomia universitária e a produção do conhecimento. Conclui-se, portanto, que enfrentar os desafios globais do ensino superior no século XXI exige não apenas ajustes técnicos ou reformas pontuais, mas a construção de projetos educacionais comprometidos com a democracia, a justiça social e a sustentabilidade, reafirmando a universidade como espaço de pensamento crítico, produção científica e responsabilidade pública em escala global.

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1 Mestre em Engenharia Elétrica. Especialista em áreas da Educação e relacionadas à Engenharia Elétrica. Bacharel em Engenharia Elétrica, licenciado em Matemática, Física, Pedagogia e em Formação de professores para a EPT. Foi aluno de IC, atuou como professor na EBTT e participou de vários projetos de P&D. Atualmente, é pesquisador e doutorando em Engenharia Elétrica. E-mail: [email protected]