DA UNIVERSIDADE À COMUNIDADE: UM ESTUDO SOBRE O PROJETO DE EXTENSÃO ESPORTE EDUCANDO PARA A VIDA - FUTEBOL NÃO TEM GÊNERO, TEM CRAQUES!

FROM THE UNIVERSITY TO THE COMMUNITY: A STUDY ON THE EXTENSION PROJECT SPORT EDUCATING FOR LIFE - FOOTBALL HAS NO GENDER, IT HAS STARS!

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776069649

RESUMO
O presente estudo analisa o projeto de extensão Esporte educando para a vida - Futebol não tem gênero, tem craques, desenvolvido pela Universidade Federal do Tocantins no município de Arraias-TO. O trabalho parte da compreensão do futebol de salão como prática social, educativa e integradora, capaz de articular esporte, lazer, sociabilidade e fortalecimento de vínculos. O objetivo foi investigar a percepção da contribuição social do projeto para as alunas/atletas participantes, bem como para seus responsáveis, além de compreender como se desenvolveram suas ações formativas. A pesquisa adota abordagens qualitativa e quantitativa, de caráter descritivo, com uso de observação participante, caderno de campo e sistematização dos dados produzidos nos treinamentos e nas entrevistas semiestruturadas com pais ou responsáveis pelas alunas/atletas. O projeto, finalizado em 2022 após o contexto da pandemia, atendeu meninas de 9 a 17 anos e realizou treinamentos três vezes por semana, articulando fundamentos do futsal com orientações sobre convivência, respeito, autoestima e participação social. Os resultados indicam que o projeto contribuiu para a melhoria da autoestima, da confiança, da sociabilidade, do convívio familiar e da ocupação do tempo livre, além de ampliar o interesse das participantes por atividades escolares e coletivas. Os depoimentos dos responsáveis destacam ainda a importância do projeto como espaço de proteção, lazer e desenvolvimento pessoal em um contexto municipal marcado por poucas oportunidades voltadas a crianças, adolescentes e jovens do sexo feminino. Conclui-se que a ação extensionista fortaleceu o papel social da universidade ao aproximar comunidade e formação acadêmica por meio do esporte educacional.
Palavras-chave: Direitos sociais da criança. Prática esportiva. Vulnerabilidade social.

ABSTRACT
This study analyzes the outreach project “Sports Educating for Life—Soccer Has No Gender, Only Stars,” developed by the Federal University of Tocantins in the municipality of Arraias, Tocantins. The study is based on the understanding of indoor soccer as a social, educational, and inclusive practice capable of bringing together sports, leisure, social interaction, and the strengthening of bonds. The objective was to investigate the perception of the project’s social contribution among participating student-athletes, as well as their guardians, and to understand how its educational activities unfolded. The research adopts qualitative and quantitative approaches of a descriptive nature, using participant observation, field notes, and the systematization of data produced during training sessions and in semi-structured interviews with parents or guardians of the student-athletes. The project, which concluded in 2022 following the pandemic, served girls aged 9 to 17 and held training sessions three times a week, combining the fundamentals of futsal with guidance on social interaction, respect, self-esteem, and social participation. The results indicate that the project contributed to improving self-esteem, confidence, sociability, family life, and leisure activities, in addition to increasing the participants’ interest in school and group activities. Testimonials from parents and guardians also highlight the project’s importance as a space for protection, recreation, and personal development in a municipal context characterized by few opportunities for girls and young women. It is concluded that the outreach initiative strengthened the university’s social role by bringing the community and academic education closer together through educational sports.
Keywords: Children's social rights. Sports practice. Social vulnerability.

1. INTRODUÇÃO

O futebol ao longo do tempo assumiu um papel importante de derrubar barreiras sociais e integrar pessoas. Considerado como prática social, encontra-se de tal modo enraizado na cultura brasileira que estudá-lo implica considerar diferentes possibilidades de abordagem. Desse modo, desperta tanto nos mais apaixonados quanto nos menos aficionados um sentimento de coletividade no qual fatores raciais, religiosos e sociais parecem dissolver-se em meio ao pertencimento a um time ou à torcida pela seleção.

O futebol representa também uma dimensão da identidade nacional e passa a dar significado a desejos de potência, visibilidade e reconhecimento. Por isso, pode ser lido como construção histórica vinculada aos desdobramentos da vida política, econômica e cultural do Brasil.

São várias as suposições quanto às origens desse fenômeno mundial, mas para muitos historiadores o futebol teria começado na Inglaterra. China, Japão, Grécia, Roma, a Idade Média e finalmente a Inglaterra constituem alguns dos percursos realizados por esse esporte durante a sua história.

Muitos são os que afirmam que as origens do futebol se perdem no tempo. Supostamente, tais origens estariam situadas entre os Maias, que praticavam um jogo com a cabeça dos adversários derrotados; ou entre Egípcios, que se divertiam com uma brincadeira na qual tinham que chutar a bola; e talvez na China, onde existiram indícios de um jogo muito parecido com o futebol moderno [...]. (MELO, 2000, p. 13).

Como se vê, não há certezas, mas polêmicas acerca de qual nação descobriu o futebol. Darido & Júnior (2007) ressaltam que existem muitas histórias e 'estórias' sobre essa origem e lembram que, em momentos iniciais, o futebol de massa se caracterizava por violência intensa e número indefinido de atletas.

O processo de profissionalização do futebol constitui marco relevante para o entendimento do esporte como espetáculo. Sua intensidade, vitalidade e criatividade abriram caminho para leituras sociais, políticas, econômicas e estéticas. Para DaMatta (2006), o futebol expressa reversões significativas no plano das definições e classificações coletivas.

No caso do futebol de salão, uma das grandes paixões nacionais, historicamente predominou a ideia de que se tratava de um esporte masculino. A mulher que jogava era frequentemente estigmatizada por romper padrões de comportamento sedimentados numa cultura esportiva marcada pelo masculino. Em contrapartida, a Constituição Federal de 1988, em seu art. 217, dispõe que o esporte é direito social, devendo ser garantido pelo poder público.

No município de Arraias-TO, a inexistência de projetos sociais voltados ao futsal para crianças, adolescentes e jovens do sexo feminino, especialmente aquelas em condição de vulnerabilidade social, evidenciou uma lacuna importante. Foi nesse cenário que o projeto Esporte educando para a vida - Futebol não tem gênero, tem craques passou a constituir uma experiência relevante de aproximação entre universidade, comunidade e prática esportiva, sendo finalizado em 2022, após o contexto da pandemia.

O projeto alinha-se ao Manual de Extensão da Universidade Federal do Tocantins (UFT, 2007), que compreende a extensão como via de mão dupla entre universidade e comunidade. Nessa perspectiva, a comunidade acadêmica encontra na realidade social a oportunidade de confrontar e ampliar o conhecimento sistematizado, enquanto a população participa do processo de democratização do saber.

A universidade, de maneira geral, sustenta-se no ensino, na pesquisa e na extensão. O Projeto Político-Pedagógico do Curso de Educação Física da ULBRA afirma que a universidade é uma instituição educativa cuja finalidade é o permanente exercício da crítica, sustentado na produção do conhecimento por meio da problematização dos saberes historicamente produzidos e das novas demandas sociais.

Este trabalho foi construído a partir da experiência da bolsista monitora no projeto de extensão e voltou-se à importância das práticas esportivas em ações educativas e de garantia dos direitos sociais de crianças, jovens e adolescentes da comunidade arraiana. Diante desse cenário, o estudo problematizou a contribuição do projeto para a formação social das alunas/atletas e para a relação entre universidade e comunidade.

O objetivo geral foi investigar a percepção da contribuição social do projeto de extensão para as alunas/atletas participantes e para seus responsáveis. Como objetivos específicos, buscou-se identificar a importância social do projeto para as alunas/atletas e verificar sua contribuição na vida dessas participantes a partir da percepção dos pais ou responsáveis e dos coordenadores.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. O Projeto de Extensão e Seu Público

O projeto de extensão Esporte educando para a vida - Futebol não tem gênero, tem craques é um projeto social de esporte, lazer e educação criado em setembro de 2012, vinculado à Universidade Federal do Tocantins, Câmpus de Arraias. Funcionou a partir de parcerias e com a participação de voluntários que colaboraram na realização das atividades e na administração do projeto.

O projeto era gratuito e atendia a crianças e adolescentes de 9 a 17 anos. As atividades aconteciam às segundas-feiras, quartas-feiras e sábados no ginásio de esportes do município. O público atendido variava em termos de idade e o trabalho se organizava em torno de dois eixos principais: esporte e lazer, de um lado, e educação, de outro. Entre os objetivos comuns destacavam-se a diminuição da vulnerabilidade das crianças e a aproximação da universidade com a comunidade.

O projeto oferecia formação integral por meio do esporte e de valores que podiam ser desenvolvidos com sua prática. Nesse espaço, o esporte era compreendido como articulador de ações educativas voltadas à construção participativa, ao desempenho escolar e ao fortalecimento de atitudes acadêmicas e sociais.

2.2. Projetos Sociais, Esporte e Vulnerabilidade

A implementação de projetos sociais em uma comunidade apresenta-se como possibilidade de quebrar barreiras, tendo como facilitadores o acesso a práticas desportivas, as oportunidades de socialização e a percepção do projeto como um local mais seguro do que as ruas. No Brasil, desde a década de 1980, cresceu o número de projetos alternativos e paralelos à educação formal, grande parte deles voltada a crianças e adolescentes em situação de risco ou vulnerabilidade social.

Segundo Souza, Castro e Mezzadri (2010), esses projetos são significativos por oferecerem um espaço relativamente seguro quando comparado às ruas. Além disso, proporcionam acesso às atividades físicas e esportivas, diminuem o tempo ocioso e criam oportunidades de entretenimento e lazer.

O estado de vulnerabilidade social pode estar atrelado às condições laborais e essa condição vincula uma expressiva parte dos brasileiros.

O termo vulnerabilidade não deve ser compreendido como simples sinônimo de carência. Enquanto o rótulo de carência tende a aderir à pessoa, reduzindo-a a alguém desprovido de algo, a noção de vulnerabilidade permite compreender um conjunto mais amplo de elementos que caracterizam as condições de vida e as possibilidades de uma pessoa ou grupo, incluindo acesso a serviços, escolas, programas de cultura, lazer, formação profissional e ações do Estado promotoras de justiça e cidadania.

Nesse sentido, os projetos sociais aparecem como espaços educativos em termos de aprendizagem, de valores e de desenvolvimento de novas habilidades. A participação em tais iniciativas é percebida como meio de educação, desenvolvimento pessoal e construção de senso de responsabilidade e de bons comportamentos.

O lazer constitui dimensão importante tanto pelo destaque conferido às atividades que desenvolve quanto pela relevância assumida no desenvolvimento pessoal e na integração social dos jovens. O esporte como forma de lazer pode exercer papel fundamental na formação da visão de mundo e na construção da identidade, reforçando a autoestima e construindo laços de solidariedade e cooperação com o outro.

Construir políticas públicas no município exige conexão com as forças do coletivo, com os movimentos sociais, com as práticas concretas do cotidiano e com a atuação dos diversos sujeitos envolvidos. Nessa direção, o projeto se efetiva porque procura articular o que fazer com o como fazer, o conceito com a prática e o conhecimento com a transformação da realidade.

3. METODOLOGIA

Esta pesquisa apresenta abordagem qualitativa e quantitativa, com caráter descritivo, tendo sido desenvolvida a partir da experiência extensionista no projeto e do acompanhamento de suas ações. Minayo (1994) compreende a pesquisa como prática da ciência numa reflexão e construção do conhecimento como forma de entender a realidade.

A abordagem qualitativa mostrou-se adequada por considerar a relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, bem como o vínculo entre objetividade e subjetividade. Chizzotti (2005) destaca que o conhecimento não se reduz a um rol de dados isolados e que o sujeito-observador é parte integrante do processo de conhecimento. Minayo (1999) acrescenta que a abordagem qualitativa busca a compreensão da lógica que permeia as práticas sociais. Em diálogo com essa perspectiva, Freire (1996) afirma que não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino.

A dimensão quantitativa foi utilizada na sistematização dos dados de acompanhamento do desempenho das alunas/atletas durante os treinamentos, materializada em gráficos referentes a gols, acertos e erros. Esses dados foram empregados como apoio analítico para observar a evolução das participantes em fundamentos do futsal ao longo dos meses acompanhados.

O estudo ocorreu no Ginásio Municipal de Esportes Cel. Joaquim Alves de Magalhães Filho, em Arraias-TO, onde se desenvolvia a maior parte das atividades do projeto. À época da pesquisa, o projeto contava com 30 alunas na faixa etária de 9 a 17 anos. Os treinamentos aconteciam três vezes por semana: às segundas-feiras e quartas-feiras, das 17h às 19h, e aos sábados, das 8h às 10h.

Durante os treinos eram desenvolvidas atividades práticas com fundamentos como alongamentos, corridas, domínio, toque de bola, chutes e treino de jogo. Cada exercício tinha a finalidade de melhorar a condição física das alunas/atletas e o rendimento nos treinos e nas partidas, preservando-se sua integridade física e respeitando-se o processo de aprendizagem de cada participante.

Como técnicas de coleta de dados, utilizaram-se observação participante, pesquisa direta, caderno de campo, acompanhamento das atividades e entrevistas semiestruturadas com pais ou responsáveis pelas alunas/atletas. Segundo Triviños (1987), a entrevista semiestruturada é composta por questionamentos básicos apoiados em teorias e hipóteses relacionadas ao tema, permitindo novas hipóteses a partir das respostas dos informantes.

As entrevistas foram realizadas com todos os pais ou responsáveis pelas alunas que faziam parte do projeto. A aplicação ocorreu nos meses de abril e maio de 2014, na cidade de Arraias-TO, em encontros realizados, em sua maioria, no período noturno e nas residências dos entrevistados, de acordo com a disponibilidade de tempo dos participantes. O roteiro era composto por 14 perguntas fechadas e 3 abertas.

O critério para a seleção dos sujeitos foi a aproximação que possuíam com o projeto, uma vez que se tratava de pais ou responsáveis que acompanhavam, de forma direta ou indireta, a trajetória das alunas/atletas e poderiam fornecer informações fundamentais sobre o desenvolvimento das participantes. O desenvolvimento das ações do projeto constituiu resposta ao papel social da universidade, possibilitando e garantindo o direito social das crianças, respaldado pela Constituição Federal de 1988 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. (ECA, 2012, p. 7).

O projeto contou com a participação voluntária de treinadores, de bolsista PIBEX – Programa Institucional de Bolsa de Extensão da UFT, de colaboradores da universidade e de membros da comunidade. O conjunto dessas ações evidencia que a pesquisa foi produzida em estreita articulação com a prática extensionista.

Importa registrar que a presente adequação concentra-se exclusivamente nos dados efetivamente apresentados no manuscrito. Assim, foram mantidos os elementos empíricos derivados das entrevistas, dos registros fotográficos e do acompanhamento dos fundamentos das alunas/atletas.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

De acordo com os objetivos propostos, o projeto desempenhou papel relevante na vida das alunas/atletas. Os depoimentos dos responsáveis e das próprias participantes indicam mudanças ligadas à autoestima, à confiança, à sociabilidade, ao convívio familiar e ao interesse por atividades coletivas.

Uma das mães entrevistadas, responsável por duas alunas/atletas, destaca mudanças perceptíveis na trajetória das filhas a partir do ingresso no projeto:

A mudança foi maior, pois ela de início não queria participar, achava que não seria capaz de aprender a jogar, acertar os passes. Hoje ela mudou, está mais alegre, mais confiante, melhorou a autoestima e está mais entusiasmada. Fica contando os dias para os treinos. Está sendo muito bom. Antes ela tinha poucos amigos e queria ficar só em casa isolada. Hoje não! Nas duas observo que está sendo muito significativo! (BERENICE, setembro/2013).

Acho muito significativo, pois melhorou a autoestima, se valorizam mais, elas acreditam nelas mesmas, acreditam que são capazes, tem autoconfiança. Melhorou a participação e o desenvolvimento delas nas atividades. Quando marcam um gol elas ficam muito felizes, ficam autoconfiantes. Melhorou o convívio e estão mais animadas! (BERENICE, setembro/2013).

Antes eu não sabia jogar, hoje vejo que estou jogando melhor, consigo tocar, driblar, mudou a minha forma de jogar. Para mim foi importante, o projeto é uma forma de expressar o que sinto. O mais significativo é ver o meu desenvolvimento como atleta - antes e agora. O projeto é um passatempo para fazer no tempo livre. (TÂNIA, setembro/2013).

Os relatos mostram que o projeto não se restringe ao aprimoramento técnico. O desenvolvimento pessoal, educacional e social das alunas/atletas aparece associado ao trabalho realizado pelos coordenadores e pela comissão colaboradora, especialmente quando se observam melhorias no convívio familiar, no entusiasmo pelas atividades e na disposição para participar de experiências coletivas.

Figura 1 - Alongamento e corrida. Fonte: Valdirene de Jesus, 2013.
Figura 2 - Atletas reunidas para atividade coletiva. Fonte: Valdirene de Jesus, 2013.

As imagens registram momentos de alongamento, corrida, treino coletivo e organização das participantes no espaço da quadra. Depois dos fundamentos, as atletas reúnem-se no centro da quadra juntamente com o treinador para a distribuição dos coletes e, em seguida, realizam o jogo coletivo, momento em que se observa a incorporação dos fundamentos trabalhados durante o treino.

As componentes do projeto também participaram de eventos no município, obtendo resultados positivos, como no campeonato municipal de futsal, no qual foram formadas duas equipes e conquistadas as duas primeiras posições.

Quanto ao conhecimento das famílias sobre o projeto, 10 dos 11 entrevistados afirmaram conhecê-lo. Mesmo quando esse conhecimento era parcial, as falas apontavam para a compreensão de que a iniciativa buscava desenvolver as participantes no esporte e fortalecer sua autoestima.

Bom, eu não conheço tudo, assim mais ou menos o que elas falam é que o projeto é para desenvolvê-las no esporte, para levantar a autoestima, mas eu não sei sobre o projeto, né. O que elas me falam é isso. (JOAQUIM, abril de 2014).

Uai, eu acho interessante né, até porque ajuda as crianças a não ficar sem uma coisa para fazer né, ter um entretenimento ainda mais que elas gostam de futebol, acaba tirando o horário delas estarem em outros lugares, é isso. (MARIA, abril de 2014).

Uai atualmente quando eu vou lá eu acho bom, legal né, porque quando minha filha vai é raro ela me chamar ai de vez em quando eu estou lá eu mesmo, chego de supetão e fico vendo. É bom porque pelo menos tem como ela ocupar a cabeça mais, na maioria das vezes projeto igual a esse incentiva mais os jovens a estarem saindo do mundo das drogas né, a estar participando desses eventos, saindo e jogando e aí abre mais a mente. (SÔNIA, abril de 2014).

O conteúdo das entrevistas sugere que o projeto funcionou como espaço de proteção, convivência e desenvolvimento. Para Kenski (2008), o ato comunicativo com fins educacionais realiza-se no diálogo, na troca, na parceria e nas múltiplas conexões entre as pessoas, unidas pelo objetivo comum de aprender a conviver. Nesse sentido, o projeto aparece como espaço promotor de convivência social e de humanização do processo educativo.

O município, segundo os participantes, oferecia poucos espaços e poucas atividades de lazer para adolescentes, revelando lacunas importantes em formas básicas de entretenimento e convivência. Nesse contexto, o projeto apareceu como resposta concreta a uma demanda social pouco atendida.

Senti que ela desenvolveu bastante, né. Não está aquela menina mais como ela era assim preguiçosa, aí a partir do momento em que vai praticando esporte, diferencia bastante, eu achei. (CARMEM, abril de 2014).

Olha, mudança significativa para mim é o seguinte: continua da mesma forma, agora para elas eu acho que significou alguma coisa, né, porque você sabe que a pessoa, a criança que está nessa fase da adolescência, tem que ter alguma coisa para fazer para não ficar mal-humorada, para não ficar pegando outras coisas que não deve pegar. Elas tendo algo para ocupar a mente naqueles horários é importante. (JOAQUIM, abril de 2014).

Eu acho assim, que antes elas não estavam interessadas, mas, depois que entrou no projeto começou a interessar mais a participar das coisas na escola também. Melhorou a convivência. (MARIA, abril de 2014).

Acho muito importante até porque aqui na cidade não tem muito o que fazer, né? Esse é um bom jeito de tirar as crianças da rua, de ficar fazendo outras coisas que não são importantes. (MARIA, abril de 2014).

Seria sim muito importante até porque aqui não tem muita opção, né, acho que tinha que ter mais opção para ocupar o tempo das crianças, não tem muita ocupação. Uma coisa bem interessante é que a criança vai né ela disfarça bastante, igual essa minha aqui ela é muito preocupada é uma preocupação que dá dor de cabeça sabe, aí parece que quando ela vai para o Projeto ela fica bem tranquila, esquece dos problemas, ela fica me lembrando o tempo todo: mãe, tal dia tem treino. Então é aquela coisa que eu não preciso nem lembrar. (HELENA, abril de 2014).

As entrevistas reforçam, portanto, que o projeto produz efeitos subjetivos e relacionais importantes, colaborando para a autoestima, a disciplina, a sociabilidade, a melhoria do convívio familiar e a criação de expectativas positivas em torno da participação esportiva.

Dessa forma, o projeto de extensão Esporte educando para a vida - Futebol não tem gênero, tem craques confirmou a importância de abordagens intergeracionais voltadas à mitigação do risco social, à ampliação do bem-estar e à criação de processos de empoderamento pessoal e social por meio do esporte e do lazer.

4.1. Acompanhamento dos Fundamentos das Alunas/atletas

Além dos depoimentos, o acompanhamento do desempenho das alunas/atletas durante os treinos permitiu sistematizar dados referentes a gols, acertos e erros nos meses de março, abril e maio de 2014. Os gráficos a seguir apresentam esses resultados para três atletas acompanhadas: Tâmara, Manuela e Márcia.

Figura 3 - Dados de gols.
Figura 4 - Dados de acertos de chutes.
Figura 5 - Dados de erros de chutes.

A Figura 3 mostra a quantidade de gols nos meses de março, abril e maio de 2014. Observa-se crescimento quantitativo especialmente no mês de abril, o que correspondeu a um período de evolução significativa nos treinos.

A Figura 4 evidencia a quantidade de acertos de chutes realizados pelas alunas/atletas nos mesmos meses. O gráfico sugere desenvolvimento semelhante entre as participantes, indicando maior esforço para redução de erros e aumento do número de acertos.

Já a Figura 5 apresenta os dados de erros de chutes. Quando se comparam as Figuras 4 e 5, percebe-se que, em março e abril, a aluna/atleta Manuela apresentou evolução considerável no quantitativo de acertos, o que o acompanhamento atribuiu a maior empenho e foco no desenvolvimento das atividades.

4.2. Implicações Sociais e Educativas do Projeto

Tomados em conjunto, os dados quantitativos e os depoimentos qualitativos reforçam a compreensão de que o projeto atuou tanto no desenvolvimento técnico-esportivo quanto na formação social, afetiva e educativa das participantes.

Nesse sentido, a experiência analisada mostra que o projeto cumpriu função educativa, social e comunitária, ao mesmo tempo em que projetou a universidade para além de seus limites institucionais. A ação extensionista passou, então, a operar como prática de formação humana e como resposta possível a demandas concretas do território.

Também se evidencia, pelos relatos, que a ausência de políticas públicas locais mais abrangentes amplia a importância do projeto. Quando os entrevistados afirmam que 'aqui na cidade não tem muito o que fazer', eles não apenas valorizam a iniciativa existente, mas tornam visível uma carência de ações permanentes voltadas à infância, à adolescência e à juventude feminina.

A leitura dos resultados permite afirmar que o projeto se constituiu como espaço de mediação entre universidade, família e comunidade. Ao envolver pais, responsáveis, treinadores, bolsista e colaboradores, a iniciativa articulou formação acadêmica, compromisso social e intervenção educativa, reafirmando a extensão universitária como prática concreta de diálogo com a realidade local.

Ao mesmo tempo, os depoimentos indicam que a participação das alunas/atletas repercute no ambiente doméstico e escolar. Os responsáveis relatam maior ânimo, melhora da convivência, interesse por atividades da escola e expectativa positiva em relação aos dias de treino. Tais elementos reforçam a compreensão de que o esporte educacional pode produzir efeitos que vão além da quadra.

As falas dos responsáveis deixam evidente que o projeto ganhou relevância também por se situar em um município com poucas opções de lazer, esporte e convivência para crianças, adolescentes e jovens do sexo feminino. Nesse cenário, o projeto ultrapassou a dimensão recreativa e assumiu função social ligada à proteção, à ocupação do tempo livre e à criação de vínculos positivos.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As vivências no projeto de extensão Esporte educando para a vida - Futebol não tem gênero, tem craques demonstraram que essa intervenção educativa pôde servir a crianças, jovens e adolescentes como ambiente promotor de saúde, bem-estar e desenvolvimento de diferentes habilidades.

O estudo mostrou que o projeto contribui para a melhoria da autoestima, da autoconfiança, da sociabilidade, do convívio familiar e do interesse das participantes por atividades escolares e coletivas. Também evidenciou que o esporte, articulado a ações educativas, pode transformar o tempo livre em experiência formativa e socialmente significativa.

A ação extensionista analisada fortaleceu a aproximação entre universidade e comunidade arraiana, ao mesmo tempo em que ampliou a formação acadêmica da bolsista por meio da articulação entre teoria e prática. O projeto evidenciou, assim, o papel social da universidade na garantia de direitos e na construção de experiências educativas comprometidas com a realidade local.

Conclui-se que o projeto atingiu seus objetivos ao promover inclusão, socialização e formação pedagógica de alunas/atletas de diferentes idades, em um ciclo finalizado em 2022 após o contexto da pandemia, confirmando a relevância do esporte educacional como estratégia de desenvolvimento humano e fortalecimento comunitário.

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1 Pedagoga e Licenciada em Educação Física. Especialista em Docência para a Educação Profissional e Tecnológica (IFES)e Docência para Ensino Superior (Anhanguera/Uniderp). E-mail: [email protected].

2 Doutor em Ciências - Ciências da Engenharia Ambiental pela EESC/USP. Docente do Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Tocantins, Câmpus de Arraias. E-mail: [email protected].

3 Doutora em Educação. Docente do Curso de Turismo Patrimonial e Socioambiental. E-mail: [email protected].