REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787847959
RESUMO
Este artigo analisa a trajetória educativa da catadora de materiais recicláveis Maria Lilian Teixeira, evidenciando os processos de exclusão, resistência e formação política que marcaram seu percurso desde a infância em contexto de vulnerabilidade social até o acesso ao ensino superior. Fundamentada na história cultural, com amparo metodológico da história oral, desenvolve-se uma pesquisa do tipo biográfica, que entrecruza entrevistas com análise documental – certificados, histórico escolar, dentre outros. Os resultados demonstram que a educação escolar e o ingresso no ensino superior, embora possibilitado por políticas públicas de financiamento estudantil, revela contradições entre democratização e mercantilização da educação brasileira. Evidencia-se que as experiências construídas nos movimentos sociais e nas lutas coletivas constituíram importantes dimensões formativas na construção da consciência crítica da biografada. Conclui-se que sua trajetória expressa as potencialidades transformadoras da educação quando articulada à organização popular, à participação política e à luta por direitos sociais.
Palavras-chave: História da educação; Educação de mulheres; Catador de materiais recicláveis; Catador de lixo; Ensino superior.
ABSTRACT
This article analyzes the educational journey of Maria Lilian Teixeira, a recyclable materials collector, highlighting the processes of exclusion, resistance, and political awareness that shaped her path from childhood in a context of social vulnerability to her access to higher education. Grounded in cultural history and supported methodologically by oral history, this biographical study combines interviews with documentary analysis—including certificates and academic transcripts, among other sources. The results demonstrate that formal schooling and admission to higher education, though made possible by public student-financing policies, reveal contradictions between the democratization and commodification of Brazilian education. It is evident that the experiences gained in social movements and collective struggles constituted important formative dimensions in the development of the subject’s critical consciousness. It is concluded that her life trajectory expresses the transformative potential of education when linked to grassroots organizing, political participation, and the struggle for social rights.
Keywords: History of education; Women's education; Recyclable materials collector; Garbage collector; Higher education.
1. INTRODUÇÃO
O acesso ao ensino superior no Brasil constituiu-se historicamente como um privilégio das elites econômicas e culturais, restringindo a presença de sujeitos oriundos das classes populares nos espaços universitários (Saviani, 2011). Durante décadas, a universidade brasileira permaneceu marcada por profundas desigualdades sociais, raciais e econômicas, configurando-se como espaço seletivo e excludente. Embora, nas últimas décadas, políticas públicas de expansão e democratização do ensino superior tenham ampliado o ingresso de grupos socialmente marginalizados, a partir de políticas afirmativas, persistem obstáculos estruturais relacionados não apenas ao acesso, mas também à permanência e à conclusão da formação acadêmica.
Nesse contexto, a universidade continua atravessada por relações de classe, desigualdades educacionais e exclusões simbólicas que afetam especialmente trabalhadores pobres, mulheres periféricas e sujeitos historicamente invisibilizados. Diante disso, questiona-se: quais tensionamentos foram vivenciados por Maria Lilian Teixeira, uma menina pobre, periférica, inserida em contexto de vulnerabilidade social na condição de catadora de materiais recicláveis, para que ela conseguisse ingressar na universidade?
A partir dessa problemática, o presente artigo objetiva analisar a trajetória educativa de Maria Lilian Teixeira, evidenciando os desafios, rupturas, estratégias de resistência e conquistas que marcaram seu percurso desde a infância em situação de vulnerabilidade social até o ingresso no ensino superior no período de 1984 a 2014. O recorte temporal aqui delimitado inicia-se com a chegada de Lilian Teixeira ao Jangurussu e início de sua escolarização, em 1984, e vai até 2014, por ser o ano de seu ingresso no ensino superior para cursar Serviço Social. Destaca-se como a educação se constitui simultaneamente como espaço de reprodução das desigualdades e possibilidade de emancipação social, especialmente quando articulada à formação política, à organização coletiva e às lutas sociais.
A escrita biográfica, especialmente no campo da História da Educação, tem possibilitado lançar visibilidade a sujeitos historicamente marginalizados, permitindo compreender trajetórias educativas atravessadas por desigualdades sociais, culturais e econômicas (Dosse, 2015). Distanciando-se das biografias tradicionais centradas em personagens considerados ilustres, cuidando para não incorrer em anacronismo ou ilusões biográficas (Bourdieu, 1998), privilegia-se um sujeito comum, reconhecendo-o como protagonista histórico, cujas experiências permitem problematizar contextos sociais marcados por preconceitos de gênero e classe, que regam mulheres ao silenciamento e a invisibilização. Nesse sentido, biografar mulheres trabalhadoras, periféricas e inseridas em contextos de vulnerabilidade social constitui não apenas um exercício historiográfico, mas também político, ao possibilitar o registro e a valorização de trajetórias frequentemente apagadas dos discursos oficiais e minoradas nas produções acadêmicas (Fialho; Freire; Sousa, 2022).
A trajetória de Maria Lilian Teixeira, doravante apenas Lilian Teixeira, insere-se nesse contexto de valorizar a história das mulheres ao evidenciar as contradições presentes no acesso à educação, majoradas pela maternidade, e, especialmente ao ensino superior brasileiro, especialmente para mulheres pobres, trabalhadoras e oriundas de territórios periféricos. A relevância deste estudo reside na necessidade de ampliar as discussões sobre a educação de mulheres na interface com questões de classe, lançando lume ao acesso e permanência universitária a partir das experiências concretas de sujeitos das classes populares, especialmente mulheres subempregadas em contextos de precarização social.
Ao abordar a trajetória de uma catadora de materiais recicláveis, que rompeu paradigmas e alcançou o ensino superior e papel de liderança política e comunitária, o estudo biográfico de exceção (Dosse, 2015), contribui para registrar e preservar memórias de exclusão que relegam tantas outras mulheres a viverem excluídas de direitos básicos e ampliam as desigualdades de gênero no Brasil.
No âmbito acadêmico, diferentes pesquisas têm problematizado as contradições presentes nas políticas de expansão do ensino superior, destacando tanto os avanços no acesso quanto os limites impostos pela mercantilização da educação e pela insuficiência de políticas de permanência estudantil (Sguissardi, 2008; Bourdieu e Passeron, 2014; Chauí, 2003; Santos, 2011;). A trajetória educativa de Lilian Teixeira evidencia as ambiguidades entre democratização e precarização do ensino superior brasileiro, demonstrando que o acesso à universidade, embora represente importante conquista social, não elimina os obstáculos estruturais relacionados à classe, ao trabalho, ao gênero e às desigualdades educacionais acumuladas ao longo da vida escolar.
O artigo está organizado em quatro seções, sendo a primeira esta introdução que apresenta o objetivo da pesquisa, a problemática investigada e sua relevância. Em seguida, desenvolve-se o percurso metodológico, explicitando os referenciais teóricos e os procedimentos metodológicos adotados na investigação. Posteriormente, são apresentados os resultados e discussões, nos quais se analisam os diferentes momentos da trajetória educativa da biografada. Por último, as considerações finais retomam o problema da pesquisa, destacando os principais achados do estudo, suas contribuições e possibilidades para futuras investigações.
2. PERCURSO METODOLÓGICO
A presente pesquisa insere-se no campo da História da Educação, articulando-se aos pressupostos teóricos da História Cultural, perspectiva que possibilita ampliar a compreensão acerca dos sujeitos, das fontes e das narrativas históricas. Tal abordagem reconhece que a produção da história ultrapassa os documentos oficiais e incorpora memórias, oralidades, trajetórias e experiências de sujeitos historicamente invisibilizados, valorizando diferentes formas de produção do conhecimento histórico (Burke, 2010; Chartier, 1990).
Nesse contexto, os estudos biográficos vêm adquirindo maior relevância nas pesquisas em educação, especialmente por possibilitarem visibilidade a trajetórias de sujeitos marginalizados pelas narrativas históricas tradicionais. Distanciando-se das biografias positivistas centradas em personagens considerados ilustres, a perspectiva biográfica contemporânea busca compreender sujeitos comuns como protagonistas históricos, reconhecendo que suas experiências individuais permitem problematizar contextos sociais mais amplos e compreender as contradições presentes em diferentes temporalidades históricas.
A investigação desenvolve-se por meio de uma biografia hermenêutica, compreendida, conforme Dosse (2015), como uma modalidade de escrita biográfica que busca interpretar os múltiplos sentidos da experiência humana em interlocução com os contextos sociais, políticos e culturais nos quais os sujeitos estão inseridos. Nessa perspectiva, a narrativa biográfica não objetiva produzir uma verdade absoluta sobre a vida do indivíduo, tampouco construir uma trajetória linear e heroica, mas interpretar historicamente experiências educativas constituídas em meio às contradições sociais.
Ao privilegiar a trajetória educativa de Lilian Teixeira, a pesquisa busca compreender de que maneira sua experiência formativa foi construída nas relações entre exclusão social, pobreza, trabalho precário, militância comunitária e acesso ao ensino superior. Assim, a biografia aqui desenvolvida não se limita à descrição de acontecimentos individuais, mas procura evidenciar como as experiências da biografada dialogam com processos históricos mais amplos relacionados às desigualdades educacionais, às políticas de democratização do ensino superior e às formas de organização coletiva da classe trabalhadora.
O estudo aproxima-se também da perspectiva micro-histórica, que possibilita compreender fenômenos sociais mais amplos a partir da análise de trajetórias individuais. Conforme Levi (1992), a micro-história permite interpretar processos coletivos por meio da observação de experiências singulares, valorizando sujeitos frequentemente invisibilizados nas narrativas oficiais. Nesse sentido, a trajetória de Lilian Teixeira possibilita refletir sobre as contradições do ensino superior brasileiro, especialmente no que concerne às dificuldades de acesso e permanência enfrentadas por mulheres pobres, trabalhadoras e oriundas de territórios periféricos.
Metodologicamente, a pesquisa fundamenta-se na História Oral, compreendida como procedimento que valoriza narrativas, memórias e experiências subjetivas como fontes legítimas para a produção do conhecimento histórico (Alberti, 2010). A História Oral possibilita compreender não apenas acontecimentos objetivos, mas também os sentidos atribuídos pelos sujeitos às experiências vividas, permitindo maior aproximação entre memória, identidade e trajetória social.
A produção das fontes ocorreu por meio de entrevistas livres em História Oral (Meihy; Holanda, 2007), realizadas com Lilian Teixeira entre os anos de 2019 e 2022. As entrevistas foram conduzidas a partir de questões abertas, possibilitando à colaboradora narrar livremente suas experiências, memórias e percepções acerca da educação, do trabalho, da atuação política, da militância social e do ingresso no ensino superior. Posteriormente, as entrevistas foram gravadas, transcritas, textualizadas e validadas pela colaboradora, respeitando-se os princípios éticos que orientam pesquisas com seres humanos. A colaboradora autorizou o uso de sua identidade e de suas narrativas mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), reconhecendo sua participação como constitutiva da produção do conhecimento científico.
Além das narrativas orais, utilizaram-se fontes documentais pertencentes ao acervo pessoal da biografada, tais como certificados, registros institucionais, fotografias e documentos relacionados à sua atuação política e comunitária. Esses materiais contribuíram para a reconstituição de sua trajetória educativa, profissional e militante, possibilitando maior aprofundamento analítico acerca das experiências narradas e foram compreendidos não apenas como elementos ilustrativos, mas como fontes históricas, capazes de revelar processos de reconhecimento social, pertencimento político e construção identitária ao longo da trajetória educativa analisada.
As fontes orais utilizadas nesta pesquisa não foram tomadas como reproduções lineares e fiéis do passado, mas como elaborações atravessadas por lembranças, esquecimentos, silenciamentos e interpretações produzidas no presente. Nessa perspectiva, a memória constitui elemento fundamental da construção histórica, pois permite aos sujeitos atribuírem novos sentidos às experiências vividas ao longo do tempo (Le Goff, 2003).
A trajetória de Lilian Teixeira foi analisada a partir das relações entre experiência individual e contexto histórico-social, considerando os processos de seleção, interpretação e ressignificação presentes na narrativa biográfica. Conforme Loriga (2011), a escrita biográfica não busca reconstruir integralmente uma vida, mas interpretar os sentidos atribuídos pelo sujeito às experiências vividas. Assim, a biografia configura-se como espaço de elaboração identitária e produção de significados historicamente situados.
Nessa perspectiva, a análise das narrativas ocorreu de forma interpretativa e hermenêutica, buscando articular experiência individual e estrutura social, especialmente no tocante às desigualdades educacionais, à precarização do trabalho, às políticas públicas de acesso ao ensino superior e ao processo de organização coletiva da classe trabalhadora catadora de recicláveis. As narrativas foram organizadas em eixos temáticos relacionados à infância e vulnerabilidade social, trabalho e militância, acesso à universidade, permanência estudantil, formação política e transformação social.
O presente artigo é resultado de uma pesquisa de doutorado4, que reconhece a biografada como sujeito ativo da produção do conhecimento, valorizando suas experiências, memórias e narrativas como elementos centrais para a compreensão das dinâmicas educacionais e sociais investigadas. Nessa perspectiva, a trajetória educativa de Lilian Teixeira revela múltiplas dimensões formativas construídas nas intersecções entre pobreza, trabalho, educação e militância social. Compreender sua experiência implica analisar os processos de exclusão, resistência e organização coletiva que atravessaram sua formação humana e política, evidenciando os diferentes contextos sociais e educativos que constituíram seu percurso de vida.
A partir desses procedimentos metodológicos, a seção seguinte apresenta os resultados e discussões da pesquisa. Para melhor compreensão da trajetória investigada, os resultados e discussões foram estruturados em subseções temáticas, articulando aspectos relacionados à infância, trabalho, militância, acesso ao ensino superior, permanência universitária e formação política.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
3.1. Infância, Pobreza e Processos Educativos no Jangurussu
Filha de mãe catadora de materiais recicláveis, sem registro de pai na certidão de nascimento e residente do bairro Jangurussu5, em Fortaleza, território marcado pela precarização social, pobreza urbana e insuficiência de políticas públicas; a biografada construiu sua formação em meio às dificuldades econômicas, à necessidade do trabalho precoce e às limitações de acesso a direitos básicos.
Lilian Teixeira iniciou sua trajetória escolar ainda na infância, por volta dos quatro anos de idade, na Escola Padre Fred, vinculada ao Fundo de Apoio Comunitário - FAC, localizada no bairro Jangurussu. Nesse espaço, cursou as séries iniciais do ensino fundamental e permaneceu até a 3ª série. Contudo, devido às dificuldades econômicas enfrentadas pela família e à necessidade de trabalhar precocemente, interrompeu os estudos para atuar em casa de família e ajudar no sustento doméstico.
Após um período afastada da escola, Lilian Teixeira retomou a escolarização na Escola Melo Jaborandi, onde prosseguiu os estudos até o início da 8ª série. Entretanto, em 1998, a gravidez interrompeu novamente seu percurso educacional. Mesmo diante das dificuldades impostas pela maternidade precoce e pela condição de pobreza, voltou a estudar e concluiu o ensino fundamental na Escola Taís Maria Nogueira, no ano de 2001. As interrupções escolares decorrentes da maternidade precoce evidenciam como as desigualdades de gênero atravessam as trajetórias educativas das mulheres das classes populares, atribuindo-lhes historicamente responsabilidades domésticas e de cuidado que impactam diretamente suas possibilidades de escolarização e permanência acadêmica (Scott, 1995; Perrot, 2007).
No mesmo ano, já casada e mãe, iniciou o ensino médio na modalidade Tempo de Avançar para o Ensino Médio - TAM6, no Colégio Paulo Benevides, concluindo posteriormente essa etapa no Colégio Aloysio Barros Leal. Sua trajetória escolar foi marcada por interrupções, retornos e persistência diante das condições adversas vivenciadas no contexto do antigo Lixão do Jangurussu.
A experiência escolar de Lilian Teixeira no FAC e nas demais instituições de ensino evidencia um percurso de resistência e superação, no qual a educação se constituiu como possibilidade de transformação social e de construção de novos projetos de vida, culminando posteriormente em seu ingresso no ensino superior.
Nesse contexto, a infância de Lilian Teixeira foi atravessada pelas condições materiais de sobrevivência da classe trabalhadora urbana empobrecida. A inserção precoce no trabalho e o convívio cotidiano com situações de exclusão social evidenciam as desigualdades estruturais que historicamente atingem mulheres pobres e periféricas no Brasil. Tais experiências revelam o que Bourdieu (1998) denomina de reprodução das desigualdades sociais, uma vez que as condições materiais de existência interferem diretamente nas possibilidades educacionais dos sujeitos. Ao mesmo tempo, sua trajetória demonstra que os processos educativos não se restringem à escolarização formal. As vivências comunitárias, as experiências de organização popular e os espaços coletivos de convivência também constituíram importantes dimensões formativas em sua trajetória. Nesse sentido, a educação é compreendida em perspectiva ampliada, articulando-se às experiências culturais, políticas e sociais construídas ao longo da vida. Conforme Arroyo (2014), os sujeitos das classes populares produzem saberes e aprendizagens a partir de suas próprias experiências sociais, ainda que frequentemente deslegitimados pelas instituições escolares tradicionais.
As experiências vivenciadas durante a infância e a juventude em contexto de vulnerabilidade social contribuíram significativamente para a constituição de sua consciência crítica e de sua inserção em espaços coletivos de organização popular. Nesse percurso, o trabalho e a atuação junto à categoria dos catadores passaram a ocupar lugar central em sua formação política e educativa.
3.2. Trabalho, Catação e Formação Política
A participação de Lilian Teixeira nos movimentos sociais vinculados à categoria dos catadores constituiu dimensão central de sua trajetória educativa e da construção de sua consciência política. Sua inserção em organizações coletivas ampliou a compreensão acerca das desigualdades sociais, das violações de direitos e das formas históricas de invisibilização da população trabalhadora inserida na catação de materiais recicláveis. Conforme ela relata, a participação em projetos relacionados à defesa dos direitos humanos provocou mudanças significativas em sua percepção sobre educação, cidadania e transformação social: “[...] eu pude perceber que esse sujeito antes de se empoderar, antes de se libertar, tem que conhecer os direitos deles [...]” (Lilian Teixeira, 21/08/2019). Tal compreensão aproxima-se da perspectiva freireana de educação emancipadora, fundamentada na articulação entre conscientização, diálogo e transformação da realidade social. Para Paulo Freire (1967), a educação constitui prática política voltada à leitura crítica do mundo, permitindo aos sujeitos reconhecerem-se como protagonistas históricos capazes de intervir em suas próprias condições de existência.
A inserção no Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População em Situação de Rua e Catadores de Materiais Recicláveis (CNDDH) representou importante marco em sua trajetória formativa e militante. A atuação nesse espaço possibilitou contato com debates sobre direitos humanos, processos de organização coletiva e articulações nacionais relacionadas às pautas da categoria dos catadores. Além disso, a participação em congressos, seminários, programas comunitários e espaços de articulação política contribuiu significativamente para o fortalecimento de sua atuação social e para a ampliação de sua formação humana e profissional. Tais vivências evidenciam que os movimentos sociais também se constituem como importantes espaços educativos, nos quais são produzidos saberes, práticas de resistência e processos de formação política, especialmente entre sujeitos historicamente marginalizados pelos espaços formais de escolarização.
Desse modo, a militância social não apenas fortaleceu sua consciência crítica, mas também influenciou diretamente suas escolhas profissionais e educacionais, repercutindo posteriormente em seu ingresso no ensino superior e em sua atuação junto às demandas sociais da categoria dos catadores. A participação nos movimentos sociais e nos espaços de defesa dos direitos humanos ampliou as perspectivas profissionais e educacionais da biografada. A partir dessas experiências, o ingresso no ensino superior passou a ser compreendido não apenas como possibilidade de ascensão individual, mas também como instrumento de fortalecimento da luta coletiva e da atuação social.
3.3. Acesso Ao Ensino Superior e Políticas de Democratização
O ingresso de Lilian Teixeira no ensino superior representou importante marco em sua trajetória pessoal, profissional e política. Ao rememorar esse momento, afirma: “vi que eu era capaz” (Lilian Teixeira, 21/08/2019). A fala evidencia não apenas a conquista do acesso universitário, mas também a ruptura simbólica com processos históricos de inferiorização social produzidos pelas desigualdades educacionais. No que concerne ao ingresso no curso superior, ela narra:
Eu fiz meu primeiro vestibular em 2012. Eu tentei Pedagogia, passei e ganhei uma bolsa de 50%, porque essa era a ideia que eu tinha, eu sou apaixonada por essa profissão. Eu acho muito enriquecedor, muito valioso você despertar no outro ser humano coisas que ele nem sabia que tinha. E dar a oportunidade de se conhecer, porque muitas vezes a gente diz que estamos ensinando e eu acredito que não é ensinando você está abrindo caminhos para que a pessoa se desenvolva. Todos temos capacidade de aprender e de transformar a realidade. (Lilian Teixeira, 21/08/2019)
No ano de 2012, Lilian Teixeira prestou o vestibular para Pedagogia na UniAteneu, obteve aprovação e conseguiu uma bolsa com 50% de desconto, mas não conseguiu iniciar o curso por motivo de trabalho. Sobre isso, ela comenta:
Eu ganhei a bolsa, mas não iniciei. Porque eu comecei a trabalhar em um projeto de ação de direitos humanos para catadores e pessoas em situação de rua e os primeiros meses tinha que viajar muito pra Belo Horizonte para ter a formação. Aí ia ser um problema, porque eu assinei um documento que tinha disponibilidade de viajar. Nisso passou o ano, chegou 2013. Ia ser só um ano, aí foi renovado. (Lilian Teixeira, 21/08/2019)
Lilian Teixeira apesar de ser aprovada para o curso de Pedagogia em uma instituição privada, e contemplada com bolsa parcial de estudos, não conseguiu iniciar a graduação naquele momento devido às exigências relacionadas à sua atuação em projetos de defesa dos direitos humanos, que demandavam viagens frequentes e intensa dedicação às atividades formativas. Posteriormente, quando finalizou o projeto do CNDDH, em 2014, com a experiência adquirida e ao ampliar sua atuação política junto à categoria dos catadores, passou a identificar-se com o Serviço Social, área que considerava mais próxima das necessidades sociais enfrentadas por sua comunidade e resolveu fazer outro vestibular. Ela relata como foi esse processo:
Eu tinha plena certeza que queria fazer Pedagogia, mas, durante o projeto, meu pensamento mudou, porque qual era meu pensamento em relação à Pedagogia? Era poder contribuir, porque, na nossa categoria, tem muitos de nós que têm dificuldade de aprendizado. Eu queria trabalhar no sentido da aprendizagem, como diz Paulo Freire, a partir da nossa realidade. Mas, com a atuação no projeto, eu vi que existe toda essa deficiência, mas a demanda de direitos, de informações, de buscar, era muito maior, mais necessária. Aí eu comecei a acompanhar as associações, catadores, que me trouxeram informações, realidades, que, apesar de eu conhecer muitas, de violência, de total desconhecimento de direitos, de não saber mesmo, e isso foi uma coisa que me impactou. (Lilian Teixeira, entrevista em 21 ago. 2019).
A partir das vivências nesse projeto, ela foi mudando sua visão sobre a forma como poderia contribuir para a melhoria da sua categoria. Com relação à mudança de curso, ela narra:
Quando eu comecei a acompanhar realmente os catadores e que eles começavam a fazer algumas denúncias, aliás, desabafos, porque no final eles não queriam que fosse denúncia, foi que eu pude perceber que a maioria das pessoas não sabiam dos seus direitos. Elas sequer conhecem o caminho de onde buscar as informações e, quando sabem, têm medo. (Lilian Teixeira, entrevista em 8 jul. 2019).
A narrativa evidencia a ausência de acesso à informação e o medo institucionalizado da denúncia entre trabalhadores socialmente vulnerabilizados. Lilian Teixeira comenta que essas pessoas só queriam ser ouvidas. Então, foi a partir desse trabalho no CNDDH que Lilian Teixeira teve um novo despertar profissional, escolhendo cursar Serviço Social, como podemos ver no trecho adiante:
Foi quando comecei a ler sobre o profissional do Serviço Social. Para minha realidade, aquilo fazia sentido, eu vi que aquele profissional atuava tanto na aplicação da política como na construção. As intervenções são diferentes, né? Aí eu vi que podia contribuir muito mais com essa realidade. (Lilian Teixeira, entrevista em 8 jul. 2019).
Em 2014, ingressou no curso por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), conforme relato: “Para Serviço Social, eu não consegui bolsa. Paguei os primeiros meses e consegui o FIES no primeiro ano. Foi na Ateneu também”. (Lilian Teixeira, 21/08/2019). Apesar de não ter conseguido bolsa para cursar Serviço Social, a biografada ingressou nesse curso buscando contribuir com sua categoria, pois a experiência no Centro de Defesa foi um despertar profissional, conforme relato anterior. Ela percebeu que muitas pessoas desconheciam seus direitos, as políticas públicas, assim ela viu que poderia ajudá-las.
A experiência universitária de Lilian Teixeira revela que o acesso institucional não elimina as desigualdades historicamente acumuladas ao longo da escolarização das classes populares, especialmente quando associado às exigências do trabalho e às responsabilidades familiares. Além das dificuldades materiais para pagar as despesas com o curso, a narrativa da biografada evidencia os impactos subjetivos das desigualdades educacionais acumuladas ao longo da vida escolar. Ao refletir sobre a possibilidade de ingressar em universidades públicas, relata: “Eu me achava muito incapaz [...] se eu for numa pública só de ver a concorrência que tem eu não vou ter chance. ” (Lilian Teixeira, 20/01/2021).
O sentimento de inadequação relatado pela biografada aproxima-se do que Bourdieu (1998) compreende como efeito das desigualdades simbólicas produzidas pelas instituições escolares. Historicamente estruturadas a partir dos referenciais culturais das elites, essas instituições tendem a produzir, entre os sujeitos das classes populares, percepções de incapacidade, não pertencimento e inferiorização social. Nesse contexto, o relato de Lilian Teixeira evidencia mecanismos de violência simbólica, entendida como processo de internalização das hierarquias sociais e educacionais legitimadas institucionalmente.
Entretanto, ao longo da graduação, a biografada passou a reconhecer suas capacidades intelectuais e a valorizar os saberes construídos em sua trajetória de vida: “[...] eu fui vendo os estudos e percebi que eu era tão capaz quanto qualquer um ali. Aí eu percebi também que eu trazia uma carga de experiência de vida. ” (Lilian Teixeira, 20/01/2021). Sua narrativa revela que o ingresso no ensino superior ultrapassou a dimensão da formação profissional, constituindo também importante processo de reconstrução identitária, fortalecimento da autoestima e ampliação da consciência crítica acerca de sua própria trajetória social.
A trajetória de Lilian Teixeira também é marcada pela intensa participação em formações, congressos, palestras e espaços de articulação política vinculados à categoria dos catadores. Entre esses momentos, destacam-se sua participação no II Congresso Estadual de Mulheres Catadoras de Materiais Recicláveis, realizado em Campinas em 2017, e em mesas de debate sobre segurança pública, cidadania e direitos humanos, conforme imagens abaixo.
Imagem 1. Certificado – Mesa Redonda: Segurança Pública e Cidadania
A participação de Lilian Teixeira em espaços de debate sobre cidadania, direitos humanos e segurança pública evidencia a ampliação progressiva de sua inserção política e formativa para além das experiências locais de organização comunitária. A Imagem 1 demonstra sua presença em ambientes institucionais de discussão pública, nos quais questões relacionadas à justiça social, direitos e participação cidadã passam a integrar seu processo de formação crítica. Tais experiências contribuíram para o fortalecimento de sua atuação social e para a consolidação de uma consciência política construída nas intersecções entre educação, militância e organização popular.
Nesse percurso, a inserção em espaços coletivos voltados especificamente à organização das mulheres catadoras representou importante ampliação de sua atuação política e identitária, conforme evidenciado na imagem seguinte.
Imagem 2. Certificado do II Congresso Estadual de Mulheres Catadoras de Materiais Recicláveis
A certificação apresentada na Imagem 2 ultrapassa o caráter meramente comprobatório de participação institucional. O documento simboliza formas de reconhecimento social e profissional historicamente negadas às mulheres catadoras de materiais recicláveis. Ao registrar a presença de Lilian Teixeira em um congresso estadual de mulheres catadoras, a imagem evidencia a constituição de espaços coletivos de formação feminina no interior dos movimentos sociais populares, revelando dinâmicas de organização, pertencimento e fortalecimento identitário da categoria. Sobre esse evento, Lilian Teixeira comenta que foi uma ótima oportunidade de conhecer a realidade da catação dos outros Estados e menciona que a participação nesse evento se deu a partir de sua gestão na Rede de Catadores:
[...] foi um convite assim que eu entrei na gestão da Rede, as companheiras lá de São Paulo estavam fazendo. Elas estavam com alguns contratos atrasados e com algumas políticas retrocedendo. Então elas juntaram vários companheiros de vários Estados e fizeram um encontro. Lá elas têm a Secretaria da Mulher Catadora e essa secretaria recebe verba para trabalhar as políticas e as temáticas da nossa profissão. [...] foi uma experiência muito boa para mim. Passei a entender melhor o contexto da área lá, porque a comercialização muda muito de um Estado para o outro e lá eles tinham bastante coisa avançada, contratos com a prefeitura, pagamento por prestação de serviço. [...] (Lilian Teixeira, 08/04/2022)
A presença de mulheres catadoras em espaços de articulação política evidencia movimentos de resistência frente aos históricos processos de invisibilização social e precarização do trabalho feminino nas camadas populares.
Tais experiências ampliaram sua compreensão acerca das políticas públicas e fortaleceram sua atuação comunitária e militante. As imagens presentes no acervo da biografada revelam transformações significativas em sua trajetória social e educativa, evidenciando a passagem de uma condição historicamente marcada pela invisibilidade para espaços de legitimação institucional, formação política e reconhecimento coletivo. Nesse sentido, os certificados e registros analisados assumem não apenas função documental, mas também simbólica, ao materializarem trajetórias de resistência, participação social e construção identitária. Contudo, o acesso à universidade não significou a superação das desigualdades historicamente acumuladas ao longo da trajetória social da biografada. As dificuldades relacionadas à permanência universitária evidenciam as contradições presentes nos processos de democratização do ensino superior brasileiro, especialmente para estudantes oriundos das classes populares.
3.4. Permanência Universitária, Adoecimento e Desigualdades Sociais
Embora o acesso ao ensino superior tenha representado uma importante conquista, a trajetória acadêmica de Lilian Teixeira foi marcada por inúmeras dificuldades relacionadas à permanência universitária. A necessidade de conciliar trabalho, militância social, maternidade, demandas familiares e vida acadêmica impactou diretamente sua experiência no ensino superior, produzindo sobrecarga física e emocional.
As dificuldades enfrentadas extrapolaram a dimensão econômica, alcançando também aspectos psicológicos e subjetivos. A intensa rotina contribuiu para o desenvolvimento de ansiedade, síndrome do pânico e sofrimento psíquico, situações agravadas durante a pandemia da Covid-19. Ao rememorar esse período, Lilian Teixeira relata: “Eu não tinha a dimensão do que era a ansiedade com o transtorno de pânico, estresse e eu estava quase perdendo o controle da situação.” (Lilian Teixeira, 15/10/2021).
A biografada destaca que seu processo de adoecimento repercutiu diretamente em sua trajetória acadêmica, ocasionando reprovações e atraso na conclusão do curso. Segundo seu relato, as crises de ansiedade e pânico dificultaram sua concentração nos estudos, enquanto as demandas familiares, profissionais e militantes passaram a ocupar lugar prioritário em sua vida. Além disso, a pandemia intensificou ainda mais essas dificuldades, sobretudo em razão das limitações tecnológicas, do ensino remoto e das exigências do trabalho.
“Ia parar no hospital, achando que ia morrer. E nesse processo todo o que mais foi prejudicado foi a faculdade. Eu coloquei a Rede e a minha família como prioridade. Quando eu fiz isso eu me distanciei muito do mundo acadêmico, a ponto de não conseguir me concentrar para estudar. Isso em 2018, 2019, aí eu comecei a repetir muito as disciplinas. ” (Lilian Teixeira, 15/10/2021).
As dificuldades emocionais e sociais enfrentadas ao longo da graduação ocasionaram interrupções temporárias no curso, reprovações e afastamento das atividades acadêmicas. Tal realidade evidencia as fragilidades das políticas de permanência estudantil no ensino superior brasileiro, especialmente para estudantes oriundos das classes populares, cujas trajetórias são atravessadas por múltiplas vulnerabilidades sociais (Amorim, Fialho, 2022). Nesse sentido, a experiência da biografada demonstra que os desafios relacionados à permanência universitária não podem ser compreendidos apenas sob a perspectiva financeira, exigindo também atenção às dimensões emocionais, subjetivas e sociais da formação acadêmica.
A Imagem 3 evidencia esse processo ao registrar o afastamento acadêmico da biografada em um contexto marcado pela sobrecarga emocional, pelas limitações tecnológicas e pelas múltiplas demandas do trabalho e da militância social (Fialho et al., 2025). Mais do que um dado administrativo, o documento expressa as fragilidades das políticas de permanência estudantil diante das desigualdades vivenciadas por estudantes das classes populares no ensino superior brasileiro.
Imagem 3. Informações Acadêmicas
Mesmo diante do afastamento temporário da graduação durante a pandemia, Lilian Teixeira relata que não abandonou o desejo de concluir sua formação universitária. Ao refletir sobre esse período, afirma:
Durante a pandemia eu pensei seriamente em não concluir o curso, eu fiquei refletindo. Mas aí eu pensei: eu caminhei até aqui, eu tenho um propósito e vou dar continuidade a ele. Porque assim, a situação da atual conjuntura, politicamente falando, ou você vai para o confronto ou você vai para debaixo da cama. E nós estamos vivendo isso internamente nas nossas organizações de catadores. Mas aí eu pensei e decidi não retroceder. E é uma visão de mundo também. O que eu quero daqui para a frente como Lilian, como pessoa? Eu acho que nós temos uma identidade, mas ela vai sendo construída a partir das coisas que a gente vai construindo. (Lilian Teixeira, 15/10/2021).
Ainda assim, mesmo diante das dificuldades e do afastamento temporário da universidade, Lilian reafirma sua crença na educação como instrumento de transformação social e emancipação humana: “[...] eu acredito mesmo na educação. E nunca vi desvantagem nenhuma em estudar. ” (Lilian Teixeira, 03/03/2021).
Sua trajetória evidencia que a educação, articulada às experiências populares e à luta por direitos, pode constituir importante instrumento de emancipação individual e transformação social. Conforme destaca Nadir Zago (2006), estudantes oriundos das classes populares frequentemente vivenciam trajetórias universitárias marcadas pela difícil conciliação entre trabalho, estudo e responsabilidades familiares, condição que amplia os riscos de evasão, sofrimento psíquico e interrupções acadêmicas.
Ainda que atravessada por dificuldades materiais, emocionais e institucionais, majoradas pela pandemia (Brandenburg et al., 2025), a trajetória universitária de Lilian Teixeira fortaleceu processos de conscientização, pertencimento e atuação política. Suas experiências demonstram que a educação, quando articulada à organização popular e à luta por direitos, pode constituir importante instrumento de transformação social.
3.5. Educação, Militância e Transformação Social
A trajetória de Lilian Teixeira demonstra que os processos educativos são construídos também nas experiências coletivas, na organização popular e nas lutas sociais. Sua atuação em movimentos comunitários, programas sociais, formações políticas e articulações da categoria dos catadores constituiu importante dimensão de sua formação humana e política. A participação no Programa Infância, Adolescência e Juventudes (PIAJ), vinculado à Cáritas Brasileira, exemplifica. Inicialmente atuando como apoiadora comunitária, Lilian Teixeira passou posteriormente a desenvolver atividades educativas junto a crianças e adolescentes filhos de catadores, articulando pertencimento territorial, cidadania e formação crítica.
Imagem 4. Certificado do Processo de Avaliação Externa dos Projetos do Rural ao Urbano I e II
O certificado apresentado na Imagem 4 evidencia processos de reconhecimento institucional das práticas educativas desenvolvidas em territórios populares, revelando a inserção da biografada em espaços coletivos de formação comunitária e participação social. Ao rememorar sua participação no projeto, Lilian Teixeira destaca os impactos das ações desenvolvidas e a dimensão coletiva das práticas educativas construídas no interior do PIAJ:
[...] O PIAJ ele tinha várias vertentes com os filhos de catadores, com sociedade, com profissionais que atuava dentro. Então assim, ele cobria todas as frentes ele era uma terapia comunitária que a gente fazia as formações com o Movimento Saúde Mental do Bom Jardim que aí era catadores e profissionais da Cáritas e movimentos sociais. A gente tinha os jovens que trabalhava as políticas, que fazia as mobilizações que fazia as articulações políticas mesmo indireta nos espaços, na câmara, no conselho. A gente tinha também as empreendedoras do PIAJ que é chamada de “Rede de bodega” que são empreendedoras de artesanato faziam feiras, encontros, intercâmbios. [...] Era um projeto muito gigante para o contexto que a gente vive para ele ser aplicado daquela forma, ele deu um ótimo resultado, um resultado surpreendente. Eu fiquei maravilhada e muito feliz de ter participado e contribuído. (Lilian Teixeira, 08/04/2022)
A atuação no PIAJ levou a biografada a assumir progressivamente funções educativas e formativas junto a crianças e adolescentes filhos de catadores, evidenciando processos de liderança comunitária e compromisso coletivo com a continuidade do projeto, conforme relato [...] eu me vi na obrigação de fazer porque senão o projeto não ia funcionar. (Lilian Teixeira, 08/04/2022).
As práticas desenvolvidas aproximam-se da concepção freireana de educação popular, fundamentada na valorização das experiências locais e na construção coletiva do conhecimento. Conforme Freire (1987), a educação emancipadora parte da realidade concreta dos sujeitos, reconhecendo-os como protagonistas de sua própria formação histórica.
Além disso, sua participação em encontros nacionais, congressos e espaços de articulação política fortaleceu sua compreensão acerca das políticas públicas e das formas de organização coletiva da categoria dos catadores. Ao conhecer experiências de outros estados brasileiros, passou a perceber diferentes possibilidades de reconhecimento profissional, organização política e valorização social do trabalho desenvolvido pelos catadores. Ao refletir sobre essas vivências, a biografada destaca: Eu nunca me conformei com a realidade que eu vivo. [...] de não ter uma visão de que a vida é muito mais que aquilo. (Lilian Teixeira, 15/10/2021). Esse posicionamento evidencia a educação como processo contínuo de conscientização e transformação social. A formação construída por Lilian Teixeira ultrapassa os limites institucionais da escola e da universidade, constituindo-se também nas experiências coletivas, na organização popular e na luta por direitos.
A trajetória de Lilian Teixeira permite compreender a constituição de uma intelectualidade produzida nas margens sociais, construída não apenas pela escolarização formal, mas também pelas experiências coletivas, pela militância social e pelos processos de organização popular. Sua formação evidencia que os saberes produzidos nos movimentos sociais e nas lutas comunitárias constituem importantes formas de elaboração crítica da realidade e de resistência às desigualdades historicamente impostas às classes populares.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo buscou analisar a trajetória educativa de Maria Lilian Teixeira, evidenciando os desafios, rupturas, estratégias de resistência e conquistas que marcaram seu percurso desde a infância em contexto de vulnerabilidade social até o acesso e a permanência no ensino superior. A partir da abordagem biográfica fundamentada metodologicamente na História Oral e teoricamente na História Cultural, foi possível compreender como sua experiência formativa foi historicamente constituída nas relações entre pobreza, trabalho, gênero, militância social e luta por direitos.
Os resultados da pesquisa demonstram que o ingresso no ensino superior, embora represente importante conquista para estudantes oriundos das classes populares, permanece atravessado por profundas desigualdades sociais, econômicas e educacionais. A trajetória analisada evidencia que as políticas de democratização universitária ampliaram as possibilidades de acesso da classe trabalhadora à universidade, especialmente por meio dos programas de financiamento estudantil. Entretanto, tais políticas ainda se mostram insuficientes para garantir condições efetivas de permanência e conclusão da formação acadêmica.
A investigação permitiu compreender que as dificuldades enfrentadas pela biografada ultrapassam as dimensões materiais, envolvendo também aspectos subjetivos, emocionais e simbólicos historicamente produzidos pelas desigualdades sociais. Os sentimentos de não pertencimento diante da universidade, a necessidade de conciliar trabalho, maternidade, militância social e estudos, bem como o desenvolvimento de sofrimento psíquico ao longo da graduação, evidenciam os limites das políticas de permanência estudantil destinadas aos sujeitos das classes populares.
Apesar disso, sua experiência revela o potencial transformador da educação quando articulada à formação crítica e à participação social. As vivências construídas nos movimentos sociais, nos processos de organização coletiva e nos espaços de defesa dos direitos humanos constituíram dimensões fundamentais de sua formação humana e política, aproximando-se da concepção freireana de educação emancipadora, fundamentada na articulação entre reflexão crítica e transformação da realidade social. Os espaços comunitários e a organização de catadores constituíram importantes processos formativos para Lília Teixeira, demonstrando que a educação ultrapassa os limites institucionais da escola e da universidade, sendo construída também nas experiências coletivas, nas lutas sociais e nos processos cotidianos de resistência.
A trajetória de Lilian Teixeira evidencia ainda a relevância dos estudos biográficos para a ampliação da visibilidade de sujeitos historicamente silenciados pelas narrativas oficiais. Ao analisar a experiência de uma mulher trabalhadora, catadora e inserida em contextos periféricos, este estudo contribui para ampliar as discussões acerca das desigualdades educacionais e das experiências de acesso e permanência no ensino superior vivenciadas por mulheres das classes populares.
No campo da História da Educação, a pesquisa contribui ao articular biografia, memória, história oral e educação superior como categorias capazes de evidenciar as contradições sociais presentes nas experiências educativas da classe trabalhadora. Além disso, reforça a importância de investigações que reconheçam os sujeitos populares como protagonistas históricos e produtores de saberes socialmente relevantes.
Como limitação, destaca-se o fato de o estudo concentrar-se em uma trajetória específica, o que não permite generalizações acerca das experiências da totalidade dos estudantes das classes populares no ensino superior brasileiro. Ainda assim, a singularidade da experiência analisada possibilita compreender processos sociais mais amplos relacionados às desigualdades educacionais, à precarização do trabalho e às políticas de democratização universitária.
A trajetória de Lilian Teixeira revela que a universidade, quando acessada por sujeitos historicamente invisibilizados, torna-se também espaço de disputa simbólica, política e epistemológica. Sua experiência evidencia que mulheres trabalhadoras oriundas da catação produzem saberes, constroem leituras críticas da realidade e reivindicam o direito de ocupar espaços historicamente negados às classes populares. Nesse sentido, biografar Lilian Teixeira constitui também um gesto político de reconhecimento, memória e valorização das experiências educativas produzidas nas margens sociais.
Por fim, o estudo evidencia a necessidade de fortalecimento das políticas públicas de permanência estudantil, especialmente para mulheres trabalhadoras e estudantes em situação de vulnerabilidade social. Também aponta para a importância da ampliação de pesquisas voltadas às trajetórias educativas de sujeitos historicamente invisibilizados, reconhecendo suas experiências como fundamentais para a compreensão das desigualdades educacionais e das formas de resistência produzidas nas margens sociais.
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1 Docente do Curso de Pedagogia da Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA. Campus Acaraú. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Estadual do Ceará – UECE e Docente do Curso de Pedagogia. Campus Itaperi. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Professor Titular de Filosofia da Educação da Faculdade de Educação, da Universidade Federal do Ceará - UFC. Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da UFC e Docente do Curso de Pedagogia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Carvalho, Scarlett Ohara Costa. A educação de Maria Lilian Teixeira: Da infância no lixão ao ensino superior (1984-2014). 2022. 230 f. Tese (Doutorado em 2022) - Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2022. Disponível em: https://siduece.uece.br/siduece/trabalhoAcademicoPublico.jsf;jsessionid=1E6D2AF7FC567285D98EC7B4885C996D?id=107568 Acesso em: 13 de agosto de 2026.
5 O bairro Jangurussu, localizado na periferia de Fortaleza, constitui-se historicamente como um território marcado por intensas desigualdades sociais, processos de exclusão urbana e precarização das condições de vida. A região tornou-se conhecida pela presença do antigo lixão do Jangurussu, espaço onde inúmeras famílias desenvolveram estratégias de sobrevivência vinculadas à catação de resíduos sólidos. O território foi atravessado por processos de vulnerabilização social, trabalho infantil, ausência de políticas públicas efetivas e estigmatização social, ao mesmo tempo em que se constituiu como espaço de resistência, organização comunitária e luta por direitos. (Carvalho, 2022).
6 O Tempo de Avançar para o Ensino Médio (TAM) consistia em um “[...] programa com o objetivo de encurtar o tempo de escolaridade dos alunos mais velhos, valendo-se de monitores polivalentes e de telensino” (Zibas, 2005, p. 209), possuindo duração de um ano e seis meses (Carvalho, 2022, p. 70).