DA BAGAGEM LITERÁRIA ÀS PRÁTICAS DE LEITURA: BASE PARA FUTURAS INTERVENÇÕES LITERÁRIAS ENTRE ALUNOS CONCLUINTES DO MAGISTÉRIO

FROM LITERARY BAGGAGE TO READING PRACTICES: BASIS FOR FUTURE LITERARY INTERVENTIONS BETWEEN TEACHING CONCLUDING STUDENTS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776956332

RESUMO
O presente artigo apresenta a análise de um questionário base para coleta de dados que servirá como ponto de partida para posterior realização de quatro intervenções literárias em uma turma concluinte do curso de Magistério em um Instituto Estadual de Educação veiculado à 20 Coordenadoria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul. Tal questionário é formado por uma sequência de sete blocos temáticos – tanto aberto quanto fechado – que envolvem desde questões socioculturais até a bagagem literária de cada pesquisado. Esta ferramenta tem como objetivo conhecer e mapear informações sobre o perfil de cada pesquisado que compõe a tese. Assim, considera-se que este artigo visa trazer à luz reflexões sobre a subjetividade do leitor e a bagagem literária de cada estudante, já que ele traz à baila as primeiras considerações desta etapa de análise. Para tanto, deu-se início a uma pesquisa bibliográfica em relação à leitura, buscando-se subsídios em Petit (2009), Cosson (2006), Colomer (2007) e Larrosa (2003). Os resultados apontam a constatação de o quão importante é a bagagem leitora presente (ou não) na vida de cada um dos estudantes e como isso reflete na coletividade da turma. Além disso, a bagagem literária deles, por ser de tal relevância, é o ponto de partida para a aplicação e análise do questionário inicial – ferramenta para a elaboração das futuras intervenções literárias.
Palavras-chave: Mapeamento; Estudantes do Curso de Magistério; Questionário inicial.

ABSTRACT
This article presents the analysis of a asic questionnaire for data collection that will serve as a starting point for later carrying out four literary interventions in a agraduating class of the Taching course at a State Education distributed to the 20 Education Coordination of the State of Rio Grande do Sul. This questionnaire is made up of a sequence of seven thematic blocks – both open and closed – that range from sociocultural issues to the literary background of each respondent. This tool aims to understand and map information about profile of each person researched that makes up the thesis. Thus, it is considered that this article aims to bring to light reflections on the subjectivity of the reader and the literary background of each student, as it brings to the fore the first considerations of this stage of analysis. To this end, a bibliographical research in relation to Reading began, seeking support from Petit (2009), Cosson (2006), Colomer (2007), Larrosa (2003) and others. The results point to the observation of how important the Reading background present (or not) is in the lives of each student and how this reflects on the collective of the class. Furthermore, their literary background, as it is so relevant, is the starting point for the application and analysis of the initial questionnaire – a tool for preparing future literary interventions.
Keywords: Mapping; Teaching Course Students; Initial Questionnaire.

INTRODUÇÃO

Sabe-se que, nos anos iniciais da Educação Básica, o papel do professor vai além da simples transmissão de conhecimentos, pois ele é um guia, um modelo, um incentivador no processo de descoberta e construção do saber. Neste contexto, a leitura e o domínio da literatura tornam-se ferramentas essenciais, já que a partir delas, é possível promover o desenvolvimento de habilidades tanto de leitura quanto de escrita dos alunos.

Cabe considerar que a figura do futuro professor, no caso, estudante do curso de Magistério, pode, desde já, cultivar o ato de ler como uma rica direção na amplitude da compreensão do uso da linguagem em suas diferentes formas de expressão. Considera-se, também, que o futuro professor, enquanto leitor, em suas práticas didáticas a serem realizadas durante o curso de Magistério, pode vir a demonstrar entusiasmo pela leitura, já que ele inspira as pessoas a conhecerem realidades diversas sem precisarem sair do espaço físico em que estão.

Nota-se, que a literatura é um estímulo ao pensamento crítico e criativo. Textos literários podem desafiar a interpretação, análise e reflexão sobre diferentes perspectivas e situações. Futuros professores leitores podem facilitar discussões significativas, incentivar suas turmas a pensarem de maneira crítica e, também, expressarem suas próprias ideias de maneira clara e coerente. Percebe-se que os futuros professores leitores podem, através da literatura, convidar os alunos a explorar uma vasta gama de emoções e experiências humanas – o que envolve a subjetividade de cada um. Livros cujas temáticas envolvam amizade, empatia, diversidade e superação, permitem que os estudantes se conectem emocionalmente e desenvolvam uma maior compreensão de si mesmos e dos outros. Futuros professores que abordam tais temáticas podem auxiliar os alunos no desenvolvimento de competências emocionais e sociais.

Sob este prisma, é que tal pesquisa direciona o olhar inicial: a figura dos futuros professores dos anos iniciais da educação básica enquanto leitores, conhecedores da literatura infantil contemporânea e de metodologias de trabalho no que tange à literatura infantil, e que sejam capacitados para abordar o texto literário com suas respectivas turmas de alunos. Neste sentido, no que tange aos objetivos específicos, começa-se por identificar a bagagem leitora, o perfil social e cultural dos estudantes; verificar as contribuições e implicâncias da bagagem literária deles nas práticas de leitura atuais e na formação deles no curso do Magistério; além de estudar se essas práticas de leitura contribuem na formação do futuro docente.

Assim, faz-se necessário trazer à baila a questão base desta primeira fase da pesquisa-ação que busca mapear o perfil dos estudantes do curso de Magistério e verificar em que medida a bagagem literária dos estudantes atua sobre suas práticas de leitura hoje – como as intervenções literárias – pensadas como ações que colaboram na (re)construção de cada pesquisado enquanto indivíduo, leitor literário e futuro professor.

O problema deste estudo centra-se em descobrir qual é a bagagem literária dos estudantes de magistério e sua influência no desenvolvimento de habilidades de leitura e formação de identidade como futuros professores. Tem-se a intenção de que sejam capazes de reconhecer a importância da literatura dentro da prática pedagógica que contribui sobremaneira para o crescimento pessoal e social de cada indivíduo. Entenderão que a leitura literária não é desmembrar o texto em partes que servem como informações que respondem a questões de análise textual; a leitura literária vai além: toca o invisível em cada pessoa, atinge a subjetividade e apoia o desenvolvimento global de cada leitor.

Para tanto, este estudo que se desenvolve em uma pesquisa-ação, cujo primeiro passo é a aplicação de um questionário inicial faz parte do estudo, uma pesquisa bibliográfica em relação à leitura, buscando-se subsídios em Petit (2009), Cosson (2006), Colomer (2007) e Larrosa (2003) entre outros. Para vislumbrar os apontamentos aqui mencionados, o presente artigo se divide em cinco partes, sendo as duas primeiras fundamentadas por referencial teórico, a terceira e a quarta apresentam a metodologia e análise dos dados coletados no questionário inicial, e por fim, os resultados obtidos, conclusão e referências bibliográficas.

Leitura para Mim, para Você, para Futuros Professores

A leitura é uma atividade enriquecedora capaz de oferecer benefícios tanto para indivíduos quanto para comunidades. Para mim, como modelo de linguagem, a leitura é essencial tanto na construção do ser humano quanto para o aprimoramento de sua formação. Através dela, que aparece em vastas quantidades de texto, o indivíduo torna-se capaz de conhecer padrões linguísticos diferentes, refletir sobre conceitos e informações variadas que lhe permitem ver e viver o mundo de maneira mais empática e consciente.

Para você, talvez a leitura possa ser vista como uma jornada pessoal, um caminho para explorar novos horizontes, adquirir conhecimento e desenvolver habilidades cognitivas. Ao mergulhar em livros, artigos ou outros tipos de texto, o indivíduo pode expandir sua compreensão de mundo, aprimorar seu vocabulário e fortalecer a capacidade de raciocínio crítico; e por todas estas razões, também considerada como enriquecedora.

Para os futuros professores, a partir do que foi averiguado no questionário inicial, a leitura desempenha um papel indispensável no desenvolvimento educacional, cultural e social. Ela é uma maneira de promover a troca de ideias e conhecimento, além de contribuir para a construção de uma comunidade mais informada e engajada. Através da leitura compartilhada, pode-se construir pontes entre diferentes perspectivas – o que promove a compreensão e a empatia.

A leitura é uma atividade que beneficia não só os estudantes do curso de Magistério que leem, mas também quem com eles interagem. É uma ferramenta poderosa para a expansão do conhecimento, o desenvolvimento pessoal e a promoção do entendimento mútuo sobre aspectos que envolvem a sociedade e o mundo.

Ao se pensar em leitura literária, especificamente, Antonio Cândido a vê como um direito humano, pois:

[...] nas nossas sociedades a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. (1995).

Essa maneira de ver a leitura, corrobora com alguns preceitos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (2009), em seu artigo XXVI, ao afirmar que, além de todo ser humano ter o direito à instrução (educação), esta “será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais” (ONU, 2009), bem como prevê, em seus artigos XXVII e XXIX, que o cidadão possui direito de participar na vida cultural e científica de sua comunidade, além de possuir deveres para com ela.

De modo semelhante, e alinhada à leitura literária, Michèle Petit (2013) traz uma definição de leitura que condiz com uma constante identificação e tradução de si mesmo, afirmando que o espaço de leitura:

[...] é um espaço psíquico que pode ser o próprio lugar da elaboração ou da reconquista de uma posição de sujeito. Porque os leitores não são páginas em branco onde o texto é impresso. Os leitores são ativos, desenvolvem toda uma atividade psíquica, apropriam-se do que leem, interpretam o texto e deslizam entre as linhas seus desejos, suas fantasias, suas angústias.

Aliás, ao transpor os currículos escolares, a proposta de ensino, especificamente de Língua Portuguesa e Literatura, está focada na aprendizagem da leitura, da compreensão e na interpretação textual. Assim, amplia-se aqui a importância da leitura literária para também as leituras não-literárias – realizadas por estudantes do curso de Magistério – como maneiras de entender o mundo que cerca os sujeitos (desenvolvimento do aspecto socioemocional), bem como salientar o caráter cognitivo que está inculcado em documentos oficiais que versam sobre a educação, a saber: Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental (2013) e Base Nacional Curricular (2018).

Paulo Freire (1989) aborda uma ideia de leitura como interpretação textual – fase cognitiva que ultrapassa a definição de compreensão. Ao ler, o leitor deve incitar conceitos prévios para criar relações com o que compreendeu a partir do texto. Tal processo é denominado, por Freire, de leitura da palavra-mundo. Ainda, no que tange aos aspectos cognitivos, importante mencionar que conforme a Base Nacional Curricular, a leitura deve crescer progressivamente desde os anos iniciais do Ensino Fundamental até o Ensino Médio. Tal complexidade se expressa pela articulação que à medida em que as leituras acontecem no cotidiano escolar, é aprimorada. De acordo com ela,

A participação dos estudantes em atividades de leitura com demandas crescentes possibilita uma ampliação de repertório de experiências, práticas, gêneros e conhecimentos que podem ser acessados diante de novos textos, configurando-se como conhecimentos prévios em novas situações de leitura. (2017).

A partir da leitura desses diversos textos e em novas situações, a leitura da palavra se constrói,

[...] e aprender a ler, a escrever, alfabetizar-se é, antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender seu contexto, não numa manipulação mecânica que vincula palavras, mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade (Freire, 1989).

Em conformidade com o autor supracitado, pode-se considerar que a leitura literária contribui na formação do leitor tanto em formação autônoma quanto no que tange ao desenvolvimento de sua criatividade, já que os caminhos calcados pela literatura são amplos e suas compreensões, também, visto que há plurissignificados na literatura. Logo, o letramento literário, de acordo com Paulino e Cosson (2009), é um percurso de apropriação da literatura no que concerne a criação de sentidos. Assim, a literatura preenche espaços, já que “a literatura tem o poder de se metamorfosear em todas as formas discursivas (possíveis). E isso se dá porque a literatura é uma experiência a ser realizada” (COSSON, 2012). Deste modo, a partir da leitura literária proporciona-se a colocação no universo da leitura e da escrita. Para que o letramento, sob o prisma social seja concretizado entre estudantes do curso de Magistério, faz-se necessário que, primeiramente, seja mapeado o perfil de cada pesquisado e, na sequência, seja oferecido o contato com diferentes leituras – dentro do universo da literatura infantil, que é a base leitora do curso de Magistério – e posteriormente, focar nas alternativas de como essas leituras são incentivadas.

Como possível apanhado do que foi proferido nos parágrafos anteriores, salienta-se o trecho dos Parâmetros Curriculares Nacionais de 3º e 4º ciclos do Ensino Fundamental, que define a leitura de textos escritos como:

A leitura é o processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpretação do texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que sabe sobre a linguagem, etc. Não se trata de extrair informação, decodificando letra por letra, palavra por palavra. Trata-se de uma atividade que implica estratégias de seleção, antecipação, inferência e verificação, sem as quais não é possível proficiência. É o uso desses procedimentos que possibilita controlar o que vai sendo lido, permitindo tomar decisões diante de dificuldades de compreensão, avançar na busca de esclarecimentos, validar no texto suposições feitas. (Brasil, 1998).

A autonomia do leitor, apresentada nos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998), ao mencionar que o leitor pode avançar na busca de esclarecimentos a partir de leituras que realiza, bem como validar suas próprias suposições, corrobora com o que apresentam as Diretrizes da Educação Básica (2013), ao afirmarem que

A leitura e a escrita, a História, as Ciências, a Arte, propiciam aos alunos o encontro com um mundo que é diferente, mais amplo e diverso que o seu. Ao não se restringir à transmissão de conhecimentos apresentados como verdades acabadas e levar os alunos a perceberem que essas formas de entender e de expressar a realidade possibilitam outras interpretações, a escola também oferece lugar para que os próprios educandos reinventem o conhecimento e criem e recriem a cultura.

Nota-se que a habilidade de reinventar, criar e recriar a cultura, perpassa pela leitura interativa, que se relaciona com aspectos cognitivos da individualidade do leitor e sua própria bagagem leitora – que se amplia à medida em que ele se desenvolve enquanto indivíduo. Logo, vê-se que a leitura, realmente, vai além da decodificação: ela envolve o que se conhece por letramento. Traçando a leitura como atividade que possibilita a reconstrução e a ressignificação de si mesmo e do mundo, pois através dela é que se tem uma participação social mais efetiva, evidencia-se o exercício em que o sujeito se torna leitor. Advém, primeiramente, da capacidade de subjetivação, ou seja, de internalização de emoções, especialmente as positivas, sobre uma ou mais atividades presentes na leitura.

É na afetividade que está a base das memórias – responsáveis pela construção da personalidade individual de cada pessoa. Assim, nota-se que a bagagem leitora de cada pesquisado é importante, também, como elemento da construção humana de cada uma delas porque a formação dela se relaciona com memórias afetivas do leitor.

Antes dos Encontros com o Corpus, as Bases Teóricas

Quando se reflete sobre a leitura no contexto atual, uma gama imensa de possibilidades aparece. Roger Chartier (2003) esclarece que não há “a leitura”, mas múltiplas práticas de leitura. Assim, nesta pesquisa, faz-se salutar mencionar, que serão abordadas leituras não obrigatórias, não compulsórias e que carregam em si a possibilidade de convite aos pesquisados para uma experiência transformadora, promovendo encontros com sua própria subjetividade e com a coletividade. Assim, naturalmente, a formação, destes estudantes, como leitores literários poderá ser concretizada; ou, simplesmente fortificada.

Entre as habilidades que o ser humano pode desenvolver, a leitura possui importância, embora de maneira desigual para as pessoas. No contexto social, a presença da leitura pode ser observada positivamente e sua ausência, negativamente. Muitos são os programas e as ações destinadas a diminuir o analfabetismo no país – já que não conhecer o mundo das palavras faz com que essa extinção seja desejada por muitos brasileiros.

Na busca por compreender de que maneiras a escrita está presente na existência humana, em suas diversas formas, criou-se o termo letramento; ou seja, designa-se por letramento a utilização que se faz da escrita no âmbito social. Assim, letramento vai além do que saber ler e escrever: corresponde aos conhecimentos que se veiculam pela escrita, pelas formas como se utiliza a escrita para concretizar a comunicação e as relações com outras pessoas, pelo modo como a escrita é usada para se expor e dar significado ao mundo...

Vê-se que o letramento denomina as ações sociais da escrita que envolvem a competência e os conhecimentos, os processos interativos e as relações de poder relativas ao uso da escrita em contextos e meios definidos (STREET, 2003). Tais práticas sociais da escrita são diversificadas e, talvez, seja mais adequado falar de letramentos no plural, para designar toda a complexidade dos meios de comunicação de que, hoje, há (THE NEW LONDON GROUP, 1996). Vem dessa visão plural sobre o letramento, a extensão do sentido da palavra para todo o processo de construção de significado, tal qual nota-se em expressões como o letramento literário, digital, formacional, financeiro, visual, midiático...

Nota-se que o letramento literário faz parte do plural de letramentos por ser uma das utilidades sociais da escrita. Contudo, ao contrário dos demais letramentos, o letramento literário tem uma relação diferente com a escrita e, por isso, é um letramento singular. É único porque a literatura tem um espaço singular em relação à linguagem, ou seja, cabe a ela “[...] tornar o mundo compreensível transformando a sua materialidade em palavras de cores, odores, sabores e formas intensamente humanas” (COSSON, 2006).

É, justamente, nessa singularidade do “processo de apropriação da leitura enquanto construção de sentidos” (PAULINO; COSSON, 2009) que se reflete sobre a importância do letramento literário em si. Assim, é válido entender que o letramento literário vai além de uma habilidade pronta, finalizada de ler textos literários, pois exige uma atualização constante do leitor no que tange ao mundo literário. Não é só conhecimento que se alcança sobre a literatura ou os textos literários, mas uma experiência de atribuir significado ao universo através de palavras que falam de palavras, ultrapassando as barreiras tanto de espaço quanto de tempo.

No que diz respeito à literatura, considerando o espaço e o tempo, Michèle Petit argumenta que a leitura permite um distanciamento da realidade concreta do leitor, e isso pode estimular o senso crítico, bem como proporcionar um espaço de reflexões com possibilidades variadas sobre a experiência de viver a realidade que o cerca e que se apresenta diante de seus olhos no texto. Pela literatura, podemos definir estados psicológicos, conhecer lados desconhecidos de si, bem como as contradições humanas.

Ao experienciar a leitura de maneira completa, o leitor pode modificar o texto ao passo em que é modificado por ele, pois “opera um trabalho produtivo” (PETIT, 2009), considerado como reescrita. Na leitura, acrescenta que “[...]também é transformado: encontra algo que não esperava e não sabe nunca aonde isso poderá levá-lo.” (PETIT, 2009).

Petit traz à baila que especialmente na adolescência, a leitura pode ter uma posição transformadora, capaz de alterar os caminhos da vida e reorganizar os posicionamentos, ao mostrar que o ser humano experimenta afetos, tensões e angústias universais. Logo, nota-se que na ação leitora existe um leque de múltiplas medidas que envolvem o ser humano na construção constante de si, conforme cada fase de sua vida.

Nesse sentido, quando os estudantes do curso de Magistério expõem informações sobre a bagagem literária que têm – no questionário inicial – nota-se que tiveram a liberdade de escolher suas leituras em momentos anteriores de suas vidas. Vê-se que tal liberdade também diz respeito à escolha de ler ou não ler.

Atenta-se que a leitura, como bem afirma Petit, é, antes de tudo, um ato de liberdade, que foge a qualquer controle externo, já que “[...] os leitores apropriam-se dos textos, dão-lhes outro significado e mudam o sentido, interpretam à sua maneira, introduzindo seus desejos entre as linhas: é toda a alquimia da recepção. Não se pode jamais controlar o modo como um texto será lido, compreendido ou interpretado.” (2009).

A partir da leitura e o letramento que, gradativamente, podem se aprofundar na vida das pessoas, é possível atingir a subjetividade leitora, já que os textos literários nomeiam uma personagem individual, provocam a identificação (ou não) e emocionam o leitor. Assim, na leitura, aparentemente solitária, existe uma revelação de como se está perto de outras pessoas, construindo-se um espaço de pertencimento mais amplo que se estende “[...] para além do parentesco, da localidade, da etnicidade” (PETIT, 2009).

O letramento e a subjetividade leitora podem ser tocados, também, quando a leitura apresenta ao indivíduo que é plausível “[...] sair do caminho que tinha traçado para ela, escolher sua própria estrada, [...] ter direito a tomar decisões [...], em vez de sempre se submeter aos outros”. (PETIT, 2009). É possível pensar, também, nos estudantes enquanto sujeitos às intervenções literárias, mas que também podem ser os promotores de intervenções literárias; e aí está uma das concretizações possíveis do presente estudo. Logo, abre-se a compreensão de ver esses estudantess como, também, mediadores de leitura. Nesse sentido, Petit sugere uma maneira de pensar sobre o mediador de leitura:

“[...] o iniciador aos livros é aquele ou aquela que pode legitimar um desejo de ler que não está muito seguro de si. Aquele ou aquela que ajuda a ultrapassar os umbrais em diferentes momentos do percurso. Seja profissional ou voluntário, é também aquele ou aquela que acompanha o leitor no momento, por vezes, tão difícil, da escolha do livro. Aquele que dá a oportunidade de fazer descobertas, possibilitando-lhe mobilidade nos acervos e oferecendo conselhos eventuais sem pender para uma mediação de tipo pedagógico.” (PETIT, 2008)

Nota-se que o mediador ocupa um lugar fundamental para aproximar, a partir de diferentes estratégias, entre os desejos do leitor e os desejos contidos em cada obra. Desse modo, enquanto conseguem estabelecer sentido entre suas próprias bagagens leitoras e o que estão, diariamente, somando a elas, cada um dos pesquisados pode se perceber mediador de leitura e sujeito de leitura; ou melhor, quem apresenta leituras a outros leitores e também quem protagoniza sua própria realidade a partir das obras que lê.

Jorge Larrosa (2003) trabalha com muita propriedade a experiência de leitura. A partir da experiência leitora, o(a) leitor(a) pode vivenciar o mundo de outras maneiras, pode apropriar-se de novos posicionamentos, pode compreender o que se denomina por empatia e além disso, tornar-se capaz de internalizar novas vivências para a partir do que foi experienciado no mundo das palavras, interagir nas variadas formas em que a leitura se mostra e em contextos diversos.

Larrosa (2003) vê a leitura enquanto relação de produção de significado, em que o mais salutar do que o texto, é a relação com ele. Se o leitor define o que ele denomina de uma relação de apropriação com o texto, sua meta é só dominar o que leu. Para manter uma competência de escuta aberta e livre, tanto de preconceitos quanto de expectativas, o leitor deve estar atento e receptivo a o que vem da leitura. A esse tipo de relação aberta entre leitor e texto, Larrosa chama de relação de escuta. Para ele, há uma relação de escuta com o texto quando o leitor se dispõe a ouvir o que não sabe, a se perder e se deixar levar pelo que lhe vem ao encontro.

Ao teorizar acerca do leitor literário, Colomer traz à baila qual o sentido de ser um leitor literário em nossa sociedade. Para ela, o leitor competente está caracterizado como aquele com capacidade de construir um sentido nas obras lidas,

Como víamos, o leitor competente se havia definido a partir de diferentes perspectivas como aquele que sabe ‘construir sentido’ nas obras lidas. E para fazê-lo, deve desenvolver uma competência específica e possuir alguns conhecimentos determinados que tornem possível sua interpretação no seio de uma cultura (COLOMER, 2007).

Logo, se pensarmos, especificamente, nos estudantes, a leitura é primordial em suas jornadas de vida e de formação profissional; é de vital importância que o curso de Magistério fortaleça a formação leitora individual e coletiva. Com intervenções literárias no cotidiano escolar, a ação leitora na rotina da turma pode trilhar um caminho de presença acentuada na vida dos já leitores e de construção literária dos ainda não leitores literários.

Caminhos para Conhecer o Corpus das Intervenções Literárias no Curso de Magistério: Além da Bagagem Leitora Está a Subjetividade

Este artigo constrói--se a partir do questionário inicial aplicado no grupo de estudantes pesquisado. A escolha dos sujeitos da pesquisa foi definida seguindo os critérios de: a) vivência da pesquisadora enquanto docente no curso de Magistério – que faz parte da rede estadual de ensino; b) estudantes concluintes do curso de Magistério; c) formação do leitor literário no curso de Magistério – considerando-se a bagagem leitora dos futuros docentes; d) a importância da literatura infantil tanto na bagagem leitora de futuros docentes quanto no curso de Magistério, e, também, nas práticas leitoras que os estudantes do curso de Magistério farão com seus alunos na fase de pré-estágio e estágio docente (requisitos para a conclusão do futuro docente).

Para a adequada coleta e análise dos dados, todos os pesquisados assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, em que permitiam o tratamento das informações de acordo com os objetivos nele descritos. Na sequência, estará discriminado o questionário de análise inicial, bem como as motivações das questões e os eixos nas quais elas estarão distribuídas.

Com o objetivo de que os pesquisados apresentassem informações sobre sua individualidade, bagagem leitora, intenção ao ingressar no curso de Magistério, foi elaborado um questionário de análise inicial, composto por 90 perguntas que abordam tais fatores – o que possibilita a ativação da memória dos estudantes em períodos específicos de suas vidas – desde pessoais, escolares e leitoras.

Para construir as questões de maneira sistematizada, a maioria delas se apresenta com múltiplas escolhas, as que não são assim, solicitam informações específicas sobre a bagagem leitora. Entende-se, então, que se trata de questionário misto, ou seja, com questões fechadas e abertas. Para a elaboração do questionário, a partir do problema desta tese, o roteiro foi organizado em sete eixos:

  1. Reconhecimento de quem é, de onde vem, bem como ativação da memória pré-escolar até a vivência estudantil atual – englobando por que a escolha de cursar Magistério;

  2. Ativação das memórias referentes às leituras habituais: abarcam o que lê, com que frequência lê e quais gêneros de leitura prefere;

  3. Memórias sobre os suportes, a preferência e o tempo de leitura;

  4. Reconhecimento dos espaços e disposições físicas de leitura: ambientes em que prefere ler e como se sente fisicamente enquanto lê, e depois de ler;

  5. Reflexão sobre as dimensões valorizadas na leitura: aspectos que tratam sobre a leitura na vida do leitor, desde as contribuições que ela pode trazer até a citação de leituras que prefere;

  6. Posicionamento sobre o papel das instituições e mediadores de leitura: atribuição de importância para agentes e instituições específicas em relação à própria formação leitora;

  7. Reflexão sobre antes, durante e depois da leitura: táticas e estratégias de leitura.

A partir deste questionário, nota-se que é possível conhecer melhor quem é cada um dos pesquisados e sua vivência leitora até o momento, enquanto estudante do curso de Magistério. A partir desta abordagem inicial, a pesquisa apresentará as intervenções literárias que serão baseadas na Literatura Infantil – por se reconhecer a importância da mesma na formação do futuro docente, bem como por esta também fazer parte da bagagem do leitor literário.

Ressalta-se que as demandas coletadas desde o questionário até, posteriormente, através das intervenções literárias, serão analisadas sob o prisma qualitativo. Desde a preparação do projeto, até a organização do questionário, e a elaboração das intervenções literárias, há a preocupação com o olhar destinado a toda e qualquer informação coletada, já que elas apresentam a vivência de cada pesquisado em aspectos importantes para a presente pesquisa.

Ressalta-se que as demandas coletadas serão analisadas sob o prisma qualitativo. Diferentemente da pesquisa quantitativa, a pesquisa qualitativa trabalha com questões empíricas e documentais. Essa atenção foi base para a organização de todo o trabalho – que apresenta parte da fundamentação teórica que está em construção, além de a análise do questionário inicial e os resultados obtidos até o momento.

Considera-se, também, que em uma pesquisa qualitativa, é indispensável conhecer os termos estruturantes da tese; sua matéria prima é feita por um conjunto de particularidades cujos significados se completam: experiência, vivência, senso comum, subjetividade e ação. Conforme Minayo (2010), O movimento que informa qualquer análise é fundamentado em três verbos conhecidos pelos pesquisadores: compreender (colocar-se no lugar do outro), interpretar (apropriar-se do que compreende) e dialetizar (transformar em texto o que se compreende).

A palavra “experiência”, adotada historicamente por Heidegger (1988), refere-se ao que os indivíduos aprendem no lugar que ocupam no mundo e nas ações que realizam. Ou seja, a experiência é sinônima de compreensão: as pessoas compreendem a si mesmas e ao sentido de sua existência no mundo da vida.

Por ser constitutiva da existência humana, a experiência nutre os pensamentos e se expressa na linguagem. Mas, a linguagem vem somada pela experiência e pela organização feita pelo interlocutor através de suas próprias reflexões e interpretações num movimento em que o narrado e o vivido estão emaranhados na narrativa em si.

Assim, mesmo que a experiência seja a mesma para um grupo de pessoas, no caso, as intervenções sejam as mesmas para todo o grupo de normalistas, cada um dos indivíduos (conforme suas bagagens literárias e vivências) entenderá de maneira única as propostas. Mesmo que cada experiência seja pessoal e ao mesmo tempo coletiva, ela tende a oferecer base para que sejam construídas reflexões individuais e em grupo de maneira diversa.

Esta pesquisa acontece de maneira humana e social, pois é uma atividade em que as pessoas envolvidas construirão sentidos diferentes ou aprofundarão os já construídos por suas leituras e vivência cultural. Logo, a ação da tese está ligada à ideia de liberdade para pensar, agir, transformar e sentir o mundo real e literário, bem como sua própria subjetividade.

Conforme Thiollent (1986) a relação entre conhecimento e ação existe tanto na esfera da ação quanto da técnica. Ou seja, a pesquisa proposta neste projeto torna-se ação desde o instante em que seleciona o conhecimento (teoria) em função das ações sociais que serão realizadas nas intervenções literárias com os estudantes do curso de Magistério no Instituto Estadual de Educação Borges do Canto. Na intenção de contribuir com a presente investigação, conforme sugere Maria Célia Ribeiro da Silva (2001), nota-se a abertura de espaços formais e não formais para estudar experiências de mediação do texto literário através da sistematização de uma experiência. Logo, envolve-se, aqui, a apreciação de narrativas, músicas, poemas, vídeos a cada encontro:

[...] no desenvolvimento da pesquisa-ação, os pesquisadores recorrem a métodos e técnicas de grupo para lidar com a dimensão coletiva e interativa da investigação e também técnicas de registro, de processamento e de exposição de resultados. [...] O papel da metodologia consiste em avaliar as condições de uso de cada uma das técnicas. As características de cada método ou de cada técnica podem inferir no tipo de interpretação dos dados que produzem. (THIOLLENT, 2009, p. 29).

As técnicas adotadas no estudo procurarão envolver os participantes de maneira interativa, seja através de leituras orais dinâmicas, confecção de trabalhos manuais, além da elaboração de textos escritos. Acredita-se que, assim, os normalistas se sintam parte do estudo – fator importante para o desenvolvimento da pesquisa.

Há que se mencionar que a definição do escopo para o presente estudo aconteceu de maneira natural. Devido ao fato de a pesquisadora ter contato com os sujeitos da pesquisa por três anos, e perceber a necessidade de intervir na realidade cotidiana do curso de Magistério no que diz respeito à formação leitora e manutenção dessa, houve a iniciativa de realizar tal estudo. Nesse sentido, sabe-se que o grupo pesquisado não é amplo, no entanto, isto é algo positivo, pois assim, a visão sobre os materiais coletados não será superficial e nem de maneira que dificulte a compreensão das interconexões realizadas no cruzamento de dados e na fundamentação teórica.

Entre as formas de ilustrar as informações encontradas no questionário inicial, esta pesquisa adota, também, o mapa de calor. Trata-se de uma maneira de visualização das correlações entre as variáveis analisadas, criada por Cormal Kinney, na década de 1990. Através deste dispositivo, informações são apresentadas em como as variáveis estão relacionadas entre si, com um índice de correlação variando de -1.0 a +1.0. Índices 0.9 para mais ou para menos indicam uma correlação muito forte; 0.7 a 0.9 positivo ou negativo, indicam uma correlação forte; 0.5 a 0.7 positivo ou negativo indica uma correlação moderada. Menos de 0.5 indica que a correlação é fraca ou inexistente. Logo, a combinação de cores também auxilia na identificação das correlações: quanto mais clara, menos correlação, quanto mais escura, maior a correlação.Logo, trata-se de um estudo inacabado, em construção constante. De acordo com Malinowski (1978), em seu clássico trabalho sobre os princípios da abordagem antropológica: é fundamental ter todo o material teórico elaborado, todos os instrumentos operacionais prontos e à disposição, como se o êxito da investigação dependesse somente deles. Porém, é também indispensável estar tão atento e aberto às novidades do campo que, caso seja necessário, o investigador abra mão de suas certezas a favor dos influxos da realidade.

Questionário Inicial: Ponto de Partida para Abrir a Bagagem Leitora dos Pesquisados

Como já se sabe, o presente estudo caminha por uma abordagem qualitativa, logo, os dados coletados pelo questionário inicial são fonte de análise e interpretação para conhecer melhor o corpus da pesquisa-ação. Os resultados colhidos ao longo da pesquisa seguirão à luz do paradigma indiciário de Carlo Ginzburg, pois é uma prática que considera sinais importantes (cada parte das ações) e vestígios em uma investigação.

Pretende-se examinar desde as abordagens iniciais até o encerramento das intervenções literárias, cada ação realizada com o grupo pesquisado, já que toda a pesquisa-ação entrelaça bases teóricas com as propostas concretizadas durante os encontros.

Para conhecer melhor cada um dos alunos e sua respectiva bagagem literária até o momento, foi realizado um questionário inicial em que é possível encontrar informações a respeito de aspectos sociais, culturais e leitores de cada um. Neste primeiro momento, é importante mencionar que se trata de uma turma inteira de terceiro ano do curso de Magistério. No estabelecimento de ensino há apenas uma turma de cada ano, então, o corpus deste estudo trabalha com a coletividade.

No que tange aos aspectos caracterizadores dos pesquisados, a turma é formada por 10 alunos, sendo 09 do sexo feminino e 01 masculino. A idade deles se enquadra entre 17 e 18 anos. Todos pretendem realizar o estágio final do curso – o que lhes confere o diploma de curso profissionalizante. Neste público, há 04 alunos de Palmeira das Missões, 03 de Novo Barreiro e 03 de Barra Funda.

Sobre a educação infantil, ressalta-se que todos cursaram a pré-escola e realizaram a maior parte do ensino fundamental na rede pública de ensino. Entre os 10 alunos, apenas 01 cursou parte de sua educação na rede privada. As leituras que realizam, atualmente, dividem-se entre físicas e digitais, tendo em vista que todos possuem computador e smartphone. Leitor digital, apenas uma aluna possui.

Tais dados podem ser complementados com as informações abaixo, que são referentes à renda familiar da turma:

Figura 1: Soma de rendimentos mensais na residência
Figura 2: Motivo para cursar Magistério

Nota-se, no primeiro gráfico, que a renda familiar que se refere de 0,5 a 2 salários mínimos é o que mais está presente entre os pesquisados. Aliado a esse aspecto financeiro, pode-se notar que como a maioria da turma sempre estudou em rede pública de ensino, e nem todos vêm da mesma cidade, o consenso maior está na busca por um ensino de qualidade, mesmo que ele implique em ser o curso de Magistério. Dito isso, nota-se em um dos gráficos que a maioria dos pesquisados está nesta modalidade pela qualidade do ensino, e não necessariamente para exercer a profissão docente.

Há que se considerar que boa parte dos alunos vindos de outras cidades afirmam que nas escolas anteriores que frequentavam, o ensino era menos exigente e que a única maneira de buscar mais qualidade na aprendizagem, seria cursando Magistério. Nota-se, ainda, que a respeito dos alunos que querem exercer a profissão docente depois, existem situações de já haver professores nas famílias, ou, de as famílias terem poucos membros que seguiram no estudo – o que mostra que existe a busca pela modificação da própria realidade através dos estudos. Válido mencionar que entre a gratuidade e a qualidade no ensino, existe o fator de os pais, ou apenas um deles, querer muito que o estudante curse Magistério. Desse modo, este aluno cursa o que foi determinado pela família, embora não queira ser docente.

Importante que a questão financeira ao lado dos motivos que levaram cada um dos pesquisados a cursar Magistério estão intimamente ligados com a bagagem leitora deles. Através do mapa de calor elaborado a partir das correlações positivas e negativas de aplicação do questionário inicial, nota-se que há uma correlação negativa (-71%), inversamente proporcional ao nível de escolaridade dos pais.

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Significa que quanto menor o nível de escolaridade dos pais, maior é a frequência leitora de livros impressos entre os alunos. Isso também acontece com a leitura de jornal impresso (correlação -87%). Mais uma vez, vê-se que o público deste estudo procura, através não só dos estudos, mas também da leitura, construir uma realidade diferente da que seus pais e familiares tiveram e ainda têm.

Figura 3: Mapa de calor das correlações encontradas no questionário inicial

Na visualização do mapa de calor acima, um dos aspectos interessantes encontrado, é que a raça/cor/etnia apresenta uma correlação de 100% com a leitura de livros impressos. Ou seja, os alunos autodeclarados pardos leem mais livros que os que se declaram brancos. Tal informação ilustra o que há muito tempo pode ser visto na sociedade: pessoas brancas, por simplesmente serem brancas, esforçam-se menos que as não brancas para terem acesso ao ensino e a oportunidades profissionais. Denota-se a ideia de que as não brancas precisam se esforçar mais que as brancas para terem chance de estarem em uma mesma instituição de ensino, em um mesmo caminho profissional.

De acordo com Retratos do Brasil (2021), há mais leitores nas classes sociais mais favorecidas e com maior possibilidade de acesso a atividades sociais e bens culturais, mas essa condição apresenta um contexto preocupante: a manutenção desse status quo. Para que uma sociedade aprimore seu desenvolvimento humano, faz-se importante que reduza as desigualdades sociais e construa uma democracia forte, ao passo em que a população se torne leitora.

A leitura de livros impressos apresenta uma correlação negativa (-66%), inversamente proporcional à leitura frequente de textos religiosos. Quanto menos leituras religiosas, mais livros impressos são lidos. Quanto menos leituras sobre esta área da vida, mais obras de assuntos diversos são lidas. Logo, a leitura religiosa não apresenta uma correlação relevante com a leitura de livros impressos e digitais.

No que tange a leitura de livros digitais, o mapa de calor mostra que elas estão diretamente relacionadas (correlação de 87%) com a renda familiar. Há uma considerável correlação entre o sexo e a leitura de jornal impresso (61%) e com a leitura de revista eletrônica (67%). Observa-se que existe a predominância de interesse do sexo masculino neste tipo de leitura.

Sobre a quantidade de livros impressos que possuem em casa, há uma relação direta com a cidade em que moram: os alunos que moram mais longe têm mais livros físicos (73%). Do mesmo modo, estes leem mais jornal eletrônico (correlação de 80%) e com um tempo maior de leitura em meios digitais sobre leituras variadas (correlação de 70%).

Vê-se que existe uma correlação entre a leitura de jornal impresso com a leitura de livros impressos (67%) e com revistas impressas (67%). Significa que o público leitor da turma ainda prefere leitura impressa a digital, mesmo que o número de leitura digital seja alto no que diz respeito a jornais, a turma diz que sente dificuldade em se adaptar a ler livro digital. Afirmam que a leitura de reportagens é mais rápida, então, o meio digital facilita. Em contrapartida, a sensação de pegar o livro, sentir o cheiro, folhear, marcar, é incomparavelmente melhor que apenas ler digitalmente. Mencionam que com o livro físico há mais aproximação e pessoalidade que com o livro digital.

Observa-se, no que tange ao gênero ou à temática dominante de leitura, que nenhum participante da pesquisa faz a leitura dos seguintes temas: blog (ou similar), carta ou e-mail, conto erótico (ou similar), ensaio, entrevista, obra didática ou de autoinstrução, texto técnico ou de formação profissional.

Interessante observar que mesmo frequentando um curso técnico, os alunos não têm entre suas leituras, aquelas pertinentes à sua própria formação profissional. É o que mostra o seguinte gráfico:

Vê-se que na bagagem de leituras da turma, há muitas literárias – o que é muito positivo. A partir do conhecimento sobre a bagagem de cada um dentro desta coletividade, é que as intervenções literárias serão concretizadas. Contudo, há que se mencionar, que o ponto de partida das intervenções será baseado na literatura infantil e juvenil, tendo em vista que a base é a bagagem literária de cada um até o momento, ao mesmo tempo em que se mira na prática docente de todos – pois o pré-estágio acontece no mês de outubro e o estágio no ano de 2024.

Mesmo que todos os pesquisados demonstrem reconhecer a importância da leitura na vida de qualquer ser humano, vê-se que a bagagem leitora do grupo não apresenta tanta profundidade no que concerne à leitura literária. Importante mencionar, que de acordo com o livro de 2021, Retratos do Brasil, a leitura é observada como libertadora e promotora do protagonismo no acesso ao conhecimento e à cultura. Assim, ela (trans)forma, informa, emociona e humaniza. Aproxima o leitor do que é humano no mundo das palavras, desde significados, tempos, lugares e culturas que envolvem cada pessoa em suas diferentes fase da vida.

Faz-se necessário que o Brasil se torne um país de leitores. Porém, de acordo com a Retratos da Leitura, 48% dos não leitores revelados na pesquisa confirmam o tamanho do problema acerca da formação de leitores neste país. A posição do Brasil no ranking de indicadores internacionais como o PISA (em 2018) – composto por 77 países, apresenta o Brasil em 57ª posição. Pouco mais de 50% dos estudantes brasileiros com 15 anos não conseguiram atingir o nível básico de leitura. Se mais de 40% dos pesquisados afirmam que não leem por terem dificuldade em compreender o que leem, conclui-se que quatro em cada dez brasileiros com mais de 05 anos não dispõem de mecanismos básicos para o acesso ao conhecimento, à aprendizagem e par a transformação da sua situação social. Então, tem-se aqui uma gama importante de informações que são pertinentes ao questionário analisado, já que o mapeamento deste futuro docente enquanto leitor e formador de leitores se apresenta em consonância com o retrato dos leitores no Brasil.

RESULTADOS

Após realizar a proposta inicial e ponderar sobre as informações colhidas a partir do questionário inicial, chega-se a algumas conclusões: houve participação efetiva da turma de estudantes do curso de Magistério – o que comprova o interesse de cada um em participar, futuramente, das intervenções literárias, bem como a disposição natural em revelar aspectos importantes sobre a individualidade e formação leitora que possuem.

Também se conclui que todos os participantes, mesmo que tenham a leitura incorporada de maneira maior ou menor em suas vidas, percebem que o texto literário pode atingir o ser humano subjetivamente – pois, em meio a conversas enquanto respondiam o questionário inicial, houve o reconhecimento de que a leitura é uma ferramenta capaz de contribuir positivamente na vida das pessoas para o enfrentamento de desafios, bem como para adotar uma maneira melhor de viver.

Outra questão observada está relacionada à experiência leitora, constatou-se que a construção de cada bagagem literária é permeada por escolhas diferentes e semelhantes dentro do grupo – aspecto que apresenta a ideia de que a escolha da leitura depende de aspectos referentes à vivência individual e que a forma como essa leitura é recebida, também.

Ao mesmo tempo, vê-se que esta análise inicial é uma ferramenta que amplia a maneira de ver e interpretar a realidade dos estudantes do curso de Magistério, pois a partir das informações por eles apresentadas, é possível construir intervenções literárias enriquecedoras e capazes de atingir a subjetividade leitora, tanto de maneira individual quanto coletiva na formação de futuros docentes.

CONCLUSÃO

Faz-se necessário, nesta seção, retomar o objetivo deste artigo: analisar a bagagem leitora literária dos estudantes do curso de Magistério, com vistas a relacioná-la com as práticas de leitura que podem realizar durante a realização do pré-estágio e estágio docentes – o que colaborará, sobremaneira para a visão sobre a literatura tanto na formação profissional do grupo quanto na sua construção constante deles como seres humanos – o que considera a subjetividade de cada um.

Diante disso, considera-se que o presente estudo foi uma experiência inicial marcante, significativa e transformadora para a pesquisadora e também para os participantes, pois enquanto o questionário era respondido, trocavam informações entre eles – o que promovia o conhecimento da individualidade de cada um no grande grupo.

Portanto, crê-se que partir da realidade dos pesquisados para a construção de intervenções literárias é uma ótima estratégia para a concretização positiva de ações leitoras que fomentem a leitura, a reflexão, a dialogicidade e o olhar para si – aspectos que contribuem muito para a transformação da subjetividade leitora.

Entende-se, também, que o questionário inicial foi uma peça indispensável para melhor conhecer o grupo pesquisado, e através dele observar que mesmo tendo realizados diversas leituras literárias até o momento presente, a turma não tem muito conhecimento sobre clássicos literários, sobre o acervo de literatura infantil e juvenil que há na escola, e também pode aprofundar a vivência literária individual e coletiva a partir das futuras intervenções – que colaborarão muito para suas práticas docentes que iniciarão em breve.

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1 Doutora do Programa de Pós-graduação em Letras da UPF, mestra em Letras pela UPF, especialista em Letras pela URI, licenciada em Letras pela UNIJUÍ, bacharela em Direito pela UPF, especialista em Gestão Cultural pelo SENAC/SP. Atualmente é professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira da Educação Básica no município de Palmeira das Missões/RS. E-mail: [email protected].

2 Possui graduação em Letras pela UPF, Mestrado em Letras pela PUCRS, Doutorado em Letras pela PUCRS, Pós-Doutorado pela Universidade de Coimbra. É professora titular da Universidade de Passo Fundo (UPF) no curso de Letras, no Programa de Pós-Graduação em Letras e Coordenadora das Jornadas Literárias de Passo Fundo. Integrante do GT de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil da ANPOLL. Foi docente Orientadora do Programa de Residência Pedagógica de Letras/UPF. Desenvolve projetos nas linhas de pesquisa Leitura e Formação do Leitor e Produção e Recepção do Texto Literário, desenvolve projetos nas linhas de pesquisa Leitura e Formação do Leitor e Produção e Recepção do Texto Literário, focalizando seus trabalhos na Literatura Infantil e Juvenil, na formação do leitor literário e na leitura literária, bem como na escola; literatura e ensino, em desenvolvimento de metodologias de ensino da literatura infantil e juvenil. É líder do Grupo de Pesquisa CNPq: Sobre Ensino de Literatura. Atualmente é Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras/PPGL. E-mail: [email protected]