CURRÍCULOS, METODOLOGIA E TECNOLOGIA UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.16990850


Elizandra Waschinevski Rafael1


RESUMO
O presente estudo tem como objetivo analisar as transformações ocorridas nos currículos da Educação a Distância (EAD), com ênfase na inserção do web currículo como alternativa para potencializar processos de ensino e aprendizagem mediados por tecnologias digitais. A pesquisa, de natureza bibliográfica, concentra-se em investigações recentes que abordam os desafios e as possibilidades que emergem na reconfiguração curricular no ambiente virtual. Considera-se que, na EAD, o currículo não é estático, mas sim um campo dinâmico de significações, construído por múltiplos sujeitos e saberes interativos. A noção de web currículo aponta para um arranjo mais fluido, não linear, em que conteúdos, mídias e práticas se articulam a partir da autoria discente e docente, com base em redes colaborativas e contextos reais. Nesse cenário, o papel do professor se ressignifica, assumindo a função de mediador e curador de experiências formativas, enquanto o estudante passa a atuar de forma mais autônoma e crítica. O estudo evidencia que os currículos em EAD requerem constante atualização, pautada na flexibilidade, acessibilidade, e intencionalidade pedagógica. Conclui-se que o web currículo contribui para uma abordagem mais inclusiva e responsiva às demandas contemporâneas, ampliando as possibilidades de aprendizagem significativa e a personalização dos percursos formativos. Ao considerar a interatividade como eixo estruturante, a pesquisa reforça a importância de políticas educacionais que reconheçam a centralidade do currículo na qualidade da EAD e invistam na formação continuada dos educadores para que possam enfrentar os desafios da prática pedagógica digital com criatividade e criticidade.
Palavras-chave: Educação a Distância. Currículo digital. Tecnologias educacionais. Mediação pedagógica. Web Currículo.

ABSTRACT
This study aims to analyze the transformations that have occurred in Distance Education (DE) curricula, with an emphasis on the inclusion of the web curriculum as an alternative to enhance teaching and learning processes mediated by digital technologies. The research, of a bibliographic nature, focuses on recent investigations that address the challenges and possibilities that emerge in the curricular reconfiguration in the virtual environment. It is considered that, in DE, the curriculum is not static, but rather a dynamic field of meanings, constructed by multiple subjects and interactive knowledge. The notion of web curriculum points to a more fluid, non-linear arrangement, in which content, media and practices are articulated based on student and teacher authorship, based on collaborative networks and real contexts. In this scenario, the role of the teacher is redefined, assuming the role of mediator and curator of formative experiences, while the student begins to act in a more autonomous and critical way. The study shows that DE curricula require constant updating, based on flexibility, accessibility and pedagogical intentionality. It is concluded that the web curriculum contributes to a more inclusive and responsive approach to contemporary demands, expanding the possibilities of meaningful learning and the personalization of educational paths. By considering interactivity as a structuring axis, the research reinforces the importance of educational policies that recognize the centrality of the curriculum in the quality of distance education and invest in the continued training of educators so that they can face the challenges of digital pedagogical practice with creativity and critical thinking.
Keywords: Distance Education. Digital curriculum. Educational technologies. Pedagogical mediation. Web Curriculum.

1 INTRODUÇÃO

A emergência de novas tecnologias digitais vem remodelando os modos de ensinar e aprender, especialmente no contexto da Educação a Distância (EAD), que tem crescido de forma exponencial nas últimas décadas. Diante desse cenário, discutir o papel do currículo nesse novo ambiente de aprendizagem torna-se uma urgência pedagógica e social. A configuração tradicional do currículo, centrada na linearidade e na transmissão de conteúdos fixos, não responde mais às necessidades de uma sociedade em constante transformação. Nesse contexto, surge o conceito de web currículo, uma proposta que ultrapassa os limites físicos e temporais da sala de aula convencional e que demanda uma abordagem pedagógica mais interativa, participativa e conectada com as múltiplas realidades dos sujeitos da aprendizagem.

O objetivo deste estudo é analisar as transformações ocorridas nos currículos da EAD, destacando a inserção do web currículo como estratégia para potencializar práticas educativas mediadas por tecnologias digitais. Para isso, optou-se por uma pesquisa bibliográfica, com base em autores contemporâneos que discutem as relações entre currículo, tecnologia e inovação educacional.

O trabalho está estruturado em duas partes principais. A primeira, intitulada “Entre Redes e Rotas: O Currículo como Caminho Conectivo na EAD”, discute como o currículo deixa de ser um itinerário fechado para tornar-se uma construção coletiva, fluida e responsiva aos contextos digitais. A segunda parte, “Da Prescrição à Criação: Autoria e Participação no Web Currículo”, explora como professores e estudantes reinventam suas práticas no ambiente virtual, assumindo papéis mais ativos na construção de sentidos e saberes. A investigação reafirma a importância de pensar o currículo não como produto acabado, mas como processo aberto, em constante reelaboração, coerente com os princípios de uma educação mais democrática, crítica e inclusiva.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A rápida expansão da Educação a Distância (EaD) no Brasil e no mundo tem provocado um redesenho profundo nos modos de organizar o conhecimento, exigindo dos sistemas educacionais uma reinvenção das práticas pedagógicas e curriculares. Não se trata apenas de transpor conteúdos presenciais para plataformas digitais, mas de compreender as novas lógicas de interação, autoria e mediação que emergem nos ambientes virtuais de aprendizagem. Nesse cenário, surge o conceito de web currículo como uma resposta inovadora às demandas da contemporaneidade, assumindo um caráter dinâmico, rizomático e centrado no protagonismo dos sujeitos.

A Educação a Distância, historicamente associada à flexibilização dos tempos e espaços escolares, passou a incorporar o uso intensivo de tecnologias digitais que não apenas mediam a aprendizagem, mas reconfiguram sua natureza. Segundo Moura e Lima (2020), o currículo tradicional, linear e prescritivo, entra em crise quando confrontado com as possibilidades interativas e hipertextuais do ambiente digital, abrindo espaço para propostas curriculares mais abertas e conectivas.

O web currículo, nesse contexto, desponta como uma proposta inovadora que rompe com a ideia de sequência fixa e conteúdos homogêneos, dando lugar a percursos formativos personalizados, adaptáveis e co-construídos. Oliveira e Martins (2019) afirmam que o web currículo potencializa a autonomia discente e amplia as fronteiras da aprendizagem, ao considerar os saberes produzidos fora do espaço escolar e integrá-los aos ambientes virtuais de ensino.

Outro aspecto fundamental diz respeito à interatividade. Menezes e Rocha (2021, p.41) destacam que,

A interatividade não pode ser confundida com o simples clique ou navegação em conteúdos estáticos, mas deve ser entendida como construção coletiva do conhecimento, em que estudantes e professores atuam como coautores do processo formativo. O currículo, nesse sentido, transforma-se em um espaço de diálogo, criação e negociação permanente de significados.

As tecnologias educacionais, embora muitas vezes vistas como neutras, trazem em si visões de mundo, valores e implicações pedagógicas. Assim, pensar um currículo em rede exige também um olhar crítico sobre os modos como esses recursos são inseridos na prática educativa. Lopes e Silva (2019) defendem que a formação docente deve contemplar não apenas o domínio técnico, mas, sobretudo, a compreensão pedagógica das ferramentas digitais, garantindo que sua utilização contribua efetivamente para a construção de aprendizagens significativas.

3 METODOLOGIA

A presente pesquisa caracterizou-se como um estudo de natureza bibliográfica, com abordagem qualitativa e caráter exploratório, tendo como objetivo analisar a relação necessária entre currículos, metodologias e tecnologias no contexto educacional contemporâneo. A escolha por esse tipo de investigação justificou-se pela necessidade de compreender como a integração entre esses três eixos contribui para a construção de práticas pedagógicas mais significativas, inovadoras e alinhadas às demandas da sociedade digital.

A coleta de dados foi realizada por meio da seleção e análise de livros, artigos científicos, dissertações, teses e documentos oficiais relacionados às políticas curriculares e à inserção das tecnologias digitais na educação. Para tanto, foram utilizadas bases de dados e repositórios de reconhecida credibilidade, como Google Acadêmico, SciELO, Portal de Periódicos da CAPES, entre outros. O processo de seleção considerou critérios de relevância temática, atualidade com prioridade para publicações dos últimos cinco anos e pertinência ao objeto de estudo, com ênfase em autores brasileiros que discutem a relação entre currículo, metodologias ativas e tecnologias digitais no ensino.

O procedimento metodológico adotado envolveu uma leitura crítica, reflexiva e interpretativa dos textos selecionados, com a finalidade de identificar convergências, divergências e lacunas nas discussões sobre a integração curricular e tecnológica. Essa análise possibilitou compreender como diferentes abordagens defendem a articulação entre conteúdos curriculares, estratégias metodológicas inovadoras e recursos tecnológicos, visando à promoção de aprendizagens mais contextualizadas, participativas e transformadoras.

Por se tratar de uma pesquisa de caráter exclusivamente bibliográfico, não foram realizadas coletas de dados primários, nem aplicados instrumentos como questionários ou entrevistas com sujeitos. Entretanto, a sistematização das informações obtidas nos materiais selecionados possibilitou a construção de uma reflexão crítica e aprofundada, apontando tanto os desafios quanto as potencialidades da aproximação entre currículo, metodologia e tecnologia. Dessa forma, a metodologia adotada permitiu fundamentar teoricamente a discussão, oferecendo subsídios para compreender a relevância dessa tríade na construção de uma educação voltada para a formação integral dos estudantes e para a cidadania na sociedade contemporânea.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A mediação pedagógica ganha, nesse cenário, novo status. Santos e Barreto (2021) sugerem que o professor, na EaD, não é apenas um transmissor de conteúdos, mas um curador de experiências de aprendizagem, capaz de selecionar, articular e problematizar diferentes fontes de conhecimento. O web currículo exige, assim, uma atuação docente mais sensível às necessidades dos estudantes, mais aberta ao imprevisto e à escuta.

As possibilidades de personalização dos percursos formativos também configuram uma das principais vantagens do currículo digital. De acordo com Carvalho e Figueiredo (2023, p.21),

O uso de plataformas inteligentes pode permitir o mapeamento de preferências, ritmos e estilos de aprendizagem, possibilitando a criação de trilhas adaptativas que respeitam a singularidade de cada aluno. Contudo, alertam que essa personalização deve ser guiada por princípios éticos e pedagógicos, para não reforçar desigualdades ou práticas de vigilância.

Por outro lado, é preciso reconhecer os riscos e limites dessas propostas. A flexibilização curricular pode ser cooptada por lógicas mercadológicas que promovem uma educação fragmentada e superficial. Moura e Lima (2020) alertam que o web currículo não deve ser confundido com uma simples multiplicidade de conteúdos ou com uma hiperatividade tecnológica sem direção. É necessário garantir intencionalidade formativa e coesão pedagógica.

O acesso desigual à tecnologia e à internet também representa um obstáculo importante. Lopes e Silva (2019) ressaltam que, para que o web currículo seja verdadeiramente inclusivo, é preciso investir em políticas públicas de acesso digital e em ações que reduzam a exclusão tecnológica. A democratização do currículo passa, portanto, pela democratização das condições materiais de aprendizagem.

A construção do web currículo requer, ainda, uma mudança de mentalidade institucional. As escolas e universidades precisam revisar suas estruturas organizacionais, seus tempos pedagógicos e suas formas de avaliação. Carvalho e Figueiredo (2023) apontam que a avaliação na EaD deve ser contínua, processual e dialógica, acompanhando o percurso dos estudantes e valorizando diferentes formas de expressão do conhecimento.

É interessante observar que o web currículo não substitui o currículo tradicional, mas o tensiona, amplia e transforma. Trata-se de uma abordagem complementar, que convida à construção de uma educação mais aberta, crítica e conectada com o mundo contemporâneo. Oliveira e Martins (2019) defendem que a coexistência de múltiplas racionalidades curriculares pode enriquecer a experiência formativa, desde que haja diálogo entre elas.

No centro dessa discussão está a ideia de autoria. Menezes e Rocha (2021) argumentam que, na EaD, o protagonismo do estudante é essencial para que o currículo tenha sentido e relevância. A autoria se manifesta na capacidade de escolher caminhos, de construir conexões e de produzir saberes próprios a partir das vivências no ambiente digital.

A colaboração entre pares é outro elemento-chave do web currículo. Santos e Barreto (2021) enfatizam que o trabalho coletivo, mediado por ferramentas digitais, permite a construção de comunidades de aprendizagem em que o conhecimento é compartilhado, revisado e ampliado em tempo real. Essa lógica contrasta com a individualização típica dos currículos tradicionais.

A formação docente é, nesse contexto, um dos maiores desafios. Lopes e Silva (2019) afirmam que os cursos de licenciatura ainda não preparam adequadamente os professores para atuar em ambientes virtuais, tanto no domínio técnico quanto nas dimensões éticas e pedagógicas da atuação digital. É necessário repensar os currículos da formação inicial e investir em políticas de formação continuada.

O currículo digital, ao ser concebido de forma crítica e contextualizada, precisa assumir uma função articuladora entre conteúdos, metodologias e tecnologias. Moura e Lima (2020) destacaram que o web currículo, enquanto proposta inovadora, deve ultrapassar a simples transposição do ensino tradicional para ambientes virtuais. É fundamental compreender que a realidade dos estudantes, marcada por suas experiências, trajetórias culturais e práticas sociais, não pode ser desconsiderada. Quando o currículo ignora esses elementos, a Educação a Distância corre o risco de se tornar um espaço meramente técnico, reduzido à transmissão de informações, desprovido de significado e distante das necessidades reais de aprendizagem. Dessa forma, o web currículo somente se sustenta quando incorpora a diversidade, a pluralidade e a participação ativa dos sujeitos, criando pontes entre o conhecimento acadêmico e a vida cotidiana.

Nesse sentido, a gestão educacional desempenha um papel estratégico para que a proposta de um currículo digital efetivo se concretize. Oliveira e Martins (2019) apontaram que, mais do que elaborar documentos prescritivos, a gestão deve promover espaços de diálogo e participação coletiva, nos quais professores, estudantes e comunidade escolar se sintam corresponsáveis pela construção do projeto pedagógico. Esse alinhamento exige que a coordenação pedagógica e a gestão institucional adotem práticas de acompanhamento mais colaborativas, voltadas não para o controle, mas para a promoção da autonomia docente e discente. A flexibilidade organizacional, apontada pelos autores, emerge como condição indispensável para a inovação, uma vez que permite a adaptação constante do currículo às novas demandas, sem perder de vista os objetivos formativos mais amplos.

Outro ponto essencial refere-se ao processo avaliativo. Carvalho e Figueiredo (2023) argumentaram que a avaliação no web currículo não deve se restringir a instrumentos quantitativos ou padronizados, como provas de múltipla escolha. Em um contexto digital, em que o conhecimento se constrói de forma colaborativa e dinâmica, a avaliação precisa acompanhar esse movimento. Assim, propõem-se estratégias formativas e integradas, capazes de valorizar não apenas o produto final, mas todo o processo de aprendizagem. Portfólios digitais, projetos interativos e registros reflexivos tornam-se ferramentas poderosas para documentar e analisar o percurso do estudante, ao mesmo tempo em que estimulam a autoria e a autonomia. Essa abordagem desloca o foco da avaliação classificatória para uma prática pedagógica emancipadora, que reconhece o estudante como sujeito ativo do processo educativo.

No entanto, a consolidação de um web currículo também depende de uma dimensão ética, voltada à sustentabilidade educacional. Santos e Barreto (2021) alertaram para os riscos da mercantilização da educação digital, quando interesses comerciais se sobrepõem à formação integral dos sujeitos. Em muitos casos, plataformas digitais e softwares educacionais são incorporados de forma acrítica, respondendo mais a lógicas de mercado do que às necessidades pedagógicas. Esse fenômeno ameaça transformar o currículo digital em um produto de consumo, esvaziando seu potencial formativo. Para evitar essa instrumentalização, torna-se indispensável garantir que a tecnologia esteja a serviço da justiça social, da cidadania e da humanização. Isso implica defender políticas públicas que assegurem acesso equitativo às ferramentas digitais e incentivem práticas pedagógicas comprometidas com a inclusão e a democratização do conhecimento.

Ao romper com modelos curriculares tradicionais, o web currículo propõe uma nova forma de organizar a experiência educativa. Moura e Lima (2020) salientaram que essa mudança envolve uma reconfiguração profunda do papel do professor, que deixa de ser o detentor exclusivo do saber para se tornar mediador, orientador e incentivador da produção coletiva do conhecimento. Essa transição não significa uma perda de autoridade, mas sim uma redefinição, na qual o docente atua como curador de informações, ajudando os estudantes a navegar criticamente em um mar de conteúdos digitais. Esse reposicionamento requer também formação continuada, pois os professores precisam desenvolver competências digitais, pedagógicas e críticas para lidar com os desafios emergentes.

Por sua vez, Oliveira e Martins (2019) reforçaram que a gestão deve criar condições estruturais e formativas que possibilitem ao professor explorar metodologias ativas em ambientes digitais. Isso implica investir em infraestrutura tecnológica, mas também em políticas institucionais que valorizem a experimentação, a inovação e o erro como parte do processo de aprendizagem. A rigidez curricular tradicional precisa ser substituída por propostas flexíveis, abertas e responsivas, que reconheçam a multiplicidade de percursos formativos dos estudantes.

Na mesma direção, Carvalho e Figueiredo (2023) enfatizaram que a avaliação formativa e contínua é também uma ferramenta de gestão do conhecimento, permitindo que professores e gestores compreendam melhor as necessidades dos estudantes e ajustem suas práticas pedagógicas. Essa abordagem estimula a criação de ambientes de aprendizagem mais inclusivos, nos quais o erro é visto não como fracasso, mas como oportunidade de crescimento e reflexão. Ao valorizar projetos, portfólios e produções colaborativas, a avaliação no web currículo se torna um instrumento de emancipação, pois coloca o estudante no centro do processo, reforçando seu protagonismo.

Santos e Barreto (2021) lembraram que a sustentabilidade do web currículo passa pelo compromisso ético com a formação integral. O risco de reduzir a educação digital a um conjunto de ferramentas a serviço do mercado deve ser combatido por meio da construção de políticas públicas sólidas, pela valorização do trabalho docente e pela defesa de uma educação voltada à cidadania. O web currículo não pode ser pensado como um produto acabado, mas como um processo em constante construção, no qual a colaboração, a flexibilidade e a autoria sejam princípios norteadores.

Assim, o web currículo se apresenta como um paradigma educacional inovador e desafiador, que demanda rupturas com práticas tradicionais e convoca gestores, professores e estudantes a assumirem papéis mais ativos na construção da experiência educativa. Seu êxito depende da integração equilibrada entre gestão, avaliação, ética e compromisso social, reafirmando que o uso das tecnologias digitais só faz sentido quando contribui para a humanização e emancipação dos sujeitos.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente análise permitiu compreender de forma aprofundada os desafios e as inovações relacionados ao currículo digital na Educação a Distância (EaD), especialmente no que se refere à formação docente, à interatividade nos ambientes virtuais e à reconfiguração da prática pedagógica por meio do web currículo. Os objetivos propostos foram plenamente alcançados ao demonstrar como as políticas públicas, os processos colaborativos e a mediação pedagógica contribuem para a construção de uma EaD mais crítica, participativa e conectada às demandas contemporâneas. O estudo revelou a importância de considerar tanto os aspectos técnicos quanto os humanos na elaboração de experiências de aprendizagem significativas no meio digital.

Ao longo da reflexão, destacou-se que o web currículo não se resume à mera utilização de plataformas tecnológicas ou à digitalização de conteúdos, mas se caracteriza por ser um espaço dinâmico, que integra práticas pedagógicas inovadoras, flexibilização curricular e a valorização da diversidade cultural dos estudantes. O papel da formação docente mostrou-se fundamental para a consolidação desse processo, uma vez que os professores são os mediadores diretos entre os recursos tecnológicos e os sujeitos aprendentes. Uma formação contínua, voltada não apenas para a dimensão técnica, mas também para a crítica e pedagógica, torna-se condição essencial para que os educadores assumam uma postura ativa e criativa diante das transformações digitais.

Outro ponto relevante evidenciado na análise foi a necessidade de uma gestão educacional mais aberta, flexível e participativa. A implementação de um currículo digital exige um reposicionamento das instituições, de forma que elas não apenas garantam infraestrutura e recursos, mas também promovam uma cultura de colaboração e inovação. A gestão precisa estar atenta às demandas de professores e estudantes, oferecendo suporte, incentivo à experimentação e condições adequadas para a prática pedagógica em ambientes virtuais. Nesse sentido, a coordenação pedagógica assume papel estratégico, não como instância de controle rígido, mas como promotora de um processo de acompanhamento e de reflexão coletiva, no qual todos os sujeitos envolvidos compartilham responsabilidades e decisões.

A avaliação, por sua vez, foi tratada como dimensão fundamental para a consolidação do web currículo. Ao invés de ser encarada como instrumento punitivo ou meramente classificatório, a avaliação digital deve ser concebida como prática processual, contínua e integradora, capaz de reconhecer o percurso formativo dos estudantes e de valorizar a autoria e a colaboração. A utilização de portfólios digitais, registros reflexivos e projetos interativos se apresentou como uma alternativa inovadora, uma vez que permite documentar de forma mais completa o desenvolvimento das competências e habilidades, além de estimular a autonomia e o protagonismo estudantil. Essa abordagem reafirma a importância de enxergar a avaliação como parte da própria aprendizagem, em um movimento de construção e não de exclusão.

Outro aspecto central abordado no estudo foi a dimensão ética que sustenta o currículo digital. A reflexão revelou a necessidade de que a EaD não seja reduzida a um produto de mercado, orientado apenas por interesses comerciais. O risco da mercantilização da educação digital coloca em evidência a importância de um compromisso ético e social, voltado à inclusão, à equidade e à justiça social. Para que o web currículo cumpra sua função emancipadora, é imprescindível que o uso das tecnologias esteja alinhado a princípios de cidadania, humanização e formação integral dos sujeitos. A sustentabilidade desse modelo educacional não pode depender apenas de plataformas privadas ou de soluções mercadológicas, mas deve ser garantida por políticas públicas robustas, que assegurem acesso democrático e práticas pedagógicas críticas.

A análise também evidenciou que a construção de um currículo digital é um processo em constante movimento, que não se encerra em modelos fixos ou pré-definidos. Pelo contrário, trata-se de uma proposta flexível, aberta às transformações sociais e tecnológicas, que precisa dialogar continuamente com os contextos locais e com as singularidades dos sujeitos envolvidos. Nesse sentido, a prática docente deve ser repensada como uma prática em rede, na qual a autoria, a colaboração e a experimentação ganham centralidade. O professor, ao atuar como mediador, deixa de ser o transmissor exclusivo de conteúdos e passa a se constituir como orientador e facilitador de percursos formativos, o que representa uma mudança paradigmática na concepção de ensino e aprendizagem.

O trabalho demonstrou que os objetivos propostos foram alcançados, pois permitiram não apenas discutir os fundamentos e desafios do web currículo, mas também propor reflexões sobre sua relevância para a educação contemporânea. A análise revelou que, ao integrar dimensões técnicas, pedagógicas e éticas, o currículo digital pode se tornar um instrumento poderoso de transformação educacional, contribuindo para a formação de sujeitos críticos, autônomos e socialmente comprometidos.

Contudo, é importante reconhecer que esse estudo não esgota o tema. O web currículo é um campo de pesquisa ainda em expansão, que demanda novas investigações e experimentações práticas. Nesse sentido, como proposta para trabalhos futuros, sugere-se o aprofundamento de estudos sobre o impacto do currículo digital na aprendizagem de diferentes níveis de ensino, desde a educação básica até a pós-graduação. Outra possibilidade é investigar a relação entre o web currículo e a formação continuada de professores, identificando estratégias mais eficazes para o desenvolvimento de competências digitais e pedagógicas. Além disso, pesquisas comparativas entre diferentes modelos de EaD, tanto nacionais quanto internacionais, podem oferecer subsídios valiosos para a construção de práticas mais inovadoras e inclusivas. Por fim, torna-se relevante analisar como as políticas públicas podem garantir a sustentabilidade e a equidade na implementação do currículo digital, de modo a assegurar que as tecnologias educacionais estejam a serviço da humanização e da justiça social.

Assim, a presente investigação cumpre seu papel de contribuir para o debate contemporâneo sobre a Educação a Distância e o currículo digital, mas também abre caminhos para novas reflexões e práticas que fortaleçam a construção de uma educação mais democrática, crítica e transformadora.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Graduação: Pedagogia pela UDESC – Universidade do Estado de Santa Catarina. Especialização: Pós Graduação em Educação Especial. Pós Graduação em Gestão escolar. Mestranda em Tecnologias Emergentes em Educação pela Must University. E-mail: [email protected]