REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779738382
RESUMO
O artigo analisa os impactos formativos, pedagógicos e territoriais do ciclo formativo Temas Emergentes 2025 – Dialogando com as Escolas do Campo: Cultivando Saberes na Formação Docente, promovido pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em articulação com grupos de pesquisa, programas de pós-graduação, licenciaturas e instituições vinculadas à Educação do Campo. A pesquisa caracteriza-se como descritiva, de abordagem quali-quantitativa, desenvolvida por meio da aplicação de questionário de avaliação final junto aos(às) participantes do evento. O ciclo formativo ocorreu entre agosto e dezembro de 2025, totalizando 35 encontros online transmitidos pelo canal Capacitação Digital Girassol UFSM no YouTube, reunindo aproximadamente 3.534 inscritos(as) e 2.388 certificados emitidos. Participaram da pesquisa 1.185 respondentes, entre educadores(as) da educação básica, estudantes de graduação e pós-graduação, gestores(as), coordenadores(as) de polo e demais profissionais da educação. Os resultados evidenciam elevada avaliação positiva das atividades, forte participação de educadores(as) vinculados(as) às redes públicas de ensino e significativa contribuição das palestras para o fortalecimento das práticas pedagógicas, ampliação das reflexões críticas e democratização do acesso à formação continuada. As análises demonstram que o evento constituiu importante espaço de circulação de saberes, fortalecimento das territorialidades da Educação do Campo e construção de redes colaborativas de formação. Conclui-se que iniciativas formativas online, gratuitas e territorializadas desempenham papel estratégico na democratização do conhecimento e no fortalecimento das políticas públicas de formação continuada vinculadas às populações do campo.
Palavras-chave: Educação do Campo; Formação Continuada; Territorialidade; Educação a Distância; Redes Colaborativas.
ABSTRACT
This article analyzes the educational, pedagogical, and territorial impacts of the training cycle Emerging Themes 2025 – Dialoguing with Field Schools: Cultivating Knowledge in Teacher Education, promoted by the Federal University of Santa Maria (UFSM) in partnership with research groups, graduate programs, teacher education courses, and institutions linked to Rural Education. The research is descriptive, with a qualitative and quantitative approach, developed through the application of a final evaluation questionnaire to participants of the event. The training cycle took place between August and December 2025, totaling 35 online meetings broadcast through the Capacitação Digital Girassol UFSM YouTube channel, gathering approximately 3,534 registered participants and 2,388 certificates issued. A total of 1,185 respondents participated in the survey, including educators from basic education, undergraduate and graduate students, school managers, support center coordinators, and other education professionals. The results reveal a highly positive evaluation of the activities, strong participation of educators linked to public education systems, and significant contribution of the lectures to strengthening pedagogical practices, expanding critical reflections, and democratizing access to continuing education. The analyses demonstrate that the event constituted an important space for knowledge circulation, strengthening Rural Education territorialities, and building collaborative educational networks. The study concludes that free, online, and territorially grounded educational initiatives play a strategic role in democratizing knowledge and strengthening public policies for continuing education linked to rural populations.
Keywords: Rural Education; Continuing Education; Territoriality; Distance Education; Collaborative Networks.
1. INTRODUÇÃO
A formação continuada de educadores(as) constitui um dos principais desafios das políticas educacionais contemporâneas, especialmente quando se analisam os contextos das escolas do campo e das populações historicamente submetidas às desigualdades territoriais, econômicas e sociais brasileiras. Em um cenário marcado pela intensificação da precarização do trabalho educativo, pelas desigualdades digitais e pelas transformações socioterritoriais do espaço rural, os processos formativos vinculados às universidades públicas assumem papel estratégico na democratização do acesso ao conhecimento e no fortalecimento das redes educativas do campo.
Nas últimas décadas, a Educação do Campo consolidou-se como importante campo político, epistemológico e pedagógico construído a partir das lutas sociais dos povos do campo, movimentos sociais rurais, universidades públicas e organizações populares. Conforme Caldart (2012), a Educação do Campo emerge da resistência histórica das populações camponesas frente aos processos de exclusão educacional e invisibilização territorial produzidos pelo modelo agrário brasileiro.
Diferentemente das perspectivas tradicionais de educação rural, fortemente marcadas por racionalidades urbanocêntricas e produtivistas, a Educação do Campo reivindica processos educativos territorializados, vinculados às identidades culturais, aos modos de vida e às realidades socioterritoriais das comunidades do campo. Nesse sentido, a formação de educadores(as) assume dimensão profundamente política, exigindo articulação entre território, trabalho, cultura, agroecologia, diversidade e justiça social.
Segundo Arroyo (2012), os sujeitos do campo foram historicamente tratados como populações subalternizadas pelas políticas públicas brasileiras, inclusive no âmbito educacional. Assim, pensar processos formativos comprometidos com as territorialidades rurais implica reconhecer os povos do campo enquanto sujeitos produtores de saberes, culturas e experiências históricas.
Nesse contexto, as tecnologias digitais e as experiências de Educação a Distância pública passaram a desempenhar importante função na ampliação do acesso à formação continuada, especialmente em territórios afastados dos grandes centros urbanos. Conforme Alonso (2010), a expansão das ações formativas mediadas pelas tecnologias digitais contribuiu significativamente para interiorização da universidade pública e democratização do ensino superior brasileiro.
As transformações ocorridas no cenário educacional brasileiro após o período pandêmico intensificaram ainda mais a necessidade de consolidação de políticas públicas de formação continuada mediadas pelas tecnologias digitais. Ao mesmo tempo em que a expansão das plataformas online ampliou possibilidades de acesso à formação docente, também evidenciou profundas desigualdades relacionadas à conectividade, infraestrutura tecnológica e condições materiais de participação dos(as) educadores(as), especialmente em territórios rurais. Nesse contexto, as universidades públicas passaram a ocupar papel ainda mais estratégico na construção de iniciativas formativas gratuitas, democráticas e socialmente referenciadas, capazes de articular inclusão digital, formação crítica e fortalecimento das territorialidades educativas.
Entretanto, as experiências formativas online não podem ser compreendidas apenas sob perspectiva instrumental ou tecnológica. Schneider et al. (2023) destacam que os processos educativos mediados pelas tecnologias digitais assumem relevância quando articulados às práticas colaborativas, à construção coletiva do conhecimento e ao fortalecimento das redes educativas territoriais. Segundo os autores, “as ações extensionistas online fortaleceram processos de fluência tecnológico-pedagógica e ampliaram possibilidades de democratização da formação continuada”.
É nesse cenário que se insere o ciclo formativo Temas Emergentes 2025 – Dialogando com as Escolas do Campo: Cultivando Saberes na Formação Docente, promovido pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em articulação com grupos de pesquisa, programas de pós-graduação, licenciaturas e instituições vinculadas à Educação do Campo.
Realizado entre agosto e dezembro de 2025, o evento reuniu pesquisadores(as), educadores(as), estudantes, movimentos sociais e comunidades do campo em 35 encontros online transmitidos pelo canal Capacitação Digital Girassol UFSM no YouTube. As atividades abordaram temas relacionados à agroecologia, interculturalidade, inclusão, diversidade, saúde mental, educação indígena, educação quilombola, sustentabilidade, políticas públicas e formação docente.
O evento alcançou aproximadamente 3.534 inscritos(as) e resultou na emissão de 2.388 certificados, evidenciando significativa capilaridade territorial e amplo alcance formativo.
Diante desse contexto, torna-se fundamental compreender quem são os(as) participantes dessas experiências formativas, quais impactos elas produzem nas práticas educativas e como contribuem para fortalecimento das territorialidades da Educação do Campo.
Assim, o presente artigo tem como objetivo analisar os impactos formativos, pedagógicos e territoriais do ciclo Temas Emergentes 2025 – Dialogando com as Escolas do Campo: Cultivando Saberes na Formação Docente, a partir da pesquisa de avaliação realizada junto aos(às) participantes do evento.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
A Educação do Campo constitui-se como importante movimento político-pedagógico construído pelas populações camponesas brasileiras em articulação com movimentos sociais, universidades públicas e organizações populares. Conforme Caldart (2012), a Educação do Campo não nasce no interior das políticas estatais tradicionais, mas das experiências concretas de resistência das populações do campo.
Ao discutir os fundamentos epistemológicos da Educação do Campo, Molina e Sá (2012) afirmam que a formação de educadores(as) precisa superar perspectivas urbanocêntricas historicamente presentes nas políticas educacionais brasileiras. Segundo as autoras, os processos formativos vinculados à Educação do Campo devem articular território, cultura, agroecologia, identidade e práticas sociais.
Freire (1996) contribui significativamente para essa discussão ao compreender a educação como prática dialógica, emancipatória e comprometida com transformação social. Para o autor, não existe educação neutra, sendo os processos educativos atravessados pelas contradições sociais, culturais e políticas dos territórios onde se realizam.
Essa compreensão dialoga diretamente com os princípios da Educação do Campo, especialmente ao reconhecer os sujeitos do campo enquanto produtores legítimos de conhecimento.
Ao discutir território e educação, Santos (2008) afirma que as desigualdades territoriais brasileiras ultrapassam dimensões econômicas, envolvendo também acesso desigual aos direitos sociais, às políticas públicas e aos espaços de produção do conhecimento.
Nesse contexto, as experiências formativas online vinculadas às universidades públicas assumem papel estratégico na democratização do acesso à formação continuada.
Segundo Schneider et al. (2023), os processos extensionistas online vinculados às universidades públicas ampliaram significativamente o acesso à formação continuada de educadores(as), especialmente em territórios rurais e regiões periféricas .
Além disso, os autores destacam que a mediação tecnológica precisa estar articulada às práticas colaborativas de construção do conhecimento e fortalecimento comunitário.
Outro aspecto fundamental refere-se à valorização das territorialidades rurais nos processos formativos. Folmer et al. (2025) destacam que a Educação do Campo precisa dialogar com os saberes locais, os modos de vida camponeses e as práticas socioterritoriais das comunidades rurais .
Segundo os autores, os processos educativos comprometidos com as territorialidades rurais fortalecem pertencimento comunitário, identidade cultural e permanência das populações nos territórios do campo.
A agroecologia também emerge como importante referência epistemológica na formação de educadores(as). Conforme Cancelier et al. (2025), a agroecologia constitui paradigma científico polissêmico e transdisciplinar que articula sustentabilidade, educação, território e transformação social. Nesse sentido, os processos formativos vinculados à Educação do Campo precisam considerar não apenas conteúdos pedagógicos, mas também debates relacionados às crises ambientais, às desigualdades sociais e às disputas territoriais contemporâneas.
Outro aspecto relevante refere-se às práticas colaborativas de formação. Sudati et al. (2024) afirmam que os espaços coletivos de diálogo e rodas de conversa favorecem circulação de saberes, fortalecimento comunitário e construção compartilhada do conhecimento.
Assim, as experiências formativas online vinculadas às universidades públicas precisam ser compreendidas não apenas como estratégias pedagógicas, mas também como práticas políticas de democratização do conhecimento e fortalecimento das redes educativas do campo.
Nóvoa (2009) também contribui significativamente para compreensão da formação docente ao afirmar que os processos formativos mais consistentes são aqueles construídos coletivamente, em espaços de partilha, reflexão e colaboração entre professores(as). Para o autor, a formação continuada precisa superar modelos prescritivos e burocráticos, valorizando experiências, trajetórias e práticas concretas desenvolvidas pelos(as) educadores(as) em seus territórios de atuação. Essa perspectiva dialoga diretamente com os princípios do ciclo Temas Emergentes 2025, especialmente ao compreender a formação como processo permanente de construção coletiva do conhecimento, fortalecimento profissional e produção de sentidos compartilhados.
3. MATERIAIS E MÉTODOS
A pesquisa caracteriza-se como descritiva, exploratória e de abordagem quali-quantitativa. O estudo foi desenvolvido a partir da aplicação de questionário de avaliação final junto aos(às) participantes do ciclo formativo Temas Emergentes 2025 – Dialogando com as Escolas do Campo: Cultivando Saberes na Formação Docente.
O evento ocorreu entre os dias 18 de agosto e 15 de dezembro de 2025, totalizando 35 encontros online transmitidos pelo canal Capacitação Digital Girassol UFSM no YouTube.
Participaram da investigação 1.185 respondentes. O instrumento de coleta continha questões abertas e fechadas relacionadas ao perfil profissional dos(as) participantes, formas de acompanhamento das palestras, avaliação das atividades, impactos formativos, organização do evento e contribuições das palestras para as práticas educativas.
Os dados quantitativos foram sistematizados utilizando estatística descritiva simples, com análise de frequências absolutas e relativas. As respostas discursivas foram analisadas qualitativamente a partir da análise de conteúdo proposta por Bardin (2011), buscando identificar recorrências temáticas relacionadas às experiências formativas, territorialidades e impactos pedagógicos do evento.
Além das análises estatísticas descritivas, buscou-se interpretar os dados considerando as múltiplas dimensões socioterritoriais envolvidas nos processos formativos online. As questões abertas permitiram identificar percepções relacionadas à permanência formativa, pertencimento territorial, desafios tecnológicos e impactos pedagógicos das atividades desenvolvidas. A triangulação entre dados quantitativos e qualitativos possibilitou maior aprofundamento interpretativo acerca das experiências vivenciadas pelos(as) participantes ao longo do ciclo formativo.
A interpretação dos resultados ocorreu à luz dos referenciais teóricos da Educação do Campo, da formação continuada, da Educação a Distância pública e das territorialidades rurais.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados da pesquisa evidenciam que o ciclo formativo Temas Emergentes 2025 – Dialogando com as Escolas do Campo: Cultivando Saberes na Formação Docente consolidou-se como importante experiência de democratização territorial da formação continuada vinculada à Educação do Campo. A realização de 35 encontros online, entre agosto e dezembro de 2025, reuniu aproximadamente 3.534 inscritos(as) e resultou na emissão de 2.388 certificados, representando taxa de certificação de aproximadamente 67,6% em relação ao total de participantes inscritos(as). Esse percentual revela significativo engajamento dos(as) participantes ao longo de um processo formativo extenso, desenvolvido durante quase quatro meses consecutivos de atividades.
Participaram da pesquisa de avaliação final 1.185 respondentes, quantitativo correspondente a aproximadamente 49,6% do total de participantes certificados(as). Esse dado evidencia não apenas adesão às atividades formativas, mas também envolvimento efetivo dos(as) participantes nos processos avaliativos e reflexivos propostos pela organização do evento. As análises demonstram que o interesse em contribuir com a avaliação final revela reconhecimento da relevância pedagógica, científica e territorial da proposta desenvolvida.
Ao analisar o perfil profissional dos(as) participantes, observou-se predominância de educadores(as) vinculados(as) à educação básica pública municipal, correspondendo a 36,9% dos respondentes (437 participantes). Em seguida, destacaram-se estudantes de graduação, representando 31,5% (373 participantes). Também participaram educadores(as) da rede estadual de ensino, estudantes de pós-graduação, coordenadores(as) pedagógicos(as), gestores(as) escolares, coordenadores(as) de polos UAB e profissionais vinculados(as) a diferentes instituições educacionais e movimentos sociais.
Gráfico 1: Perfil de atuação dos(as) participantes
Esses dados demonstram que o evento extrapolou os limites institucionais da universidade, constituindo espaço ampliado de circulação de saberes e fortalecimento das redes educativas vinculadas à Educação do Campo. Conforme Arroyo (2012), os processos formativos comprometidos com os sujeitos do campo precisam articular diferentes experiências, territorialidades e práticas sociais, reconhecendo a diversidade dos sujeitos envolvidos nas dinâmicas educativas rurais.
Os resultados também evidenciam a potência da extensão universitária enquanto prática de democratização do conhecimento e aproximação entre universidade e sociedade. Mais do que promover palestras ou transmissões online, o ciclo formativo constituiu espaço de diálogo permanente entre diferentes sujeitos sociais vinculados à Educação do Campo. Essa dimensão extensionista fortalece a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, reafirmando o compromisso social da universidade pública com os territórios historicamente marginalizados pelas políticas educacionais tradicionais.
As análises também evidenciam ampla abrangência territorial das atividades. Participaram educadores(as) e estudantes vinculados(as) a diferentes estados brasileiros, especialmente Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pernambuco e Espírito Santo. Esse dado demonstra a capacidade das tecnologias digitais de ampliar processos educativos para além das fronteiras físicas das universidades, fortalecendo redes interestaduais de formação continuada.
A noção de territorialidade presente nas experiências formativas analisadas ultrapassa a dimensão geográfica ou espacial. As territorialidades educativas manifestam-se também nas formas de pertencimento, nas identidades culturais, nos vínculos comunitários e nas práticas coletivas construídas pelos sujeitos do campo. Assim, os encontros online passaram a funcionar como espaços simbólicos de articulação entre diferentes realidades rurais brasileiras, permitindo circulação de experiências, reconhecimento mútuo e fortalecimento das identidades vinculadas à Educação do Campo.
Nesse sentido, Schneider et al. (2023) afirmam que as experiências extensionistas mediadas pelas tecnologias digitais contribuíram significativamente para ampliação da democratização do conhecimento, especialmente em territórios historicamente afastados dos grandes centros universitários. Segundo os autores, “as ações formativas online fortaleceram práticas colaborativas e ampliaram possibilidades de acesso à formação continuada”.
Outro aspecto extremamente relevante refere-se à ampliação do alcance do projeto em 2025. Entre os(as) respondentes, 68,3% (809 participantes) afirmaram não ter participado das edições anteriores do Temas Emergentes, enquanto 31,7% relataram já possuir vínculo prévio com as atividades formativas do projeto. Esse resultado evidencia significativo crescimento das redes colaborativas de formação vinculadas à Educação do Campo, indicando expansão territorial e fortalecimento institucional da proposta.
No que se refere às formas de acompanhamento das atividades, observou-se predominância da participação híbrida. Entre os(as) participantes, 48,8% (578 respondentes) afirmaram acompanhar as palestras tanto ao vivo quanto posteriormente por meio das gravações. Outros 30,1% (357 participantes) relataram participação predominantemente síncrona, acompanhando os encontros ao vivo, enquanto 21,1% (250 respondentes) afirmaram assistir majoritariamente às gravações em momentos posteriores.
Gráfico 2: Formato das participações
Esses dados evidenciam que a flexibilidade temporal proporcionada pelas gravações constituiu elemento central para permanência formativa dos(as) participantes. As narrativas qualitativas revelam que muitos(as) educadores(as) conciliavam simultaneamente atividades profissionais, deslocamentos territoriais, cuidado familiar e participação acadêmica durante o período do evento. Nesse contexto, a possibilidade de acesso posterior às gravações ampliou significativamente as condições de permanência e participação dos(as) educadores(as) do campo.
Essa questão torna-se particularmente relevante quando analisada em relação as desigualdades territoriais brasileiras. Conforme Molina e Sá (2012), os(as) educadores(as) do campo historicamente enfrentam maiores dificuldades de acesso à formação continuada devido às longas distâncias geográficas, à precariedade das políticas públicas e às desigualdades estruturais presentes nos territórios rurais.
Outro elemento fortemente presente nos dados refere-se às condições tecnológicas de participação. Grande parte dos(as) respondentes relatou utilizar predominantemente telefones celulares para acompanhamento das palestras, especialmente participantes residentes em comunidades rurais. Muitos(as) educadores(as) destacaram dificuldades relacionadas à instabilidade da internet, baixa qualidade do sinal e limitações de infraestrutura tecnológica.
Esse aspecto evidencia permanência das desigualdades digitais entre campo e cidade, demonstrando que os processos de democratização da formação online dependem diretamente da ampliação das políticas públicas de inclusão digital e acesso à infraestrutura tecnológica nos territórios rurais.
Embora as tecnologias digitais tenham ampliado significativamente o acesso à formação continuada, os dados também revelam que a democratização do ensino online permanece profundamente condicionada às desigualdades estruturais existentes no país. A precariedade da conectividade em territórios rurais, a dependência do uso de dispositivos móveis e as limitações de infraestrutura tecnológica demonstram que inclusão digital e inclusão educacional ainda constituem desafios inseparáveis no contexto da Educação do Campo.
As análises também revelam elevadíssima avaliação positiva das atividades desenvolvidas. Entre os(as) participantes, 78,1% (926 respondentes) classificaram os conteúdos abordados como “excelentes”, enquanto 21,2% (251 participantes) avaliaram as atividades como “boas”. Apenas 0,7% atribuíram avaliações entre regular e fraca, evidenciando elevado reconhecimento da qualidade pedagógica, científica e organizacional do evento.
Gráfico 3: Avaliação das palestras
Os(as) participantes destacaram especialmente a relevância temática das palestras, a qualidade dos(as) palestrantes, a diversidade dos debates propostos e a articulação entre teoria e prática nas discussões desenvolvidas ao longo do ciclo formativo.
Outro dado extremamente significativo refere-se à contribuição das atividades para fortalecimento das práticas pedagógicas e desenvolvimento profissional dos(as) participantes. Entre os(as) respondentes, 90,1% (1.068 participantes) afirmaram que as palestras contribuíram significativamente para ampliação das reflexões críticas sobre suas práticas educativas, enquanto 9,3% relataram contribuição parcial das atividades.
As respostas discursivas dos(as) participantes também evidenciaram importantes impactos subjetivos, pedagógicos e territoriais produzidos pelo ciclo formativo. Diversas narrativas destacaram o fortalecimento das práticas educativas, o sentimento de pertencimento coletivo e a valorização das experiências vinculadas às escolas do campo. Entre os relatos, destacam-se afirmações como: “As palestras ampliaram minha visão sobre a realidade das escolas do campo e fortaleceram minha prática pedagógica”; “Mesmo morando longe dos grandes centros, senti que fazia parte de uma comunidade de aprendizagem”; e ainda “Os encontros me fizeram perceber que não estamos sozinhos(as) nos desafios enfrentados nas escolas rurais”.
Essas narrativas revelam que o processo formativo ultrapassou a dimensão técnica de transmissão de conteúdos, constituindo espaço de acolhimento, diálogo, compartilhamento de experiências e fortalecimento das redes colaborativas entre educadores(as) de diferentes territórios. Além disso, os relatos evidenciam a importância das ações extensionistas online na redução do isolamento profissional frequentemente vivenciado por docentes que atuam em contextos rurais e periféricos.
Esse resultado evidencia forte impacto formativo do evento sobre os percursos profissionais dos(as) educadores(as). As narrativas qualitativas demonstram que os temas relacionados à agroecologia, inclusão, diversidade, educação indígena, educação quilombola, sustentabilidade, saúde mental e territorialidades rurais foram frequentemente mencionados como elementos capazes de ampliar a compreensão crítica acerca das realidades socioterritoriais das escolas do campo.
As análises dialogam diretamente com Folmer et al. (2025), ao afirmarem que os processos educativos vinculados à Educação do Campo precisam fortalecer pertencimento territorial, valorização cultural e construção coletiva do conhecimento . Segundo os autores, práticas educativas territorializadas contribuem significativamente para fortalecimento das identidades camponesas e valorização das formas coletivas de produção da vida nos territórios rurais.
A agroecologia também apareceu de forma recorrente nas narrativas dos(as) participantes, não apenas como temática produtiva, mas como perspectiva ética, política e pedagógica comprometida com sustentabilidade, soberania alimentar e justiça social. Conforme Cancelier et al. (2025), a agroecologia constitui campo epistemológico polissêmico que articula educação, território, sustentabilidade e transformação social.
Outro aspecto fortemente presente nos relatos refere-se à construção de redes colaborativas de formação. Os grupos de WhatsApp utilizados para divulgação das atividades apareceram frequentemente como importantes espaços de circulação de informações, compartilhamento de materiais e fortalecimento do sentimento de pertencimento coletivo entre os(as) participantes.
As narrativas demonstram que muitos(as) educadores(as) sentiram-se acolhidos(as), valorizados(as) e integrados(as) a uma comunidade ampliada de aprendizagem vinculada à Educação do Campo. Essa dimensão coletiva da formação aproxima-se das reflexões de Freire (1996), ao compreender a educação como prática construída “na comunhão entre sujeitos que aprendem juntos”.
Além disso, os resultados corroboram as análises de Sudati et al. (2024), ao afirmarem que os espaços coletivos de diálogo favorecem circulação de saberes, fortalecimento comunitário e construção compartilhada do conhecimento.
Ao analisar os resultados de forma mais ampla, observa-se que o ciclo Temas Emergentes 2025 ultrapassou a dimensão técnica de transmissão de conteúdos, constituindo importante experiência de democratização do conhecimento, fortalecimento das territorialidades da Educação do Campo e construção coletiva de redes colaborativas de formação continuada.
Os resultados evidenciam que as tecnologias digitais, quando articuladas às universidades públicas e aos princípios da Educação do Campo, podem contribuir significativamente para ampliação dos processos formativos, fortalecimento das práticas pedagógicas e redução das desigualdades territoriais de acesso à formação continuada.
5. CONCLUSÃO
O ciclo formativo Temas Emergentes 2025 – Dialogando com as Escolas do Campo: Cultivando Saberes na Formação Docente revelou-se muito mais do que uma programação acadêmica online. Ao longo de quatro meses de atividades permanentes, o evento constituiu um espaço vivo de encontro entre universidade, escolas do campo, comunidades rurais, movimentos sociais, educadores(as), estudantes e diferentes sujeitos comprometidos com a construção de práticas educativas socialmente referenciadas e territorialmente contextualizadas.
Em um contexto marcado pela intensificação das desigualdades educacionais, pela fragilização das políticas públicas e pelas profundas transformações socioterritoriais vivenciadas no campo brasileiro, o evento demonstrou a potência das ações formativas construídas coletivamente, articulando ciência, diálogo, escuta, territorialidade e compromisso social. A ampla adesão às atividades evidencia a existência de uma demanda concreta por espaços permanentes de formação continuada que reconheçam as especificidades dos territórios rurais, valorizem os saberes locais e promovam reflexões críticas sobre os desafios contemporâneos da educação.
Os resultados evidenciam que a formação continuada não pode ser compreendida apenas como atualização técnica ou transmissão de conteúdos. As experiências relatadas pelos(as) participantes demonstram que os processos formativos assumem dimensão humana, política e coletiva, produzindo pertencimento, fortalecimento identitário, valorização profissional e ampliação da capacidade crítica dos(as) educadores(as). Nesse sentido, o evento possibilitou não apenas acesso ao conhecimento acadêmico, mas também construção de vínculos, circulação de experiências e fortalecimento de redes colaborativas entre sujeitos de diferentes territórios.
Outro aspecto fundamental refere-se à capacidade do projeto de romper barreiras geográficas e ampliar a presença da universidade pública em territórios historicamente afastados dos grandes centros de formação. As tecnologias digitais, quando articuladas a propostas pedagógicas comprometidas com inclusão, diálogo e participação, demonstraram potencial para ampliar significativamente os processos de democratização do conhecimento. Mais do que transmissões online, os encontros constituíram espaços de escuta coletiva, compartilhamento de experiências e reconhecimento das múltiplas realidades vivenciadas nas escolas do campo.
A diversidade temática desenvolvida ao longo do ciclo também evidencia maturidade epistemológica e compromisso político da proposta formativa. Ao incorporar debates relacionados à agroecologia, diversidade, saúde mental, inclusão, interculturalidade, sustentabilidade, educação indígena, educação quilombola e territorialidades rurais, o evento reafirmou a necessidade de compreender a Educação do Campo em sua complexidade social, cultural, ambiental e humana.
Além disso, o ciclo formativo contribuiu para fortalecimento das articulações entre ensino, pesquisa e extensão universitária, reafirmando o papel social da universidade pública enquanto espaço de produção coletiva do conhecimento e compromisso com transformação social. As experiências desenvolvidas demonstram que a extensão universitária, quando construída em diálogo com os territórios e suas demandas concretas, possui enorme potencial de mobilização, formação e impacto social.
O Temas Emergentes 2025 também evidenciou que a Educação do Campo permanece viva, dinâmica e em permanente construção coletiva. As vozes, experiências e reflexões compartilhadas ao longo dos encontros revelam a existência de educadores(as) profundamente comprometidos(as) com práticas pedagógicas contextualizadas, humanizadoras e socialmente transformadoras.
Os resultados da pesquisa também indicam a necessidade de continuidade e ampliação de políticas públicas de formação continuada voltadas às populações do campo, especialmente por meio de iniciativas gratuitas, territorializadas e articuladas às universidades públicas. Em um cenário marcado por profundas desigualdades sociais e educacionais, experiências como o Temas Emergentes 2025 demonstram que a formação docente pode constituir importante instrumento de transformação social, fortalecimento comunitário e valorização das múltiplas identidades presentes nos territórios rurais brasileiros.
Assim, mais do que um evento formativo, o ciclo constituiu uma experiência de resistência pedagógica, fortalecimento comunitário e construção coletiva de esperança em tempos marcados por profundas incertezas sociais, ambientais e educacionais.
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1 Professoras Doutoras da Universidade Federal de Santa Maria – RS. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Pesquisadores do Grupo de Pesquisa Girassol – CCR/UFSM. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail