AVALIAÇÃO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18363968
Andreza Barbosa de Oliveira1
Valquíria Regina Pereira da Rocha2
RESUMO
Este estudo buscou compreender, a partir da leitura e análise de trabalhos acadêmicos, como ocorre o processo de avaliação na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e quais desafios ainda persistem. Ao explorar a literatura, tornou-se evidente que muitos estudantes enfrentam dificuldades durante as avaliações, sobretudo quando elas não são adaptadas às características e necessidades dessa modalidade. Essa falta de adequação pode prejudicar tanto a aprendizagem quanto o uso do conhecimento na vida cotidiana. A pesquisa, de caráter exploratório e baseada em fontes bibliográficas, permitiu observar que a avaliação precisa ser mais flexível, contínua e conectada à realidade dos alunos. Valorizar suas trajetórias, experiências e modos de aprender é essencial para construir um processo educativo mais acolhedor, justo e significativo.
Palavras-chave: Avaliação na EJA, educação, estudantes.
ABSTRACT
This study sought to understand, through the reading and analysis of academic literature, how the assessment process unfolds in Youth and Adult Education (EJA) and what challenges remain. The review revealed that many students face significant difficulties during assessments, especially when these practices are not adapted to the specific needs of this educational context. Such limitations can affect both learning and the meaningful use of knowledge in daily life. The exploratory, bibliographic approach used in this research showed that assessment needs to be more flexible, continuous, and connected to students’ realities. Recognizing and valuing their experiences and learning paths is fundamental to building a more welcoming, fair, and meaningful educational process.
Keywords: Assessment in EJA, education, students.
INTRODUÇÃO
Avaliar é dar valor a algo utilizando critérios, sendo utilizada para verificar se o estudante compreendeu o que foi ensinado, observando falhas e avanços. Esse instrumento contribui com o professor para continuar ou redirecionar sua prática, podendo estar presente de várias formas, auxiliando o estudante na compreensão do seu percurso. O processo de avaliação vem sendo discutido ao longo dos anos, referente à forma, os tipos, e ao momento de sua aplicação. Todavia, a modalidade de ensino também influencia no ensinar e no aprender.
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) apresenta uma série de desafios que impactam diretamente na qualidade do processo educativo e na efetividade do aprendizado. Com diferenças significativas do Ensino Fundamental e Médio, onde o estudante está em idade adequada, a EJA deve considerar as especificidades do público atendido, que muitas vezes traz experiências de vida variadas e diferentes ritmos de aprendizagem.
A adaptação dos métodos avaliativos é, portanto, essencial para garantir que os estudantes possam construir conhecimentos e aplicá-los em sua realidade diária, com consciência e utilizando de forma que possam transformar e melhorar suas vidas, seja no campo do trabalho ou na vida diária. Este artigo explora as dificuldades enfrentadas na avaliação na EJA, destacando a importância de práticas avaliativas que respeitem a diversidade dos alunos e promovam uma aprendizagem verdadeiramente transformadora.
METODOLOGIA
Este trabalho buscou fazer uma pesquisa exploratória, que para Gil (2008) tem como objetivo contribuir para um maior conhecimento do assunto, observando de forma variada os aspectos em questão. Trata-se de uma revisão bibliográfica, baseada em material já elaborado, com abordagem qualitativa, voltada à interpretação dos fenômenos e à atribuição de significados (Gil, 2008). A pesquisa ocorreu entre setembro e novembro de 2025, utilizando livros e artigos científicos, bem como bancos de dados eletrônicos na internet, em que utilizamos os comandos de busca: avaliação e avaliação na EJA.
A leitura do material encontrado levou em consideração o que Gil (2008) coloca sobre leitura exploratória, em que o objetivo é investigar em que medida a obra interessa à pesquisa Sendo assim, é efetuado uma seleção determinando o que serve às fases da pesquisa, a analítica e a ordenação das informações que estão nas fontes e a interpretativa que deve relacionar o que o autor menciona com o objetivo da pesquisa. O objetivo da pesquisa é propor uma discussão ampla sobre o assunto com base no que já foi apresentado, direcionado por uma análise crítica do material encontrado.
REFERENCIAL TEÓRICO
Alves e Saraiva (2013) abordam a contribuição do educador Ralph Winfred Tyler na mudança de uma visão baseada na medição dos resultados para “uma descrição de até que ponto os alunos atingem os objetivos definidos; a quantificação passou a ser um dos meios a serviço da avaliação em vez de um fim em si mesmo” (Alves; Saraiva, 2013, p.1). Enquanto isso, Libâneo (2008, p. 196) explica que a avaliação é necessária e permanente no trabalho do professor, pois afirma que ela é uma reflexão da qualidade da atividade escolar do professor e do aluno. Assim, deve ser feita de forma ampla, com vários instrumentos.
Libâneo (2008, p. 196) ainda aponta que nossas escolas promovem o aspecto quantitativo sobre o quanto os estudantes tiraram na prova, mas não usam como uma forma educativa. E, Jussara Hoffmann (2015) coloca que:
Para se debater o sistema de avaliação das aprendizagens, primeiro é preciso compreender o termo “avaliar” com a amplitude que lhe é de direito: o ato de avaliar compreende a) um grande conjunto de procedimentos didáticos; b) de caráter multidimensional e subjetivo; c) que se estendem por um tempo longo e ocorrem em variados espaços; e. d.) que envolvem todos os sujeitos do ato educativo de maneira interativa (Hoffmann, 2015, p.1).
Assim, é necessário compreender a complexidade e os detalhes ao avaliar, observando todos os fatores. Neste sentido, a avaliação vem sendo discutida ao longo dos anos pelos profissionais da educação. Documentos como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB (2017) norteiam sua implementação, como no Art. 24, inciso V, sobre os critérios do rendimento escolar:
a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais; b) possibilidade de aceleração de estudos para alunos com atraso escolar; c) possibilidade de avanço nos cursos e nas séries mediante verificação do aprendizado; d) aproveitamento de estudos concluídos com êxito; e) obrigatoriedade de estudos de recuperação, de preferência paralelos ao período letivo, para os casos de baixo rendimento escolar, a serem disciplinados pelas instituições de ensino em seus regimentos; (LDB, 2017).
Nesse sentido, a LDB (2017) mostra muitos fatores que devem ser levados em consideração na hora de fazer uma avaliação. Além disso, coloca a progressão regular por série como possível através da progressão parcial, sendo a possibilidade de se pagar o componente que não foi alcançado no período seguinte, exceto para estudante do 3º ano e do módulo 3, da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Libâneo (1991, p.196) define avaliação como “um componente do processo de ensino que visa, através da verificação e qualificação dos resultados obtidos, a determinar a correspondência destes com os objetivos propostos e, assim, orientar a tomada de decisões em relação às atividades didáticas seguintes”.
Para Luckesi (2000, p.1) avaliar, significa estar disposto a acolher, como início de qualquer coisa que possa ser feita pois, “avaliar um educando implica, antes de mais nada, acolhê-lo no seu ser e no seu modo de ser, como está, para, a partir daí, decidir o que fazer”. Nesse sentido, em todas modalidades de ensino o acolhimento é importante, contudo, na Educação de Jovens e Adultos (EJA) torna-se imprescindível diante de tantos desafios e histórias que acompanham cada estudante. A LDB específica o público alvo do EJA por meio do “Art.37 – A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental ou médio na idade própria”.
Além disso, enfatiza no Art.3, inciso X, a valorização da experiência extraescolar, reforçando a relevância do conhecimento obtido previamente pelo estudante. Sendo assim, é necessário observar a forma de avaliar, não transformando-a como um instrumento de exclusão. Nesse contexto, a LDB também prevê o cuidado com a permanência do estudante na escola diante de diversidades e desafios, quando especifica no “Art.4, inciso VII – oferta de educação escolar regular para jovens e adultos, com características e modalidades adequadas às suas necessidades e disponibilidades, garantindo-se aos que forem trabalhadores as condições de acesso e permanência na escola”.
Em relação aos tipos de avaliação, Melo (2020, p. 11) coloca que a avaliação diagnóstica tem como objetivo identificar os conhecimentos antes de iniciar um conteúdo. Esse processo é utilizado para ajudar o professor a planejar, efetuar a avaliação formativa para acompanhar o progresso do aluno no desenvolvimento da aprendizagem, possibilitando um retorno ao estudante sobre seu nível e melhorar as estratégias de ensino. Além disso, propor uma avaliação somativa, observando o resultado final de um período, onde é utilizada através de notas ou conceitos. Outras formas seriam a autoavaliação, avaliação normativa, comparando o desempenho de um aluno com o de um grupo, ou avaliação por pares, avaliação entre estudantes.
Toda essa reflexão direciona nossa atenção ao momento de avaliar, pois cada dia para Educação de Jovens e Adultos é importante, onde a avaliação necessita de adaptações e direcionamentos tanto no Ensino Fundamental como no Médio. Freire (2022, p. 206) explica que o ensino dos conteúdos não é suficiente sem observar “o contexto escolar, reduzido a um espaço neutro em que os conflitos sociais não se manifestassem, nem queremos o exercício do pensar certo desligado do ensino dos conteúdos”.
Por isso, faz-se necessário uma maior ênfase na escuta dos estudantes, seja em rodas de conversa, debates, apresentações, para que se conheça melhor o estudante. Dar espaço de fala, muitas vezes é resgatar o conhecimento prévio, que muitas vezes, o próprio estudante não dá valor, pois dizem, “eu não sei de nada”. Freire (1996, p. 113) coloca que ensinar exige saber escutar porque “é escutando que aprendemos a falar com eles”.
Além disso, respeitar o conhecimento que já trazem e discutir com os estudantes o porquê de alguns saberes e ensino dos conteúdos. Junto a isso, associar a realidade ao que é ensinado, observando as implicações políticas em não considerar as áreas pobres, pois, para ensinar é necessário criticidade (Freire, 1996, p. 30-31). Outro fator importante é, ao avaliar, não ficar completamente preso ao erro como evidência maior do fracasso, mas a possibilidade de compreensão do processo de aprendizagem do estudante. Pois, “os erros que os alunos cometem são uma fonte de informação particularmente valiosa sobre seus avanços e suas dificuldades , o processo que seguiram e o ponto em que se encontram”. (Coll; Martín; Onrubia, 2008, p. 383).
Outra situação pertinente no ensino e na aprendizagem de Jovens e Adultos é o aprender de forma concreta, através do fazer, experiências em Química e Física, debates em Filosofia e Sociologia, desenhar o relevo em Geografia, dramatizar em História e Artes, construir uma maquete da célula em Biologia, jogar em Matemática, escrever sua história de vida em Português, dialogar em Inglês sobre compras na feira, uma trilha no zoológico, entre outros. Segundo a experiência no ambiente em que trabalhamos, os estudantes tiveram um pouco mais de compreensão, para que posteriormente estivessem preparados para uma verificação de aprendizagem escrita. Sobre o ensinar e o aprender, Freire (2022) mostra que por questões de ideologia, falta a compreensão do processo da produção do conhecimento social:
É como se ao ensinar eu não tivesse nada a ver com o aprender, e é como se ao aprender os educadores não tivessem nada a ver com o ensinar; como se ao ensinar o educador não aprendesse, pelo menos, a ensinar. É dialético porque eu não aprendo sem ensinar; para aprender a ensinar tenho de ensinar, mas tenho de ensinar aberto para aprender (Freire, 2022, p.169).
Assim, o pensamento dialético abordado por Freire nos ajuda a utilizar a argumentação para encontrar uma realidade mais profunda, que está em processo de transformação do mundo. O diálogo é utilizado como uma análise crítica do que está à nossa volta, podendo desta forma contribuir nas mudanças históricas para mudá-lo. Isso nos remete a motivação, impulsionada pela experiência pessoal de cada estudante, dando a ele uma razão especial para aprender. Por meio disso, o aluno percebe que não é vazio em conhecimento, podendo contribuir para que a cada momento possa agregar mais.
Nesse sentido, é importante que a EJA contribua para proporcionar a “mudança, reconheça, primeiro, a concretude de vida de jovens e adultos jogados à margem e que vivenciam histórias marcadas pela precarização do trabalho, pela violência e pela estigmatização” (Rodrigues; Carvalho; Sampaio, 2024, p. 4). Freire (2016, p.60) ainda nos mostra que a conscientização, apropriar-se da realidade e dessa forma pode desmistificar e romper. Por esse motivo, o opressor não quer a tomada de consciência crítica para a libertação. Assim, a educação contribuiu com a humanização, e para reflexão, “por isso mesmo, a conscientização é a abordagem da realidade mais crítica possível, desvelando-a para conhecê-la, e para conhecer os mitos que enganam e ajudam a manter a realidade da estrutura dominante” (Freire, 2016, p. 60).
Nesse contexto, Freire (2016, p. 57) afirma ser preciso compreender que a conscientização não está separada do mundo em que vivemos, mas na relação consciência-mundo, trazendo uma nova realidade. Através do pensamento crítico, que não se estagna, mas continua refletindo, é necessário tornar a reflexão como uma atitude que não acaba, do contrário entra-se na obscuridade.
Na prática, a vivência da atividade escolar sobre a conscientização, para Freire (2016, p. 62), acontece através da escolha de temas geradores e como são compreendidos, observando sempre a escolha de temas que tenham significado, pois:
Em nosso método, a codificação assume, no início, a forma de uma fotografia ou desenho que representa uma situação existencial real ou uma situação existencial constituída pelos alunos. Quando se projeta essa representação, os alunos efetuam uma operação que se encontra na base do ato de conhecimento: tomam distância do objeto cognoscível. Os educadores também fazem a experiência do distanciamento, de modo que tantos educadores quanto alunos podem refletir juntos, de maneira crítica, sobre o objeto cognoscível que os intermedeia. A finalidade da decodificação é atingir um nível crítico de conhecimento, começando pela experiência que o aluno tem da situação em seu “contexto real” (Freire, 2016, p. 63-64).
Desta maneira, a codificação, segundo Freire (2016, p.64), mostra-se como uma parte da realidade vivida pelos os estudantes, pois em vez de receberem informações sem conexão com sua realidade, refletem situações da sua própria existência, mostrando como veem o mundo. Nesse sentido, a avaliação deve está ligada a realidade em que os estudantes estão inseridos, pois:
É necessário que a educação seja adaptada - em seu conteúdo, seus programas e métodos - ao objetivo que se persegue, que é permitir ao homem tornar-se sujeito, construir-se como pessoa, transformar o mundo, firmar relações de reciprocidade com os outros homens, formar sua própria cultura e fazer história [...].(Freire, 2016, p. 74).
Neste contexto, observamos que a modalidade de Jovens e Adultos (EJA), necessita de um olhar especial, não do olhar de achar que o mínimo deve ser dado porque nunca poderão alcançar. Sendo assim deve-se dispor do máximo dentro das possibilidades, já que diversos impedimentos impossibilitaram a chegada de oportunidades até eles. Morais enfatiza (2023, p. 246) que “a partir de uma perspectiva fenomenológica, Freire traz uma concepção ‘problematizadora’ de educação, considerando o ato de conhecer através de uma intercomunicação mediada pelo mundo”.
Outro fator importante que podemos levar em consideração com relação a avaliação é o emocional, que na maioria das vezes traz consigo sentimentos de incapacidade, de acreditar que nunca vai conseguir, desprezando a si, que guarda dentro de si. Isso é explicado por Freire, já que “de tanto ouvirem dizer que não são capazes de aprender nada, que não sabem nada nem são capazes de aprender nada, que são doentes, preguiçosos e improdutivos, acabam por se convencer da própria inaptidão” (2016, p. 106).
Essa mudança de percepção ocorre na educação, e na própria escola, quando há consciência que a realidade pode mudar a partir do sujeito, no qual eles começam a realizar a própria história. Entretanto, quando a situação da falta de autoconfiança persiste, a figura do opressor também se mantém, e não há resistência. Por essa razão, é necessário converter a sala de aula em um espaço vital, de dialógico e transformador. Isso porque, os alunos transcendem notas, possibilitando alcançar a conscientização que desconstroem narrativas de incapacidade e reconstroem trajetórias (Freire, 2016, p. 140).
Nessa perspectiva, Morais (2023, p. 252-253), coloca que “na conscientização, que, para Freire, não apresenta apenas um sentido político, mas epistemológico, uma vez que o homem é o único ser capaz de exercer papel de agente ativo na realidade”. A tomada de consciência se dá na coletividade, tendo um importante papel na sociedade e educação, através da condição crítica que é criada. Assim, o processo de libertação acontece através das transformações que ocorre na vida do ser humano, podendo “ser mais e, assim, construir e reconstruir a sua história” (Morais, 2023, p.253).
No mundo cada vez mais digital, é necessário ter um olhar sobre o assunto, onde a avaliação de rede, como a diagnóstica, é utilizada de forma digital. Freire e Guimarães (2003, p.140) em ‘Diálogos sobre Educação’, enfatizavam a necessidade dos professores assumirem o protagonismo no uso de tecnologias modernas para formar estudantes críticos. Nesse contexto, cabe à escola desenvolver competências que permitam aos estudantes não apenas consumir, mas dominar os meios de comunicação de massa, evitando serem dominados por eles. Compreender a intencionalidade desses meios de tecnologia é essencial para o aluno se tornar capaz de extrair conclusões autônomas. “Portanto, os que não serão vítimas deles serão aqueles que terão aprendido a se servir desses meios. Os que não tiverem aprendido a se servir deles serão dominados pelos meios de comunicação" (Freire; Guimarães, 2003, p. 140).
Na Educação de Jovens e Adultos, tem-se um desafio maior devido a conjuntura de fatores que vão desde a falta do aparelho tecnológico, passando pela resistência do desconhecido até as dificuldades de um mundo diferente para os mais idosos. Para o professor, a necessidade da compreensão e adequação para o trabalho nessa área. Outros documentos importantes para nortear a vivência da avaliação em nossa realidade são, o Currículo de Pernambuco para EJA e os Itinerário Formativos para a EJA, que juntos, dão direcionamento significativo.
O Currículo de Pernambuco para a EJA (2022, p. 29) enfatiza a necessidade de “[...] instrumentos diversificados de avaliação, adequados às especificidades dos sujeitos, e que, em vez de perpetuar as práticas de exclusão que os conduziram à modalidade, promovam reflexão, mudanças de perspectivas e avanços [...]”. Nesse sentido, a avaliação seria um instrumento para verificar dificuldades e auxiliar na decisão de procedimentos para o desenvolvimento dos estudantes, em uma proposta processual, que envolva todos os que constituem a escola e que esteja inserido no Projeto Político-Pedagógico.
Assim, para avaliação na EJA torna-se necessária não só o conhecimento técnico em cada modalidade de ensino, mas a sensibilidade de escuta e adaptação para cada conteúdo a ser vivenciado, bem como da reflexão com o estudante sobre sua aplicabilidade em seu dia a dia. Em relação a tolerância, Freire nos lembra que: “respeite o diferente, seus sonhos, suas ideias, suas opções, seus gestos, que não o negue só porque é diferente” (Freire, 2022, p. 26).
Além disso, esse processo possibilita aos estudantes voltarem à sua realidade já com novas experiências, a partir da análise crítica, tendo a possibilidade de novas soluções, sendo multiplicadores de conscientização, com uma mudança de pensamento e uma direção de desenvolvimento e libertação (Freire, 2016, p. 158-159). Desta forma, é necessário estarmos dispostos, ao mesmo tempo que ensinamos, a também aprender com eles e contribuir para que esse conhecimento que foi produzido seja praticado no dia a dia.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise da literatura e do levantamento realizado revelou que a avaliação na EJA enfrenta obstáculos, principalmente à falta de adaptações específicas para essa modalidade, o que pode comprometer tanto o processo de ensino quanto ao desenvolvimento dos alunos. Evidencia-se a necessidade de uma avaliação contínua, qualitativa e formativa, que valorize as experiências prévias dos alunos e respeite seu contexto de vida. Além disso, a pesquisa reforçou a importância do respeito mútuo entre professores e alunos como base para um ambiente de aprendizagem mais inclusivo e produtivo.
Os resultados apontam para a necessidade de revisões nas práticas avaliativas, de modo que elas possam considerar o protagonismo dos estudantes na construção do conhecimento e apoiar sua autonomia educativa na EJA. Isto significa que, necessitamos aprofundar a formação continuada dos professores nessa modalidade para que possam discutir e construir material pertinente para a EJA, familiarizando-os com a literatura sobre o assunto. Em nossa realidade, escola com Educação de Jovens e Adultos no Ensino Médio, percebemos que muitos estudantes que concluíam o Ensino Fundamental, não ingressavam no Médio ou abandonavam.
Neste contexto, iniciamos um trabalho com a escola de Ensino Fundamental,na qual provém a maioria de nossos estudantes. Uma vez ao ano, organiza-se uma visita com os estudantes da escola do Ensino Fundamental ao estabelecimento do Ensino Médio. Nesse dia, promovemos a recepção dos estudantes, apresentando a parte física da escola, introdução dos professores e funcionários, atividades didáticas, como experiências química, resoluções em matemática, atividades culturais e partilha alimentar. Além disso, estudantes que já foram do Ensino Fundamental da referida escola relatam a experiência que tiveram.
Todo esse contexto nos proporcionou relatos importantes de estudantes que diziam: “quase que desisti de continuar o Ensino Médio porque diziam que já tava bom”; “eu estava com medo de continuar, mas vi que não precisa ter medo”; “se os outros conseguiram, eu vou conseguir também”. Isto nos mostrou que a preparação e a interação com a escola do Ensino Fundamental é importante no sentido de já irmos trabalhando a questão da autoconfiança. Para Freire (2016, p.144-145), “os alunos necessitam descobrir as razões que ocultam por trás da maior parte de suas atitudes em face da realidade cultural, para assim colocar-se diante dela de uma maneira nova”. Assim, é essencial desenvolver o conhecimento crítico, não apenas a emissão de opinião, relacionando-se no mundo de forma histórico cultural.
Sobre a modalidade de Jovens e Adultos, o Ministério da Educação - MEC, em seu portal institucional, coloca informações sobre o Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da Educação de Jovens e Adultos, uma política pública com colaboração entre o MEC, União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Essa política tem como finalidade superar o analfabetismo, elevar a escolaridade, ampliar a oferta de matrículas da educação de jovens e adultos (EJA) nos sistemas públicos de ensino, inclusive entre os estudantes privados de liberdade e aumentar a oferta da EJA integrada à educação profissional.
Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - PNAD Contínua (2024), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, o índice de analfabetismo no Brasil é elevado, com uma porcentagem de 5,3%. Em função desses dados, durante os quatro anos com o pacto, deseja-se a ampliação de vagas em alfabetização por meio de programas como o PBA, Atendimento dos Estudantes de EJA no Programa Pé de Meia, Programas de Formação de Professores e Educadores Populares, além de três mil escolas com recursos do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE-EJA).
O contexto do analfabetismo no Brasil está associado à idade, principalmente entre as pessoas mais velha, com um número expressivo entre os maiores de 15 anos de 5,4%. Observando na população masculina (5,7%) e feminina (5,2%) acima de 15 anos, percebe um índice maior entre os homens (15,4%) e mulheres (15,5%) mais velhos, com base nos dados 2023. As regiões Norte e Nordeste destacam-se com os maiores índices de analfabetismo, necessitando de uma organização coordenada para estabelecer metas, atuação de interação e reintegração do estudante na escola. Para isso, foram estabelecidos 11 preceitos no Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da Educação de Jovens e Adultos:
Colaboração entre os entes federativos, de acordo com o artigo 211 da Constituição Federal; Fortalecimento das formas de colaboração entre a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios (conforme inciso II do art. 10 da Lei nº 9.394, de 1996); Integração da Educação de Jovens e Adultos (EJA) com a educação profissional e tecnológica (EPT), com foco no desenvolvimento pleno do educando para exercer a sua cidadania e estar qualificado para o trabalho; Equidade nas condições de oferta da EJA; Prioridade no atendimento dos grupos sociais em maior situação de vulnerabilidade, considerando aspectos regionais, socioeconômicos, étnico-raciais e de gênero; Multiplicidade de metodologias, abordagens, instrumental-pedagógico e recursos didáticos coerentes com o perfil e o contexto dos sujeitos; Reconhecimento da diversidade de público da EJA, respeitando as características étnicas, raciais, etárias, de gênero, renda e local de moradia, das pessoas privadas de liberdade e em cumprimento de medidas socioeducativas, das pessoas com deficiência e de outras condições e contextos específicos; Valorização dos profissionais da EJA; Integração das ações do poder público e a articulação intersetorial para o estímulo do acesso e da permanência do trabalhador na escola; Mobilização e engajamento dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada; Valorização e reconhecimento da contribuição da educação popular nas ações de alfabetização (MEC, 2025).
Todos os itens citados mostram o quanto é importante a articulação e a compreensão da dimensão e complexidade da modalidade. Nesse sentido, é necessário o conhecimento contínuo e atualizado para a sala de aula, munido da compreensão de sua funcionalidade como professor, podendo assim, implementar sua avaliação diária de forma segura. A organização do tempo escolar e as formas de frequência dos estudantes na educação básica permanecem em debate, conforme disposto no parecer homologado e publicado. Nesse documento, o Ensino Fundamental mantém a exigência de frequência integralmente presencial, enquanto o Ensino Médio admite a realização de até 50% das atividades de forma presencial, articuladas a outras modalidades de oferta. (D.O.U. de 8/4/2025, Seção 1, p. 28.).
A dinâmica da escola e do quantitativo de professores que estarão envolvidos irá determinar como ofertaram as disciplinas, pois a forma de organização dependerá da demanda local. Ao longo dos anos, as turmas de EJA foram fechadas, turnos noturnos sendo extintos em muitas escolas, tendo como consequência a mudança na vida de professores e estudantes.
Isso abre reflexões sobre a avaliação da EJA no Ensino Médio, pois algumas instituições não tem suas atividades plenamente presenciais, além de outras estarem em processo de implementação do 50% presencial. Todo esse contexto recai principalmente para os mais idosos, que têm dificuldade com o uso da tecnologia, tendo a escola como motivo de socialização. Por isso, o debate sobre o assunto deve continuar, para uma melhor adequação das estratégias.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O trabalho possibilitou compreender que a avaliação na Educação de Jovens e Adultos (EJA), caracteriza-se como um compromisso, acolhimento e emancipação. A pesquisa nos mostra que o processo avaliativo foi refletido por vários autores ao longo do tempo e observamos que é importante fazer a adequação das propostas para a EJA, onde a avaliação seja administrada de forma eficiente e que assim possa contribuir para a aprendizagem dos estudantes.
Nossa experiência com a Educação de Jovens e Adultos no Ensino Médio, nos levou a refletir que a adequação proporciona a compreensão dos professores e estudantes do processo avaliativo para além do erro e da média abaixo do esperado. Pois, a avaliação na EJA, mostra-se efetiva quando considera a diversidade dos sujeitos e suas experiências extraescolares.
Assim, a pesquisa contribui para alicerçar nossa experiência e proporcionar uma discussão que se alarga ajudando a obter mais subsídios que ajude a praticar o ato de avaliar de forma mais condizente com a modalidade de ensino.
Contudo, na realidade da EJA em que convivemos, percebemos que mesmo com a adequação avaliativa é importante levar em consideração o processo de autoconfiança, pois contribui para que o estudante veja a avaliação de forma otimista e menos com atitudes de anulação.
E a estratégia de interação entre o Ensino Fundamental e o Ensino Médio e os relatos colhidos demonstram que o convite antecipado para conhecer o ambiente escolar atua como uma motivação para a avaliação.
Neste sentido, levar em consideração a autoconfiança como processo de fortalecimento da aprendizagem e da avaliação contribui para o crescimento de forma global de estudantes e de professores, pois o que se aprende na escola torna-se parte de cada um, podendo assim, colocar na vida a prática do que foi aprendido.
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