AVALIAÇÃO DO USO DO CANABIDIOL NO CONTROLE DA DOR E ANSIEDADE EM CIRURGIA ODONTOLÓGICA DE TERCEIROS MOLARES: ENSAIO CLÍNICO RANDOMIZADO DUPLO-CEGO PROJETO PILOTO

EVALUATION OF THE USE OF CANNABIDIOL IN THE CONTROL OF PAIN AND ANXIETY IN THIRD MOLAR DENTAL SURGERY: A DOUBLE-BLIND RANDOMIZED CLINICAL PILOT TRIAL

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/774669551

RESUMO
Este estudo piloto teve como objetivo avaliar a eficácia da goma THC/CBD Extra Strength Full Spectrum (300 mg, marca CR Wellness® — 150 mg de THC e 150 mg de CBD) no controle da dor e da ansiedade em pacientes submetidos a cirurgia oral menor, nos períodos pré-operatório, pós-operatório imediato e pós-operatório tardio. A amostra foi composta por 12 participantes, distribuídos igualmente entre o grupo intervenção (n=6) e o grupo placebo (n=6). Foram avaliados os níveis de ansiedade antes e após o uso da goma, a presença de efeitos adversos, o conforto relacionado à dor pós-operatória e alterações em sinais vitais. Os resultados mostraram que 75% dos participantes não relataram efeitos colaterais. Entre os que apresentaram reações, a sonolência foi a mais frequente (16,7%). A análise da dor pós-operatória, utilizando o teste U de Mann-Whitney, não evidenciou diferenças estatisticamente significativas entre os grupos. Da mesma forma, as análises da pressão arterial (ANOVA de Kruskal-Wallis) e da ansiedade (testes U de Mann-Whitney e Qui-quadrado) não indicaram significância estatística. Embora os parâmetros clínicos não tenham demonstrado diferenças significativas, os participantes do grupo intervenção relataram alta aceitabilidade e satisfação com o uso da goma, sugerindo efeitos subjetivos positivos. Os achados preliminares apontam para a segurança do produto, na ausência de eventos adversos relevantes, e destacam a necessidade de estudos futuros com amostras maiores, ajustes de dosagem e diferentes proporções de THC e CBD para melhor compreender sua eficácia terapêutica em odontologia.
Palavras-chave: Canabinoides. Ansiedade. Analgesia. Cirurgia Bucal. Produtos de Fitoterapia.

ABSTRACT
This pilot study aimed to evaluate the effectiveness of the THC/CBD Extra Strength Full Spectrum gummy (300 mg, CR Wellness® brand — 150 mg THC and 150 mg CBD) in managing pain and anxiety in patients undergoing minor oral surgery during the preoperative, immediate postoperative, and late postoperative periods. The sample consisted of 12 participants, equally divided between the intervention group (n=6) and the placebo group (n=6). Anxiety levels before and after gummy use, the presence of adverse effects, postoperative pain-related comfort, and changes in vital signs were assessed. Results showed that 75% of participants reported no side effects. Among those who did, drowsiness was the most frequent (16.7%). Postoperative pain analysis using the Mann-Whitney U test revealed no statistically significant differences between groups. Similarly, analyses of blood pressure (Kruskal-Wallis ANOVA) and anxiety (Mann-Whitney U and Chi-square tests) showed no significant differences. Although clinical parameters did not demonstrate statistically significant differences, participants in the intervention group reported high acceptability and satisfaction with gummy use, suggesting positive subjective effects. Preliminary findings indicate the product's safety, with no relevant adverse events, and underscore the need for future studies with larger sample sizes, dosage adjustments, and different THC/CBD ratios to better understand the therapeutic efficacy of cannabinoids in dentistry.
Keywords: Cannabinoids. Anxiety. Analgesia. Oral Surgery. Phytotherapeutic Drugs.

1. INTRODUÇÃO

A Cannabis sativa L., uma planta pertencente à família Cannabaceae, tem sido cultivada e utilizada pela humanidade há milênios e é uma das plantas mais antigas em termos de uso medicinal, religioso e industrial. Nas últimas décadas, a Cannabis tem atraído a atenção da comunidade científica, especialmente com o crescente interesse em seus compostos canabinóides, como o tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD), que demonstraram potencial terapêutico para uma variedade de condições médicas, como dor crônica e ansiedade (Gournay et al., 2023).

O CBD e o THC têm sido objeto de extensos estudos para fins medicinais, especialmente no que se refere ao tratamento da ansiedade e ao alívio da dor. Diversas pesquisas clínicas e pré-clínicas indicam que o CBD desempenha um papel significativo na redução da ansiedade. Estudos demonstraram que doses únicas de CBD — variando entre 300 e 600 mg — podem diminuir de forma significativa os sintomas de ansiedade em indivíduos com transtorno de ansiedade social (Gournay et al., 2023; Bloomfield et al., 2022). Esses efeitos estão associados à modulação de regiões cerebrais, como a amígdala e o córtex cingulado anterior, que são fundamentais na resposta ao medo e à ansiedade. Por atuar como agonista parcial dos receptores 5-HT1A, envolvidos na regulação do humor e da ansiedade, o CBD é geralmente bem tolerado, apresentando poucos efeitos adversos, limitados a desconforto intestinal em alguns casos e uma leve fadiga (Perkins et al., 2020).

Tanto o CBD quanto o THC têm demonstrado eficácia no manejo da dor em estudos (Gournay et al., 2023). O CBD mostrou capacidade de reduzir a sensibilidade à dor, além de melhorar comportamentos relacionados à ansiedade (Knorst, 2023). Esses efeitos estão relacionados à modulação dos receptores canabinoides e serotoninérgicos. Com propriedades anti-inflamatórias, o CBD é considerado promissor para o tratamento de condições como artrite e diversas doenças inflamatórias, como a gengivite (De Gregorio et al., 2019; Silva et al., 2024; Lowe et al., 2021).

A combinação de CBD e THC tem se mostrado mais eficaz no alívio da dor crônica e ansiedade (Silva et al., 2024). Essa sinergia entre os dois compostos proporciona uma redução significativa na intensidade da dor (Hutten et al., 2022; Abidi et al., 2022). Diante das principais abordagens farmacológicas utilizadas para o controle da dor pós-operatória em odontologia tradicionais, o canabidiol pode ser eficaz no manejo tanto da dor quanto da ansiedade em procedimentos odontológicos, podendo ser aplicado em cirurgias dentárias e outros tipos de tratamento. Atualmente, a ansiedade e a odontofobia têm se tornado um desafio crescente para os cirurgiões-dentistas, além de representarem um obstáculo para pacientes que evitam tratamentos necessários devido ao temor de se sentar na "cadeira do dentista" (Gerzson et al., 2021; Possobon et al., 2007).

O CBD é uma alternativa de tratamento que pode ser eficaz e menos tóxica quando comparado aos métodos convencionais disponíveis atualmente. Ao reduzir a dependência de abordagens tradicionais, o uso de CBD pode servir como uma estratégia mais natural para o manejo dessas condições. As pesquisas com CBD e THC para o manejo do medo, dor e ansiedade estão sendo frequentemente realizadas, e essa terapêutica pode beneficiar não somente aqueles que sofrem com essas questões, mas também contribuir para o avanço do conhecimento e das evidências científicas sobre terapias complementares para o enfrentamento da dor e da ansiedade em Odontologia (Gournay et al., 2023; Perkins et al., 2020; De Gregorio et al., 2019; Lowe et al., 2021; Hutten et al., 2022; Abidi et al., 2022).

Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo avaliar a eficácia da goma de canabinóides (CBD/THC 300 mg – Extra Strength Full Spectrum), da marca CR Wellness®, no controle da ansiedade pré-operatória e da dor pós-operatória imediata e tardia em pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos odontológicos. Como objetivo secundário, o estudo também investigou possíveis efeitos adversos relacionados ao uso da dose administrada.

2. METODOLOGIA

2.1. Desenho do Estudo

pagina_1.pngTrata-se de um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, destinado a avaliar a eficácia da goma de canabinóides (CBD/THC 300 mg – Extra Strength Full Spectrum), da marca CR Wellness®, no controle da ansiedade pré-operatória e da dor pós-operatória imediata e tardia em pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos odontológicos, bem como a ocorrência de possíveis efeitos adversos relacionados à dose administrada. O delineamento contemplou a comparação entre um grupo experimental, que recebeu a formulação contendo CBD/THC, e um grupo controle, que recebeu placebo com características sensoriais semelhantes.

O estudo foi conduzido pelos autores na Faculdade Herrero (Curitiba, Paraná, Brasil) no período noturno, no contexto da disciplina de Clínica Integrada I, onde os pacientes foram triados e posteriormente submetidos aos procedimentos cirúrgicos.

As variáveis avaliadas incluíram ansiedade (medida pela Escala de Ansiedade Odontológica de Corah), dor (avaliada pela Escala Visual Analógica – EVA) e percepção subjetiva do tratamento (por meio de questionário qualitativo). A hipótese principal foi a de que o uso da goma com canabinóides promoveria redução da ansiedade e da dor, com efeitos adversos toleráveis.

2.2. Revisão Bibliográfica

A revisão de literatura utilizada como base para estruturação e confecção desse estudo foi realizada por meio de buscas nas bases de dados PubMed, Google Acadêmico e Cochrane Library, com o objetivo de identificar evidências científicas atualizadas sobre o uso de canabinóides no controle da dor e da ansiedade, especialmente em contextos cirúrgicos odontológicos.

A busca foi realizada com os termos “canabidiol”, “dor”, “ansiedade”, “cirurgia odontológica”, em português e inglês. Apenas estudos publicados nos últimos 5 anos foram considerados (2020 a 2025).

2.3. Amostra

A amostra foi composta por 12 pacientes, divididos igualmente entre o grupo experimental (n = 6) e o grupo controle (n = 6). Os participantes foram recrutados entre pacientes atendidos na clínica odontológica da Faculdade Herrero, durante o período noturno, por acadêmicos da disciplina de Clínica Integrada IV, sob supervisão de preceptores clínicos. Também foram considerados pacientes encaminhados por Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Curitiba e região metropolitana, além de voluntários recrutados via redes sociais institucionais, por meio de chamada pública no perfil oficial da instituição no Instagram (@FaculdadeHerrero), com preenchimento de formulário e posterior triagem clínica. Durante a triagem, os pacientes que não puderam ser incluídos na pesquisa ou não aceitaram participar do estudo, mas, tinham necessidade de tratamento odontológico, foram orientados que a não participação do estudo não iria interferir de nenhuma forma no seu atendimento, e foram devidamente encaminhados para que suas necessidades pudessem ser atendidas pela instituição, sem nenhum prejuízo.

2.4 Critérios de Inclusão

Foram incluídos no estudo indivíduos com idade entre 18 e 59 anos, de ambos os sexos e pertencentes a qualquer grupo étnico, desde que residentes na cidade de Curitiba ou região metropolitana. Os participantes deveriam apresentar indicação clínica para a realização de procedimentos cirúrgicos odontológicos de exodontia de terceiros molares de maxila e mandíbula de dentes erupcionados e semi-inclusos. Outro critério necessário para inclusão foi o relato, por parte do paciente, de sensação de ansiedade relacionada a procedimentos odontológicos. Pacientes diagnosticados com doenças crônicas como diabetes e hipertensão também foram elegíveis, desde que a condição estivesse controlada no momento da triagem.

2.5. Critérios de Exclusão

Foram excluídos os indivíduos com idade inferior a 18 anos e superior a 59 anos, bem como aqueles que faziam uso de benzodiazepínicos como Diazepam, Clonazepam e outros ansiolíticos ou substâncias ilícitas (usuários de maconha e outras drogas). Também foram excluídas mulheres gestantes, lactantes ou que estivessem tentando engravidar, considerando os potenciais riscos desconhecidos à exposição aos canabinoides durante esses períodos.

2.6. Aspectos Éticos

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Sociedade Educacional Herrero, sob o número de parecer 7.213.375 e CAAE: 83512324.60000.5688, emitido em 07 de novembro de 2024 (ANEXO A). A pesquisa seguiu todas as diretrizes éticas previstas nas resoluções vigentes do Conselho de Ética em Pesquisa para pesquisas envolvendo seres humanos. O estudo só foi iniciado e os pacientes convidados a participar após a aprovação do CEP. A goma com canabinóides foi prescrita e importada legalmente pelos pesquisadores responsáveis, devidamente habilitados para tal.

Todos os voluntários que preencheram os critérios de elegibilidade foram convidados a participar da pesquisa. Aqueles que aceitaram, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (ANEXO B), após receberem explicações detalhadas sobre os objetivos, procedimentos e implicações do estudo. Aqueles que recusaram ou não se enquadravam nos critérios foram atendidos normalmente pelo serviço odontológico, sem nenhum prejuízo assistencial.

2.7. Randomização

A randomização foi realizada por meio do aplicativo Randomizer, utilizando randomização simples. A sequência de alocação foi gerada previamente por uma pesquisadora que não participou da coleta de dados nem acompanhou presencialmente os procedimentos cirúrgicos e o atendimento aos pacientes. Foram preparados envelopes de coloração parda, numerados sequencialmente, contendo em seu interior os materiais do estudo (TCLE e questionários) e um envelope menor lacrado igualmente pardo contendo a medicação (ativa ou placebo), correspondente à sequência numérica de randomização previamente realizada. Os pesquisadores envolvidos no atendimento dos pacientes e coleta de dados não tiveram acesso ao conteúdo do envelope de medicamentos durante a aplicação, garantindo o caráter duplo-cego da pesquisa.

Dois grupos:

  1. Grupo Experimental: Recebeu uma goma mastigável da marca CR Wellness®, com formulação Extra Strength Full Spectrum, contendo 300 mg de canabinoides (150 mg de CBD e 150 mg de THC).

  2. Grupo Controle (placebo): Recebeu uma goma mastigável da marca FINNI®, isenta de compostos ativos, mas com aparência, sabor e textura semelhantes à goma experimental.

2.8. Intervenções Realizadas

Todos os participantes passaram por avaliações clínicas iniciais. Os participantes recrutados e que aceitaram a participar do estudo foram instruídos a ler e assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Em seguida, foi aplicada a Escala de Ansiedade Odontológica de Corah (CORAH) (ANEXO C) por meio de entrevista conduzida pelos pesquisadores, com o objetivo de avaliar o nível basal de ansiedade em relação ao procedimento cirúrgico. O tempo estimado para essa aplicação foi de, aproximadamente, cinco minutos.

Após a avaliação da ansiedade, a pressão arterial sistólica e diastólica dos pacientes foi aferida antes da administração da medicação. A medicação, na forma de goma (que poderia conter princípio ativo ou placebo), foi entregue em envelopes lacrados e ingerida pelos participantes sob supervisão dos circulantes da clínica integrada, com os pesquisadores se retirando da sala para garantir o sigilo da administração. Imediatamente após a ingestão da medicação, um cronômetro foi acionado. Trinta minutos depois, a pressão arterial foi aferida novamente para monitoramento.

Após essa etapa, os pacientes foram conduzidos a sala cirúrgica para o início do procedimento. Imediatamente após o término da cirurgia, os participantes preencheram a Escala Visual Analógica (EVA) (ANEXO C) para mensurar a dor pós-operatória imediata, avaliando não apenas a intensidade da dor, mas também seu impacto geral.

Para anestesia foi utilizado mepivacaína 2% com 1:100.000 de epinefrina. A medicação pós cirúrgica foi padronizada como forma de controle: Dipirona 500mg 6/6 horas por 3 dias e Ibuprofeno 600mg de 8/8 horas por 5 dias.

Sete dias após o procedimento, durante a consulta de retorno para avaliação pós-operatória e remoção das suturas, os pacientes responderam novamente a EVA para avaliação da dor em período tardio. Além disso, preencheram um questionário qualitativo estruturado (ANEXO C), desenvolvido para captar a percepção subjetiva da experiência com o tratamento, incluindo aspectos como a eficácia, impacto e percepção pessoal do procedimento. O tempo estimado para a aplicação desse questionário foi de aproximadamente oito minutos.

Dessa forma, o protocolo contemplou avaliações objetivas e subjetivas em três momentos principais: pré-operatório (ansiedade), pós-operatório imediato (dor) e pós-operatório tardio (dor e experiência com o tratamento), garantindo uma análise abrangente da resposta dos participantes ao procedimento cirúrgico e à medicação administrada.

2.9. Análise Estatística

A análise dos dados foi conduzida utilizando os softwares JAMOVI para Windows (versão 2.6.44.0) e IBM SPSS Statistics (versão XX), com nível de significância estabelecido em p < 0,05 para todas as comparações. Os dados sociodemográficos foram analisados por estatística descritiva, incluindo cálculo de médias, desvios padrão, frequências e porcentagens. A homogeneidade dos grupos foi verificada por meio do teste t de Student para variáveis contínuas e pelo teste qui-quadrado (ou exato de Fisher) para variáveis categóricas. Para comparação do nível de ansiedade entre os grupos, foi aplicado o Teste U de Mann-Whitney, adequado para amostras independentes com distribuição não normal ou variáveis ordinais. A associação entre o uso da medicação e a melhora do quadro de ansiedade foi avaliada pelo teste qui-quadrado. A comparação da dor pós-operatória entre os grupos foi realizada por meio do Teste U de Mann-Whitney. As variações na pressão arterial pré e pós-cirúrgica foram analisadas utilizando o teste não paramétrico ANOVA Kruskal-Wallis, além da análise de variância para medidas repetidas (ANOVA), considerando o tempo como fator intra-sujeito e o grupo como fator inter-sujeito. Comparações pontuais entre grupos em tempos específicos foram conduzidas com o teste t de Student, com aplicação de correção de Bonferroni quando apropriado.

As respostas ao questionário qualitativo foram analisadas conforme a natureza das variáveis: teste t de Student para variáveis contínuas, teste Mann-Whitney U para variáveis ordinais e teste qui-quadrado para variáveis categóricas. A incidência de efeitos colaterais foi documentada e apresentada de forma descritiva.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A caracterização demográfica dos participantes revelou que a maior parte (50%) se encontrava na faixa etária de 18 a 29 anos, conforme ilustrado no Gráfico 1. Em relação ao sexo, observou-se uma distribuição equitativa entre os grupos, com 50% de participantes do sexo feminino e 50% do sexo masculino, conforme apresentado no Gráfico 2. A distribuição por sexo não foi proposital.

Gráfico 1 - Distribuição dos participantes por faixa etária.

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

Gráfico 2 - Distribuição dos participantes por sexo.

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

Para a comparação do nível de ansiedade entre os grupos controle e experimental, foi aplicado o teste não paramétrico U de Mann-Whitney, obtendo-se um valor de p = 0,257. Esse resultado indica a ausência de diferença estatisticamente significativa nos escores de ansiedade entre os grupos. As estatísticas descritivas da Escala de Ansiedade Odontológica de Corah (CORAH) revelaram uma média de 8,67 (DP = 4,72) no grupo controle (n = 6) e de 7,67 (DP = 5,39) no grupo experimental (n = 6), conforme demonstrado na Tabela 1 e 2.

Tabela 1 – Comparação do nível de ansiedade entre os grupos

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

Tabela 2 – Descritivas de Grupo

 

Grupo

N

Média

Mediana

Desvio-padrão

Erro-padrão

CORAH

Controle

6

8.67

7.50

4.72

1.93

Placebo

6

7.67

4.50

5.39

2.20

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

Para avaliar a relação entre o uso da medicação e a melhora do quadro de ansiedade, foi aplicado o teste Qui-quadrado, cujo resultado indicou um valor de p = 0,549. Esse achado demonstra que não houve associação estatisticamente significativa entre o tipo de intervenção e a percepção de melhora da ansiedade. A Tabela 3 apresenta a distribuição dos participantes em relação aos diferentes níveis de resposta, categorizados como: “não houve melhora”, “redução leve”, “redução moderada”, “redução significativa” e “desaparecimento total dos sintomas”, e a tabela 4 com o resultado.

Tabela 3 – Avaliação entre o uso da medicação e redução da ansiedade

Tabelas de Contingência

 

Ansiedade

 

Grupo

Não houve

Redução leve

Redução moderada

Desaparecimento total

Não houve

Redução significativa

Total

Controle

1

0

1

1

1

2

6

Placebo

2

1

0

2

0

1

6

Total

3

1

1

3

1

3

12

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

Tabela 4 – Resultado Qui-quadrado

Testes χ2

 

Valor

gl

p

χ²

4.00

5

0.549

N

12

 

 

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

A análise da dor pós-operatória foi conduzida por meio do teste não paramétrico U de Mann-Whitney, revelando ausência de diferença estatisticamente significativa entre os grupos, com valor de p = 0,304. O resultado mostrado na Tabela 5, indica que o tipo de intervenção não influenciou significativamente os níveis de dor relatados no período pós-operatório imediato.

Tabela 5 – Análise dor pós-operatória

Teste t para amostras independentes

 

 

Estatística

p

Dor pós-op tardia

U de Mann-Whitney

11.5

0.304

Nota. Hₐ μcontrole ≠ μplacebo

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

A avaliação da pressão arterial nos momentos pré e pós ingestão da goma foi realizada utilizando o teste não paramétrico ANOVA de Kruskal-Wallis, ilustrado na Tabela 6. Os resultados indicaram ausência de variação estatisticamente significativa entre os grupos, com valor de p = 0,631 para ambos os momentos de aferição (antes e após a administração da medicação).

Tabela 6 – Comparativo da pressão arterial

ANOVA - Kruskal-Wallis

 

χ2

gl

p

Pressão antes

0.231

1

0.631

Pressão depois

0.231

1

0.631

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

Em relação aos efeitos adversos, a maioria dos participantes (75%) relatou não ter apresentado nenhuma reação. Entre os que relataram algum efeito, 16,7% mencionaram sonolência e 8,3% referiram outros tipos de efeitos adversos, conforme ilustrado no Gráfico 3.

Gráfico 3 – Efeitos adversos

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

Todos os participantes relataram que indicariam o tratamento com canabidiol após a experiência vivenciada durante o estudo. O CBD e o THC configuram uma abordagem terapêutica complementar relativamente recente, e investigações como esta são essenciais para ampliar o conhecimento científico acerca de seus efeitos, perfil de segurança e potencial clínico. A crescente demanda por alternativas terapêuticas, especialmente voltadas para o manejo de condições crônicas e sintomas que impactam negativamente a qualidade de vida, tem impulsionado o avanço das pesquisas nessa área (Marquez et al., 2024).

Dor

A análise da dor pós-operatória neste estudo, realizada por meio do teste U de Mann-Whitney, não revelou diferença estatisticamente significativa entre os grupos. Isso sugere que, na dosagem e no contexto avaliados, a combinação de CBD/THC pode não exercer um efeito expressivo na redução da dor pós-operatória em comparação ao placebo. Contudo, ao comparar com outros estudos que empregaram diferentes vias de administração, é importante considerar limitações como o tamanho reduzido da amostra, a heterogeneidade nas percepções de dor, além da dose e concentração dos princípios ativos administrados (Silva, 2023).

Um estudo semelhante, realizado em 2023 por Silva, avaliou dor e ansiedade durante tratamento endodôntico. Nesse estudo, foi administrado um extrato de Cannabis rico em CBD (78,497%) e THC (3,724%), com concentração de 400 mg de CBD/ml, por via sublingual, utilizando uma seringa de 1 ml aplicada 30 minutos antes do procedimento, em uma amostra de 35 participantes, sendo 19 no grupo experimental e 16 no grupo placebo. O autor também não identificou diferenças estatisticamente significativas entre os grupos quanto às variáveis avaliadas (Silva, 2023). Em contrapartida, outras formas de administração, como a via intravenosa (Raft et al., 1977), diferentes dosagens (por exemplo, 10 a 20 mg/kg de peso) (Chrepa et al., 2024) e variadas proporções de THC/CBD, mostraram-se eficazes no manejo da dor em contextos odontológicos.

Ansiedade

O controle da ansiedade em ambiente odontológico é amplamente discutido na literatura, devido à sua relevância como barreira entre o cirurgião-dentista e o paciente. Quanto mais ansioso o indivíduo se apresenta, menor tende a ser seu limiar de dor, tornando o procedimento mais traumático e, consequentemente, contribuindo para o afastamento dos cuidados em saúde bucal (Guimarães et al., 2023; Gomes, Stabile & Ximenes, 2020; Carvalho et al., 2012; Costa et al., 2012).

A avaliação da ansiedade, tanto pelo teste U de Mann-Whitney quanto pelo teste Qui-quadrado, não demonstrou diferença significativa entre o grupo experimental e o grupo placebo. Esses achados, considerando o número limitado de participantes, contrastam com relatos e estudos preliminares que sugerem potencial ansiolítico dos canabinoides. Em comparação com fármacos benzodiazepínicos, como diazepam e midazolam, conhecidos por seus efeitos ansiolíticos rápidos, a ação dos canabinoides pode ser mais sutil ou dependente de doses e formulações específicas. A ausência de efeito estatisticamente significativo pode estar relacionada à dose utilizada, à metodologia de avaliação ou ao tamanho da amostra.

Estudos indicam que os efeitos são dependentes da dose e do tempo de uso. Pesquisas com doses variadas de CBD (150 mg a 800 mg), em uso prolongado, demonstraram resultados relevantes (Gundugurti et al., 2024; Masataka, 2019), enquanto doses únicas elevadas nem sempre apresentaram resultados significativos.

Dose

A dose da combinação CBD/THC administrada neste estudo foi de 300 mg (150 mg de CBD e 150 mg de THC). A titulação da dose é um fator crítico na pesquisa com canabinoides, uma vez que tanto a eficácia quanto os efeitos adversos dependem da concentração e proporção dos compostos. Estudos sugerem que o THC isoladamente pode aumentar a ansiedade, enquanto o CBD pode reduzi-la, embora não necessariamente neutralize a ansiedade induzida pelo THC (Hutten et al., 2022). A ausência de efeito terapêutico significativo neste estudo pode estar relacionada à dose utilizada, possivelmente insuficiente para produzir impacto clínico relevante.

Efeitos adversos e interação medicamentosa

A maioria dos participantes (75%) não relatou efeitos adversos. Entre os que relataram, a sonolência (16,7%) foi o mais frequente, seguida por outros efeitos (8,3%) não especificados de forma conclusiva. A baixa incidência de efeitos adversos graves sugere um perfil de segurança favorável no contexto avaliado.

A interação medicamentosa é uma preocupação relevante, uma vez que os canabinoides são metabolizados por enzimas do citocromo P450. Embora não investigada diretamente neste estudo, essa interação merece atenção, pois evidências indicam interferência com fármacos como omeprazol, losartana, midazolam e cafeína, podendo prolongar seus efeitos e aumentar o risco de eventos adversos (Bansal et al., 2023). Por outro lado, estudos indicam que o CBD em baixas doses não impacta significativamente funções hepáticas ou taxas metabólicas, demonstrando segurança mesmo em pacientes com comorbidades (Abbotts et al., 2022).

Pressão arterial

Um aspecto relevante deste estudo foi a avaliação da pressão arterial antes e após a administração da medicação. A análise, realizada pelo teste ANOVA de Kruskal-Wallis, não demonstrou diferença significativa entre os grupos. Esse achado pode indicar segurança cardiovascular no contexto clínico avaliado. Embora alguns estudos demonstrem potencial do CBD na redução da pressão arterial, outros sugerem adaptação do organismo após uso contínuo (Jadoon et al., 2017; Sultan et al., 2020; Dujic et al., 2024).

4. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados deste estudo piloto, embora conduzido com um número limitado de participantes, fornecem informações iniciais sobre a segurança e a ausência de diferenças significativas nos desfechos de ansiedade, dor pós-operatória e pressão arterial com o uso de CDB/THC em comparação ao placebo.

A alta taxa de indicação do tratamento pelos participantes sugere uma boa aceitabilidade e satisfação subjetiva, apesar da falta de significância estatística nos parâmetros clínicos avaliados.

Pesquisas futuras com amostras maiores, doses maiores e/ou modificações nas proporções de CBD/THC são necessárias para confirmar esses achados e aprofundar aas investigações sobre o potencial terapêutico e os mecanismos de ação da terapia com canabinoides.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ANEXO A – PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP

ANEXO B – TERMO DE CONCENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE)

ANEXO C – QUESTIONÁRIOS DA PESQUISA