REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787545019
RESUMO
A transformação digital das bibliotecas escolares ultrapassa a substituição de procedimentos manuais por ferramentas informatizadas e envolve reorganização de fluxos, padronização técnico-bibliográfica, governança da informação, formação profissional e condições institucionais de uso da tecnologia. Este artigo analisa o processo de implantação do Sistema Pergamum na Biblioteca Eloiza Zanette Fernandes, da Escola de Educação Básica Gustavo Augusto Gonzaga, em Joinville, Santa Catarina. Trata-se de pesquisa aplicada, de abordagem mista, desenvolvida como estudo de caso único. Os dados foram produzidos por questionário estruturado aplicado a 100 participantes, dez entrevistas semiestruturadas, observação participante e análise documental, integrados por triangulação metodológica. A implantação foi organizada em fluxo híbrido de preparação física, catalogação, classificação, indexação, cadastro, revisão, validação e disponibilização dos materiais. Em aproximadamente 45 dias, mais de 1.400 exemplares foram submetidos ao fluxo técnico. Entre os participantes, 65,0% perceberam melhorias na organização e no acesso ao acervo; 99,0% reconheceram que a informatização facilita busca e localização; e os benefícios mais assinalados foram facilidade para localizar materiais (76,0%), maior organização do acervo (65,0%) e melhor controle das informações (53,0%). A triangulação evidenciou, simultaneamente, desafios de conectividade, infraestrutura, qualidade cadastral, formação e continuidade operacional. Conclui-se que o Pergamum atua como infraestrutura de um processo sociotécnico, cuja efetividade depende da articulação entre tecnologia, metadados, pessoas, processos e gestão institucional.
Palavras-chave: Biblioteca escolar; Automação de bibliotecas; Sistema Pergamum; Gestão da informação; Transformação digital.
ABSTRACT
The digital transformation of school libraries goes beyond replacing manual procedures with computerized tools and involves workflow reorganization, technical and bibliographic standardization, information governance, staff development, and institutional conditions for technology use. This article analyzes the implementation of the Pergamum Library Management System at the Eloiza Zanette Fernandes Library of the Gustavo Augusto Gonzaga State School, in Joinville, Santa Catarina, Brazil. This applied study used a mixed-methods, single-case design. Data were produced through a structured questionnaire administered to 100 participants, ten semi-structured interviews, participant observation, and document analysis, integrated through methodological triangulation. Implementation was organized as a hybrid workflow involving physical preparation, cataloging, classification, indexing, item registration, review, validation, and material availability. Over approximately 45 days, more than 1,400 items were processed. Among participants, 65.0% perceived improvements in collection organization and access; 99.0% recognized that computerization facilitates searching and locating materials; and the most frequently reported benefits were easier location of materials (76.0%), better collection organization (65.0%), and improved information control (53.0%). Triangulation also revealed challenges involving connectivity, infrastructure, data quality, staff training, and operational continuity. The study concludes that Pergamum functions as infrastructure within a sociotechnical process whose effectiveness depends on the articulation of technology, metadata, people, workflows, and institutional management.
Keywords: School library; Library automation; Pergamum System; Information management; Digital transformation.
1. INTRODUÇÃO
As bibliotecas escolares integram a infraestrutura educacional destinada à democratização do acesso à informação, à leitura, à pesquisa e à aprendizagem. No contexto contemporâneo, contudo, sua atuação não pode permanecer restrita à guarda física e à circulação de materiais. A expansão das tecnologias digitais e a crescente complexidade dos ambientes informacionais exigem mecanismos capazes de organizar, representar, recuperar e disponibilizar informações de maneira consistente, ao mesmo tempo em que preservam a mediação profissional e a integração da biblioteca às práticas pedagógicas.
A automação de bibliotecas insere-se nesse movimento. Sistemas Integrados de Gestão Bibliotecária (SIGB) reúnem, em uma mesma arquitetura, processos como catalogação, cadastro de exemplares, circulação, consulta e produção de relatórios. Sua adoção, entretanto, não equivale automaticamente à transformação digital. Davenport (1998) demonstra que problemas informacionais não são resolvidos apenas pela tecnologia, pois dependem das relações entre pessoas, processos e contexto organizacional. Choo (2006), por sua vez, mostra que a informação produz valor quando é organizada, interpretada e incorporada à tomada de decisão.
No campo escolar, essa distinção assume importância adicional. Um catálogo informatizado pode ampliar mecanismos de busca e recuperação, mas o valor educacional da biblioteca depende de mediação, formação de usuários e articulação com o currículo. Campello (2009) relaciona a biblioteca escolar ao letramento informacional; Almeida Júnior (2015) enfatiza a mediação como interferência que participa da apropriação da informação; e Lankes (2016) desloca a avaliação da biblioteca para sua capacidade de favorecer aprendizagem e criação de conhecimento na comunidade.
O marco regulatório brasileiro também reforçou essa compreensão. A Lei nº 14.837/2024 (Brasil, 2024) alterou a Lei nº 12.244/2010, redefiniu a biblioteca escolar como equipamento cultural obrigatório e necessário ao desenvolvimento do processo educativo e criou o Sistema Nacional de Bibliotecas Escolares (SNBE). A atualização aproxima organização, tecnologias, acesso e finalidade educativa e amplia a relevância de pesquisas que analisem como políticas de informatização se materializam em unidades escolares concretas.
É nesse cenário que se situa a implantação do Sistema Pergamum na Biblioteca Eloiza Zanette Fernandes, vinculada à Escola de Educação Básica Gustavo Augusto Gonzaga, em Joinville/SC. A unidade foi definida como escola-piloto no âmbito da Coordenadoria Regional de Educação de Joinville, permitindo acompanhar, em contexto real, etapas técnico-operacionais, condições institucionais, desafios e percepções relacionadas à automação.
O Estado do Conhecimento desenvolvido na pesquisa de origem mostrou que a literatura recente contempla competência em informação, mediação, infraestrutura, acesso e transformação digital, mas são menos frequentes estudos que documentam de maneira integrada a implantação de um SIGB em biblioteca escolar pública, articulando processamento técnico, gestão da informação, experiência dos usuários e condições organizacionais. Estudos como Loh et al. (2021), Loh (2023), Lira, Barros e Jacintho (2025), Ketheeswaren (2025) e Konlan, Nassè e Chakurah (2025) oferecem aproximações relevantes, porém focalizam dimensões específicas do fenômeno.
Diante disso, o artigo responde à seguinte questão: como a implantação de um Sistema Integrado de Gestão Bibliotecária se materializa técnico e organizacionalmente em uma biblioteca escolar pública e quais condições interferem nesse processo de transformação digital? O objetivo é analisar o processo técnico-operacional de implantação do Sistema Pergamum, identificando etapas, benefícios percebidos, desafios e implicações para a gestão da informação e a modernização dos serviços bibliotecários.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Biblioteca Escolar, Transformação Digital e Mudança Organizacional
A transformação das bibliotecas escolares acompanha mudanças mais amplas nos modos de produção, circulação, organização e apropriação da informação. Castells (2022) situa essas mudanças em uma sociedade crescentemente estruturada por redes e fluxos informacionais. No âmbito educacional, a UNESCO (2023) ressalta que a incorporação de tecnologias deve ser avaliada em função das condições de uso, das finalidades educacionais e das desigualdades de acesso, e não apenas pela presença de equipamentos ou plataformas.
A digitalização, portanto, não deve ser confundida com transformação digital. Informatizar significa converter ou executar rotinas por meios eletrônicos; transformar digitalmente pressupõe alteração mais ampla dos processos, responsabilidades, formas de acesso, uso dos dados e práticas institucionais. Davenport (1998) denomina atenção para uma ecologia da informação na qual tecnologia, cultura, comportamento, processos e arquitetura informacional são inseparáveis. Choo (2006) complementa essa perspectiva ao relacionar uso da informação à construção de sentido, criação de conhecimento e tomada de decisão.
Na biblioteca escolar, essa abordagem conduz a uma interpretação sociotécnica. A plataforma tecnológica interage com infraestrutura, qualidade dos metadados, padrões bibliográficos, competências profissionais, usuários e decisões administrativas. Ketheeswaren (2025) demonstra que limitações de infraestrutura podem condicionar a modernização e a capacidade de serviço de bibliotecas escolares. Konlan, Nassè e Chakurah (2025) também associam transformação digital à integração entre tecnologias, serviços e contexto institucional.
Essa compreensão evita atribuir à tecnologia efeitos que dependem de condições externas à plataforma. Um sistema pode oferecer módulos de circulação, consulta e relatórios, mas o resultado concreto depende de conectividade, equipamentos, parametrização, consistência dos dados, formação da equipe e apropriação pelos usuários.
2.2. Sistemas Integrados de Gestão Bibliotecária e Gestão da Informação
Os Sistemas Integrados de Gestão Bibliotecária reúnem processos que, em ambientes manuais ou parcialmente informatizados, podem permanecer dispersos. No caso do Pergamum, a pesquisa o analisa por três capacidades: integrar e padronizar processos técnico-bibliográficos; ampliar mecanismos de acesso e recuperação; e produzir informações que possam apoiar a gestão.
A gestão da informação constitui base conceitual para compreender essa integração. Valentim (2004) relaciona o campo a processos de identificação, seleção, organização, armazenamento, recuperação, disseminação e uso da informação. Em uma biblioteca automatizada, esses processos tornam-se interdependentes: a qualidade da busca realizada no catálogo depende da representação produzida anteriormente na catalogação, classificação e indexação.
Choo (2006) acrescenta que dados somente adquirem valor organizacional quando interpretados e utilizados em processos decisórios. Relatórios de circulação, padrões de demanda e registros de uso, por exemplo, não constituem automaticamente conhecimento gerencial; precisam ser contextualizados e mobilizados para orientar desenvolvimento de coleções, serviços e ações.
Essa abordagem reforça o argumento de Davenport (1998) de que a tecnologia não corrige, isoladamente, problemas de informação. Um catálogo digital alimentado por registros inconsistentes pode apenas reproduzir, em ambiente eletrônico, fragilidades anteriores. A automação aumenta, portanto, a relevância da qualidade dos metadados, da revisão e da governança dos dados.
No contexto brasileiro, Lira, Barros e Jacintho (2025) apresentam experiência particularmente próxima ao eixo técnico-operacional ao documentarem montagem, reorganização e automação de acervo escolar. O estudo reforça que a inserção de materiais em um sistema está vinculada a etapas físicas, documentais e biblioteconômicas que antecedem a disponibilização ao usuário.
2.3. Organização, Recuperação e Mediação da Informação
A organização bibliográfica possui uma finalidade essencialmente relacional: aproximar recursos informacionais e necessidades dos usuários. Autor, título, assunto, classificação e outros elementos do registro tornam-se pontos de acesso que permitem ao catálogo funcionar como interface entre o acervo e a comunidade.
Entretanto, disponibilidade técnica não equivale a acessibilidade informacional. Uma consulta pode estar disponível e ainda ser pouco inteligível se houver baixa qualidade dos registros, terminologia inadequada, interface pouco acessível, limitações de equipamentos ou ausência de competências de busca. Almeida Júnior (2015) ajuda a compreender esse processo ao situar a mediação da informação como interferência que participa da relação entre sujeitos e informação. Essa mediação não ocorre apenas no atendimento; também está presente nas escolhas de representação, indexação e organização.
Campello (2009) amplia a discussão ao inserir a biblioteca escolar no desenvolvimento do letramento informacional. Localizar uma obra é parte de um percurso mais amplo que envolve reconhecer necessidades, formular estratégias de busca, avaliar fontes e utilizar criticamente a informação. A automação pode reduzir barreiras de acesso e favorecer maior independência, mas não substitui práticas educativas de formação dos usuários.
Essa concepção é compatível com as Diretrizes da IFLA para Bibliotecas Escolares (IFLA, 2015) e com o Manifesto da Biblioteca Escolar IFLA-UNESCO 2025, que compreendem a biblioteca como programa articulado de profissionais, coleções, tecnologias, espaços e serviços orientados à aprendizagem, às literacias e à cidadania.
2.4. Biblioteca Escolar Como Infraestrutura de Aprendizagem
Lankes (2016) propõe avaliar a biblioteca pelo valor que ela contribui para produzir em sua comunidade, especialmente aprendizagem e criação de conhecimento. Essa formulação desloca o foco do volume de recursos para as possibilidades de uso e participação. Loertscher, Koechlin e Zwaan (2008), na discussão sobre Learning Commons, igualmente apresentam a biblioteca como ambiente colaborativo de investigação, criação e aprendizagem.
A literatura recente reforça a necessidade de orientar mudanças às condições concretas dos usuários. Loh et al. (2021) demonstram, em estudo de caso, a relevância de processos de design voltados a bibliotecas escolares preparadas para o futuro. Loh (2023) aprofunda essa perspectiva ao defender participação dos atores e decisões baseadas em evidências.
Para a análise do Pergamum, essas abordagens oferecem um critério importante: a tecnologia deve ser examinada pelo que permite reorganizar e tornar possível, sem ser confundida com o resultado educacional final. O sistema pode apoiar organização, consulta e gestão, mas mediação pedagógica, formação leitora e competência em informação dependem de práticas institucionais que extrapolam a plataforma.
No cenário brasileiro e internacional, a função informacional da biblioteca escolar também aparece associada à competência dos usuários e às condições institucionais de oferta. Oliveira, Costa e Pinto (2022) identificam a competência em informação como eixo relevante das ações desenvolvidas em bibliotecas escolares; Bessa, Nascimento e Fernandes (2024) reforçam o papel educativo do bibliotecário em rede pública estadual; e Omar et al. (2024) mostram que recursos humanos, físicos e programas de biblioteca condicionam a contribuição desses serviços para a aprendizagem ao longo da vida. Em conjunto, esses estudos sustentam a necessidade de interpretar a automação como infraestrutura que precisa ser articulada a pessoas, serviços e práticas educativas.
3. METODOLOGIA
A pesquisa caracteriza-se como aplicada, de abordagem mista e delineamento de estudo de caso único. O caso corresponde à implantação do Sistema Pergamum na Biblioteca Eloiza Zanette Fernandes, da Escola de Educação Básica Gustavo Augusto Gonzaga, em Joinville/SC. A escolha do estudo de caso é coerente com a necessidade de examinar um fenômeno contemporâneo em seu contexto institucional, no qual tecnologia, normas, pessoas e fluxos de trabalho estão estreitamente relacionados (Yin, 2018).
Foram utilizadas quatro fontes de evidência: questionário estruturado, entrevistas semiestruturadas, observação participante e análise documental. O questionário foi aplicado eletronicamente a 100 participantes, selecionados por amostragem não probabilística intencional: 80 estudantes do 3º ano do Ensino Médio, 15 professores, um gestor escolar, dois bibliotecários e dois atendentes de biblioteca. Os percentuais foram tratados por estatística descritiva, sem pretensão de inferência probabilística para a rede estadual.
Foram realizadas dez entrevistas semiestruturadas com sujeitos selecionados em razão de sua relação com a implantação e o funcionamento da biblioteca. Para preservação do anonimato, os participantes foram codificados de E1 a E10. O material qualitativo foi organizado e interpretado segundo a análise de conteúdo de Bardin (2016), envolvendo constituição do corpus, leitura, codificação, agrupamento categorial e interpretação.
A observação participante registrou etapas, decisões, dificuldades e procedimentos durante a implantação. A análise documental foi utilizada para situar a experiência em seu contexto normativo e institucional e confrontar registros com as demais evidências. A integração ocorreu por triangulação, distinguindo percepção declarada, experiência narrada, ocorrência observada e evidência documental.
O recorte técnico inicial concentrou-se no acervo dos anos iniciais do Ensino Fundamental, com predominância de literatura infantil. A implantação foi organizada em fluxo híbrido: preparação física realizada na unidade escolar e processamento técnico-intelectual conduzido com apoio especializado. As etapas incluíram triagem, conferência, higienização, identificação, etiquetagem, catalogação, classificação, indexação, cadastro de exemplares, revisão, validação, retorno dos lotes e disponibilização.
Durante aproximadamente 45 dias, mais de 1.400 exemplares foram submetidos ao fluxo. Esse quantitativo é utilizado apenas como indicador descritivo de escala operacional. Como não houve grupo de comparação, série histórica equivalente nem mensuração padronizada de horas de trabalho, não se atribui ao sistema ganho causal de eficiência ou produtividade.
Para este artigo, foram priorizadas evidências relacionadas às etapas de implantação, organização, recuperação da informação, infraestrutura, formação e gestão. Os resultados quantitativos selecionados são utilizados como indicadores perceptivos complementares e não como medidas objetivas isoladas de desempenho do software.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
4.1. Fluxo Técnico-Operacional e Rastreabilidade
A implantação mostrou que a automação não se inicia com a inserção do primeiro registro no software. O trabalho foi estruturado em duas frentes: preparação física dos materiais na escola e processamento técnico-intelectual. A primeira compreendeu triagem, conferência, higienização, identificação e etiquetagem; a segunda reuniu catalogação, classificação, indexação, cadastro de exemplares, revisão e validação.
O fluxo foi desenvolvido por lotes e organizado em seis momentos: (1) preparação física; (2) etiquetagem e controle dos lotes; (3) catalogação, classificação e indexação; (4) cadastro, revisão e validação; (5) retorno à unidade escolar; e (6) organização nas estantes e disponibilização para consulta e circulação. Essa sequência tornou explícitos os pontos de transferência de responsabilidade e favoreceu rastreabilidade do processo.
Em aproximadamente 45 dias, mais de 1.400 exemplares foram submetidos a esse fluxo. O dado dimensiona o trabalho realizado, mas não demonstra superioridade produtiva do modelo. Sua contribuição está em documentar a escala de uma implantação real e permitir que os procedimentos sejam analisados de forma auditável.
O achado converge com Lira, Barros e Jacintho (2025), para quem reorganização material, tratamento do acervo e automação constituem dimensões interdependentes. Também confirma a abordagem de Davenport (1998): o sistema é parte de um arranjo informacional mais amplo e não substitui o desenho dos processos.
4.2. Organização, Qualidade dos Dados e Mudança Percebida
A implantação tornou particularmente visível a relação entre qualidade dos registros e qualidade do serviço. Inconsistências de autoria, assunto, classificação, cadastro ou vínculo de exemplares deixam de ser problemas restritos à retaguarda técnica quando interferem diretamente na recuperação realizada no catálogo.
Os resultados quantitativos oferecem uma linha perceptiva complementar. Antes da implantação, 84 dos 99 respondentes válidos (84,8%) lembraram algum grau de dificuldade de organização ou localização dos materiais. Após a implantação, 40,0% indicaram melhorias significativas e 25,0% algumas melhorias, totalizando 65,0% de respostas favoráveis no conjunto da amostra. Outros 30,0% declararam não possuir informações suficientes para avaliar, categoria que não deve ser tratada como resposta negativa.
A comparação entre essas questões sugere mudança percebida, mas não configura delineamento longitudinal pré-teste/pós-teste, pois ambas as avaliações foram realizadas retrospectivamente no mesmo momento de coleta. Por isso, a triangulação com observação, documentos e entrevistas é necessária para sustentar interpretações operacionais.
Na perspectiva de Valentim (2004), o resultado é coerente com a gestão da informação como articulação entre organização e recuperação. Choo (2006) acrescenta que dados estruturados podem subsidiar decisões, desde que interpretados e incorporados ao planejamento. As entrevistas também associaram o sistema a inventário, relatórios, rastreabilidade e planejamento do acervo, embora a análise tenha evitado converter afirmações como 'sem erros' ou 'rastreabilidade total' em fatos técnicos não auditados.
4.3. Recuperação da Informação Como Benefício Mais Visível
A recuperação da informação emergiu como um dos resultados mais consistentes do estudo. Na Questão 5, 81,0% dos participantes concordaram totalmente e 18,0% concordaram parcialmente que um sistema informatizado facilita a busca e a localização dos materiais. Assim, 99,0% reconheceram a utilidade da informatização nessa dimensão.
A Questão 7 reforçou essa tendência. Como permitia múltiplas respostas, os percentuais representam incidências independentes entre os 100 participantes. A facilidade para localizar livros e materiais foi assinalada por 76,0%; maior organização do acervo, por 65,0%; melhor controle das informações, por 53,0%; agilidade nos empréstimos e devoluções, por 41,0%; melhoria no atendimento, por 32,0%; e produção de relatórios e dados para gestão, por 26,0%.
A hierarquia dos benefícios mostra que os efeitos mais visíveis se concentram na interface entre organização e recuperabilidade. Esse padrão dialoga diretamente com Valentim (2004): a organização técnica adquire sentido quando permite localizar e utilizar a informação. Ao mesmo tempo, a menor incidência do item 'relatórios e dados para gestão' não significa menor importância estratégica. Como 80% da amostra é composta por estudantes, é plausível que funções gerenciais sejam menos visíveis a esse segmento; contudo, sem tabulação cruzada, essa explicação permanece hipótese interpretativa.
A elevada percepção positiva também deve ser delimitada. O questionário não mensurou tempo de resposta, precisão, revocação ou desempenho técnico do OPAC. Assim, 99,0% representam facilidade percebida, não superioridade objetiva universal do sistema. A distinção evita tecnodeterminismo e preserva coerência com Almeida Júnior (2015) e Campello (2009): tecnologia e mediação são complementares, e acesso técnico não equivale automaticamente à competência em informação.
4.4. Infraestrutura, Conectividade e Formação
A triangulação evidenciou que os benefícios coexistiram com desafios de infraestrutura, conectividade, qualidade cadastral, tempo de processamento, formação profissional e continuidade do atendimento. Esses elementos são decisivos porque um sistema integrado depende de condições permanentes de operação.
As limitações observadas convergem com Ketheeswaren (2025), que identifica infraestrutura como condicionante da capacidade de serviço em bibliotecas escolares, e com Konlan, Nassè e Chakurah (2025), que associam transformação digital a fatores organizacionais e humanos. No caso estudado, conectividade e equipamentos não constituem recursos acessórios; são parte da própria arquitetura operacional da circulação, consulta e atualização dos registros.
A formação também apareceu como dimensão estrutural. As entrevistas indicaram aprendizagem prática, domínio progressivo do sistema e necessidade de capacitação. A automação não elimina o trabalho bibliotecário; desloca parte de suas exigências para qualidade dos dados, domínio dos padrões, gestão dos fluxos, interpretação de relatórios e mediação dos usuários.
Essa evidência sustenta uma implicação para políticas de expansão: distribuir acesso ao software sem diagnosticar infraestrutura, acervo, recursos humanos e suporte técnico pode reproduzir desigualdades entre unidades. A transformação digital exige prontidão institucional e continuidade, não apenas implantação inicial.
4.5. Da Informatização Operacional à Transformação Digital
A integração dos resultados permite distinguir dois níveis. O primeiro é a informatização operacional: procedimentos passam a ser registrados e executados por uma plataforma integrada. O segundo é a transformação digital: a infraestrutura reorganiza fluxos, amplia recuperabilidade, produz dados para decisão, modifica práticas profissionais e cria novas possibilidades de interação com a informação.
O caso apresenta elementos dessa transição, mas não autoriza afirmar que a transformação digital esteja concluída. A tese de origem sintetizou o fenômeno como processo sociotécnico-informacional-pedagógico, composto por tecnologia e infraestrutura; organização e qualidade da informação; pessoas, competências e processos; e mediação e apropriação pela comunidade.
Essa formulação converge com Davenport (1998) e Choo (2006), que situam tecnologia dentro de ecologias organizacionais da informação, e com Lankes (2016), que avalia a biblioteca pelo valor que ajuda a produzir para sua comunidade. Também dialoga com Loh et al. (2021) e Loh (2023), para quem mudanças sustentáveis em bibliotecas escolares precisam ser orientadas por necessidades concretas, participação dos atores e evidências.
O principal resultado interpretativo, portanto, é que não existe transformação digital sustentável da biblioteca escolar baseada exclusivamente na aquisição de software. A plataforma é condição importante, mas sua efetividade depende de infraestrutura, governança dos dados, padrões, pessoas capacitadas e apropriação social.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O artigo analisou a implantação do Sistema Pergamum em uma biblioteca escolar pública estadual, concentrando-se no processo técnico-organizacional e nas condições que interferem na automação. Os resultados demonstram que a implantação exigiu planejamento do acervo, preparação física, processamento intelectual, revisão, validação e disponibilização, organizados em fluxo rastreável.
Os indicadores perceptivos reforçam a centralidade da organização e da recuperação da informação: 65,0% da amostra perceberam melhorias na organização e no acesso; 99,0% reconheceram que a informatização facilita busca e localização; e os benefícios mais assinalados foram facilidade para localizar materiais (76,0%), maior organização do acervo (65,0%) e melhor controle das informações (53,0%). Esses percentuais descrevem percepções e não devem ser confundidos com mensuração objetiva de desempenho.
A triangulação mostra que resultados favoráveis coexistem com desafios de conectividade, infraestrutura, qualidade cadastral, formação e continuidade operacional. Essa coexistência sustenta a interpretação de que automação é processo sociotécnico, e não efeito automático da plataforma.
Conclui-se que o Pergamum funciona, no caso estudado, como infraestrutura tecnológica capaz de apoiar padronização, organização, recuperação e gestão da informação. Sua efetividade, porém, depende de metadados confiáveis, procedimentos consistentes, profissionais capacitados, infraestrutura adequada e integração do sistema às práticas de serviço.
Para iniciativas de expansão, a principal implicação é que a política de automação deve incorporar diagnóstico institucional, preparação e qualidade do acervo, conectividade, equipamentos, formação continuada, suporte técnico e mecanismos de acompanhamento. O caso não constitui protocolo universal, mas oferece evidências empíricas para orientar decisões em bibliotecas escolares com características comparáveis.
Como limitação, trata-se de estudo de caso único, com amostragem intencional e resultados quantitativos predominantemente perceptivos. Pesquisas futuras podem incorporar medidas objetivas de desempenho, séries temporais, comparação entre unidades e análise longitudinal da apropriação do sistema.
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1 Bibliotecária. Doutoranda em Ciências da Educação pela Branner Global University. Coordenadoria Regional de Educação de Joinville, Rua Nove de Março, 817, Centro, Joinville, SC, CEP 89201-400. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-9769-6087. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.